{"id":20324,"date":"2019-01-31T10:31:38","date_gmt":"2019-01-31T13:31:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=20324"},"modified":"2019-01-31T11:51:44","modified_gmt":"2019-01-31T14:51:44","slug":"os-delatores-e-o-bafo-azedo-do-estado-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/os-delatores-e-o-bafo-azedo-do-estado-2\/","title":{"rendered":"Os delatores e o bafo azedo do Estado"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Sidney Rocha *<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No dia 2 de fevereiro, no Teatro Arraial, reestreia uma pe\u00e7a de Bertolt Brecht: <strong><em>Terror e mis\u00e9ria do III Reich \u2013 O Delator<\/em><\/strong> (1938), na adapta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Francisco Filho. No elenco: Germano Haiut e Stella Maris Saldanha. Assisti \u00e0 pe\u00e7a, antes, com os dois, e irei ver de novo.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo original \u00e9 simplesmente <strong><em>Terror e mis\u00e9ria do Terceiro Reich<\/em><\/strong> (em alem\u00e3o <strong><em>Furcht und Elend des Dritten Reiches<\/em><\/strong><em>,<\/em> ou <strong><em>A vida privada da Ra\u00e7a Superior<\/em><\/strong><em>). <strong>A Dela\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;<\/em>\u00e9 um dos 24 quadros.<\/p>\n<p>Outra pe\u00e7a em cartaz \u00e9 a de Arthur Miller <em><strong>Um panorama visto da ponte<\/strong> (<\/em><em><strong>A View from the Bridge<\/strong>, <\/em>no original), de 1955\/56. Com dire\u00e7\u00e3o de&nbsp;Z\u00e9 Henrique de Paula. E elenco composto por<br \/>\nRodrigo Lombardi, Sergio Mamberti, Antonio Salvador, Bernardo Bibancos, Gabriel Mello,&nbsp;Gabriella Potye, Patricia Pichamone e William Amaral.&nbsp;No Teatro Riomar.<\/p>\n<div id=\"attachment_20315\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20315\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20315\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Um-panorama-visto-da-ponte-Rodrigo-Lombardi-e-Sergio-Mamberti-foto-alan-catan2-e1548881419189.jpeg\" alt=\"Um-panorama-visto-da-ponte-Rodrigo-Lombardi-e-Sergio-Mamberti-foto-alan-catan\" width=\"600\" height=\"400\"><p id=\"caption-attachment-20315\" class=\"wp-caption-text\">Um panorama visto da ponte, com Rodrigo Lombardi e Sergio Mamberti. Foto: Alan Catan \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_20316\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-20316\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-20316\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Terror-e-Mis\u00e9ria-fotografia-Wallace-Fontenelle-e1548881747931.jpg\" alt=\"Germano Haiut e Stela Maris Saldanha em O Delator. Foto: Wallace Fontenelle \/ Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"409\"><p id=\"caption-attachment-20316\" class=\"wp-caption-text\">Germano Haiut e Stela Maris Saldanha em O Delator. Foto: Wallace Fontenelle \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Os dois textos t\u00eam muitos pontos em comum: um \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o de guerra (a meu ver mais melanc\u00f3lica que libertadora) contra o poder. Outro ponto tem a ver com a atmosfera: seja na resid\u00eancia dos Carbone, sob a bruma das docas de <strong><em>Um panorama<\/em>&#8230;<\/strong>, ou na sala de estar do casal classe m\u00e9dia, sob a chuva l\u00e1 fora, de <strong><em>O delator<\/em><\/strong>, h\u00e1 sempre o bafo azedo do Estado contra o indiv\u00edduo impotente. Um s\u00f3 mundo claustrof\u00f3bico, de terror. E a sombra sempre nauseabunda de algu\u00e9m \u00e0 espreita, um acusador.<\/p>\n<p>Caberia um estudo sobre a figura do dedo-duro no teatro, e no teatro da pol\u00edtica, em dias de hoje, com um sistema dividido em procuradoria, defensoria e delatoria:<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o respeito delator, at\u00e9 porque estive presa na ditadura militar e sei o que \u00e9. Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com as pessoas presas e garanto a voc\u00eas que resisti bravamente\u201d, disse a presidente Dilma Rousseff, recentemente, no teatro econ\u00f4mico de Nova Iorque.<\/p>\n<p>O desejo de Brecht e Miller era realmente discutir o tema da dela\u00e7\u00e3o, nos tempos da Juventude Hitlerista, dos anos 30, na Alemanha, de um; e na \u00e9poca do Macarthismo (o nome vem do senador americano Joseph McCarthy), nos anos 50, nos EUA, de outro, onde inimigos eram perseguidos sem tr\u00e9gua. Tempos bem parecidos com os atuais no Brasil, quando um governo fascista e com \u00e2nsias macarthistas monta sua rede de informa\u00e7\u00f5es, como nos piores servi\u00e7os de intelig\u00eancia das ditaduras, criando um asqueroso voluntarismo antidemocr\u00e1tico, com uso maci\u00e7o de mentiras, t\u00e3o inspiradas nos m\u00e9todos de Hitler. \u201cA orienta\u00e7\u00e3o que dou a toda a garotada do Brasil: vamos filmar o que acontece nas salas de aula e divulgar&#8221;, na fala da marionete Bolsonaro.<\/p>\n<p>Na verdade, tanto Brecht quanto Miller sofreram press\u00f5es do macarthismo. Para quem n\u00e3o sabe, Arthur Miller foi intimado pela Comiss\u00e3o de Atividades Antiamericanas (HUAC \u2013 House Un American Activities Committee) e incentivado a entregar colegas, mas se recusou ao papel de delator. Foi por isso processado por \u201catividades comunistas\u201d. Ele conta a atmosfera daqueles tempos, na introdu\u00e7\u00e3o de <strong><em>Collected Plays <\/em><\/strong>(<strong><em>The Theatre Essays Of Arthur Miller<\/em><\/strong>. Introdu\u00e7\u00e3o de Robert A. Martin e Steven R. Centola. Ed. Viking Penguin, 1996):<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cFoi o fato de que uma campanha pol\u00edtica, objetiva, e bem conhecida da extrema Direita ter sido capaz de criar n\u00e3o s\u00f3 o terror, mas uma nova realidade subjetiva, uma verdadeira m\u00edstica que foi gradualmente assumindo at\u00e9 uma aura de santidade. (&#8230;) Era como se o todo o pa\u00eds tivesse nascido outra vez, sem uma mem\u00f3ria sequer de alguma dec\u00eancia elementar que, h\u00e1 um ou dois anos antes, ningu\u00e9m fosse capaz de imaginar que pudesse ser alterada, afastada, esquecida.(&#8230;) Eu vi homens passarem por mim sem sequer acenarem mais, os mesmos, entretanto, que eu conhecia bem h\u00e1 anos. (&#8230;) O terror nessas pessoas estava sendo conscientemente planejado e maquinado, e mesmo assim tudo o que eles conheciam era terror.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Caro Arthur Miller, o senhor est\u00e1 falando mais do nosso tempo que do seu.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o quanto a pol\u00edtica pode estar ligada ao entretenimento, como temia Walter Benjamim, mas aconselho que voc\u00ea passe no teatro, assista \u00e0s pe\u00e7as, se divirta e encontre pontos cr\u00edticos que certamente deixei escapar. Eu irei tamb\u00e9m, principalmente para reencontrar Germano Haiut, a quem dedico esta cr\u00f4nica-resenha.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>* Sidney Rocha <\/strong>\u00e9 escritor e editor, autor de&nbsp;<strong><em>A Est\u00e9tica da Indiferen\u00e7a<\/em><\/strong>&nbsp;(romance, 2018),&nbsp;<strong><em>Guerra de Ningu\u00e9m<\/em>&nbsp;<\/strong>(contos, 2016)&nbsp;<em><strong>Fernanflor<\/strong>&nbsp;<\/em>(romance, 2015),&nbsp;<em><strong>Sofia<\/strong>&nbsp;<\/em>(romance, 2014),&nbsp;<strong><em>O destino das met\u00e1foras<\/em>&nbsp;<\/strong>(contos, 2011, Pr\u00eamio Jabuti),&nbsp;<strong><em>Matriuska<\/em><\/strong>, contos 2009, todos publicados pela Iluminuras.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Servi\u00e7o:<\/h3>\n<p><strong>Um <em>panorama<\/em> visto da ponte<\/strong><br \/>\n2 e 3 de fevereiro. [s\u00e1bado e domingo], \u00e0s 21h.<br \/>\nTeatro Riomar.<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o <\/strong>14 anos.<br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o<\/strong>: 100 minutos aproximadamente.<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong> de Z\u00e9 Henrique de Paula<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Rodrigo Lombardi, Sergio Mamberti, Antonio Salvador, Bernardo Bibancos, Gabriel Mello, Gabriella Potye, Patricia Pichamone e William Amaral<\/p>\n<p><strong>Terror e Mis\u00e9ria no Terceiro Reich -O Delator<\/strong><br \/>\n3 de fevereiro. [domingo], \u00e0s 18h e 19h30.<br \/>\nTeatro Arraial Ariano Suassuna (R. da Aurora, 457).<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o <\/strong>16 anos.<br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o<\/strong>: 30 minutos aproximadamente.<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o<\/strong> de Jos\u00e9 Francisco Filho<br \/>\n<strong>Elenco<\/strong>: Germano Haiut e Stella Maris Saldanha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sidney Rocha * No dia 2 de fevereiro, no Teatro Arraial, reestreia uma pe\u00e7a de Bertolt Brecht: Terror e mis\u00e9ria do III Reich \u2013 O Delator (1938), na adapta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Francisco Filho. No elenco: Germano Haiut e Stella Maris Saldanha. Assisti \u00e0 pe\u00e7a, antes, com os dois, e irei ver de novo. 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