{"id":15193,"date":"2015-11-16T13:10:08","date_gmt":"2015-11-16T16:10:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15193"},"modified":"2015-11-16T13:15:59","modified_gmt":"2015-11-16T16:15:59","slug":"um-autentico-documento-ficcional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/um-autentico-documento-ficcional\/","title":{"rendered":"Um aut\u00eantico documento ficcional*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15198\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-1-e1447689993930.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15198\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-1-e1447689993930.jpg\" alt=\"Instrucciones para abrazar el aire, do grupo Malayerba, do Equador. Foto: Jennifer Glass\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15198\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15198\" class=\"wp-caption-text\">Instrucciones para abrazar el aire, do grupo Malayerba, do Equador. Foto: Jennifer Glass<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15109\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg\" alt=\"X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-144x144.jpg 144w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-624x624.jpg 624w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-900x900.jpg 900w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um dia antes de assistir \u00e0 pe\u00e7a <em>Instrucciones para abrazar el aire<\/em>, participei como mediadora de um encontro entre artistas da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, no qual estava o grupo Malayerba, do Equador, com os criadores Ar\u00edstides Vargas, Charo Franc\u00e9s e Gerson Guerra. No debate, tive a oportunidade de ouvir o grupo falar, com muita clareza e propriedade, sobre o pr\u00f3prio trabalho e sobre a pe\u00e7a que est\u00e1 na programa\u00e7\u00e3o da mostra. Aqueles que estavam presentes puderam conhecer antes de assistir ao espet\u00e1culo os fatos que motivaram a cria\u00e7\u00e3o. Charo e Ar\u00edstides nos contaram a hist\u00f3ria de uma casa em La Plata, que funcionava como imprensa clandestina. Como fachada, ativistas assumiam o papel de cozinheiros que faziam conservas de coelho a escabeche e as conservas eram embaladas com os pap\u00e9is do jornal que produziam, e que s\u00f3 assim circulava. Em 1976 a casa foi alvejada por fora. Todos os que estavam l\u00e1 dentro morreram, com exce\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, ali sequestrada e at\u00e9 hoje n\u00e3o encontrada. A hist\u00f3ria foi contada para eles por Chicha Mariani, a av\u00f3 dessa menina desaparecida cujos pais foram assassinados no ataque \u00e0 casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o por saber previamente da hist\u00f3ria \u2013 que qualquer espectador pode saber procurando informa\u00e7\u00f5es sobre a pe\u00e7a na Internet, lendo sinopses e cr\u00edticas do espet\u00e1culo \u2013 mas por ouvir uma apresenta\u00e7\u00e3o feita pelos criadores em uma conversa, minha percep\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a j\u00e1 contava com uma sensa\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo, de empatia pelo trabalho. Fa\u00e7o essa observa\u00e7\u00e3o preliminar porque, como cr\u00edtica, artista e espectadora, sou defensora das media\u00e7\u00f5es. Vejo a import\u00e2ncia da media\u00e7\u00e3o como forma de aproxima\u00e7\u00e3o entre artistas e p\u00fablico, algo que deveria ser sempre uma prioridade nas iniciativas de teatro \u2013 especialmente quando estamos em contato com culturas de teatro que n\u00e3o s\u00e3o aquelas com as quais lidamos no cotidiano de um determinado territ\u00f3rio cultural.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 apresentada por tr\u00eas casas, com tr\u00eas casais: os av\u00f3s que procuram a neta, os ativistas cozinheiros de coelhos e os vizinhos que observam a casa clandestina. Em cada casa, uma ideia de teatro diferente onde a dupla trabalha com linguagens diversas. A altern\u00e2ncia de g\u00eaneros \u00e9 uma premissa da dramaturgia. Passamos rapidamente de cenas c\u00f4micas com chistes descompromissados para cenas em que \u00e9 imposs\u00edvel rir do que est\u00e1 sendo dito e para outras em que o lirismo nos faz ver a beleza apesar do horror. O espet\u00e1culo se constr\u00f3i com diferentes registros de interpreta\u00e7\u00e3o, que se intercalam e se alimentam uns dos outros. Cada casal assume um tom, uma temperatura, um tempo diferente. Escutamos as hist\u00f3rias por diferentes pontos de vista, que nos demandam que estejamos prontos para mudar de expectativa a cada cena. E parece que a atividade constante de mudan\u00e7a na recep\u00e7\u00e3o vai aos poucos derrubando os muros, abrindo brechas para chegar na sensibilidade do espectador. \u00c9 como acompanhar um festival: a cada espet\u00e1culo, as premissas s\u00e3o diferentes, cada um tem as suas regras, temos que adaptar as nossas expectativas, abandonar saberes e adquirir outros a cada vez que come\u00e7a um novo espet\u00e1culo. Nossas no\u00e7\u00f5es de teatro s\u00e3o abaladas (felizmente) e aprendemos a ver cada pe\u00e7a de acordo com as suas quest\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 com as nossas.<\/p>\n<div id=\"attachment_15200\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15200\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2.jpg\" alt=\"Atores trabalham com diversas linguagens no espet\u00e1culo\" width=\"1200\" height=\"800\" class=\"size-full wp-image-15200\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2.jpg 1200w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2-624x416.jpg 624w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Instrucci\u00f3nes-para-abrazar-el-aire-2-900x600.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15200\" class=\"wp-caption-text\">Atores trabalham com diversas linguagens no espet\u00e1culo<\/p><\/div>\n<p>Mas, no que diz repeito a verdades e realidades, me parece interessante e perfeitamente adequada a ideia de documento ficcional, um aparente paradoxo, com o qual a pe\u00e7a \u00e9 apresentada. Quantos documentos produzidos durante os per\u00edodos ditatoriais na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o s\u00e3o de certo modo \u201cficcionais\u201d, ou melhor, mentirosos? Quantas confiss\u00f5es proferidas ou assinadas por coer\u00e7\u00e3o da tortura n\u00e3o s\u00e3o uma \u201cfic\u00e7\u00e3o\u201d constru\u00edda pelo medo? E o que dizer dos documentos dos filhos e filhas, netos e netas, cuja identidade foi roubada e alterada nos in\u00fameros casos de sequestros? A quest\u00e3o \u00e9 que entre mentira e fic\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7a \u00e9 grande. A mentira \u00e9 a ant\u00edtese da verdade, mas a rela\u00e7\u00e3o da verdade com a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa. Os procedimentos de cria\u00e7\u00e3o ficcional est\u00e3o presentes em todas as formas de escrita historiogr\u00e1fica, a elabora\u00e7\u00e3o das narrativas que s\u00e3o comprometidas com a verdade conta necessariamente com a imagina\u00e7\u00e3o, com a ficcionaliza\u00e7\u00e3o, como m\u00e9todo para criar coer\u00eancia. Da\u00ed que toda historiografia \u00e9 criativa e, em alguma medida, ficcional.<\/p>\n<p>O aparente paradoxo da ideia de documento ficcional \u00e9 que a primeira palavra afirma uma verdade e a segunda a desmente, mas n\u00e3o anula sua proposi\u00e7\u00e3o. O documento ficcional aqui n\u00e3o deixa de ser um documento, mas sua verdade \u00e9 de outra natureza. A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um meio para orbitar em torno da verdade, essa abstra\u00e7\u00e3o que nunca poderemos conhecer de fato. Com a confec\u00e7\u00e3o deste documento ficcional, o Malayerba est\u00e1 encenando historiografia, colocando verdades em jogo a partir de elabora\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, narrando fatos para que possamos escutar essas narrativas de outra maneira \u2013 porque n\u00e3o podemos esquec\u00ea-las mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos simplesmente repeti-las.<\/p>\n<p>Neste encenar historiografia, h\u00e1 um fator determinante, uma camada de produ\u00e7\u00e3o de sentido que \u00e9 tamb\u00e9m produ\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a: os corpos de Charo e Ar\u00edstides como documentos de uma hist\u00f3ria recente, em que a autentica\u00e7\u00e3o das verdades est\u00e1 carimbada na carne da experi\u00eancia de suas hist\u00f3rias de vida. S\u00e3o corpos historiadores, express\u00e3o que tenho usado para falar do trabalho de atores que s\u00e3o narradores e testemunhas, rastros e evid\u00eancias de acontecimentos dos quais precisam falar. A condi\u00e7\u00e3o mesma de migrantes, o conhecimento profundo das narrativas de viol\u00eancias das ditaduras, a solidez da trajet\u00f3ria de mais de 30 anos de teatro, tudo isso inscreve nos seus corpos a habilidade para escrever suas hist\u00f3rias no espa\u00e7o tridimensional do teatro, com a elabora\u00e7\u00e3o po\u00e9tica necess\u00e1ria, atrav\u00e9s da oralidade, da pot\u00eancia da palavra falada no teatro.<\/p>\n<p>Sabemos que a experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de compartilhamento, que n\u00e3o somos capazes de sentir a experi\u00eancia do outro. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguimos deixar de tentar. No teatro, com a generosidade dos corpos que se d\u00e3o a falar, parece que a escuta d\u00e1 um passo adiante nesse sentido, imposs\u00edvel como abra\u00e7ar o ar.<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica:<\/strong><br \/>\n<strong>Autor:<\/strong> Ar\u00edstides Vargas<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o: <\/strong>Ar\u00edstides Vargas, Maria Del Ros\u00e1rio Franc\u00e9s e Gerson Guerra<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Maria Del Rosario Franc\u00e9s e Ar\u00edstides Vargas<br \/>\n<strong>Ilumina\u00e7\u00e3o: <\/strong>Gerson Guerra<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<\/p>\n<p><strong>*<\/strong>Cr\u00edtica escrita por Daniele Avila Small &#8211; Quest\u00e3o de Cr\u00edtica\/DocumentaCena**<br \/>\n<strong>**<\/strong>A DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia antes de assistir \u00e0 pe\u00e7a Instrucciones para abrazar el aire, participei como mediadora de um encontro entre artistas da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, no qual estava o grupo Malayerba, do Equador, com os criadores Ar\u00edstides Vargas, Charo Franc\u00e9s e Gerson Guerra. 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