{"id":16905,"date":"2016-08-28T17:50:33","date_gmt":"2016-08-28T20:50:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=16905"},"modified":"2016-08-28T23:51:17","modified_gmt":"2016-08-29T02:51:17","slug":"as-nervuras-do-luxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/as-nervuras-do-luxo\/","title":{"rendered":"As nervuras do luxo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_16908\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14054451_958257880967060_230084735680680759_o-e1472322982540.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16908\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16908\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14054451_958257880967060_230084735680680759_o-e1472322982540.jpg\" alt=\"Stella Maris Saldanha no espet\u00e1culo Puro lixo. Foto: Ana \" width=\"600\" height=\"940\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16908\" class=\"wp-caption-text\">Stella Maris Saldanha no espet\u00e1culo Puro lixo. Foto: Ana Arag\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><em>Puro lixo, o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade<\/em> sustenta provoca\u00e7\u00f5es desde o t\u00edtulo. Atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o de unidades sem\u00e2nticas atravessadas por signos vindos das mais diversas origens. Conduz a ironia bem-comportada do dramaturgo Lu\u00eds Augusto Reis em sua interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e de um per\u00edodo hist\u00f3rico que ele viu pela janela. E carrega o encantamento classe m\u00e9dia do ent\u00e3o jovem diretor com um tipo de teatro que jamais adotaria em sua est\u00e9tica. Fasc\u00ednio id\u00eantico comungado por alguns integrantes da trupe. Esses, tamb\u00e9m remediados, eram movidos pela busca por liberdade \u2013 materializada na exposi\u00e7\u00e3o dos corpos nus ou seminus, na repeti\u00e7\u00e3o de palavras de ordem, ou totalmente em desordem. Servidos como finas iguarias a uma sociedade \u00e1vida por consumir o ex\u00f3tico, o estranho, o diferente nas artes \u2013 o caranguejo da lama das c\u00eanicas \u2013 , supunham que chocavam.<\/p>\n<p>A montagem nega sua pr\u00f3pria nomea\u00e7\u00e3o. O que vemos no Teatro Hermilo Borba Filho \u2013 ou, no m\u00ednimo o que eu vi, numa sess\u00e3o da temporada \u2013 foi uma encena\u00e7\u00e3o distante do que desperta a palavra vibrante \u2013 animada, euf\u00f3rica, entusiasmada, extasiada. Ou pelo menos eu n\u00e3o fui afetada por essas ideias e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em alguns momentos me pareceu algo glacial, como se fora arquitetado com essa inten\u00e7\u00e3o de distanciamento. De produzir uma cr\u00edtica aos produtos e aos produtores que o tempo vai dando um jeito de embalar de v\u00e1rias formas. N\u00e3o sei se o objetivo era expor com veem\u00eancia a perda de todas as certezas. Inclusive a do lugar ocupado pelo Vivencial, da origem at\u00e9 suas facetas posteriores. Da coragem de cutucar o drag\u00e3o at\u00e9 ser situado como praticamente um <em>mainstream<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_16921\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13653120_948901528569362_7608956021364085368_o-1-e1472413722257.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16921\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-16921 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13653120_948901528569362_7608956021364085368_o-1-e1472413722257.jpg\" alt=\"Puro Lixo foto Ana\" width=\"600\" height=\"388\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16921\" class=\"wp-caption-text\">Paulo Castelo Branco, Marinho Falc\u00e3o, Eduardo Filho, Samuel Lira, Gil Paz. Foto: Ana Arag\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O que \u00e9 a verdade? A pergunta de Pilatos prossegue pulsante. Ent\u00e3o, o que era de fato esse Vivencial, que depois de 30 anos vem recebendo as mais honrosas homenagens? O grupo que nasceu com o p\u00e9 na lama, as m\u00e3os dispostas para a luta e para a fecha\u00e7\u00e3o, o corpo ardente de desejos contradit\u00f3rios, mas sempre disposto a provocar. O cora\u00e7\u00e3o em chamas de alegria e esperan\u00e7a, porque sim, acreditavam no fundo que iriam mudar o mundo. O seu peda\u00e7o de mundo. E mudaram&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o conheci o Vivencial aut\u00eantico. O que dele sei \u00e9 por livros, artigos, entrevistas com ex-integrantes, conversas com amigos recentes que participaram do grupo. A minha composi\u00e7\u00e3o dessa trupe \u00e9 a partir da mem\u00f3ria dos outros. Dos filtros dos outros.<\/p>\n<p>Henrique Celibi, a mascote do bando, a figura que talvez melhor tenha incorporado e processado o sopro vital daquela \u00e9poca, porque continua a engendrar personagens e situa\u00e7\u00f5es atesta: \u201cn\u00f3s, as vivecas \u00e9ramos terr\u00edveis\u201d. N\u00e3o duvido mesmo!<\/p>\n<p>E talvez a partir da\u00ed abram-se fendas entre o grupo celebrado, o Vivencial, e a montagem <em>Puro lixo, o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade<\/em>, dirigida por Antonio Edson Cadengue.<\/p>\n<p>O encenador elenca como alicerce nessa empreitada os anjos, enquanto o clima nos bastidores da trupe olindense n\u00e3o era nada angelical. N\u00e3o vou entrar nos m\u00e9ritos das categorias de anjos; at\u00e9 porque n\u00e3o entendo de coisas celestiais. Bem que gostaria, confesso. Mas o embate com os humanos em toda sua complexidade j\u00e1 me suga demais o esp\u00edrito.<\/p>\n<div id=\"attachment_16923\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13988010_948902105235971_8491962447590952120_o-1-e1472413987868.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16923\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-16923 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13988010_948902105235971_8491962447590952120_o-1-e1472413987868.jpg\" alt=\"13988010_948902105235971_8491962447590952120_o (1)\" width=\"600\" height=\"381\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16923\" class=\"wp-caption-text\">Cenografia de Otto Neuenschwander remete ao palco e aos bastidores<\/p><\/div>\n<p>P\u00f3s-tropicalista, sob a influ\u00eancia da contracultura, o Vivencial arrebentou com as tradi\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas da Pernambuc\u00e1lia. A trupe chegou para injetar novas ideias no territ\u00f3rio da cultura dominada pelo regionalismo e pelas conven\u00e7\u00f5es. A proposta era subverter o estabelecido. Desafiar a pol\u00edtica, ir para o confronto. Sob a lideran\u00e7a de Guilherme Coelho, aspirante a abade que exaltava o profano, que contrabandeava as voca\u00e7\u00f5es da alma para concretizar nos prazeres de carnes tr\u00eamulas e tenras.<\/p>\n<p>Esse bando inventava sua arte sem se importar com unidade dram\u00e1tica ou enredo. E virava as costas para estruturas aristot\u00e9licas. A fala\u00e7\u00e3o sobre sexualidade ganhava apar\u00eancia radical nas pe\u00e7as abarrotadas de ironias e deboche. Transgredir os valores vigentes &#8211;\u00a0 sociais e est\u00e9ticos \u2013 era o <em>habite se<\/em>.<\/p>\n<p>O ent\u00e3o demolidor Jomard Muniz de Britto, cineasta, escritor, professor, tropicalista, autor do <em>Invent\u00e1rio de um Feudalismo Cultural<\/em> (1974) estava sempre por perto para incendiar com seus conselhos, indicando caminhos, fervendo o verbo.<\/p>\n<p>Mas os tempos s\u00e3o outros. Se l\u00e1 atr\u00e1s, os atritos e confrontos eram combust\u00edveis para tomar posicionamentos, hoje impera a apatia cuja face mais degradante \u00e9 o confisco de 54 milh\u00f5es de votos.<\/p>\n<p>\u00c9!!! Os tempos s\u00e3o outros e as personalidades, todas s\u00e3o boazinhas. Caras, coroas e caveiras campe\u00f5es em tudo. Nunca tiveram um ato rid\u00edculo, nunca sofreram enxovalho como no poema de Pessoa.<\/p>\n<p>Enquanto eu fui ali em Marte pegar um fogo emprestado, ao voltar me deparei com antigos desafetos sorrindo para compor o mesmo quadro, brindando junto, gente que comenta horrores pelas beiras estavam a felicitar unido. Parecia uma repeti\u00e7\u00e3o seriada do que ocorre no seio do poder. Mas talvez sejam del\u00edrios meus, logo agora que n\u00e3o consumo \u00e1lcool h\u00e1 s\u00e9culos; desvarios por abstin\u00eancia \u00e0s drogas que nunca consumi. Mas isso realmente n\u00e3o tem import\u00e2ncia, pois somos todos \u201cfarinha do mesmo saco, da mesma marinha&#8230; Sob a mesma bandeira\u201d, pelo menos os do teatro. \u00c9 tudo fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_16922\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13975501_948916618567853_2090439993221680412_o-e1472414062270.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16922\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-16922 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13975501_948916618567853_2090439993221680412_o-e1472414062270.jpg\" alt=\"Puro lixo\" width=\"600\" height=\"404\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16922\" class=\"wp-caption-text\">Ilumina\u00e7\u00e3o de Luciana Raposo explora inclusive os reflexos de espelhos<\/p><\/div>\n<p>Mas a pe\u00e7a \u00e9 ou n\u00e3o uma homenagem ao Vivencial?<\/p>\n<p>Sim, um tributo. Mas recheado de camadas de te\u00f3ricos, de refer\u00eancias.<\/p>\n<p>O potente laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o que foi o Grupo Vivencial \u00e9 submetido a an\u00e1lises. \u00c9 esquadrinhado, justaposto, invertido, devorado pelo tempo, vomitado junto com traumas e alegrias do caminho. E s\u00e3o muitas pinceladas de verniz.<\/p>\n<p>O dramaturgo Lu\u00eds Augusto Reis \u00e9 muito h\u00e1bil em vasculhar processos teatrais. Em celebrar essa arte fugidia, em perscrutar os seus sentidos.<\/p>\n<p>\u00c9 assim com <em>A filha do teatro<\/em>, que recebeu o Pr\u00eamio Funarte de Dramaturgia em 2003, pelo texto, e \u00e9 narrada a partir de tr\u00eas pontos de vista diferentes. Perspectivas diversas, esses eixos explodidos tamb\u00e9m marcam a pe\u00e7a <em>Puro lixo<\/em>.<\/p>\n<p>Para o ensa\u00edsta franc\u00eas Maurice Blanchot, a narrativa deve ser compreendida como o pr\u00f3prio acontecimento. <em>A filha do teatro<\/em> confabula com essa ideia. As engrenagens s\u00e3o expostas na pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Em <em>A Morte do Artista Popular<\/em>, Lu\u00eds Reis ergueu uma farsa sobre editais e concorr\u00eancias de verbas p\u00fablicas para a cultura e evidencia os bastidores desses processos, investigando os procedimentos teatrais. Reis tem facilidade em investir no metateatro de maneira criativa.<\/p>\n<p><em>Puro lixo, o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade<\/em> encerra a trilogia <em>Transgress\u00e3o em 3 atos<\/em>, iniciada em 2008. O projeto cultural, produzido pelos jornalistas e professores Alexandre Figueir\u00f4a, Claudio Bezerra e Stella Maris (tamb\u00e9m produtora e atriz), amealhou tr\u00eas importantes grupos pernambucanos que atuaram nos anos 1960, 1970 e in\u00edcio dos 1980: o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF), o Teatro Popular do Nordeste (TPN) \u00a0e, por fim, o Vivencial. As pesquisas originaram as encena\u00e7\u00f5es de <em>Os fuzis da Senhora Carrar<\/em>, de Bertolt Brecht (2010), com dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Denys; <em>Auto do Sal\u00e3o do Autom\u00f3vel<\/em>, de Osman Lins (2012), com dire\u00e7\u00e3o de Kleber Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>O texto-roteiro de Lu\u00eds Augusto Reis foi composto a partir do artigo de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, <em>Vivencial Diversiones apresenta: frangos falando para o mundo<\/em>, publicado pelo jornal <em>Lampi\u00e3o da Esquina<\/em>, em novembro de 1979, quando a trupe fundou em Olinda um espa\u00e7o pr\u00f3prio chamado Vivencial Diversiones.<\/p>\n<div id=\"attachment_16919\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/purolixo-anaraujo-e1472414111133.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16919\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16919\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/purolixo-anaraujo-e1472414111133.jpg\" alt=\"Engrenagens do teatro s\u00e3o expostas\" width=\"600\" height=\"427\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16919\" class=\"wp-caption-text\">Engrenagens do teatro s\u00e3o expostas<\/p><\/div>\n<p>A cr\u00f4nica de Trevisan \u00e9 tomada como leitmotiv do espet\u00e1culo. Nessa hist\u00f3ria fracionada a pr\u00e1tica do teatro ganha relevo. Cadengue proclama que a obra \u00e9 um tributo e n\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o liga\u00e7\u00e3o direta com Ren\u00e9 Magritte&#8230; Ceci n&#8217;est pas une pipe (Isto N\u00e3o \u00c9 um Cachimbo).<\/p>\n<p>A pe\u00e7a segue os passos das montagens do Vivencial que lan\u00e7ava m\u00e3o de cr\u00f4nicas, reportagens, contos, textos escritos n\u00e3o especificamente para o palco como mat\u00e9ria-prima, para recriar livremente em cena. O dramaturgo tamb\u00e9m aplica os atributos da obra vivenciana como reciclagem, colagem e superposi\u00e7\u00e3o para cunhar uma cena em que os atores Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falc\u00e3o, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira e Stella Maris Saldanha atendem pelo pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p>E <em>Puro Lixo<\/em> exibe uma s\u00e9rie de engrenagens a serem elaboradas pelo espectador. O revezar do foco dram\u00e1tico robustece o \u201ctempo\u201d como representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O encenador que tem no seu curr\u00edculo cl\u00e1ssicos de v\u00e1rios matizes flerta com outro tipo de teatro de pesquisa, com o teatro contempor\u00e2neo. \u00c9 um audaz deslocamento, mesmo que seja breve, e atesta que \u00e9 dif\u00edcil para essa arte t\u00e3o ef\u00eamera ficar grudada \u00e0s gl\u00f3rias do passado.<\/p>\n<p>O discurso n\u00e3o reproduz a diversidade conflituosa daquele microcosmo. E, segundo o diretor, essa n\u00e3o era a inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito do grupo de teatro Vivencial \u00e9 dif\u00edcil de agarrar. Seria um erro mumific\u00e1-lo ou o reverenciar como um marco grandioso. Isso talvez ficasse mais pr\u00f3ximo de uma apologia passadista. O Vivencial virou um \u201ccl\u00e1ssico\u201d da cena brasileira, mas isso n\u00e3o pode apagar as contradi\u00e7\u00f5es e impasses que o marcaram.<\/p>\n<p>Antonio Edson Cadengue insiste que nessa dramaturgia estilha\u00e7ada e sem personagens bem delimitados cintilam flashes de cenas da trupe. Como exemplos o diretor elenca, no seu texto do programa, uma \u201cestranha\u2019 Marlene Dietrich, do filme <em>Anjo azul<\/em>; uma Janis Joplin drogada e b\u00eabada; a disputa pelo protagonista na apresenta\u00e7\u00e3o do show de variedades <em>Bonecas\u2026 ou Frangos falando para o mundo<\/em> entre Petr\u00f4nio de Sena e a Marquesa (o ator Marcos Quenza), a cena <em>Nem T\u00e3o Vi\u00fava, Nem T\u00e3o Honesta<\/em> e men\u00e7\u00f5es a muitas vivecas como Lara Paulina, Paulete Godard, Luciana Luciene e Lee Marjories.<\/p>\n<p>E de repente algu\u00e9m do elenco tasca um oxe mainha. Essa refer\u00eancia mais largamente conhecida de <em>Cinderela, a hist\u00f3ria que sua m\u00e3e n\u00e3o contou<\/em>, da Trupe do Barulho, aponta para a criatividade febril de Henrique.<\/p>\n<p>Mas tantas particularidades dificultam o espectador sem ampla\u00a0bagagem, acho eu.<\/p>\n<div id=\"attachment_16920\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14115619_958275674298614_7029355268093774467_o-e1472414177118.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16920\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16920\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14115619_958275674298614_7029355268093774467_o-e1472414177118.jpg\" alt=\"Cena de Nem t\u00e3o vi\u00fava, nem t\u00e3o honesta\" width=\"600\" height=\"394\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16920\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Nem t\u00e3o vi\u00fava, nem t\u00e3o honesta<\/p><\/div>\n<p>A\u00a0arte desse bando de vivecas se contrapunha ao expediente da ind\u00fastria cultural, que dita o consumo, as necessidades, os desejos e os valores dessa massa.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio pensei que a encena\u00e7\u00e3o de <em>Puro lixo<\/em> talhava para o procedimento da cultura pasteurizada, nas suas dobras, e do espet\u00e1culo poderia submergir ao fazer alus\u00e3o a um grupo fe\u00e9rico, mas que n\u00e3o pulsa no mesmo diapas\u00e3o. Refiz a trilha do pensamento.<\/p>\n<p>Esse <em>Puro lixo<\/em> n\u00e3o \u00e9 palat\u00e1vel a grande massa de consumidores. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil de consumir pensando na imagem da alegria esfuziante, sem uma l\u00e1grima de tristeza. A montagem parece que foi tateando, dizendo vem comigo, no caminho eu explico, porque tamb\u00e9m estava a descobrir. Exp\u00f4s os nervos.<\/p>\n<p>Parece que a obra criadora e cr\u00edtica de <em>Puro lixo<\/em> persegue seu pr\u00f3prio destino radical para n\u00e3o se tornar apenas entretenimento, n\u00e3o ficar esvaziada de si mesma. Ao olhar o passado com generosidade e ter certeza que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel repetir a mesma for\u00e7a, o mesmo brilho, o mesmo frescor. E como se tornou \u00e1rdua essa tarefa de celebrar esse grupo t\u00e3o polif\u00f4nico.<\/p>\n<p>Cadengue insinua ampliar o sentido teatral da narrativa, com a compreens\u00e3o de incluir at\u00e9 mesmo a plateia, que conheceu o grupo original, como recurso de encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_16925\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13923776_948891511903697_8604915233477585185_o-1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16925\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-16925 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13923776_948891511903697_8604915233477585185_o-1-e1472415015110.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"379\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16925\" class=\"wp-caption-text\">Gil Paz em primeiro plano, de fraque e cartola<\/p><\/div>\n<p>Ao adentrar no Hermilo Borba Filho, um homem lindo, de dois metros de altura, ostenta um tabuleiro com bombons, cigarros e outras bugigangas. \u00c9 Eduardo Filho, montado em uma plataforma, assim como outros colegas. Enquanto o p\u00fablico se acomoda, eles oferecem seus produtos.<\/p>\n<p>O elenco se doa \u00e0 encena\u00e7\u00e3o e h\u00e1 destaques para cada um deles, no revezamento do protagonismo da cena. Gil Paz ganha destaque na cena de protesto contra o racismo e uma dublagem de Elza Soares. Samuel Lira, de salto alto tocando sanfona. E eles v\u00e3o revelando uns segredos dos bastidores. Marinho Falc\u00e3o, Paulo Castelo Branco, todos \u00f3timos atores. A cena n\u00e3o pulsa na mesma dic\u00e7\u00e3o e \u00e0s vezes sentimos o belisc\u00e3o avesso do riso largo.<\/p>\n<p>Com a escolha de olhar de soslaio o vulgar, o baixo c\u00f4mico, predominantes no Vivencial, a montagem de <em>Puro Lixo<\/em> se afasta da gana terr\u00edvel e das picuinhas de bastidores. Faz falta porque afasta o riso do deboche, de uma maldadezinha muito comum nas coxias teatrais. Os dem\u00f4nios da pinta, da fecha\u00e7\u00e3o, da frescura e da viadagem parecem contidos demais no desempenho dos atores.<\/p>\n<p>Stella Maris Saldanha representa as integrantes mulheres do Vivencial. As figuras femininas do grupo tinham que dar o truque para ficar no centro dos holofotes, diante daquele bando de homens, bi, trans. Cada uma que se garantisse. Com charme, pot\u00eancia, garra, esperteza. \u00c9 louv\u00e1vel a coragem de Stella ao encarar esse universo. Suas personagens s\u00e3o mais solenes, aqui e ali \u00e9 que ganham um toque mais depravado.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s cenas dos protestos ausentes, da viol\u00eancia, da negritude, do feminic\u00eddio mesmo que n\u00e3o seja uma proposta original ou inovadora, mas \u00e9 um artif\u00edcio que provoca uma inquieta\u00e7\u00e3o. Ou inc\u00f4modo.<\/p>\n<div id=\"attachment_16924\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14115429_958263777633137_3925795373241396159_o-e1472414875413.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16924\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16924\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/14115429_958263777633137_3925795373241396159_o-e1472414875413.jpg\" alt=\"Figurinos de Manuel Carlos. \" width=\"600\" height=\"411\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16924\" class=\"wp-caption-text\">Figurinos de Manuel Carlos.<\/p><\/div>\n<p>Os figurinos de Manuel Carlos s\u00e3o harmoniosos no seu conjunto. De uma beleza do luxo, mesmo as simples sungas dos rapazes. \u00c9 um guarda-roupa pr\u00e1tico para a troca de pe\u00e7as que os atores v\u00e3o alternando.\u00a0 Valoriza o corpo dos atores e salienta as ambiguidades.<\/p>\n<p>A derradeira m\u00fasica da trilha sonora original de Eli-Eri Moura corteja as vivecas originais, mas tamb\u00e9m paquera com figuras do teatro pernambucano. \u201cO Magiluth eu comeria\u201d. Interven\u00e7\u00f5es sonoras e ru\u00eddos se ajeitam com sauda\u00e7\u00f5es \u00e0s m\u00fasicas de filmes. O clima proposto \u00e9 de cabar\u00e9 dos anos 20 e 30.<\/p>\n<p>A cenografia de Otto Neuenschwander materializa o aspecto metateatral, com camarim dos atores, palquinho, com cortina e uma boca enorme na parte de cima a convocar o esp\u00edrito do Vivencial.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o de Luciana Raposo investe na dupla fun\u00e7\u00e3o de revelar e esconder as transforma\u00e7\u00f5es dos atores, criando brilhos projetados nos espelhos, l\u00e2mpadas de toucador. Surpreendendo.<\/p>\n<p><em>Puro lixo<\/em> est\u00e1 em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho s\u00f3 at\u00e9 4 de setembro de 2016. S\u00e1bados e domingos \u00e0s 18h. Confira e tire suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\n<em>Puro lixo, o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade<\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong>\u00a0De 13 de agosto a 4 de setembro, sempre aos s\u00e1bados a partir \u00e0s 18h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong>\u00a0Teatro Hermilo Borba Filho<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong>\u00a0R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00<br \/>\n<strong>Indica\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Para maiores de 16 anos<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong>\u00a0Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falc\u00e3o, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira, Stella Maris Saldanha<br \/>\n<strong>Texto:<\/strong>\u00a0Lu\u00eds Augusto Reis<br \/>\n<strong>Consultoria:<\/strong>\u00a0Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan<br \/>\n<strong>Encena\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Antonio Cadengue<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Puro lixo, o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade sustenta provoca\u00e7\u00f5es desde o t\u00edtulo. Atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o de unidades sem\u00e2nticas atravessadas por signos vindos das mais diversas origens. Conduz a ironia bem-comportada do dramaturgo Lu\u00eds Augusto Reis em sua interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e de um per\u00edodo hist\u00f3rico que ele viu pela janela. 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