{"id":21190,"date":"2019-11-06T16:02:14","date_gmt":"2019-11-06T19:02:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=21190"},"modified":"2019-11-06T18:51:08","modified_gmt":"2019-11-06T21:51:08","slug":"para-que-pode-servir-uma-poetica-identitaria-ou-sobre-o-beco-sem-saida-de-uma-contracultura-atual-critica-do-espetaculo-res-publica-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/para-que-pode-servir-uma-poetica-identitaria-ou-sobre-o-beco-sem-saida-de-uma-contracultura-atual-critica-do-espetaculo-res-publica-2023\/","title":{"rendered":"Para que pode servir uma po\u00e9tica identit\u00e1ria? Ou sobre o beco-sem-sa\u00edda de uma contracultura atual* <br \/> Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Res Publica 2023"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_21202\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/para-que-pode-servir-uma-poetica-identitaria-ou-sobre-o-beco-sem-saida-de-uma-contracultura-atual-critica-do-espetaculo-res-publica-2023\/dsc_5229-alta-foto-priscila-prade_easy-resize-com\/\" rel=\"attachment wp-att-21202\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21202\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21202\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5229-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_-e1573076756820.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-21202\" class=\"wp-caption-text\">Res Publica 2023 est\u00e1 em cartaz no CCSP at\u00e9 10 de novembro. Foto: Priscila Prade<\/p><\/div>\n<p><strong>*Cr\u00edtica escrita por Stephan Baumgartel, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina\/Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teatro. Colabora\u00e7\u00e3o especial para o <em>Satisfeita, Yolanda?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma vertente de mestres espirituais conhecida no mundo oriental como os <em>malamati<\/em>, os mestres do caminho da culpa e da humilha\u00e7\u00e3o. S\u00e3o mestres que assumem quase que teatralmente a culpa de outras pessoas, com a inten\u00e7\u00e3o de criar situa\u00e7\u00f5es que servem como oportunidade de ensinamento do caminho do amadurecimento da consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Talvez seja esse caminho uma ideia que atravessa mais ou menos, (in)conscientemente, a constru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo <em>RES PVBLICA 2023<\/em>, da companhia <strong>A Motosserra Perfumada<\/strong>, que assisti no Centro Cultural S\u00e3o Paulo (CCSP), no s\u00e1bado do dia 26 de outubro de 2019. Seis personagens instalados num apartamento que mais parece um bunker do que um lugar de conviv\u00eancias. Personagens apresentados numa esp\u00e9cie de pr\u00f3logo como figuras dotadas de clich\u00eas e contradi\u00e7\u00f5es fixas. Est\u00e3o juntos, mas n\u00e3o sabemos ou entendemos se eles de fato convivem. Cada um em seu mundo e juntos no mesmo espa\u00e7o. Vivem seus dramas e conflitos afetivos, sexuais, musicais, morais ou amorais \u2013 todos declarados pelas figuras ficcionais como problemas existenciais, num contexto em que, l\u00e1 fora, patrulham os neofascistas de plant\u00e3o. Ou seja, nesse momento, o paroxismo do mundo privado deve ser visto como for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na tentativa de descrever a po\u00e9tica da cena, quem viveu uma S\u00e3o Paulo dos anos 80 talvez pense no clube Madame Sat\u00e3, no in\u00edcio da <em>new wave<\/em> e do p\u00f3s-punk brasileiro. A compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o me parece errada, se n\u00e3o fosse a insist\u00eancia forte do texto na amea\u00e7a de uma ca\u00e7a aos amorais, \u00e0s minorias desviantes da moralidade normatizada. Uma amea\u00e7a que paira implacavelmente sobre o mundo ficcional da montagem e at\u00e9 motiva, de certa maneira, o tom ora desesperador, ora niilista, ora quase paranoico presente nas a\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es das figuras. Uma amea\u00e7a, entretanto, que existe concretamente em muitos lugares do pa\u00eds, com consequ\u00eancias nefastas e destruidoras para as pessoas que pertencem a esses grupos. Contra esse fundo, a montagem afirma sua vitalidade, sobretudo pela m\u00fasica pulsante, mas tamb\u00e9m por meio de atua\u00e7\u00f5es vibrantes, que buscam uma teatralidade claramente maior que a vida emp\u00edrica ou ostensivamente menor, quase minimalista.<\/p>\n<p>Um tom de deboche perante a moralidade normatizada n\u00e3o falta, como tamb\u00e9m n\u00e3o falta, para que possa desenvolver sua efic\u00e1cia, a provoca\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de colocar o p\u00fablico ora como c\u00famplice da cena ficcional, ora como representante da maioria silenciosa que apoia, com sua in\u00e9rcia, o espet\u00e1culo neofascista. Os tempos, contudo, s\u00e3o mais dif\u00edceis do que aqueles anos 80, pois s\u00e3o mais abertamente brutais e intolerantes hoje. Nessa situa\u00e7\u00e3o, todos n\u00f3s estamos tentados a nos blindarmos em discursos identit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nisso reside o maior desafio da montagem e, talvez, o beco-sem-sa\u00edda da abordagem denominada por mim de \u201c<em>malamati<\/em>\u201d: como mostrar ao p\u00fablico que sua cumplicidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com os gestos revoltados de uma contracultura (que, ali\u00e1s, h\u00e1 tempo perdeu seu horizonte ut\u00f3pico), mas tamb\u00e9m com os desdobramentos monol\u00f3gicos de suas vertentes identit\u00e1rias? Como apresentar a sintom\u00e1tica desse mal-estar a partir de uma posi\u00e7\u00e3o implicada no sintoma, e ao mesmo tempo provocar uma reflex\u00e3o cr\u00edtica? Mas, cr\u00edtica a partir de que horizonte? Apenas a partir da insustentabilidade dessa contracultura como alternativa \u00e0 moralidade normatizada? Como lidar com o problema de que (quase) todos no p\u00fablico sabemos dessa amea\u00e7a e concordamos sobre o nome do inimigo? Como tornar esse (quase) submundo identit\u00e1rio interessante para al\u00e9m do primeiro reconhecimento de seus impasses? Nesse sentido, a montagem precisa lutar constantemente contra a absoluta aus\u00eancia de desdobramentos e conflitos produtivos que esse cen\u00e1rio identit\u00e1rio, de moralistas e amoralistas, pode gerar. A atua\u00e7\u00e3o c\u00eanica, \u00e0s vezes um tanto hist\u00e9rica, ganha sua justificativa aqui: de ser n\u00e3o apenas sintoma de um desespero tem\u00e1tico, mas tamb\u00e9m da falta de um embate din\u00e2mico e dial\u00e9tico que acredite na possibilidade de sua transforma\u00e7\u00e3o qualitativa. N\u00e3o h\u00e1 horizonte de supera\u00e7\u00e3o, mas a exposi\u00e7\u00e3o do beco-sem-sa\u00edda atual, criado tamb\u00e9m por certa contracultura ensimesmada.<\/p>\n<div id=\"attachment_21203\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/para-que-pode-servir-uma-poetica-identitaria-ou-sobre-o-beco-sem-saida-de-uma-contracultura-atual-critica-do-espetaculo-res-publica-2023\/dsc_5108-alta-foto-priscila-prade_easy-resize-com\/\" rel=\"attachment wp-att-21203\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-21203\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-21203\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"854\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_.jpg 1280w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/DSC_5108-alta-foto-priscila-prade_Easy-Resize.com_-624x416.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-21203\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo tem texto e encena\u00e7\u00e3o assinados por Biagio Pecorelli. Foto: Priscila Prade<\/p><\/div>\n<p>Se a montagem investe durante boa parte de sua apresenta\u00e7\u00e3o na cumplicidade do p\u00fablico com essa contracultura, tentando sutilmente fazer-nos aceitar o monologismo dos personagens por meio de uma vitalidade visceral da apresenta\u00e7\u00e3o, ela muda de tom no final. Primeiro, por nos lembrar em forma de proje\u00e7\u00f5es gravadas de alguns incidentes de persegui\u00e7\u00e3o brutal \u00e0s minorias presentes na fic\u00e7\u00e3o da cena, sobretudo a transexuais. Se essa tentativa de certa maneira introduz quase uma moral da hist\u00f3ria que talvez duvide do gesto cr\u00edtico anterior e busque for\u00e7adamente acusar o p\u00fablico de manter-se inerte perante o tamanho do problema, o mesmo n\u00e3o posso dizer da \u00faltima cena do espet\u00e1culo, quando a atriz Camila Rios chama ao palco o cachorrinho que foi comentado no mundo ficcional como pertencente aos moradores. O cachorro aparece vestido de uma capa de couro sobre a qual foi costurada uma su\u00e1stica. Nesse gesto, o espet\u00e1culo me parece tentar estabelecer um horizonte autocr\u00edtico tamb\u00e9m: esse mundo ficcional da cena n\u00e3o \u00e9 um contra-mundo, mas compartilha a l\u00f3gica monol\u00f3gica dos neofascistas?<\/p>\n<p>Dessa maneira, o beco-sem-sa\u00edda se completa e o caminho de assumir a culpa de todos se abre para que encontremos uma solu\u00e7\u00e3o fora das condi\u00e7\u00f5es colocadas pelas estrat\u00e9gias que motivam o mundo ficcional e emp\u00edrico apresentados na pe\u00e7a. Para tal, talvez deva-se perguntar quais s\u00e3o os grupos ausentes nesse mundo do bunker? Os trabalhadores formais e informais, o \u201cprecariado\u201d novo, a pequena burguesia instavelmente ocupada em suas atividades econ\u00f4micas \u2013 em outras palavras, aquela parcela de um poss\u00edvel p\u00fablico que n\u00e3o ganha nada concretamente ao adotar posi\u00e7\u00f5es moralistas e identit\u00e1rias, pois essas posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvem nem atenuam a press\u00e3o econ\u00f4mica que a leva para o campo dos \u201cperdedores\u201d da sociedade. Em outras palavras, a sa\u00edda que a pe\u00e7a n\u00e3o sugere diretamente, apenas por meio da cria\u00e7\u00e3o do beco-sem-sa\u00edda de uma pol\u00edtica moralista, teria que ser uma ponte cr\u00edtica para o imagin\u00e1rio desses grupos. Uma ponte para a qual uma abordagem cr\u00edtica focada na pol\u00edtica identit\u00e1ria n\u00e3o pode ser outra coisa que uma armadilha bem-intencionada.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Servi\u00e7o:&nbsp;<\/strong><\/span><br \/>\n<em>Res Publica 2023<\/em>, d&#8217;A Motoserra Perfumada<br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> De quinta a s\u00e1bado, \u00e0s 21h, e aos domingos, \u00e0s 20h. At\u00e9 10 de novembro<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Centro Cultural S\u00e3o Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Para\u00edso)<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong> R$40 e R$20 (meia-entrada). Os ingressos s\u00e3o vendidos pela internet no site Ingresso R\u00e1pido e na bilheteria do teatro duas horas antes do in\u00edcio da pe\u00e7a<br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o:<\/strong> 100 minutos<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o indicativa:<\/strong> 16 anos<br \/>\n<strong>Capacidade:<\/strong> 100 pessoas<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Texto e dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica:<\/strong> Biagio Pecorelli<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Biagio Pecorelli, Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata<br \/>\nDoll e Leonarda Gl\u00fcck<br \/>\n<strong>Diretora de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Danielle Cabral<br \/>\n<strong>Desenho de luz:<\/strong> Cesar Pivetti<br \/>\n<strong>Assistente de ilumina\u00e7\u00e3o e operador de luz:<\/strong> Rodrigo Pivetti.<br \/>\n<strong>Prepara\u00e7\u00e3o Viewpoints:<\/strong> Guilherme Yazbek<br \/>\n<strong>Assistente de dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Dugg Monteiro<br \/>\n<strong>Cen\u00e1rio e figurinos:<\/strong> Rafael Bicudo e Coko<br \/>\n<strong>Design de som\/sonoplastia\/trilha sonora:<\/strong> Dugg Monteiro<br \/>\n<strong>Produtoras de opera\u00e7\u00f5es:<\/strong> Vict\u00f3ria Martinez e Jessica Rodrigues<br \/>\n<strong>Arte de divulga\u00e7\u00e3o:<\/strong> Bruno Caetano<br \/>\n<strong>Fotos de divulga\u00e7\u00e3o:<\/strong> Priscila Prade<br \/>\n<strong>Assessoria de imprensa:<\/strong> Pombo Correio<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> A MOTOSSERRA PERFUMADA<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o geral:<\/strong> DCARTE E CONTORNO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Cr\u00edtica escrita por Stephan Baumgartel, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina\/Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teatro. 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