{"id":19752,"date":"2018-03-08T12:06:14","date_gmt":"2018-03-08T15:06:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=19752"},"modified":"2018-03-08T12:50:53","modified_gmt":"2018-03-08T15:50:53","slug":"memorias-das-malvinas-critica-campo-minado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/memorias-das-malvinas-critica-campo-minado\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias das Malvinas. Cr\u00edtica: Campo Minado"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_19758\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19758\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19758\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/0431_Campo-Minado_Teatro-Sesi-SP_02032018_Guto-Muniz-e1520449839229.jpg\" alt=\"Campo Minado. Foto: Guto Muniz \/ Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"420\"><p id=\"caption-attachment-19758\" class=\"wp-caption-text\">Campo Minado. Foto: Guto Muniz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Esses velhos inimigos eram jovens, muitos n\u00e3o tinham voca\u00e7\u00e3o militar. Alguns nem sequer uma ideia precisa do que estavam fazendo naquele conflito armado. Mas foram insuflados ou obrigados por quest\u00f5es nacionalistas dos governantes da ocasi\u00e3o. O espet\u00e1culo <strong><em>Campo Minado<\/em><\/strong>, da escritora, atriz, performer e encenadora argentina Lola Arias, leva ao palco veteranos das duas frentes da Guerra das Malvinas, 35 anos depois. A pe\u00e7a foi exibida na programa\u00e7\u00e3o da 5\u00aa MITsp \u2013 Mostra Internacional de Teatro .<\/p>\n<p>O teatro documental da criadora argentina j\u00e1 rendeu <em>Ch\u00e1cara Para\u00edso<\/em> \u2013 em codire\u00e7\u00e3o com o su\u00ed\u00e7o Stefan Kaegi, ligado ao grupo Rimini Protokoll \u2013 sobre a pol\u00edcia brasileira; <em>El A\u00f1o en que Nac\u00ed,<\/em> em que 11 jovens, filhos de vencedores e vencidos do golpe de Pinochet no Chile recuperaram a vida de seus pais atrav\u00e9s de documentos e hist\u00f3rias; <em>Melancol\u00eda y Manifestaciones<\/em> \u2013 que atravessa&nbsp;o percurso de Lola e de sua fam\u00edlia, com a ditadura militar na Argentina em 1976 e <em>Os Suicidas<\/em>, a partir de um epis\u00f3dio com adolescentes, no norte da Argentina. Por essa rota d\u00e1 para perceber que a diretora est\u00e1 interessada em cavoucar os fiapos de gente que ficam desses traumas.<\/p>\n<p>Em <em>Campo Minado<\/em>, pe\u00e7a representada em ingl\u00eas e espanhol, com legendas em ambas as l\u00ednguas (e em portugu\u00eas), veteranos e sobreviventes do conflito exp\u00f5em um pouco de suas vidas. Vale salientar, o que eles se interessam em expor ou conseguem dividir com o p\u00fablico do teatro. O espet\u00e1culo confronta vis\u00f5es distintas do conflito. E isso inclui a parcela da viv\u00eancia real, com a produ\u00e7\u00e3o ficcional sobre si mesmo, o que produz outra experi\u00eancia real.<\/p>\n<p><strong>Heran\u00e7as sentimentais.<\/strong><\/p>\n<p>Os ensaios para <strong><em>Campo Minado<\/em><\/strong> duraram mais tempo do que a Guerra das Malvinas, diz em palco um dos ex-combatentes. Foram 74 dias de batalha e mais de tr\u00eas meses&nbsp;de&nbsp;processo de cria\u00e7\u00e3o e performance,que geraram uma dramaturgia de autoria compartilhada.&nbsp;<\/p>\n<p>O mosaico do conflito \u00e9 tra\u00e7ado a partir de vis\u00f5es antag\u00f4nicas, dos di\u00e1rios produzidos pelos veteranos ingleses e argentinos, al\u00e9m dos documentos de \u00e9poca e arquivos afetivos dos participantes da montagem e discursos de l\u00edderes pol\u00edticos.&nbsp;<\/p>\n<p>O ent\u00e3o fuzileiro brit\u00e2nico Lou Armour teve sua foto estampada na capa de v\u00e1rios jornais, na ocasi\u00e3o que virou prisioneiro dos argentinos, em 2 de abril de 1982. Para ele uma humilha\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de digerir. Armour protagoniza uma das mais cenas mais comoventes da montagem.&nbsp; Quando ele relembra da morte de um oficial argentino, que confessa em ingl\u00eas que n\u00e3o sabia porque estava lutando. Atualmente Armour&nbsp;d\u00e1 aulas para crian\u00e7as com dificuldades cognitivas.<\/p>\n<p>Ter resistido ao afundamento do navio General Belgrano talvez seja motivo de orgulho do argentino Rub\u00e9n Otero. Talvez. Ele agora toca numa banda de covers dos Beatles.&nbsp;David Jackson exercita sua escuta no seu consult\u00f3rio de psicologia; na guerra ele ouvia e transcrevia c\u00f3digos de r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Atualmente advogado de direito penal, Gabriel Sagastume nunca quis disparar qualquer arma. Sukrim Rai Sukrim Rai foi um &#8216;ghurka&#8217; que manuseava a faca com habilidade, agora trabalha como seguran\u00e7a.&nbsp;Apontador de morteiro durante os dias das Malvinas, Marcelo Vallejo \u00e9 agora campe\u00e3o de triatlo.<\/p>\n<p><strong>Un poquito de historia<\/strong><\/p>\n<p>Lola Arias tinha cinco anos na \u00e9poca da guerra. Ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o percebeu as marcas das feridas deixadas pelo conflito no corpo dos argentinos. A disputa das Malvinas (Falklands, na denomina\u00e7\u00e3o inglesa), ocorreu em 1982, numa contenda armada entre Reino Unido e a Argentina. O territ\u00f3rio da peleja \u00e9 um conjunto de arquip\u00e9lagos austrais do Atl\u00e2ntico sul, junto \u00e0 Patag\u00f4nia, ocupado pelos brit\u00e2nicos desde meados do s\u00e9culo 19, e que os argentinos consideravam uma ocupa\u00e7\u00e3o ilegal.<\/p>\n<p>A Plaza de Mayo, em Buenos Aires, foi palco de um c\u00e9lebre protesto contra a ditadura militar em 30 de Mar\u00e7o de 1982. Para desviar o foco, o general e ditador argentino Leopoldo Fortunato Galtieri Castelli (1926 \u2014 2003) armou uma ofensiva para tomar de volta as Malvinas, e em 2 de abril, tr\u00eas dias depois das manifesta\u00e7\u00f5es contra a ditadura, Galtieri \u00e9 ovacionado na mesma pra\u00e7a. Pareceu uma jogada de mestre para fazer sobreviver uma ditadura \u00e0 beira do colapso.<\/p>\n<p>Nem sempre os ditadores acertam nos c\u00e1lculos. E Galtieri cometeu muitos erros, inclusive de minorar a for\u00e7a de sua advers\u00e1ria, por ser mulher. Margaret Hilda Thatcher, (1925 \u2014 2013), Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, respondeu com uma for\u00e7a-tarefa naval para retomar as ilhas, o que resultou na derrota argentina ap\u00f3s 74 dias de combate. O conflito contabilizou 649 mortos do lado argentino, 258 do lado brit\u00e2nico e 3 civis que habitavam as ilhas.<\/p>\n<p>O n\u00famero de suic\u00eddios motivados por stress p\u00f3s-traum\u00e1tico e depress\u00e3o profunda de ex-combatentes na Argentina j\u00e1 passa dos 500, de acordo com a Federa\u00e7\u00e3o de Veteranos de Guerra. Do lado ingl\u00eas, esse c\u00e1lculo supera os 260, mais do que as baixas brit\u00e2nicas no conflito, segundo&nbsp;segundo a SAMA82 (South Atlantic Medal Association 82).<\/p>\n<div id=\"attachment_19760\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19760\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19760 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/0203_Campo-Minado_Teatro-Sesi-SP_02032018_Guto-Muniz-1-e1520515842420.jpg\" alt=\"Elenco utiliza m\u00e1scaras de \" width=\"600\" height=\"420\"><p id=\"caption-attachment-19760\" class=\"wp-caption-text\">Elenco utiliza m\u00e1scaras de Galtieri e Thatcher. Foto: Guto Muniz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>As Malvinas entram em pano de fundo para tratar desses seis homens veteranos, ingleses e argentinos, arrebentados \/ triturados pela experi\u00eancia da guerra, que transitam no limite da humanidade. O cen\u00e1rio de um est\u00fadio de cinema permite esse mergulho no tempo para reconstruir mem\u00f3rias 35 anos depois do final da disputa. Cada um tem seu momento de fala, at\u00e9 de confronta\u00e7\u00e3o de racioc\u00ednio. Os dois pol\u00edticos &#8211; Galtieri e Thatcher &#8211; aparecem caricaturados por m\u00e1scaras de borracha e discursos inflamados.<\/p>\n<p>&nbsp;A ordena\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo segue uma sequ\u00eancia direta de quadros, que inclui apresenta\u00e7\u00e3o dos participantes, treinamento e admiss\u00e3o como soldados, di\u00e1rio de guerra, mem\u00f3ria\/ perspectiva, diferencial de cada um. Em cenas conectadas por m\u00fasicas tocadas e cantadas ao vivo pelo elenco.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 que ponto se \u00e9 um ser humano, at\u00e9 que ponto se pode matar e morrer por uma ideia\u201d, ecoa no teatro o questionamento da encenadora.<\/p>\n<p><em><strong>Campo minado<\/strong><\/em> nasceu da v\u00eddeo-instala\u00e7\u00e3o <em>Veteranos<\/em>, encomendada a Lola Arias para integrar a mostra mundial <em>After the War<\/em>, pela passagem do centen\u00e1rio da I Guerra Mundial. A criadora juntou uma s\u00e9rie de relatos de ex-combatentes argentinos na Guerra das Malvinas. Depois ela convocou os ingleses, para confrontar no palco os antigos rivais.<\/p>\n<p>Em uma das falas, um dos ex-combatentes confessa: \u201cQuando voltei, a guerra tornou-se uma obsess\u00e3o; a minha mulher chama-me &#8216;monotema&#8217;\u201d. Talvez essa introje\u00e7\u00e3o de personagem de si mesmo justifique performances t\u00e3o apuradas dessas figuras, selecionadas pela diretora entre 60 veteranos dos dois lados do conflito. Ficaram tr\u00eas argentinos, dois ingleses, um nepal\u00eas, do contingente dos gurcas, intimidantes soldados que lutaram ao lado dos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<div id=\"attachment_19763\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19763\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19763\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/0475_Campo-Minado_Teatro-Sesi-SP_02032018_Guto-Muniz-e1520520227844.jpg\" alt=\"Elenco toca ao vivo na pe\u00e7a Campo Minado. Foto Guto Muniz \/ Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"420\"><p id=\"caption-attachment-19763\" class=\"wp-caption-text\">Elenco toca ao vivo na pe\u00e7a Campo Minado. Foto Guto Muniz \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A polifonia deve ter sido mais explosiva durante o processo de constru\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, at\u00e9 chegar ao formato de gestos, pausas, falas curtas ou entrecortadas digamos mais domesticadas, mais no limite do civilizado. As tens\u00f5es s\u00e3o traduzidas numa&nbsp;narrativa fragmentada, de perspectiva diversa. Mas para conviveram entre si nessa passagem art\u00edstica parece-me que cada um deles precisou abdicar da por\u00e7\u00e3o mais furiosa, dos sentimentos mais violentos contra os antigos inimigos. Esse limite humano &#8211; do que \u00e9 preciso abster-se para aceitar minimamente o outro &#8211; chega conciliat\u00f3rio (at\u00e9 certo ponto) tamb\u00e9m nos discursos antib\u00e9licos. Mas aqueles indiv\u00edduos, que passaram pela pr\u00e1tica da guerra, da ronda da morte e das dobras de sentido da exist\u00eancia, sabem muito mais do que \u00e9 preciso abrir m\u00e3o para sobreviver do que n\u00f3s, sentados confortavelmente nas poltronas do teatro.&nbsp;<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s de bandeiras de pa\u00edses estavam homens, atingidos em sua juventude por uma batalha menor, e que redirecionaram suas vidas na idade adulta, com essa carga de experi\u00eancia de matar e ver o companheiro morrer, de sobreviver ao cruzamento de balas, sem talento espec\u00edfico para isso.<\/p>\n<p>Eles se livraram do alvejamento, sobreviveram. Cada qual carrega sua bagagem. Antigos inimigos, toparam construir ou confrontar um relato sobre a mesma luta. E mesmo com toda dificuldade gerada por posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas, acolheram escutar o outro. Reconhecer o humano no outro.<\/p>\n<p>Pelo que se v\u00ea no palco n\u00e3o h\u00e1 convencimentos de parte&nbsp;\u00e0 parte sobre quem tem raz\u00e3o. Lola Arias aposta no teatro como o lugar do encontro, da experi\u00eancia. Tamb\u00e9m da disc\u00f3rdia e do dissenso. Mas com possibilidade de ressignificar o passado e ao atravessar o presente ampliar as perspectivas de futuro.&nbsp;<\/p>\n<p>O que os aproxima, para al\u00e9m da pol\u00edtica, do poder que pende mais para um lado do que para o outro, \u00e9 que todos eles s\u00e3o homens despeda\u00e7ados pela guerra. A chance de matar e o perigo de morrer, o \u00f3dio sem nexo plantado pelos governantes na manipula\u00e7\u00e3o dos destinos, n\u00e3o fizeram deles her\u00f3is. Talvez pelo contr\u00e1rio. Eles carregam a culpa do disparo, do choro pelo inimigo e at\u00e9 por ter sobrevivido. Mas a vida segue. Tem que seguir.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esses velhos inimigos eram jovens, muitos n\u00e3o tinham voca\u00e7\u00e3o militar. Alguns nem sequer uma ideia precisa do que estavam fazendo naquele conflito armado. Mas foram insuflados ou obrigados por quest\u00f5es nacionalistas dos governantes da ocasi\u00e3o. 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