{"id":15394,"date":"2016-01-08T18:47:30","date_gmt":"2016-01-08T21:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15394"},"modified":"2016-01-20T13:20:01","modified_gmt":"2016-01-20T16:20:01","slug":"em-nome-do-primeiro-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/em-nome-do-primeiro-amor\/","title":{"rendered":"Em nome do primeiro amor"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15389\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/MatheusNachtergaele_Processo_de_Conscerto_do_Desejo_FotoBAIXA_MarcosHermes-e1452260574162.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15389\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15389 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/MatheusNachtergaele_Processo_de_Conscerto_do_Desejo_FotoBAIXA_MarcosHermes-e1452260574162.jpeg\" alt=\"Matheus Nachtergaele em Processo de Conscerto do Desejo. Foto: Marcos Hermes\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15389\" class=\"wp-caption-text\">Matheus Nachtergaele abre Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos com Conscerto do Desejo. Foto: Marcos Hermes<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/janeiro-de-grandes-espet\u00e1culos-SSSS-e1450387750647.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-15352\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/janeiro-de-grandes-espet\u00e1culos-SSSS-e1450387750647.jpg\" alt=\"janeiro-de-grandes-espet\u00e1culos-SSSS\" width=\"150\" height=\"56\" \/><\/a>Quando entrevistei Matheus Nachtergaele pela primeira vez, ele j\u00e1 havia passado pelo m\u00e9todo do diretor paulista Antunes Filho, pela Escola de Arte Dram\u00e1tica (USP-SP), e deixado sua marca no grupo Teatro da Vertigem, dirigido por Ant\u00f4nio Ara\u00fajo, por sua atua\u00e7\u00e3o nos espet\u00e1culos <em>Para\u00edso Perdido<\/em> e <em>O Livro de J\u00f3<\/em>. J\u00e1 colecionava pr\u00eamios como Shell, Mambembe e APCA. Foi uma conversa durante as filmagens de <em>O Auto da Compadecida<\/em>, de Ariano Suassuna, dirigido por Guel Arraes, em Cabaceiras, na regi\u00e3o do Cariri Velho, a 200 km de Jo\u00e3o Pessoa. A cidadezinha de apenas tr\u00eas ruas tinha virado um set de filmagem. O cotidiano pacato da popula\u00e7\u00e3o foi alterado com a presen\u00e7a de tanta gente famosa.<\/p>\n<p>Intenso, profundo, bo\u00eamio, conversador, bem articulado, magrinho, de uma energia et\u00e9rea. Matheus Nachtergaele, que interpretava Jo\u00e3o Grilo, despertava cuidados. Era tanta entrega que parecia que ele poderia explodir. \u201cO tempo vai cuidando de tranquilizar a gente. Mas acho que, daquele tempo, 1998, at\u00e9 agora, acho que estou mais tranquilo. Acho que a minha intensidade talvez fosse um romantismo juvenil, uma entrega muito grande ao personagem, sempre fui muito bo\u00eamio. Tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o \u2018ser\u00e1 que ele vai chegar \u00e0s 5h da manh\u00e3 ao set?\u2019. Eu chegava. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o tenho a mesma sa\u00fade daquela \u00e9poca para aguentar o tranco.<\/p>\n<p>O ator \u00e9 uma presen\u00e7a forte no cinema pernambucano. Atuou em quatro filmes de Cl\u00e1udio Assis: <em>Amarelo Manga<\/em>, <em>Baixio das Bestas<\/em>, <em>Febre do Rato<\/em> e <em>Big Jato<\/em>. Al\u00e9m de <em>\u00c1rido Movie<\/em> e <em>Sangue Azul<\/em> de L\u00edrio Ferreira; e <em>Nina<\/em>, de Heitor Dhalia. J\u00e1 est\u00e1 com mais um na agulha. Uma adapta\u00e7\u00e3o de Nelson Rodrigues dirigida pelo pernambucano Jura Capela, com Luc\u00e9lia Santos no elenco.<\/p>\n<p>Hoje Nachtergaele abre o festival Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos com <em>Conscerto do Desejo<\/em> uma homenagem e tentativa de apaziguamento pela aus\u00eancia da m\u00e3e, que se suicidou quando Matheus tinha tr\u00eas meses. Depois de 30 anos de div\u00e3 ele resolveu tornar p\u00fablica essa dor da falta que carrega desde a inf\u00e2ncia. Acompanhado pelos m\u00fasicos Henrique Rohrmann (violino) e Lu\u00e3 Belik (viol\u00e3o) o ator faz sua ora\u00e7\u00e3o profana. Das entranhas, da mem\u00f3ria, da imagina\u00e7\u00e3o, uma emo\u00e7\u00e3o vertiginosa como o primeiro amor que escapou t\u00e3o r\u00e1pido.<\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA \/\/ MATHEUS NACHTERGAELE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Com esse espet\u00e1culo, imagino que voc\u00ea est\u00e1 tentando se curar totalmente. Por que voc\u00ea resolveu levar essa inquieta\u00e7\u00e3o ao palco?<\/strong><br \/>\nVeja s\u00f3: comecei a fazer teatro no Antunes Filho. Era 1989. N\u00e3o estreei nenhuma pe\u00e7a l\u00e1. Era o processo de <em>Para\u00edso Zona Norte<\/em>, duas pe\u00e7as de Nelson Rodrigues, que ele ia montar; e o trabalho dos atores era muito baseado no trabalho do Kazuo Ohno, o bailarino japon\u00eas. Ent\u00e3o a gente leu muitos textos de Kazuo Ohno, nem sabia que tinha, mas a gente descobriu na \u00e9poca. Foi a minha primeira experi\u00eancia teatral realmente. Kazuo Ohno, a f\u00edsica qu\u00e2ntica e Nelson Rodrigues eram os nossos tr\u00eas focos. Essa dan\u00e7a expressionista oriental, que tinha o Hijikata e o Kazuo Ohno como pais, essa dan\u00e7a japonesa p\u00f3s-guerra, o universo de Nelson Rodrigues e a f\u00edsica qu\u00e2ntica. Assim eu fui apresentado ao teatro e isso me deixou marcas profundas, at\u00e9 hoje. \u00c9 claro que eu tive muitas experi\u00eancias, fui para o Teatro da Vertigem, onde eu fiz o J\u00f3 (<em>O livro de J\u00f3<\/em>), passei pela Escola de Arte Dram\u00e1tica da USP, fiz muito cinema, tive muitos diretores, mas essas coisas me marcaram muito. Dessas coisas todas, alguns princ\u00edpios me nortearam e me norteiam at\u00e9 hoje. Um deles \u00e9 o depoimento pessoal. Isso est\u00e1 no Kazuo Ohno, isso est\u00e1 no but\u00f4, quer dizer, fazer da sua dor, a dor universal. O trabalho do but\u00f4 era um trabalho de procurar a sua dor particular e dan\u00e7ar essa dor particular, sem palavras. E isso daria origem, se voc\u00ea fosse um poeta, a uma dan\u00e7a de alguma maneira universal, que atingisse todo mundo, a ideia de que quanto mais voc\u00ea fala do seu quintal, mais voc\u00ea fala do mundo, quanto mais voc\u00ea fala da sua dor, mais voc\u00ea fala da dor de todo homem. Ent\u00e3o acho que o processo de <em>Desejo de Conscerto<\/em> tem a ver com isso. Acho que mais do que nunca estou indo no \u00e2mago das minhas quest\u00f5es e acreditando que isso deva fazer sentido para todos n\u00f3s. Se cada um tem uma grande dor, uma grande perda, uma grande alegria, a minha deve tamb\u00e9m se comunicar com a dor de todo mundo; e me torna, minha dor especial, igual a todos. Todo mundo tem sua hist\u00f3ria, suas barb\u00e1ries e suas maravilhas. Por isso que estou fazendo essa pe\u00e7a. Desde o <em>Woyzeck<\/em>, em 2005, eu n\u00e3o produzo um espet\u00e1culo de teatro. Fiquei muito envolvido com cinema, dirigi um longa-metragem, fiz muitos filmes como ator, muitos trabalhos na televis\u00e3o e n\u00e3o me ocorria um texto que fosse importante de ser montado. Achava que os meus colegas que faziam teatro, que eu gosto, estavam fazendo teatro que tinha que ser feito, como o Z\u00e9 Celso, como algumas pessoas que admiro. E me contive. De vez em quando pensava em fazer um Tennessee Williams, por exemplo, logo depois de uns meses de projeto, eu dizia: \u201cn\u00e3o \u00e9 isso. A veia n\u00e3o \u00e9 essa!\u201d. Eu tinha feito <em>Woyzeck<\/em>, que \u00e9 uma pe\u00e7a determinante, uma pe\u00e7a de texto muito forte, moderno, que inaugura a trag\u00e9dia moderna. \u00c9 no <em>Woyzeck<\/em> que o destino do her\u00f3i deixa de ser decidido pelos deuses para ser decidido pela sociedade capitalista. \u00c9 uma pe\u00e7a que fala sobre muitas coisas. Que fala sobre um Brasil que n\u00e3o mudou muito de 2005 para c\u00e1. Ent\u00e3o eu me sentia um pouco sem tema. Algumas pessoas me diziam: \u201cfaz o <em>Hamlet<\/em>\u201d. Mas o meu <em>Hamlet<\/em> \u00e9 o <em>Woyzeck<\/em>. O meu ser ou n\u00e3o ser estava no <em>Woyzeck<\/em>. Ent\u00e3o me dediquei a outras coisas. Tinha os poemas da minha m\u00e3e guardados. Desde os 16 anos que eu tenho esses poemas, eles s\u00e3o o meu \u00fanico contato oral, mental, racional com a minha m\u00e3e. Para mim, minha m\u00e3e \u00e9 uma lembran\u00e7a, tamb\u00e9m \u00e9 uma perda, uma aus\u00eancia. Eu estive com ela durante doze meses. Dentro do \u00fatero e fora do \u00fatero. Todo per\u00edodo deu doze meses. N\u00e3o me lembro disso porque aos tr\u00eas meses \u00e9 que voc\u00ea cria os primeiros laivos de alteridade. Parece que aos tr\u00eas meses \u00e9 que a crian\u00e7a saca que existe outro. At\u00e9 os tr\u00eas meses ela e a m\u00e3e s\u00e3o uma coisa s\u00f3. Ent\u00e3o minha m\u00e3e se matou justamente quando eu n\u00e3o era mais uma coisa s\u00f3. Uma mulher inteligente, provavelmente n\u00e3o foi \u00e0 toa. N\u00e3o se matou enquanto eu era uma coisa s\u00f3 com ela. Esperou aquele nen\u00e9m entender que ele tamb\u00e9m existe sozinho e a\u00ed ela foi. Eu tinha esses textos como um tesouro. A transmiss\u00e3o oral que me foi poss\u00edvel, intelectual.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea s\u00f3 teve acesso aos textos aos 16 anos?<\/strong><br \/>\nEu tinha 16 anos quando o meu pai me deu, pouco tempo depois de eu saber como ela tinha morrido. At\u00e9 os 16 anos eu sabia que a minha m\u00e3e tinha falecido, que a minha m\u00e3e n\u00e3o era minha m\u00e3e, minha m\u00e3e era uma madrasta, que eu chamo de m\u00e3e at\u00e9 hoje, a Carmem, \u00e9 minha m\u00e3e tamb\u00e9m. Mas eu n\u00e3o sabia como tinha acontecido. Eles demoraram um pouco porque na nossa sociedade o suic\u00eddio \u00e9 uma coisa complexa. Eu acho que na nossa sociedade n\u00e3o&#8230;\u00e9 complexo. Ent\u00e3o demoraram um pouco para me contar. Quando me contaram eu tinha 16 anos e logo na sequ\u00eancia papai me deu os poemas. E eu ent\u00e3o guardei. Foi mais ou menos quando eu decidi ser ator. Acredito que, de alguma forma, eu estou esperando esse momento h\u00e1 muito tempo. Como voc\u00ea falou, talvez uma certa intensidade, uma bo\u00eamia, um romantismo meu, me impediram de fazer isso antes. Sempre achei que se eu fizesse, eu ia ficar muito mexido e n\u00e3o ia aguentar a barra. E agora eu me sinto diferente. Eu me sinto homenageando n\u00e3o a mam\u00e3e exatamente, mas o que n\u00f3s temos em comum, homenageando a possibilidade de ser feliz com o que se tem. Ent\u00e3o tenho mam\u00e3e, que morreu em condi\u00e7\u00f5es tristes, n\u00e3o s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es ideais, um suic\u00eddio \u00e9 de alguma maneira como um acidente, como um c\u00e2ncer, como algo que a gente n\u00e3o gostaria que acontecesse. Sendo que a pessoa que morre empunhou a arma que a matou. Mas, ao mesmo tempo, a mam\u00e3e me deixou os poemas, me deixou o talento, me deixou 50% de tudo que acontece em mim. Ent\u00e3o quando eu fa\u00e7o essa pe\u00e7a e s\u00f3 agora eu posso fazer dessa forma, eu celebro o fato de, por ter sofrido a falta dela, talvez, tamb\u00e9m ser um ator, e usar o que eu tenho para dizer os textos dela, quer dizer, dar voz ao que foi calado. Fazer uma pe\u00e7a com mam\u00e3e, j\u00e1 que eu n\u00e3o pude fazer muitas coisas com ela, al\u00e9m de ser gerado e mamar, se \u00e9 que \u00e9 pouco. Agora a gente faz uma pe\u00e7a juntos. Eu n\u00e3o sou m\u00edstico, ent\u00e3o eu n\u00e3o acredito que ela esteja, em nenhum n\u00edvel aqui acompanhando espiritualmente. Mas acredito que ela energeticamente, uma palavra mais ampla, est\u00e1 junto, os textos s\u00e3o dela, n\u00e3o mudo uma palavra do que ela escreveu, visto um vestido parecido com o vestido que dizem ela tinha separado para usar no meu batizado, ela morreu na madrugada que antecedia o meu batismo. Nunca se sabe se esse vestido preto foi guardado para o meu batismo ou se j\u00e1 foi reservado para o enterro. Ela foi enterrada com essa roupa, ent\u00e3o eu nunca vi essa roupa, mas eu sei que era um vestido preto. Ent\u00e3o eu visto essa roupa e falo os poemas da mam\u00e3e, mas sou eu falando. A gente faz a pe\u00e7a juntos. \u00c9 uma pe\u00e7a bem simples, \u00e9 um recital, com m\u00fasica, tem um viol\u00e3o cl\u00e1ssico, com Lu\u00e3 Belik, e um violino cl\u00e1ssico tocado por Henrique Rohrmann, e eu falo os poemas da mam\u00e3e, a gente canta e toca m\u00fasicas que eu sei que a mam\u00e3e gostava, por not\u00edcias de parentes, de papai. E a gente faz disso ent\u00e3o um concerto.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou que n\u00e3o \u00e9 m\u00edstico. Voc\u00ea \u00e9 agn\u00f3stico?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o gostaria de definir, sabe por que? Eu acho que nenhuma palavra daria conta do que acontece exatamente. Nem comigo, nem com ningu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Se eu disser que eu sou um agn\u00f3stico, eu estaria mentindo. Se eu disser que sou ateu, eu vou estar mentindo tamb\u00e9m. Mas se eu disser que eu creio, eu tamb\u00e9m estou mentindo. Ent\u00e3o eu sou um ateu que acredita em milagre. Eu sou um agn\u00f3stico com press\u00e1gios, entendeu? Eu tenho sentimento de agradecimento pela vida, no sentido budista, mas n\u00e3o sou budista. Eu acredito que o amor \u00e9 uma for\u00e7a bonita, poderosa e criadora, mas n\u00e3o acho que isso tenha um nome, n\u00e3o acho que isso vem de um ser, isso \u00e9 uma consequ\u00eancia de um fluxo de coisas. Me sinto em Deus, se \u00e9 que eu tenho que usar uma palavra para que todo mundo possa falar a mesma palavra. Ent\u00e3o n\u00e3o sinto que eu preciso acreditar em Deus, uma vez eu j\u00e1 estou em Deus, eu, voc\u00ea, a planta, a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. Est\u00e1 todo mundo em Deus, nesse fluxo que tem vida, tem morte, tem poema, tem suic\u00eddio, tem pol\u00edticos roubando a gente, tem gente passando fome, tem Aids, tem amor, tem dan\u00e7a, tem festa, tem batuque, tem flor, tem espinho, tem le\u00e3o matando a gazela, tem a gazela dando \u00e0 luz um bebezinho de gazela, que sai e come uma plantinha, entendeu? E tudo isso vai sendo Deus. Ent\u00e3o n\u00e3o preciso acreditar em Deus, uma vez que estou nele. E a\u00ed eu me defendo da pergunta dessa forma. Por que eu acreditaria, se eu j\u00e1 estou? Se j\u00e1 estamos todos aqui. N\u00e3o \u00e9 muito diferente do que as doutrinas pregam, mas n\u00e3o \u00e9 doutrina.<\/p>\n<p><strong>A pe\u00e7a estreou no Rio de Janeiro. Recife \u00e9 a primeira cidade que recebe a montagem depois da estreia?<\/strong><br \/>\n\u00c9 a primeira vez que a gente viaja. Estou bem contente de ser aqui, por motivos \u00f3bvios. Sou um pouco pernambucano de alma. Artisticamente eu sou muito pernambucano. Por muitos motivos eu fui jogado para dentro de uma po\u00e9tica que \u00e9 a po\u00e9tica pernambucana, a po\u00e9tica de voc\u00eas, que se tornou a minha tamb\u00e9m. Acho que isso come\u00e7ou a acontecer no <em>Auto<\/em> e depois isso seguiu acontecendo nos meus encontros com Cl\u00e1udio Assis, com L\u00edrio, com Guel. Eu frequento a fam\u00edlia Suassuna, sou amigo de Dantas, amava Ariano. Fiquei muito tempo no Sert\u00e3o, trabalhando, filmando, e participando acho que poeticamente do universo pernambucano. Ent\u00e3o apesar de ser paulistano, eu tenho cadinho que \u00e9 pernambucano. Tenho grandes amigos aqui, pessoas que eu amo de verdade. Ent\u00e3o estou contente de a primeira viagem da pe\u00e7a ser para c\u00e1. Acho que \u00e9 um colo bom. \u00c9 a primeira vez que a pe\u00e7a vai ser feita no palco italiano, \u00e9 a primeira vez que a gente vai ter muito p\u00fablico. A pe\u00e7a sempre foi feita no Teatro Poeira, que \u00e9 um teatro pequeno, como um \u00fatero. \u00c9 uma cerim\u00f4nia. Aqui a gente vai ter que fazer essa cerim\u00f4nia se tornar uma missa, uma missa ateia, uma missa laica. Manter essa delicadeza da ora\u00e7\u00e3o laica, mas para 700 pessoas. Ent\u00e3o estar com amigos por perto \u00e9 bom.<\/p>\n<p><strong>Por falar em amigos, acho muito bonita a rela\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tem com Concei\u00e7\u00e3o Camarotti. Ent\u00e3o j\u00e1 que estamos falando de amor, de amizade, qual o significado dessas pessoas na sua vida?<\/strong><br \/>\nEu sempre me achei um cara meio incapaz de amar. Mas eu acho que subestimei minha capacidade. Muito tempo eu sentia culpa. Dizia: \u2018poxa, eu n\u00e3o sou t\u00e3o amigo dos meus amigos quanto eles s\u00e3o de mim\u2019, \u2018poxa, n\u00e3o sou t\u00e3o amigo da minha madrasta quanto ela \u00e9 de mim\u2019. Eu colocava muita culpa nessa minha dor da mam\u00e3e ter morrido e ao longo do tempo e do amadurecimento que a gente vai tendo, eu fui percebendo que n\u00e3o, que eu tinha amigos de longa data e pessoas que est\u00e3o na minha vida de uma maneira t\u00e3o determinante. E a Concei\u00e7\u00e3o Camarotti \u00e9 uma dessas pessoas. A gente se conheceu no <em>Amarelo Manga<\/em>, filme do Cl\u00e1udio Assis, a gente criou um v\u00ednculo afetivo para al\u00e9m das cenas e do conv\u00edvio no cinema, no set de filmagem. A gente ficou amigos \u00edntimos, a gente \u00e9 confidente, a gente se frequenta, a gente se fala de quando em quando, ela me liga quando tem saudades, s\u00f3 para dizer que estava com saudades, s\u00f3 para falar oi para mim. E eu penso na Concei\u00e7\u00e3o quase todo dia da minha vida, em algum momento, lembro da Concei\u00e7\u00e3o, assim como lembro de algumas pessoas que eu amo para sempre. Acho que a Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma dessas pessoas que me ensina que eu sei amar. Claro que grande parte disso \u00e9 um m\u00e9rito dela, ela que foi me ensinando ao longo do tempo, que uma amizade pode ser algo muito duradouro, muito eterno, muito bom. Eu fico muito calmo quando estou perto dela, me sinto em paz. A gente d\u00e1 muita risada e fala muita sujeira! Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o da quantidade de porcaria que a gente fala dando gargalhadas. Ao mesmo tempo a gente \u00e9 capaz de passar horas em sil\u00eancio, sem se incomodar, isso \u00e9 importante eu acho, algu\u00e9m com quem voc\u00ea possa ficar em sil\u00eancio muitas horas, \u00e9 muito gostoso. Eu estou doido para que ela veja a pe\u00e7a, porque ela conhece essa minha hist\u00f3ria, conhece os poemas, ela se comove com a hist\u00f3ria da mam\u00e3e, ela gosta da hist\u00f3ria da mam\u00e3e, mesmo sem ter conhecido a minha m\u00e3e; ningu\u00e9m conheceu a minha m\u00e3e, s\u00f3 meu pai e os meus av\u00f3s. \u00c9 engra\u00e7ado&#8230;ela sempre gostou muito da mam\u00e3e, simpatiza com a mam\u00e3e. Ent\u00e3o acho que ela vai se emocionar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando entrevistei Matheus Nachtergaele pela primeira vez, ele j\u00e1 havia passado pelo m\u00e9todo do diretor paulista Antunes Filho, pela Escola de Arte Dram\u00e1tica (USP-SP), e deixado sua marca no grupo Teatro da Vertigem, dirigido por Ant\u00f4nio Ara\u00fajo, por sua atua\u00e7\u00e3o nos espet\u00e1culos Para\u00edso Perdido e O Livro de J\u00f3. 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