{"id":21744,"date":"2020-08-31T00:57:01","date_gmt":"2020-08-31T03:57:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=21744"},"modified":"2020-08-31T12:34:50","modified_gmt":"2020-08-31T15:34:50","slug":"teatro-para-os-ouvidos-e-outros-sentidoscritica-da-peca-sonora-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/teatro-para-os-ouvidos-e-outros-sentidoscritica-da-peca-sonora-mare\/","title":{"rendered":"Teatro para os ouvidos e outros sentidos<br \/>Cr\u00edtica da pe\u00e7a sonora &#8220;Mar\u00e9&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21745\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21745\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21745\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/escutas1-e1598817793295.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"720\"><p id=\"caption-attachment-21745\" class=\"wp-caption-text\">A atriz C\u00e1ssia Damasceno, da companhia brasileira de teatro.<\/p><\/div>\n<p>A companhia brasileira de teatro prop\u00f5e um encontro diferente. Em vez de refor\u00e7ar o apelo feito \u00e0 exaust\u00e3o para os olhos, o grupo privilegia outro sentido: a audi\u00e7\u00e3o. \u00c9 a partir do ato de ouvir &#8211; se quiser, de olhos fechados, e imaginar e compor e criar as paisagens sussurradas nessas <em>Escutas Coletivas<\/em> &#8211; que se instala o ato teatral<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o apresenta a pe\u00e7a sonora <strong><em>Mar\u00e9<\/em><\/strong>, com dramaturgia e dire\u00e7\u00e3o de Marcio Abreu; desenho sonoro do m\u00fasico e compositor Felipe Storino; e conduzido pelas vozes de C\u00e1ssia Damasceno, Fabio Os\u00f3rio Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Pass\u00f4, Key Sawao e Nadja Naira.<\/p>\n<p>\u00c9 uma cria\u00e7\u00e3o c\u00eanica fincada na dimens\u00e3o sonora. As falas, nas quatro perspectivas do acontecimento, foram gravadas pelos atores individualmente, com seus celulares e enviadas a Abreu e Storino.<\/p>\n<p>Com os espectadores, cada qual no seu canto, com seus fones de ouvidos ou caixas de sons de olhos fechados, ou abertos (naveguei melhor com os olhos cerrados), acomodados em sof\u00e1s, camas, ch\u00e3o ou onde preferisse, sentados, de p\u00e9, deitados, de lado, do jeito que quisesse, durante 40 minutos, ouvimos uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio est\u00e1 dividido em tr\u00eas movimentos. Um pr\u00f3logo em que o diretor exp\u00f5e e contextualiza a a\u00e7\u00e3o, a escuta sonora compartilhada ao mesmo tempo pelas pessoas presentes na sala virtual e a conversa entre a equipe art\u00edstica e o p\u00fablico.<\/p>\n<p><em><strong>Mar\u00e9<\/strong> <\/em>foi escrita em 2015 por Marcio Abreu a pedido do mineiro Grupo Espanca. \u00c9 situada como uma rea\u00e7\u00e3o art\u00edstica ao real: uma chacina ocorrida na Mar\u00e9 em 2013. O Complexo da Mar\u00e9 \u00e9 um dos maiores conglomerados de favelas do Rio de Janeiro, na zona norte da cidade. Naquele ano, o Brasil foi sacudido por uma s\u00e9rie de protestos e manifesta\u00e7\u00f5es de reivindica\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho.<\/p>\n<p>Infelizmente esse n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Exterm\u00ednios e carnificinas s\u00e3o comuns nas \u00e1reas mais perif\u00e9ricas e empobrecidas, n\u00e3o s\u00f3 do Rio de Janeiro, como nas diversas cidades do pa\u00eds. S\u00e3o crimes cometidos normalmente pela pol\u00edcia ou pela mil\u00edcia. Atrocidades frequentemente acobertadas ou n\u00e3o combatidas com efic\u00e1cia pelo Estado.<\/p>\n<p>As figuras desta pe\u00e7a sonora moram num espa\u00e7o ex\u00edguo &#8211; &#8220;uma lata de sardinha&#8221;, o que n\u00e3o facilita a intimidade do casal: &#8220;Esse homem \u00e9 gostoso me pega quietinho&#8221; &#8211; exp\u00f5e a alta voltagem de amorosidade dos seus integrantes. Os adultos trabalham longe de casa e perdem muito tempo no trajeto. A av\u00f3 assume a ancestralidade, a viga mestra; as crian\u00e7as, os tesouros; a m\u00e3e e o pai.<\/p>\n<p>Cada um desses quatro focos narra, do seu \u00e2ngulo, a viol\u00eancia policial em um dia de brincadeiras, televis\u00e3o apaziguadora, &#8220;o melhor feij\u00e3o do mundo&#8221;, o chamego no canto.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno teatral se confere pela escuta. A dimens\u00e3o ac\u00fastica se faz corpo, que quase podemos tocar. Os materiais sonoros sobrepondo em camadas sucessivas, entrecruzadas pela entendimento individualizado num presente compartilhado.<span style=\"color: #000000;\"> Imersos nessas son\u00e2ncias, cargas mn\u00e9sicas pessoais, imagina\u00e7\u00e3o, marcas na carne, pele e osso se cruzam para cortar resqu\u00edcios de indiferen\u00e7a. \u00c9 pela escuta que poderemos transformar o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p>A Av\u00f3, de Grace Pass\u00f4, tra\u00e7a uma musicalidade t\u00e3o pr\u00f3pria, t\u00e3o acolhedora, quase uma cantilena que brinca com fluxos vocais de espacialidade, temperatura, texturas. Todas as quatro perspectivas de <strong><em>Mar\u00e9<\/em> <\/strong>incitam a raras percep\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es de pertencimento a uma presen\u00e7a coletiva costurada pelo tempo de comunh\u00e3o pelas vozes, pelo som.<\/p>\n<p>As escolhas sonoras do m\u00fasico Felipe Storino para materializar a chegada da pol\u00edcia, levam a lugares mais po\u00e9ticos, menos \u00f3bvios do que uma representa\u00e7\u00e3o hiperrealista que inunda os notici\u00e1rios, das imagens sonoras exatas. \u00c9 uma f\u00e1bula contada com paleta de tons ac\u00fasticos mais sutis.<\/p>\n<p><em><strong>Mar\u00e9<\/strong> <\/em>nos chega como insights performativos de uma experi\u00eancia relacional. De um tempo que ativa o entrecruzamento de universos individuais sens\u00edveis, compartilhados um pouco na conversa depois da audi\u00e7\u00e3o. No primeiro dia, uma das participantes levantou uma quest\u00e3o interessante dessa partilha do sens\u00edvel carregada por mem\u00f3rias ditas ou silenciadas, que permitem a cria\u00e7\u00e3o de sentidos t\u00e3o particulares, \u00edntimos at\u00e9. No segundo dia, um homem cego comentou como foi afetado pela obra. Sua fala destaca o quanto precisamos ampliar nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo, para al\u00e9m de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Ouvir como exerc\u00edcio revolucion\u00e1rio, que tanto precisamos, nesses tempos de lacra\u00e7\u00e3o. Possibilidade de expandir o fio do di\u00e1logo humano. Na oitiva grupal a arte assume papel pol\u00edtico, convocando para o presente essa necessidade de sentir o outro. Ou tentar, ao menos.<\/p>\n<p>A dramaturgia textual do Marcio Abreu, sem pontua\u00e7\u00e3o intermediando as inten\u00e7\u00f5es, faz jorrar sentidos diversos. A primeira edi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie <em>Escutas Coletivas<\/em> enfrenta o paradigma da supremacia do olhar, desde sua etimologia de ser o teatro o lugar onde (e de onde) se v\u00ea, para deslocar a possibilidade de \u201cver\u201d com os ouvidos, sentir com o som, ser tocado pelo invis\u00edvel, ser afetado pelo audi\u00e7\u00e3o, por uma dramaturgia sensorial.<\/p>\n<p>Mergulhar nessa <strong><em>Mar\u00e9<\/em><\/strong> com seus timbres e texturas, ritmos sonoros, camadas, din\u00e2micas e insubordina\u00e7\u00f5es do encontro e do toque energ\u00e9tico, tensiona a linguagem por ser ainda e mais m\u00fasica e poesia. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Escutas Coletivas <\/strong><br \/>\npe\u00e7a sonora <em><strong>MAR\u00c9<\/strong><\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> dias <del datetime=\"2020-08-30T19:52:54+00:00\">29<\/del>, <del>30<\/del> e 31 de agosto, \u00e0s 20h30<br \/>\n<strong>Contribui\u00e7\u00e3o<\/strong>: R$ 25, \u00e0 venda no Sympla<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Dramaturgia e dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcio Abreu<br \/>\n<strong>Desenho sonoro:&nbsp; <\/strong>Felipe Storino<br \/>\n<strong>Vozes:<\/strong> C\u00e1ssia Damasceno, Fabio Os\u00f3rio Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Pass\u00f4, Key Sawao, Nadja Naira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A companhia brasileira de teatro prop\u00f5e um encontro diferente. 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