{"id":19857,"date":"2018-04-29T12:54:05","date_gmt":"2018-04-29T15:54:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=19857"},"modified":"2018-05-18T16:31:40","modified_gmt":"2018-05-18T19:31:40","slug":"critica-tutorial-de-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/critica-tutorial-de-tudo\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: Tutorial de tudo*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_19858\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2018\/04\/29\/critica-tutorial-de-tudo\/img_9111\/\" rel=\"attachment wp-att-19858\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19858\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19858\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/IMG_9111-e1525012961982.jpg\" alt=\"Tutorial de tudo faz \u00faltima sess\u00e3o no Teatro Joaquim Cardozo. Foto: Doralice Lopes\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-19858\" class=\"wp-caption-text\">Tutorial de tudo faz \u00faltima sess\u00e3o no Teatro Joaquim Cardozo. Foto: Doralice Lopes<\/p><\/div>\n<p><strong>*Cr\u00edtica escrita por Durval Crist\u00f3v\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que nos ensina esse Tutorial de tudo?<\/strong><\/p>\n<p>No cora\u00e7\u00e3o do bom selvagem todas as virtudes do mundo est\u00e3o gravadas. O mito do bom selvagem foi criado por Rousseau para denunciar a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo pr\u00f3prio homem, mas acabou reduzido a uma imagem po\u00e9tica romantizada que, de certo modo, contribuiu para formar a nossa ideia de crian\u00e7a. Se o homem \u00e9 bom por natureza, as crian\u00e7as, por estarem mais pr\u00f3ximo dela, e ainda n\u00e3o tendo se apropriado da maldade, seriam, portanto, necessariamente boas. Acreditar no bem como princ\u00edpio norteador \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de qualquer sistema \u00e9tico. Para Rousseau, esse processo de naturaliza\u00e7\u00e3o do homem o aproximaria do bem e da moral.<\/p>\n<p>Para outros franceses admir\u00e1veis, como Antonin Artaud ou o Marqu\u00eas de Sade, a crueldade seria o primeiro sentimento que a vida nos imprime. Artaud fala em apetite de vida; Sade, em paix\u00e3o e intemperan\u00e7a. Apesar de a natureza n\u00e3o ter valores, n\u00e3o conseguimos contempl\u00e1-la sem atribuir a ela caracter\u00edsticas humanas, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado nisso. Mas se olharmos para o mar, para o c\u00e9u, para a montanha ou mesmo para dentro de n\u00f3s, a cren\u00e7a nesta natureza amorosa e pac\u00edfica pode n\u00e3o se sustentar. O Marques de Sade disse: \u201cA crueldade \u00e9 o primeiro sentimento que a vida nos imprime. A crian\u00e7a destr\u00f3i seu brinquedo, morde a teta de sua ama-de-leite, estrangula seu passarinho, muito antes de atingir a idade da raz\u00e3o(&#8230;) logo, seria um absurdo estabelecer que \u00e9 consequ\u00eancia da deprava\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Quem acha que crian\u00e7a n\u00e3o tem sexualidade, que crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 perversa, que crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 humana \u2013 \u00e9 um anjinho \u2013, provavelmente nunca conviveu com uma.<\/p>\n<p>Come\u00e7o, desse modo, esta breve reflex\u00e3o logo dizendo que senti falta de alguma crueldade na pe\u00e7a <em>Tutorial de tudo<\/em>, cria\u00e7\u00e3o coletiva dos alunos do quarto per\u00edodo do curso de Teatro, da UFPE, dirigida por Lu\u00eds Reis. Sim, eu sei que a palavra \u201cn\u00e3o\u201d \u00e9 cheia de crueldade, mas \u00e9 crueldade adulta. N\u00e3o precisa abrir uma lagartixa, n\u00e3o precisa matar um passarinho, n\u00e3o precisa morder o coleguinha, mas queria sentir aquele friozinho do medo. O medo nos aproxima da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas, o que fazer com as crian\u00e7as? Eis uma preocupa\u00e7\u00e3o t\u00e3o antiga quanto a hist\u00f3ria do pensamento no Ocidente. Apesar disso, a crian\u00e7a viveu na sombra do pensamento filos\u00f3fico por muitos s\u00e9culos. Ao que me parece, s\u00f3 depois de Nietzsche, a crian\u00e7a passou a interessar verdadeiramente aos pensadores e aos fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s fomos crian\u00e7a um dia, quem envelheceu n\u00e3o pode duvidar disso. Mas a nossa mem\u00f3ria n\u00e3o acessa plenamente esse est\u00e1gio do nosso desenvolvimento. O motivo me parece \u00f3bvio: a mem\u00f3ria depende do desenvolvimento da linguagem, e a linguagem tem como principal meio de express\u00e3o a fala. Inf\u00e2ncia quer dizer <em>in-fale<\/em>, sem fala. Se quisermos falar para todos, o sil\u00eancio talvez seja um bom come\u00e7o. A pe\u00e7a come\u00e7a assim, e \u00e9 cheia de sil\u00eancio e de poesia. Gosto de ir ao teatro para encontrar o contr\u00e1rio da casa, quero dizer: o contr\u00e1rio das nossas vidas. Isso me faz muito bem. N\u00e3o quero pagar para apanhar, j\u00e1 estou dilacerado. A vida arranha, a vida maltrata. Tenho evitado protestos que n\u00e3o sejam t\u00edmidos. Esses mexem mais comigo, parecem mais belos, mais profundos, mais mobilizadores do que certos gritos. <em>Tutorial de tudo <\/em>\u00e9 um protesto t\u00edmido.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 uma obra para todas as idades. Cheio de belas surpresas e de invencionices. Uma \u00fanica palavra \u00e9 utilizada em cena: \u201cn\u00e3o!\u201d, a palavra que mais ouvimos em nossa vida. Desconfio que qualquer pessoa no mundo \u00e9 capaz que entender esse som, em qualquer l\u00edngua. N\u00f3s, artistas de teatro, cortejamos os universais e eles nos rondam como le\u00f5es famintos. A pe\u00e7a tem essa pretens\u00e3o. Acho que at\u00e9 a maior banalidade, quando est\u00e1 posta como obra, ambiciona ser ou participar de algum universal.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o aprendi nada com <em>Tutorial de tudo<\/em>, o espet\u00e1culo n\u00e3o quer ensinar nada. A arte n\u00e3o deveria ensinar nada al\u00e9m da d\u00favida, da contradi\u00e7\u00e3o e do equ\u00edvoco. O teatro \u00e9 uma m\u00e1quina de moer tudo. Ele m\u00f3i at\u00e9 essa gente chata que faz um discurso ass\u00e9ptico para tudo. Eu s\u00f3 me interesso por m\u00e3os sujas ou por quem tem coragem de suj\u00e1-las.<\/p>\n<p>Na dan\u00e7a coletiva do acontecimento teatral, fui arrastado para uma zona de n\u00e3o-conhecimento, fui levado a um lugar chamado inf\u00e2ncia. Senti vontade de falar como as crian\u00e7as que estavam na plateia. E olhe que ningu\u00e9m jogou a\u00e7\u00facar nelas.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 an\u00e1rquico, subversivo. Sa\u00ed do teatro Joaquim Cardozo, naquele domingo, 22 de abril de 2018, com vontade de lutar contra as \u201cadultices\u201d. Numa \u00e9poca que cobra sempre alguma bandeira, <em>Tutorial de tudo<\/em> tamb\u00e9m ergue a sua. Os \u201cn\u00e3os\u201d da cena n\u00e3o s\u00e3o ditos para as crian\u00e7as, t\u00eam os adultos como alvo.<\/p>\n<p>O que costura todas as cenas \u00e9 um elemento simples e ins\u00f3lito, um banal instrumento de trabalho de oper\u00e1rios. Uma ferramenta de trabalho transfigurada, capaz de fazer um barulhinho instigante, um tic-tac, que marca o tempo, que cria toda uma ambi\u00eancia, e que ati\u00e7a a nossa curiosidade. Uma ferramenta que faz m\u00fasica. A pe\u00e7a \u00e9 musical, pulsante. N\u00e3o consegui contar quantos sins foram dados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 inven\u00e7\u00e3o, \u00e0 arte. <em>Tutorial de tudo<\/em> n\u00e3o subestima a intelig\u00eancia dos pequeninos, e procura respeitar o conselho do mestre russo, Stanislavski, aos atores que se dedicam \u00e0 desafiadora miss\u00e3o de representar para as crian\u00e7as: \u201cfaz como se tamb\u00e9m fosse para os adultos, s\u00f3 que melhor!\u201c<\/p>\n<div id=\"attachment_19859\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2018\/04\/29\/critica-tutorial-de-tudo\/img_9131\/\" rel=\"attachment wp-att-19859\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19859\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19859\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/IMG_9131-e1525013343725.jpg\" alt=\"Apenas uma palavra \u00e9 dita no espet\u00e1culo. Foto: Doralice Lopes\" width=\"600\" height=\"400\"><\/a><p id=\"caption-attachment-19859\" class=\"wp-caption-text\">Apenas uma palavra \u00e9 dita no espet\u00e1culo. Foto: Doralice Lopes<\/p><\/div>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/span><br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Aline de Lima, Andresa Sedrez, Cynthya Dias, Danilo Ribeiro, D\u00eanis Lima, Juliana Chaves, Gabriel de Lisboa, Hadassa Melo, Larissa Le\u00e3o, Paix\u00e3o F\u00e9lix, Rafael Dayon, Raphael Bernardo, Raquel Franco, R\u00f4mulo Ramos e J\u00fanior de Lima.<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o geral:<\/strong> Lu\u00eds Reis<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Lu\u00eds Reis e elenco<br \/>\n<strong>N\u00facleo de dramaturgismo:<\/strong> Hadassa Melo (coordena\u00e7\u00e3o), Aline de Lima e Gabriel de Lisboa<br \/>\n<strong>N\u00facleo de encena\u00e7\u00e3o:<\/strong> Raquel Franco (coordena\u00e7\u00e3o), Paix\u00e3o F\u00e9lix e R\u00f4mulo Ramos<br \/>\n<strong>N\u00facleo de dire\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong> Rafael Dayon (coordena\u00e7\u00e3o); Danilo Ribeiro e D\u00eanis Lima (ilumina\u00e7\u00e3o); Andresa Sedrez (maquiagem); Rafael Dayon e Paix\u00e3o F\u00e9lix (figurinos e adere\u00e7os).<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o musical: Cynthya Dias<br \/>\n<strong>N\u00facleo de prepara\u00e7\u00e3o de elenco:<\/strong> Raphael Bernardo (coordena\u00e7\u00e3o) e Juliana Chaves (prepara\u00e7\u00e3o vocal)<br \/>\n<strong>N\u00facleo de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> J\u00fanior de Lima (coordena\u00e7\u00e3o), Andresa Sedrez e Hadassa Melo<br \/>\n<strong>N\u00facleo de media\u00e7\u00e3o:<\/strong> Larissa Le\u00e3o (coordena\u00e7\u00e3o) e Raquel Franco<br \/>\n<strong>Design:<\/strong> Rafael Dayon<br \/>\n<strong>Fotos:<\/strong> Doralice Lopes<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o:<\/strong><br \/>\n<em>Tutorial de tudo<\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> Domingo (29 de abril), \u00e0s 16h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro Joaquim Cardozo (Rua Benfica, 157, Madalena)<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong> Pague Quanto Puder<br \/>\n<strong>Indica\u00e7\u00e3o especial:<\/strong> Crian\u00e7as entre 2 e 6 anos<br \/>\n<strong>Informa\u00e7\u00f5es:<\/strong>(81) 2126-7388<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Cr\u00edtica escrita por Durval Crist\u00f3v\u00e3o O que nos ensina esse Tutorial de tudo? 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