{"id":22274,"date":"2020-11-26T12:22:46","date_gmt":"2020-11-26T15:22:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=22274"},"modified":"2020-11-26T12:22:46","modified_gmt":"2020-11-26T15:22:46","slug":"episodio-de-censura-com-atriz-trans-renata-carvalho-inspira-evangelho-segundo-vera-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/episodio-de-censura-com-atriz-trans-renata-carvalho-inspira-evangelho-segundo-vera-cruz\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dio de censura com atriz trans Renata Carvalho inspira Evangelho Segundo Vera Cruz"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_22288\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/rainha-vera-cruz-1-e1606399414132.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22288\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22288\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/rainha-vera-cruz-1-e1606399414132.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"1067\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22288\" class=\"wp-caption-text\">Fotomontagem com Elke Falconiere em <em><strong>O Evangelho segundo Vera Cruz, <\/strong>pe\u00e7a pernambucana inspirada <\/em>em&nbsp; <em><strong>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/strong><\/em>, com Renata Carvalho<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_22280\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fronteira3-scaled-e1606343360134.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22280\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22280\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fronteira3-scaled-e1606343360134.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"453\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22280\" class=\"wp-caption-text\">Elke Falconiere e Joe Andrade, artistas trans na pe\u00e7a <em><strong>O Evangelho Segundo Vera Cruz.<\/strong><\/em>&nbsp;Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_22279\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fronteira2-1-scaled-e1606342419226.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22279\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22279\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/fronteira2-1-scaled-e1606342419226.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"447\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22279\" class=\"wp-caption-text\">Elke Falconiere, Jailton Jr., Dante Olivier, Rodrigo Cavalcanti (abaixado), Joe Andrade. Foto: Ricardo Maciel<\/p><\/div>\n<p>Como Jesus Cristo seria recebido neste s\u00e9culo 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse \u00e9 um dos questionamentos do espet\u00e1culo <em><strong>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/strong><\/em>, escrito pela brit\u00e2nica Jo Clifford, e que ganhou uma adapta\u00e7\u00e3o no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atua\u00e7\u00e3o de Renata Carvalho. Desde sua estreia, a pe\u00e7a sofreu uma s\u00e9rie de retalia\u00e7\u00f5es, incompreens\u00f5es (principalmente por quem nem assistiu \u00e0 montagem), boicotes, censuras. Segundo a pr\u00f3pria atriz, o epis\u00f3dio mais marcante em sentido negativo ocorreu em 2018, durante a 28\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Inverno de Garanhuns, no Agreste pernambucano, que, ironicamente, tinha adotado para aquele ano o tema da liberdade.<\/p>\n<p>Esses acontecimentos de censura ao espet\u00e1culo da atriz Renata Carvalho s\u00e3o retrabalhados em <em><strong>O Evangelho segundo Vera Cruz<\/strong><\/em>, do Teatro de Fronteira, grupo pernambucano que est\u00e1 completando 10 anos. De acordo com Rodrigo Dourado, dramaturgo e diretor do trabalho, a pe\u00e7a \u00e9 um retrato desse momento pol\u00edtico \u00fanico e uma homenagem. &#8220;Como gesto art\u00edstico, \u00e9 tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o para reverter essa condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em que s\u00e3o lan\u00e7adas as vidas LGBTs, mas tamb\u00e9m de negros, mulheres, e todos os que s\u00e3o alijados de seus direitos b\u00e1sicos\u201d.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a \u00e9, especialmente, um manifesto pela representatividade, contando com forte presen\u00e7a da comunidade transg\u00eanera em seu elenco, com a estreia das atrizes Elke Falconiere, Joe Andrade e do ator Dante Olivier, acompanhados dos atores Rodrigo Cavalcanti e Jailton Jr.<\/p>\n<p>A montagem <em><strong>O Evangelho segundo Vera Cruz<\/strong><\/em>&nbsp;est\u00e1 em temporada online por meio da plataforma Zoom, \u00e0s quintas-feiras, 26\/11, 03\/12 e 10\/12, \u00e0s 20h. Ao final de cada apresenta\u00e7\u00e3o, o grupo passa um chap\u00e9u virtual, no esquema Pague Quanto Puder, de contribui\u00e7\u00e3o livre, por meio de dep\u00f3sito banc\u00e1rio.<\/p>\n<h3>Rainha do C\u00e9u<\/h3>\n<p>Ao contr\u00e1rio de seus detratores, <strong><em>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/em><\/strong> imprime um discurso de toler\u00e2ncia, exaltando a centelha divina de TODO ser humano. Defende que amar \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e que o perd\u00e3o \u00e9 basilar para uma conviv\u00eancia pac\u00edfica. Entre distribui\u00e7\u00e3o de p\u00e3o e vinho, a protagonista faz uma reencena\u00e7\u00e3o, digamos, &#8220;pop&#8221; da \u00daltima Ceia. Predomina a serenidade no tom, com um linguajar jovial para levar \u00e0 cena a proposi\u00e7\u00e3o de que se Jesus regressasse como uma travesti seria novamente crucificado aos 33 anos. Ou menos.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia de vida de uma pessoa trans \u00e9 de 35 anos, quando a m\u00e9dia do brasileiro chega a 75. De acordo com o <em>Boletim n\u00ba 4 de Assassinatos contra travestis e transexuais<\/em> da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), em 2020, 129 pessoas trans foram assassinadas de janeiro a 31 de agosto no Brasil, o que registra um aumento de 70% em rela\u00e7\u00e3o a 2019. Entre 2017 e 2020, 436 pessoas trans foram mortas. Em 2019 foram registrados no Brasil 124 assassinatos de pessoas transsexuais, o que d\u00e1 uma m\u00e9dia de um homic\u00eddio a cada tr\u00eas dias, segundo o levantamento. \u00c9 um genoc\u00eddio, com a m\u00e3o ou coniv\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a j\u00e1 havia sido censurada em Jundia\u00ed, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. E foi boicotada em muitos outros lugares. No interior de Pernambuco, o golpe foi duro. O espet\u00e1culo <em><strong>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/strong><\/em>&nbsp;foi convidado pela curadoria do Festival de Inverno de Garanhuns, retirado do festival, reinserido, apresentado na garra e apartado da programa\u00e7\u00e3o. Cen\u00e1rio de intransig\u00eancia cultural, \u201ctrapalhadas\u201d pol\u00edticas, e demonstra\u00e7\u00f5es de reacionarismo.<\/p>\n<p>A atriz Renata Carvalho enfrentou um calv\u00e1rio de intoler\u00e2ncia, cujo \u00e1pice ocorreu em 27 de julho de 2018, o que ela considera o \u201cepis\u00f3dio de censura mais violento\u201d que j\u00e1 viveu, com a\u00e7\u00e3o de boicote do festival, oficiais de justi\u00e7a e at\u00e9 a explos\u00e3o de uma bomba caseira no local da apresenta\u00e7\u00e3o, numa noite tensa e chuvosa.<\/p>\n<p>Rep\u00fadio de l\u00edderes religiosos. Mandado de seguran\u00e7a. Ordem dos Pastores Evang\u00e9licos de Garanhuns e Regi\u00e3o. Tribunal de Justi\u00e7a de Pernambuco cede \u00e0 press\u00e3o da igreja. Liminar pro\u00edbe apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. Desembargadores d\u00e3o decis\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 (re)inclus\u00e3o do espet\u00e1culo no FIG. Secretaria de Cultura e Funda\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico de Pernambuco sustentam exclus\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Esse epis\u00f3dio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundia\u00ed e at\u00e9 no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem d\u00favidas a mais violenta que n\u00f3s j\u00e1 sofremos com a pe\u00e7a.<br \/>\n<strong>Renata Carvalho, <\/strong>ao The Intercept_Brasil<\/p><\/blockquote>\n<p>O dramaturgo e diretor Rodrigo Dourado acompanhou de perto toda essa movimenta\u00e7\u00e3o. \u201cA quest\u00e3o se converteu num problema pol\u00edtico eleitoral, pois prefeito (Iza\u00edas Regis) e governador (Paulo C\u00e2mara) pertencem a polos opostos do espectro pol\u00edtico\u201d, pontua. Dourado integrou o grupo de agentes culturais que fez uma mobiliza\u00e7\u00e3o para que <em><strong>Rainha do C\u00e9u<\/strong><\/em> fosse apresentada, de forma independente da programa\u00e7\u00e3o do FiG. \u201cAp\u00f3s in\u00fameras amea\u00e7as e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos t\u00e9cnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava v\u00ea-la em cena\u201d.<\/p>\n<p>Rodrigo avalia que aquele epis\u00f3dio emoldurou duas energias morais e pol\u00edticas muito fortes que t\u00eam se antagonizado no Brasil. \u201cDe um lado, um conservadorismo neofascista e cens\u00f3rio, que deseja apagar formas de vida e de express\u00e3o n\u00e3o normativas. De outro, movimentos civis que resistem \u00e0 onda reacion\u00e1ria e exigem seu direito \u00e0 exist\u00eancia e \u00e0 cidadania\u201d.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Renata Carvalho alertou \u00e0 \u00e9poca que aquele n\u00e3o era um caso isolado direcionado contra uma artista trans, mas a demonstra\u00e7\u00e3o de que a censura estava colocando suas garras para fora.<\/p>\n<p>Dito e feito. Os discursos de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia foram contemplados nas urnas de 2018 e posi\u00e7\u00f5es conservadoras, reacion\u00e1rias mostram um orgulho de discriminar o outro \u2013 seu dessemelhante.<\/p>\n<h3>Entrevista \/\/ <strong>Rodrigo Dourado, dramaturgo e encenador<\/strong><\/h3>\n<div id=\"attachment_22282\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_9557-scaled-e1606345297947.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22282\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22282\" src=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/IMG_9557-scaled-e1606345297947.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"497\"><\/a><p id=\"caption-attachment-22282\" class=\"wp-caption-text\">Rodrigo Dourado. Foto: Ricardo Maciel \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Quais as motiva\u00e7\u00f5es para erguer <em>O Evangelho segundo Vera Cruz<\/em>? E durante a pandemia n\u00e3o ficou mais dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\nNesse per\u00edodo de 2020, a gente tinha programada uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es para comemorar os 10 anos do Teatro de Fronteira. Precisamos rever tudo. A partir de mar\u00e7o, fizemos a primeira temporada de <em>Luzir \u00e9 Negro!<\/em>, que era a primeira a\u00e7\u00e3o e a temporada j\u00e1 foi bastante prejudicada pela quarentena. O p\u00fablico j\u00e1 foi bem baixo. Ent\u00e3o, a gente aprovou v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es em editais emergenciais como o <em>Arte como Respiro<\/em>, do Ita\u00fa Cultural, <em>Cultura em Rede,<\/em> do SESC Pernambuco, e o <em>ConVida<\/em>, do SESC Nacional. <em><strong>O Evangelho Segundo Vera Cruz<\/strong><\/em> foi a a\u00e7\u00e3o apoiada pelo <em>Cultura em Rede,<\/em> do SESC de Pernambuco. Esse texto, que tinha sido escrito por mim em 2019, estava engavetado, n\u00e3o tinha sido montado nem publicado e decidimos submeter ao edital.&nbsp; Quando foi aprovado, come\u00e7amos o trabalho de montagem no formato online. No in\u00edcio, sim, foi muito dif\u00edcil a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s plataformas online. A gente n\u00e3o sabia muito bem lidar com tudo aquilo. Foi um aprendizado enorme, porque al\u00e9m da tecnologia em si, quer dizer, os recursos que a plataforma tem, a gente tinha situa\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 internet muito diversas, realidades sociais muito diversas dentro do elenco. Precisamos criar uma harmonia, uma unidade entre essas situa\u00e7\u00f5es, para chegar a um ponto m\u00ednimo, ter um denominador comum que nos permitisse uma qualidade m\u00ednima de transmiss\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos da plataforma.<br \/>\nMas, eu n\u00e3o posso dizer que foi mais dif\u00edcil do que montar um espet\u00e1culo presencialmente. Teve as suas especificidades, mas o processo em si, o tempo, a quantidade de ensaios, a pesquisa, o trabalho de ator, as descobertas da encena\u00e7\u00e3o, tudo isso \u00e9 muito parecido com formato presencial. O que muda somente \u00e9 o meio.<\/p>\n<p><strong>A pe\u00e7a recria os epis\u00f3dios de censura sofridos pela atriz Renata Carvalho com seu espet\u00e1culo, no ano de 2018, na cidade de Garanhuns\/PE. Como \u00e9 feita essa recria\u00e7\u00e3o? Quais aspectos s\u00e3o destacados na pe\u00e7a?<\/strong><br \/>\nEu participei daquele movimento que levou a pe\u00e7a a Garanhuns, junto com v\u00e1rias outras pessoas. Eu fui observador e, desde aquele momento, quando est\u00e1vamos ainda inseridos nele, vivendo, eu j\u00e1 sentia essa teatralidade pulsante de tudo que estava acontecendo. O debate p\u00fablico que o teatro estava gerando, os conflitos sociais, no sentido dos estudos da performance um certo &#8216;Drama Social&#8217; que o espet\u00e1culo estava ocasionando. Ent\u00e3o, j\u00e1 me parecia tudo muito teatral: a sociedade garanhuense, pernambucana, discutindo nas ruas esse tema; o coro p\u00fablico, a voz das ruas, o teatro midi\u00e1tico que foi feito em cima disso nas redes sociais, na imprensa; os shows na Pra\u00e7a Guadalajara e as provoca\u00e7\u00f5es nos shows; todos esses elementos foram trazidos de alguma forma para dentro da dramaturgia. \u00c9 uma dramaturgia que transita bastante entre o \u00e9pico, o narrativo, as formas mais populares de narrar, personagens-tipo, a gente tem tamb\u00e9m uma cita\u00e7\u00e3o ao mamulengo numa determinada cena. E tem seus tra\u00e7os dram\u00e1ticos, porque na pe\u00e7a existe um conflito paralelo ao conflito p\u00fablico que estava acontecendo, que \u00e9 a hist\u00f3ria de um casal LGBT formado por um homem cis e um homem trans, da cidade de Garanhuns, e que est\u00e3o na linha de frente do movimento que levou a pe\u00e7a \u00e0 cidade. E tamb\u00e9m tentamos, de alguma forma, nos aproximar da hist\u00f3ria de vida da Renata, das quest\u00f5es da atriz. Ent\u00e3o, tem uma quest\u00e3o da intimidade da Renata que \u00e9 recriada. Agora tudo isso com alguma liberdade art\u00edstica. N\u00e3o temos um compromisso factual 100%. A gente recria algumas coisas, poetiza algumas coisas; dramaturgicamente eu posso dizer que o arranjo \u00e9 esse.<\/p>\n<p><strong>Renata Carvalho participou de alguma das apresenta\u00e7\u00f5es? Como ela recebeu a iniciativa da pe\u00e7a?<\/strong><br \/>\nNesta vers\u00e3o da pe\u00e7a, atual, que \u00e9 a terceira, Renata participa fazendo uma voz em off, uma locu\u00e7\u00e3o de um trecho da pe\u00e7a. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 v\u00e1rios depoimentos dela que foram resgatados da Imprensa e utilizados na pe\u00e7a. Ela n\u00e3o assistiu \u00e0 pe\u00e7a ainda, mas tem acompanhado o processo. Leu o texto, fez sugest\u00f5es, cr\u00edticas e junto com o elenco trans a gente foi debatendo, discutindo, confrontando aspectos da dramaturgia para que, de alguma forma, ficasse mais justa e mais fidedigna \u00e0 experi\u00eancia de vida trans, j\u00e1 que eu sou um homem cis escrevendo sobre essas experi\u00eancias. Ent\u00e3o Renata esteve sempre no suporte, no apoio a todo esse processo, mas ela n\u00e3o assistiu \u00e0 pe\u00e7a ainda.<\/p>\n<p><strong>Para quem n\u00e3o acompanhou esse epis\u00f3dio, voc\u00ea poderia falar sucintamente do caso de censura \u00e0 pe\u00e7a <em>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u<\/em>, com Renata Carvalho, em Garanhuns, em 2018?<\/strong><br \/>\nA pe\u00e7a foi escalada para a programa\u00e7\u00e3o do Festival de Inverno de Garanhuns, em 2018, pela curadoria da Fundarpe\/Secult\/PE. Assim que a programa\u00e7\u00e3o foi anunciada pela imprensa, o prefeito da cidade, Iza\u00edas Regis, foi aos meios de comunica\u00e7\u00e3o anunciar que n\u00e3o aceitaria receber a montagem, alegando que a cidade era crist\u00e3 e que, supostamente, o trabalho feriria a comunidade local por trazer uma travesti na personagem de Jesus Cristo. V\u00e1rios ve\u00edculos de imprensa da cidade apoiaram o prefeito, que, na sequ\u00eancia, recebeu ainda apoio do bispo local e de representantes da comunidade evang\u00e9lica. O Governador Paulo C\u00e2mara e a Fundarpe, a princ\u00edpio, sustentaram que a pe\u00e7a se manteria na programa\u00e7\u00e3o e que, uma vez proibido pelo prefeito o uso do teatro municipal (Luiz Souto Dourado), buscariam apoio de outras entidades para acolher a encena\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o se converteu num problema pol\u00edtico eleitoral, pois prefeito e governador pertencem a polos opostos do espectro pol\u00edtico e o governador buscava a reelei\u00e7\u00e3o. Logo, o prefeito passou a fazer uso eleitoral do epis\u00f3dio a fim de desgastar a imagem do governador. Com o apoio da bancada evang\u00e9lica no Assembleia Legislativa, amea\u00e7ando mobilizar seu rebanho contra o governador, n\u00e3o demorou muito para que Paulo C\u00e2mara recuasse de sua decis\u00e3o, anunciando que a pe\u00e7a tinha sido exclu\u00edda da programa\u00e7\u00e3o. Rapidamente, um grupo de agentes da sociedade civil mobilizou-se e empreendeu um movimento para arrecadar fundos e levar a pe\u00e7a \u00e0 cidade de maneira independente. Houve in\u00fameras amea\u00e7as a esse movimento e \u00e0 pr\u00f3pria vida da atriz e a apresenta\u00e7\u00e3o aconteceu sob forte sigilo. A justi\u00e7a tamb\u00e9m foi invocada para impedir a realiza\u00e7\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o. Num \u00faltimo instante, a Fundarpe decidiu apoiar o espet\u00e1culo, oferecendo infraestrutura t\u00e9cnica de som, luz, etc. Mas uma decis\u00e3o judicial de \u00faltima hora foi emitida, ap\u00f3s o transcorrer da primeira apresenta\u00e7\u00e3o, proibindo que a pe\u00e7a se realizasse. Ao receber a notifica\u00e7\u00e3o, a Fundarpe come\u00e7ou a desmontar toda a infraestrutura que havia disponibilizado, atrapalhando a realiza\u00e7\u00e3o da segunda r\u00e9cita. Ap\u00f3s in\u00fameras amea\u00e7as e conflitos, Renata Carvalho decidiu realizar a performance mesmo desprovida de todos os aparatos t\u00e9cnicos, contando para isso com o apoio da plateia que desejava v\u00ea-la em cena.<\/p>\n<p><strong>Como observador privilegiado e um dos articuladores da desobedi\u00eancia \u00e0 ordem esdr\u00faxula dos governantes, quais os sentidos que foram despertados em voc\u00ea naquele momento, e quais sentimentos guarda at\u00e9 hoje?<\/strong><br \/>\nPara mim, aquele epis\u00f3dio emoldurou duas energias morais e pol\u00edticas muito fortes que t\u00eam se antagonizado no Brasil. De um lado, um conservadorismo neofascista e cens\u00f3rio, que deseja apagar formas de vida e de express\u00e3o n\u00e3o normativas. De outro, movimentos civis que resistem \u00e0 onda reacion\u00e1ria e exigem seu direito \u00e0 exist\u00eancia e \u00e0 cidadania. Trata-se de um momento hist\u00f3rico do teatro brasileiro do s\u00e9culo XXI, porque a pe\u00e7a j\u00e1 havia sido censurada em diversas cidades, mas em nenhum lugar, como em Pernambuco, houve um movimento t\u00e3o potente de resist\u00eancia e desobedi\u00eancia ao poder institucionalizado. Em <em>O Evangelho segundo Vera Cruz<\/em>, eu tomo claramente lado, o lado desses sujeites que escapam aos padr\u00f5es, dessas vidas dissidentes, j\u00e1 que sou um homem gay que sofreu e sofre na pele os horrores do preconceito e da persegui\u00e7\u00e3o aos desviantes. A pe\u00e7a \u00e9, portanto, um retrato desse momento pol\u00edtico \u00fanico e uma homenagem a essas vidas prec\u00e1rias. Como gesto art\u00edstico, \u00e9 tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o para reverter essa condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em que s\u00e3o lan\u00e7adas as vidas LGBTs, mas tamb\u00e9m de negros, mulheres, e todos os que s\u00e3o alijados de seus direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p><strong>O teatro que \u00e9 transmitido pelas redes realmente derrubou barreiras geogr\u00e1ficas, pois numa mesma apresenta\u00e7\u00e3o podemos ver gente de v\u00e1rias partes do Brasil e do mundo. Como voc\u00ea (s) percebe (m) a recep\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a? D\u00e1 para fazer um pequeno percurso desde a estreia?<\/strong><br \/>\nSobre a recep\u00e7\u00e3o \u00e0 pe\u00e7a: a gente teve duas situa\u00e7\u00f5es muito diferentes at\u00e9 agora. A gente fez um processo aberto pelo Sesc. Primeiro, realizamos um debate sobre a pe\u00e7a, depois fizemos um ensaio aberto com a exibi\u00e7\u00e3o de pequenas cenas. Esses dois tiveram uma presen\u00e7a muito boa de p\u00fablico interessado em conhecer um processo teatral, de saber como se desenvolve um processo teatral. Esse aspecto de uma pedagogia mesmo do espectador. E no terceiro momento, no Sesc, a gente teve a apresenta\u00e7\u00e3o em si da leitura, havia 150 pessoas na sala do Zoom nos assistindo, uma plateia gigante, muito participativa. Ao final, fizemos mais uma linda conversa. Foi muito bonito ver as contribui\u00e7\u00f5es, as colabora\u00e7\u00f5es, as interven\u00e7\u00f5es, as indaga\u00e7\u00f5es trazidas por esse p\u00fablico ao longo desse processo todo que a gente viveu no Sesc.<br \/>\nNum segundo momento, a gente apresentou a pe\u00e7a em Guaramiranga, no Festival Nordestino de Teatro. E a\u00ed sim, a gente n\u00e3o fez a pe\u00e7a para a plateia no Zoom, retransmitimos o que est\u00e1vamos fazendo no Zoom pelo YouTube. Ent\u00e3o a plateia p\u00f4de assistir \u00e0 pe\u00e7a pelo YouTube e interagiu bastante com a pe\u00e7a via YouTube. J\u00e1 era uma segunda vers\u00e3o com substitui\u00e7\u00e3o de atores, com mudan\u00e7a na dramaturgia, com a chegada da Elke Falconieri, a sa\u00edda de Marconi Bispo. Ent\u00e3o, a gente tinha ampliado a representatividade trans do elenco. Foi muito bom fazer essa vers\u00e3o em Guaramiranga, porque no dia seguinte tivemos um debate em que pudemos ouvir os curadores e conhecer as impress\u00f5es, os apontamentos deles, que tamb\u00e9m ajudaram a pe\u00e7a a chegar at\u00e9 essa terceira vers\u00e3o, que n\u00f3s estamos apresentando agora. Agora, a gente t\u00e1 enfrentando uma dificuldade maior de p\u00fablico, porque estamos fazendo uma temporada com ingressos pagos, com bilheteria. As outras ocasi\u00f5es foram todas gratuitas, porque a pe\u00e7a j\u00e1 estava comprada, subsidiada &#8211; digamos assim \u2013 pelas institui\u00e7\u00f5es que nos convidaram. Agora \u00e9 um momento nosso, de uma temporada independente. E a\u00ed sim, est\u00e1 sendo mais dif\u00edcil a chegada desse p\u00fablico. Talvez por conta das dificuldades financeiras, pelo cansa\u00e7o do formato online, j\u00e1 que a gente est\u00e1 se aproximando do final do ano, v\u00e1rias quest\u00f5es que a gente tem levantado para entender, para compreender essa dificuldade com o p\u00fablico. Mas \u00e9 quase como se a gente estivesse na forma presencial, enfrentando aquela dificuldade de fazer teatro presencial na base da bilheteria, ca\u00e7ando p\u00fablico, fazendo um esfor\u00e7o gigante para chegar ao p\u00fablico. E s\u00f3 para fazer um complemento, nessas ocasi\u00f5es todas a gente teve p\u00fablico do Brasil inteiro, Minas, Par\u00e1, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, outros estados do Nordeste, Centro-Oeste. \u00c9 muito bonito ver o movimento do Brasil podendo conferir essas obras nesse formato online.<\/p>\n<p><strong>Gostaria que voc\u00ea falasse do elenco. Houve altera\u00e7\u00f5es, amplia\u00e7\u00e3o participativa de artistas trans, como se deu isso? E mesmo que pare\u00e7a \u00f3bvio tem coisas que precisam ser reditas, qual a raz\u00e3o das escolhas?<\/strong><br \/>\nDesde o in\u00edcio, eu como homem cis escrevendo essa pe\u00e7a, tinha convic\u00e7\u00e3o de que, primeiro, o texto precisava ser submetido a uma cr\u00edtica sistem\u00e1tica da comunidade trans. E que a gente precisava ter representatividade no elenco, porque toda a quest\u00e3o que atravessa o debate levantado por Renata diz respeito \u00e0 representatividade, \u00e0 presen\u00e7a de corpos e cidad\u00e3os\/sujeites trans nas pe\u00e7as que trazem narrativas de vida trans. Essa era uma quest\u00e3o central para mim desde o in\u00edcio. A princ\u00edpio foram convidados Joe Andrade e Dante Olivier, que foram alunos meus na UFPE; a Joe do curso de teatro e o Dante do curso de artes visuais, mas fez comigo uma disciplina que ofere\u00e7o de \u201cTeatro, G\u00eanero e Sexualidades Dissidentes\u201d. E a gente tinha o elenco do Fronteira, Marconi (Bispo), Rodrigo Cavalcanti e o Jailton J\u00fanior, que tamb\u00e9m foi meu aluno da Federal e agora integra o Fronteira. Marconi precisou se afastar do grupo e eu imediatamente pensei em convidar a Elke Falconiere, que tamb\u00e9m foi minha aluna na UFPE, que \u00e9 uma mulher trans, foi minha orientanda de TCC. E, para ampliar essa representatividade, inclusive, trazendo a Elke para interpretar personagens cis, n\u00e3o s\u00f3 personagens trans. O caminho foi por a\u00ed. Para a gente, \u00e9 fundamental; n\u00e3o faz sentido essa pe\u00e7a existir sem essa presen\u00e7a. Hoje a gente tem maioria trans no elenco, temos tr\u00eas pessoas trans e duas&nbsp; cis. A presen\u00e7a delas \u00e9 fundamental. N\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista dessa cr\u00edtica que elas podem fazer aos conte\u00fados e \u00e0s formas da pe\u00e7a, mas sobretudo como uma forma de inser\u00e7\u00e3o no mercado art\u00edstico, de visibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho delas. Est\u00e1 sendo muito importante para n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>\u201cA montagem \u00e9 tamb\u00e9m um gesto criativo diante das dificuldades pand\u00eamicas, uma forma de manter a chama do teatro acesa, explorando para isso os meios virtuais\u201d. J\u00e1 que o assunto \u00e9 tocado&#8230; quando a pandemia se instalou houve uma discuss\u00e3o sobre se o que \u00e9 apresentado via internet \u00e9 teatro ou n\u00e3o. Sem julgamentos de posi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que estamos num processo de desbravar territ\u00f3rios e rever paradigmas, qual sua avalia\u00e7\u00e3o desse momento teatral?<\/strong><br \/>\nSobre a quest\u00e3o do teatro online: l\u00e1 atr\u00e1s, quando come\u00e7ou a pandemia, mais ou menos em abril, eu escrevi um artigo chamado \u201cTeatros da pandemia: o giro viral\u201d, em que fa\u00e7o uma provoca\u00e7\u00e3o e um progn\u00f3stico de que esse momento iria gerar uma virada de chave no teatro, no sentido de, ao inv\u00e9s do teatro parar e se deparar com uma encruzilhada sem solu\u00e7\u00e3o &#8211; j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 presen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 teatro &#8211; que caminhos o teatro iria tomar. E de l\u00e1 para c\u00e1, a gente viu que o formato online foi bastante ocupado, foi bastante explorado, est\u00e1 sendo explorado, dilatado. Para mim, j\u00e1 nem \u00e9 mais uma discuss\u00e3o essa de se o teatro online \u00e9 teatro ou n\u00e3o. \u00c9 teatro online. \u00c9 uma forma que fricciona as formas digitais, as formas audiovisuais, as formas teatrais, mas que claramente se distingue de outras formas audiovisuais e online; se distingue da novela, se distingue do cinema, se distingue da videoarte, se distingue dos canais do YouTube, se distingue das formas digitais como o videogame ou outras m\u00eddias digitais, do streaming. Ent\u00e3o, acho que tem uma especificidade a\u00ed do teatro ocupando esse espa\u00e7o, que para mim j\u00e1 est\u00e1 muito clara. Al\u00e9m disso, tem uma lida tamb\u00e9m com os arquivos de teatro. A gente tem muito arquivo de espet\u00e1culos gravados, filmados, sendo revisitados e pesquisados e vistos, servindo como material did\u00e1tico, tamb\u00e9m ocupando um certo espa\u00e7o dessa experi\u00eancia presencial do teatro. E um retorno que o p\u00fablico tem nos dado, frequentemente, \u00e9 que estar no teatro online \u00e9 como estar no teatro. As pessoas se encontram na plateia, na antessala, no hall. Saber que as pessoas est\u00e3o ali cria uma no\u00e7\u00e3o de conv\u00edvio, de convivialidade, aquilo que Jorge Dubatti tem chamado de tecnov\u00edvio. A gente saiu de um conv\u00edvio para um tecnov\u00edvio. Tem essa precariedade tamb\u00e9m, do artesanato teatral feito online, ent\u00e3o tem improviso, tem jogo, tem as possibilidades infinitas que a internet oferece, que est\u00e3o sendo explorados, mas tamb\u00e9m tem a instabilidade da internet que nos obriga a jogar, a improvisar como no teatro.<br \/>\nTem a sensa\u00e7\u00e3o do ao vivo, tem o bastidor, que \u00e9 a casa dos atores. \u00c9 quase como se as formas tradicionais do teatro, elas tivessem encontrado outras maneiras de ser. T\u00e1 tudo l\u00e1. A sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho \u00e9 que est\u00e1 tudo l\u00e1. Para mim \u00e9 um ganho, uma dilata\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma expans\u00e3o das possibilidades do teatro, que n\u00e3o apaga nem dissolve ou desfaz o teatro presencial &#8211; que j\u00e1 est\u00e1 retornando em alguns lugares e vai retornar &#8211; mas que cria outras outras veredas.<\/p>\n<p><strong>Bem, como anda o teatro pernambucano?<\/strong><br \/>\nEta n\u00f3s! Acho que o teatro pernambucano est\u00e1 viv\u00edssimo como sempre esteve. Acho que a gente tem um movimento na cidade, de teatro grupo, de grupos de jovens. Grupo Bote de Teatro, Grupo Resta 1, Grupo Amar\u00c9, o Teatro Bord\u00f4, Coletivo Despudorado, Grupo Afrocentradas. Acho que o teatro local irremediavelmente est\u00e1 dialogando com as quest\u00f5es raciais, \u00e9tnicas, com as quest\u00f5es da mulher, com as quest\u00f5es LGBTs, com as quest\u00f5es trans, com as quest\u00f5es perif\u00e9ricas. Nosso teatro est\u00e1 nesse movimento. Acho que a gente tem a\u00ed grupos que j\u00e1 t\u00e3o na maturidade, como Totem, Fiandeiros, C\u00eanicas; o Teatro de Fronteira est\u00e1 chegando aos 10 anos, eu diria que \u00e9 um adolescente ainda, mas que j\u00e1 tem uma estrada. Ent\u00e3o \u00e9 um teatro que sim, t\u00e1 vivo, \u00e9 um teatro que de alguma forma encontrou seus caminhos tamb\u00e9m pela internet. A gente tem visto experimentos, sejam da Casa Maravilhas, com as suas lives; seja o Grupo O Poste fazendo suas lives e seus experimentos tamb\u00e9m; a Criative-se Cultural realizou um pioneiro trabalho online por aqui; temos os grupos de teatro como a Fiandeiros e a C\u00eanicas de Repert\u00f3rio mantendo as atividades de ensino. A gente tem o Fronteira a\u00ed tamb\u00e9m experimentando o formato online, n\u00e3o somente como o <em><strong>Evangelho<\/strong><\/em>, mas tamb\u00e9m com o <em>Puro Teatro<\/em> (<em>Arte Como Respiro<\/em>), disponibilizando ainda arquivos de suas pe\u00e7as. Herm\u00ednia Mendes performando para o <em>Arte como o Respiro;<\/em> o Coletivo Angu lan\u00e7ando um texto in\u00e9dito de Marcelino Freire tamb\u00e9m no <em>Arte como Respiro;<\/em> a gente teve v\u00e1rios experimentos que foram feitos para o Sesc-PE, como os experimentos de Paulo de Pontes (dirigido por Quiercles Santana), o de Clara Camarotti; a for\u00e7a sertaneja de Od\u00edlia Nunes vertendo para o online; as Violetas da Aurora clownando para as redes; outras produ\u00e7\u00f5es de conte\u00fado pelo Coletivo Gr\u00e3o Comum, Grupo C\u00eanico Calabou\u00e7o, por meio de di\u00e1logos online; um coletivo de artistas pernambucanos, radicados no RJ, encenando <em>Muribeca<\/em>, de Marcelino Freire (cria\u00e7\u00e3o de Wellington Jr. Breno Fittipaldi, Reinaldo Patr\u00edcio); o Magiluth reproduzindo as experi\u00eancias pioneiras de teatro n\u00e3o-presencial um-a-um que iniciaram sendo feitas na Europa, nos EUA. Cito uma delas em meu artigo, da Cia. La Colline, de Paris. Pode ter inspirado o grupo. Enfim\u2026<br \/>\nEnt\u00e3o acho que \u00e9 um teatro que encontrou seus caminhos tamb\u00e9m nesse formato online. Eu penso que o nosso teatro \u00e9 muito contempor\u00e2neo, ele est\u00e1 em di\u00e1logo com tudo que est\u00e1 acontecendo a\u00ed pelo mundo, apesar das dificuldades financeiras e econ\u00f4micas, que s\u00e3o na verdade uma realidade do Brasil inteiro. Eu acho que a gente continua resistindo e persistindo em fazer teatro.<\/p>\n<p><strong>Qual o seu posicionamento sobres pol\u00edticas p\u00fablicas culturais, tanto do Governo do Estado de Pernambuco, quanto da prefeitura do Recife?<\/strong><br \/>\nAcredito que as pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura em Pernambuco e no Recife s\u00e3o j\u00e1 prec\u00e1rias e v\u00eam se precarizando cada vez mais. Ao longo dos oito anos da gest\u00e3o do prefeito Geraldo J\u00falio (PSB), houve um desmonte absurdo de diversas pol\u00edticas culturais, de equipes. Equipamentos culturais foram sucateados, como o Teatro Apolo-Hermilo. N\u00e3o existe uma pol\u00edtica de programa\u00e7\u00e3o, de fomento \u00e0 pesquisa de grupos, de forma\u00e7\u00e3o de plateia. O Parque est\u00e1 sendo entregue agora, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o. O important\u00edssimo Festival Recife do Teatro Nacional foi esvaziado. N\u00e3o houve canal de di\u00e1logo com a classe teatral. O SIC foi retomado num formato estranho, priorizando eventos que contam com a participa\u00e7\u00e3o de membros da prefeitura em suas equipes de cria\u00e7\u00e3o. Por sua vez, a Fundarpe tem se mostrado incompetente na gest\u00e3o do Funcultura, com atrasos sistem\u00e1ticos de prazos, al\u00e9m dos atrasos nos pagamentos de cach\u00eas de artistas e a cria\u00e7\u00e3o de instrumentos sem a escuta da sociedade civil, como no caso do Pr\u00eamio Pernalonga. \u00c9 preciso que haja mais recursos, mais escuta, mais celeridade e que se desenhe, de fato, um Programa Cultural a ser cumprido durante as gest\u00f5es e n\u00e3o apenas como promessas de campanha. Mais importante: \u00e9 preciso separar o dom\u00e9stico do p\u00fablico, entendendo o espectro cultural em sua amplitude, em sua diversidade, e n\u00e3o apenas atendendo \u00e0s cren\u00e7as e valores privados dos gestores.<\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA || <em>O Evangelho Segundo Vera Cruz<\/em><\/strong><br \/>\n<strong>Atua\u00e7\u00e3o<\/strong>: Dante Olivier, Elke Falconiere, Jailton J\u00fanior, Joe Andrade y Rodrigo Cavalcanti<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o e dramaturgia<\/strong>: Rodrigo Dourado<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Rodrigo Cavalcanti<br \/>\n<strong>Designer de luz<\/strong>: Natalie Revor\u00eado (Farol Ateli\u00ea da Luz)<br \/>\n<strong>Efeitos sonoros<\/strong>: Jailton J\u00fanior<br \/>\n<strong>Teasers<\/strong>: Dante Olivier<br \/>\n<strong>Registro Fotogr\u00e1fico e Identidade Visual<\/strong>: Ricardo Maciel<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Teatro de Fronteira<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Servi\u00e7o:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>O Evangelho Segundo Vera Cruz<\/strong>, do Teatro de Fronteira&nbsp;<br \/>\n<strong>Exibi\u00e7\u00e3o<\/strong>: Plataforma do Zoom<br \/>\n<strong>Quando<\/strong>: Quintas-feiras, \u00e0s 20h, at\u00e9 10 de dezembro<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o Indicativa<\/strong>: 16 anos<br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o<\/strong>: 70 minutos<br \/>\n<strong>Informa\u00e7\u00f5es<\/strong>: <a href=\"mailto:teatrodefronteirape@gmail.com\">teatrodefronteirape@gmail.com<\/a> | <a href=\"http:\/\/@teatrodefronteira\">@teatrodefronteira<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como Jesus Cristo seria recebido neste s\u00e9culo 21, se retornasse no corpo de uma travesti? Esse \u00e9 um dos questionamentos do espet\u00e1culo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u, escrito pela brit\u00e2nica Jo Clifford, e que ganhou uma adapta\u00e7\u00e3o no Brasil, traduzida e dirigida por Natalia Malo, com atua\u00e7\u00e3o de Renata Carvalho. Desde sua estreia, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4249,4663],"tags":[6397,6395,6396,6399,6400,6398,1177,5389,2315,5401,5340],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22274"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22274"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22292,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22274\/revisions\/22292"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}