{"id":15333,"date":"2015-12-17T17:45:55","date_gmt":"2015-12-17T20:45:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15333"},"modified":"2015-12-17T17:45:55","modified_gmt":"2015-12-17T20:45:55","slug":"pela-livre-circulacao-de-identidades-complexas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/pela-livre-circulacao-de-identidades-complexas\/","title":{"rendered":"Pela livre circula\u00e7\u00e3o de identidades complexas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15340\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_3-e1450363042793.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15340\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_3-e1450363042793.jpg\" alt=\"Spiritus Mundi VS Aztec Ouroborus \u00e9 o nome da performance do coletivo La Pocha Nostra. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o Facebook Tusp\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15340\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15340\" class=\"wp-caption-text\">Spiritus Mundi VS Aztec Ouroborus \u00e9 o nome da performance do coletivo La Pocha Nostra. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o Facebook Tusp<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp-e1449264443125.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-15307 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp-e1449264443125-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp-e1449264443125-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp-e1449264443125-144x144.jpg 144w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No rec\u00e9m-inaugurado Centro Compartilhado de Cria\u00e7\u00e3o, na Barra Funda, em S\u00e3o Paulo, as pessoas tomam um caf\u00e9, bebem uma cerveja, se re\u00fanem em pequenos grupos de conversas animadas. Nada muito diferente dos minutos que antecedem qualquer espet\u00e1culo; mas esse n\u00e3o era o caso. Pouco antes do hor\u00e1rio marcado, performers come\u00e7aram a circular pelo espa\u00e7o. Uma garota vestia calcinha de algod\u00e3o e, por cima, outra com renda vermelha, al\u00e9m de um corpete na mesma cor. Cordas amarravam seu corpo. Nos bra\u00e7os, pernas e no bumbum, palavras ou frases sobre explora\u00e7\u00e3o sexual. Uma delas, por exemplo, relacionava a Fifa e o turismo sexual. Outra performer, de vestido preto elegante, tinha a cabe\u00e7a presa por uma gaiola. E assim outros tamb\u00e9m andavam por ali, chegavam perto das pessoas, iniciavam um contato.<\/p>\n<p>Quando o espa\u00e7o para apresenta\u00e7\u00f5es, um galp\u00e3o bem grande, foi aberto, o p\u00fablico pode ter uma no\u00e7\u00e3o mais exata de como seriam os pr\u00f3ximos minutos compartilhados com o coletivo La Pocha Nostra, criado no M\u00e9xico, que come\u00e7ava a performance <em>Spiritus Mundi VX Aztec Ouroborus<\/em>. Isso foi no \u00faltimo dia 12 de dezembro, dentro da programa\u00e7\u00e3o II Bienal Internacional de Teatro da USP.  <\/p>\n<p>A profus\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e imagens que se estabeleceu por todos os cantos, simultaneamente, faz com que, acreditem, seja dif\u00edcil tentar descrever o que se passou ali, embora isso talvez seja bem importante para que quem n\u00e3o acompanhou a performance, possa tentar reproduzir mentalmente o que estou falando. Um homem deitado, com o corpo coberto por alguma coisa comest\u00edvel, e o p\u00eanis encalacrado por um adere\u00e7o prata; uma mulher que mostra os seios, mas, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m tem pau. Figuras de \u00edndias, bailarinas, comunistas, \u201cmacho power\u201d. A m\u00fasica alta variou muito \u2013 teve muita eletr\u00f4nica, rock, samba e at\u00e9 Chico Sciense, al\u00e9m da proje\u00e7\u00e3o de imagens diversas, inclusive performances antigas do coletivo.<\/p>\n<p>O p\u00fablico circulava livremente no espa\u00e7o, podendo entrar e sair do galp\u00e3o, pegar uma bebida, voltar; e, em certa medida, foi at\u00e9 convidado a interagir, mas de uma forma muito <em>soft<\/em>, sem nenhuma press\u00e3o ou agressividade \u2013 a n\u00e3o ser quando, j\u00e1 no final, os espectadores foram estimulados a atirar garrafas na parede, que estilha\u00e7avam ao baterem em figuras de pol\u00edticos, por exemplo, ou em n\u00fameros de homic\u00eddios de mulheres ou \u00edndios. <\/p>\n<p>O Coletivo La Pocha Nostra, que tem integrantes espalhados por v\u00e1rios lugares do mundo, trabalhou alguns dias com performers em S\u00e3o Paulo. Essas pessoas ajudaram a compor as a\u00e7\u00f5es principais, fazendo uma certa \u201cassist\u00eancia\u201d aos membros do coletivo. O que presenciamos, ou melhor, constru\u00edmos juntos, performers e espectadores, aquela noite, foi uma performance diversa, rica, ampla em possibilidades de aproxima\u00e7\u00e3o reflexiva. Uma esp\u00e9cie de instala\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica de corpos inteiramente presentes e dispon\u00edveis. Prontos para questionarem todos os padr\u00f5es estabelecidos, desde aqueles que podem ser mais pessoais, que passam pela discuss\u00e3o de g\u00eanero, at\u00e9 os econ\u00f4micos e sociais. <\/p>\n<div id=\"attachment_15342\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_2-e1450363174185.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15342\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_2-e1450363174185.jpg\" alt=\"Performances questionaram e quebraram padr\u00f5es\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15342\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15342\" class=\"wp-caption-text\">Performances questionaram e quebraram padr\u00f5es<\/p><\/div>\n<p>Embora a quest\u00e3o de g\u00eanero tenha sido uma das vertentes que permeou praticamente todas as performances, \u00e9 interessante notar como, de fato, a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se algu\u00e9m \u00e9 homem, mulher, transg\u00eanero, travesti. A mulher de seios, moicano, cabelo no sovaco e pau est\u00e1 ali para levantar outras problematiza\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o al\u00e9m do seu direito de existir. O seu direito de existir \u00e9 inalien\u00e1vel e a personifica\u00e7\u00e3o dele de forma t\u00e3o natural mostra o quanto a nossa sociedade est\u00e1 atrasada no que se refere ao respeito, \u00e0 garantia de liberdades e igualdades.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o, o capitalismo, as migra\u00e7\u00f5es, o consumo, a corrup\u00e7\u00e3o, todas essas quest\u00f5es est\u00e3o intrinsecamente ligadas \u00e0s performances dos artistas que se colocam na cena como ativistas. Um lugar onde \u00e9 imposs\u00edvel dissociar a arte e o pol\u00edtico no sentido mais amplo do termo. Recentemente, durante o 1\u00ba Encontro sobre Curadoria em Artes C\u00eanicas, realizado pela Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo (MITsp), em parceria com o Goethe Institut e o Observat\u00f3rio dos Festivais, discutiu-se um texto do curador independente e dramaturgo Florian Malzacher, no qual ele retomava a ideia do teatro pol\u00edtico na Europa nos anos 1970 e 1980, afirmando que \u00e0 \u00e9poca, embora o teatro fosse capaz de propor uma compreens\u00e3o das quest\u00f5es que estavam sendo discutidas, geralmente essa representa\u00e7\u00e3o se tornava muito mais uma representa\u00e7\u00e3o das mis\u00e9rias e das realidades que desejava combater.<\/p>\n<p>As possibilidades hoje est\u00e3o muito mais amplas e complexas quando pensamos no que significa teatro pol\u00edtico. E o trabalho do coletivo La Pocha Nostra amplia nossas percep\u00e7\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o a uma arte capaz de trazer \u00e0 tona quest\u00f5es da realidade, ligadas ao consumo, ao capital, \u00e0s opress\u00f5es, mas subvertendo o caminho, sem linearidades e enxergando o espectador como suficientemente preparado para lidar com as idiossincrasias que possam surgir a partir do trabalho. Embora alguns textos lidos durante a performance ofere\u00e7am caminhos (muito bem-vindos, inclusive), chaves interpretativas para que o p\u00fablico possa perceber todas aquelas a\u00e7\u00f5es e signos, h\u00e1 uma compreens\u00e3o por parte do grupo, atuando de uma maneira n\u00e3o-autorit\u00e1ria, da emancipa\u00e7\u00e3o do espectador, para lembrar um conceito de Jacques Ranci\u00e8re. <\/p>\n<div id=\"attachment_15343\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_1-e1450363244409.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15343\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/La-Pocha-Nostra_1-e1450363244409.jpg\" alt=\"P\u00fablico assistiu \u00e0 v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es simultaneamente, como uma instala\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15343\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15343\" class=\"wp-caption-text\">P\u00fablico assistiu \u00e0 v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es simultaneamente, como uma instala\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Caminhando por esses trilhos e ainda seguindo o texto de Malzacher (que faz parte do livro <em>Not just a mirror, looking for the political theater of today<\/em>), podemos pensar exatamente na situa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico dentro do universo das performances, da arte pol\u00edtica, do ativismo. O autor diz que o teatro pol\u00edtico contempor\u00e2neo precisa evitar uma falsa participa\u00e7\u00e3o do espectador, mas ao mesmo tempo reivindicar a sua participa\u00e7\u00e3o. Pensando na performance do La Pocha Nostra, percebemos de fato como os caminhos s\u00e3o m\u00faltiplos. N\u00e3o \u00e9 preciso que o p\u00fablico suba no palco para participar de uma a\u00e7\u00e3o, nem ao menos que seja tocado fisicamente (n\u00e3o que isso n\u00e3o possa acontecer e ser bastante interessante), para que aquele trabalho possa reverberar e se mostrar extremamente potente em significados e simbologias e o p\u00fablico esteja de fato numa situa\u00e7\u00e3o ativa. Precisamos somente de espectadores dispon\u00edveis para enveredar por espa\u00e7os de tr\u00e2nsito, especialmente transgressores e capazes de despertar novos sentidos. Assim como dizia uma placa que circulou com a ajuda do p\u00fablico, um local de \u201clivre circula\u00e7\u00e3o de identidades complexas\u201d, como a arte e o teatro.<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><br \/>\nCria\u00e7\u00e3o Coletiva de Guillermo G\u00f3mez-Pe\u00f1a, Mich\u00e8le Ceballos, Saul Garcia Lopez, Daniel B., Dani d\u2019Emilia.<\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong>A cobertura cr\u00edtica da II Bienal Internacional de Teatro da USP \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o da DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica, que articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, respectivamente. A DocumentaCena realizou coberturas da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, da MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No rec\u00e9m-inaugurado Centro Compartilhado de Cria\u00e7\u00e3o, na Barra Funda, em S\u00e3o Paulo, as pessoas tomam um caf\u00e9, bebem uma cerveja, se re\u00fanem em pequenos grupos de conversas animadas. Nada muito diferente dos minutos que antecedem qualquer espet\u00e1culo; mas esse n\u00e3o era o caso. 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