{"id":21653,"date":"2020-08-22T16:02:18","date_gmt":"2020-08-22T19:02:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=21653"},"modified":"2020-08-22T18:35:20","modified_gmt":"2020-08-22T21:35:20","slug":"muribeca-a-sobrevivente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/muribeca-a-sobrevivente\/","title":{"rendered":"Muribeca, a sobrevivente"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21654\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21654\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21654\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/reinaldo-patricio-e1598110064875.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"1303\"><p id=\"caption-attachment-21654\" class=\"wp-caption-text\">Reinaldo Patr\u00edcio em <strong>Muribeca<\/strong>, de Marcelino Freire, dire\u00e7\u00e3o de Breno Fittipaldi e dramaturgia de Wellington Jr&nbsp;<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Muribeca<\/em> <\/strong>\u00e9 t\u00edtulo de um conto de Marcelino Freire publicado no livro <em><strong>Angu de Sangue<\/strong><\/em> (2000). \u00c9 um bairro popular em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, na Regi\u00e3o Metropolitana do Recife. E tem tamb\u00e9m o Aterro Sanit\u00e1rio da Muribeca, mais conhecido como o Lix\u00e3o da Muribeca, desativado por completo, em 17 de julho de 2009, depois de ter sido utilizado por mais de 20 anos como dep\u00f3sito para os res\u00edduos s\u00f3lidos das cidades do Recife, Jaboat\u00e3o dos Guararapes, Cabo e Moreno.<\/p>\n<p>O conto de Freire faz refer\u00eancia ao Lix\u00e3o; a protagonista assume o nome Muribeca e introjeta os elementos do descarte como valor positivo, a sobra como sa\u00edda de sobreviv\u00eancia. O texto faz uma cr\u00edtica feroz ao capitalismo e seus mecanismos de subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Coletivo Angu de Teatro, do Recife, montou em 2004 o espet\u00e1culo <strong><em>Angu de Sangue<\/em><\/strong>&nbsp;e <em><strong>Muribeca<\/strong> <\/em>era um dos quadros mais emblem\u00e1ticos. Defendido pelo ator F\u00e1bio Caio, essa mulher que considera o lixo um para\u00edso tinha nuances de ironia, mas com tra\u00e7os de uma do\u00e7ura revoltada do subalterno e a proje\u00e7\u00e3o do cinismo dos poderosos.<\/p>\n<p>Confesso, Reinaldo Patr\u00edcio, que as imagens da atua\u00e7\u00e3o de Caio ainda dominavam minhas lembran\u00e7as ao come\u00e7ar a assistir <strong><em>Muribeca \u2013 Algo sobre viver.<\/em><\/strong> O trabalho \u00e9&nbsp; fruto da parceria na produ\u00e7\u00e3o do Grupo C\u00eanico Calabou\u00e7o (PE) e do Coletivo (In)comum (RJ), produzido durante a pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>Reinaldo Patr\u00edcio atua de forma visceral, no limite do arrebatamento para defender sua Muribeca. Um tecido vermelho \u00e9 usado como saia e tamb\u00e9m comp\u00f5e o pano de fundo para dar moldura ao quadro. Um fundo infinito. Sim, podemos ler como uma sequ\u00eancia de quadros, encaixilhados na telinha de um \u00fanico celular fincado num ponto da pequena sala do ator. Cabe a ele mudar os enquadramentos com o deslocamento do seu corpo, aproximando-se ou afastando-se da c\u00e2mera.<\/p>\n<p>Essa figura que defende aquele lugar como espa\u00e7o de moradia e sustento, projeto de exist\u00eancia e futuro dos filhos discorre sobre as vantagens de sua vida e acusa o governo de forma violenta por querer desativar o Lix\u00e3o. Ela \u00e9 uma sobrevivente e sabe disso. No fundo, sabe tamb\u00e9m de todas as explora\u00e7\u00f5es e tratamentos desiguais. E d\u00e1 seu grito de revolta.<\/p>\n<p>O n\u00facleo junta pernambucanos que moram em cidades distintas. O trabalho foi erguido atrav\u00e9s de plataformas da internet, com o diretor Breno Fittipaldi fazendo suas orienta\u00e7\u00f5es do Recife, nas trocas com Reinaldo Patr\u00edcio e o dramaturgista Wellington J\u00fanior no Rio de Janeiro. Eles executam v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para realizar o trabalho, nessa produ\u00e7\u00e3o que investiga a manifesta\u00e7\u00e3o teatral tensionada pelas novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua interpreta\u00e7\u00e3o antirrealista, o ator transborda e h\u00e1 cenas em que \u00e9 poss\u00edvel ver e sentir o suor, a saliva e outras secre\u00e7\u00f5es dos olhos da boca, da pele derramarem-se pelas telas das m\u00e1quinas. Somos atingidos pelas m\u00e1quinas que fazem arte. Nessa partitura de movimentos, os quadros se alternam e h\u00e1 muita pot\u00eancia nessas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De dentro de <em><strong>Muribeca<\/strong><\/em>, Reinaldo Patr\u00edcio desliza para outro conto de Marcelino Freire, <em><strong>Amor crist\u00e3o<\/strong><\/em>: \u201cAmor \u00e9 a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que n\u00e3o larga. Na ra\u00e7a. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca\u201d. Esse deslocamento me chegou como um obst\u00e1culo, para depois perceber a jogada da dramaturgia de clamar o amor violento que pulsa em todos os recantos do planeta. Ali est\u00e1 em carne viva. A carne encontrada no Lix\u00e3o, que Muribeca come e oferece ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a aumenta a ac\u00fastica com <strong><em>Mon\u00f3logo ao p\u00e9 do ouvido<\/em><\/strong>, Chico Science, para avocar cabe\u00e7as de movimentos sociais. \u201cO homem coletivo sente a necessidade de lutar&#8230;\u201d, diz o texto de Science. \u201cViva Zapata! Viva Sandino! Ant\u00f4nio Conselheiro! Todos os Panteras Negras! Lampi\u00e3o sua imagem e semelhan\u00e7a&#8230;\u201d A utopia ardendo do Lix\u00e3o para citar a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana de 1910, liderada pelo campon\u00eas Emiliano Zapata; a Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista na Nicar\u00e1gua (1979- 90), comandada por Augusto Sandino, assassinado em 1934; os Panteras Negras, grupo radical na a\u00e7\u00e3o pelos direitos civis dos negros norte-americanos, na d\u00e9cada de 1960; o Canga\u00e7o, com Lampi\u00e3o no Nordeste do Brasil e o Movimento de Canudos, fundado por Ant\u00f4nio Conselheiro e abatido pelo Ex\u00e9rcito em 1897.<\/p>\n<p>Depois de uma apresenta\u00e7\u00e3o de pouco mais de meia hora, artistas e p\u00fablico conversam sobre a pe\u00e7a ou outro nome que queiram dar. Na sess\u00e3o que assisti, pessoas de v\u00e1rias partes do pa\u00eds (Recife, Porto Alegre, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais&#8230;) trocaram palavras amorosas sobre <strong><em>Muribeca \u2013 Algo sobre viver<\/em><\/strong>. Numa conversa horizontalizada e afetuosa, os artistas falaram do processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia. Receberam os elogios de quem ficou para o bate-papo e se sentiu tocado pela energia do trabalho, o talento do ator Reinaldo Patr\u00edcio e a paix\u00e3o de todos os envolvidos nessa experi\u00eancia. Vida longa \u00e0 <em><strong>Muribeca<\/strong> <\/em>e outros desdobramentos. A arte se reinventa a qualquer tempo.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>MURIBECA Algo sobre viver<\/strong><\/em><br \/>\n<strong>Quando<\/strong>: todos os s\u00e1bados de agosto, \u00e0s 21h<br \/>\n<strong>Ingressos<\/strong>: A partir de R$ 10 (contribui\u00e7\u00f5es conscientes \u00e0 venda no Sympla)<br \/>\n<strong>Onde<\/strong>: online, atrav\u00e9s da plataforma Zoom.<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Texto<\/strong>: Marcelino Freire<br \/>\n<strong>Dramaturgismo<\/strong>: Wellington J\u00fanior<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong>: Breno Fittipaldi<br \/>\n<strong>Elenco: <\/strong>Reinaldo Patricio<br \/>\n<strong>Cen\u00e1rio e Figurino<\/strong>: Breno Fittipaldi e Reinaldo Patricio<br \/>\n<strong>Sonoplastia<\/strong>: Breno Fittipaldi<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o<\/strong>: Wellington J\u00fanior<br \/>\n<strong>Designer<\/strong>: Alberto Saulo<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva<\/strong>: Breno Fittipaldi, Reinaldo Patricio, Uir\u00e1 Clemente e Wellington J\u00fanior<br \/>\n<strong>Cria\u00e7\u00e3o: <\/strong>Coletivo (In)comum e Grupo Calabou\u00e7o e Grupo Bixigalixa<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o: <\/strong>Patricius Produ\u00e7\u00f5es<br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o <\/strong>: 35min<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muribeca \u00e9 t\u00edtulo de um conto de Marcelino Freire publicado no livro Angu de Sangue (2000). \u00c9 um bairro popular em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, na Regi\u00e3o Metropolitana do Recife. 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