{"id":15522,"date":"2015-12-26T14:20:13","date_gmt":"2015-12-26T17:20:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15522"},"modified":"2016-02-26T10:49:17","modified_gmt":"2016-02-26T13:49:17","slug":"memoria-encharcada-de-sangue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/memoria-encharcada-de-sangue\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria encharcada de sangue"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15526\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/12339174_917691294991427_2506528206528510297_o-e1455125812265.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15526\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15526 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/12339174_917691294991427_2506528206528510297_o-e1455125812265.jpg\" alt=\"Villa, do dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calder\u00f3n. Fotos: Foto: Frederico Chigan\u00e7a e equipe\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15526\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Villa, do dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calder\u00f3n. Fotos: Frederico Chigan\u00e7a e equipe<\/span><\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15305\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2-150x140.jpg\" alt=\"bienal-usp2\" width=\"150\" height=\"140\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Que destino dar a nossa mem\u00f3ria traum\u00e1tica particular?! Pergunta dif\u00edcil. Imagina quando esse s\u00f3t\u00e3o carregado de lembran\u00e7as individuais comp\u00f5e uma dolorosa hist\u00f3ria coletiva! Tudo ganha contornos ainda mais lancinantes quando reviramos os por\u00f5es da ditadura latino-americana. Os momentos de horror da humanidade, em todas as \u00e9pocas, ganham uma fisionomia de ignom\u00ednia a partir dos discursos que os humilhados e ofendidos conseguem erguer e propagar. \u00c9 sempre uma luta. Uma negocia\u00e7\u00e3o. Tentativas de convencimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Desde a tradi\u00e7\u00e3o de Her\u00f3doto, busca-se na narrativa hist\u00f3rica uma verdade. Mas at\u00e9 que ponto confiar na fragilidade da mem\u00f3ria de testemunhas\u00a0e\u00a0dos envolvidos, j\u00e1 que nessa reconstru\u00e7\u00e3o a subjetividade atua de forma decisiva, trazendo varia\u00e7\u00f5es de relatos para o mesmo fato? Esse objeto recuper\u00e1vel \u00e9 cognosc\u00edvel, e pode ser alterado a partir da linguagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">As obras teatrais do diretor chileno Guillermo Calder\u00f3n exploram de forma potente a mem\u00f3ria pol\u00edtica do seu pa\u00eds e a representa\u00e7\u00e3o teatral desse legado. Uma dobra entre as escava\u00e7\u00f5es \u00edntimas e a constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da cena. Complexidades do discurso p\u00fablico. Em<em> Villa<\/em>, tr\u00eas mulheres se re\u00fanem para discutir o futuro da Villa Grimaldi, maior dos 1.200 centros de deten\u00e7\u00e3o criados pela ditadura militar de Pinochet, um lugar onde foram torturadas milhares de pessoas e outras centenas foram &#8220;desaparecidas&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Concebida como um\u00a0d\u00edptico, em alguns festivais\u00a0<em>Villa<\/em>\u00a0foi apresentada junto com\u00a0<em>Discurso<\/em>, em que o papel da presidente do Chile Michelle Bachelet \u00e9 dividido por tr\u00eas atrizes. A personagem faz um balan\u00e7o para acentuar as proje\u00e7\u00f5es, as possibilidades e falhas de um l\u00edder pol\u00edtico. Mas na II Bienal Internacional de Teatro da USP, <em>Villa<\/em> foi exibida isoladamente.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_15528\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/villa-e1455144830685.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15528\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15528\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/villa-e1455144830685.jpg\" alt=\"Espet\u00e1culo Villa nos faz pensar at\u00e9 que ponto a arte pode representar o real\" width=\"600\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15528\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Espet\u00e1culo Villa nos faz pensar at\u00e9 que ponto a arte pode representar o real<\/span><\/p><\/div>\n<p><span style=\"color: #000000;\">As recorda\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es do regime autorit\u00e1rio s\u00e3o caras as tr\u00eas Alejandras, interpretadas por Francisca Lewin, Macarena Zamudio e Maria Paz Gonzalez. Mas elas n\u00e3o sabem os motivos das outras. Isso ser\u00e1 revelado gradualmente. Elas est\u00e3o reunidas, em volta de uma mesa que abriga uma maquete, para decidir o que deve ser feito do que foi o Villa Grimaldi. Transformar num memorial? Mas com que conceito?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Numa discuss\u00e3o acalorada, cada uma defende os pros e contras de cada proposta. Desde a demoli\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio at\u00e9 um museu em que os visitantes possam sentir o que os torturados sentiram, ou mesmo uma proje\u00e7\u00e3o de futuro para sobreviventes e seus parentes.<\/span><\/p>\n<p>Na primeira vota\u00e7\u00e3o estabelece-se um impasse.\u00a0Uma delas escolhe a op\u00e7\u00e3o A \u2013 reconstruir a Villa como era;\u00a0outra decide-se pela op\u00e7\u00e3o B \u2013 construir um museu; e o terceiro voto \u00e9 nulo \u2013 pois est\u00e1 escrito marichiweu, palavra mapuche que significa \u201cdez vezes venceremos\u201d. A crise se instala, mas traz consigo senhas.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Essas cicatrizes do passado n\u00e3o aceitam o consenso. Mas como fazer justi\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas &#8211; mulheres que foram estupradas at\u00e9 por cachorros? Como punir os algozes com suas imagens j\u00e1 descolados do passado?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A fertilidade de logos na montagem de <em>Villa<\/em> mostra que pessoas que passam por situa\u00e7\u00f5es muito semelhantes podem desenvolver uma vis\u00e3o de mundo bem distinta, que se apresenta como um exerc\u00edcio dial\u00e9tico vigoroso. Nessas discuss\u00f5es, as\u00a0contradi\u00e7\u00f5es e as tens\u00f5es remetem para o caleidosc\u00f3pio na produ\u00e7\u00e3o dos afetos e as marcas cravadas em cada uma dessas mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">E como reagir ao destino duro de quem precisa encarar a sombra do seu carrasco na face da crian\u00e7a gerada por abuso sexual? Horror materializado numa gangorra de sentimentos que desliza do amor ao \u00f3dio. As \u201creceitas\u201d para esquecer uma grande dor parecem todas inv\u00e1lidas. A vingan\u00e7a beira uma outra barb\u00e1rie.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">E \u00e9 com maestria que Guillermo Calder\u00f3n tra\u00e7a as dores desses destro\u00e7os sem fluidificar suas consequ\u00eancias em frases de efeito sensacionalista. E sem manique\u00edsmo. Lembrar \u00e9 um ato pol\u00edtico. E para salientar isso, a cena \u00e9 erguida com simplicidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A dificuldade de lidar com essa mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m posta na altern\u00e2ncia de t\u00e9cnicas de identifica\u00e7\u00e3o e de distanciamento. As narra\u00e7\u00f5es est\u00e3o carregadas de imagens fortes, de brutalidade, de viol\u00eancia, de viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos. E a discuss\u00e3o exp\u00f5e as marcas das atrocidades, em defesas apaixonadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A op\u00e7\u00e3o reconstruir a<em> Villa<\/em> \u00e9 defendida para impedir a extin\u00e7\u00e3o das provas e um consequente esquecimento; a op\u00e7\u00e3o B visa erguer um museu branco, como a neve, \u201cum museo del recuerdo doloroso, pero lindo\u201d:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O final apresentado pelo grupo Teatro Playa \u2013 de um abalo s\u00edsmico em que a mesa e os copos de vidros come\u00e7am a tremer at\u00e9 quedar em fragmentos no ch\u00e3o \u2013 abre para variadas interpreta\u00e7\u00f5es. E que indicam que junto com o sofrimento individual de quem sentiu\u00a0na carne\u00a0as\u00a0a\u00e7\u00f5es criminosas, esses atos ainda fazem sangrar o cora\u00e7\u00e3o, os olhos, os pulm\u00f5es e os ossos do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">.:. Escrito no contexto da<\/span>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.usp.br\/bienaldeteatro\/2015\/\">II Bienal Internacional de Teatro da USP<\/a>\u00a0<span style=\"color: #000000;\">(27\/11 a 18\/12), em a\u00e7\u00e3o da DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p>A <strong>DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica<\/strong> articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site <em>Horizonte da Cena<\/em>, do blog <em>Satisfeita, Yolanda?<\/em>, da <em>Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais<\/em> e do site <em>Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena<\/em>. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong>:<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o e dramaturgia:<\/strong> <span style=\"color: #000000;\">Guillermo Calder\u00f3n<\/span><br \/>\n<strong>Assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> <span style=\"color: #000000;\">Mar\u00eda Paz Gonz\u00e1lez<\/span><br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> <span style=\"color: #000000;\">Francisca Lewin, Macarena\u00a0Zamudio e Mar\u00eda Paz Gonz\u00e1lez<\/span><br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong> <span style=\"color: #000000;\">Mar\u00eda Fernanda\u00a0Videla<\/span><br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> <span style=\"color: #000000;\">Fundaci\u00f3n Teatro a Mil (Fitam) e Compa\u00f1\u00eda Teatro Playa<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que destino dar a nossa mem\u00f3ria traum\u00e1tica particular?! 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