{"id":16983,"date":"2016-08-30T21:33:28","date_gmt":"2016-08-31T00:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=16983"},"modified":"2016-08-30T21:33:28","modified_gmt":"2016-08-31T00:33:28","slug":"memorialista-do-teatro-pernambucano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/memorialista-do-teatro-pernambucano\/","title":{"rendered":"Memorialista do teatro pernambucano"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_17002\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson3-290816-e1472590695137.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-17002\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-17002 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson3-290816-e1472590695137.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"473\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17002\" class=\"wp-caption-text\">Leidson estuda teatro infantil em Pernambuco desde 1998. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>O marco zero na hist\u00f3ria do teatro para crian\u00e7as no Recife foi a estreia da pe\u00e7a Branca de Neve e os 7 an\u00f5es, a primeira que levou crian\u00e7as para a cena, em 1939, no Teatro de Santa Isabel. Era um projeto do teatr\u00f3logo Valdemar de Oliveira, que superou todas as expectativas. Essa \u00e9 uma das conclus\u00f5es do pesquisador e jornalista Leidson Ferraz, depois de anos de investiga\u00e7\u00e3o que rendeu o livro <em>Teatro para crian\u00e7as no Recife \u2013 60 anos de hist\u00f3ria no s\u00e9culo XX (vol. 1)<\/em>. A pesquisa j\u00e1 havia sido lan\u00e7ada em formato DVD, em 2013.<\/p>\n<p>Nesse volume, ele passeia pela historiografia do teatro pernambucano de 1939 at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970 e junta raros registros fotogr\u00e1ficos de pe\u00e7as, programas, an\u00fancios publicit\u00e1rios, cr\u00edticas publicadas em jornais e relatos sobre a produ\u00e7\u00e3o infanto-juvenil do per\u00edodo.<\/p>\n<p>O livro estar\u00e1 \u00e0 venda no Sindicato dos Artistas de Pernambuco e na Federa\u00e7\u00e3o de Teatro de Pernambuco, ambos sediados na Casa da Cultura.<\/p>\n<p>Nessa segunda-feira, durante o lan\u00e7amento do livro o autor fez uma breve explana\u00e7\u00e3o sobre o objeto do seu estudo e exibiu imagens hist\u00f3ricas guardadas na publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta entrevista ele fala sobre o processo de trabalho, da paix\u00e3o pela pesquisa em\u00a0teatro, \u00a0do\u00a0 projeto <em>Teatro Tem Programa!<\/em>, que vai compartilhar pelo site da Fundaj (Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco), de pol\u00eamicas e da vida que segue.<\/p>\n<h2><strong>Entrevista: Leidson Ferraz<\/strong><\/h2>\n<div id=\"attachment_17001\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson4-290816-e1472590234513.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-17001\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-17001\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson4-290816-e1472590234513.jpg\" alt=\"Leidson Ferraz, pesquisador e jornalista. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"367\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17001\" class=\"wp-caption-text\">Leidson Ferraz, pesquisador e jornalista. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 uma das poucas pessoas nesta cidade do Recife que talvez v\u00e1 mais ao teatro do que eu. Talvez. Tenho a vantagem de viajar com frequ\u00eancia para festivais e isso aumenta minha performance. Ent\u00e3o, quantos espet\u00e1culos voc\u00ea assiste por semana, m\u00eas, por ano? E de onde vem esse amor pelo teatro?<\/strong><br \/>\n(Risadas). Ivana, eu n\u00e3o contabilizo quantos espet\u00e1culos vejo. Mas procuro assistir tudo o que est\u00e1 em cartaz. Acho que \u00e9 a forma de me manter atualizado sobre nossa produ\u00e7\u00e3o teatral brasileira. Gostaria de poder viajar mais para assistir espet\u00e1culos em outros lugares (fa\u00e7o isso minimamente, infelizmente, muito mais ao interior de Pernambuco), mas n\u00e3o tenho nem tempo nem dinheiro para tanto. Quanto ao amor ao teatro, \u00e9 parte do que me faz viver. J\u00e1 pensei em me afastar deste universo por algumas decep\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o consigo. Est\u00e1 dentro de mim. \u00c9 como o ar que respiro. O teatro est\u00e1 nos meus poros.<\/p>\n<p><strong>Sua carreira como ator come\u00e7ou na inf\u00e2ncia, em Petrolina, Sert\u00e3o de Pernambuco. Como foi essa trajet\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nNo Col\u00e9gio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina, eu j\u00e1 interpretava esquetes a cada final de ano, numa Feira de Ci\u00eancias que programavam. Mas o primeiro espet\u00e1culo teatral que vi de verdade foi a <em>Paix\u00e3o de Cristo da Nova Jerusal\u00e9m<\/em>, aos oito anos de idade. Aos nove, j\u00e1 me arvorei a escrever e dirigir <em>A Paix\u00e3o de Cristo<\/em> com 50 amigos da rua que eu morava. E eu ainda interpretava Judas, Pilatos e o Dem\u00f4nio. Ou seja, fui sempre ousado! Depois, fui dan\u00e7ar Menudo \u2013 num grupo cover \u2013 e passei a ser um \u201cartista profissional\u201d (kkkk), pois ganh\u00e1vamos bem fazendo festinhas de anivers\u00e1rio e outros eventos. S\u00f3 me aproximei do teatro, de verdade, quando vim morar no Recife em 1988. Comecei indo ver tudo o que eu podia e a fazer cursos com Ida Korossy, no Col\u00e9gio Decis\u00e3o; Valdi Coutinho, no Arteviva, e Elmar Castelo Branco, no TUCAP. Da\u00ed, fui me profissionalizando aos poucos, em cursos, oficinas, palestras, semin\u00e1rios, vendo muitos espet\u00e1culos e atuando e dirigindo num grupo que criamos na Unicap (o Grupo Peda\u00e7os, com o qual fiz uma vers\u00e3o do musical <em>Hair<\/em>, entre outros trabalhos)&#8230; Tirei meu DRT como ator profissional em 1993.<\/p>\n<p><strong>Quais as montagens que voc\u00ea participou como ator, diretor ou outra fun\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEstreei profissionalmente com <em>Mem\u00f3rias da Em\u00edlia<\/em>, em 1995, com adapta\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de Luiz Felipe Botelho e produ\u00e7\u00e3o de Pedro Portugal. Fiz teste para entrar no elenco. Em seguida, fui convidado para <em>Auto da Compadecida<\/em>, da Dramart Produ\u00e7\u00f5es, com dire\u00e7\u00e3o de Marco Camarotti, onde atuei durante 17 anos. Na sequ\u00eancia, trabalhei com Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, \u00c9rico Jos\u00e9, Vital Santos, Max Almeida, Claudio Lira, Jos\u00e9 Pimentel, Samuel Santos, participando tamb\u00e9m de v\u00e1rias leituras dramatizadas com outros diretores e ainda dirigindo alguns espet\u00e1culos, especialmente no SESC. No ano 2000, escrevi e dirigi, junto a Claudio Lira, o musical <em>Alheio<\/em>, um sonho que acalentei durante sete anos (ap\u00f3s a experi\u00eancia de estudar canto no Conservat\u00f3rio Pernambucano de M\u00fasica durante um tempo) e que me deu enorme trabalho, pois era uma produ\u00e7\u00e3o grandiosa. Inaugurei um teatro pr\u00f3prio no Cais Jos\u00e9 Mariano e fomos at\u00e9 para S\u00e3o Paulo, mas s\u00f3 pude manter a pe\u00e7a por tr\u00eas meses de vida. Era car\u00edssima com elenco enorme de atores e cantores, al\u00e9m de toda a infraestrutura de som, luz, arquibancadas, microfona\u00e7\u00e3o, etc&#8230; Meu \u00faltimo trabalho como ator (e n\u00e3o pretendo voltar a atuar, pelo menos neste momento) foi <em>Olivier e Lili: Uma Hist\u00f3ria de Amor em 900 Frases<\/em>, com dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Dourado, pelo Teatro de Fronteira, que sobreviveu nos anos 2012 e 2013. Ou seja, h\u00e1 mais de tr\u00eas anos n\u00e3o volto aos palcos. J\u00e1 enquanto assessor de comunica\u00e7\u00e3o de muitos espet\u00e1culos, perdi as contas de quantos fiz. Atualmente ando afastado por conta do Mestrado em Hist\u00f3ria na UFPE.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea vem sendo considerado um memorialista do teatro Pernambucano com registro, an\u00e1lise e dissemina\u00e7\u00e3o do passado do teatro feito no estado. Voc\u00ea \u00e9 realmente um empreendedor, um homem de muita for\u00e7a e f\u00f4lego. Como e quando surgiu essa preocupa\u00e7\u00e3o com o registro, com a documenta\u00e7\u00e3o sobre o teatro pernambucano?<\/strong><br \/>\nQuando fui convidado a assumir a assessoria de comunica\u00e7\u00e3o do <em>Projeto Mem\u00f3rias da Cena Pernambucana \u2013 O Teatro de Grupo<\/em>, em 1998, por Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, meu maior incentivador em tudo. Era uma a\u00e7\u00e3o da Feteape e me envolvi totalmente com ela. Foi ali, entrevistando artistas que estavam afastados da cena, mas com longa trajet\u00f3ria no teatro, que me atentei para a hist\u00f3ria do teatro pernambucano e a necessidade de mais registros sobre este tema.<\/p>\n<p><strong>Mas vamos destrinchar isso.<\/strong><br \/>\n<strong>Voc\u00ea \u00e9 um assessor de imprensa muito peculiar, que exerce muito bem essa fun\u00e7\u00e3o em diversos festivais, pe\u00e7as e a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0s artes c\u00eanicas. Voc\u00ea veste a camisa mesmo, como integrante da produ\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a melhor postura na sua opini\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei fazer de outra forma. Talvez por amar tanto o teatro e a dan\u00e7a, acabo me envolvendo mais do que devia. \u00c0s vezes tenho raiva desta minha postura, pois muitas vezes me deixo confundir nas fun\u00e7\u00f5es. No entanto, acho que todo assessor de comunica\u00e7\u00e3o precisa abra\u00e7ar sua causa. Ficar em casa s\u00f3 mandando e-mails, n\u00e3o d\u00e1! Acho terr\u00edvel quem faz assim. \u00c9 preciso conhecer a sua fonte de informa\u00e7\u00e3o por completo.<\/p>\n<div id=\"attachment_17005\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/maria-minhoca-1976-teatro-da-crian\u00e7a-do-recife-e1472603092459.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-17005\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/maria-minhoca-1976-teatro-da-crian\u00e7a-do-recife-e1472603092459.jpg\" alt=\"Montagem de 1976 de Maria Minhoca. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"471\" class=\"size-full wp-image-17005\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17005\" class=\"wp-caption-text\">Montagem de 1976 de Maria Minhoca. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Gostaria que voc\u00ea falasse sobre trabalho desenvolvido com as pesquisas sobre a produ\u00e7\u00e3o teatral pernambucana.<\/strong><br \/>\n<strong>A s\u00e9rie de livros Mem\u00f3rias da cena pernambucana resgatou em quatro volumes a trajet\u00f3ria de quase 40 grupos de teatro de Pernambuco, desde a d\u00e9cada de 1940. Gostaria de levantar tr\u00eas quest\u00f5es sobre isso.<\/strong><br \/>\n<strong>A primeira: Com encontros\/palestras\/debates gravados a partir da mem\u00f3ria de integrantes de grupos (e a mem\u00f3ria \u00e9 falha) voc\u00ea multiplicou em v\u00e1rios livros. Voc\u00ea se considera um estrategista ou um \u00f3timo marqueteiro? Ou ambos?<\/strong><br \/>\n\u00c9 preciso lembrar que, quando eu, Rodrigo Dourado e Wellington J\u00fanior lan\u00e7amos o <em>Volume 01<\/em> do <em>Mem\u00f3rias da Cena Pernambucana<\/em>, pouco se falava sobre a hist\u00f3ria do teatro pernambucano naquele momento. O projeto, inclusive, nasceu por conta disso. Ainda t\u00ednhamos reduzidas publica\u00e7\u00f5es nesta \u00e1rea e acho que, mod\u00e9stia \u00e0 parte, o <em>Mem\u00f3rias<\/em> abriu o caminho para isso. Tanto que ningu\u00e9m lembrava do Grupo de Teatro Vivencial! A nossa capa, com Ivonete Melo maravilhosa em <em>Rep\u00fablicas Independentes, Darling!<\/em>, foi estrat\u00e9gica para isso. E o livro circulou pelo Brasil inteiro, pois fiz v\u00e1rios lan\u00e7amentos e o distribui, gratuitamente, a universidades, centros de pesquisas, sedes de grupos teatros e centros de mem\u00f3ria, al\u00e9m das unidades do SESC, pelo Brasil inteiro. Esse era o nosso objetivo. Quanto ao lance da mem\u00f3ria, ela \u00e9 falha, mas, especialmente a partir do <em>Volume 02<\/em> (quando fiquei sozinho na empreitada), me arvorei a pesquisar minuciosamente cada depoimento e, confrontando com os dados que consegui na imprensa e em acervos particulares, procurar cada depoente para retrabalhar o depoimento dado (algo que j\u00e1 foi feito no <em>Volume 01<\/em>, mas timidamente). Para qualquer historiador isso \u00e9 um crime, mas n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o em hist\u00f3ria e tentei, ao m\u00e1ximo, chegar pr\u00f3ximo do que havia de fato acontecido. Hoje sei que nada se d\u00e1 bem assim. Mas foi uma tentativa, e acho que o material se aproxima bastante dos fatos e acontecimentos, para al\u00e9m dos aspectos metodol\u00f3gicos empregados para isso.<\/p>\n<p><strong>A segunda: A narrativa constru\u00edda sobre esses grupos n\u00e3o recebeu confrontamentos de dados, mas reproduz relatos dos atores daquelas companhias. Atualmente, com o mestrando em Hist\u00f3ria, que caminhos diferentes voc\u00ea adotaria para publicar esses trabalhos.<\/strong><br \/>\nO confrontamento existiu com o material impresso que eu encontrava \u2013 e muitas pesquisas em acervos foram feitas, infelizmente sem espa\u00e7o no livro para registr\u00e1-las como fontes pesquisadas \u2013 e tamb\u00e9m no di\u00e1logo com outras pessoas que n\u00e3o estavam nos debates. Muito depoimento foi mudado, Ivana. E felizmente as pessoas concordavam com seus esquecimentos ou equ\u00edvocos a partir do que eu lhes apresentava. Isso foi legal, pois todos autorizaram as mudan\u00e7as. No entanto, hoje, percebendo quais os interesses e procedimentos da historiografia, ser\u00e1 que eu registraria os depoimentos na \u00edntegra e colocaria milhares de notas de rodap\u00e9 para corrigir ou esclarecer cada trecho? Algu\u00e9m aguentaria ler isso? N\u00e3o! Portanto, excesso de academicismo n\u00e3o \u00e9 a minha praia. Sou um questionador de tudo isso e precisaria pensar melhor como eu faria. O importante \u00e9 perceber que o depoimento oral \u00e9 sempre melindroso para se lidar, ainda mais no calor de um encontro p\u00fablico. No entanto, \u00e9 uma alternativa como registro da(s) hist\u00f3ria(s).<\/p>\n<p><strong>Terceira: Voc\u00ea acha que falta interesse, coragem, disposi\u00e7\u00e3o, de outras pessoas para mergulhar nesse universo da pesquisa sobre o tetro pernambucano, j\u00e1 que temos poucas referencias ainda?<br \/>\n<\/strong>Sim. H\u00e1 pouca gente interessada nisso. No entanto, acredito que a UFPE e o SESC t\u00eam cumprido um papel de disseminar este desejo de lidar com nossa hist\u00f3ria teatral. Atualmente tenho dois alunos do Curso de Interpreta\u00e7\u00e3o para Teatro do SESC Piedade (onde dou aulas de hist\u00f3ria do teatro pernambucano), Amanda Spacca e Anderson Cleber, que est\u00e3o trabalhando como estagi\u00e1rios comigo. Penso que podem se tornar \u00f3timos pesquisadores. E de vez em quando recebo pedidos de material de alunos da UFPE. Acredito que devem surgir mais pesquisadores vindo destes lugares, em breve.<\/p>\n<p><strong>Qual a contribui\u00e7\u00e3o do jornalismo para as artes c\u00eanicas hoje?<\/strong><br \/>\nFundamental. N\u00e3o s\u00f3 em termos de divulga\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 em cartaz (e ainda contamos com isso para que saibam que n\u00f3s existimos!), mas como fonte primordial para a historiografia teatral. Ainda que encontremos equ\u00edvocos tremendos na escrita de v\u00e1rios jornalistas, continua a ser um guia imprescind\u00edvel para este trabalho.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea ainda se considera um ator, diretor atuante e como funciona isso com a sua fun\u00e7\u00e3o de cr\u00edtico?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sou cr\u00edtico, Ivana. Gosto de escrever quando um espet\u00e1culo me instiga a isso. Sou jornalista e pesquisador do teatro, apaixonado pela arte que acompanho fervorosamente. Quanto a atuar e dirigir, quero mais n\u00e3o! T\u00f4 bem no meu lugar.<\/p>\n<p><strong>E atualmente como encara a faceta de pesquisador?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o que me d\u00e1 mais prazer. Se pagasse todas as minhas contas, s\u00f3 faria isso na vida. Adoro mergulhar no passado e confront\u00e1-lo com o momento que vivo. Acho que me sinto pleno nesta fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><div id=\"attachment_17000\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/branca-de-neve-e-os-sete-anoes-foto-acervo-projeto-memorias-da-cena-pernambucana1-e1472590110902.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-17000\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-17000\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/branca-de-neve-e-os-sete-anoes-foto-acervo-projeto-memorias-da-cena-pernambucana1-e1472590110902.jpg\" alt=\"Branca de Neve e os Sete Anoes. Foto: acervo projeto Mem\u00f3rias da Cena Pernambucana\" width=\"600\" height=\"366\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17000\" class=\"wp-caption-text\">Branca de Neve e os Sete An\u00f5es. Foto: acervo projeto Mem\u00f3rias da Cena Pernambucana<\/p><\/div><br \/>\n<strong>Uma aulinha para os leitores: Quando voc\u00ea identifica o nascimento do teatro em Pernambuco?<\/strong><br \/>\nDesde quando os jesu\u00edtas chegaram no Brasil. \u00c9 uma longa trajet\u00f3ria que remonta \u00e0queles tempos, tanto que a primeira pe\u00e7a de autor verdadeiramente brasileiro foi encenada no Recife, <em>Amor Mal Correspondido<\/em>, de Luiz \u00c1lvares Pinto, em 1780, no primeiro teatro do Recife, a Casa da \u00d3pera (segundo informa\u00e7\u00e3o dos pesquisadores Padre Jaime C. Diniz e Valdemar de Oliveira). E o teatro, com o passar dos s\u00e9culos, sempre resistiu entre momentos de maior ou menor qualidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel fazer um r\u00e1pido trajeto, at\u00e9 hoje? Apogeu e decl\u00ednio. O Recife por exemplo j\u00e1 foi considerado o terceiro polo produtor das artes c\u00eanicas do pa\u00eds. <\/strong><br \/>\nEssa quest\u00e3o de terceiro p\u00f3lo foi tamb\u00e9m uma grande estrat\u00e9gia de marketing dos divulgadores dos espet\u00e1culos (j\u00e1 nos anos 1930 encontro tal refer\u00eancia e o produtor B\u00f3ris Trindade, por exemplo, usou isso com muita maestria nos anos 1980, disseminando esta frase entre colunistas que reproduziram tal ideia sem nem saber do que se tratava na realidade). Entretanto, \u00e9 not\u00f3rio que at\u00e9 os anos 1930, Recife ainda era um p\u00f3lo importante para o \u201cNorte\u201d do pa\u00eds (aqui compreendendo o Norte-Nordeste, segundo terminologia da \u00e9poca). Mas n\u00e3o podemos esquecer Manaus e Bel\u00e9m, que tamb\u00e9m eram palcos significativos, estrat\u00e9gicos pelos portos e a chegada de companhias internacionais ou vindas do Rio de Janeiro, a ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica. Bom, como qualquer lugar do mundo, Pernambuco continua a produzir bom e mau teatro e isso tem a ver com muitos aspectos, di\u00e1logos de maior ou menor criatividade por parte dos fazedores de arte e a rela\u00e7\u00e3o conflituosa ou n\u00e3o com a pol\u00edtica, a economia da \u00e9poca, a sociedade que consome cultura, os interc\u00e2mbios travados com produ\u00e7\u00f5es de outros lugares, a cultura como um todo. Ningu\u00e9m hoje vai dizer que Recife \u00e9 a terceira cidade mais importante do nosso fazer teatral no Brasil, mas, sem d\u00favida, continua a ser uma das mais significativas, tanto que todos querem vir para c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>O teatro pernambucano vai bem, obrigado?<\/strong><br \/>\nVai como sempre, com altos e baixos. Quando a gente lida com o passado, passa a compreender melhor que a vida \u00e9 c\u00edclica.<\/strong><br \/>\nSua pesquisa voltada para seis d\u00e9cadas de teatro para crian\u00e7a em Pernambuco cataloga essa produ\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 isso enquanto m\u00e9todo? E como voc\u00ea conceituaria essa pesquisa?<\/strong><br \/>\nA minha pesquisa \u00e9 um mapeamento historiogr\u00e1fico. Para al\u00e9m da dramaturgia, como normalmente \u00e9 feito, tento abarcar as realiza\u00e7\u00f5es como um todo. Me interessa o universo teatral em sua maior amplitude, por isso tantos assuntos permeiam toda esta trajet\u00f3ria, inclusive na rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o cinema, o r\u00e1dio e a TV, as outras divers\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos, festivais, pol\u00eamicas da classe art\u00edstica junto ao poder p\u00fablico, personalidades mais influentes, as realiza\u00e7\u00f5es \u00e0 margem dos palcos oficiais, etc. \u00c9 um passeio pelo tempo, encarando-o como fragment\u00e1rio, incompleto, plural. Cito David Lowenthal no come\u00e7o, mas n\u00e3o parti de nenhum outro historiador conceitualmente. Este trabalho antecede minha ida ao Mestrado na UFPE e traz ainda um car\u00e1ter bem cronol\u00f3gico e factual, o que n\u00e3o o desmerece. Apenas n\u00e3o traz a problematiza\u00e7\u00e3o conceitual t\u00e3o perseguida pelo meio acad\u00eamico.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson2-290816-e1472590556429.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17003\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson2-290816-e1472590556429.jpg\" alt=\"leidson2-290816\" width=\"599\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson2-290816-e1472590556429.jpg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/leidson2-290816-e1472590556429-300x227.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Leidson, voc\u00ea \u00e9 uma das figuras no teatro que mais teve projetos aprovados e realizados no Funcultura. Seria poss\u00edvel desenvolver esses projetos sem o Funcultura? O que voc\u00ea pensa da concentra\u00e7\u00e3o de projetos aprovados para algumas pessoas\/empresas em todas as \u00e1reas? Que mudan\u00e7as voc\u00ea proporia ao Funcultura?<\/strong><br \/>\nImposs\u00edvel fazer o que fa\u00e7o sem o FUNCULTURA. E agrade\u00e7o demais a todas as comiss\u00f5es deliberativas que entenderem isso. Se sou um dos mais contemplados no edital, acredito que n\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 que meus projetos sempre ganharam visibilidade, talvez pelo cuidado com que eu os fa\u00e7o, talvez pela rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima que mantenho com a impressa. Mas j\u00e1 tive muitos n\u00e3os no FUNCULTURA tamb\u00e9m. Nem sempre ganho, e \u00e9 preciso ressaltar isso. Quanto \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de pessoas\/empresas, claro que sou contra. Ganhei, certa vez, tr\u00eas projetos de uma vez e quase enlouqueci. N\u00e3o recomendo isso a ningu\u00e9m. E acho que os que fazem o FUNCULTURA precisam conhecer muito bem o mercado cultural para saber se vai haver concentra\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. \u00c9 injusto quando temos t\u00e3o pouca verba para tamanha produ\u00e7\u00e3o no estado. Sobre as mudan\u00e7as, tenho muitas propostas, mas a principal \u00e9 alterar a lei original para que possamos ter n\u00e3o s\u00f3 apenas um aprovado por linha. Isso tem emperrado bastante.<\/p>\n<p><strong>Quais os pr\u00f3ximos passos?<\/strong><br \/>\nEstou finalizando o projeto <em>Teatro Tem Programa!<\/em>, com mais de 700 programas de espet\u00e1culos teatrais do Recife e Olinda no s\u00e9culo XX catalogados. A ideia \u00e9 compartilhar tudo pelo site da Fundaj (Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco), minha parceria nesta iniciativa. No mais, continuo no Mestrado em Hist\u00f3ria na UFPE estudando <em>O Teatro no Recife da D\u00e9cada de 1930 \u2013 Outros Significados \u00e0 Sua Hist\u00f3ria<\/em>, outro tema que adoro.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 um homem muito bem relacionado, querido entre a classe. Gosta inclusive de dizer que consegue transitar pelos mais diversos n\u00facleos do teatro em Pernambuco. Voc\u00ea j\u00e1 disse, com esse humor que lhe \u00e9 peculiar que voc\u00ea \u00e9 bem alto, seu abra\u00e7o \u00e9 grande. \u201cCabem todos junto a mim\u201d. Mas tamb\u00e9m tem seus desafetos. Como voc\u00ea lida com isso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o que eu tenha muitos desafetos, mas n\u00e3o gosto de cultivar inimizades. Sofro com isso. Procuro, ent\u00e3o, deix\u00e1-los distantes de mim. S\u00e3o poucos, felizmente. Prefiro pensar nos tantos amigos e colegas que fiz em toda a minha trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Em pelo menos dois epis\u00f3dios n\u00f3s dois nos desconhecemos. O primeiro foi a publica\u00e7\u00e3o de uma carta \u00e0 reda\u00e7\u00e3o no Diario de Pernambuco em que dois gestores eram criticados.<br \/>\nA segunda foi uma cr\u00edtica que escrevi para o Yolanda sobre o espet\u00e1culo <em>Olivier e Lili: Uma hist\u00f3ria de amor em 900 frases<\/em> [com o grupo Teatro de Fronteira, dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Dourado], que causou pol\u00eamica e rupturas, mas nunca se botou os pratos na mesa para se falar disso.<br \/>\nGostaria de falar sobre isso. O que ficou no seu cora\u00e7\u00e3o desses dois epis\u00f3dios?<\/strong><br \/>\nSou leonino, Ivana, portanto, nunca esque\u00e7o por completo, confesso. Mas procuro seguir a vida. O alto-astral, para mim, \u00e9 fundamental. E tento disseminar isso nas minhas conviv\u00eancias. Raramente vais me ver de cara feia. N\u00e3o sou desse tipo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse que encerrou minha viv\u00eancia como int\u00e9rprete em 2013, com a pe\u00e7a <em>Olivier e Lili<\/em>. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho mais tempo para ensaiar, nem paci\u00eancia nem tes\u00e3o. E acredito que quando algu\u00e9m quer ser ator, \u00e9 preciso muita dedica\u00e7\u00e3o, entrega, sofrimento&#8230; N\u00e3o estou mais disposto a tanto.<\/p>\n<p><strong>Bem, para encerrar, voc\u00ea soltou uma informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no seu livro: &#8220;Eu falo de um esc\u00e2ndalo da gest\u00e3o petista, quando Jo\u00e3o Paulo liberou R$ 150 mil para um espet\u00e1culo infantil, enquanto as artes c\u00eanicas locais minguavam patroc\u00ednio&#8221;. Voc\u00ea acha que \u00e9 realmente um esc\u00e2ndalo? Onde est\u00e1 o esc\u00e2ndalo? Criticar e polemizar sobre essa quest\u00e3o agora, em plena campanha, n\u00e3o borra a imagem de um candidato? Que me parece que teve um tratamento mais cuidadoso com a cultura? Por exemplo, o que \u00e9 essa gest\u00e3o atual da prefeitura para a cultura? O consenso na \u00e1rea de teatro \u00e9 que \u00e9 desastrosa. <\/strong><br \/>\nEsc\u00e2ndalo foi na \u00e9poca, tanto que sa\u00edram mat\u00e9rias enormes nos jornais e era o que mais se falava nos teatros e, minimamente, na pol\u00edtica. Afetou a todos que fazem teatro, dan\u00e7a e circo, porque, naquele momento, reclam\u00e1vamos uma verba minguada pelo Pr\u00eamio de Fomento \u00e0s Artes C\u00eanicas da Prefeitura do Recife. No entanto, nada mudou. S\u00f3 ganhei mais desafetos e alguns cr\u00e9ditos, por parte de alguns, por ter tido a coragem de denunciar algo que todos queriam falar, mas n\u00e3o o faziam. No entanto, essa minha fase de \u201cDom Quixote\u201d passou. J\u00e1 reclamei tanto do poder p\u00fablico, que cansei. Mas essa quest\u00e3o n\u00e3o veio agora, Ivana, est\u00e1 como um dos fatos do ano 2008 no meu livro <em>Panorama do Teatro Para Crian\u00e7as em Pernambuco (2000-2010)<\/em>\u201d. N\u00e3o estou fazendo den\u00fancia alguma neste momento de campanha, porque ela nem me interessa. N\u00e3o sou partid\u00e1rio de nenhum candidato, e acho que todos s\u00e3o desastrosos ao segmento cultural, uns mais outros menos. Como desacredito cada vez mais dessa pol\u00edtica que a\u00ed est\u00e1, nenhum tem o meu voto. E minha vida segue sem eles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O marco zero na hist\u00f3ria do teatro para crian\u00e7as no Recife foi a estreia da pe\u00e7a Branca de Neve e os 7 an\u00f5es, a primeira que levou crian\u00e7as para a cena, em 1939, no Teatro de Santa Isabel. Era um projeto do teatr\u00f3logo Valdemar de Oliveira, que superou todas as expectativas. 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