{"id":16718,"date":"2016-08-15T12:15:15","date_gmt":"2016-08-15T15:15:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=16718"},"modified":"2016-08-16T23:00:28","modified_gmt":"2016-08-17T02:00:28","slug":"a-liberdade-era-vivida-na-imediatez-daqueles-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/a-liberdade-era-vivida-na-imediatez-daqueles-tempos\/","title":{"rendered":"&#8220;A liberdade era vivida na imediatez daqueles tempos&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_16725\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_6812-e1471238218448.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16725\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16725\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_6812-e1471238218448.jpg\" alt=\"Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16725\" class=\"wp-caption-text\">Puro lixo &#8211; o espet\u00e1culo mais vibrante da cidade celebra o Vivencial. Foto: Rodrigo Monteiro<\/p><\/div>\n<p><em>Puro Lixo \u2013 O Espet\u00e1culo Mais Vibrante da Cidade<\/em>, a derradeira parte do projeto Transgress\u00e3o em Tr\u00eas Atos, \u00a0estreou no fim de semana no Teatro Hermilo Borba Filho, onde fica em cartaz aos s\u00e1bados e domingos at\u00e9 4 de setembro. O projeto Transgress\u00e3o foi iniciado em 2008 e rendeu as encena\u00e7\u00f5es <em>Os fuzis da Senhora Carrar<\/em>, de Bertolt Brecht (2010), com dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Denys, em homenagem ao Teatro Hermilo Borba Filho (THBF); e\u00a0<em>Auto do sal\u00e3o do autom\u00f3vel<\/em>, de Osman Lins (2012), com dire\u00e7\u00e3o de Kleber Louren\u00e7o, que celebrou o Teatro Popular do Nordeste (TPN). O programa leva a assinatura dos jornalistas e professores Alexandre Figueir\u00f4a, Claudio Bezerra e Stella Maris (tamb\u00e9m produtora e atriz).<\/p>\n<p>Desta vez a ode \u00e9 ao Grupo Vivencial \u2013 que entre precariedades e purpurinas dava seu grito de liberdade em plena ditadura militar. De cara o dramaturgo Lu\u00eds Reis e o diretor Antonio Cadengue chegaram ao consenso de que a encena\u00e7\u00e3o n\u00e3o iria tentar reproduzir a experi\u00eancia do Vivencial.\u00a0 \u201cOs tempos s\u00e3o outros, ent\u00e3o o que queremos \u00e9 pensar o Vivencial hoje, refletindo tamb\u00e9m sobre o papel do teatro\u201d, destaca o encenador.<\/p>\n<p>A base para a dramaturgia foi\u00a0o artigo <em>Vivencial Diversiones apresenta: Frangos falando para o mundo<\/em>, de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, publicado no jornal <em>Lampi\u00e3o da Esquina<\/em>, em novembro de 1979, quando a trupe inaugurou sua sede nos limites entre Recife e Olinda, o Vivencial Diversiones.<\/p>\n<p>No elenco de <em>Puro lixo<\/em> est\u00e3o os atores Eduardo Filho, Gilson Paz, Marinho Falc\u00e3o, Paulo Castelo Branco, Samuel Lira e Stella Maris Saldanha.<\/p>\n<div id=\"attachment_16726\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_7069-1-e1471238286284.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16726\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16726\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_7069-1-e1471238286284.jpg\" alt=\"Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16726\" class=\"wp-caption-text\">Gilson Paz, em primeiro plano, e Stella Maris Saldanha em Puro lixo. Foto: Rodrigo Monteiro<\/p><\/div>\n<p>A estrutura da pe\u00e7a mostra uma noite num cabar\u00e9, onde\u00a0s\u00e3o apresentados experimentos c\u00eanicos, flashes das mem\u00f3rias dos artistas nos bastidores, e a defesa de posicionamentos, como o de dar pinta como recurso do fazer pol\u00edtico. Cadengue diz que a montagem exp\u00f5e feridas da nossa sociedade e que toca em quest\u00f5es fortes da teoria queer, de g\u00eanero, de ra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cA conjun\u00e7\u00e3o de todas as cenas resulta em algo muito sofisticado (voc\u00ea pode perceber que uma fala dita por um personagem em off no in\u00edcio da pe\u00e7a, vai reverberar em carnadura noutra cena mais adiante)\u201d, pontua Cadengue.<\/p>\n<p>Com a palavra, o encenador.<\/p>\n<p><strong>Entrevista \/\/ ANTONIO EDSON CADENGUE<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_16721\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13767115_930875703705278_5058008526287436519_o-e1471237503257.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16721\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16721\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13767115_930875703705278_5058008526287436519_o-e1471237503257.jpg\" alt=\"Foto: Yeda Bezerra de Melo\" width=\"600\" height=\"600\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16721\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Yeda Bezerra de Melo<\/p><\/div>\n<p><strong>O grupo Vivencial \u00e9 apontado como um o\u00e1sis de liberdade naquele tempo de ditadura. Que diabo de liberdade era essa?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a vaga lembran\u00e7a que a liberdade n\u00e3o era \u201cuma cal\u00e7a suja e desbotada\u201d, mas algo por vir, algo que se conquistava no exato momento em que se realizava, algo vivido na imediatez daqueles tempos. Talvez a isto se chame o\u00e1sis. Mas isso n\u00e3o era simples: viviam-se amores e perdi\u00e7\u00f5es, vivia-se com felicidade a incerteza, porque n\u00e3o interessava, a mim parece hoje, o futuro, mas o presente.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a pe\u00e7a <em>Puro lixo<\/em>? S\u00e3o quadros justapostos? Revelando os bastidores? As luzes da ribalta?<\/strong><\/p>\n<p>A dramaturgia de Lu\u00eds Reis, a partir da reportagem de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, agrupou outras cenas que trouxeram aos dias de hoje algo inusitado, mesmo quando parecem serem meras par\u00f3dias: a conjun\u00e7\u00e3o de todas as cenas resulta em algo muito sofisticado (voc\u00ea pode perceber que uma fala dita por um personagem em <em>off<\/em> no in\u00edcio da pe\u00e7a, vai reverberar em carnadura noutra cena mais adiante). A pe\u00e7a n\u00e3o revela os bastidores: ela \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a cena e a plateia.<\/p>\n<p>Tive ontem (s\u00e1bado), na estreia, a sensa\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 havia, antes de fazer a pe\u00e7a, um di\u00e1logo muito animado com Karl Valentin e Frank Wedekind. Uma sensa\u00e7\u00e3o esquisita, mas pulsante: cheguei a pensar que Brecht estava assistindo ao <em>Puro Lixo<\/em>, completamente entusiasmado ou entediado. \u00c9 que Valentin e Wedekind foram admirados por Brecht e ele poderia estar considerando uma heresia eu ter-me utilizado de procedimentos epicizantes como aqueles que est\u00e3o presentes em <em>O Despertar da Primavera<\/em>.<\/p>\n<p>Ou no caso do c\u00f4mico Karl Valentin, de quem recebeu influ\u00eancias determinantes para a elabora\u00e7\u00e3o de muitas de suas obras, onde a ironia e o grotesco est\u00e3o em sintonia e se abrem a uma educa\u00e7\u00e3o dos sentidos, uma leitura cr\u00edtica, sem didatismos. Melhor: tendo-se uma atitude racional e cr\u00edtica perante o mundo, para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores. N\u00e3o tive como esquecer os cabar\u00e9s alem\u00e3es do pr\u00e9-guerra, que produziu, dentre outras obras no cinema, <em>Anjo Azul<\/em>, fantasmal na montagem (escute a bela trilha de Eli-Eri Moura&#8230;) e&#8230; Quanto \u00e0 ribalta, neste caso, perdeu seu ch\u00e3o, h\u00e1 tempo: preferi que ela se espalhasse pelos ares, por isso Luciana Raposo nos deu a luz que foi poss\u00edvel em t\u00e3o prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_16724\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13576885_922530131206502_6956743768832638593_o-e1471237942121.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16724\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16724\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/13576885_922530131206502_6956743768832638593_o-e1471237942121.jpg\" alt=\"Equipe de Puro lixo: Samuel,Paulo,Stella Eduardo, Marinho e Gil: Manoel, Antonio e Igor. Foto Yeda Bezerra de Melo\" width=\"600\" height=\"637\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16724\" class=\"wp-caption-text\">Equipe de Puro lixo: Samuel,Paulo,Stella, Eduardo, Marinho, Gil; Manoel, Antonio e Igor. Foto: Yeda Bezerra de Melo<\/p><\/div>\n<p><strong>Como funcionam esses personagens anjos? <\/strong><\/p>\n<p>Como digo no programa da pe\u00e7a, s\u00e3o anjos que t\u00eam luz pr\u00f3pria por serem anjos err\u00e1ticos, cambiantes: \u201cPor vezes, os atores Eduardo Filho, Gil Paz, Marinho Falc\u00e3o, Paulo Castelo Branco<strong>,<\/strong> Samuel Lira e Stella Maris Saldanha s\u00e3o eles mesmos; outras vezes, desfazem a si pr\u00f3prios: esse \u00e9 o movimento desta pe\u00e7a em fragmentos. Os int\u00e9rpretes t\u00eam consigo a incompletude de seus personagens. H\u00e1 um fluxo de vozes que se cruzam no palco, como se um coro fizesse uma narra\u00e7\u00e3o em que reverbera um esgar\u00e7ado di\u00e1logo, um coment\u00e1rio fingido, uma cita\u00e7\u00e3o identific\u00e1vel e, ao mesmo tempo, tudo atravessado. Neste ato de cria\u00e7\u00e3o, neste jogo, h\u00e1 um prazer infindo. Poder-se-ia dizer que, nesse aspecto, nesse ponto, paira sobre o trabalho dos que comp\u00f5em o elenco, uma esp\u00e9cie de gozo, pelo desdobramento de tantos seres alheios a cada um deles. Gozo pela viv\u00eancia dos atos de cria\u00e7\u00e3o, gozo coletivo, n\u00e3o solit\u00e1rio. Gozo por tomar figuras que devem ser tomadas como suas, mesmo que por pequenos \u00e1timos.\u201d Nada a acrescentar ao que foi dito e trabalhando em cena. Arduamente.<\/p>\n<p><strong>A precariedade do Vivencial serviu de trampolim para criar uma est\u00e9tica de desbunde, da irrever\u00eancia e da transgress\u00e3o? Como isso chega ao espet\u00e1culo <em>Puro lixo<\/em>? <\/strong><\/p>\n<p>Chegamos a uma configura\u00e7\u00e3o est\u00e9tica por meio da transcend\u00eancia (se isso \u00e9 poss\u00edvel) ao desbunde, j\u00e1 tendo ele se firmado na cultura brasileira e especialmente no Recife. O desbunde e a irrever\u00eancia est\u00e3o enraizados em n\u00f3s, como o Manifesto Antrop\u00f3fago, de Oswald de Andrade, mas agora sob novas dimens\u00f5es. Sob nova denti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Foi noticiado que o ator Gilson Paz protagoniza um manifesto contra o racismo no espet\u00e1culo? Como \u00e9 isso? H\u00e1 outros manifestos? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 tudo verdade e mentira. Como no teatro. \u00c9 o momento mais evidentemente pol\u00edtico do espet\u00e1culo, uma fratura na representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea afirmou que \u201cOs personagens e situa\u00e7\u00f5es evocados s\u00e3o narrados, comentados, representados, sobretudo tratados com jocosidade e, ao mesmo tempo, pertin\u00eancia, no que concerne \u00e0 sexualidade e \u00e0 realidade brasileira\u201d. Gostaria de saber como entra essa jocosidade. Esse procedimento, que desperta ambiguidade, pode ser considerado tipo veneno, mensagem subliminar com endere\u00e7o certo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 perversidade alguma no que fazemos, mas celebra\u00e7\u00e3o ao teatro de ontem, de hoje e de sempre. E, em se tratando de teatro, l\u00e1 se espraiam a jocosidade, a seriedade, a sexualidade&#8230; E tudo isso no contexto em que vivemos: o Brasil.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o adianta fazer ou assistir teatro sem considerarmos as caracter\u00edsticas do tempo em que vivemos. O teatro \u00e9 o reflexo das realidades de uma \u00e9poca e n\u00e3o um fen\u00f4meno isolado cujas dificuldades sejam exclusivamente suas, mas de todo um processo criativo em crise.\u201d O que dizer sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Este era um texto-chave que o Grupo de Teatro Vivencial usou e abusou em v\u00e1rias de suas montagens. \u00c9 o texto de uma \u00e9poca que ainda ressoa hoje, com certeza. Mas penso que todo processo criativo est\u00e1 em permanente crise, sen\u00e3o torna-se imposs\u00edvel viver sem estar em cr\u00edtica permanente. Crise-Cr\u00edtica. De raiz.<\/p>\n<p>Sabemos que o Vivencial n\u00e3o nasceu unanimidade. Foram muitos embates e tens\u00f5es enfrentadas pelo grupo, inclusive com a rivalidade de outros coletivos \u201cmais s\u00e9rios\u201d da \u00e9poca. O tempo, como sempre, trata de canonizar pessoas, grupos etc. Como apontou Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, o Vivencial foi uma das experi\u00eancias mais fascinantes e originais na transfigura\u00e7\u00e3o do lixo em beleza. Mas \u201c<em>Um dia o Vivencial acabou. Sua ambiguidade se esgotara, sua originalidade tamb\u00e9m. N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto o sucesso foi respons\u00e1vel por seu fim. Arrisco a dizer que o Vivencial n\u00e3o conseguiu sobreviver porque se aproximou demais dos centros de poder e, com isso, abandonou a dif\u00edcil arte da corda bamba que a marginalidade lhe permitia. Secou. Ao absorver sua proposta, a sociedade cooptou o grupo e transformou-o num modismo rapidamente exaurido. Assim confiscou-lhe o passaporte para a poesia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Poderia comentar&#8230; os apontamentos de Trevisan?! O poder acaba com a irrever\u00eancia e a poesia? <\/strong><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, responde de maneira enviesada (porque n\u00e3o trata agora do Vivencial), a quest\u00e3o maior que voc\u00ea levanta: se \u00e9 poss\u00edvel hoje haver transgress\u00e3o, em meio \u00e0 sociedade do espet\u00e1culo. Copio o texto de Trevisan publicado no e-book do SESC Pernambuco (2016): \u201c<em>Nas circunst\u00e2ncias atuais da sociedade espetacular e de cultura narc\u00edsica ser transgressivo (ou maldito) pode se reduzir a uma grife para conquistar m\u00eddia e mercado. Criou-se uma f\u00f3rmula narcisista para aparecer gra\u00e7as \u00e0 condi\u00e7\u00e3o transgressiva. Hoje existem muitos artistas autointitulados marginais que cultivam a \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d como instrumento de marketing e, em consequ\u00eancia, de poder. Lembro de um personagem como o cantor Mano Brown, do grupo musical Racionais MCs. Ostenta h\u00e1 anos um discurso pol\u00edtico cheio de chav\u00f5es de rebeldia, bota pose de mach\u00e3o marrento em fotos de coluna social e chega a frequentar eventos burgueses para celebrar&#8230; a periferia. Chegou-se ao n\u00edvel do mais aut\u00eantico radical chic (na express\u00e3o americana) ou revolucion\u00e1rio de algibeira. Em outras palavras, um maldito para alto consumo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Mas o que mais chama aten\u00e7\u00e3o no texto de Trevisan s\u00e3o algumas de suas considera\u00e7\u00f5es finais (infelizmente n\u00e3o pudemos public\u00e1-lo no programa, por raz\u00f5es de ordem econ\u00f4mica): \u201c<em>Cabe aqui a pergunta: o conceito de transgress\u00e3o perdeu o sentido e se esvaiu? Se transformado em f\u00f3rmula para consumo, sim, sua for\u00e7a se esvaiu. Mas se levada at\u00e9 a \u00faltima inst\u00e2ncia, a transgress\u00e3o continua incomodando. Afinal, transgredir \u00e9 pr\u00f3prio da cria\u00e7\u00e3o, da poesia, da inven\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na base de toda arte. Trata-se, t\u00e3o somente, de subverter a subvers\u00e3o. A desmistifica\u00e7\u00e3o do conceito de transgress\u00e3o leva necessariamente \u00e0 subvers\u00e3o do pr\u00f3prio conceito mistificado \u2013 e tem potencial para renovar a transgress\u00e3o. O componente \u201cmaldito\u201d permanece apesar e contra as apar\u00eancias e obviedades, desde que mantenha sua transgressividade viva. Ao inv\u00e9s de consumir o r\u00f3tulo de \u201cmaldito\u201d como uma grife, \u00e9 preciso lembrar que a transgress\u00e3o n\u00e3o se confunde com um musical cheio de glamour, tal como faz crer a coopta\u00e7\u00e3o dentro da sociedade do espet\u00e1culo. Simplesmente n\u00e3o h\u00e1 glamour na vida que se p\u00f5e \u00e0 margem. O quotidiano na realidade de quem a sociedade coloca o r\u00f3tulo de maldito acarreta, quase necessariamente, incompreens\u00e3o, injusti\u00e7a e dor, na medida mesma das puni\u00e7\u00f5es impostas a quem diverge das regras impostas<\/em>.\u201d Tenho dito.<\/p>\n<p><strong>No que concerne \u00e0 cena, muitos procedimentos adotados pelo Vivencial e que eram considerados sujeira ou falta de rigor formal, s\u00e3o adotados na produ\u00e7\u00e3o da cena contempor\u00e2nea. Poderia comentar?! <\/strong><\/p>\n<p>Muito do que hoje se considera \u201carte\u201d pode ser qualquer coisa. Ali, havia uma necessidade est\u00e9tica e ideol\u00f3gica que permitia um rigor formal da sujeira. Hoje, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua liga\u00e7\u00e3o com o Vivencial, al\u00e9m da montagem de <em>Vi\u00fava, por\u00e9m Honesta<\/em>, de 1977, e do relacionamento com Beto Diniz?<\/strong><\/p>\n<p>Uma liga\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e, ao mesmo tempo distante com Guilherme Coelho e com todos os que eu pude conviver \u00e0 \u00e9poca de <em>Sobrados e Mocambos<\/em>. Especialmente quando o grupo morava em Santa Teresa, em Olinda, e eu praticamente me mudei para l\u00e1. Mas havia, sobretudo, um encantamento por tudo que estava longe de meu horizonte de expectativas: aquela cena era tudo que eu admirava, mas jamais a faria como reprodu\u00e7\u00e3o, por ter outra forma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica (no entanto, homenageei o Vivencial em um espet\u00e1culo que fiz na Universidade Federal da Para\u00edba, em junho de 1980: <em>Soy loco por ti latrina<\/em> e no programa escrevi algo assim: <strong>s<\/strong>em a est\u00e9tica do Vivencial, este espet\u00e1culo n\u00e3o teria sido vi\u00e1vel). Amava a \u201csujeira\u201d dos espet\u00e1culos do grupo, sua \u201cprecariedade\u201d, mas era um encantamento para mim mesmo, deleite pessoal sem que reverberasse na minha cena.<\/p>\n<div id=\"attachment_16754\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_6759-e1471274802559.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-16754\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16754\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/IMG_6759-e1471274802559.jpg\" alt=\"Stella Maris Saldanha. Foto: \" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16754\" class=\"wp-caption-text\">Stella Maris Saldanha. Foto: Rodrigo Monteiro<\/p><\/div>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<em>Puro Lixo \u2013 O Espet\u00e1culo Mais Vibrante da Cidade<\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> de 13 de agosto at\u00e9 4 de setembro, sempre aos s\u00e1bados \u00e0s 18h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s\/n, Bairro do Recife)<br \/>\n<strong>Ingressos:<\/strong> R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o:<\/strong> 16 anos<br \/>\n<strong>Informa\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0(81) 3355-3320<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Puro Lixo \u2013 O Espet\u00e1culo Mais Vibrante da Cidade, a derradeira parte do projeto Transgress\u00e3o em Tr\u00eas Atos, \u00a0estreou no fim de semana no Teatro Hermilo Borba Filho, onde fica em cartaz aos s\u00e1bados e domingos at\u00e9 4 de setembro. O projeto Transgress\u00e3o foi iniciado em 2008 e rendeu as encena\u00e7\u00f5es Os fuzis da Senhora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4249],"tags":[1099,648,1572,4665],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16718"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16718"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16718\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16771,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16718\/revisions\/16771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}