{"id":22556,"date":"2021-02-03T00:41:58","date_gmt":"2021-02-03T03:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=22556"},"modified":"2021-02-03T11:31:09","modified_gmt":"2021-02-03T14:31:09","slug":"mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa\/","title":{"rendered":"Mulheres que uivam como lobas <br \/> Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Processo medusa"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_22575\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa\/processo-medusa-foto-abajur-solucoes-4\/\" rel=\"attachment wp-att-22575\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22575\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22575\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Processo-Medusa-Foto-Abajur-Solucoes-4-e1612310410663.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22575\" class=\"wp-caption-text\">Processo Medusa, do N\u00facleo Biruta de Teatro. Foto Abajur Solu\u00e7\u00f5es<\/p><\/div>\n<p>\u201cA liberdade \u00e9 uma luta constante\u201d, afirma o t\u00edtulo do livro de Angela Davis. Como revolu\u00e7\u00e3o feminista \u00e9 um trabalho cotidiano, a possibilidade de discutir feminino e feminismo no teatro pode ser um lugar de muita pot\u00eancia. Principalmente entre artistas jovens, por seu car\u00e1ter pedag\u00f3gico, detonador de mudan\u00e7as que reverberam para al\u00e9m do palco. <em>Processo medusa<\/em>, do N\u00facleo Biruta de Teatro, de Petrolina (PE), divide com o espectador como as mulheres artistas desse grupo de experimenta\u00e7\u00e3o c\u00eanica enxergam a opress\u00e3o do patriarcado sobre suas mentes, seus corpos, seus desejos. A grava\u00e7\u00e3o do trabalho, que estreou em 2017, foi exibida (e ainda est\u00e1 dispon\u00edvel on-line no YouTube do festival) na Mostra de escolas independentes de teatro, dan\u00e7a e circo do 27\u00ba Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>O N\u00facleo Biruta de Teatro, ligado \u00e0 Cia Biruta de Teatro, come\u00e7ou com uma ocupa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do CEU das \u00c1guas, no bairro Rio Corrente, na periferia de Petrolina, em 2015. Jovens interessados em participar das atividades de experimenta\u00e7\u00e3o propostas pelo grupo se inscreveram para participar. O elenco do espet\u00e1culo conta com tr\u00eas atrizes que j\u00e1 faziam parte da companhia e outras 11 que vieram desse processo, al\u00e9m de dois homens. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 assinada por Antonio Veronaldo, homem negro que j\u00e1 era diretor da cia.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pe\u00e7a que se prop\u00f5e construir uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade\/cumplicidade\/identifica\u00e7\u00e3o com a plateia. De in\u00edcio, tomando o gancho do humor, principalmente nas cenas de Juliene Moura. Quando a atriz, por exemplo, tenta sintonizar uma r\u00e1dio, mas as letras das m\u00fasicas de v\u00e1rios g\u00eaneros, antigas e mais recentes, objetificam o corpo da mulher, declaram que o homem tem poder sobre seus corpos, que \u00e9 ele quem manda na rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 um humor que faz rir um riso nervoso, diante do machismo que estrutura a nossa sociedade. \u00c9 praticamente autom\u00e1tico que, quem assiste \u00e0 cena, passe em revista a sua pr\u00f3pria playlist.<\/p>\n<p>Vem na chave do humor tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o na cena de abertura que \u00e9 apenas pincelada: os pap\u00e9is sociais que nos s\u00e3o impostas. A mulher como uma parideira. A m\u00e3e, a que tem o dom do cuidado, a que amamenta o filho (desde que privadamente, para n\u00e3o escandalizar o olhar incauto de ningu\u00e9m). Que deixa de ser mulher quando vira m\u00e3e. Que precisa ser abnegada, desprendida, amar incondicionalmente, suportar todas as dores.<\/p>\n<p>Mas o movimento mais forte no espet\u00e1culo \u00e9 pela afirma\u00e7\u00e3o do nosso direito \u00e0 exist\u00eancia. O mito de Medusa, figura que tinha serpentes no lugar dos cabelos, \u00e9 um dos disparadores da dramaturgia. Na vers\u00e3o trabalhada pelo grupo, Medusa foi estuprada por Poseidon, o deus dos mares, sendo ent\u00e3o castigada por Atena.<\/p>\n<p>A montagem aborda de maneira muito direta, em cenas bastante explicitas, a viol\u00eancia contra a mulher, inclusive o estupro sofrido por Medusa. A resposta ao abuso vem na dimens\u00e3o da coralidade, da irmandade e da guerra, tomando como refer\u00eancia as amazonas, tamb\u00e9m da mitologia grega. O rito do pedido por justi\u00e7a vem com uma segunda condena\u00e7\u00e3o, como se o crime em si j\u00e1 n\u00e3o fosse cruel o suficiente.<\/p>\n<div id=\"attachment_22576\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa\/processo-medusa-foto-tassio-tavares-2\/\" rel=\"attachment wp-att-22576\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22576\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22576\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Processo-Medusa-Foto-Tassio-Tavares-2-e1612310566707.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22576\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres se unem em bando contra a opress\u00e3o. Foto: T\u00e1ssio Tavares<\/p><\/div>\n<p>Mas essas mulheres n\u00e3o aceitam serem subjugadas. A revolta contra o estupro acaba com qualquer expectativa de pacifica\u00e7\u00e3o e docilidade. Afinal, como bradam as atrizes, a revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feminista ou n\u00e3o ser\u00e1. Ali as mulheres est\u00e3o em matilha, uivando as suas dores, afirmando que n\u00e3o suportar\u00e3o mais serem violadas, maltratadas, mortas. S\u00e3o selvagens, como bichos que grunhem \u2013 mas, principalmente, como animais que tomaram consci\u00eancia das suas pr\u00f3prias naturezas, das suas for\u00e7as, do que as conecta umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Com uma dramaturgia assinada pelo coletivo, o espet\u00e1culo opta por uma elabora\u00e7\u00e3o direta de sentidos. Texto e cena s\u00e3o enf\u00e1ticos, manifesto contra o patriarcado, a viol\u00eancia, o feminic\u00eddio, a objetifica\u00e7\u00e3o. As atrizes s\u00e3o todas muito jovens \u2013 arrisco dizer que, para muitas delas, talvez seja a primeira experi\u00eancia em cena. Ent\u00e3o esses corpos e vozes ainda carecem de consci\u00eancia da sua extens\u00e3o, das suas possibilidades. Tempo, treinamento e t\u00e9cnica v\u00e3o ajudar no amadurecimento dessas artistas, o que deve fazer o espet\u00e1culo ampliar dimens\u00f5es de pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que decidiram montar a pe\u00e7a, o pa\u00eds acompanhava o golpe mis\u00f3gino que arrancou do poder uma presidenta eleita. Todos sabemos no que deu. Mas foram provocadores externos, o contexto pol\u00edtico e social, os casos de feminic\u00eddio na regi\u00e3o (algumas manchetes s\u00e3o lidas em cena), o machismo, que dispararam a emerg\u00eancia do espet\u00e1culo. &nbsp;<\/p>\n<p>As subjetividades dessas artistas est\u00e3o a servi\u00e7o do manifesto, do coro, da matilha, e n\u00e3o se deixam necessariamente entrever nessa estrutura c\u00eanica. A pergunta feita no in\u00edcio do espet\u00e1culo: \u201co que \u00e9 ser mulher?\u201d \u00e9 respondida tendo em vista \u00e0s opress\u00f5es a que somos submetidas. No espet\u00e1culo, o movimento \u00e9 de rea\u00e7\u00e3o, de fora para dentro. De lutar pela autonomia feminina, pelo empoderamento da mulher diante da estrutura patriarcal e machista. Mas, na tomada de f\u00f4lego entre os uivos, \u00e9 importante perceber que as opress\u00f5es a que somos submetidas n\u00e3o nos definem. E que n\u00e3o ser\u00e3o capazes de nos paralisar, o que o experimento-manifesto brada a plenos pulm\u00f5es. Enquanto todas as mulheres n\u00e3o forem livres, nenhuma delas ser\u00e1. N\u00e3o estaremos satisfeitas. A liberdade \u00e9 uma luta constante!<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<em>Processo Medusa<\/em>, do N\u00facleo Biruta de Teatro<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Coletiva<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Antonio Veronaldo<br \/>\n<strong>Elenco: <\/strong>Cristiane Crispim, Juliene Moura, Camila Rodrigues, Let\u00edcia Rodrigues, \u00c9rika Suylla, Joana Crispim, Laiane Amorim, Graciane Lacerda, Val Nunes, Yasmin Rabelo, Luisa Crispim, Amanda Martins, C\u00edntia Naara, Milena da Silva, Jhennyson Ferreira e Felipe Paix\u00e3o<strong><br \/>\nT\u00e9cnica: <\/strong>Hannah Lima<\/p>\n<div id=\"attachment_22577\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa\/processo-medusa-foto-tassio-tavares-1\/\" rel=\"attachment wp-att-22577\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22577\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22577\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Processo-Medusa-Foto-Tassio-Tavares-1-e1612310665754.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22577\" class=\"wp-caption-text\">Dramaturgia rev\u00ea mito da Medusa. Foto: T\u00e1ssio Tavares<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_22578\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/mulheres-que-uivam-como-lobas-critica-do-espetaculo-processo-medusa\/processo-medusa-foto-jackson-vicente-3\/\" rel=\"attachment wp-att-22578\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22578\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22578\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Processo-Medusa-Foto-Jackson-Vicente-3-scaled-e1612310773172.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22578\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a est\u00e1 dispon\u00edvel no YouTube do Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos. Foto: Jackson Vicente<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA liberdade \u00e9 uma luta constante\u201d, afirma o t\u00edtulo do livro de Angela Davis. 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