{"id":20746,"date":"2019-07-16T10:17:45","date_gmt":"2019-07-16T13:17:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=20746"},"modified":"2019-07-18T17:37:10","modified_gmt":"2019-07-18T20:37:10","slug":"corpo-estranho-lirico-e-politico-critica-do-espetaculo-e-l-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/corpo-estranho-lirico-e-politico-critica-do-espetaculo-e-l-a\/","title":{"rendered":"Corpo estranho, l\u00edrico e pol\u00edtico <br \/> Cr\u00edtica do espet\u00e1culo E.L.A"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_20747\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20747\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20747\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/E.L.A-GUILHERME-SILVA--e1563238546163.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-20747\" class=\"wp-caption-text\">E.L.A Foto: Guilherme Silva<\/p><\/div>\n<p><em><strong>E.L.A<\/strong><\/em> \u00e9 primeiro solo da atriz cearense J\u00e9ssica Teixeira. Tem pouco a ver com o <em>Ela<\/em> (<em>Her<\/em>)\u00b8 do diretor e roteirista Spike Jonze, que explora a rela\u00e7\u00e3o de um homem que se apaixona pelo sistema operacional de uma m\u00e1quina. O filme exp\u00f5e a solid\u00e3o contempor\u00e2nea e novas configura\u00e7\u00f5es de relacionamento amoroso. Se pensarmos em esgotamento de modelos h\u00e1 sempre fios de conex\u00e3o nas investiga\u00e7\u00f5es art\u00edsticas atuais. Cito a obra cinematogr\u00e1fica por conta do nome da pe\u00e7a. O t\u00edtulo do espet\u00e1culo remete \u00e0 abreviatura de uma doen\u00e7a: Esclerose Lateral Amiotr\u00f3fica \u2013 ELA.<\/p>\n<p>Segundo informa\u00e7\u00f5es em sites de sa\u00fade, trata-se da degenera\u00e7\u00e3o progressiva dos neur\u00f4nios motores no c\u00e9rebro e na medula espinhal. Isso quer dizer que esses neur\u00f4nios n\u00e3o conseguem transmitir os impulsos nervosos de forma adequada. Essa degenera\u00e7\u00e3o provoca atrofia muscular, seguida de fraqueza muscular crescente. Tamb\u00e9m designada de Lou Gehrig, calcula-se que, no Brasil, 10 mil pessoas t\u00eam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Num mundo t\u00e3o preconceituoso com os que <strong>n\u00e3o<\/strong> est\u00e3o dentro de uma bolha hegem\u00f4nica, vale destacar que Ela n\u00e3o atinge o racioc\u00ednio intelectual, a vis\u00e3o, a audi\u00e7\u00e3o, o paladar, o olfato e o tato. E que, em grande parte dos casos, a esclerose lateral amiotr\u00f3fica n\u00e3o afeta as fun\u00e7\u00f5es sexual, intestinal e vesical.<\/p>\n<p>O astrof\u00edsico brit\u00e2nico Stephen Hawking foi diagnosticado com a doen\u00e7a quando tinha 21 anos de idade. Mesmo sem poder movimentar o corpo ou falar durante a maior parte de sua vida, o cientista avan\u00e7ou em pesquisas na F\u00edsica, com destaque para os trabalhos sobre as origens e estrutura do Universo, fundamentais para entender o papel dos buracos negros.<\/p>\n<div id=\"attachment_20748\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20748\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20748\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/E.L.A-Foto_Carol_Veras-2-1-e1563238970220.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-20748\" class=\"wp-caption-text\">Atriz Jessica Teixeira. Foto: Carol Veras<\/p><\/div>\n<p>Eu me tornei um ser indiscern\u00edvel. N\u00e3o perten\u00e7o a mim mesma&#8221;, registra uma fala do espet\u00e1culo. &#8220;N\u00e3o queremos ver coisa alguma. N\u00e3o queremos que as coisas nos vejam. Como Narciso, que recusa o espelho. Como Salom\u00e9, que decepa a pr\u00f3pria cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Ao tratar de assuntos relacionados diretamente ao corpo &#8211; beleza, sa\u00fade, pol\u00edtica, feminilidade -, a artista envereda pela din\u00e2mica da exclus\u00e3o capitalista. \u00c9 perversa e calculada essa elimina\u00e7\u00e3o de corpos que tem algumas miras priorit\u00e1rias .<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cPudesse ser apenas um enigma. Mas n\u00e3o. O corpo faz problema. O corpo d\u00e1 trabalho. Pode ser muitos. Pode ser, inclusive, o que n\u00e3o queremos. O corpo ser\u00e1 sempre o que ele quiser? \u00c9 social. \u00c9 pol\u00edtico. \u00c9 tecnol\u00f3gico. \u00c9 inconsciente. Pensamento. Desejo. Invis\u00edvel. Invasor. O corpo se despeda\u00e7a. \u00c9 estrutura. \u00c9 movimento. Mas, sobretudo, \u00e9 estranho. Eu sou o outro e a outra. Teimo e re-existo. Ele se degenera e E.L.A se faz imposs\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Texto de apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao carregar epis\u00f3dios biogr\u00e1ficos, a atriz tra\u00e7a em paralelo uma linha hist\u00f3rica desde o corpo da Gr\u00e9cia, encontrando as guerras mundiais e as a\u00e7\u00f5es mais recentes.<\/p>\n<p>J\u00e9ssica fala sobre beleza, outras formas de beleza, jeitos de estar no mundo. Faz do seu corpo um ato pol\u00edtico. Subverte l\u00f3gicas. Convoca o protagonismo para si. Esquadrinha a ditadura do corpo bonito e funcional, aquele que n\u00e3o se encaixasse nessa r\u00e9gua seria exterminado.<\/p>\n<p>A artista desafia a regra e assume sua diferen\u00e7a. A beleza da sua diferen\u00e7a exposta em cena para deslocar olhares contaminados. J\u00e9ssica convoca um olhar l\u00edrico para um lugar \u00e9tico, onde os corpos importam em suas singularidades, sem hierarquiza\u00e7\u00f5es de lutas contra as opress\u00f5es.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo n\u00e3o apresenta propriamente uma hist\u00f3ria. S\u00e3o fragmentos tran\u00e7ados por uma l\u00f3gica de luta, em v\u00e1rias angula\u00e7\u00f5es e miragens. Com a utiliza\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos e imagens em foto, a atriz cita, por exemplo, Josef Mengele &#8211; oficial alem\u00e3o da Schutzstaffel (SS) e m\u00e9dico no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial \u2013 que liderou os procedimentos cient\u00edficos em pessoas que aparentassem algum caractere de defici\u00eancia f\u00edsica ou ps\u00edquica, adotando o m\u00e9todo da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>Em seguida, projeta rob\u00f4s com camisas da sele\u00e7\u00e3o canarinha a defender nas ruas o indefens\u00e1vel. Triste Brasil.<\/p>\n<p>Sabemos que as t\u00e9cnicas de exterm\u00ednio foram sofisticadas e at\u00e9 mesmo legalizadas com manobras do Judici\u00e1rio, Legislativo e Executivo. Os golpes na economia \u2013 previd\u00eancia, direitos trabalhistas, direitos \u00e0 sa\u00fade; redu\u00e7\u00e3o de acesso a educa\u00e7\u00e3o,cultura, futuro, comprometimento das reservas naturais e atentados contra o meio ambiente s\u00e3o mecanismos de aniquilamento de corpos indesejados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_20749\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20749\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20749\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ela-foto_carol_veras-e1563239542758.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-20749\" class=\"wp-caption-text\">E.L.A . Foto: Carol Veras<\/p><\/div>\n<p>No escuro, uma voz com ligeiro sotaque cearense mergulha na subjetividade de autoimagem e autocr\u00edtica para construir uma narrativa. A voz quer que entendamos o corpo, suas dores, limites e prazeres. Que haja um di\u00e1logo honesto com outros corpos.<\/p>\n<p>S\u00e3o alguns minutos. De repente, o espet\u00e1culo dirigido por Diego Landin, explode num clar\u00e3o, um branco chocante que de imediato irrita e machuca os olhos de quem v\u00ea. Esse choque gera uma sensa\u00e7\u00e3o de desconforto. J\u00e9ssica tamb\u00e9m sente desconforto quando seu corpo singular, estranho, com o tronco reduzido &#8211; esse registro diferente do convencional \u2013 chega antes dela para dizer um oi.<\/p>\n<p>Entremeando dados sobre uma poss\u00edvel hist\u00f3ria dos impositores da beleza, a atriz assume pose de diva pop, desafiando as conven\u00e7\u00f5es do olhar atua como ciborgue e vai desconstruindo uma est\u00e9tica. A protagonista acende que \u00e9 o mesmo patamar de opress\u00e3o de que s\u00e3o v\u00edtimas mulheres, nordestinos, pretos, ind\u00edgenas, quilombolas, indiv\u00edduos com algum tipo de defici\u00eancia, perif\u00e9ricos e LGBTs.<\/p>\n<p>O teatro \u00e9 uma m\u00e1quina muito poderosa. <strong><em>E.L.A<\/em> <\/strong>tem um figurino-s\u00edntese da pe\u00e7a, criativo, delicado e agressivo, de Yuri Yamamoto, do Grupo Bagaceira de Teatro, que tamb\u00e9m assina a dire\u00e7\u00e3o de arte. A ilumina\u00e7\u00e3o, de F\u00e1bio Oliveira, com videomapping, contracena com a atriz. E os m\u00fasicos Fernando Catatau e Artur Guidugli est\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica <em>Dancing Barefoot<\/em>.<\/p>\n<p>A montagem mescla momentos de ataque combativos e outros mais l\u00edricos, de uma hist\u00f3ria geral do corpo, \u00e0s especificidades da trajet\u00f3ria de J\u00e9ssica. A artista \u00e9 muito generosa ao desenhar como os poderosos elegem seus alvos de destrui\u00e7\u00e3o, das amea\u00e7as de manda-chuvas e pol\u00edticos \u00e0 sa\u00fade do povo.<\/p>\n<p>Com arte, energia, vigor J\u00e9ssica celebra a vida. \u00c9 testemunha de que a vida \u00e9 extraordin\u00e1ria em muitos aspectos. E comenta qu\u00e3o valioso \u00e9 estar presente, com a possibilidade de se reinventar e, com muita criatividade, ativar os sentidos.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> J\u00e9ssica Teixeira<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o: <\/strong>Diego Landin<br \/>\n<strong>Diretor de arte: <\/strong>Yuri Yamamoto<br \/>\n<strong>Diretor de videomapping:<\/strong> Pedro Henrique<br \/>\n<strong>Consultora dramat\u00fargica: <\/strong>Maria Vit\u00f3ria<br \/>\n<strong>Figurinista: <\/strong>Yuri Yamamoto e Isac Bento<br \/>\n<strong>Core\u00f3grafa: <\/strong>Andr\u00e9ia Pires<br \/>\n<strong>Vocal coach: <\/strong>Priscila Ribeiro<br \/>\n<strong>Escultor: <\/strong>Kazane<br \/>\n<strong>Trilha Sonora: <\/strong>Diego Landin (<em>Dancing Barefoot<\/em> por Fernando Catatau e Artur Guidugli)<br \/>\n<strong>Cenot\u00e9cnico: <\/strong>Marsuelo Sales<br \/>\n<strong>Iluminador: <\/strong>F\u00e1bio Oliveira<br \/>\n<strong>Videoclipe: <\/strong>Gustavo Portela<br \/>\n<strong>M\u00fasica do videoclipe: <\/strong>Sa\u00fade Mec\u00e2nica de Edgar<br \/>\n<strong>Textos: <\/strong>J\u00e9ssica Teixeira, Vera Carvalho e fragmentos de Eliane Robert Moraes e Paul Beatriz Preciado<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o: <\/strong>J\u00e9ssica Teixeira<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o: <\/strong>Cat\u00e1strofe Produ\u00e7\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E.L.A \u00e9 primeiro solo da atriz cearense J\u00e9ssica Teixeira. 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