{"id":15556,"date":"2015-12-29T16:12:37","date_gmt":"2015-12-29T19:12:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15556"},"modified":"2016-02-26T19:06:12","modified_gmt":"2016-02-26T22:06:12","slug":"contra-o-feminicidio-por-todas-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/contra-o-feminicidio-por-todas-nos\/","title":{"rendered":"Contra o feminic\u00eddio, por todas n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15560\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-e1456513538439.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15560\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15560\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-e1456513538439.png\" alt=\"Para Aquelas que N\u00e3o Mais Est\u00e3o. Foto: Roderick Steel\" width=\"600\" height=\"387\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15560\" class=\"wp-caption-text\">Para Aquelas que N\u00e3o Mais Est\u00e3o. Foto: Roderick Steel<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15305\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2-150x140.jpg\" alt=\"bienal-usp2\" width=\"150\" height=\"140\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 muito pouco tempo, quest\u00f5es cruciais da nossa sociedade, como viol\u00eancia contra a mulher e racismo, estavam colocadas dentro de um espa\u00e7o de penumbra. A imagem que vem \u00e0 mente neste momento de escrita \u00e9 que funcionava mesmo como se um voal, daqueles fininhos e que deixam entrever o outro lado, envolvesse tudo que n\u00e3o poderia ser realmente dito, gritado, urrado. Mas todos, de alguma forma, enxergavam. Sabiam o que se passava, mas n\u00e3o necessariamente precisavam se posicionar. \u00c9 como se n\u00e3o nos sent\u00edssemos no lugar de correspons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o de um tecido muito mais amplo, estrutural.<\/p>\n<p>Desse modo, a consci\u00eancia cr\u00edtica que poderia surgir a partir do debate coletivo sobre temas fundamentais at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu se instaurar\u00a0de modo mais amplo. Finalmente, ao custo de muita dor, l\u00e1grimas, viol\u00eancia de todos os tipos, as coisas parecem estar mudando. O verdadeiro \u201cmonitoramento\u201d social que se instalou principalmente com a internet e, depois, com as m\u00eddias sociais, para o bem e para o mal, tem provocado transforma\u00e7\u00f5es significativas na maneira como nos colocamos diante de situa\u00e7\u00f5es que, antes, estariam restritas praticamente \u00e0 vida privada.<\/p>\n<p>Por exemplo: \u00e9 da minha conta sim quando mais uma mulher \u00e9 v\u00edtima de qualquer tipo de viol\u00eancia. Seja a viol\u00eancia de se privar de fazer alguma coisa \u2013 usar uma roupa curta ou justa, sair \u00e0 noite, sentar no bar para tomar uma cerveja sozinha -, seja o preconceito no ambiente de trabalho, a obrigatoriedade de se encaixar em padr\u00f5es pr\u00e9-estabelecidos, ou o feminic\u00eddio. Vivemos por muito tempo numa sociedade que culpabilizava as v\u00edtimas, como se coubesse \u00e0s mulheres o papel de evitar estupros, ass\u00e9dios, mortes. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 crime passional. \u00c9 feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>O \u201ctext\u00e3o\u201d que poderia se encaixar em algum post no facebook \u2013 s\u00e3o muito significativas campanhas que denunciam, por exemplo, o primeiro ass\u00e9dio, ou atitudes que n\u00e3o seriam normalmente enquadradas na categoria de machismo, al\u00e9m de todas as comunidades feministas que surgiram na rede \u2013 na realidade \u00e9 para tratar de arte. A performance <em>Para Aquelas Que N\u00e3o Mais Est\u00e3o<\/em>, vista durante a II Bienal Internacional de Teatro da Universidade de S\u00e3o Paulo, foi fruto de uma parceria entre a atriz, performer e ativista mexicana Violeta Luna e o Coletivo Rubro Obsceno, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<div id=\"attachment_15563\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-est\u00e3o_1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15563\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15563\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-est\u00e3o_1.jpg\" alt=\"Performance foi fruto de uma parceria entre a atriz, performer e ativista mexicana Violeta Luna e o Coletivo Rubro Obsceno, de S\u00e3o Paulo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Twitter Tusp\" width=\"600\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-est\u00e3o_1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-est\u00e3o_1-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-est\u00e3o_1-300x400.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15563\" class=\"wp-caption-text\">Performance foi fruto de uma parceria entre a atriz, performer e ativista mexicana Violeta Luna e o Coletivo Rubro Obsceno, de S\u00e3o Paulo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Twitter Tusp<\/p><\/div>\n<p>Assim como a performance <a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2015\/12\/21\/esse-silencio-grita-por-humanidade\/\" target=\"_blank\"><em>Espa\u00e7o de sil\u00eancio<\/em><\/a>, da dramaturga, professora e atriz Nina Caetano, tamb\u00e9m apresentada durante a Bienal, <em>Para Aquelas que N\u00e3o Mais Est\u00e3o<\/em> tratou do feminic\u00eddio sem subterf\u00fagios, de maneira clara e direta. De fato, s\u00e3o posturas que trazem como resultado a amplia\u00e7\u00e3o, ou a renova\u00e7\u00e3o, do potencial pol\u00edtico da arte. Estamos falando de um teatro que n\u00e3o se esquiva de pensar a realidade na qual que vivemos, que consegue manusear os dados concretos de viol\u00eancia e expandir significados atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o entre discurso, a\u00e7\u00e3o e po\u00e9tica.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o delimitado por faixas de constru\u00e7\u00e3o, um verdadeiro ringue de horrores, mas tamb\u00e9m uma arena de liberta\u00e7\u00e3o, Violeta Luna, Let\u00edcia Olivares e Stela Fischer deram a ver hist\u00f3rias de muitas mulheres. Mortas com tiros de rev\u00f3lver, pedra, cabo de vassoura, faca, tesoura. Fica absolutamente claro que, geralmente, o criminoso \u00e9 algu\u00e9m com envolvimento afetivo com a v\u00edtima, e que a viol\u00eancia em si n\u00e3o carrega preconceitos: todas s\u00e3o v\u00edtimas, mulheres de todas as ra\u00e7as, classes sociais, idades.<\/p>\n<p>Uma pilha enorme de roupas colocada no centro da cena traz associa\u00e7\u00f5es \u00f3bvias com a tarefa cotidiana de vestir-se, mas tamb\u00e9m com a brutalidade com que simplesmente essas mulheres s\u00e3o limadas da exist\u00eancia. Hist\u00f3rias de jovens, adultas e at\u00e9 de crian\u00e7as v\u00edtimas de viol\u00eancia s\u00e3o trazidas \u00e0 tona. A cenografia foi organizada de forma que em cada pequeno nicho uma a\u00e7\u00e3o se desdobra, como quando uma das performers de fato simula ser v\u00edtima de um feminic\u00eddio e tem seu corpo estendido no ch\u00e3o, coberto por areia.<\/p>\n<p>Durante toda a performance, os espectadores est\u00e3o em p\u00e9 ou sentados no ch\u00e3o, se assim desejarem. N\u00e3o foram disponibilizadas cadeiras no espa\u00e7o. Mesmo que n\u00e3o fosse objetivo ainda da cena promover uma intera\u00e7\u00e3o mais direta, quando as tr\u00eas performers estavam sozinhas no ringue, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo de desconforto e tamb\u00e9m, talvez, de fazer refletir sobre passividade. De maneira mais generalizada, tudo o que se passa ali \u2013 ou nas imagens projetadas fora do ringue \u2013 deixa claro o quanto somos coniventes como sociedade, o quanto falimos na prote\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas mulheres.<br \/>\nEssas mulheres ainda est\u00e3o \u00e0 margem, ignoradas e invis\u00edveis.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo termina depois de um momento muito significativo. As performers iniciam uma esp\u00e9cie de memorial \u00e0s v\u00edtimas, um vel\u00f3rio ritual\u00edstico. As velas acessas carregam os nomes e as idades das v\u00edtimas, ditas em voz alta. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o da nossa mem\u00f3ria coletiva, que n\u00e3o registra, por conta de uma l\u00f3gica perversa fundamentada no machismo, milhares de mulheres mortas todos os dias. <em>Para Aquelas que N\u00e3o Mais Est\u00e3<\/em>o termina com um sil\u00eancio ensurdecedor. O tema tratado na performance, e a maneira como foi abordado, n\u00e3o deixam espa\u00e7o para aplausos, por exemplo. N\u00e3o temos ainda o que comemorar, mas podemos dizer que a arte, a partir de algumas iniciativas desse tipo, tamb\u00e9m est\u00e1 fazendo a sua parte nessa luta contra o feminic\u00eddio.<\/p>\n<div id=\"attachment_15561\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15561\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15561\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-2.jpg\" alt=\"Performance promoveu um vel\u00f3rio simb\u00f3lico para as v\u00edtimas. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Twitter Tusp\" width=\"599\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-2.jpg 599w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Para-aquelas-que-n\u00e3o-mais-est\u00e3o-2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15561\" class=\"wp-caption-text\">Performance promoveu um vel\u00f3rio simb\u00f3lico para as v\u00edtimas. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Twitter Tusp<\/p><\/div>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica: <\/strong><br \/>\n<strong>Cria\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o:<\/strong> Violeta Luna e Coletivo Rubro Obsceno (Leticia Olivares e Stela Fischer)<\/p>\n<p>\u2014\u2013-<\/p>\n<p>Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27\/11 a 18\/12).<\/p>\n<p>A DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito pouco tempo, quest\u00f5es cruciais da nossa sociedade, como viol\u00eancia contra a mulher e racismo, estavam colocadas dentro de um espa\u00e7o de penumbra. A imagem que vem \u00e0 mente neste momento de escrita \u00e9 que funcionava mesmo como se um voal, daqueles fininhos e que deixam entrever o outro lado, envolvesse tudo que n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1],"tags":[4388,4269,4390,4321,4391,4389,4392,4387],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15556"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15577,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15556\/revisions\/15577"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}