{"id":15587,"date":"2016-03-05T15:02:43","date_gmt":"2016-03-05T18:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15587"},"modified":"2016-03-05T15:04:04","modified_gmt":"2016-03-05T18:04:04","slug":"o-afeto-que-aprisiona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-afeto-que-aprisiona\/","title":{"rendered":"O afeto que aprisiona"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15589\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Dia-1-MIT-20-de-10-e1457200371680.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15589\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15589\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Dia-1-MIT-20-de-10-e1457200371680.jpg\" alt=\"Cinderela, de Joel Pommerat, abriu 3\u00aa MITsp. Foto: Est\u00fadio Zut\" width=\"600\" height=\"324\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15589\" class=\"wp-caption-text\">Cinderela, de Joel Pommerat, abriu 3\u00aa MITsp. Foto: Est\u00fadio Zut<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/MITsp-e1457200665352.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-15592 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/MITsp-150x126.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"126\" \/><\/a><\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a, quando ouvimos a hist\u00f3ria da Cinderela, enxergamos a suposta supera\u00e7\u00e3o como foco da f\u00e1bula. A garota que era maltratada e humilhada pela madrasta e por suas duas filhas diante da omiss\u00e3o do pai consegue finalmente livrar-se de todo sofrimento quando encontra o seu pr\u00edncipe no baile. O enredo, mais do que conhecido por todos, ganhou outras possibilidades na vers\u00e3o do dramaturgo e encenador franc\u00eas Jo\u00ebl Pommerat, apresentada pela Compagnie Louis Brouillard na abertura da 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo (MITsp) na \u00faltima quinta-feira (3), no Audit\u00f3rio Ibirapuera. Uma quest\u00e3o que merece ser pontuada inicialmente, no \u00e2mbito de um festival internacional, \u00e9 a import\u00e2ncia das legendas, que continham erros de portugu\u00eas e uma linguagem que parecia mais coloquial do que a pe\u00e7a propunha.<\/p>\n<p>Mas vamos adiante na encena\u00e7\u00e3o: se os irm\u00e3os Grimm ou at\u00e9 mesmo Walt Disney trataram da morte da m\u00e3e de Cinderela de maneira muito epis\u00f3dica, apenas como disparadora da a\u00e7\u00e3o, Pommerat consegue tra\u00e7ar outros contextos, deixando a hist\u00f3ria mais psicol\u00f3gica e atraente n\u00e3o s\u00f3 para crian\u00e7as e adolescentes, mas para os adultos. Na sua vers\u00e3o, Cinderela \u00e9 Sandra, uma garota comum, de cabelos desgrenhados e mochila nas costas, que n\u00e3o consegue entender as \u00faltimas palavras da m\u00e3e no leito de morte. Acredita que a m\u00e3e tenha dito para que pensasse nela, a cada cinco minutos, para que ela n\u00e3o morresse de fato.<\/p>\n<p>O amor e a devo\u00e7\u00e3o de Sandra \u00e0 m\u00e3e, o medo de tra\u00ed-la, n\u00e3o cumprindo o seu \u00faltimo pedido, fazem com que Sandra caia numa armadilha, enveredando-se por meandros dentro de si mesma, deixando-se aprisionar pelo afeto carregado do peso do medo, da culpa, da dor. Pommerat constr\u00f3i uma personagem que se abandona; que, por exemplo, aceita as tarefas dom\u00e9sticas sem reclama\u00e7\u00f5es n\u00e3o por seu excesso de bondade, mas porque n\u00e3o se importa consigo mesma. Ou n\u00e3o trava um relacionamento com o pai porque n\u00e3o v\u00ea possibilidade de supera\u00e7\u00e3o de uma realidade. Mesmo diante de uma suposta cumplicidade com o pai, quando ele fuma na companhia dela e n\u00e3o da madrasta, s\u00f3 h\u00e1 conforma\u00e7\u00e3o nessa rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o intera\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo, questionamento, viv\u00eancia. Esse \u201cautoabandono\u201d se desdobra em diversas situa\u00e7\u00f5es, como quando a madrasta faz um discurso sobre como Sandra est\u00e1 velha e descuidada.<\/p>\n<p>As primeiras cenas desta Cinderela s\u00e3o sombrias, escuras.Na casa em que vive com a fam\u00edlia, Sandra n\u00e3o vai alimentar os p\u00e1ssaros, cantando feliz, enquanto eles a ajudam nas tarefas, como no filme; aqui o cen\u00e1rio \u00e9 diverso: a \u201cprincesa\u201d carrega com as pr\u00f3prias m\u00e3os os p\u00e1ssaros que morreram ao se chocarem contra as paredes de vidro da casa. O sofrimento de Sandra \u00e9 evidenciado na noite em que passa sozinha no quarto do s\u00f3t\u00e3o, sem janelas. A cenografia do espet\u00e1culo, composta em boa parte atrav\u00e9s de proje\u00e7\u00f5es, transmite essa confus\u00e3o interior de Sandra, seu estado de esp\u00edrito, ao mesmo tempo em que noutros momentos constr\u00f3i realidades paralelas, como a casa de vidro ou as paredes que v\u00e3o tendo estampas diversas.<\/p>\n<div id=\"attachment_15590\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Dia-1-MIT-21-de-10-e1457200479122.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15590\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15590\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/Dia-1-MIT-21-de-10-e1457200479122.jpg\" alt=\"Autor e diretor trabalha com embaralhamento e desconstru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15590\" class=\"wp-caption-text\">Autor e diretor trabalha com embaralhamento e desconstru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos<\/p><\/div>\n<p>Se o contexto psicol\u00f3gico \u00e9 carregado e o rel\u00f3gio que Sandra tem no pulso toca insistente para lembr\u00e1-la de n\u00e3o esquecer a m\u00e3e, Pommerat brinca, com sarcasmo, ironia e humor, n\u00e3o se esquecendo de alimentar a identifica\u00e7\u00e3o da f\u00e1bula pelo espectador. H\u00e1 alguns caminhos diretos: por exemplo, a madrasta e as irm\u00e3s continuam sendo figuras estranhas, feias e desengon\u00e7adas, mas Pommerat n\u00e3o se prende a isso, vai muito al\u00e9m. Nesse sentido, o autor e encenador tem na personagem da madrasta um dos grandes trunfos da montagem, enriquecendo as chaves de discuss\u00e3o abertas pela pe\u00e7a. A madrasta possui uma vis\u00e3o equivocada de si mesma, principalmente no que diz respeito \u00e0 sua apar\u00eancia f\u00edsica. Fica lisonjeada com os falsos elogios de que ela parece irm\u00e3 das pr\u00f3prias filhas e se ilude com a possibilidade de que o pr\u00edncipe se apaixone por ela e n\u00e3o pelas filhas.<\/p>\n<p>No vi\u00e9s da desconstru\u00e7\u00e3o, ou mesmo do embaralhamento de alguns estere\u00f3tipos t\u00e3o comuns aos contos de fadas, o pr\u00edncipe neste caso \u00e9 feio, inseguro e tamb\u00e9m sofre com a aus\u00eancia da pr\u00f3pria m\u00e3e. No decorrer da montagem, alguns elementos deslocados, que fogem ao estabelecido a priori, v\u00e3o dando um car\u00e1ter muito mais instigante \u00e0 pe\u00e7a, mas sem que ela perca a capacidade de fazer rir ou emocionar. Nesse mesmo \u00e2mbito, realidade e sonho, idealiza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o dimens\u00f5es questionadas pela encena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos dizer que \u00e9 exatamente uma experi\u00eancia radical de reescrita desse texto, j\u00e1 que no espet\u00e1culo de Pommerat os elementos conhecidos do p\u00fablico, respons\u00e1veis por uma identifica\u00e7\u00e3o direta com a hist\u00f3ria, est\u00e3o todos l\u00e1. Ainda \u00e9 a hist\u00f3ria da mocinha, mas aqui menos fr\u00e1gil e com nuances que a deixam mais interessante.<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Texto e dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Jo\u00ebl Pommerat<br \/>\n<strong>Cen\u00e1rio e ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Eric Soyer<br \/>\n<strong>Assistente de ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Gwendal Malard<br \/>\n<strong>Figurinos:<\/strong> Isabelle Deffin<br \/>\n<strong>Som:<\/strong> Fran\u00e7ois Leymarie<br \/>\n<strong>V\u00eddeo:<\/strong> Renaud Rubiano<br \/>\n<strong>M\u00fasica original:<\/strong> Antonin Leymarie<br \/>\n<strong>Com:<\/strong> Alfredo Ca\u00f1avate (pai da menina muito jovem, rei); No\u00e9mie Carcaud (fada, uma irm\u00e3); Caroline Donnelly (segunda irm\u00e3, pr\u00edncipe); Catherine Mestoussis (sogra); Deborah Rouach (mo\u00e7a muito jovem); Marcella Carrara (voz do narrador); Nicolas Nore (narrador) e Julien Desmet (extra).<br \/>\n<strong>Diretor assistente:<\/strong> Pierre -Yves Le Borgne<br \/>\n<strong>Assistente do diretor da turn\u00ea: <\/strong>Philippe Carbonneaux<br \/>\n<strong>Diretor geral da turn\u00ea: <\/strong>Emmanuel Abate<br \/>\n<strong>Operador de luz: <\/strong>Guillaume Rizzo<br \/>\n<strong>Operador de som: <\/strong>Antoine Bourgain<br \/>\n<strong>Operador de v\u00eddeo<\/strong>: Gr\u00e9goire Chomel<br \/>\n<strong>Diretor de cena:<\/strong> Julien Desmet, Nicolas Nore<br \/>\n<strong>Camareira:<\/strong> Nathalie Willems<br \/>\n<strong>Montagem de cen\u00e1rio e execu\u00e7\u00e3o dos figurinos:<\/strong> Ateliers du Th\u00e9\u00e2tre National de Bruxelles<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o: <\/strong>Th\u00e9\u00e2tre National\/Bruxelas em coprodu\u00e7\u00e3o com La Monnaie \/ De Munt Em associa\u00e7\u00e3o com a Compagnie Louis Brouillard. Com suporte do Wallonie-Bruxelles International<br \/>\nCinderela \u00e9 publicada pela \u00c9ditions Actes Sud- Babel e Actes Sud-Heyoka Jeunesse, com ilustra\u00e7\u00f5es de Roxane Lumeret.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde crian\u00e7a, quando ouvimos a hist\u00f3ria da Cinderela, enxergamos a suposta supera\u00e7\u00e3o como foco da f\u00e1bula. A garota que era maltratada e humilhada pela madrasta e por suas duas filhas diante da omiss\u00e3o do pai consegue finalmente livrar-se de todo sofrimento quando encontra o seu pr\u00edncipe no baile. 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