{"id":15148,"date":"2015-11-06T12:49:37","date_gmt":"2015-11-06T15:49:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15148"},"modified":"2015-11-06T12:49:37","modified_gmt":"2015-11-06T15:49:37","slug":"o-fetiche-da-miseria-e-a-maldade-do-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/o-fetiche-da-miseria-e-a-maldade-do-outro\/","title":{"rendered":"O fetiche da mis\u00e9ria e a maldade do outro*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15152\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Condom\u00ednio-Nova-E-2-e1446824835784.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15152\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Condom\u00ednio-Nova-E-2-e1446824835784.jpg\" alt=\"Condom\u00ednio Nova Era. Foto: Jennifer Glass\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15152\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15152\" class=\"wp-caption-text\">Condom\u00ednio Nova Era. Foto: Jennifer Glass<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg\" alt=\"X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo\" width=\"150\" height=\"150\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15109\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-144x144.jpg 144w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-624x624.jpg 624w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-900x900.jpg 900w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Condom\u00ednio Nova Era<\/em>, pe\u00e7a do grupo A Digna Companhia, est\u00e1 na programa\u00e7\u00e3o da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo com apresenta\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o do grupo Sobrevento, talvez pequeno demais para o espet\u00e1culo criado originalmente para se apresentar em outro lugar. Na pe\u00e7a, nove atores e um m\u00fasico contam a hist\u00f3ria de um edif\u00edcio ocupado por pessoas simples, em condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis, sofrendo (em linhas gerais) com a falta d\u2019\u00e1gua, a amea\u00e7a de despejo e a aus\u00eancia de perspectivas de vida. O cen\u00e1rio \u00e9 gradualmente montado e desmontado pelos atores em diferentes parte do espa\u00e7o c\u00eanico. Os espectadores se deslocam entre uma cena e outra, o que d\u00e1 ao andamento do espet\u00e1culo uma certa monotonia. A cada troca, um esfriamento e, com mais gente na plateia do que o espa\u00e7o comporta, a possibilidade de ver a pr\u00f3xima cena de outro lugar ruim.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a se coloca como cr\u00edtica social, com uma no\u00e7\u00e3o literal de teatro pol\u00edtico, ou seja, teatro que se entende como pol\u00edtico porque trata de um tema pol\u00edtico e passa uma mensagem clara de opressores de um lado e oprimidos do outro. Mas o espet\u00e1culo \u00e9 mais midi\u00e1tico do que pol\u00edtico na medida em que apresenta as situa\u00e7\u00f5es como preto no branco, sem espa\u00e7o para nuances e complexidades, como fazem os notici\u00e1rios de TV: imagens-fetiche para tentar chocar o espectador e verdades proferidas em tom grave de verdade e den\u00fancia. Penso em imagens-fetiche como aquelas de uma visibilidade espetacular, n\u00e3o dial\u00e9tica, que quer impressionar. A imagem gravada e veiculada numa TV no cen\u00e1rio, em que um jovem delinquente cheio de raiva \u00e9 entrevistado por um rep\u00f3rter cretino que faz perguntas para estimular o garoto a dizer coisas detest\u00e1veis, que estimulam o \u00f3dio e o asco do outro, \u00e9 um exemplo de fetichiza\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rios momentos, o espet\u00e1culo assume o mesmo regime de visibilidade das imagens, quando mostra uma tentativa de identifica\u00e7\u00e3o com o sofrimento, com a mis\u00e9ria, com a pobreza. E tamb\u00e9m quando fetichiza o esfor\u00e7o do artista.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que talvez comprometa a dimens\u00e3o cr\u00edtica e pol\u00edtica da pe\u00e7a \u00e9 o fato de que o espet\u00e1culo est\u00e1 \u201cpregando para convertidos\u201d. Me parece que o p\u00fablico da pe\u00e7a \u00e9 aquele que j\u00e1 sabe que a especula\u00e7\u00e3o mobili\u00e1ria \u00e9 desumana e higienista, que a pol\u00edcia \u00e9 violenta e abusiva e trabalha a favor do capital, e que uma parte imensa da popula\u00e7\u00e3o mundial vive em condi\u00e7\u00f5es de precariedade absoluta. Quando todo mundo concorda, quando tudo j\u00e1 est\u00e1 dado, sem possibilidade de questionamento, n\u00e3o h\u00e1 debate. Sem debate, n\u00e3o h\u00e1 dimens\u00e3o cr\u00edtica. Ao espectador, s\u00f3 cabe confirmar o que j\u00e1 sabe e baixar a cabe\u00e7a para o discurso dos artistas. Isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico. A vitimiza\u00e7\u00e3o de um e a demoniza\u00e7\u00e3o do outro n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para a reflex\u00e3o. Por mais que essa polaridade fa\u00e7a sentido na vida, me parece que na arte precisamos ir al\u00e9m dos conceitos bin\u00e1rios para instaurar um espa\u00e7o de pensamento.<\/p>\n<p>A ideia mesma de deslocar os espectadores tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de fetiche, que parte de uma cren\u00e7a de que o espectador tem que estar literalmente se mexendo, sendo fisicamente tocado, sensoriamente incomodado ou atingido por alguma subst\u00e2ncia ou objeto que os artistas atiram na sua dire\u00e7\u00e3o para ser um espectador \u201cativo\u201d. Como se dar aten\u00e7\u00e3o a um espet\u00e1culo, criar imagens e desenvolver um pensamento sobre o que v\u00ea fosse de uma passividade conden\u00e1vel. No caso dessa pe\u00e7a especificamente, percebo uma pressuposi\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao espectador com a qual n\u00e3o compactuo: a de que o espectador precisa ser despertado da sua ignor\u00e2ncia. No discurso da pe\u00e7a e no tom geral da montagem, especialmente quando o diretor entra em cena e come\u00e7a a falar diretamente com o p\u00fablico sobre si mesmo e o seu pr\u00f3prio trabalho, me pareceu n\u00edtida a ideia de que os personagens e os artistas est\u00e3o em um lugar de superioridade. Pelo tom messi\u00e2nico do diretor, fica a impress\u00e3o de que ele se sente detendor de verdades que os espectadores precisam ouvir. A encena\u00e7\u00e3o da \u201centrega\u201d revela mais vaidade do que mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Em seu artigo <em>O espectador emancipado<\/em>, Jacques Ranci\u00e8re apresenta uma argumenta\u00e7\u00e3o muito coerente sobre essa no\u00e7\u00e3o de teatro como lugar simplificado da assembleia, no qual o espectador \u00e9 tratado como se estivesse numa condi\u00e7\u00e3o de menoridade. Como o espa\u00e7o do texto e o prazo de publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o curtos, n\u00e3o me detenho na refer\u00eancia, mas recomendo a leitura, que ajuda a esclarecer o que estou querendo dizer sobre essa rela\u00e7\u00e3o desigual entre artista e espectador.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil quando o teatro tenta fazer den\u00fancias no calor da hora. A urg\u00eancia da pauta da den\u00fancia n\u00e3o d\u00e1 chance para o distanciamento necess\u00e1rio para a elabora\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. A viol\u00eancia \u00e9 express\u00e3o da maldade do homem, mais que dos interesses capitalistas e das diferen\u00e7as de classe. E a maldade \u00e9 uma das coisas mais complexas que a humanidade tem que enfrentar como condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Se o mal \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da humanidade como esp\u00e9cie, represent\u00e1-lo como condi\u00e7\u00e3o do outro (um outro esterotipado) pode parecer ing\u00eanuo e auto-indulgente.<\/p>\n<div id=\"attachment_15154\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Condom\u00ednio-Nova-E-3-e1446824948227.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15154\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Condom\u00ednio-Nova-E-3-e1446824948227.jpg\" alt=\"Pe\u00e7a traz no\u00e7\u00e3o literal de teatro pol\u00edtico\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15154\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15154\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a traz no\u00e7\u00e3o literal de teatro pol\u00edtico<\/p><\/div>\n<p><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Victor N\u00f3voa<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> Rog\u00e9rio Tarifa<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Adilson Azevedo, Eduardo Mossri, Flavio Barollo, Helena Cardoso, Jonathan Silva, Liz Mantovani, Karen Menatti, Rog\u00e9rio Tarifa, Victor N\u00f3voa e Zimbher<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o musical: <\/strong>Jonathan Silva e Zimbher<br \/>\n<strong>Composi\u00e7\u00e3o da trilha original:<\/strong> Jonathan Silva, Zimbher e Flavio Barollo (m\u00fasica: Homem Falido)<br \/>\n<strong>Cenografia: <\/strong>Ana Rita Bueno e Rog\u00e9rio Tarifa<br \/>\n<strong>Instala\u00e7\u00e3o audiovisual: <\/strong>Flavio Barollo<br \/>\n<strong>Figurinos:<\/strong> Ana Rita Bueno<br \/>\n<strong>Cria\u00e7\u00e3o de luz:<\/strong> Marisa Bentivegna<br \/>\n<strong>Workshop de prepara\u00e7\u00e3o de atores: <\/strong>Ana Cristina Colla<br \/>\n<strong>Opera\u00e7\u00e3o Som e Luz:<\/strong> Igor Sane<br \/>\n<strong>Atores nos v\u00eddeos: <\/strong>(Quarto Jucilene) Bruno Maldegan e Priscila Ortel\u00e3<br \/>\n<strong>Design gr\u00e1fico:<\/strong> Vertente Design<br \/>\n<strong>Fotos:<\/strong> Al\u00e9cio<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<\/p>\n<p><strong>*<\/strong>Cr\u00edtica escrita por Daniele Avila Small &#8211; Quest\u00e3o de Cr\u00edtica\/DocumentaCena**<br \/>\n<strong>**<\/strong>A DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site Horizonte da Cena, do blog Satisfeita, Yolanda?, da Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais e do site Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Condom\u00ednio Nova Era, pe\u00e7a do grupo A Digna Companhia, est\u00e1 na programa\u00e7\u00e3o da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo com apresenta\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o do grupo Sobrevento, talvez pequeno demais para o espet\u00e1culo criado originalmente para se apresentar em outro lugar. 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