{"id":19486,"date":"2017-10-20T12:35:32","date_gmt":"2017-10-20T15:35:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=19486"},"modified":"2017-10-20T12:35:32","modified_gmt":"2017-10-20T15:35:32","slug":"critica-a-carga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/critica-a-carga\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: A Carga"},"content":{"rendered":"<div style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19488\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o.jpg\" alt=\"A Carga. Foto: Pedro Portugal\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o.jpg 1080w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-144x144.jpg 144w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22548837_10204016743496979_5754475202847058786_o-624x624.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Bailarino e core\u00f3grafo congol\u00eas Faustin Linyekula em A Carga. Foto: Pedro Portugal \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A artista sul- africana Ntando Cele j\u00e1 havia jogado na nossa cara que sabemos pouco sobre a \u00c1frica, continente multifacetado e encaixotado como &#8220;pa\u00eds&#8221; pela mentalidade reducionista e deturpada de europeus e americanos. O bailarino e core\u00f3grafo congol\u00eas Faustin Linyekula exp\u00f5e as feridas e vocifera com seu corpo a quest\u00e3o &#8220;de quem se importa de verdade com o sofrimento alheio&#8221;. \u00c9 preciso afinar a sensibilidade e usar lentes mais humanit\u00e1rias, menos capitalistas para abra\u00e7ar o espet\u00e1culo <em>A Carga (Le Cargo)<\/em>, exibido ontem como parte da programa\u00e7\u00e3o do&nbsp;27\u00ba Festival de Teatro do Agreste &#8211; FETEAG, no Teatro Hermilo Borba Filho (com ar-condicionado desligado durante a apresenta\u00e7\u00e3o, porque o sil\u00eancio \u00e9 um elemento importante&#8230; ah meu sonho \u00e9 que os teatros da cidade possuam refrigera\u00e7\u00e3o silenciosa!).<\/p>\n<p>Com sua conversa de contador de hist\u00f3rias e desejo de acolhimento, ele nos conduziu por suas mem\u00f3rias, hist\u00f3rias pessoais e sua aldeia, lugares perdidos no tempo, afetos desmontados por outras &#8220;ordens de progresso&#8221;. Ele come\u00e7a seu relato dizendo: \u201cEu sou um contador de hist\u00f3rias. Mas eu n\u00e3o estou aqui para contar hist\u00f3rias. Eu estou aqui para dan\u00e7ar\u201d. Para depois indagar: \u201cNesses anos ser\u00e1 que eu dancei verdadeiramente?\u201d; \u201cQue diferen\u00e7a isso faz? E para quem faz?\u201d.<\/p>\n<p>Linyekula levou para a cena um instrumento musical de percuss\u00e3o, dois livros, um computador. Suas narrativas erguem imagens de territ\u00f3rios long\u00ednquos, de trajet\u00f3rias em busca de uma passado que ficou impregnado no seu corpo, que baila uma dan\u00e7a que se perdeu.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o garante micro-ambientes com os claros escuros e sombras que se ampliam nas paredes. A perda produz dor e a melancolia do tempo que se foi. Mas tamb\u00e9m, porque \u00e9 preciso mais que sobreviver, viver, brota festa desses gestos, desse corpo coreogr\u00e1fico que se mexe de forma encantadora.<\/p>\n<p>E ele canta, lindamente. E seu corpo mi\u00fado se agiganta e nos conduz no escuro por seu desejo de resgatar arte de sua inf\u00e2ncia e juventude.<\/p>\n<p>Sua fala vem da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, segundo maior pa\u00eds da \u00c1frica, franc\u00f3fano e com uma popula\u00e7\u00e3o formada por cerca de 200 grupos \u00e9tnicos. Um dos pa\u00edses mais pobres do mundo com baixo IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano), mas ao mesmo tempo, um dos mais ricos do planeta em recursos naturais biodiversificados.<\/p>\n<p>\u00c9 desse lugar, que mudou muitas vezes de nome, que foi articulado esse corpo, atravessado por guerras e assolado por chagas colonialistas e ditaduras, flagelado em sua cultura. Nesse territ\u00f3rio nasceu sua av\u00f3, que ningu\u00e9m sabe a data porque n\u00e3o havia registros.<\/p>\n<p>As marcas e as rela\u00e7\u00f5es de poder est\u00e3o no come\u00e7o do seu discurso, repetido na etapa final do espet\u00e1culo como o refor\u00e7o de uma resist\u00eancia. E da busca de dan\u00e7as que sumiram, dessa <em>carga e<\/em> suas marcas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<div id=\"attachment_19487\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19487\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19487\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22496086_10204016740896914_2178866228319397504_o-e1508509931362.jpg\" alt=\"A Carga. Foto: Pedro Portugal\" width=\"600\" height=\"600\"><p id=\"caption-attachment-19487\" class=\"wp-caption-text\">A Carga. Foto: Pedro Portugal<\/p><\/div>\n<p>Linyekula expressa emo\u00e7\u00f5es \u00edntimas e abarca um pa\u00eds. Resgata em&nbsp;seu texto personagens como um mestre percussionista que conheceu na inf\u00e2ncia, que virou pastor evang\u00e9lico fazedor de milagres e foi proibido de fabricar arte. Tamb\u00e9m busca celebrar a exist\u00eancia de figuras que carregam a sabedoria com a idade.<\/p>\n<p>Esse relato minimalista e que se repete para n\u00e3o se perder, alimenta um tempo de ancestralidades, de conversas olho no olho, que pode incomodar a nossa pressa. Ele se comunica em portugu\u00eas com sotaque franc\u00eas, para evitar a media\u00e7\u00e3o, e um trecho em franc\u00eas.&nbsp; Sua locu\u00e7\u00e3o se refere o tempo todo a uma humanidade esquecida, a um cuidado com o ser que precisa ser recuperado, ressignificando afetos com o sagrado que existe em cada um.<\/p>\n<p>Linyekula potencializa do corpo as muitas vozes que o comp\u00f5em e que formam povo do seu pa\u00eds. Sua coreografia \u00e9 uma postura libertadora. Sua arte , sua dan\u00e7a um ato pol\u00edtico. Faz parte do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, que inegavelmente \u00e9 atravessado pelo lugar de fala e reconhecimento dessa alteridade. Ao final, o laptop desferia imagens suas e dos seus de um retorno ao para\u00edso do afeto, nos convidando para seguir junto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A artista sul- africana Ntando Cele j\u00e1 havia jogado na nossa cara que sabemos pouco sobre a \u00c1frica, continente multifacetado e encaixotado como &#8220;pa\u00eds&#8221; pela mentalidade reducionista e deturpada de europeus e americanos. 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