{"id":15320,"date":"2015-12-17T17:38:29","date_gmt":"2015-12-17T20:38:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15320"},"modified":"2015-12-17T17:38:29","modified_gmt":"2015-12-17T20:38:29","slug":"obsessoes-rodrigueanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/obsessoes-rodrigueanas\/","title":{"rendered":"Obsess\u00f5es rodrigueanas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15323\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-Obsessao-Foto-Bruno-Soares-e1450278664480.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15323\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15323\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-Obsessao-Foto-Bruno-Soares-e1450278664480.jpg\" alt=\"Ricardo Guilherme em Flor de obsess\u00e3o. Foto: Bruno Soares\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15323\" class=\"wp-caption-text\">Ricardo Guilherme em Flor de obsess\u00e3o. Foto: Bruno Soares<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15305\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/bienal-usp2-150x140.jpg\" alt=\"bienal-usp2\" width=\"150\" height=\"140\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em <em>Flor de obsess\u00e3o<\/em>, o ator e diretor de teatro cearense Ricardo Guilherme trilha um caminho de desejo dual oposto ao mundo de incerteza e extrema inseguran\u00e7a em que vivemos. As fragilidades nas rela\u00e7\u00f5es sociais de que fala Zygmunt Bauman s\u00e3o substitu\u00eddas por uma ideia obsessiva de amor, a partir de tr\u00eas contos de Nelson Rodrigues (<em>Morte pela boca<\/em>, <em>Missa de sangue<\/em> e <em>Unidos na vida e na morte<\/em>). O material fez parte da coluna <em>A vida como ela \u00e9<\/em>, publicada pelo escritor em jornais cariocas nos anos 1950.<\/p>\n<p>Na montagem, erguida em 1993, a dramaturgia de <em>Flor de obsess\u00e3o<\/em> traz figuras transpassadas pelo tr\u00e1gico, que enxergam como \u00fanica sa\u00edda a morte. Al\u00e9m de dois depoimentos, em primeira pessoa, que formam o pr\u00f3logo e o ep\u00edlogo.<\/p>\n<p>Largada pelo amante, a personagem de <em>Morte pela boca<\/em> revela ao marido a prevarica\u00e7\u00e3o e ordena que o tra\u00eddo abata o rival com um tiro na boca. Em <em>Missa de sangue<\/em>, a infidelidade s\u00f3 \u00e9 constatada pelo homem enganado nos del\u00edrios de febre da mulher, que clama pelo amante. O amor tamb\u00e9m \u00e9 uma pris\u00e3o em <em>Unidos na vida e na morte<\/em>, mas dessa vez nem a morte configura-se como liberdade.<\/p>\n<p>Na encena\u00e7\u00e3o, o ator Ricardo Guilherme dramatiza e comenta as a\u00e7\u00f5es narradas. Quando o p\u00fablico entra no teatro, o artista j\u00e1 est\u00e1 no palco, deitado em uma bancada que lembra um caix\u00e3o. Nos informes sobre o espet\u00e1culo, o ator (que tamb\u00e9m \u00e9 o diretor da pe\u00e7a) diz que s\u00e3o dois movimentos para cada um dos t\u00f3picos narrados. Ao todo, oito movimentos matriciais. No pr\u00f3logo, de p\u00e9, Ricardo Guilherme usa as m\u00e3os para realizar a\u00e7\u00f5es verticais para cima e para baixo no rosto, formando m\u00e1scaras da com\u00e9dia e da trag\u00e9dia. Em <em>Morte pela boca<\/em>, com os dedos em forma de garras, simula ferir algu\u00e9m ou a si mesmo. O gesto de <em>Missa de Sangue<\/em>, apresenta o ator de bra\u00e7os abertos e cruzados, imagens que aludem ao abra\u00e7o esperado\/ desejado e abra\u00e7o rejeitado. J\u00e1 em <em>Unidos na vida e na morte<\/em>, enla\u00e7a e desenla\u00e7a as m\u00e3os. E por fim, no pr\u00f3logo, levanta-se, fala ao p\u00fablico e sai.<\/p>\n<p>Os tra\u00e7os expressionistas s\u00e3o evidenciados com grande pot\u00eancia pelo int\u00e9rprete de grandes recursos t\u00e9cnicos, vocais e corporais. Criador do que chama de teatro radical (m\u00e9todo em que a figura do ator tra\u00e7a os significados, a partir de imagens do corpo, que permitam ao espectador participar com sua imagina\u00e7\u00e3o e projetar sua subjetividade),\u00a0ele utiliza o conceito de repeti\u00e7\u00e3o criativa: a a\u00e7\u00e3o se reproduz, mas a repeti\u00e7\u00e3o lhe acrescenta novos significados. Uma luz quase na penumbra valoriza as express\u00f5es.<\/p>\n<p>Autor com gosto pelos paradoxos, como afirma o estudioso Eudinyr Fraga, Nelson Rodrigues coloca a mulher &#8211; historicamente massacrada pelos crimes provocados por ci\u00fame doentio e m\u00f3rbido \u2013 como as detonadoras das puls\u00f5es de vida e morte nos contos escolhidos para a pe\u00e7a. Em <em>Flor de obsess\u00e3o<\/em> as mulheres s\u00e3o possessivas, manipuladoras e se n\u00e3o s\u00e3o\u00a0por suas m\u00e3os que os homens matam, ou se suicidam, s\u00e3o elas quem incitam o ato.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico S\u00e1bado Magaldi, tamb\u00e9m estudioso de Nelson Rodrigues, assinala que a obra do autor de <em>Senhora dos Afogados<\/em> carrega consigo a f\u00f3rmula crist\u00e3: desejo, pecado, puni\u00e7\u00e3o\/reden\u00e7\u00e3o. O personagem mata ou se suicida para se redimir do sentimento de culpa.<\/p>\n<p>A frase de Nelson Rodrigues \u201cTodo amor \u00e9 eterno e, se acaba, n\u00e3o era amor\u201d, que sustenta a ideia do espet\u00e1culo, e \u00e9 dita no in\u00edcio da pe\u00e7a remete, talvez, a um ideal rom\u00e2ntico em que era bonito at\u00e9 morrer por amor. Na primeira vez em que assisti ao espet\u00e1culo, l\u00e1 pelos anos 1990, fiquei absolutamente encantada com as frases do texto em harmonia com o gestual do artista, o que era m\u00fasica para meus olhos cansados de uma desilus\u00e3o amorosa. Anos depois,\u00a0tenho outra vis\u00e3o do espet\u00e1culo.<\/p>\n<div id=\"attachment_15325\" style=\"width: 434px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-obsess\u00e3o-2-Suewellyn-Cassimiro-int.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15325\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-15325 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-obsess\u00e3o-2-Suewellyn-Cassimiro-int-e1450279492260.jpg\" alt=\"Ator inicia pe\u00e7a deitado sobre um plataforma. Foto: Suewellyn Cassimiro\" width=\"424\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-obsess\u00e3o-2-Suewellyn-Cassimiro-int-e1450279492260.jpg 424w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-obsess\u00e3o-2-Suewellyn-Cassimiro-int-e1450279492260-256x300.jpg 256w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Flor-de-obsess\u00e3o-2-Suewellyn-Cassimiro-int-e1450279492260-300x351.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15325\" class=\"wp-caption-text\">Ator inicia pe\u00e7a deitado sobre um plataforma. Foto: Suewellyn Cassimiro<\/p><\/div>\n<p>Bem, <em>Flor de obsess\u00e3o<\/em> n\u00e3o est\u00e1 estruturada no social, mas \u00e9 palco de revela\u00e7\u00f5es de desejos \u00edntimos e inconfess\u00e1veis, tablado para lan\u00e7ar luz a deformidades ps\u00edquicas. Mas mesmo tendo a mulher como o ser mais algoz, que trai e dissimula (e como j\u00e1 disse o paradoxo rodrigueano n\u00e3o pode ser entendido somente como misoginia; penso no\u00a0texto com uma tend\u00eancia para o aned\u00f3tico), a constru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo n\u00e3o me parece dialogar com as atuais quest\u00f5es que pulsam na sociedade. E disso sinto falta.<\/p>\n<p>O controle social dos impulsos \u00e9 estudado por Freud em <em>Totem e Tabu<\/em> e o pai da psican\u00e1lise aponta que o sujeito nunca internaliza completamente a interdi\u00e7\u00e3o. Da\u00ed ocorre o conflito de duas grandes for\u00e7as: o desejo da viola\u00e7\u00e3o das normas e o recalque do desejo. Nelson Rodrigues faz emergir nas a\u00e7\u00f5es de seus personagens os impulsos mais secretos.<\/p>\n<p>Fazendo uma aproxima\u00e7\u00e3o com a ideia de Bauman, que est\u00e1 l\u00e1 no come\u00e7o do texto, a qualidade das rela\u00e7\u00f5es diminui vertiginosamente no mundo contempor\u00e2neo, ou como ele define, na modernidade l\u00edquida. E, para compensar esse dado, a tend\u00eancia \u00e9 o aumento no n\u00famero de parceiros. Bauman chama isso de conex\u00e3o e a caracter\u00edstica \u00e9 n\u00e3o haver responsabilidade m\u00fatua.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo polon\u00eas trabalha com conceitos de Afinidade e Parentesco para expor sua defesa de que vivemos em uma sociedade de extrema descartabilidade. O parentesco seria o la\u00e7o irredut\u00edvel e inquebr\u00e1vel. E a afinidade, eletiva.<\/p>\n<p>Mesmo que o cen\u00e1rio do amor em Nelson Rodrigues seja povoado por pris\u00f5es emocionais, que escravizam e clamam pela morte, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer que esse autor genial era um provocador. Para alguns, reacion\u00e1rio, por suas posi\u00e7\u00f5es conservadoras sobre temas pol\u00eamicos \u00e0 \u00e9poca em que viveu.<\/p>\n<p>Seus personagens se revestem de ambiguidades. No livro <em>A menina sem estrela: mem\u00f3rias<\/em>, Nelson Rodrigues. Defende: \u201cO amor normal n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o, nem aud\u00e1cia, nem as grandes abje\u00e7\u00f5es inef\u00e1veis. \u00c9 um sentimento que vive de pequenos escr\u00fapulos, de vergonhas med\u00edocres, de limites covardes&#8221;. <\/p>\n<p>Na \u00f3tica desse autor, o sofrimento humano \u00e9 um processo de reden\u00e7\u00e3o para redimir a culpa. Nesse contexto de <em>Flor de obsess\u00e3o<\/em>, outras camadas de afetos poderiam fazer vibrar outras notas, inclusive as dissonantes, desse universo doentio que o autor pinta nos seus textos com tintas bem carregadas.<\/p>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong>:<br \/>\nTexto, dire\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o: Ricardo Guilherme<br \/>\nProdutora executiva:\u00a0Elisa Gon\u00e7alves de Alencar<br \/>\nAssistente de produ\u00e7\u00e3o:\u00a0Suewellyn Cassimiro Sales<\/p>\n<p>Escrito no contexto da <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/bienaldeteatro\/2015\/\" target=\"_blank\">II Bienal Internacional de Teatro da USP<\/a> (27\/11 a 18\/12).<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica<\/strong>\u00a0articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site\u00a0<em>Horizonte da Cena<\/em>, do blog\u00a0<em>Satisfeita, Yolanda?<\/em>, da\u00a0<em>Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais<\/em>\u00a0e do site\u00a0<em>Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena<\/em>. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014 e 2015); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Flor de obsess\u00e3o, o ator e diretor de teatro cearense Ricardo Guilherme trilha um caminho de desejo dual oposto ao mundo de incerteza e extrema inseguran\u00e7a em que vivemos. 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