{"id":18681,"date":"2017-05-02T23:33:24","date_gmt":"2017-05-03T02:33:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=18681"},"modified":"2017-05-02T23:33:24","modified_gmt":"2017-05-03T02:33:24","slug":"peca-reconstroi-assassinato-de-joao-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/peca-reconstroi-assassinato-de-joao-pessoa\/","title":{"rendered":"Pe\u00e7a reconstr\u00f3i assassinato de Jo\u00e3o Pessoa"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18688\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/05022016-Antonio_David_104-e1493755415346.jpg\" alt=\"05022016-Antonio_David_104\" width=\"600\" height=\"343\">O dramaturgo e diretor do espet\u00e1culo <strong><em>De Jo\u00e3o Para Jo\u00e3o<\/em><\/strong> n\u00e3o compactua com a ideia de que a professora e poeta Anayde Beiriz tenha sido o piv\u00f4 do estopim da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, tese defendida por alguns historiadores. A montagem paraibana que faz \u00fanica apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro de Santa Isabel, no pr\u00f3ximo s\u00e1bado dia 6 de maio, aponta como a m\u00eddia incendiou os \u00e2nimos j\u00e1 acirrados entre os advers\u00e1rios paraibanos. A pe\u00e7a \u00e9 constru\u00edda levando em conta o ponto de vista do assassino. A a\u00e7\u00e3o ocorre na tarde do dia 26 de Julho, na confeitaria Gl\u00f3ria, no centro do Recife.<\/p>\n<p>Na vers\u00e3o oficial mais oficial do epis\u00f3dio, Jo\u00e3o Pessoa, da Alian\u00e7a Liberal, governante da Para\u00edba e candidato \u00e0 vice-presid\u00eancia da Rep\u00fablica na chapa de Get\u00falio Vargas, foi assassinado por quest\u00f5es pol\u00edticas pelo advogado Jo\u00e3o Dantas, afilhado do principal dirigente do Partido Republicano da Para\u00edba, o coronel Z\u00e9 Pereira. A historiografia transformou Jo\u00e3o Pessoa em her\u00f3i, Dantas em vil\u00e3o e Anayde foi apagada do mapa (ou demonizada) por muito tempo.<\/p>\n<p>Eram muitos interesses nesse jogo de poder dos dois partidos. O grupo de Jo\u00e3o Dantas \u00e9 apontado como arcaico na defesa dos &nbsp;neg\u00f3cios tradicionais de latifundi\u00e1rios e comerciantes do Sert\u00e3o da Para\u00edba e de Recife. Grupos que recebiam os benef\u00edcios da &nbsp;pol\u00edtica do caf\u00e9-com-leite, do governo federal. Os defensores da Alian\u00e7a Liberal s\u00e3o&nbsp;tidos como os que anunciavam mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas os conflitos se d\u00e3o no campo olig\u00e1rquico, com autoritarismo de lado a lado e esferas p\u00fablica e privada entrela\u00e7adas. Entre as a\u00e7\u00f5es truculentas est\u00e3o invas\u00f5es a territ\u00f3rios particulares. Um ataque \u00e0 fazenda da fam\u00edlia de Jo\u00e3o Dantas, com amea\u00e7as de morte. A casa do advoga tamb\u00e9m \u00e9 violada pela pol\u00edcia, que confisca os di\u00e1rios \u00edntimos e poesias do casal, al\u00e9m das fotos de nudez de Anayde &nbsp;para expor publicamente na delegacia.<\/p>\n<p>Por sua vez, Jo\u00e3o Dantas publicou no Jornal do Com\u00e9rcio, do Recife, um texto com o t\u00edtulo <em>\u00c0s Voltas com um Doido<\/em>, com acusa\u00e7\u00f5es ao governante Jo\u00e3o Pessoa. A carta \u00e9 uma dos principais documentos de inspira\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a de Tarc\u00edsio Pereira, que atua ao lado de Fl\u00e1vio Melo.<\/p>\n<p>No cinema a atitude de Anayde ganhou protagonismo no filme <em>Parayba, mulher macho<\/em> (1983), da cineasta brasileira Tizuka Yamazaki, que \u00e9 baseado em documentos hist\u00f3ricos e no livro&nbsp;no livro&nbsp;<em>Anayde Beiriz, paix\u00e3o e morte na revolu\u00e7\u00e3o de 30<\/em>, de autoria de Jos\u00e9 Joffily. Anayde \u00e9 apresentada como uma jovem de ideias libert\u00e1rias, inconformada com os costumes da sociedade brasileira na d\u00e9cada de 1920. Essa obra deixa a&nbsp; o confronto pol\u00edtico entre a Alian\u00e7a Liberal e o Partido Republicano, como pano de fundo. Tizuka defende em sua obra que a motiva\u00e7\u00e3o do assassinato foi essencialmente de ordem passional.<\/p>\n<p>Na entrevista abaixo, Tarc\u00edsio Pereira fala sobre a pesquisa realizada para a montagem do espet\u00e1culo <em><strong>De Jo\u00e3o Para Jo\u00e3o<\/strong><\/em>, as op\u00e7\u00f5es dramat\u00fargicas para construir cenicamente esse epis\u00f3dio que teve o Recife como cen\u00e1rio, mudou a hist\u00f3ria do Brasil e desencadeou a chamada Revolu\u00e7\u00e3o de 1930.<\/p>\n<h1><span style=\"color: #808080;\"><strong>Entrevista:<\/strong> Tarc\u00edsio Pereira, dramaturgo e diretor<\/span><\/h1>\n<div id=\"attachment_18685\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18685\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18685\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/14956442_1015869375205221_7258805322983303311_n-e1493730129411.jpg\" alt=\"Tarc\u00edsio Pereira, dramaturgo e diretor\" width=\"600\" height=\"604\"><p id=\"caption-attachment-18685\" class=\"wp-caption-text\">Tarc\u00edsio Pereira \u00e9 autor, diretor e ator da pe\u00e7a De Jo\u00e3o para Jo\u00e3o. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o do Facebook<\/p><\/div>\n<p><strong><em>De Jo\u00e3o para Jo\u00e3o<\/em>. O que prop\u00f5e o espet\u00e1culo?<\/strong><br \/>\nRecontar uma hist\u00f3ria que abalou a estrutura pol\u00edtica deste pa\u00eds h\u00e1 87 anos, buscando lan\u00e7ar um novo \u00e2ngulo de vis\u00e3o em torno de um epis\u00f3dio que divide opini\u00f5es at\u00e9 hoje. Colocamos o teatro como plataforma de reflex\u00e3o em torno de fatos ocasionados pela influ\u00eancia da m\u00eddia. Recontamos os \u00faltimos instantes de um crime sob o ponto de vista do assassino \u2013 colocando em cena, pela primeira vez, o vil\u00e3o e a v\u00edtima que entraram para a hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds, num fato ocorrido na cidade do Recife. Al\u00e9m disso, procuramos desenvolver uma experi\u00eancia c\u00eanica sob o foco de uma trag\u00e9dia nacional que tem levado a diversas interpreta\u00e7\u00f5es, utilizando o testemunho pessoal de um homem que mudou a hist\u00f3ria de um estado brasileiro e que redundou numa tomada de poder no \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p><strong>A partir da sua pesquisa, o que o senhor conclui sobre a participa\u00e7\u00e3o da poeta Anayde Beiriz nesse epis\u00f3dio?<\/strong><br \/>\nAnayde foi inocente em toda essa hist\u00f3ria, embora tenha se tornado uma grande m\u00e1rtir como consequ\u00eancia desse assassinato. Essa hist\u00f3ria teve muitos m\u00e1rtires, come\u00e7ando pelo pr\u00f3prio Jo\u00e3o Pessoa. Depois, o assassino foi tamb\u00e9m um m\u00e1rtir, pela forma brutal como foi assassinado na pris\u00e3o, na \u00e9poca a Casa de Deten\u00e7\u00e3o no Recife, quando as for\u00e7as \u201crevolucion\u00e1rias\u201d de Get\u00falio (Vargas) tomaram a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Outro m\u00e1rtir, na sequ\u00eancia, foi Jo\u00e3o Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro. Ele tinha governado a Para\u00edba antes de Jo\u00e3o Pessoa, eram aliados e acabou virando advers\u00e1rio. Al\u00e9m de outras fam\u00edlias e lideran\u00e7as pol\u00edticas na Para\u00edba que eram advers\u00e1rios de Jo\u00e3o Pessoa.<br \/>\nMas voltando a Anayde, para mim foi a maior v\u00edtima \u2013 uma mulher que, ao que parece, n\u00e3o tinha muito envolvimento pol\u00edtico e que pagou pelo fato de ser a namorada do assassino de Jo\u00e3o Pessoa. Ela n\u00e3o suportou a press\u00e3o na capital paraibana, sendo chamada de \u201camante\u201d ou \u201cputinha\u201d de Jo\u00e3o Dantas e teve que se exilar no Recife num instituto de freiras, onde acabou tomando veneno. Hoje, Anayde \u00e9 uma mulher reverenciada na Para\u00edba, tem at\u00e9 escola e conjunto residencial com o nome dela. Mas durante uns trintas anos ela foi um tanto amaldi\u00e7oada na pr\u00f3pria terra, mesmo depois de morta. Para se ter uma ideia, nenhuma crian\u00e7a que nascesse do sexo feminino podia ser batizada com o nome de Anayde.<\/p>\n<p><strong>Em linhas gerais, o que foi publicado no jornal <em>A Uni\u00e3o<\/em>, sobre a correspond\u00eancia \u00edntima entre Jo\u00e3o Dantas e Anayde?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma confus\u00e3o sobre esse fato. Na verdade, a correspond\u00eancia \u00edntima nunca foi publicada no jornal <em>A Uni\u00e3o<\/em>. O jornal oficial apenas noticiou que foram encontradas cartas \u201ccomprometedoras\u201d de Jo\u00e3o Dantas, quando invadiram a casa e o escrit\u00f3rio dele. E todo esse material ficou exposto numa das depend\u00eancias do jornal para quem quisesse ver. O jornal apenas divulgou que o mural estava dispon\u00edvel \u00e0 visita\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o chegou a publicar as cartas propriamente.<\/p>\n<p><strong>O que o senhor diria sobre o filme <em>Parahyba Mulher Macho<\/em>.<\/strong><br \/>\nGosto imensamente desse filme da Tizuka Yamasaki. Muito, muito mesmo. Mas falo enquanto realiza\u00e7\u00e3o f\u00edlmica, enquanto obra da nossa cinematografia. Do ponto de vista hist\u00f3rico, particularmente de alguns aspectos abordados na pel\u00edcula, eu tenho alguns questionamentos, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura de Anayde Beiriz, que o filme apresenta de uma maneira como eu n\u00e3o tenho encontrado em toda a pesquisa que fiz. Mas isso \u00e9 um detalhe e apenas um ponto de vista meu, n\u00e3o falo como um defeito. Al\u00e9m do mais, talvez o filme n\u00e3o tenha tido o prop\u00f3sito de ser t\u00e3o fiel assim \u00e0 hist\u00f3ria, o que \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um problema. Mas, no geral, \u00e9 um filme bonito e emocionante, muito bem feito e que tamb\u00e9m integrou a minha fonte de pesquisa para realizar o espet\u00e1culo <strong><em>De Jo\u00e3o para Jo\u00e3o<\/em><\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;&#8220;A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 mais simples e direta porque &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;teve esse prop\u00f3sito de focar na palavra &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;e na for\u00e7a da interpreta\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Quais os motivos que o senhor atribui \u00e0 posi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de her\u00f3i que ostenta a figura de Jo\u00e3o Pessoa?<\/strong><br \/>\nO assassinato, por si s\u00f3 (pela formal como aconteceu), j\u00e1 foi algo que causou como\u00e7\u00e3o e contribuiu para a constru\u00e7\u00e3o desse mito. Mas, al\u00e9m disso, a forma como Jo\u00e3o Pessoa governou a Para\u00edba, num momento em que os coron\u00e9is davam as cartas, acabou colocando-o como aquele administrador que teve coragem de quebrar os velhos v\u00edcios da pol\u00edtica de caudilhos. Quando Jo\u00e3o Pessoa veio do Rio para governar a Para\u00edba, disse que ia dar uma \u201cvassourada\u201d, e realmente fez. N\u00e3o sei com que inten\u00e7\u00e3o, mas realmente foi um administrador de coragem, organizou as finan\u00e7as do estado em pouco tempo, colocou a folha dos funcion\u00e1rios em dia (que estava com meses de atraso), e passou a cobrar imposto dos coron\u00e9is do Sert\u00e3o, os quais costumavam exportar o algod\u00e3o pelas fronteiras com Pernambuco, Cear\u00e1 e Rio Grande do Norte. Jo\u00e3o Pessoa criou uma guerra tribut\u00e1ria com a presen\u00e7a intensa do Fisco nas fronteiras, cobrando ped\u00e1gios at\u00e9 de carro\u00e7a de burro. Com isso, ele ganhou muita popularidade. Depois, ele teve tamb\u00e9m a coragem de negar apoio ao presidente da Rep\u00fablica na campanha presidencial, a ponto de figurar como candidato a vice na chapa de Get\u00falio Vargas. O tal \u201cNego\u201d, que ganhou tanta repercuss\u00e3o, tamb\u00e9m contribuiu para essa popularidade. Depois veio o seu assassinato e, no rastro de tudo isso, a figura de her\u00f3i. Mas era um homem muito dif\u00edcil tamb\u00e9m, de temperamento forte e intransigente.<\/p>\n<p><strong>Qual o teor da carta <em>\u00c0s Voltas com um Doido<\/em>, publicada pelo advogado Jo\u00e3o Duarte Dantas, no Jornal do Comercio, do Recife?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma carta muito, muito violenta. Escrita com muito \u00f3dio por quem se sentia perseguido pelo governo. Jo\u00e3o Dantas traz muitas den\u00fancias nessa carta, questionando a fortuna de Jo\u00e3o Pessoa e acusando-o, inclusive, de ter tentado matar o pai por duas vezes. Como bem diz o t\u00edtulo do artigo publicado (que na verdade era uma carta ao governante paraibano), ele trata Jo\u00e3o Pessoa como \u201cDoido\u201d. Imagino que Jo\u00e3o Pessoa deve ter sofrido horrores quando leu esse texto no jornal do Com\u00e9rcio. Por coincid\u00eancia, dias depois veio a invas\u00e3o da casa de Jo\u00e3o Dantas, num momento que este se encontrava em Olinda e se aproveitaram da aus\u00eancia dele. E depois dessa invas\u00e3o, veio o crime. Ou seja: uma retalia\u00e7\u00e3o atr\u00e1s da outra, que culminou numa grande trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Afinal, o assassinato de Jo\u00e3o Pessoa foi um crime pol\u00edtico? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nCreio que a motiva\u00e7\u00e3o foi pessoal, por conta da invas\u00e3o da casa dele. Mas tudo isso tendo a pol\u00edtica como pano de fundo. Jo\u00e3o Pessoa estava no meio de uma guerra com o coronel Z\u00e9 Pereira, do munic\u00edpio de Princesa Isabel, e Jo\u00e3o Dantas vinha atuando em favor de Z\u00e9 Pereira, de quem era aliado. Ou seja: Jo\u00e3o Dantas, pelos jornais, atacava o governo o tempo inteiro devido \u00e0s medidas duras de Jo\u00e3o Pessoa, e os artigos dele sempre faz refer\u00eancias \u00e0 \u201cGuerra de Princesa\u201d. Isso levou a uma situa\u00e7\u00e3o que extrapolou a seara pol\u00edtica e entrou no campo pessoal. Ent\u00e3o esse crime foi pol\u00edtico e pessoal ao mesmo tempo, uma mistura das duas coisas.<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&#8220;Outro m\u00e1rtir, na sequ\u00eancia, foi Jo\u00e3o Suassuna, &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;pai do escritor Ariano Suassuna, que era deputado &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;federal e levou um tiro nas costas, numa rua do Rio de Janeiro&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como o senhor situa a encena\u00e7\u00e3o? Utiliza os procedimentos convencionais?<\/strong><br \/>\nTemos uma linguagem que vai da est\u00e9tica convencional ao experimentalismo c\u00eanico. Utilizamos elementos que dialogam com a simbologia e aquela forma tradicional do gabinete. Ali\u00e1s, diria que este \u00faltimo fator tem mais predomin\u00e2ncia, isso em virtude da pr\u00f3pria narrativa e do nosso cuidado com o p\u00fablico alvo. O texto \u00e9 como um roteiro cinematogr\u00e1fico, que joga com a a\u00e7\u00e3o presente e a fantasia numa fus\u00e3o de tempos alternados. Mas a encena\u00e7\u00e3o \u00e9 mais simples e direta porque teve esse prop\u00f3sito de focar na palavra e na for\u00e7a da interpreta\u00e7\u00e3o, pois estamos tratando de uma hist\u00f3ria real que geralmente atrai um p\u00fablico curioso por aquela hist\u00f3ria e n\u00e3o para ver uma experi\u00eancia c\u00eanica. De toda forma, \u00e9 um espet\u00e1culo que tem agradado aos dois tipos de p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Quais os principais trunfos da montagem?<\/strong><br \/>\nTalvez eu seja suspeito para apontar dois trunfos que passam diretamente pelo meu trabalho, mas \u00e9 como posso avaliar. O primeiro deles est\u00e1 na dramaturgia, por ser um texto de cunho hist\u00f3rico, detalhadamente pesquisado, como uma for\u00e7a dram\u00e1tica que se sustenta do in\u00edcio ao fim, segurando o f\u00f4lego dos espectadores. O outro trunfo est\u00e1 na interpreta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o apenas dois atores em cena que n\u00e3o deixam a peteca cair em nenhum momento. E n\u00e3o sou eu que digo, \u00e9 o p\u00fablico e a cr\u00edtica que t\u00eam nos visto. Atores e texto s\u00e3o os dois grandes trunfos desse espet\u00e1culo.<\/p>\n<p><strong>Que aproxima\u00e7\u00f5es que o senhor faz entre o clima da d\u00e9cada de 1930 e os dias atuais?<\/strong><br \/>\nTudo a ver. Guardadas, claro, as diferen\u00e7as entre os acontecimentos, mas o c\u00f3digo dram\u00e1tico \u00e9 o mesmo, o que mostra que a hist\u00f3ria sempre se repete com cap\u00edtulos novos. Hoje temos uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica inst\u00e1vel no Brasil, de muito descr\u00e9dito e em que se questiona lisuras e procedimentos administrativos. T\u00ednhamos uma presidente que foi banida do poder e um atual administrador que \u00e9 tido por muitos como golpista ou usurpador, essas coisas&#8230; A pol\u00edtica de 1930 passava por questionamentos como esses. Houve um presidente que foi banido do poder (Washington Lu\u00eds), e um que havia sido eleito e n\u00e3o chegou a assumir (J\u00falio Prestes), quando Get\u00falio assumiu no lugar dele, embora tenha sido o segundo colocado nas urnas&#8230; E essas mudan\u00e7as aconteceram por causa da morte de Jo\u00e3o Pessoa. Como Jo\u00e3o Pessoa tinha sido o vice na chapa de Get\u00falio, usaram o cad\u00e1ver dele para comover o Brasil e Get\u00falio tomou a faixa presidencial. Al\u00e9m disso, todo um clima de instabilidade econ\u00f4mica e mudan\u00e7as nas leis ocorreram naquele momento. Ent\u00e3o o sentimento coletivo \u00e9 o mesmo dos dias de hoje.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18683\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/17620144_1147219888736835_6425324079567082873_o-e1493756087585.jpg\" alt=\"Pe\u00e7a trata de \" width=\"600\" height=\"473\"><\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual o papel da imprensa nisso tudo?<\/strong><br \/>\nTudo aconteceu por causa da imprensa, \u00e9 como eu interpreto. Havia uma guerra de m\u00eddias entre \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o que pertenciam a fac\u00e7\u00f5es diferentes. O jornal <em>A Uni\u00e3o<\/em>, na capital paraibana, atacava a honra pessoal de Jo\u00e3o Dantas e este, para n\u00e3o deixar por menos, respondia num jornal pernambucano que era ligado aos Pessoa de Queiroz (por sinal primos de Jo\u00e3o Pessoa, que mesmo sendo primos eram inimigos dele). Ent\u00e3o essa guerra extrapolava os limites da \u00e9tica, o que era bem comum naquela ocasi\u00e3o. A pe\u00e7a reproduz muitos trechos das notas e artigos publicados na \u00e9poca, um contra o outro, o que ajuda o espectador a tirar uma conclus\u00e3o sobre as raz\u00f5es dessa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>O que o senhor diria para atrair um poss\u00edvel espectador para sair de casa e ir at\u00e9 o Teatro de Santa Isabel no dia 6 de maio?<\/strong><br \/>\nAntes de falar para esse espectador, eu digo o que n\u00f3s, do grupo, temos conversado sobre o tipo de rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico recifense. A gente quer ter esse term\u00f4metro aqui por uma raz\u00e3o simples: toda a hist\u00f3ria se passa no Recife; Recife foi o cen\u00e1rio da trag\u00e9dia pol\u00edtica. O n\u00facleo central da a\u00e7\u00e3o est\u00e1 na Confeitaria Gl\u00f3ria, local em que o crime aconteceu e que ficava na Rua Nova, centro da capital pernambucana. Eu diria isso para o espectador da cidade: nosso espet\u00e1culo traz um fato hist\u00f3rico do Recife e n\u00e3o apenas da Para\u00edba. Os personagens s\u00e3o dois paraibanos, mas o epis\u00f3dio foi no Recife e a cidade est\u00e1 devidamente retratada no espet\u00e1culo, concebido e desenvolvido com uma pesquisa rica de detalhes sobre aquele per\u00edodo, o que certamente vai revelar muita coisa que o pernambucano ainda n\u00e3o sabe, principalmente as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>De Jo\u00e3o Para Jo\u00e3o<\/strong><\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> 06\/05\/17, S\u00e1bado, \u00e0s 20h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro de Santa Isabel<br \/>\n<strong>Ingressos:<\/strong> Inteira R$ 40,00 e meia-entrada R$ 20,00.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dramaturgo e diretor do espet\u00e1culo De Jo\u00e3o Para Jo\u00e3o n\u00e3o compactua com a ideia de que a professora e poeta Anayde Beiriz tenha sido o piv\u00f4 do estopim da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, tese defendida por alguns historiadores. 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