{"id":15371,"date":"2015-12-21T08:52:06","date_gmt":"2015-12-21T11:52:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15371"},"modified":"2016-01-08T08:57:37","modified_gmt":"2016-01-08T11:57:37","slug":"esse-silencio-grita-por-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/esse-silencio-grita-por-humanidade\/","title":{"rendered":"Esse sil\u00eancio grita por humanidade"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15376\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/O-espa\u00e7o-do-silencio-capa-e1452252331706.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15376\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15376 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/O-espa\u00e7o-do-silencio-capa-e1452252331706.jpg\" alt=\"Nina Caetano denuncia omiss\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher. Foto: Frederico Chigan\u00e7a e equipe\" width=\"600\" height=\"369\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15376\" class=\"wp-caption-text\">Nina Caetano denuncia omiss\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher. Foto: Frederico Chigan\u00e7a e equipe<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15305\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2-150x140.jpg\" alt=\"bienal-usp2\" width=\"150\" height=\"140\" \/><\/a>Em m\u00e9dia, 13 mulheres s\u00e3o assassinadas por dia no Brasil. Uma a cada duas horas, segundo o Mapa da Viol\u00eancia Contra a Mulher. Os dados s\u00e3o alarmantes, mas essa realidade pode ser ainda pior. As pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o insuficientes para barrar a cultura machista, apesar de alguns avan\u00e7os, como a lei do feminic\u00eddio. A indiferen\u00e7a da maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 um grave problema. Como em outros quesitos da vida contempor\u00e2nea, o entorpecimento da sensibilidade chega a patamares t\u00e3o elevados que cada um s\u00f3 se preocupa com os seus problemas. Mas viol\u00eancia que fere ou abate as mulheres n\u00e3o distingue classe social, nem idade. Todas podem ser v\u00edtimas. E isso \u00e9 assustador.<\/p>\n<p>Mas as estat\u00edsticas revelam que as mais atingidas s\u00e3o as pobres e negras.\u00a0A elite brasileira, que poderia contribuir mais, aparenta se importar pouco, de verdade, com isso. Parece que as figuras encasteladas, sob as vigil\u00e2ncias de todas as ordens, \u00a0&#8211; e principalmente que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder &#8211; s\u00f3 s\u00e3o tocadas quando lhes rasgam a carne: matam seu filho, sequestram seu neto, estupram sua filha. Quando uma infelicidade dessa acontece, atinge\u00a0os nervos, os ossos, os m\u00fasculos e o cora\u00e7\u00e3o dessa gente.<\/p>\n<p>Talvez esse n\u00e3o seja o principal p\u00fablico da performance <em>Espa\u00e7o de Sil\u00eancio<\/em>, da dramaturga, professora e atriz mineira Nina Caetano, que se insurge contra esse quadro aterrador. Mas outra plateia, subjugada pelo capitalismo e desatenta ao poder submerso dentro de si, que em din\u00e2mica coletiva seria (ser\u00e1) capaz de provocar mudan\u00e7as. <em>Espa\u00e7o de Sil\u00eancio<\/em> \u00e9 uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de den\u00fancia e repulsa pelas mulheres mortas. Mostra-se necess\u00e1ria e comovente. Normalmente \u00e9 apresentada em lugares de intenso fluxo de pedestres.<\/p>\n<p>Na sexta-feira em que parte do pa\u00eds saiu \u00e0s ruas em manifesta\u00e7\u00e3o contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Nina Caetano estava na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no centro de S\u00e3o Paulo. Sua performance integrou a programa\u00e7\u00e3o da II Bienal Internacional de Teatro da USP. Era um dia especial. As pessoas passavam apressadas. Umas para correr da passeata, outras para engrossar a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_15377\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820553-e1452252953884.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15377\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15377 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820553-e1452252953884.jpg\" alt=\"Uma pausa para ler o manifesto. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15377\" class=\"wp-caption-text\">Uma pausa para ler o manifesto. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Os transeuntes pareciam em d\u00favida se era um protesto, uma dessas pegadinhas da TV ou at\u00e9 mesmo teatro. Uma a\u00e7\u00e3o de poucos gestos, nenhuma fala, v\u00e1rios textos escritos, como listagem de mulheres mortas, micro obitu\u00e1rios e manifesto po\u00e9tico. Vestida de vermelho, com um turbante tamb\u00e9m vermelho na cabe\u00e7a, a atriz e cofundadora do agrupamento mineiro Obscena tra\u00e7ava seu ritual pag\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante quase uma hora, um len\u00e7ol branco \u00e9 seu palco. A atriz aparece com uma fita vermelha em cruz afixada na boca. Desprende a fita adesiva dos l\u00e1bios. Corta com os dentes outros peda\u00e7os de fita para formar cruzes sobre o tecido branco. Um cemit\u00e9rio simb\u00f3lico, com suas hist\u00f3rias de massacres que a omiss\u00e3o covarde quer fazer parecer banal, uma consequ\u00eancia \u201cnatural\u201d da postura da mulher v\u00edtima da viol\u00eancia de pessoas que deveriam cuidar delas, como maridos, noivos e namorados.<\/p>\n<div id=\"attachment_15378\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820535-e1452253120649.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15378\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15378 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820535-e1452253120649.jpg\" alt=\"Representa\u00e7\u00e3o de um cemit\u00e9rio sobre o len\u00e7ol branco.\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15378\" class=\"wp-caption-text\">Representa\u00e7\u00e3o de um cemit\u00e9rio sobre o len\u00e7ol branco. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Esse ritual silencioso vocifera de historicidade e tra\u00e7a seu legado de injusti\u00e7as. O gestual \u00e9 suave e decidido. O olhar duro carrega uma revolta contida. Quem cruzou o olhar com a atriz sente que ela cobra a parcela que cabe a cada um da responsabilidade de estar no mundo. Essa performance atesta que essa brutalidade n\u00e3o pode ficar por isso mesmo. Perturbadora.<\/p>\n<p>\u00c9 artivismo vigoroso e contundente. Chega a ser lancinante. A cada nova cruz posta no ch\u00e3o amplifica a pot\u00eancia desse grito. Aquelas mulheres simbolizadas ali insuflam os pedidos de socorro. Com os sentidos d\u00e9beis, fala-se em demasia. Vivemos saturados pela superprodu\u00e7\u00e3o mercantil de signos, de informa\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis. <em>Espa\u00e7o do Sil\u00eancio<\/em> vem interromper o falat\u00f3rio vazio das coisas. Nesse espa\u00e7o-gesto que ressalta a omiss\u00e3o adotada em torno dessa viol\u00eancia, a interven\u00e7\u00e3o explode de indigna\u00e7\u00e3o na paisagem urbana. A performance foi criada a partir da Ideia-Situa\u00e7\u00e3o do artista visual Artur Barrio, uma proposta feita para a Documenta 11.<\/p>\n<p>Nessa atua\u00e7\u00e3o performativa e micropol\u00edtica prevalece a arte do inacabado. A poesia que se instaura a cada nova a\u00e7\u00e3o. Tempor\u00e1ria e n\u00f4made. Na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, a artista encarou e desafiou os presentes. Um homem tentava fazer um discurso in\u00f3cuo sobre como ele valoriza a mulher. Nina Caetano pegou o cabra pela m\u00e3o e \u201cordenou\u201d que ele lesse o manifesto. O rapaz n\u00e3o suportou. Uma mulher apareceu e queria explica\u00e7\u00f5es sobre o trabalho. Outros paravam um minutinho, eram tocados e partiam. E <em>Espa\u00e7o do Sil\u00eancio<\/em> segue afrontando as estruturas de controle. Investe na provoca\u00e7\u00e3o para despertar os desejos de que somos todos humanos.<\/p>\n<div id=\"attachment_15379\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820506-e1452253570450.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15379\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15379\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/L2820506-e1452253570450.jpg\" alt=\"Dramaturgia contundente para tirar os sentidos da letargia cotidiana. Foto: Ivana Moura\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15379\" class=\"wp-caption-text\">Dramaturgia contundente para tirar os sentidos da letargia cotidiana. Foto: Ivana Moura<\/p><\/div>\n<p>Escrito no contexto da <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/bienaldeteatro\/2015\/\" target=\"_blank\">II Bienal Internacional de Teatro da USP<\/a> (27\/11 a 18\/12).<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica<\/strong>\u00a0articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site\u00a0<em>Horizonte da Cena<\/em>, do blog\u00a0<em>Satisfeita, Yolanda?<\/em>, da\u00a0<em>Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais<\/em>\u00a0e do site\u00a0<em>Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena<\/em>. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em m\u00e9dia, 13 mulheres s\u00e3o assassinadas por dia no Brasil. Uma a cada duas horas, segundo o Mapa da Viol\u00eancia Contra a Mulher. Os dados s\u00e3o alarmantes, mas essa realidade pode ser ainda pior. As pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o insuficientes para barrar a cultura machista, apesar de alguns avan\u00e7os, como a lei do feminic\u00eddio. 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