{"id":21363,"date":"2020-04-14T11:24:22","date_gmt":"2020-04-14T14:24:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=21363"},"modified":"2021-01-14T20:28:21","modified_gmt":"2021-01-14T23:28:21","slug":"a-arte-possivel-depois-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-arte-possivel-depois-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"A arte poss\u00edvel depois do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21371\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-arte-possivel-depois-do-fim-do-mundo\/img_9926-2-2\/\" rel=\"attachment wp-att-21371\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21371\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21371\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_9926.2-1-e1586621616703.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-21371\" class=\"wp-caption-text\">Estudo n\u00ba1: Morte e Vida, processo do grupo Magiluth, emblem\u00e1tico em tempos de pandemia. Foto: Vitor Pessoa<\/p><\/div>\n<p>Tinham acabado de se mudar para uma casa nova. Estavam submersos no movimento de cria\u00e7\u00e3o. A vida corria como sempre corre, havia muitas coisas de ordens diversas para dar conta. De repente, sem que ningu\u00e9m se apercebesse com propriedade dos avisos que vinham de outros lugares, depois de um carnaval intenso, pararam. Foram parados. Seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es de quem junta l\u00e9 com cr\u00e9, o grupo Magiluth obedece \u00e0 quarentena por conta dessa pandemia que nos assola. Inseridos numa realidade ampla, complexa e cruel de desemparo \u00e0s artes no pa\u00eds, os pernambucanos est\u00e3o preocupados com a sobreviv\u00eancia como grupo e como indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A primeira estrat\u00e9gia de resist\u00eancia \u00e0 crise foi articulada rapidamente. Como estavam em pleno processo de cria\u00e7\u00e3o de um novo trabalho, intitulado<em> Estudo n\u00ba1: Morte e Vida<\/em>, inspirado na obra de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, com dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Mercadante, jogaram na internet os materiais produzidos e venderam ingressos antecipados para a temporada de estreia. Giordano Castro, ator e dramaturgo do grupo, diz que \u201capelamos para o carinho que o p\u00fablico tem com o Magiluth, como um voto de credibilidade. Fizemos uma venda de ingressos antecipada sem saber ainda qual ser\u00e1 a data de estreia. (&#8230;) N\u00e3o conseguiu sanar a situa\u00e7\u00e3o, mas no ajudou no m\u00eas de abril\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do grupo \u00e9 mais cr\u00edtica porque, em janeiro, a companhia inaugurou o Casar\u00e3o Magiluth, um espa\u00e7o cultural na Rua da Gl\u00f3ria, na Boa Vista, bairro central da cidade do Recife. Al\u00e9m de servir de terreira para a trupe, a ideia \u00e9 que o local abrigue eventos, espet\u00e1culos, shows, performances, lan\u00e7amento de livros, cursos e o que mais a imagina\u00e7\u00e3o possa permitir. O Casar\u00e3o de n\u00famero 465 est\u00e1 revestido de mem\u00f3rias e hist\u00f3rias. De 1993 a 2014, funcionou l\u00e1 o Espa\u00e7o In\u00e1cia Rap\u00f4so Meira, tocado na base da perseveran\u00e7a e da dedica\u00e7\u00e3o pela atriz Socorro Rap\u00f4so, que interpretou Nossa Senhora na primeira montagem do <em>Auto da Compadecida<\/em>, de Ariano Suassuna, em 1956. Ela tamb\u00e9m integrou o elenco de outra montagem da pe\u00e7a, que ficou em cartaz por quase 20 anos. Devido a um aneurisma que a mant\u00e9m acamada h\u00e1 anos, Socorro se afastou das atividades do espa\u00e7o.<\/p>\n<div id=\"attachment_21372\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-arte-possivel-depois-do-fim-do-mundo\/magiluth-por-estudio-orra-2\/\" rel=\"attachment wp-att-21372\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21372\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21372\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Magiluth-por-Est\u00fadio-Orra-2-e1586621783503.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-21372\" class=\"wp-caption-text\">Casar\u00e3o na Rua da Gl\u00f3ria foi inaugurado em janeiro. Foto: Est\u00fadio Orra<\/p><\/div>\n<p>O Magiluth investiu todo o caixa do grupo na empreitada. \u201cTudo que t\u00ednhamos entrou no Casar\u00e3o.&nbsp; Foram R$ 76 mil gastos.&nbsp; E agora \u00e9 viver dia ap\u00f3s dia e esperar as not\u00edcias\u201d, conta o ator M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral. \u201cFizemos um acordo com a propriet\u00e1ria para paralisar o aluguel e conseguimos pagar as contas no dia 5 de abril. Quando chegar 5 de maio, n\u00e3o sabemos como ser\u00e1 nossa vida\u201d, complementa.<\/p>\n<p>\u201cA verdade \u00e9 que acende uma luz que vai al\u00e9m da vermelha. V\u00edamos o Casar\u00e3o como uma carta na manga. Entendendo que a pol\u00edtica desse governo Bolsonaro para a cultura e para o teatro \u00e9 muito deficit\u00e1ria, a gente sabia que, em algum momento, ir\u00edamos sofrer com esses cortes, cortes de or\u00e7amento para festivais, com o corte de or\u00e7amento para incentivo \u00e0 Cultura, com a persegui\u00e7\u00e3o que o Governo faz ao Sesc. Sab\u00edamos que, em algum momento, essa corda ia apertar no pesco\u00e7o. A carta na manga era o Casar\u00e3o. A\u00ed fomos pegos pela pandemia. Toda a sociedade. \u00c9 um balde de \u00e1gua fria\u201d, explica Giordano Castro.<\/p>\n<p>Sem que haja uma disputa por prioridades \u2013 j\u00e1 que garantir a vida \u00e9 a maior delas neste momento \u2013 os atores pedem aten\u00e7\u00e3o dos governos, nos \u00e2mbitos do munic\u00edpio e do estado para, por exemplo, desburocratizar pagamentos de cach\u00eas, inclusive de grandes eventos como o carnaval, e de projetos, como aqueles aprovados pelo Funcultura. \u201cTemos projetos aprovados no Funcultura que ainda n\u00e3o recebemos. Um deles \u00e9 o projeto de Mir\u00f3, que \u00e9 do Funcultura 2017\/2018 que ainda n\u00e3o foi pago. J\u00e1 foi lan\u00e7ado outro edital, premiado outro e esse ainda n\u00e3o foi pago. Isso ajudaria muito o Magiluth a conseguir mais um tempo de vida, conseguir viver de uma forma mais segura dentro dessa quarentena\u201d, explica Giordano. \u201c\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ter um di\u00e1logo dentro da Fundarpe para saber: e a\u00ed? Como \u00e9 que \u00e9? Quando vem? Uma coisa era presencial, chegar l\u00e1 no espa\u00e7o, bater na porta das pessoas e falar. Mas agora voc\u00ea n\u00e3o sabe com quem falar. Onde est\u00e3o essas pessoas? Quem pode resolver?\u201d, pondera.<\/p>\n<p>Asm\u00e1ticos, Giordano e M\u00e1rio S\u00e9rgio s\u00e3o considerados grupo de risco para a Covid-19. \u201cSim, tenho medo. De 1 a 10, com certeza 10. Sou asm\u00e1tico e medroso\u201d, diz M\u00e1rio S\u00e9rgio. Giordano, pai do beb\u00ea Gabo, de poucos meses, tamb\u00e9m sente medo. \u201cEu tenho muito medo de morrer. Tenho muito medo de que as pessoas ao meu redor morram, que os meus companheiros adoe\u00e7am. E eu tenho minha fam\u00edlia, meu filho que acabou de nascer, quero curti-lo, quero viver totalmente\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com o p\u00fablico, o sentimento dif\u00edcil de saber que pessoas que acompanham o trabalho podem ser afetadas. \u201cUm dos espet\u00e1culos mais potentes, que para a gente \u00e9 muito feliz fazer \u00e9 <em>Aquilo que o meu olhar guardou para voc\u00ea<\/em>. Um espet\u00e1culo que a gente traz o p\u00fablico todo para o palco, que estamos muitos pr\u00f3ximos, nos tocamos, conversamos. \u00c9 triste n\u00e3o poder fazer o trabalho que a gente gosta de fazer, mas sabemos que \u00e9 fundamental parar, para que a gente mantenha a vida\u201d, complementa.<\/p>\n<div id=\"attachment_20467\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/curta-sao-paulo-com-os-pernambucanos-magiluth-de-teatro-e-grupo-experimental-de-danca\/magiluth-71-e1500482009651\/\" rel=\"attachment wp-att-20467\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20467\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20467\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/magiluth-71-e1500482009651.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/magiluth-71-e1500482009651.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/magiluth-71-e1500482009651-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-20467\" class=\"wp-caption-text\">Aquilo que o meu olhar guardou para voc\u00ea<\/p><\/div>\n<p>Al\u00e9m de esperar pelos \u201cpulos de olhos fechados nas piscinas\u201d, como diz um trecho da dramaturgia de <em>Aquilo<\/em>, o p\u00fablico pode aguardar \u2013 pelo que foi postado nas redes sociais \u2013 um trabalho contundente de vi\u00e9s social. Depois de <em>Apenas o fim do mundo<\/em>, um texto muito voltado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas, o grupo encara a realidade das migra\u00e7\u00f5es, se questiona o que \u00e9 ser nordestino, pensa sobre a fome, o direito \u00e0 terra, as desigualdades, a ru\u00edna de um sistema capitalista. Realidades que est\u00e3o ainda mais brutais, escancaradas por uma pandemia. Quando o futuro se fizer presente, certamente o que vivemos nesse tempo tamb\u00e9m estar\u00e1 no palco do Magiluth, no Casar\u00e3o da Rua da Gl\u00f3ria e em quaisquer outros tablados poss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Resposta da Fundarpe \u2013<\/strong> O <em>Satisfeita, Yolanda? <\/em>conversou com a assessoria de imprensa da Fundarpe para entender a demora na libera\u00e7\u00e3o do projeto sobre Mir\u00f3, aprovado no Funcultura Geral 2017\/2018. \u201cO referido projeto (&#8230;) apresentou problema de documenta\u00e7\u00e3o, o que fez com que o proponente ficasse inadimplente. O mesmo solicitou ao Funcultura uma prorroga\u00e7\u00e3o do prazo de entrega da documenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao empenho, para resolver a situa\u00e7\u00e3o, mas apenas no final do ano de 2019 a documenta\u00e7\u00e3o foi regularizada. J\u00e1 n\u00e3o havia or\u00e7amento para empenhar o projeto, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para seu pagamento. O projeto segue em an\u00e1lise por\u00e9m, as prioridades de pagamento s\u00e3o para os projetos do ano vigente. Os projetos aprovados nos editais anunciados no final de 2019 receber\u00e3o os recursos t\u00e3o logo a Fundarpe receba autoriza\u00e7\u00e3o de pagamento da Secretaria da Fazenda estadual\u201d, diz a nota da Fundarpe.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao atendimento aos artistas neste per\u00edodo de pandemia, \u201cenquanto durar o isolamento social, o Funcultura est\u00e1 com a sua Unidade de Atendimento ao Produtor Cultural funcionando com atendimento eletr\u00f4nico atrav\u00e9s do e-mail: atendimentosic@fundarpe.pe.gov.br, e telef\u00f4nico pelos n\u00fameros (81) 9.8327.0979 e (81) 3184.3026, de segunda a sexta-feira, das 9h \u00e0s 12h, e das 13h \u00e0s 17h\u201d.<\/p>\n<p>Houve ainda a reabertura do prazo para inscri\u00e7\u00e3o\/renova\u00e7\u00e3o do Cadastro de Produtor Cultural (CPD) at\u00e9 o dia 17 de abril. \u201cO CPC \u00e9 necess\u00e1rio para apresenta\u00e7\u00e3o de projetos para os editais Geral, M\u00fasica e Microprojeto, que tamb\u00e9m tiveram suas inscri\u00e7\u00f5es prorrogadas. O envio da documenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo exclusivamente atrav\u00e9s do e-mail: cpc.funcultura@gmail.com\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinham acabado de se mudar para uma casa nova. Estavam submersos no movimento de cria\u00e7\u00e3o. A vida corria como sempre corre, havia muitas coisas de ordens diversas para dar conta. De repente, sem que ningu\u00e9m se apercebesse com propriedade dos avisos que vinham de outros lugares, depois de um carnaval intenso, pararam. Foram parados. 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