{"id":18220,"date":"2017-01-21T11:14:24","date_gmt":"2017-01-21T14:14:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=18220"},"modified":"2017-01-21T11:21:51","modified_gmt":"2017-01-21T14:21:51","slug":"pessoa-perdoe-a-falta-de-abraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/pessoa-perdoe-a-falta-de-abraco\/","title":{"rendered":"Pessoa, perdoe a falta de abra\u00e7o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_18223\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18223\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-18223 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/L2970854-e1485005426312.jpg\" alt=\"Carlos Paulo no espet\u00e1culo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"398\"><p id=\"caption-attachment-18223\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Paulo no espet\u00e1culo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_18224\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18224\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18224\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/L2970951-e1485007118307.jpg\" alt=\"H\u00e1 15 anos Carlos Paulo interpreta Do Desassossego. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"308\"><p id=\"caption-attachment-18224\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e1 15 anos o ator portugu\u00eas &nbsp;interpreta Bernardo Soares. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><em> \u201cO meu semi-heter\u00f3nimo Bernardo Soares, que ali\u00e1s em muitas cousas se parece com \u00c1lvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de racioc\u00ednio e de inibi\u00e7\u00e3o; aquela prosa \u00e9 um constante devaneio. \u00c9 um semi-heter\u00f3nimo porque, n\u00e3o sendo a personalidade a minha, \u00e9, n\u00e3o diferente da minha, mas uma simples mutila\u00e7\u00e3o dela. Sou eu menos o racioc\u00ednio e a afectividade. A prosa, salvo o que o racioc\u00ednio d\u00e1 de t\u00e9nue \u00e0 minha, \u00e9 igual a esta, e o portugu\u00eas perfeitamente igual [\u2026]\u201d<\/em><br \/>\n<em>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/em>Fernando Pessoa,&nbsp;Carta&nbsp;a Adolfo Casais Monteiro &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Lisboa, 13 de Janeiro de 1935<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares vive e trabalha na Baixa lisboeta. \u00c9 cinzenta a paisagem humana e citadina que o rodeia. Dos caf\u00e9s que frequenta ao escrit\u00f3rio da Rua dos Douradores. De figuras como o patr\u00e3o Vasques, o Moreira ou o mo\u00e7o de fretes. Solit\u00e1rio, mora num quarto alugado. Essa &#8220;personalidade liter\u00e1ria&#8221; troca ideias sobre prosa e poesia com o pr\u00f3prio criador, o escritor Fernando Pessoa (1888 -1935). Os fragmentos liter\u00e1rios de Bernardo Soares comp\u00f5em o <em>Livro do Desassossego<\/em>. A partir de algumas passagens desses textos o Comuna \u2014 Teatro de Pesquisa, grupo com 45 anos anos de exist\u00eancia \/ resist\u00eancia, estreou em 2001, em Lisboa, o espet\u00e1culo <strong><em>Do Desassossego<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>O ator Carlos Paulo atua na pe\u00e7a <em><strong>Do Desassossego&nbsp;<\/strong><\/em>h\u00e1 15 anos. A montagem foi vista por mais de 30 mil pessoas e j\u00e1 rodou por v\u00e1rios pa\u00edses durante esse tempo, na maioria das vezes em espa\u00e7os pequenos, aconchegantes, intimistas, que criam uma ambi\u00eancia de cumplicidade.<\/p>\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Mota, cabe a Carlos Paulo conduzir a plateia pelas afli\u00e7\u00f5es e intranquilidades de alma e de corpo que pulsam das palavras de Pessoa. O int\u00e9rprete, que conta com a participa\u00e7\u00e3o do m\u00fasico Hugo Franco, se multiplica em seis personagens\/ arqu\u00e9tipos: o Escritur\u00e1rio, a Crian\u00e7a, o Mendigo, o Palestrante, Homem\/Mulher e Revoltado.<\/p>\n<p>A montagem foi exibida ontem, no Teatro de Santa Isabel, dentro da programa\u00e7\u00e3o do 23\u00ba Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos. N\u00e3o funcionou em sua plenitude. As condi\u00e7\u00f5es materiais (escolhidas e\/ou oferecidas) desfavoreceram a frui\u00e7\u00e3o. Por alguns motivos. A interpreta\u00e7\u00e3o intimista, muitas vezes sussurrada, do ator exigia potentes microfones e\/ou um espa\u00e7o menor, que permitisse uma proximidade quase t\u00e1til com a plateia.<\/p>\n<div id=\"attachment_18225\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18225\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18225\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/L2970920-e1485005631556.jpg\" alt=\"Quase no escuro em algumas cenas. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"317\"><p id=\"caption-attachment-18225\" class=\"wp-caption-text\">Quase no escuro em algumas cenas. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>A luz baixa, quase em resist\u00eancia, tamb\u00e9m dificultou, e para quem estava nas poltronas mais distantes&nbsp;do palco, impediu mesmo, de apreciar os detalhes interpretativos do rosto do ator. &nbsp;E essa penumbra n\u00e3o convenceu como uma op\u00e7\u00e3o de dramaturgia da ilumina\u00e7\u00e3o, como ocorre com o encenador brasileiro Roberto Alvim, que radicaliza nesse quesito do quase escuro. Al\u00e9m disso, o sotaque portugu\u00eas, carregado demais neste papel e muitas vezes acelerado, embaralhou a escuta.<\/p>\n<p>Carlos Paulo exibiu tamb\u00e9m neste <em>Janeiro<\/em> o recital po\u00e9tico <em>Homenagem a Jo\u00e3o Villaret<\/em>, (confira cr\u00edtica:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2017\/01\/18\/poesia-da-cena-portuguesa\/\">Poesia da cena portuguesa<\/a>) junto com a atriz\/cantora T\u00e2nia Alves e o m\u00fasico Hugo Franco. Foi no Hermilo Borba Filho, um teatro menor do que o suntuoso Santa Isabel. Utilizando microfones, as mesmas entona\u00e7\u00f5es carregadas de sotaque portugu\u00eas de Portugal ganharam uma audi\u00e7\u00e3o melhor pela propaga\u00e7\u00e3o do som e a dic\u00e7\u00e3o menos acelerada, o que resultou numa apresenta\u00e7\u00e3o mais envolvente.&nbsp;<\/p>\n<p>O estilo discreto, s\u00f3brio de atuar de Carlos Paulo ganha em <em><strong>Do Desassossego<\/strong><\/em> aspectos doces e tristes. Com alguns momentos ir\u00f4nicos e engra\u00e7ados. Mas o que predomina \u00e9 uma tens\u00e3o dolorida, uma dramaticidade para refletir o que h\u00e1 de mais profundo das emo\u00e7\u00f5es humanas, avizinhadas pelo t\u00e9dio ou pelo&nbsp;sentido de inutilidade.&nbsp;O m\u00fasico faz o papel de Fernando Pessoa, que com a execu\u00e7\u00e3o musical rasga ou preenche sil\u00eancios, evidencia muta\u00e7\u00f5es, baliza os ritmos.<\/p>\n<div id=\"attachment_18222\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-18222\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-18222\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/L2970834-e1485005267118.jpg\" alt=\"Carlos Paulo no espet\u00e1culo Do Desassossego. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"337\"><p id=\"caption-attachment-18222\" class=\"wp-caption-text\">Montagem da Comuna de Lisboa. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><strong>Do Desassossego <\/strong>\u00e9 um espet\u00e1culo de sensa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 a orfandade original da Crian\u00e7a, a invisibilidade do Mendigo, a solid\u00e3o do Escritur\u00e1rio. Em Homem\/mulher no espelho, Bernardo Soares nega para si, o amor c\u00fapido, de \u00edndole sexual.<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o podemos amar, filho. O amor \u00e9 a mais carnal das ilus\u00f5es. Amar \u00e9 possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar a sua mat\u00e9ria, com\u00ea-lo, inclu\u00ed-lo em n\u00f3s&#8230; E essa impossibilidade seria tempor\u00e1ria, porque o nosso pr\u00f3prio corpo passa e se transforma, porque n\u00f3s n\u00e3o possu\u00edmos o nosso corpo (possu\u00edmos apenas a nossa sensa\u00e7\u00e3o dele), e porque, uma vez possu\u00eddo esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n<p>\u00c9&nbsp;uma obra pungente, em que o ator na pele do escritur\u00e1rio da rua dos Douradores, exp\u00f5e as profundezas, a essencialidade da exist\u00eancia. E a encena\u00e7\u00e3o pesca essa paix\u00e3o pelo sagrado no humano. E que a partir do desassossego possa ser erguida a esperan\u00e7a. No futuro, no ser, no teatro.<\/p>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<strong>Autoria:<\/strong> Bernardo Soares e Fernando Pessoa<br \/>\n<strong>Adapta\u00e7\u00e3o:<\/strong> Carlos Paulo<br \/>\n<strong>Vers\u00e3o c\u00eanica e encena\u00e7\u00e3o:<\/strong> Jo\u00e3o Mota<br \/>\n<strong>Opera\u00e7\u00e3o de luz e som:<\/strong> Paulo Gra\u00e7a<br \/>\n<strong>T\u00e9cnico de montagem:<\/strong> Jo\u00e3o Monteiro<br \/>\n<strong>Gabinete de produ\u00e7\u00e3o Comuna:<\/strong> Ros\u00e1rio Silva e Carlos Bernardo<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o executiva da itiner\u00e2ncia:<\/strong> Andr\u00eazza Alves e Ros\u00e1rio Silva<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o local Recife: C<\/strong>ompanhia Circo Godot de Teatro<br \/>\n<strong>Trilha sonora e m\u00fasico:<\/strong> Hugo Franco<br \/>\n<strong>Figurinos e interpreta\u00e7\u00e3o:<\/strong> Carlos Paulo<br \/>\n<strong>Personagem muda:<\/strong> Miguel Serm\u00e3o e Jo\u00e3o Monteiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO meu semi-heter\u00f3nimo Bernardo Soares, que ali\u00e1s em muitas cousas se parece com \u00c1lvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de racioc\u00ednio e de inibi\u00e7\u00e3o; aquela prosa \u00e9 um constante devaneio. \u00c9 um semi-heter\u00f3nimo porque, n\u00e3o sendo a personalidade a minha, \u00e9, n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[4998,4935,4937,1615,4997,4981,5000,4936,4999],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18220"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18230,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18220\/revisions\/18230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}