{"id":21927,"date":"2020-09-23T20:38:50","date_gmt":"2020-09-23T23:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=21927"},"modified":"2020-09-23T21:29:17","modified_gmt":"2020-09-24T00:29:17","slug":"jose-manoel-sobrinho-da-no-em-pingo-dagua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/jose-manoel-sobrinho-da-no-em-pingo-dagua\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Manoel Sobrinho d\u00e1 &#8220;n\u00f3 em pingo d&#8217;\u00e1gua&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_22019\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-22019\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-22019\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/WhatsApp-Image-2020-09-23-at-16.45.11-e1600903630657.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\"><p id=\"caption-attachment-22019\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, encenador, professor e gestor cultural. Foto: Anderson Freitas<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Pelo porte franzino, ele bem que poderia ser um personagem de Ariano Suassuna, Jo\u00e3o Grilo ou Chic\u00f3. Pela atitude ligeira e o gosto pelos desafios e os triunfos nas pelejas da vida pode lembrar Trupizupe, o raio da Silibrina, figura criada para o palco por Br\u00e1ulio Tavares. Jos\u00e9 Manoel Sobrinho \u00e9 um agrestino de Bezerros, que tem sua marca na hist\u00f3ria do teatro brasileiro a partir de Pernambuco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o s\u00e3o poucas as suas fa\u00e7anhas. De montagens teatrais que dirigiu, ele contabiliza mais de 100. Al\u00e9m de encenador e ator, tornou-se um articulador afiado nas reentr\u00e2ncias da pol\u00edtica cultural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Durante 42 anos foi funcion\u00e1rio do Sesc-PE, chegando ao cargo de gerente de cultura, o mais importante do organograma para a \u00e1rea. Foi desligado da institui\u00e7\u00e3o no m\u00eas de agosto e recebeu o apoio da classe art\u00edstica que redigiu uma carta dos fazedores da Cultura para exaltar a import\u00e2ncia da atua\u00e7\u00e3o de \u201cZ\u00e9 Manoel\u201d. Sob sua lideran\u00e7a, foram estruturadas redes de fortalecimento da cultura pernambucana e com o Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Por alguns dias sentiu na pele a inseguran\u00e7a que \u00e9 comum \u00e0 maioria dos artistas brasileiros, que vivem de produ\u00e7\u00e3o. Desde os 17 anos, trabalhava com emprego fixo. Mas, uma semana depois, ele j\u00e1 est\u00e1 envolvido com v\u00e1rias atividades culturais, algumas remuneradas, outras n\u00e3o. \u00c9 a sua natureza. N\u00e3o ficar parado e ser generoso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Acostumado com a casa cheia de gente desde crian\u00e7a, de parentes e agregados, ele adotou isso como h\u00e1bito e seu apartamento \u00e9 sempre um pouso para os amigos. Isso diz muito do seu jeito de encarar a vida, com trocas e aprendizados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u201cSou um artista, um educador que se transformou em gestor da cultura e isso n\u00e3o foi sem dor, sem luta. \u00c9 triste de dizer, mas optar por artes em um pa\u00eds como o Brasil \u00e9 quase uma insanidade\u201d. Quem pode dizer que ele n\u00e3o tem raz\u00e3o? Com tudo que ocorre neste pa\u00eds? A sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 que a Cultura est\u00e1 sempre em risco. \u201cSempre que se instaura uma crise \u00e9 a cultura a mais penalizada&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Vamos \u201couvir\u201d o que o filho de Seu Eloi e dona Estef\u00e2nia, pai-do-cora\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udio Siqueira, tem a nos contar sobre sua experi\u00eancia neste Planeta azul. \u00c9 uma longa entrevista.<\/span><\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Meu pai viajava muito, por conta das empresas em que ele trabalhava. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">Eram aventuras incr\u00edveis: at\u00e9 os meus 11 anos eu me mudei 30 vezes<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como foi sua inf\u00e2ncia? Quais as lembran\u00e7as mais marcantes?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Meu av\u00f4 paterno, Jo\u00e3o Noel, era sanfoneiro, tocava 8 baixos. Eu adorava ficar vendo. Aprendi a ler com os livros de cordel, os almanaques do Biot\u00f4nico Fontoura, Carta do ABC, Tabuada. Minha tia-madrinha, Zo\u00e9, cantava lindamente. E dan\u00e7ava. E eu dan\u00e7ava muito nos bailes de forr\u00f3 que aconteciam na casa de meu av\u00f4 paterno. Eu cantava e dan\u00e7ava muito. Cantava agud\u00edssimo seguindo o tom de minha madrinha. E durante a semana passava as tardes no bananal, cortando cachos de banana e cantando o repert\u00f3rio. Depois ia cortar palma pras vacas ou fazer farinha na Casa de Farinhas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em Bezerros, ainda no s\u00edtio, tinha as festas na fazenda de Dona Carmem Moury Fernandes: S\u00e3o Jo\u00e3o (pamonha, canjica, milho assado, fogueira e fogos) , Natal, P\u00e1scoa, as manifesta\u00e7\u00f5es populares, o pau-de-sebo, os fogos de artif\u00edcio. Tinha tamb\u00e9m os ter\u00e7os e as noitadas religiosas onde eu cantava nos catecismos, acompanhava as rezas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Teve uma \u00e9poca que eu achava que seria padre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Outro dado da minha inf\u00e2ncia \u00e9 que fiquei pouco tempo fixo em uma escola: meu pai viajava muito, por conta das empresas em que ele trabalhava. Eram aventuras incr\u00edveis: at\u00e9 os meus 11 anos eu me mudei 30 vezes: Bezerros, Pesqueira, Gravat\u00e1, Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, Jaboat\u00e3o dos Guararapes, Sirinha\u00e9m e Recife. Era um vai-e-vem enorme, fic\u00e1vamos pouco tempo nos lugares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Meu pai trabalhava em consertos de estradas, pistas, vias p\u00fablicas e a gente o acompanhava para todo canto. Por isso, somente entrei em uma escola regular na antiga quarta s\u00e9rie. Tive que fazer um exame de admiss\u00e3o, porque n\u00e3o tinha nenhum registro escolar, anterior. Tenho poucas mem\u00f3rias de escolas, professores, amigos de turma at\u00e9 chegar aos 12 anos de idade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Bom, \u00e9 importante que diga que \u00e9ramos muito pobres, meu pai chegou a pedir esmolas para nos dar alimenta\u00e7\u00e3o. Ele mesmo passou muita fome procurando emprego, foi v\u00edtima de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, trocou voto por vaga de emprego sem nem sequer saber o que era isso. Muito subemprego, trabalho assalariado, abuso de poder, coronelismo no Agreste, empreiteiros, usineiros. Meu pai chegou a se deslocar de Bezerros at\u00e9 Timba\u00faba &#8211; uns 180 km, de bicicletas -, \u00e0 procura de emprego, por causa de um boato de que uma usina abrira vagas. E era boato mesmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Mas, as minhas mem\u00f3rias s\u00e3o de um casal feliz, trabalhador, \u201cfazedor de menino\u201d. Lembro do nascimento de minha irm\u00e3, J\u00f4 Francisca, bilheteira do Teatro Arraial Ariano Suassuna. Foi uma noite de fogos, pir\u00e3o de frango, arroz branco e, para os adultos, cachimbada, uma bebida alco\u00f3lica, com mel. E muitas visitas com presentes para a menina.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>E sua juventude?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Minha juventude foi de muito trabalho. Sou de fam\u00edlia pobre. Sou uma pessoa de classe m\u00e9dia. Desde os 12 anos que trabalho. Fui vendedor de picol\u00e9 em Prazeres e na Praia de Piedade, &#8211; cheguei a vender 200 por dia; vendi bananas na feira, vendi sand\u00e1lias, revistas e gibis, vendi artesanato de isopor na feira de San Martin. Ainda fui entregador de refei\u00e7\u00e3o a motoristas e cobradores de \u00f4nibus. Depois comecei aos 14 anos a dar aula de refor\u00e7o escolar; cheguei a ter mais de 20 alunos. Finalmente, virei comerciante em casa, abrimos uma \u201cvendinha\u201d que no come\u00e7o eu tomava conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tirei muita \u00e1gua de dentro de casa. Quando chovia, a nossa casa era inundada. Foram muitas noites acordados, enfrentando as cheias de Prazeres. Foi uma juventude cheia de aventuras e trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sofri muito <em>bullying,<\/em> porque n\u00e3o tinha farda ou sapato pra ir \u00e0 escola e porque era magro, t\u00edmido e sem porte de eleg\u00e2ncia. Esse per\u00edodo foi ruim &#8211; era sempre o \u00faltimo nas filas, mesmo quando eu era o mais alto da turma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">E estudava muito. Lia todas as revistas e gibis e colecionava \u00e1lbuns de figurinhas. Eu inventava muita coisa. Estudei um pouco da trajet\u00f3ria da italiana, de G\u00eanova, Beata Paola Frassinetti, criadora da Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Doroteias, para participar de um programa de TV, que, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o fui: Silvio Santos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Nesse per\u00edodo andei quil\u00f4metros de bicicleta, dancei em muitas festas na minha casa ou nas dos vizinhos. E, realmente, namorei. Naquela \u00e9poca eram namoros rom\u00e2nticos, de jovens, mas depois dos 17 anos dei um tempo. Melhor pular essa parte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aos 14 anos comecei a fazer Teatro no Col\u00e9gio Paola Frassinetti, em Prazeres. Frequentei muito a Biblioteca Central de Pernambuco e o Gabinete Portugu\u00eas de Leituras &#8211; nossas viagens eram de trem. Alguns passeios me s\u00e3o inesquec\u00edveis: a Festa da Pitomba dos Montes Guararapes, andar de lancha da CTU no Rio Capibaribe com meus irm\u00e3os menores, ir \u00e0 Praia de Piedade. Ah! E no final de ano passear pelo Recife para ver a decora\u00e7\u00e3o de Natal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Lia tudo o que era publicado em edi\u00e7\u00f5es populares da Literatura Brasileira. Aos 17 anos j\u00e1 estava dando aulas em uma escola e aos 18 comecei a dar aulas no mesmo Col\u00e9gio Paola Frassinetti, meu primeiro emprego formal.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">DE ATOR A ENCENADOR<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_21974\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21974\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21974\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/160069396267879-e1600694422788.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"497\"><p id=\"caption-attachment-21974\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Sistema 25<\/strong>, sobre o sistema prisional. Fotos: Rog\u00e9rio Alves<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_21970\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21970\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-21970 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/jose-manoel-o-deus-\u00fanico-erico-verissimo-primeira-a\u00e7ao-no-teatro-e1600690903222.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"820\"><p id=\"caption-attachment-21970\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Foto de 1974, no Col\u00e9gio Paola Frassinetti, primeira a\u00e7\u00e3o em Teatro: <strong>O Deus \u00danico<\/strong>, de \u00c9rico Ver\u00edssimo.<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_21971\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21971\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-21971 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/WhatsApp-Image-2020-09-16-at-00.56.50-e1600691219513.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"378\"><p id=\"caption-attachment-21971\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">M\u00e1rio Antonio Miranda, Jos\u00e9 Manoel e Carlos Lira em <strong>A bomba<\/strong>, de 1979<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_21972\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21972\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-21972 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/WhatsApp-Image-2020-09-16-at-00.56.25-e1600691261557.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"563\"><p id=\"caption-attachment-21972\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>A bomba<\/strong>, de Alexandrino Souto, com dire\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Antonio Miranda.&nbsp;<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_21973\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21973\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21973\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/20171018_213636-e1600691331274.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><p id=\"caption-attachment-21973\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">M\u00e1rio Miranda, Carlos Lira e Jos\u00e9 Manoel<\/span><\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_21859\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21859\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21859\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/39158_108153079239683_7340856_n-e1599536305166.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-21859\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Montagem <strong>Beckett and Lispector&nbsp;<\/strong> com dire\u00e7\u00e3o de Breno Fitipaldi, no Teatro Joaquim Cardozo<\/span><\/p><\/div>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Ent\u00e3o como voc\u00ea foi atra\u00eddo para o teatro?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Fui atra\u00eddo para o teatro por uma professora de portugu\u00eas do Col\u00e9gio Paola Frassinetti, em Prazeres, Jaboat\u00e3o dos Guararapes, e depois pelo Teatro Experimental de Olinda, com Valdi Coutinho. Foi Valdi quem me deu todas as oportunidades, me iniciou em tudo. Comecei como ator sob dire\u00e7\u00e3o de Carlos Bartolomeu, no espet\u00e1culo <em>Debu Le R\u00e1<\/em>, com adapta\u00e7\u00e3o de Bartolomeu a partir de obra de Oswald de Andrade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Como ator fiz poucas coisas e me orgulho muito de ter passado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco em <em>A Capital Federal<\/em> e <em>A Promessa,<\/em> de Luiz Marinho, como ator substituto. Dividir cenas com Geninha da Rosa Borges, Reinaldo de Oliveira, Din\u00e1 de Oliveira, Renato Phaelante, Fernando de Oliveira, Vicentina do Amaral&#8230; Fico comovido quando penso nisso: dividir cenas com esses e essas gigantes.&nbsp;<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea atuou pouco como ator, por qu\u00ea?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Eu me transformei em encenador por necessidade, por sorte, por senso de oportunidade, mas eu queria mesmo era ser ator. E depois que eu comecei a dirigir, essa rotina foi enfraquecendo o ator que h\u00e1 em mim. Muito comprometido com a dire\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos fiquei sem tempo para estudar e praticar interpreta\u00e7\u00e3o. Conto nos dedos os espet\u00e1culos que fiz como ator: 3 no Teatro Experimental de Olinda; 6 na TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas; 2 no Teatro de Amadores de Pernambuco e alguns poucos independentes, dentre eles <em>Seltrap<\/em>, com Luiz Felipe Botelho e <em>Beckett and Lispector<\/em>, com Breno Fittipaldi, em ambos eu dei muito trabalho aos diretores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Fui dirigido ainda por Carlos Bartolomeu, M\u00e1rio Lima, Reinaldo de Oliveira, Geninha da Rosa Borges, Ant\u00f4nio Carlos Vander V\u00e9lden, M\u00e1rio Ant\u00f4nio Miranda, Carlos Varella: poucos, para quem tem 45 anos de carreira, mas com quem aprendi muito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m de pouco tempo pra estudar interpreta\u00e7\u00e3o, comecei a ficar com medo. \u00c9 uma press\u00e3o muito grande, uma cobran\u00e7a muito grande, talvez excesso de zelo ou inseguran\u00e7a mesmo. O fato \u00e9 que tenho certeza, eu deveria ter me focado mais na carreira de ator.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como foi sua forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Como eu disse, o in\u00edcio como encenador foi uma necessidade do grupo, uma urg\u00eancia, era dif\u00edcil ter diretores dispon\u00edveis para trabalhar com artistas e grupos da periferia. Participei de muitos cursos, oficinas, a\u00e7\u00f5es formativas, movimentos pol\u00edticos e, principalmente, muitos festivais de teatro. Os festivais foram as principais escolas de minha gera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea qualificaria sua educa\u00e7\u00e3o formal?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Absolutamente at\u00edpica. J\u00e1 falei que entrei numa escola e me mantive com regularidade a partir da quarta s\u00e9rie, depois fui pra escola privada, gra\u00e7as a uma bolsa que meu pai conseguiu com Maria de Lourdes Chaves, propriet\u00e1ria e Diretora do Col\u00e9gio Paola Frassinetti. Ela foi minha maior incentivadora. L\u00e1 eu fui presidente do Centro C\u00edvico e vivi a experi\u00eancia do movimento estudantil. Conclu\u00ed o antigo prim\u00e1rio e o cient\u00edfico (fundamental e m\u00e9dio), j\u00e1 emendei com a Fesp, cursando Hist\u00f3ria, depois fui para a Funeso \u2013 Olinda, novamente Hist\u00f3ria, de onde sa\u00ed para a Universidade Federal de Pernambuco, Licenciatura Plena em Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica (fui jubilado no quinto ano). Depois fui fazer Administra\u00e7\u00e3o em Marketing, que odiei, e finalmente, o Curso de Letras (Vern\u00e1culo). Cursei todas as disciplinas de uma Especializa\u00e7\u00e3o em Literaturas Africanas de L\u00edngua Portuguesa, mas n\u00e3o apresentei o texto final. Explico: Eu fazia muito Teatro e viajava muito, passava muito tempo fora do Recife e com isso eu atrasava o curso e desistia. Errei. Pronto. Reconhe\u00e7o. Entrei em muitas faculdades, mas sai de todas. Somente me formei em Letras, aos 50 anos. N\u00e3o faria isso, hoje. Mudaria o rumo dessa prosa.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais s\u00e3o as suas expertises?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o sei cozinhar, nem dirigir ve\u00edculos, nem nadar, nem tocar instrumentos musicais: queria muito tudo isso. Andar de bicicleta \u00e9 meu maior orgulho, andar bem. Sou datil\u00f3grafo de certificado e tudo. A vida me levou por muitos caminhos e lugares. Acho que minha maior expertise \u00e9 viajar, fazer amizades, reconhecer os m\u00e9ritos de todos os outros. Sou um trabalhador inveterado e incans\u00e1vel,<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea montou mais de 100 espet\u00e1culos no per\u00edodo de 1977 at\u00e9 2020. Como foi essa proeza?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Hoje eu entendo que foram muitas as motiva\u00e7\u00f5es e pelo fato de n\u00e3o ter medo de arriscar. Foram escolhas por for\u00e7a do meu desejo de associar o trabalho de encenador ao de ativista pol\u00edtico. Quando eu dirigia um espet\u00e1culo para um grupo eu aproveitava para, na medida do poss\u00edvel, participar do processo de organiza\u00e7\u00e3o e fortalecimento do grupo. Muitos desses trabalhos eu fiz por meio de projetos e como conclus\u00e3o dos v\u00e1rios cursos que ministrei. Tamb\u00e9m pelos muitos convites que recebi de produtores. Tive a oportunidade de trabalhar com quase todos os produtores do Recife dos anos 1980 e 1990. Tem um fato que preciso frisar, eu era muito organizado com as quest\u00f5es de tempo, agenda muito disciplinada o que me dava condi\u00e7\u00f5es de dirigir alguns espet\u00e1culos, simultaneamente.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>De que forma voc\u00ea classificaria essas encena\u00e7\u00f5es? \u00c9 poss\u00edvel agrup\u00e1-las por tem\u00e1tica? O que existe em comum entre essas montagens?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">De certo modo \u00e9 poss\u00edvel agrupar: montagens de conclus\u00e3o de cursos e de projetos; espet\u00e1culos da TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas e dos grupos do Sesc; montagens dos grupos independentes e dos produtores. Em comum entre a maioria, a narrativa pol\u00edtica, recortes ideol\u00f3gicos, compromisso social. Nunca desassociei meu trabalho de encenador das lutas pol\u00edticas. Agrupar por tem\u00e1ticas (luta das mulheres, erotismo, morte, lutas sociais, liberdades humanas etc.), ainda poderia identificar espet\u00e1culos para crian\u00e7as e jovens, de rua, para espa\u00e7os alternativos.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_21919\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21919\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-21919 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/avoar-de-vladimir-capella-de-1987-1-e1600056245476.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"382\"><p id=\"caption-attachment-21919\" class=\"wp-caption-text\"><\/span> <span style=\"color: #000000;\">Avoar, de 1987, pela TTTRES Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas, ficou 10 anos em circula\u00e7\u00e3o. Com dire\u00e7\u00e3o musical de Andr\u00e9 Filho, ilumina\u00e7\u00e3o de Xislane Ramos de Pontes . Elenco: Carlos Lira , Cira Ramos, Paulo De Pontes, Fl\u00e1vio Santos, Otac\u00edlio J\u00fanior, Rudimar Const\u00e2ncio, Ivone Cordeiro, C\u00e9lio Pontes, Hamilton Figueiredo e K\u00e1tia Ribeiro.&nbsp;<\/span><\/p><\/div>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que motivou as escolhas, esses espet\u00e1culos, esses autores?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o h\u00e1 uma resposta conclusiva, porque foram muitas as motiva\u00e7\u00f5es. Sobre a dramaturgia brasileira reca\u00edram muitas das minhas op\u00e7\u00f5es: autores nacionais, pernambucanos, jovens autores. H\u00e1 um autor com o qual trabalhei muito, o paulistano Vladmiir Capella. Conheci a obra dele atrav\u00e9s da Ingrid Dormien Koudela. Vladimir era defensor de um teatro sem faixa et\u00e1ria e eu tamb\u00e9m. N\u00f3s dois escolhemos trabalhar pensando nas crian\u00e7as e nos jovens por um bom tempo, mas tratando de todos os temas, sem receio e da obra dele eu dirigi <em>Como a Lua<\/em> (3 vers\u00f5es),<em> Avoar<\/em>, <em>Com Panos e Lendas<\/em>, <em>Antes de ir ao Baile<\/em> e <em>P\u00edramo e Tisbe<\/em>. Com ele me aproximei da APTIJ &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Teatro para a Inf\u00e2ncia e a Juventude e isso fez toda a diferen\u00e7a. Tamb\u00e9m acompanhar os trabalhos de Ilo Krugli e Bia Lessa. A primeira montagem de <em>Como a Lua<\/em> foi decisiva para muito do que eu fiz at\u00e9 agora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Por esses dias, come\u00e7ando a trabalhar com a Cia. Oxente, de Jo\u00e3o Pessoa, observei que al\u00e9m de pernambucanos, os autores paraibanos estiveram presentes na minha trajet\u00f3ria: Br\u00e1ulio Tavares (<em>Trupizupe, o Raio da Silibrina<\/em> e <em>Quinze Anos Depois<\/em>), Altimar Pimentel ( <em>Flor do Campo<\/em> e <em>Viva a Nau Catarineta<\/em>) e Jos\u00e9 Bezerra Filho (<em>Lampia\u00e7o, o rei do Cang\u00e3o<\/em>) e isso come\u00e7ou durante as v\u00e1rias temporadas que fiz em Jo\u00e3o Pessoa e no Festival de Campina Grande.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Durante um tempo fiz espet\u00e1culos como <em>O M\u00e1gico de Oz<\/em>, <em>O Menino do Dedo Verde<\/em>, <em>Cantigas ao Pequeno Pr\u00edncipe<\/em> e <em>O Regresso<\/em>. Poderia elencar muitos recortes, acho que fico devendo, quem sabe eu mesmo fa\u00e7a um estudo mais aprofundado sobre minhas escolhas.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>H\u00e1 alguma pe\u00e7a que voc\u00ea se orgulha mais ou que riscaria do seu curr\u00edculo?&nbsp;<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Nenhuma tiraria do meu curr\u00edculo. Tenho o maior orgulho, inclusive dos meus maiores erros como encenador. Ao decidir dizer tantos sim, claro, que corri muitos riscos, mas quem me convidou, tamb\u00e9m se arriscou. Tenho muito orgulho de nos anos 1990 ter montado <em>Jesus Homem<\/em>, de Pl\u00ednio Marcos e, de, para interpretar Jesus, ter escolhido uma atriz negra (Nika di Oliveira). Igualmente ter montado <em>Cantigas ao Pequeno Pr\u00edncipe<\/em> com \u00c9rico Jos\u00e9, tamb\u00e9m negro para interpretar uma personagem t\u00e3o obviamente loura. E n\u00e3o s\u00f3 isso, pelo fato de serem negros, mas pelo fato de que n\u00f3s desconstru\u00edmos narrativas enrijecidas, estere\u00f3tipos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m me orgulho de ter, no come\u00e7o dos anos 1990, ter dirigido<em> Janos Adler<\/em>, de Luiz Felipe Botelho sobre a tem\u00e1tica do HIV. Nos anos 1980 eu montei <em>Anjos de Guarda<\/em>, de Zeno Wilde e realizamos o Teatro em Resid\u00eancias (<em>De Porta-em-Porta<\/em>), com mais de 100 apresenta\u00e7\u00f5es, mais que um espet\u00e1culo, uma viv\u00eancia para n\u00f3s e para todas as fam\u00edlias que nos receberam. Um <em>Barco chamado Brasil<\/em>, texto de Romildo Moreira para o Projeto Vamos Teatralizar a Constituinte de 1988.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Avoar<\/em>, de Vladimir Capella, foram mais de 10 anos, ininterruptos, em cena e, mais recentemente a minha experi\u00eancia um pouco radical com o <em>Sistema 25<\/em>, inspirado em conto de Pl\u00ednio Marcos, com dramaturgia dos atores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essa \u00e9 uma pergunta de respostas infinitas, melhor para nesses exemplos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ah! Tenho muito orgulho de ter trabalhado com o Grupo Loucas de Pedras Lil\u00e1s, com as meninas da Casa de Passagem, com a atriz e produtora Socorro Raposo e com o produtor B\u00f3ris Trindade.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Por que foram rareando seus trabalhos?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">De 1977 a 1999 fiz muitos espet\u00e1culos, mas com o meu crescimento dentro do Sesc, na fun\u00e7\u00e3o de gestor e as tarefas nos diversos projetos, inclusive na condu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cultura em Camaragibe e, por ministrar muito cursos e oficinas, a minha produ\u00e7\u00e3o como encenador foi rareando. Tem outro fator: os grupos e as produtoras foram sendo extintos e as op\u00e7\u00f5es foram reduzindo. Tamb\u00e9m a minha op\u00e7\u00e3o por estudar literatura no curso de Letras me deixou com tempo mais reduzido. Outras escolhas, outras fun\u00e7\u00f5es, outros caminhos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">ARTICULA\u00c7\u00c3O, A\u00c7\u00c3O, LINGUAGENS<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como foram seus processos de montagem?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Uma experi\u00eancia que destaco foram as montagens para a rua, dentre elas, <em>Um Barco Chamado Brasil<\/em>, com texto de Romildo Moreira, para o Projeto Nacional Vamos Teatralizar a Constituinte e <em>O que se Enxerga depois do Medo<\/em>, de Wilma Lessa e Williams Sant&#8217;anna, com o Teatro Pesquisa Sesc: N\u00facleo Dom\u00ednio P\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Muita coisa mudou em cada gera\u00e7\u00e3o, seja nos sistemas de produ\u00e7\u00e3o, seja na dramaturgia, nas narrativas, nos temas, no modo de fazer, de lidar com atores e atrizes. Mas, foi na rela\u00e7\u00e3o com os p\u00fablicos que senti as maiores mudan\u00e7as. Mais at\u00e9 do que nos aspectos est\u00e9ticos. Antes, eram p\u00fablicos enormes, hoje, o teatro \u00e9 para poucos: esta mudan\u00e7a me chega de maneira pouco vibrante.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou havia uma dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. Atualmente, com todos os recursos tecnol\u00f3gicos, \u00e9 poss\u00edvel acompanhar procedimentos, est\u00e9ticas e resultados de grupos distantes. Voc\u00ea entende que houve mudan\u00e7as de cria\u00e7\u00e3o e registro?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tudo mudou muito: nos processos de cria\u00e7\u00e3o, na temporalidade dos espet\u00e1culos, nos sistemas de produ\u00e7\u00e3o, na estrutura dos grupos, na est\u00e9tica, nos modos de organiza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias e nos registros. Algumas coisas mudaram para melhor, mais autonomia para os criadores, maior descentraliza\u00e7\u00e3o dos processos. Tamb\u00e9m muitas mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es com a cr\u00edtica e com os registros. Hoje se escreve mais, se registra mais, s\u00f3 os p\u00fablicos que chegam menos.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea define sua est\u00e9tica e sua \u00e9tica na cria\u00e7\u00e3o dos trabalhos?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Quando paro pra pensar em tudo o que fiz, identifico claramente uma vertente pol\u00edtica em meu teatro, uma presen\u00e7a ideol\u00f3gica. N\u00e3o adianta: eu preciso me sentir \u00fatil. H\u00e1 um certo compromisso com a pedagogia, com a educa\u00e7\u00e3o, com o conceito de experi\u00eancia. Sempre gostei da ideia de um espectador ativo, dentro do jogo, em muitos casos, quase atuando, pouco passivo. Sou um encenador de poucos elementos visuais, mas n\u00e3o abro m\u00e3o de uma luz conceitual. Dos anos 1970 a 1990 eu tamb\u00e9m fui iluminador, meus espet\u00e1culos tinham forte dramaturgia de luz, e at\u00e9 hoje \u00e9 assim&gt; O que mudou \u00e9 que eu n\u00e3o fa\u00e7o mais luz. Sou econ\u00f4mico em dire\u00e7\u00e3o de arte, gosto de palco mais nu, por\u00e9m, a m\u00fasica \u00e9 um elemento dram\u00e1tico que recorro, antes funcionava como personagem, agora, na est\u00e9tica contempor\u00e2nea, como dramaturgia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Trabalho e trabalhei com muitos criadores musicais: Andr\u00e9 Filho, Allan Sales, S\u00e9rgio Kyrillos, Nando Lobo, Toinho Alves (do Quinteto Violado), Ediel Guerra (de Arcoverde), Osvaldo Costa (do Cabo de Santo Agostinho), Sagrama (Cl\u00e1udio Moura), S\u00f4nia Guimar\u00e3es e mais recentemente, Samuel Lira. Hoje, observo que meu teatro conseguiu acompanhar o tempo, passei por muitos fundamentos, mergulhei em muitos universos, estou em di\u00e1logo com a cena contempor\u00e2nea porque entendo o fluxo e a din\u00e2mica da cultura. \u00c9 dif\u00edcil, mas eu busco, estudo, pesquiso.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\">Como s\u00e3o feitas as escolhas e procedimentos de linguagens?<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o h\u00e1 uma regra. Muitos fatores interferem nas tomadas de decis\u00e3o: o momento politico, a estrutura de produ\u00e7\u00e3o, o perfil dos artistas, a dramaturgia de refer\u00eancia. Atualmente, me sinto mais fr\u00e1gil na rela\u00e7\u00e3o com atores, preciso estudar mais, entender melhor este universo, mas isto n\u00e3o me deixa inseguro, fico mais inquieto. A juventude me provoca, me chama e eu vou.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">TEATRO PRA CRIAN\u00c7AS E JOVENS&nbsp;<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>H\u00e1 especificidades, como defendia Marco Camarotti, do teatro que deve ser feito para crian\u00e7as e adolescentes?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tenho elementos te\u00f3ricos para contradizer Marco Camarotti, nosso maior estudioso e pesquisador da arte realizada para crian\u00e7as e jovens, porque sei que o processo de evolu\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e9 algo em camadas, crescente, a partir do que descobrem e experienciam em suas trajet\u00f3rias. E a arte precisa reconhecer essas fases. Por\u00e9m, tamb\u00e9m entendo e Marco falava sobre isso, que cada pessoa \u00e9 um mundo, um universo, um mist\u00e9rio. E, sendo assim, reconhecemos que cada um desenvolve o seu potencial de modo diferente, a depender de sua realidade e de seu padr\u00e3o social, das oportunidades e das escolhas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Quando dirijo um espet\u00e1culo para crian\u00e7as e jovens procuro construir um sistema de a\u00e7\u00f5es que possibilitem leituras e rela\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas por p\u00fablicos das mais diversas idades. Sou contra a indica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria, a classifica\u00e7\u00e3o por idade. Eu fa\u00e7o porque as leis exigem e o padr\u00e3o social hier\u00e1rquico e autorit\u00e1rio me imp\u00f5em. O discurso da moralidade e a pr\u00e1tica da falsa moral crist\u00e3 enclausuram , mediocrizam e enquadram os seres: tudo sob a \u00e9gide da defesa da fam\u00edlia. Sob o falso discurso da imoralidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3s sabemos que a crian\u00e7a ao ver um corpo nu jamais trata com imoralidade ou criticidade, \u00e9 apenas um corpo nu. A indec\u00eancia est\u00e1 na cabe\u00e7a dos adultos, com seus interesses e limites e medos. Objetivamente, eu construo meus espet\u00e1culos sem esta preocupa\u00e7\u00e3o de separar crian\u00e7as e jovens. E posso dizer, por causa vivida, a crian\u00e7a entra no jogo, basta haver a oferta da possibilidade. Quando ela n\u00e3o quer, dorme. E eu tamb\u00e9m acho isso bastante normal. Cabe \u00e0 crian\u00e7a definir como e por quanto tempo se relacionar\u00e1 com uma obra de arte.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que mudou para esse p\u00fablico desde que come\u00e7ou a fazer teatro?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 tratei de temas como a morte para crian\u00e7as e o resultado foi muito satisfat\u00f3rio, da mesma maneira que lidei sobre o nascimento sem falar de cegonha e sem esconder a verdade. Trabalhar para crian\u00e7as e jovens \u00e9 sempre um desafio muito grande. Pra mim, a diferen\u00e7a hoje em rela\u00e7\u00e3o ao s\u00e9culo XX \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com as tecnologias, e n\u00e3o somente com as crian\u00e7as. As tecnologias est\u00e3o isolando muito as pessoas e isso tem repercutido no universo do espet\u00e1culo. Penso que essa quest\u00e3o do isolamento social em decorr\u00eancia do uso das novas tecnologias \u00e9 que estar\u00e1 exigindo dos artistas de teatro um olhar especial e cuidadoso. Mas haver\u00e1 sa\u00eddas, isso haver\u00e1.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Hoje os desafios s\u00e3o maiores?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o maiores, nem menores, t\u00eam a dimens\u00e3o de seu tempo.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_21857\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21857\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21857\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/10984072_428946640588937_131854564176515505_n-1-e1599536370107.jpg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"646\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/10984072_428946640588937_131854564176515505_n-1-e1599536370107.jpg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/10984072_428946640588937_131854564176515505_n-1-e1599536370107-278x300.jpg 278w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/10984072_428946640588937_131854564176515505_n-1-e1599536370107-300x324.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><p id=\"caption-attachment-21857\" class=\"wp-caption-text\"><\/span> <span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, Foto: Acervo pessoal<\/span><\/p><\/div>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">SA\u00cdDA DO SESC&#8230; FUTURO<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que significou o Sesc na sua vida?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Dif\u00edcil sintetizar. Entrei no Sesc aos 19 anos e l\u00e1 me mantive at\u00e9 os 62. Penso como sendo um territ\u00f3rio amplo, aberto, cheio de possibilidades. No Sesc fui professor de teatro (minha carteira profissional est\u00e1 assinada como professor de teatro, no dia 1\u00ba de Junho de 1979).<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">De 1977 a 1979 fui prestador de servi\u00e7os e j\u00e1 comecei dando aulas e dirigindo o Grupo de Teatro Amador do Sesc, na Unidade de Santa Rita, no Recife. Por mais de 20 anos fui professor. Depois assumi a coordena\u00e7\u00e3o de cultura do Sesc Santo Amaro, no Recife, depois coordenador de Cultura do Sesc Pernambuco e finalmente Gerente de Cultura. Foi uma empresa que me reconheceu pelo trabalho. Ajudei a construir uma Rede incr\u00edvel de Arte e Cultura no Sesc de Pernambuco e do Brasil. Tenho um amor enorme pelo Sesc e uma profunda gratid\u00e3o. N\u00e3o consigo pensar diferente. Por meio desta institui\u00e7\u00e3o vi surgirem artistas, pesquisadores, t\u00e9cnicos, professores de artes. Conheci pessoas geniais. Muito de minha forma\u00e7\u00e3o humana, art\u00edstica, intelectual foi forjada em seus territ\u00f3rios. Tive muita autonomia para trabalhar, pude inventar e desenvolver muitas coisas. O Sesc est\u00e1 conectado \u00e0 minha vida, n\u00e3o tem como me desconectar.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quando exercemos uma atividade com paix\u00e3o, o trabalho se torna mais que obriga\u00e7\u00e3o \/ sacrif\u00edcio\/ meio de sobreviv\u00eancia. Parecem-me que suas a\u00e7\u00f5es de trabalho sempre t\u00e3o apaixonadas passavam de longe desse limite labutar do capitalismo. O que \u00e9 o trabalho?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O trabalho? Um direito, lugar de frui\u00e7\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o separo muito trabalho, constru\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo, enfrentamento, planejamento, carreira, sal\u00e1rio, forma\u00e7\u00e3o. Claro que estou me espelhando em minha experi\u00eancia. Para muitos, trabalho tamb\u00e9m \u00e9 viol\u00eancia, arb\u00edtrio, autoritarismo: nem sempre a sociedade industrial, patriarcalista, escravocrata permitiu que o trabalho fosse um lugar de liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sou ing\u00eanuo. Seja no Sesc ou nos outros lugares onde atuei, o meu trabalho esteve associado \u00e0 ideia de coletivo e de cria\u00e7\u00e3o. Ah! N\u00e3o posso desassociar trabalho de renda, sal\u00e1rio, constru\u00e7\u00e3o de bens que me possibilitassem vida justa.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #333333;\"><strong>A classe art\u00edstica \/ cultural de Pernambuco fez uma peti\u00e7\u00e3o p\u00fablica <a href=\"https:\/\/peticaopublica.com.br\/pview.aspx?pi=BR116951\">(Carta dos Fazedores da Cultura ao SESC PE)<\/a> com questionamento ao Sesc por sua sa\u00edda e de apoio a voc\u00ea pelos projetos desenvolvidos ao longo de sua trajet\u00f3ria. O que achou disso? <span style=\"color: #993366;\">[A carta e a resposta do Sesc est\u00e3o copiadas abaixo da entrevista]<\/span><\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Eu fiquei profundamente sensibilizado com as rea\u00e7\u00f5es de apoio a mim, tanto da classe, quanto dos integrantes da Rede Sesc em todo o Brasil e no estado. Em rela\u00e7\u00e3o aos setores da Cultura penso que o fato de ter estabelecido uma rela\u00e7\u00e3o franca foi o que mais me fez bem. Em uma fun\u00e7\u00e3o como a de gerente de Cultura do Sesc, a gente se v\u00ea diante de muitos desafios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 um princ\u00edpio que eu procurei seguir sempre: se a pessoa procurava o Sesc com uma proposta e se eu percebesse que n\u00e3o havia possibilidade, eu dizia o n\u00e3o, de imediato. \u00c9 preciso saber dizer n\u00e3o, r\u00e1pido, objetivo e explicar o porqu\u00ea do n\u00e3o. Eu disse muitos n\u00e3os, mas explicava. Se fosse algo compat\u00edvel, o sim era logo e se eu tivesse d\u00favida pedia tempo para avaliar. Acho que essa postura me ajudou muito nas rela\u00e7\u00f5es com o setor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A Cultura \u00e9 uma \u00e1rea muito penalizada e n\u00e3o d\u00e1 para ficar adiando posicionamento. E tudo precisa ser explicado. As pessoas merecem e t\u00eam esse direito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sobre a carta, acho importante, um ato pol\u00edtico, um posicionamento do setor que s\u00f3 tem acumulado perdas. N\u00e3o me refiro ao fato de ser em minha defesa, mas por ser um alerta para todos. A luta \u00e9 grande. Tamb\u00e9m um ato de generosidade para comigo. N\u00e3o foi um pedido para um retorno meu, foi antes, uma rea\u00e7\u00e3o com receio do que poderia acontecer depois. A carta \u00e9 um ato pol\u00edtico de resist\u00eancia da categoria.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que achou da escolha do seu sucessor, Rudimar Const\u00e2ncio?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Rudimar Const\u00e2ncio \u00e9 um profissional muito preparado, um artista, pesquisador, estudioso da Cultura e da Educa\u00e7\u00e3o, um homem formado em Hist\u00f3ria, Mestre e concluindo um doutorado com o desenvolvimento de duas pesquisas, absolutamente necess\u00e1rias. Um jovem de posi\u00e7\u00f5es firmes, muito querido e respeitado no meio. Tamb\u00e9m conhece muito a Rede Sesc, tem um servi\u00e7o prestado h\u00e1 28 anos \u00e0 Institui\u00e7\u00e3o e aos seus clientes. J\u00e1 foi gerente das unidades do Sesc em Arcoverde e Piedade, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, e vinha conduzindo o Teatro Samuel Campelo. Diretor, professor e ator de Teatro com vasto conhecimento e incurs\u00e3o pelo interior de Pernambuco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida de que dar\u00e1 certo. Ele, no entanto, vai precisar muito do apoio da Dire\u00e7\u00e3o do Sesc.&gt; N\u00e3o se faz politica de cultura sem recursos, sem liberdade de cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me preocupo com a condu\u00e7\u00e3o do Sesc, o que me preocupa \u00e9 a a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do atual Governo Federal com as interven\u00e7\u00f5es nocivas do presidente e de seus aderentes das politicas econ\u00f4micas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, \u00e9 o segundo maior inimigo da Arte, da Cultura, da Educa\u00e7\u00e3o, da Sa\u00fade e de todas as politicas sociais da atualidade.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais s\u00e3o seus planos agora? Projetos adiados devem ser retomados ou iniciados, n\u00e3o?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Vou me candidatar a um mestrado, de prefer\u00eancia na \u00e1rea da gest\u00e3o cultural. Pretendo estudar e contribuir com o setor p\u00fablico, principalmente junto com aos munic\u00edpios. N\u00e3o d\u00e1 mais para que os munic\u00edpios deixem as pol\u00edticas de Cultura em d\u00e9cimo plano. Vou estruturar minha consultoria em gest\u00e3o da Cultura e oferecer os meus servi\u00e7os. Ajudar na estrutura\u00e7\u00e3o do setor. Vou intensificar meu trabalho de encenador e devo acelerar o meu trabalho com a Cia Oxente de Atividades Culturais de Jo\u00e3o Pessoa. Gostaria de realizar um trabalho de ator, estou conversando com \u00c9rico Jos\u00e9, quem sabe eu consiga construir uma proposta com ele.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3s, da Cultura, somos militantes. Se precisar trabalhar 15 horas num dia a gente trabalha.<br \/>\nIsso faz uma diferen\u00e7a enorme&nbsp;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como diz a sabedoria popular, 42 anos n\u00e3o s\u00e3o 42 dias. \u00c9 muito investimento emocional, f\u00edsico, intelectual depositado nesse emprego. Conte algo que voc\u00ea considera especial que ocorreu no seu per\u00edodo de institui\u00e7\u00e3o? E algo absolutamente abomin\u00e1vel?&nbsp;<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3s, da Cultura, somos militantes. Se precisar trabalhar 15 horas num dia, a gente trabalha. Isso faz uma diferen\u00e7a enorme. Nesses 42 anos, poucos funcion\u00e1rios da Cultura n\u00e3o se engajaram nesse processo. Foram muitas as realiza\u00e7\u00f5es, dif\u00edcil nominar uma. Acho que a efetiva\u00e7\u00e3o da Rede Sesc de Cultura no estado e sua conex\u00e3o com o pa\u00eds. A constru\u00e7\u00e3o ou reforma dos equipamentos de Cultura: eu estive envolvido em todos. Tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho, eu estive envolvido. E a dire\u00e7\u00e3o sempre acolheu. Tenho o maior orgulho. Tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o dos principais projetos, participei ativamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tem um fato que aconteceu nos anos 1980 que foi dif\u00edcil. O ex-presidente do Sesc, Manoel Ramos de Almeida se candidatou a deputado estadual pelo antigo PDS e queria que eu o apoiasse. E eu me neguei e cheguei a ser convidado a deixar o Sesc. Eu o enfrentei e n\u00e3o sa\u00ed. Foi bem dif\u00edcil. E foi caso \u00fanico, porque o Sesc \u00e9 apartid\u00e1rio, n\u00e3o se envolve em lutas partid\u00e1rias, trabalha com as gest\u00f5es independente de sua tend\u00eancia. O Sesc tem autonomia.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><b>Nessa trajet\u00f3ria, voc\u00ea tem arrependimentos? Principalmente na vida pessoal, de ter deixado de fazer algo pelas obriga\u00e7\u00f5es com a carreira na empresa?<\/b><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o me arrependo de nada do que fiz, sou um homem que faz escolhas. Talvez me arrependa do que n\u00e3o fiz. Tenho experi\u00eancias incr\u00edveis na minha vida. Comecei como professor de teatro no Sesc e fui construindo uma rela\u00e7\u00e3o com a Institui\u00e7\u00e3o. Comecei pelo Sesc Santa Rita, depois fui para Casa Amarela, depois Santo Amaro e por fim para compor a equipe junto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. O Sesc me deu muitas oportunidades e eu aproveitei todas. O reconhecimento que obtive foi resultado de muito trabalho e empenho, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito coletivo. O meu reconhecimento est\u00e1 associado \u00e0s oportunidades.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">Outra coisa dif\u00edcil \u00e9 esta sensa\u00e7\u00e3o de que o setor da Cultura est\u00e1 sempre em risco. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">Sempre que se instaura uma crise \u00e9 a cultura a mais penalizada. O Brasil \u00e9 assim&#8230;&nbsp;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">A ARTICULA\u00c7\u00c3O NACIONAL<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_21860\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21860\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-21860 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/35884168_238839533372224_8825193375553552384_n-e1599536249320.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\"><p id=\"caption-attachment-21860\" class=\"wp-caption-text\"><\/span> <span style=\"color: #000000;\">Em 2019, vistoriando a constru\u00e7\u00e3o do Cinema do Sesc no Centro de Produ\u00e7\u00e3o Cultural de Garanhuns, ao lado de Naruna Freitas, da \u00e1rea do Audiovisual do Sesc Pernambuco<\/span><\/p><\/div>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como funcionou a articula\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do Sesc PE com nacional?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O Sesc \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o federativa, com autonomia administrativa em cada estado, mas tem o Departamento Nacional que cumpre um papel fundamental para o pa\u00eds. \u00c9 o DN o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas do Sesc para o Brasil. O Sesc Nacional \u00e9 muito importante, organiza, amplia os espa\u00e7os de reflex\u00e3o, articula toda a Rede Sesc. O Regional de Pernambuco ocupa um lugar de muito prest\u00edgio nesta rede e isso independe de pessoa, s\u00e3o muitas pessoas. Eu fui apenas parte desta rede, deste colegiado. Tive a sorte de ter participado nos grupos de trabalho que formularam v\u00e1rias pol\u00edticas do Sesc: pol\u00edtica de Cultura do Sesc para o Brasil, das Artes C\u00eanicas, da Literatura. Ainda: participei em menor escala das formula\u00e7\u00f5es das pol\u00edticas de M\u00fasica, Artes Visuais e da cria\u00e7\u00e3o dos Marcos Referenciais de Mem\u00f3ria Social e Patrim\u00f4nio Cultural e tamb\u00e9m de Arte-Educa\u00e7\u00e3o. Direito e diversidade s\u00e3o os princ\u00edpios das pol\u00edticas do Sesc para o Brasil e eu creio que ser\u00e3o mantidos. O di\u00e1logo da Cultura com a educa\u00e7\u00e3o e com a a\u00e7\u00e3o social s\u00e3o outros eixos e eu participei dessas constru\u00e7\u00f5es. Isso faz parte da miss\u00e3o do Gerente de Cultura do Sesc e eu, felizmente, tive todas essas oportunidades. Pude trabalhar diretamente com muita gente com destaque como \u00c1lvaro de Melo Salmito, Sidnei Cruz, M\u00e1rcia Rodrigues Costa, Wagner Campos, Maria Helena Kuhner, Maria Jos\u00e9 Gomes Duarte, Marcos Henrique Rego, dentre muitos em \u00e2mbito nacional. Em Pernambuco, trabalhar com o Professor Josias Albuquerque, Edson Wanderley Neves, Ant\u00f4nio Inoc\u00eancio Lima, Silvia Cavadinha, Teresa Ferraz e, ultimamente, com o diretor Oswaldo Ramos foram oportunidades que agregam valor a qualquer profissional. O professor Josias me deu muitas oportunidades de trabalho, de crescimento e me permitiu atuar na constru\u00e7\u00e3o desta rede de teatros, galerias de artes, salas de experimenta\u00e7\u00e3o em artes e cultura. Professor Josias fez a grande diferen\u00e7a na minha carreira.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">A ARTICULA\u00c7\u00c3O COM O INTERIOR SEM COLONIZA\u00c7\u00c3O<\/span><\/h1>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 muito fr\u00e1gil a constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cultura nos munic\u00edpios brasileiros, em todos, independente de se \u00e9 capital ou interior, mas no interior \u00e9 muito mais dif\u00edcil<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Os saberes existem em toda parte, mas nossa hist\u00f3ria est\u00e1 carregada de hierarquias e domina\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea liderou na pr\u00e1tica a articula\u00e7\u00e3o com o interior sem coloniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Minha rela\u00e7\u00e3o com o interior do estado \u00e9 anterior ao Sesc, muito anterior. Come\u00e7ou com o Teatro Experimental de Olinda, TEO, em 1977, com o Protec &#8211; Projeto Teatro Comunit\u00e1rio, que eu participei e coordenei por um bom tempo. Com o Protec, al\u00e9m do Recife, n\u00f3s trabalhamos com Igarassu, Limoeiro, Caruaru e Arcoverde. Arcoverde foi nosso principal polo descentralizado. Trabalhamos com n\u00facleos de articula\u00e7\u00e3o. Depois com o grupo TEO no espet\u00e1culo <em>Os Mist\u00e9rios do Sexo<\/em>, nos apresentamos em v\u00e1rias cidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Depois da experi\u00eancia com o TEO vieram as a\u00e7\u00f5es com a TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas, nosso grupo de Jaboat\u00e3o dos Guararapes. Com o nosso Projeto de Circula\u00e7\u00e3o de Teatro pelo Interior fomos a mais de 40 cidades do estado. Finalmente, o Sesc e a possibilidade de uma atua\u00e7\u00e3o mais continuada. E a a\u00e7\u00e3o junto com a Federa\u00e7\u00e3o do Teatro de Pernambuco, Feteape e as diversas oportunidades de trabalho com o Festival de Inverno de Garanhuns, FIG, e trabalho em Caruaru, quando Arari Marrocos me contratou para uma a\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Casa de Cultura Jos\u00e9 Cond\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m do tempo de trabalho com Leda Alves na cidade do Cabo de Santo Agostinho e a experi\u00eancia com Camaragibe. Tudo isso foi me mostrando a grande pot\u00eancia criativa fora da capital. Sou agrestino, sou de Bezerros e isso tamb\u00e9m me influenciou muito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Outra vez eu preciso afirmar: nada foi s\u00f3. Nunca trabalhei sozinho, nem minha articula\u00e7\u00e3o foi algo que me isolou, ao contr\u00e1rio, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque foi uma a\u00e7\u00e3o em coletivo. Muita gente, muitos trajetos diferentes. Aprendi muito com os movimentos populares, com as periferias, inclusive aprendi que N\u00c3O H\u00c1 CENTRO, todo lugar \u00e9 centro. Certa vez, numa roda de conversas em Palmas, Tocantins, eu ca\u00ed na besteira de dizer que o Tocantins era longe. De imediato algu\u00e9m da plateia disse: n\u00e3o. Recife \u00e9 que \u00e9 longe, tudo depende de onde se v\u00ea. Nunca mais eu disse que um lugar era longe.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Sei que esses processo de valoriza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es feitas no interior v\u00eam de muitos anos. O incentivo a festivais, fortalecimentos de grupos. Como voc\u00ea lidou com as peculiaridades de cada regional \/ cidade ?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aprendi com Viola Spolin que criatividade \u00e9 um fen\u00f4meno que todo mundo tem, basta ser provocado, estimulado, potencializado. N\u00e3o importa se mora em Bezerros, no s\u00edtio Serra dos Bois, onde eu nasci, ou se mora em S\u00e3o Paulo. Todo mundo pode e merece oportunidade. As pol\u00edticas necessitam sair deste lugar de centro. Bodoc\u00f3 \u00e9 um grande centro de cria\u00e7\u00e3o, assim como Triunfo, Goiana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A quest\u00e3o \u00e9 que a constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas n\u00e3o passa pelo sentido de direito. As oportunidades est\u00e3o associadas ao poder econ\u00f4mico e aos acessos \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e isto \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Sempre procurei trabalhar com os artistas, t\u00e9cnicos, produtores e p\u00fablicos em situa\u00e7\u00e3o de igualdade, mas \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 muito fr\u00e1gil a constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cultura nos munic\u00edpios brasileiros, em todos, independente de se \u00e9 capital ou interior, mas no interior \u00e9 muito mais dif\u00edcil. Os criadores e trabalhadores da Cultura com atua\u00e7\u00e3o no interior do estado passam por muitas dificuldades e repara\u00e7\u00f5es s\u00e3o urgentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tenho certeza que isso passa pela l\u00f3gica eurocentrista, capitalista, branca, machista, patriarcal, colonizadora.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Claro que eu n\u00e3o comecei com uma consci\u00eancia formada, cometi muitos erros nessa trajet\u00f3ria, mas fui permitindo a mim mesmo aprender, pela escuta, pela troca, pelos afetos e pelas constru\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea mesma, Ivana Moura, participou, como artista e como jornalista e cr\u00edtica de artes de muitos momentos estruturadores. Voc\u00ea acompanhou muito as a\u00e7\u00f5es do interior do estado nas \u00e1reas de teatro e dan\u00e7a, principalmente. Muitas lideran\u00e7as art\u00edsticas se destacaram a partir do trabalho realizado em Caruaru, Palmares, Limoeiro, Timba\u00faba, Surubim, Goiana, Garanhuns, Belo Jardim, Pesqueira, Arcoverde, Serra Talhada, Salgueiro e Petrolina, para destacar alguns outros polos de cria\u00e7\u00e3o. Eu sempre fui muito misturado, n\u00e3o foi apenas por meio do Sesc, mas o Sesc, os \u00faltimos 20 anos, foi fundamental.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>FORMA\u00c7\u00c3O DE ATORES&nbsp;<\/strong><\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O curso de forma\u00e7\u00e3o do Sesc foi ganhando espa\u00e7o na lacuna do CFA e da Fundaj do Derby?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O Curso de Interpreta\u00e7\u00e3o para Teatro \u2013 CIT surge como uma continuidade ao que surgiu nos anos 1980. Ele nasceu nos anos 1980, antes do da Fundaj e do CFA (Curso de Forma\u00e7\u00e3o do Ator, da UFPE) &#8211; s\u00f3 que era mais t\u00edmido. Chamava-se Curso Regular de Teatro &#8211; CRT. Muita gente deu aula entre os anos 1980 e 1999: Luiz Felipe Botelho, Williams Sant&#8217;anna, Gilberto Brito, Leila Freitas, Otac\u00edlio J\u00fanior, Am\u00e9lia Conrado, Kalyna de Paula, Wellington J\u00fanior, Paulo Henrique Ferreira, Roberto L\u00facio, Galiana Brasil, v\u00e1rios outros&#8230; A partir de 2000, ele ganha outra dimens\u00e3o. Sob a coordena\u00e7\u00e3o de Galiana Brasil, n\u00f3s, juntamente com Roberto L\u00facio, constru\u00edmos uma nova grade program\u00e1tica, atualizamos o conceito do curso. Reconfiguramos para atender aos ditames dos novos tempos. Muita gente foi aluna do CIT, desde quando era CRT (Curso Regular de Teatro). De 2015 para c\u00e1, ele tem passado por outras reformula\u00e7\u00f5es, agora com Rita Marize Farias, Rodrigo Cunha, Almir Martins. Muita gente tem dado aulas no curso nestes \u00faltimos 8 anos, dentre eles Lu\u00eds Reis, Jo\u00e3o Denys, Cira Ramos, Paula de Renor, Antonio Cadengue, Mariane Consentino, Anamaria Sobral, Maria Clara Camarotti, Leidson Ferraz, Samuel Bennaton, entre outros v\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais avan\u00e7os foram feitos desde a cria\u00e7\u00e3o do primeiro curso?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O CIT tem cumprido um papel estrat\u00e9gico fundamental no Recife e em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, seus dois n\u00facleos. Rudimar Const\u00e2ncio tem cumprido um papel importante para o CIT no Sesc Piedade. Mais uma vez a equipe tem estudado novas atualiza\u00e7\u00f5es, mas o CIT atualmente est\u00e1 sintonizado com o pensamento do teatro contempor\u00e2neo. A estrutura\u00e7\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica do curso com Rodrigo Cunha e Almir Martins, o novo sistema de avalia\u00e7\u00e3o, o acompanhamento do desempenho dos alunos foram avan\u00e7os mais recentes da pedagogia do curso.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Qual o diferencial do curso de forma\u00e7\u00e3o do Sesc em rela\u00e7\u00e3o a outros oferecidos em Pernambuco?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Pernambuco tem uma oferta muito boa para quem deseja estudar Teatro, n\u00e3o apenas no Sesc. Felizmente, muitos egressos dos cursos da Universidade Federal de Pernambuco, especialistas, mestres, doutores est\u00e3o criando outros ambientes no estado e eu acho isso muito relevante. No caso do Sesc, tem a marca da Institui\u00e7\u00e3o, sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a qualidade de sua equipe de professores. Mas, sinceramente, as outras escolas tamb\u00e9m tem profissionais muito bons, cada um com sua pedagogia e com suas metodologias. Seguramente, o maior diferencial s\u00e3o os resultados hist\u00f3ricos dos cursos do Sesc.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Qual o per\u00edodo que voc\u00ea esteve no Curso B\u00e1sico \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o de Atores da Fundaj?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Iniciei na Fundaj em 1990 e fui at\u00e9 1996. Cuidei de duas disciplinas, em turmas diferentes: improvisa\u00e7\u00e3o para o teatro e Interpreta\u00e7\u00e3o e em tr\u00eas turmas fui respons\u00e1vel pelas montagens de conclus\u00e3o:<em> Flor do Campo<\/em>, de Altimar Pimentel; <em>P\u00edramo e Tisbe<\/em>, de Vladimir Capella; e <em>Janos Adler<\/em>, de Luiz Felipe Botelho.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como era o funcionamento l\u00e1 dentro?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Foi uma experi\u00eancia e uma oportunidade importante pra mim, muita gente surgiu ou cresceu vivendo as experi\u00eancias nos corredores da Fundaj, no Derby. Ali\u00e1s, sinto falta dos trabalhos da Fundaj, do Teatro Jos\u00e9 Carlos Cavalcanti Borges, uma linda casa de espet\u00e1culos.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, foi numa montagem de conclus\u00e3o de curso da Fundaj que voc\u00ea recebeu uma cr\u00edtica em que dizia mais ou menos que os alunos-atores derraparam na lama e nunca se ergueriam?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sim, foi na montagem de <em>Janos Adler<\/em>, que era uma encena\u00e7\u00e3o na lama, um cr\u00edtico insinuando que o texto e a montagem estavam al\u00e9m do elenco. N\u00e3o concordei, como n\u00e3o concordo at\u00e9 hoje&#8230; dentre outros artistas, l\u00e1 estavam Robson Queir\u00f3z, Janine Aroucha, M\u00e1rcia Cruz, dentre outros. Um elenco incr\u00edvel que o tempo se encarregou de consolidar.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que voc\u00ea pensa da cr\u00edtica feita em Pernambuco? H\u00e1 pouco tempo alguns artistas afirmaram para uma revista local que n\u00e3o existe cr\u00edtica teatral. Voc\u00ea concorda com isso?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Leio tudo o que posso, me reabaste\u00e7o lendo as an\u00e1lises, observa\u00e7\u00f5es, considera\u00e7\u00f5es dos cr\u00edticos de artes. Sinto muita falta dos espa\u00e7os, das colunas, do trabalho dos cr\u00edticos. J\u00e1 tive alguns embates, di\u00e1logos bem significativos. A cr\u00edtica nos ajuda, orienta, problematiza.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 dois momentos bem distintos, que eu alcancei: de 1976 a 2000 e de 2000 pra c\u00e1: um tempo em que os cr\u00edticos atuavam nos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e depois os cr\u00edticos nos ve\u00edculos online. E h\u00e1 ainda o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, de 1990 a 2005. N\u00e3o tenho muita seguran\u00e7a nestas datas, mas \u00e9 o que me salta os olhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em qualquer \u00e9poca, a cr\u00edtica cumpriu e cumpre um papel muito importante. Havia uma maior sistematiza\u00e7\u00e3o, antes. E um certo glamour. Adoro ler os livros dos cr\u00edticos dos anos 1970 a 1990, l\u00e1 est\u00e3o informa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es muito potentes sobre o teatro, a arte que se produziu. Penso que ainda faltam escolas que estimulem esta fun\u00e7\u00e3o. Sinto falta. O cr\u00edtico cumpre um papel de media\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rio, relevante.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea avalia a pedagogia do teatro desde sua entrada nessa fun\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as ocorridas ao longo dos anos?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">De 1977 at\u00e9 2010, aproximadamente, eu dei aulas, muitas. Tenho certeza de que mais de 1 mil alunos de teatro passaram por mim, no Brasil inteiro. Dei aula em quase todos os estados do Brasil, em cursos e oficinas de curta dura\u00e7\u00e3o, e em muitas cidades de Pernambuco. No Recife e na RMR dei aulas seguidamente, a muitas turmas. Mas, parei. Chegou um momento em que percebi que, para dar aulas, eu teria que estudar e pesquisar muito mais. E eu n\u00e3o tinha tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Minhas tarefas na gest\u00e3o, no Sesc Pernambuco, na Rede Sesc no Estado e no Brasil, meu envolvimento com formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, a minha rela\u00e7\u00e3o com a Literatura, tudo me fazia perceber que ministrar aulas de teatro seria uma irresponsabilidade. Com muita dor, eu parei. De vez em quando eu ministro alguma oficina, mas somente se me sentir seguro. Preciso ter responsabilidade com o que fa\u00e7o e sala de aula \u00e9 algo primoroso. Quero e vou voltar, mas antes vou me preparar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Ocorreram muitas mudan\u00e7as, as pedagogias de ensino do teatro foram ressignificadas e eu n\u00e3o acompanhei a contento. Por isso, parei. O pensamento da mulher e do homem contempor\u00e2neos e as lutas da atualidade levaram as artes \u00e0 revis\u00e3o de pensamento e novos valores foram elevados, as lutas dos movimentos por repara\u00e7\u00e3o, os direitos humanos interferindo diretamente nas artes, as quest\u00f5es de acessibilidade, a afirma\u00e7\u00e3o da politica de direito, as novas est\u00e9ticas, o pensamento performativo, as novas tecnologias, tudo fez com que o Teatro se reconfigurasse. Um exerc\u00edcio duro e penoso para a minha gera\u00e7\u00e3o, mas necess\u00e1rio. E urgente.<\/span><\/p>\n<h1>&nbsp;<\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">O PROJETO GIL VICENTE E O<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">GABINETE PORTUGU\u00caS DE LEITURA<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que foi o projeto Gil Vicente e em que condi\u00e7\u00f5es ele funcionou?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A poeta e escritora Maria de Lourdes Hortas foi diretora de Cultura do Gabinete Portugu\u00eas de Leitura, no Recife, e me convidou para coordenar um projeto denominado <em>Projeto Gil Vicente<\/em>. E eu fui. Foi uma oportunidade excelente para eu estudar a dramaturgia de Portugal e sua rela\u00e7\u00e3o com o Brasil. Realizamos muitas a\u00e7\u00f5es, trabalhos, tamb\u00e9m, com a poesia, um mergulho em Fernando Pessoa, as narrativas de Almeida Garret, tamb\u00e9m estudamos a dramaturgia dos anos 1990.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">No final de 1989 come\u00e7amos os trabalhos que se prolongaram at\u00e9 1992. Em pouco tempo, a dire\u00e7\u00e3o do Gabinete montou uma galeria de artes e um teatro, ambos no pavimento t\u00e9rreo do lindo pr\u00e9dio da Rua do Imperador e, com um elenco incr\u00edvel eu dirigi <em>A Farsa de In\u00eas Pereira<\/em>, de Gil Vicente, em vers\u00e3o adaptada por Jo\u00e3o Denys Ara\u00fajo Leite, dire\u00e7\u00e3o de arte de Luiz Felipe Botelho, m\u00fasicas e sonoplastia de Andr\u00e9 Filho. Gostei muito da experi\u00eancia, dirigir esse espet\u00e1culo, cumprir temporada e participar de outras a\u00e7\u00f5es no Gabinete. Dirigi tamb\u00e9m um trabalho a partir da obra de Fernando Pessoa.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que voc\u00ea lembra do Recife dessa \u00e9poca?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tenho medo de parecer saudosista, mas eram tempos de muita ebuli\u00e7\u00e3o, Recife tinha muitos grupos, produtores, casas de espet\u00e1culos com temporadas, espet\u00e1culos de longa vida, espa\u00e7os alternativos. Na contram\u00e3o, n\u00e3o tinha aparatos p\u00fablicos, nenhum edital. Os artistas trabalhavam muito e n\u00e3o ganhavam quase nada. Ali\u00e1s, nesse \u00faltimo aspecto n\u00e3o mudou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Outro dado que eu lembro e sinto falta, as Universidades e Faculdades tinham grupos muito importantes: UFPE, Unicap, Fafire, As Institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias: Bandepe, Caixa Econ\u00f4mica Federal, Banco do Brasil. Tinha os grupos da Fundaj, AABB, Sindicato dos Banc\u00e1rios, Chesf, Coperbo, al\u00e9m dos do Sesc. Esses grupos eram muito independentes, mesmo sendo vinculados \u00e0s empresas, contratavam diretores, montavam obras da dramaturgia pernambucana, brasileira ou estrangeira, algo pujante. Lembro da movimenta\u00e7\u00e3o e das lutas politicas, constantes e de resist\u00eancia. Havia at\u00e9 o Pr\u00eamio Espont\u00e2neo para os Melhores do Ano. E muita briga, muita briga, muita resist\u00eancia do pessoal das artes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">AS A\u00c7\u00d5ES NOS PRES\u00cdDIOS<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em que consistiam as a\u00e7\u00f5es desenvolvidas nos pres\u00eddios?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A atriz pernambucana Maria Rita Freire Costa, uma atriz que merece ser estudada, havia realizado experi\u00eancias com teatro em unidades prisionais em S\u00e3o Paulo, Bel\u00e9m e Bras\u00edlia e apresentou ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a uma proposta para realiza\u00e7\u00e3o de um projeto de ressocializa\u00e7\u00e3o por meio da arte. E eles toparam e lan\u00e7aram uma proposta nacional por meio de diversas entidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A entidade que se interessou em Pernambuco foi a Feteape &#8211; Federa\u00e7\u00e3o do Teatro de Pernambuco. O Projeto Nacional chamava-se <em>Nimuendaju &#8211; Aquele que constr\u00f3i o seu pr\u00f3prio caminho<\/em>, uma express\u00e3o do Tupinamb\u00e1. Num encontro em Bras\u00edlia, Pernambuco foi representado por Teresa Amaral. A Feteape assumiu o projeto em Pernambuco para realiza\u00e7\u00e3o conjunta com a Secretaria de Justi\u00e7a de Pernambuco. A assistente social Iluminata Rangel Macedo assumiu a coordena\u00e7\u00e3o na Secretaria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Em Pernambuco, o projeto aconteceu em dois momentos distintos e com nomes diferentes: <em>Projeto Coringa<\/em> e <em>Projeto Alvar\u00e1 de Express\u00e3o<\/em>, em ambos eu fui o coordenador art\u00edstico. Consistia na realiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es formativas (oficinas, cursos, palestras, rodas de conversa, semin\u00e1rios e encontros sobre artes e teatro) ministradas por artistas do estado. E a\u00e7\u00f5es de frui\u00e7\u00e3o com apresenta\u00e7\u00f5es de espet\u00e1culos nas unidades prisionais. Foram mais de 50 espet\u00e1culos de teatro e dan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Na fase seguinte foram estruturados grupos de teatro nas unidades, com diretores teatrais fixos, com a realiza\u00e7\u00e3o de montagens, estreias, temporadas nos pres\u00eddios, circula\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos entre as unidades e diversas apresenta\u00e7\u00f5es em teatros, dentre eles o Teatro de Santa Isabel, Teatros Apolo, Barreto J\u00fanior, e no Cabo de Santo Agostinho e Garanhuns. Todas as etapas do projeto foram realizadas com residentes dos Pres\u00eddios An\u00edbal Bruno, Barreto Campelo, no Feminino do Bom Pastor, no Hospital de Cust\u00f3dia Psiqui\u00e1trica de Itamarac\u00e1 e na Unidades de Palmares e Pesqueira. Tamb\u00e9m com passagem pelas Unidades de Caruaru, Limoeiro e na Penitenci\u00e1ria Agr\u00edcola de Itamarac\u00e1.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais as for\u00e7as voc\u00ea precisou desafiar para p\u00f4r em pr\u00e1tica a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias com rela\u00e7\u00e3o aos presos?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, as for\u00e7as que tivemos que enfrentar foram os dirigentes religiosos das unidades prisionais e os advogados que n\u00e3o entendiam porque um preso se envolveria com teatro no pres\u00eddio. Recebemos muito apoio das equipes da Secretaria de Justi\u00e7a, das \u00e1reas de seguran\u00e7a e dos ju\u00edzes das varas de execu\u00e7\u00e3o penal. Nunca houve nenhum incidente envolvendo os mais de 200 artistas que passaram pelo projeto.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que houve de desdobramento desse trabalho?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O que destaco dessas experi\u00eancias \u00e9 a comprova\u00e7\u00e3o de que a arte \u00e9 potente, humaniza, tem pot\u00eancia social, inclusive em casos extremos, como s\u00e3o os pres\u00eddios de seguran\u00e7a m\u00e1xima. N\u00e3o h\u00e1 romantismo nesta minha leitura, o que eu vivenciei foi um aprendizado excepcional para todos n\u00f3s, inclusive para a \u00e1rea de seguran\u00e7a dos pres\u00eddios. Em mais de cinco anos n\u00e3o houve, sequer, um incidente envolvendo a \u00e1rea de seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais as linhas ideol\u00f3gicas de sustenta\u00e7\u00e3o do projeto?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A base conceitual e pr\u00e1tica do projeto eram as ideias de Paulo Freire, Augusto Boal, Bertold Brecht, Grotowski: teatro pol\u00edtico e pedagogia do teatro. Muitos espet\u00e1culos foram montados com dramaturgia brasileira e, tamb\u00e9m, com dramaturgias criadas pelos participantes dos grupos por meio de oficinas de escrita dramat\u00fargica com Williams Sant&#8217;anna, Wilma Lessa, Romildo Moreira, Carlos Lira, Normando Roberto Santos, Paulo Oliveira Lima e eu. Textos de Samuel Beckett (<em>Esperando Godot<\/em>), Timochenco Wehbi (<em>A longa jornada de Zero \u00e0 Ene<\/em>), Marcus Acioly (<em>LatinoAm\u00e9rica<\/em>), dentre outros. Muitos grupos e artistas do teatro e da dan\u00e7a participaram deste projeto. Al\u00e9m de Teresa Amaral, Z\u00e1caras Garcia tamb\u00e9m participou da coordena\u00e7\u00e3o do projeto, iniciado no governo de Miguel Arraes e encerrado no governo de Jarbas Vasconcelos.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como e por que acabou?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Um secret\u00e1rio de Justi\u00e7a achou que o projeto n\u00e3o deveria continuar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">ENTIDADES DE CLASSE E GEST\u00c3O P\u00daBLICA<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Existe uma tradi\u00e7\u00e3o combativa em Pernambuco das organiza\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Conta como foi, quais os cargos e quais as lutas enfrentadas na Feteape, Confenata.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Vou dizer um chav\u00e3o; teatro \u00e9 arte de coletivo. E eu sempre levei muito a s\u00e9rio isso. Trabalhei muito com produtores e elencos, mas s\u00e3o os grupos a minha paix\u00e3o. \u00c9 um mecanismo fant\u00e1stico, as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes. O modo de produzir, de criar, no grupo ganha uma dimens\u00e3o da vida, uma extens\u00e3o, algo que me fascina. Por conta disso, meu engajamento, desde cedo nos processos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de fortalecimento de grupos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Assumir em 1980 a presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o de Grupos de Teatro de Jaboat\u00e3o dos Guararapes foi o primeiro exerc\u00edcio. Era um movimento incr\u00edvel, com v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es, festivais. Logo depois, com a TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas fizemos o Movimento de Teatro Perif\u00e9rico, uma articula\u00e7\u00e3o pelas cidades da Regi\u00e3o Metropolitana do Recife e, concomitantemente, o Projeto Teatro no Interior com circula\u00e7\u00e3o por muitas cidades de Pernambuco, Para\u00edba, Cear\u00e1. Como consequ\u00eancia, a presid\u00eancia da Federa\u00e7\u00e3o do Teatro de Pernambuco, Feteape, seguida da coordena\u00e7\u00e3o da Coordenadoria de Teatro para o Interior, tamb\u00e9m na Feteape. Depois a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Teatro &#8211; Confenata, onde fui Secret\u00e1rio-Geral e depois Diretor da Regional Nordeste II (da Bahia a Para\u00edba).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, entidades de representa\u00e7\u00e3o dos grupos e artistas do Teatro foram, juntamente com os festivais locais e nacionais, a minha maior escola de forma\u00e7\u00e3o. Antes de me formar em Letras, pela Fafire, passei pela Fesp\/UPE e pela Funeso nos cursos de Hist\u00f3ria, e por quase 5 anos, pelo Curso Licenciatura Plena em Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica, da UFPE: nenhum deles eu conclu\u00ed, viajava muito e n\u00e3o conseguia. Entrei na universidade com 18 anos, mas s\u00f3 me formei no ano que completei 50: escolhas. Isso eu mudaria hoje, mas&#8230;<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como surgiu e o que fez a TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A TTTr\u00eas Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas foi fundada em 1979, em Prazeres, Jaboat\u00e3o dos Guararapes, por mim, Carlos Lira e M\u00e1rio Ant\u00f4nio Miranda, todos vindos do Sesc e do Teatro Experimental de Olinda. O nosso desejo era ter mais autonomia para trabalhar, definir nossas propostas de trabalho. Aprendemos cedo que cada artista necessita ser protagonista de sua hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A TTTr\u00eas tinha como objetivo principal ser nosso espa\u00e7o de experimenta\u00e7\u00e3o. Todos seriamos atores, dramaturgos e encenadores e depois de termos o nosso espet\u00e1culo far\u00edamos uma circula\u00e7\u00e3o por 500 cidades do Brasil. Elaboramos uma lista de 500 cidades &#8211; ao final, nos apresentamos em aproximadamente 100. Foram muitas montagens, muita circula\u00e7\u00e3o pelo Brasil, sem edital, sem recursos p\u00fablicos, a maioria dependendo de renda de bilheteria ou de sobras do meu sal\u00e1rio do Sesc. Nossos espet\u00e1culos eram seguidos de a\u00e7\u00f5es formativas: cursos, oficinas, debates, encontros com grupos. Um incr\u00edvel exerc\u00edcio de troca entre artistas e p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>A cidade de Jaboat\u00e3o estava meio parada, no quesito teatro, quando voc\u00ea sacudiu o peda\u00e7o? Como foi isso?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A nossa experi\u00eancia de grupo, n\u00f3s levamos para a proposta de cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Grupos de Teatro de Jaboat\u00e3o dos Guararapes, quando eu fui o seu primeiro presidente. Eram uns 11 grupos da cidade. Realizamos festivais, mostras, temporadas, cursos, oficinas, debates, envolvendo artistas de todos os grupos, uma experi\u00eancia de gest\u00e3o cultural por meio de uma entidade da sociedade civil. A sede da Associa\u00e7\u00e3o era na minha casa, onde tamb\u00e9m era a sede de nosso grupo e onde n\u00f3s criamos a Biblioteca Orlando Miranda de Carvalho: no bairro de Prazeres. Naquela oportunidade iniciamos uma parceria com a Diretoria de Cultura de Jaboat\u00e3o dos Guararapes, cujo diretor era um multiartista, ex-padre, Ant\u00f4nio Carlos Vander V\u00e9lden. Com dire\u00e7\u00e3o dele, chegamos a montar dois espet\u00e1culos contando com as participa\u00e7\u00f5es de artistas de todos os grupos da cidade. Um desses espet\u00e1culos era sobre a saga do Padre Vitor Miracapillo, expulso do Brasil pelo regime ditatorial. Era um movimento pol\u00edtico de muita for\u00e7a e representatividade e por isso mesmo sofremos muita press\u00e3o pol\u00edtica e policial. Foi um movimento fundamental para os jovens artistas da cidade.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o se faz pol\u00edtica p\u00fablica sem recurso,<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">n\u00e3o se faz Cultura sem investimento.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que foi o Projeto Camar\u00e1?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Fui convidado pela Prefeitura de Camaragibe, por meio do seu Departamento de Cultura, para realizar o <em>Projeto Teatro Camar\u00e1<\/em>, um curso com at\u00e9 tr\u00eas turmas para atender a uma proposta de campanha. Havia um compromisso do ex-prefeito Jo\u00e3o Lemos e o convite a mim era para realizar os cursos. E assim foi: tr\u00eas turmas, super lotadas. Antes de terminar os cursos, os alunos deveriam passar por um processo de orienta\u00e7\u00e3o, principalmente quem era integrante de grupo. Por\u00e9m, antes de terminar as aulas eu fui convidado e aceitei ser diretor de Cultura de Camaragibe. Aceleramos o processo de escrita e pr\u00e1tica de uma pol\u00edtica de cultura para a cidade, situada na Regi\u00e3o Metropolitana do Recife, com 150 mil habitantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Como consequ\u00eancia deste trabalho, fui mantido na equipe de Cultura da cidade, na gest\u00e3o do Prefeito Paulo Santana, quando foi criada a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura, Turismo e Esportes de Camaragibe.&nbsp;Por um ano eu fui vice-presidente e por mais 6 anos eu fui presidente e pudemos viver uma experi\u00eancia trabalhosa, mas com muitas realiza\u00e7\u00f5es, culminando com o uso de 5% do or\u00e7amento da cidade para a Cultura, algo raro ainda hoje no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A estrutura\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de Cultura, Turismo e Esportes foi um desafio muito grande e urgente. Paulo Santana foi um prefeito exemplar para a Cultura: o mais dif\u00edcil era o fato de que o or\u00e7amento da cidade ainda hoje \u00e9 pequeno, sobrevive do Fundo de Participa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios e do com\u00e9rcio local. Mesmo sendo um percentual acima do padr\u00e3o, era pouco, porque a cidade tem poucos recursos, quando comparamos com outras da RMR. E n\u00e3o se faz pol\u00edtica p\u00fablica sem recurso, n\u00e3o se faz Cultura sem investimento. No entanto, com a organiza\u00e7\u00e3o de todos os setores das artes foi menos dif\u00edcil construir as bases de um Sistema Municipal de Cultura. Muitos foram os conflitos, principalmente os meus: \u00e9 muito ruim querer e n\u00e3o poder, saber da import\u00e2ncia e atuar com tantos limites.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como \u00e9 ser um artista febril e um gestor ousado diante das limita\u00e7\u00f5es impostas pela pol\u00edtica, pelo mandato e pela mentalidade que impera at\u00e9 hoje de que cultura n\u00e3o \u00e9 &#8220;item&#8221; de primeira necessidade?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Bom, eu sou um artista, educador que se transformou em gestor da cultura e isso n\u00e3o foi sem dor, sem luta. \u00c9 triste de dizer, mas optar por artes em um pa\u00eds como o Brasil \u00e9 quase uma insanidade. No caso de Camaragibe, foram muitos os enfrentamentos por causa da estrutura prec\u00e1ria e da falta de espa\u00e7os e equipamentos para a Cultura. E claro, a vis\u00e3o de parte da popula\u00e7\u00e3o e de grande parte dos pol\u00edticos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Para muitos cultura \u00e9 sup\u00e9rfluo. Hoje ainda predomina esta l\u00f3gica. Camaragibe realizou projetos de refer\u00eancia, fez parcerias, mesmo que ainda na \u00e9poca n\u00e3o existissem o Funcultura ou outros editais. Uma equipe muito atuante esteve \u00e0 frente das pol\u00edticas em Camaragibe, a cidade conquistou muitos pr\u00eamios internacionais e nacionais nas \u00e1reas de gest\u00e3o p\u00fablica, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o e isto repercutiu no campo da Cultura. Os habitantes compraram a ideia do projeto e a cidade passou a ter muitas op\u00e7\u00f5es e ofertas em programa\u00e7\u00e3o cultural.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Esse movimento em Camaragibe teve quais reflexos?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Como consequ\u00eancia, novos espa\u00e7os foram surgindo, grupos e artistas, al\u00e9m de novos gestores a exemplo de Carminha Lins, Saulo Uch\u00f4a, S\u00e1vio Uch\u00f4a, Joabson Guerra, Paula de T\u00e1ssia, Janaina Amorim, Vilde Menezes, Ci\u00e7a Portela, Cl\u00e1udio Siqueira, Bruno Marinho, Lucila Gomes, V\u00e2nia Oliveira, entre v\u00e1rios outros. Novas gera\u00e7\u00f5es surgiram, posteriormente como desdobramento dessas experi\u00eancias. Tamb\u00e9m, Lela Menezes, Uel Silva e Geraldo Cosmo que j\u00e1 atuavam na cidade, mas ampliaram as suas expertises como gestores. Camaragibe foi uma grande escola de gest\u00e3o da Cultura para quem viveu a experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">AS RELA\u00c7\u00d5ES COM O NORTE DO BRASIL<\/span><\/h1>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">S\u00e3o muitos Nortes, mas h\u00e1 alguns tra\u00e7os que merecem destaque: o tempo amaz\u00f4nico, o pre\u00e7o amaz\u00f4nico, as dist\u00e2ncias amaz\u00f4nicas e os mist\u00e9rios dos encantados das matas<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>O Nordeste ficou pequeno para voc\u00ea, que tra\u00e7ou rela\u00e7\u00e3o com o Norte do Brasil. O que encontrou e descobriu naquela regi\u00e3o? O que se pode aprender dessa ponte com os nortistas?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Os povos da floresta vivem em um mundo especial e particular. Fui muito para a regi\u00e3o Norte por meio do Sesc, no in\u00edcio, mas depois, continuei um trabalho no contato com outras organiza\u00e7\u00f5es ou mesmo por conta pr\u00f3pria. Por 10 anos seguidos minhas f\u00e9rias foram no Norte do Brasil. Participei de in\u00fameros festivais, mostras, encontros, ministrei cursos, palestras, oficinas, fui analista de espet\u00e1culos, orientei grupos. Tem muitos pernambucanos no Norte, atuando com a Cultura e no in\u00edcio foram os meus interlocutores: Suely Rodrigues, Judilson Dias e Fabiano Barros, todos foram coordenadores de Cultura do Sesc Rond\u00f4nia. Porto Velho foi minha porta de entrada, depois trabalhei no Acre, Amap\u00e1, Roraima, Amazonas, Tocantins e Par\u00e1. No Par\u00e1 foi onde menos trabalhei.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Cada estado tem suas particularidades, s\u00e3o muitos Nortes, mas h\u00e1 alguns tra\u00e7os que merecem destaque: o tempo amaz\u00f4nico, o pre\u00e7o amaz\u00f4nico, as dist\u00e2ncias amaz\u00f4nicas e os mist\u00e9rios dos encantados das matas. S\u00e3o muitas culturas, muitos h\u00e1bitos e a arte explode em suas particularidades. As capitais concentram grande produ\u00e7\u00e3o, mas eu ainda visitei Xapuri\/Acre, terra do Chico Mendes, e Parintins\/Amazonas, terra dos Bois Garantido e Caprichoso: mundos indescrit\u00edveis. O que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a exist\u00eancia de um certo preconceito com a arte produzida no Norte, por parte do restante do pa\u00eds, como se n\u00e3o entendesse a din\u00e2mica e as particularidades da arte produzida no Norte. \u00c9 uma arte de uma for\u00e7a e de uma dimens\u00e3o excepcionais.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>E o pensamento sobre democracia e mundo que pode ser apreendido.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Os artistas do Norte t\u00eam um compromisso vis\u00edvel com as lutas do povo brasileiro, acrescido de suas pr\u00f3prias lutas, t\u00eam compromisso com seus p\u00fabicos, e realizam uma arte bastante comprometida. Me identifico muito com o que se produz na Amaz\u00f4nia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_21922\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21922\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21922\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jose-manoel-e1600114770292.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-21922\" class=\"wp-caption-text\"><\/span> <span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Manoel Sobrinho<\/span><\/p><\/div>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 BOM SABER O QUE DIZER NA FRENTE DAS CRIAN\u00c7AS<\/span><\/h1>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">Educar uma pessoa a partir do seu pr\u00f3prio corpo, de sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo tem um significado especial<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea se enxerga? Quais os defeitos do Z\u00e9?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Minha av\u00f3 paterna dizia que eu \u201cera feinho, mas muito inteligente e bonzinho\u201d. E eu cresci acreditando nisso. Ela me comparava a um primo que ela dizia \u201co outro \u00e9 t\u00e3o bonitinho, mas \u00e9 uma peste\u201d. Eu preferiria, mil vezes, ser lindo e uma peste. Principalmente, ser lindo. E depois, adolescente, eu dizia que n\u00e3o importava ter espelho em casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O que eu tiro de aprendizado \u00e9 que, de fato, precisa ter cuidado com o que se diz a uma crian\u00e7a, porque as verdades, mesmo que relativas, viram absolutas quando ditas de maneira descuidada para uma crian\u00e7a. Ainda mais se quem diz tem a for\u00e7a e o significado de uma av\u00f3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 adulto, tenho um mantra: \u201cfazer o qu\u00ea, se a pessoa \u00e9 fraca de fei\u00e7\u00e3o?!\u201d Depois eu constru\u00ed um mantra mais meu: \u201cAh! Eu s\u00f3 vou namorar com gente bonita. Se eu quiser ver gente feia me olho no espelho\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O fato \u00e9 que isso teve uma repercuss\u00e3o muito grande na minha vida: amo o mar e as \u00e1guas, mas n\u00e3o sei nadar e isto est\u00e1 relacionado a um estranhamento que constru\u00ed com o meu corpo. E por que eu falo isso hoje? Porque por causa disso eu deixei de ser um ator-bailarino-pesquisador com toda a dimens\u00e3o que essas profiss\u00f5es t\u00eam. Sempre falei isso para os meus amigos e s\u00f3 estou falando isso agora porque sinto que tem fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. Educar uma pessoa a partir do seu pr\u00f3prio corpo, de sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo tem um significado especial, far\u00e1 toda a diferen\u00e7a para o que a pessoa ser\u00e1 e como ser\u00e1, no futuro. Sei que isso me caracteriza como uma pessoa com preconceito, principalmente comigo mesmo e isso me tirou de muitos ambientes. N\u00e3o tenho defeito f\u00edsico, mas constru\u00ed um conceito sobre meu corpo que n\u00e3o me ajudou e isto \u00e9 dif\u00edcil de mudar, nem meus quase 10 anos de terapia tem conseguido.&nbsp;<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quem voc\u00ea fez sofrer na vida? <\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Eu, mais do que qualquer outra pessoa. Minha m\u00e3e, seguramente, porque sempre fui muito independente e, de certo modo, ego\u00edsta. Quando decidi sair de casa, nem conversei, sai. E sei que ela sofreu.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea me contou que existe uma esp\u00e9cie de tradi\u00e7\u00e3o na sua fam\u00edlia de agregar pessoas. Por exemplo, seus av\u00f3s adotaram parentes, seus pais tamb\u00e9m adotaram pessoas e que essa heran\u00e7a passou para voc\u00ea. Agregar, hospedar, acolher s\u00e3o a\u00e7\u00f5es comuns na sua vida, que gosta de ter uma casa cheia. S\u00e3o outros la\u00e7os de fam\u00edlia que voc\u00ea comp\u00f5e. Gostaria de saber mais sobre isso. <\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Nas casas de meus av\u00f3s maternos e paternos nunca estavam somente eles e os filhos, sempre tinha mais algu\u00e9m. Venho de uma fam\u00edlia muito grande, mais de 10 tios e tias paternos e tamb\u00e9m mais de 10 maternos e primos e primas. Fui crian\u00e7a lidando com tia adotiva, depois na minha casa meus pais sempre receberam meus tios e tias e primos e primas. Dividir o quarto de casa era algo muito comum. E era muito bom. Fui crian\u00e7a e adolescente com a casa sempre com pessoas morando, gente muito querida. Nossos beliches (camas duplas) eram territ\u00f3rios de alegria, conversa e risadas. Quando eu fui crescendo isso foi ficando mais s\u00f3lido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Entrar no teatro foi definidor. Mesmo na casa dos meus pais ter algu\u00e9m dormindo, passando dias, noites, era algo comum e corriqueiro. Eles, duas figuras incr\u00edveis, nunca me colocaram limites ou brigaram comigo e recebiam a todas e todos muito bem. A receptividade de meus pais e de meus irm\u00e3os, o fato de nunca contestarem, penso que me dava muita liberdade para estar sempre convidando algu\u00e9m. \u00c0s vezes, 2 ou 3 ou at\u00e9 mais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Certa vez, a Equipe Teatral de Arcoverde &#8211; Etearc, veio se apresentar em Prazeres, com sua montagem de <em>O Santo e a Porca<\/em>, de Ariano Suassuna. N\u00e3o deu outra, todos ficaram hospedados na minha casa, umas 12 pessoas. Meus pais sa\u00edram do quarto deles e colocaram todas as meninas do grupo. Eles dormiram no ch\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Quando sai de casa e vim morar no Recife, n\u00e3o vim morar s\u00f3: primeiro fui adotado por Rudimar Const\u00e2ncio, que me acolheu em seu apartamento da Rua do Hosp\u00edcio. Acho que fiquei uns 2 anos morando na casa de Rudimar. Depois, aluguei um apartamento e fui morar, desta vez dividindo com Cl\u00e1udio Siqueira e Vilde Menezes. Pronto. A partir da\u00ed, nunca morei sozinho. Por muitos anos minha casa foi territ\u00f3rio de pouso pra algumas pessoas amigas, artistas na luta por uma oportunidade, na busca por seu desenvolvimento humano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o h\u00e1 necessidade de citar nomes, mas posso dizer que em minha casa moraram artistas de Arcoverde, Sert\u00e2nia, Petrolina e Camaragibe. Tenho certeza que foi heran\u00e7a de meus av\u00f3s e de meus pais. \u00c9 importante dizer que n\u00e3o \u00e9 porque sou bonzinho, \u00e9 uma cultura, uma oportunidade para mim. aprendi muito sobre a vida, a arte, a complexidade para se fazer arte e educa\u00e7\u00e3o no Nordeste do Brasil, no Brasil, por melhor dizer.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Carrega algum sentimento de culpa por algo que fez ou deixou de fazer?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sempre digo que sou crist\u00e3o burro, aquele dram\u00e1tico que sofre por todos, tem pena de tudo. Mas arrependimento eu n\u00e3o tenho n\u00e3o, muito menos culpa. Tem uma coisa que eu me queixo, de n\u00e3o ter escrito tudo o que experimentei e vivenciei. Ah! Sim! Entrei na faculdade aos 18 anos, na Fesp \u2013 Faculdades de Pernambuco, hoje UPE, mas s\u00f3 me formei aos 50 anos, no ano que completei 50 anos, na Faculdade Frassinetti do Recife &#8211; Fafire. Disso eu me arrependo e muito. Tamb\u00e9m me arrependo de n\u00e3o ter comprado minha casa pr\u00f3pria, isso \u00e9 muito importante que todo jovem fa\u00e7a logo. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds med\u00edocre para o envelhecimento, \u00e9 importante construir alguma estrutura.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea definiria sua vida intelectual? A experi\u00eancia de vida compartilhada com muita gente pelo seu trabalho forjou ou expandiu sua humanidade?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Poxa! \u00c9 dif\u00edcil uma autoavalia\u00e7\u00e3o assim. Me considero uma pessoa muito humana, mas sou meio estourado e \u00e0s vezes magoo as pessoas. Tento me redimir. Dizem que sou dif\u00edcil de ser convencido, que tenho argumentos pra tudo e isso parece ser uma coisa ruim. A experi\u00eancia de vida compartilhada me mostrou que, de fato, a vida \u00e9 bela. Penso que a gente veio a este mundo pra ser feliz e o que for ao contr\u00e1rio, que me deixe ou deixe o outro infeliz, n\u00e3o vale a pena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sou um homem de muitas limita\u00e7\u00f5es intelectuais, o que me salva \u00e9 a minha reconhecida generosidade. Eu corro muito, vou atr\u00e1s, sou entusiasta. O que me fortalece \u00e9 o meu entusiasmo e a minha energia, sempre fui \u201cassulerado\u201d. Ainda vou desenvolver melhor uma metodologia de pesquisa e estudo. N\u00e3o tive tanto acesso a um conhecimento universal, tenho muitas limita\u00e7\u00f5es, fui um leitor sem muitas op\u00e7\u00f5es de escolha, n\u00e3o tinha poder aquisitivo e isso tem repercuss\u00f5es muito s\u00e9rias no futuro de uma pessoa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 1.5rem; text-align: center; color: #000000;\">ANDAR COM F\u00c9, MAS COM ESP\u00cdRITO CR\u00cdTICO<\/span><\/h1>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">Se o Brasil fosse independente n\u00e3o ter\u00edamos tanta fome e tanta dor em nossas terras, nem tanta escravid\u00e3o, poucos bilion\u00e1rios e milh\u00f5es na pobreza.&nbsp;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como \u00e9 sua espiritualidade?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sou cat\u00f3lico, de origem familiar, mas muito cr\u00edtico da Igreja Cat\u00f3lica, tenho pavor da hist\u00f3ria de crimes das religi\u00f5es; tenho muitos amigos e familiares evang\u00e9licos, mas acho hoje os mais radicais e intolerantes, os grandes culpados por termos este presidente do Brasil, pessoa que n\u00e3o gosto nem de dizer o nome. O que me alivia \u00e9 minha espiritualidade, minha rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com as pessoas, com o tempo. Sou uma criatura que reza muito, agrade\u00e7o a Deus, gosto dos Santos Cat\u00f3licos, procuro entender a for\u00e7a dos Orix\u00e1s, pe\u00e7o ajuda \u00e0s minhas amigas esp\u00edritas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o frequento templos, igrejas de nenhuma religi\u00e3o ou seita, mas se tiver uma cerim\u00f4nia e se eu me interessar eu vou. Amo conversar com Deus, com Nossa Senhora, rezo o Credo, rezo para os Anjos e para o Meu Anjo da Guarda. Visito templos como se fossem centros culturais. Tenho medo da morte. Ou seja, sou uma pessoa misturada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tenho maior carinho e admira\u00e7\u00e3o por Dom Helder Camara e por Dom Pedro Casald\u00e1liga. Gritei muito nas ruas em defesa da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o celebraria uma missa pela Independ\u00eancia do Brasil, igual fez o Padre Vitor Miracapillo. Se o Brasil fosse independente n\u00e3o ter\u00edamos tanta fome e tanta dor em nossas terras, nem tanta escravid\u00e3o, poucos bilion\u00e1rios e milh\u00f5es na pobreza. Acho que tenho um espirito revoltoso.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em alguns momentos da hist\u00f3ria, as religi\u00f5es v\u00e3o bem al\u00e9m de um apoio espiritual. Tamb\u00e9m serviram como setores de prote\u00e7\u00e3o aos mais vulner\u00e1veis. Temos como exemplo no Recife a atua\u00e7\u00e3o de Dom Helder Camara, que protegeu os mais fracos. Como voc\u00ea v\u00ea a atua\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es atualmente no Brasil, no Recife?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">As crist\u00e3s, vejo como um mercado livre, cheias de interesses escusos, com patronos e l\u00edderes milion\u00e1rios, cada vez mais dominando os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, desrespeitando a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira que garante o livre exerc\u00edcio religioso. Igrejas tradicionais que violentam os povos de religi\u00f5es afro-brasileiras, intolerantes, segregacionistas que se utilizam da mis\u00e9ria e da fragilidade humana. Religi\u00f5es hist\u00f3ricas que se utilizam da dor dos fi\u00e9is para o enriquecimento e a domina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tenho me preocupado com as muitas den\u00fancias de crimes de lideres das religi\u00f5es de maior espiritualidade. As v\u00e1rias den\u00fancias, que vem de longe, mas seguem at\u00e9 hoje, da invas\u00e3o dessas religi\u00f5es em comunidades dos povos origin\u00e1rios, demonizando as cren\u00e7as ancestrais. Padres e pastores que invadem as florestas em flagrante agress\u00e3o \u00e0 cren\u00e7a ancestral. Sou c\u00e9tico e descrente das religi\u00f5es por causa de seus l\u00edderes. Muito abuso de poder, persegui\u00e7\u00e3o e uso da f\u00e9 para vender mercadorias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Jamais votarei em padre ou pastor para fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Quem quiser ser politico partid\u00e1rio, de carreira que deixe a lideran\u00e7a religiosa para quem tem voca\u00e7\u00e3o e f\u00e9 suficientes. Por outro lado, sou um homem crente, recorro muito a Deus, confio, creio e agrade\u00e7o, mas a cada dia fujo de lideres religiosos. Claro que h\u00e1 as exce\u00e7\u00f5es, desses, normalmente eu gosto muito.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 leu a <em>B\u00edblia<\/em> ou a l\u00ea com regularidade?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Li a <em>B\u00edblia<\/em> como livro de hist\u00f3ria, acho uma obra linda, de uma humanidade comovente, mas n\u00e3o sou um leitor contumaz. Vou aproveitar o estimulo desta pergunta e reler, terei muito a aprender. Encontro nela princ\u00edpios fundamentais para a pessoa de boa-vontade, um livro que deveria ser lido por todas as pessoas, como lugar de reflex\u00e3o para se entender o nosso lugar no mundo. Acho a hist\u00f3ria de Cristo uma refer\u00eancia para se entender o sentido de reciprocidade, de luta, de cren\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">A\u00c7\u00d5ES AFIRMATIVAS<\/span><\/h1>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000000;\">Se os pr\u00f3ximos 520 anos fossem de politicas de repara\u00e7\u00e3o, ainda assim n\u00e3o conseguir\u00edamos reparar todos os crimes contra as pessoas pretas, contra os povos origin\u00e1rios, contra as mulheres, as pessoas com defici\u00eancia, os lgbtqi+, os pobres, os imigrantes<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Quais os tipos de posicionamentos frente aos novos movimentos de afirma\u00e7\u00e3o? \u00c9 poss\u00edvel repara\u00e7\u00e3o? Negros, \u00edndios, mulheres, etc.?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 revoltante viver no Brasil atual, com tanta intoler\u00e2ncia e com a chancela do crime, da viol\u00eancia institucionalizada. O Estado brasileiro patrocinando a viol\u00eancia, o arb\u00edtrio, a viol\u00eancia desumana contra as pessoas indefesas. Se os pr\u00f3ximos 520 anos fossem de politicas de repara\u00e7\u00e3o, ainda assim n\u00e3o conseguir\u00edamos reparar todos os crimes contra as pessoas pretas, contra os povos origin\u00e1rios, contra as mulheres, as pessoas com defici\u00eancia, as pessoas lgbtqi+, as pessoas pobres, os imigrantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mundo tem muitos d\u00e9bitos, o Brasil tem muitos d\u00e9bitos com a humanidade. Eu sou um homem nordestino, classe m\u00e9dia, desnutrido, gay e sinto na pele todas as puni\u00e7\u00f5es por isto.&nbsp; Mas sou branco. Jamais saberei a dor do desrespeito para com as pessoas negras. Meu corpo n\u00e3o sofreu a puni\u00e7\u00e3o perversa, n\u00e3o sofreu a press\u00e3o da persegui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o carrega as marcas do degredo e da escravid\u00e3o. Nunca fui perseguido em um supermercado, mesmo carregando em mim todas as marcas de um povo pobre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Voc\u00ea pergunta se \u00e9 poss\u00edvel a repara\u00e7\u00e3o e eu digo, \u00e9 inadi\u00e1vel, mas n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil com o Estado brasileiro dominado, um Estado perseguidor; todas as inst\u00e2ncias do legislativo sem credibilidade, atuando apenas para os seus interesses; um judici\u00e1rio sem posi\u00e7\u00e3o, que muda de acordo com os ventos; uma pol\u00edcia enfraquecida como institui\u00e7\u00e3o que violenta, inclusive os policiais, estruturas envelhecidas, patriarcais. O trabalho brasileiro absolutamente precarizado. A gest\u00e3o p\u00fablica em frangalhos com desmontes da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o; os munic\u00edpios endividados, com a escuta popular cada vez mais escamoteada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Todos n\u00f3s n\u00e3o negros, n\u00e3o \u00edndios precisamos ter a responsabilidade humana e trabalharmos para diminuir tantas dores, respeitando as diversidades. Sinceramente, este \u00e9 um tema que me deixa fora do eixo, me chama \u00e0 responsabilidade para superar os meus limites e n\u00e3o silenciar, n\u00e3o pactuar, n\u00e3o ficar omisso. Tenho consci\u00eancia de que nunca saberei, em mim, a dimens\u00e3o dessa dor e de todos os desrespeitos e viol\u00eancias, as macro e as microviol\u00eancias. Me sinto inteiramente incompetente diante dessa, de fato, pandemia.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea se define como homem branco, sempre no comando?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Eu sou um trabalhador brasileiro, militante da cultura. N\u00e3o tenho protetores. Os espa\u00e7os que conquistei foram resultado de muitas lutas e suor. Sou defensor dos direitos de todas e de todos, da igualdade de oportunidades; inteiramente comprometido com as lutas libert\u00e1rias e com as lutas por repara\u00e7\u00e3o a todas e todos que tiveram os seus direitos reduzidos por qualquer motivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tenho d\u00favidas de que sou um privilegiado e tenho que ficar atento, permanentemente. Tenho contra mim o fato de ser origin\u00e1rio de uma sociedade branca, autorit\u00e1ria, repressora, machista, excludente, hier\u00e1rquica, de politica de balc\u00e3o, eurocentrista, colonizadora, violenta, escravocrata, de uso da for\u00e7a e do poder. Mas, eu n\u00e3o me sinto herdeiro, n\u00e3o desejo ser herdeiro; tamb\u00e9m, por motivos j\u00e1 falados nessa entrevista, sou violentado e exclu\u00eddo. Mas, repito: n\u00e3o sou negro e nem sou trans e isso faz uma diferen\u00e7a grande a meu favor. Entendo que n\u00e3o basta ser antirracista, tenho que trabalhar, tamb\u00e9m, para impedir novos danos. Esta \u00e9 uma responsabilidade inadi\u00e1vel, de todos. Sofro quando reconhe\u00e7o que poderia ter sido mais propositivo e atento \u00e0 quest\u00f5es humanas de tanta urg\u00eancia.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea viajou muit\u00edssimo a trabalho, mas nunca resolveu sair, se mudar do Recife ou da Regi\u00e3o Metropolitana, por qu\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o teria uma cidade ideal para morar? <\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">No ciclo dos anos de 1980 a 2000 eu recebi muitas propostas de trabalho para S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e Rond\u00f4nia, mas nunca foi minha meta. Acho que tem a ver, primeiro com a minha rela\u00e7\u00e3o com meus pais, preciso ser sincero. Mas, tamb\u00e9m, porque sempre raciocinei que, se todos fossem, como seriam os territ\u00f3rios de origem?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Uma das minhas maiores felicidades durante os governos do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva foram as inaugura\u00e7\u00f5es das Faculdades e dos Institutos Federais no interior do Estado e do Brasil. Tenho alunos desde cedo e ouvi muitas narrativas daqueles que, mesmo sem querer, tinham que sair de suas cidades para vir estudar no Recife. E como eram comuns as l\u00e1grimas e os desabafos, cresci vendo e ouvindo. Cresci acompanhando o \u00eaxodo rural, meu pai, meus tios, primos, todos foram embora para S\u00e3o Paulo, trabalhar na constru\u00e7\u00e3o civil, depois voltavam, casavam e levaram as mulheres. E nunca mais voltavam. Tive a sorte que meu pai n\u00e3o gostou, minha m\u00e3e foi salva do \u00eaxodo, mas na cabe\u00e7a dela este foi um fantasma que sempre a rondou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sou herdeiro do \u00eaxodo rural, das dores das saudades, e acho, tenho certeza, que fui profundamente influenciado por isso. Da\u00ed porque nunca sai.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Claro que perdi em alguns campos, as informa\u00e7\u00f5es chegavam aqui mais tardiamente, a comunica\u00e7\u00e3o toda no Sudeste dominava o povo brasileiro, por isso a for\u00e7a das novelas, dos programas de TV.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Participei do movimento pela Regionaliza\u00e7\u00e3o da Programa\u00e7\u00e3o da Televis\u00e3o e do R\u00e1dio brasileiros, n\u00e3o pod\u00edamos aceitar aquele modelo centralizador, economicamente predat\u00f3rio, excludente. Tudo isso me influenciou para n\u00e3o sair de Pernambuco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Eu, de minha parte, adoraria morar em Manaus, Jo\u00e3o Pessoa, Salvador, Brasilia, Vit\u00f3ria, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo ou Porto Alegre. De Pernambuco&#8230; Arcoverde, Petrolina e Triunfo s\u00e3o as que mais me comovem. Do ponto de vista do teatro, adoro os p\u00fablicos de Pernambuco, tenho muito o que dialogar com todos, n\u00e3o vejo motivos para sair, posso ir e voltar sempre, assim, como sempre fiz. E n\u00e3o me arrependo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">HUMANO, DEMASIADO HUMANO<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 querido por muitos. Mas \u00e9 &#8220;persona non grata&#8221; em algum lugar ou para algu\u00e9m?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tenho como negar que sou muito querido, sinto isso no dia a dia. Claro que sou <em>persona non grata<\/em>. Quando fui presidente da Federa\u00e7\u00e3o do Teatro de Pernambuco, Feteape, nos anos 1980, do s\u00e9culo XX, eu era <em>persona non grata<\/em> dentro da Funda\u00e7\u00e3o de Cultura da Cidade do Recife. Quando eu era presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Cultura, Turismo e Esportes de Camaragibe tinha uma oposi\u00e7\u00e3o feroz na C\u00e2mara de Vereadores, era pequena, mas me criava muitos problemas. E olha que eu acho a exist\u00eancia das oposi\u00e7\u00f5es algo fundamental para a democracia, a vigil\u00e2ncia, a fiscaliza\u00e7\u00e3o e para cobrar o servi\u00e7o p\u00fablico, mesmo que depois, quando est\u00e1 no poder, n\u00e3o fa\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Penso que muitos artistas e produtores que ouviram um n\u00e3o, de mim, sa\u00edram me odiando nos expedientes da funda\u00e7\u00e3o. Sou professor desde os meus 14 anos e profissionalmente desde os 18. Claro que tive alunos que me odiavam, n\u00e3o era o professor bonzinho, era bem severo no cumprimento dos acordos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">No Sesc Pernambuco, fiquei muitos anos como Gestor de Cultura, igualmente muita gente deve ter insatisfa\u00e7\u00f5es. E, tanto na Funda\u00e7\u00e3o de Cultura de Camaragibe, quanto no Sesc, eu tinha o papel de ligar e desligar pessoas e ningu\u00e9m aceita e gosta de ser demitido. H\u00e1 pessoas que n\u00e3o falam comigo at\u00e9 hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Bom&#8230; Como pessoa humana, cidad\u00e3o do mundo, sinceramente, n\u00e3o vislumbro muitos desafetos, mas eles existem, poucos declarados, mas existem. Sou uma pessoa cheia de contradi\u00e7\u00f5es, arroubos e isso deve ter incomodado muita gente. E minha capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o e muitas vezes descabida insist\u00eancia, seguramente, me deu dissabores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que significa o sil\u00eancio?<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\">Respira\u00e7\u00e3o, pausa, Intervalo de grande profundidade, quando o som se permite ouvir na sua sublima\u00e7\u00e3o, espa\u00e7o pra decis\u00e3o, momento quando o olhar ganha mais for\u00e7a e protagonismo, racioc\u00ednio, oxigena\u00e7\u00e3o, intervalo do pulso, hora do bocejo, interregno da pulsa\u00e7\u00e3o, momento oportuno para mudar de dire\u00e7\u00e3o, de posi\u00e7\u00e3o. Boa hora pra perdoar, boa hora pra atacar, suspens\u00e3o da dor, momento exato da morte, momento exato do primeiro, hora exata do nascimento. Movimento impercept\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">POL\u00cdTICA, UMA ARTE DIF\u00cdCIL<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Voc\u00ea trabalhou durante um tempo com pol\u00edticas culturais p\u00fablicas, na articula\u00e7\u00e3o. E em Camaragibe no governo mais diretamente. Sua vis\u00e3o \u00e9 privilegiada. Gostaria que voc\u00ea fizesse uma an\u00e1lise sincera das pol\u00edticas cultuais que s\u00e3o realizadas especificamente pela Prefeitura do Recife e pelo Governo do Estado de Pernambuco. Sei que essas quest\u00f5es s\u00e3o espinhosas, mas seu olhar \u00e9 importante. Por que as rela\u00e7\u00f5es de compadrios e os muros baixos nas pol\u00edticas pernambucanas s<\/strong><strong>\u00e3o&nbsp;<\/strong><strong>t\u00e3o fortemente marcadas por resqu\u00edcios do coronelismo?&nbsp;<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Vou direto ao assunto. Enquanto os setores p\u00fablicos da Cultura ficarem dependentes e ref\u00e9ns dos partidos pol\u00edticos n\u00e3o se vai a lugar algum. Enquanto as secretarias e departamentos de Cultura ficarem ref\u00e9ns da Casa Civil ou das Secretarias de Governo, Gabinete, Administra\u00e7\u00e3o, Economia, Finan\u00e7as, Planejamento, n\u00e3o se chegar\u00e1 a lugar nenhum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Os secret\u00e1rios de Cultura precisam de autonomia politica, financeira e administrativa para governar. H\u00e1 que se ter politica de estado e n\u00e3o politica de governo. Os prefeitos precisam ter responsabilidade na hora de nomear os secret\u00e1rios ou diretores de Cultura. Para mim, falta clareza por parte dos prefeitos e, em muitos casos, responsabilidade, na hora de definir o gestor da \u00e1rea. N\u00e3o quero, nem devo nomear aqui nenhum munic\u00edpio, modo geral, este \u00e9 um grande problema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o politica nas C\u00e2maras de Vereadores na hora da constru\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o de leis para a \u00e1rea: elas precisam ser reparadoras, protetivas, promotoras, para acessibilidade. H\u00e1 pouca ou quase nenhuma escuta, os interesses s\u00e3o diversos, menos para a \u00e1rea.&nbsp;N\u00e3o se entende a for\u00e7a que a Cultura tem como geradora de economias: quanto mais se investe na produ\u00e7\u00e3o local, mais h\u00e1 gera\u00e7\u00e3o de economia no pr\u00f3prio munic\u00edpio. \u00c9 preciso que se entenda, a prioridade de investimento tem que ser na produ\u00e7\u00e3o, no artista, no t\u00e9cnico local.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Isso tem in\u00fameros desdobramentos locais. Na representatividade, na repara\u00e7\u00e3o, na democratiza\u00e7\u00e3o, na democracia cultural, na gera\u00e7\u00e3o de postos de trabalho, na economia e nas finan\u00e7as, no com\u00e9rcio local, na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na seguran\u00e7a, na mobilidade urbana, no turismo, na acessibilidade, na estima do munic\u00edpio e das pessoas, artistas ou n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 que se separar pol\u00edtica de Cultura da realiza\u00e7\u00e3o de eventos. No caso de uma capital como o Recife, para mim este \u00e9 um fator cruel. O evento \u00e9 muito importante, deve fazer parte da politica cultural, mas n\u00e3o pode ser &#8220;a pol\u00edtica&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Quando a secretaria fica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Carnaval, S\u00e3o Jo\u00e3o e Natal e as quest\u00f5es priorit\u00e1rias ficam secundarizadas n\u00e3o tem jeito. H\u00e1 que se resolver esta equa\u00e7\u00e3o e isto \u00e9 uma decis\u00e3o politica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sem querer partidarizar, mas o governo do Jo\u00e3o Paulo, no Recife, deu sinais de que \u00e9 poss\u00edvel: n\u00e3o conseguiu consolidar, n\u00e3o deu tempo, mas foi um avan\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Fortalecer os setores da sociedade civil, ampliar a escuta; honrar os compromissos financeiros com todos, mas em especial com a produ\u00e7\u00e3o do estado e dos munic\u00edpios; qualificar os equipamentos culturais com investimentos e com equipe qualificada, treinada; afirmar os Sistemas de Cultura: Conselhos, Fundos, \u00d3rg\u00e3os p\u00fablicos da Cultura, investimentos; garantir no m\u00ednimo 5% do or\u00e7amento para a Cultura; criar linhas de investimento; criar aproxima\u00e7\u00e3o com a iniciativa privada para que haja investimentos de setores importantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">S\u00e3o muitas frentes, seguramente aqui ainda falta uma infinidade de quest\u00f5es. Mas, seguramente, n\u00e3o pode ser uma tarefa apenas dos secret\u00e1rios ou diretores de Cultura. Isso precisa ser um compromisso, uma responsabilidade dos governantes e dos legisladores. Ser\u00e1 que isso \u00e9 uma utopia?<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Qual sua rea\u00e7\u00e3o diante do avan\u00e7o de um pensamento e uma pr\u00e1tica mais conservadores, das ideias e atitudes fascistas que povoam o mundo nessa fase?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Sem toler\u00e2ncia nenhuma, inadmiss\u00edvel, criminosos ao extremo, sem chance de di\u00e1logo. Tenho medo, tenho muito medo porque os defensores da viol\u00eancia e da morte criminosa s\u00e3o extremistas e eu sou defensor da paz entre os povos. O crescimento da direita fascista no mundo \u00e9 preocupante. Tamb\u00e9m \u00e9 preocupante a ades\u00e3o de parte da imprensa \u00e0s ideias conservadoras.&nbsp;Todos sabemos que muitos dos retrocessos brasileiros contaram com o apoio e a a\u00e7\u00e3o direta de grandes ve\u00edculos da imprensa e das comunica\u00e7\u00f5es. Pol\u00edticos, empres\u00e1rios, banqueiros, grupos de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam participa\u00e7\u00e3o ativa nos avan\u00e7os dessa politica excludente, que beneficia as grandes fortunas e empurram os pobres para situa\u00e7\u00e3o extremada, basta ver o crescimento da fome no mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A arte continuar\u00e1 lutando contra abusos de poder, contra a domina\u00e7\u00e3o dos grandes grupos econ\u00f4micos. E contra as for\u00e7as politicas que oprimem, basta que a gente observe as reformas implementadas nos governos Temer e no atual: precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, perdas de conquistas hist\u00f3ricas, aumento da criminalidade e da viol\u00eancia, crescente armamento da popula\u00e7\u00e3o, perdas no processo de aposentadoria, desmonte das estruturas p\u00fablicas das \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, meio ambiente, cultura, direitos humanos, sem deixar de falar na exist\u00eancia do gabinete do \u00f3dio e toda a sua estrutura de dissemina\u00e7\u00e3o de mentiras e da promo\u00e7\u00e3o de perda de seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<h3><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como voc\u00ea tra\u00e7aria uma cartografia dessa situa\u00e7\u00e3o, desse avan\u00e7o?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Com o golpe de 1964, o brasileiro ficou impedido de exercer o seu direito ao voto, \u00e0 escolha de seus lideres e gestores, foram os tempos dos pol\u00edticos bi\u00f4nicos. Agora, em pleno 2018 o brasileiro, por meio do voto fez escolhas. Isso me assusta, a mem\u00f3ria \u00e9 curta, a significativa elei\u00e7\u00e3o de quadros opressores para a condu\u00e7\u00e3o do Brasil e de estados deixa vis\u00edvel que nossa mem\u00f3ria \u00e9 muito fr\u00e1gil .<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Me preocupa a partidariza\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio, a presen\u00e7a do Judici\u00e1rio em articula\u00e7\u00e3o com corruptos, usurpadores do bem da coletividade, a baixa qualidade dos senadores e deputados federais, a presen\u00e7a de l\u00edderes religiosos crist\u00e3os no Senado, na C\u00e2mara Federal, nas C\u00e2maras Estaduais e nas C\u00e2maras de Vereadores, desviando os objetivos e interferindo na \u00e9tica dessas institui\u00e7\u00f5es. Nunca votei, nem votarei em padre ou pastor para cargo eletivo p\u00fablico, as experi\u00eancias no Brasil s\u00e3o desastrosas, sect\u00e1rias, excludentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o tra\u00e7arei uma cartografia da situa\u00e7\u00e3o, mas chamo a aten\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s, porque n\u00e3o podemos ficar distantes das lutas, das constru\u00e7\u00f5es politicas para garantir um quadro de l\u00edderes pol\u00edticos mais coerentes e comprometidos com as reais necessidades das comunidades.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<h3 class=\"pettitle\" style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">CARTA DOS FAZEDORES DE CULTURA AO SESC PE<\/span><\/h3>\n<h2 class=\"petto\" style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">Para:&nbsp;SESC DE PERNAMBUCO<\/span><\/h2>\n<div style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">O SESC de Pernambuco tem sido fundamental para a mem\u00f3ria, forma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o cultural no nosso Estado. Aproximou pessoas &#8211; trabalhadores e trabalhadoras da cultura e P\u00daBLICO. Promoveu inclus\u00e3o, valorizou e iluminou a diversidade. Criou fluxos de trocas de arte e conhecimento antes nunca vislumbrados. Revelou que a Arte e a Cultura pulsam em todos os rinc\u00f5es pernambucanos. E que Cultura \u00e9 Direito, \u00e9 s\u00edmbolo da nossa identidade, \u00e9 for\u00e7a econ\u00f4mica.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Toda essa marca hist\u00f3rica foi poss\u00edvel porque Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, nosso Z\u00e9 Manoel, compreendeu a Miss\u00e3o da Institui\u00e7\u00e3o e soube com maestria promover a inclus\u00e3o definitiva do SESC-PE na Hist\u00f3ria da Cultura Pernambucana, como qualquer um pode comprovar nos registros oficiais e na mem\u00f3ria de todos os que testemunharam as realiza\u00e7\u00f5es que ele promoveu.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Conhecedor como poucos, das realidades do interior do nosso estado, respeitando e valorizando toda sua diversidade, Z\u00e9 foi &#8211; e \u00e9 &#8211; um gestor respons\u00e1vel e consequente, um t\u00e9cnico e especialista ousado, um parceiro generoso e acolhedor.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Neste tempo de agora, em que a cultura tem sido constantemente atacada desde suas bases, a demiss\u00e3o de Z\u00e9 Manoel, cai sobre n\u00f3s como mais uma agress\u00e3o, por tudo que ele representa, e por toda contribui\u00e7\u00e3o que com certeza poderia dar, n\u00e3o s\u00f3 para o SESC, mas, enquanto SESC, tamb\u00e9m para a cultura pernambucana.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Agradecemos a Z\u00e9 Manoel por ter dedicado 42 anos de sua vida a essa institui\u00e7\u00e3o!<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Quando o SESC demite um profissional como Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, nos demite tamb\u00e9m como cidad\u00e3os e como artistas.<\/span><\/div>\n<div style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/peticaopublica.com.br\/pview.aspx?pi=BR116951\">Peti\u00e7\u00e3o p\u00fablica &#8211; CARTA DOS FAZEDORES DE CULTURA AO SESC PE<\/a><\/span><\/div>\n<\/blockquote>\n<div style=\"padding-left: 80px;\">&nbsp;<\/div>\n<div>\n<blockquote>\n<h3 style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">Resposta do SESC ( Oswaldo Ramos, diretor regional)&nbsp;<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Prezada Sra. Paula de Renor,<\/span><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">Registramos o recebimento de carta encaminhada por Vossa Senhoria representando o grupo intitulado \u201cFazedores de Cultura do Estado de Pernambuco\u201d. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Inicialmente, gostar\u00edamos de agradecer as refer\u00eancias ao Sesc de Pernambuco com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua import\u00e2ncia para a mem\u00f3ria, a forma\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o cultural em nosso Estado. Esse reconhecimento por parte de um grupo seleto de pessoas que subscrevem a referida carta nos envaidece e refor\u00e7a nosso compromisso com o desenvolvimento cultural no territ\u00f3rio pernambucano. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Tamb\u00e9m nos associamos ao reconhecimento do papel extraordin\u00e1rio e essencial do colega Jos\u00e9 Manoel para a constru\u00e7\u00e3o desse ativo, que transborda as fronteiras do nosso Estado. Ao longo dos 42 anos de trabalho no Sesc, Jos\u00e9 Manoel escreveu uma bel\u00edssima hist\u00f3ria de sucesso, que deixa sua marca presente e muito forte no acervo e nas a\u00e7\u00f5es promovidas pelo Sesc. Temos certeza de que sua contribui\u00e7\u00e3o para a Cultura do nosso Estado continuar\u00e1, como sempre, bastante relevante e efetiva, independentemente do seu v\u00ednculo empregat\u00edcio com o Sesc PE. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Por outro lado, no pr\u00f3prio Sesc PE, teremos oportunidade de escrever outros cap\u00edtulos dessa hist\u00f3ria, se for do desejo dele, pois Jos\u00e9 Manoel poder\u00e1 exercer outro importante papel de protagonista, atuando de forma estrat\u00e9gica como consultor, com base na sua experi\u00eancia e conhecimento em outros trabalhos em nossa institui\u00e7\u00e3o. <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">De forma muito respeitosa, como sempre convivemos, gostar\u00edamos de agradecer mais uma vez, cada segundo desses 42 anos que Jos\u00e9 Manoel dedicou ao Sesc PE. O seu legado e a sua hist\u00f3ria permanecer\u00e3o nos inspirando e nos fortalecendo para continuar essa caminhada, seguindo as diretrizes da Pol\u00edtica Cultural do Sesc no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><span style=\"color: #800000;\">Cordialmente,<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #800000;\">Oswaldo Ramos<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<blockquote style=\"padding-left: 80px;\">\n<div style=\"padding-left: 80px;\">&nbsp;<\/div>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Pelo porte franzino, ele bem que poderia ser um personagem de Ariano Suassuna, Jo\u00e3o Grilo ou Chic\u00f3. Pela atitude ligeira e o gosto pelos desafios e os triunfos nas pelejas da vida pode lembrar Trupizupe, o raio da Silibrina, figura criada para o palco por Br\u00e1ulio Tavares. 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