{"id":19088,"date":"2017-08-10T18:45:32","date_gmt":"2017-08-10T21:45:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=19088"},"modified":"2018-02-25T12:45:24","modified_gmt":"2018-02-25T15:45:24","slug":"quatro-visoes-sobre-dinamarca-do-magiluth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/quatro-visoes-sobre-dinamarca-do-magiluth\/","title":{"rendered":"Quatro vis\u00f5es sobre Dinamarca, do Magiluth"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_18994\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18994\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18994\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/L3040247-e1501852804769.jpg\" alt=\"Dinamarca. Grupo Magiluth. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-18994\" class=\"wp-caption-text\">Dinamarca. Grupo Magiluth. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\">&nbsp;<\/p>\n<p><em>Dinamarca<\/em> estreou na semana passada com apresenta\u00e7\u00f5es lotadas e despertando muitas discuss\u00f5es p\u00f3s-teatro. O novo espet\u00e1culo do Magiluth \u00e9 inspirado em Hamlet, de Shakespeare, mas sua pulsa\u00e7\u00e3o \u00e9 o presente, a crise da humanidade e as quest\u00f5es pol\u00edticas. Eles discutem a ideia de hygge, palavra que cont\u00e9m o segredo da felicidade dinamarquesa, a partir de uma festa de casamento, em que todos bebem espumante, inclusive o p\u00fablico, pelo menos uma tacinha. O coletivo faz uma segunda minitemporada, agora no Teatro Barreto J\u00fanior, no Pina, \u00e0s sextas-feiras deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Como novos espa\u00e7os de cr\u00edtica s\u00e3o muito bem-vindos e as vozes se multiplicam nas m\u00eddias sociais, resolvemos reunir e documentar aqui quatro opini\u00f5es postadas no facebook: de um escritor, uma atriz, um encenador e um pesquisador.<\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\"><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong>Pedro Wagner<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong>Giordano Castro<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong>Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, M\u00e1rio Sergio Cabral e Lucas Torres<br \/>\n<strong>Desenho de Som:<\/strong>Miguel Mendes e Tom\u00e1s Brand\u00e3o (PACHKA)<br \/>\n<strong>Desenho de Luz:<\/strong>Grupo Magiluth<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de Arte:<\/strong>Guilherme Luigi<br \/>\n<strong>Fotografia:&nbsp;<\/strong>Bruna Valen\u00e7a<br \/>\n<strong>Design Gr\u00e1fico:&nbsp;<\/strong>Guilherme Luigi<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico:&nbsp;<\/strong>Lucas Torres<br \/>\n<strong>Realiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: Grupo Magiluth<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o:<\/strong><br \/>\n<em>Dinamarca<\/em><br \/>\n<strong>Quando:&nbsp;<\/strong>Sextas de agosto, \u00e0s 20h<br \/>\n<strong>Onde:&nbsp;<\/strong>Teatro Barreto J\u00fanior, Pina<br \/>\n<strong>Quanto:&nbsp;<\/strong>R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada) na bilheteria ou&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.sympla.com.br\/eventos\/recife-pe?s=Dinamarca\">https:\/\/www.sympla.com.br\/eventos\/recife-pe?s=Dinamarca<\/a><br \/>\n<strong>Dura\u00e7\u00e3o:&nbsp;<\/strong>1h20min<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o<\/strong>: 16 anos<\/p>\n<div id=\"attachment_19092\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19092\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19092\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dinamarca-kkk-1-e1502394334279.jpg\" alt=\"Erivaldo e Pamero. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-19092\" class=\"wp-caption-text\">Erivaldo e Pamero. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SOU OF\u00c9LIA. AQUELA QUE O RIO N\u00c3O CONSERVOU<\/strong><br \/>\n&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;SIDNEY ROCHA&nbsp;<\/p>\n<p>Edgar Alan Poe diz, n&#8217;<em>A Filosofia da Composi\u00e7\u00e3o<\/em>, texto-base em nosso <strong>Curso Escrita Criativa<\/strong>:[&#8230;] <em>&#8220;A morte&#8221;. &#8220;E quando esse assunto, o mais triste de todos, \u00e9 tamb\u00e9m o mais po\u00e9tico?&#8221;. [&#8230;.] &#8220;Quando ele se alia intimamente com a beleza. Logo a morte de uma bela mulher \u00e9, sem d\u00favida alguma, o tema mais po\u00e9tico do mundo\u201d.<\/em><em><br \/>\n<\/em>Quando assisto a adapta\u00e7\u00f5es inspiradas em <em>Hamlet<\/em>, me preocupo em enxergar a imagem de Of\u00e9lia, n\u00e3o a imagem da ninfa, morta pelos pecados do Outro, mas sobretudo Of\u00e9lia, a mulher, que, na maioria das adapta\u00e7\u00f5es, vive s\u00f3 porque Hamlet existe, e n\u00e3o vive nem existe para si mesma; a que \u201co rio n\u00e3o conservou\u201d, lembrada logo no come\u00e7o do texto pancad\u00e3o de <strong><em>Dinamarca<\/em><\/strong>&nbsp;[Grupo Magiluth, 2017], Of\u00e9lia boiando no rio, porque <em>&#8220;A \u00e1gua \u00e9 a p\u00e1tria das ninfas vivas, \u00e9 tamb\u00e9m a p\u00e1tria das ninfas mortas. \u00c9 a verdadeira mat\u00e9ria da morte bem feminina&#8221;,<\/em> disse Bachelard.&nbsp;<\/p>\n<p>Ontem, quando Of\u00e9lia se materializou l\u00edquida &amp; invis\u00edvel sob a luz em <strong><em>Dinamarca<\/em> <\/strong>eu ganhei a noite. Logo ap\u00f3s, naquele carrossel fant\u00e1stico, a Rainha [Giordano Castro] p\u00f5e todos contra a [quarta-]parede: <em>\u201cO que voc\u00ea sabe sobre mulher? Voc\u00ea sabe o que \u00e9 uma mulher? Voc\u00ea sabe o que \u00e9 ser uma mulher? [&#8230;] Voc\u00ea n\u00e3o conhece porra nenhuma.\u201d<\/em> Me lembrei das minhas conversas com Cida Pedrosa e&amp; Renata Pimentel:<br \/>\n\u2013 Onde se encaixa o conceito \u201cLugar da Fala\u201d (ou talvez Lugar do Sil\u00eancio) de cada um, ou cada uma?<\/p>\n<p>Mas fiquei pensando mesmo foi na beleza e na morte, e em Allan Poe, e na morte de Of\u00e9lia como \u201ctexto\u201d e nunca como \u201cimagem\u201d, no Teatro.<\/p>\n<p>E d\u00e1 pra pensar em tudo isso vendo <strong><em>Dinamarca<\/em><\/strong>? D\u00e1. E d\u00e1 pra ver e pensar muito mais. D\u00e1 pra sentir o gosto do beijo e do sangue na boca dos personagens, n\u00f3s, esmagados pelo vapor, sob o impacto da valsa dos nossos desejos.<\/p>\n<p><em>\u201cSomos felizes, n\u00e3o somos? Somos amigos, ou n\u00e3o somos?\u201d <\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo desmoronando em <strong><em><em>Dinamarca<\/em><\/em>.<\/strong><\/p>\n<p>E isso n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. Nem uma indireta.<\/p>\n<p>\u00c9 o fim dos \u2018bons modos\u2019. A extravag\u00e2ncia, e ela me fez lembrar meu <em>Fernanflor&nbsp;<\/em>[Iluminuras, romance, 2016] O hipnotismo. O fim da festa. A morte.<\/p>\n<p>O Magiluth me atingiu pela segunda vez. Mas \u00e9 s\u00f3 a segunda vez que vejo o grupo atuar.<br \/>\nO espet\u00e1culo mais sincero que vi nesses \u00faltimos meses.<\/p>\n<ul>\n<li style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm; text-align: left;\"><strong><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\">Sidney Rocha \u00e9 escritor<\/span><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"attachment_19091\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19091\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19091\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dinamarca-k11-e1502394570311.jpg\" alt=\"Dinamarca. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-19091\" class=\"wp-caption-text\">Dinamarca. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>NA DINAMARCA SOMOS TODOS UM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;M\u00c1RCIA CRUZ<\/p>\n<p>E no distante reino de pessoas cor-de-olhos-azul-bic, o pulso, ainda pulsa! Ao menos, naquele proposto pelo Grupo de Teatro Magiluth. As portas do teatro se abrem e o jogo \u00e9 completamente estabelecido, n\u00e3o h\u00e1 como escapar, n\u00e3o tente sequer respirar, n\u00e3o-vai-dar-tem-po! Sugest\u00e3o: Entregue-se, sem resist\u00eancias! Eles s\u00e3o feras famintas, est\u00e3o \u00e1vidos para iniciar o jogo e mais, eles est\u00e3o precisos.<br \/>\nA ofeg\u00e2ncia das batatas deu espa\u00e7o para eleg\u00e2ncia, e aqui n\u00e3o me refiro ao ambiente de festa e sim \u00e0 precis\u00e3o de quem se busca, de quem mergulha em si mesmo e aprofunda-se naquilo que investiga. Falo dos atores. Mas afinal o que h\u00e1 de t\u00e3o extra-ordin\u00e1rio nesta montagem baseada em <em>Hamlet<\/em>, de Shakespeare? Vou falar apenas sobre <em>Aquilo que meu olhar guardou para voc\u00ea<\/em>, a estrutura narrativa do espet\u00e1culo.<br \/>\nEm Shakespeare a narrativa \u00edmpar \u00e9 totalmente constru\u00edda sobre as personagens, no caso um pr\u00edncipe, uma m\u00e3e, um tio, um fantasma e, em meio a tudo isso, Of\u00e9lia. Em Dinamarca, essas personagens est\u00e3o dilu\u00eddas, e o que \u00e9 potencializado \u00e9 o discurso. Ele foi mastigado, deglutido e digerido pelo grupo.<br \/>\nEm <em>Dinamarca<\/em>, Hamlet est\u00e1 nos poros e na musculatura dos atores. \u00c9 atual, \u00e9 local, \u00e9 universal, s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 do Reino de Deus, n\u00e3o mesmo. E mais, o discurso \u00e9 o cerne de toda a\u00e7\u00e3o e toda a a\u00e7\u00e3o est\u00e1 em constante pulsA\u00e7\u00e3o. Esse movimento remexe \u00e1guas profundas, comunica como \u00e1gua, com fluidez, toca, significa e, de quebra, esse novo discurso-movimento-r\u00edtmico proposto pelo Magiluth ao Hamlet traz \u00e0 tona duas personagens que no texto original ficam em segundo plano, mas em Dinamarca ganham luz e for\u00e7a: Gertrudes e Of\u00e9lia. A narra\u00e7\u00e3o ao final do espet\u00e1culo d\u00e1 o arremate entre o tema \u2013 poder &#8211; e a encena\u00e7\u00e3o. Por tudo isso repito, entregue-se, vale muito \u00e0 pena, at\u00e9 porque na Dinamarca proposta pelo Magiluth, somos todos um. Bravo!<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcia Cruz \u00e9 atriz&nbsp;<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_19093\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19093\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19093\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dinamarca-a1-e1502395783453.jpg\" alt=\"Erivaldo . Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-19093\" class=\"wp-caption-text\">Erivaldo . Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm; text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\">A MASSA PODRE<\/span><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm; text-align: center;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; MARCONDES LIMA<\/span><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129; background: white;\">A massa, podre e inerte, culpando os poderosos. Ela est\u00e1 assim na nossa e na <em>Dinamarca<\/em> de outros. Onde a \u00fanica diferen\u00e7a entre PODRE e PODER est\u00e1 na migra\u00e7\u00e3o de um R.&nbsp;<\/span><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\"><br \/>\n<span style=\"background: white;\">Quando os discursos sofrem de fal\u00eancias m\u00faltiplas de sentidos \u00e9 necess\u00e1rio que busquemos outros tantos. Fique sentido. Fa\u00e7a sentido. Tome um sentido. Encontre um sentido. Sinta-se, esclare\u00e7a-se, pense-se para chegar a algum que possa chamar de seu. Sentido tamb\u00e9m pode ser uma express\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o e cuidado. Duas coisas de que precisamos muito hoje em dia. Ent\u00e3o v\u00e1 ver a vocifera\u00e7\u00e3o c\u00eanica dos Magiluth. V\u00e1 se irmanar com outros na desconstru\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de sentidos. Teatro tamb\u00e9m serve pra isso.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\"><span style=\"font-size: 10.5pt; font-family: 'Helvetica',sans-serif; color: #1d2129;\"><span style=\"background: white;\">Agora se voc\u00ea \u00e9 daquelas pessoas que n\u00e3o conseguem deglutir met\u00e1foras e preferem tudo mastigadinho, pastoso ou liquefeito, se agarre com um pratinho raso de papa do tipo televisiva e rala. Mas vou avisando: ficar no seu pequeno e recluso conforto e satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe levar\u00e1 a lugar algum. Nem o trar\u00e1 a si mesmo.<br \/>\nVai l\u00e1 criatura. Eu fui.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\"><strong>Marcondes Lima \u00e9 encenador<\/strong><\/p>\n<p style=\"background: white; margin: 4.5pt 0cm 4.5pt 0cm;\">&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_19006\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-19006\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19006\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/L3040505-e1501929383268.jpg\" alt=\"O garotinho levando uma li\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-19006\" class=\"wp-caption-text\">O garotinho levando uma li\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">EM <em>DINAMARCA<\/em>, MAGILUTH TE CONVIDA A UMA FESTA, MAS, CUIDADO, UM GOSTO AMARGO PODE PERDURAR!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;LEIDSON FERRAZ<\/p>\n<p>N\u00e3o se engane. Ap\u00f3s toda festa regada a muita bebida \u2013 entre outras drogas l\u00edcitas e il\u00edcitas servidas a rodo \u2013 \u00e9 bem prov\u00e1vel que uma \u201cbad trip\u201d te persiga ap\u00f3s a farra dantesca. Pois \u00e9 mais ou menos isso que o Grupo Magiluth prop\u00f5e com o seu novo espet\u00e1culo, <strong><em>Dinamarca<\/em><\/strong>. A obra \u00e9 farrista, mas, acima de tudo, pol\u00edtica, para al\u00e9m do que a palavra possa conter em seu sentido inicial. Em tempos de Golpe declarado, num pa\u00eds completamente desacreditado por conta dos homens e mulheres que o conduzem, com verdadeiras fac\u00e7\u00f5es apolog\u00e9ticas em confronto permanente, o maior pecado n\u00e3o permitido \u00e9 ficar, hoje, inerte. \u201cSe n\u00e3o h\u00e1 nada mais a fazer, aproveitemos a festa. Sobe o som&#8230;\u201d, grita mais ou menos isto um dos integrantes do grupo em determinado trecho. A proposta \u00e9 c\u00ednica e cai como uma luva em tempos de apatia quase generalizada.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta ferida que os magiluthianos est\u00e3o colocando o dedo, ou melhor, entram com tudo dentro. E usam a met\u00e1fora do pa\u00eds quase perfeito, a Dinamarca, para expor nossos desejos mais rec\u00f4nditos: ser o que n\u00e3o somos realmente. Ao abrir-se a porta do teatro, os atores Giordano Castro, Lucas Torres , M\u00e1rio Sergio Cabral, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera preparam uma confraterniza\u00e7\u00e3o para os convidados, com direito a champanhe para todos, e refor\u00e7am com tanta \u00eanfase o estado de alegria e companheirismo, que de antem\u00e3o j\u00e1 d\u00e1 para descobrir que seremos c\u00famplices de uma mentira reinante. Tudo o que \u00e9 dito e feito \u00e9 d\u00fabio, corrosivo, sacana. E rimos da pr\u00f3pria podrid\u00e3o que h\u00e1 em cada um de n\u00f3s, tendo como refer\u00eancia maior aquele pa\u00eds t\u00e3o soberbamente rico financeiramente e g\u00e9lido nas rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>A obra teve como disparadores iniciais algumas personagens da pe\u00e7a <em>Hamlet<\/em>, de William Shakespeare, minimamente apontada aqui e ali em seu n\u00facleo familiar, pois o que o Grupo Magiluth pretende \u00e9 expor a imund\u00edcie \u00e9tica e de car\u00e1ter que nos corr\u00f3i. A brincadeira \u00e1cida dissolve o pretenso politicamente correto e, pelo simples desejo da perfei\u00e7\u00e3o n\u00f3rdica, inclusive das caracter\u00edsticas f\u00edsicas dos seus cidad\u00e3os, p\u00f5e para fora todos os dissabores em sermos o que somos e, a contrapelo, nos faz ver a enorme quantidade de preconceitos, rancores, indec\u00eancias, \u00f3dios, abusos e intoler\u00e2ncias que carregamos, incluindo quest\u00f5es como supremacia racial, de g\u00eanero, de cor e condi\u00e7\u00e3o social. \u00c9 uma iniciativa pulverizada de refer\u00eancias do tempo presente, certamente fruto de muitas discuss\u00f5es e experimenta\u00e7\u00f5es em sala de ensaio.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 derrubar tudo o que h\u00e1 na bela mesa posta aos convidados, literalmente, e revelar nossos desejos mais s\u00f3rdidos sobre o pr\u00f3ximo. Afinal, d\u00ea poder a um ser e ele mostrar\u00e1 quem \u00e9 na sua ess\u00eancia. H\u00e1 podrid\u00e3o em todo lugar, claro. E neste bolo de gente de um \u201creinado de apar\u00eancias\u201d \u00e9 que se mostra a faceta mais cruel da humanidade: daqueles que arrotam felicidade suprema e n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para os outros. Ou seja, uma festa de \u201cbacanas\u201d nem t\u00e3o bacanas assim. Para aquele p\u00fablico mais jovem que teima em dialogar com os rapazes do Grupo Magiluth apenas pelo riso frouxo, \u00e9 uma segunda \u201cporrada\u201d para frustrar expectativas, pois a primeira j\u00e1 foi dada em <em>O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente<\/em>, produ\u00e7\u00e3o de 2015, tamb\u00e9m com o encenador Pedro Wagner \u00e0 frente. Ali\u00e1s, as duas montagens dialogam profundamente.<\/p>\n<p>Alguns procedimentos estil\u00edsticos vistos ali voltam como parte da assinatura de Pedro Wagner, com pot\u00eancia para bem mais. L\u00e1 est\u00e3o a dancinha do conjunto, os beijos engolidores, a nudez sem desembara\u00e7o, os fios e microfones maltratados, o liquidificar de cl\u00e1ssicos da dramaturgia, os abra\u00e7os profundos e at\u00e9 a farinha nos rostos. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, nos remetem a uma poss\u00edvel sequ\u00eancia de op\u00e7\u00f5es em recorr\u00eancia. O fato \u00e9 que Pedro Wagner se revela um encenador que sabe manejar com refer\u00eancias estilha\u00e7adas e fragmentos. Pode at\u00e9 n\u00e3o agradar em nada aos mais tradicionais, mas consegue induzir seu elenco a composi\u00e7\u00f5es de escrita \u2013 \u00e9 Giordano Castro quem assina a dramaturgia \u2013 e de cena muito interessantes. Tudo \u00e9 estranho, ca\u00f3tico, imprevis\u00edvel, e aqui estes termos s\u00e3o como vantagem na sua composi\u00e7\u00e3o de encena\u00e7\u00e3o, porque imprimem um \u00e0 vontade essencial para o elenco magiluthiano.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 grandes momentos individuais dos int\u00e9rpretes, pois o coletivo se coloca bem em cena, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que Giordano Castro conquista em seus arroubos de pretensa agressividade como Gertrudes, a fragilidade inicial que se revela desp\u00f3tica na mulher-m\u00e3e, assim como na vers\u00e3o mais mefistof\u00e9lica de Claudius, o tio de Hamlet, que matou o pr\u00f3prio irm\u00e3o (\u00e9 de extrema ironia o uso do \u201cgarotinho mimado\u201d em seu discurso ao sobrinho, imposs\u00edvel n\u00e3o se remeter a um corrupto pol\u00edtico brasileiro). E podem at\u00e9 me achar careta neste apontamento, mas sinto que o uso da palavra est\u00e1 cada vez melhor no elenco \u2013 uma das fragilidades mais vis\u00edveis para mim nos trabalhos anteriores, com progress\u00e3o not\u00e1vel em <em>O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente<\/em>\u201d. Lucas Torres \u00e9 ainda quem menos parece \u00e0 vontade com o texto e a proje\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o das palavras, principalmente nas falas iniciais quase inaud\u00edveis \u2013 ditas ap\u00f3s uma vigorosa demonstra\u00e7\u00e3o de intimidade com a cerveja\/clarim imperial, numa \u00f3tima sacada. Erivaldo Oliveira, M\u00e1rio S\u00e9rgio Cabral e Bruno Parmera divertem-se em cena, o que \u00e9 muito bom para a proposta.<\/p>\n<p>A montagem conta com dire\u00e7\u00e3o de arte de Guilherme Luigi, luz do pr\u00f3prio coletivo e trilha sonora executada ao vivo pelo duo Pachka (a dupla Miguel Mendes e Tom\u00e1s Brand\u00e3o) que p\u00f5e som pop e brega e utiliza dispositivos eletr\u00f4nicos, principalmente para reverbera\u00e7\u00e3o das vozes, durante toda a encena\u00e7\u00e3o. Estruturalmente, ainda h\u00e1 algo para se resolver na dramaturgia, principalmente nos finais falsos criados \u2013 a cena da Of\u00e9lia, a jovem namorada de Hamlet que se suicida e teve seu vestido esgar\u00e7ado no rio, aqui posta como a garota que dan\u00e7a com fitas esvoa\u00e7antes, promete uma poeticidade que n\u00e3o acontece, e pode ser condensada. Digo isto porque entre gritos, estouros e rompantes, h\u00e1 sarcasmo em excesso, assim como recorr\u00eancias de humor que poderiam ser suprimidas por retornarem com muita frequ\u00eancia. O mesmo se d\u00e1 com frases que parece j\u00e1 terem sido ditas pouco antes, e alongam a montagem mais do que o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 um apelo importante em <em>Dinamarca<\/em> que \u00e9 bastante significativo: a pe\u00e7a tem assinatura est\u00e9tica e de discurso muito pr\u00f3pria sobre o que e como eles querem dizer. Tanto que ao final sugestivamente apocal\u00edptico, bastante provocador, ao nos lan\u00e7arem uma pergunta-met\u00e1fora em bela cena, \u201cO que fazer se as dinastias c\u00edclicas continuar\u00e3o?\u201d, imposs\u00edvel n\u00e3o sair mexido. Provoque-se, ent\u00e3o. Tente v\u00ea-los!<\/p>\n<p><strong>Leidson Ferraz \u00e9 pesquisador<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Dinamarca estreou na semana passada com apresenta\u00e7\u00f5es lotadas e despertando muitas discuss\u00f5es p\u00f3s-teatro. O novo espet\u00e1culo do Magiluth \u00e9 inspirado em Hamlet, de Shakespeare, mas sua pulsa\u00e7\u00e3o \u00e9 o presente, a crise da humanidade e as quest\u00f5es pol\u00edticas. 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