{"id":15136,"date":"2015-11-06T12:33:28","date_gmt":"2015-11-06T15:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=15136"},"modified":"2015-11-06T12:33:28","modified_gmt":"2015-11-06T15:33:28","slug":"da-lama-ao-caos-do-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/da-lama-ao-caos-do-encontro\/","title":{"rendered":"Da lama ao caos do encontro"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_15140\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-4-e1446823713217.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15140\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-4-e1446823713217.jpg\" alt=\"A cidade dos rios invis\u00edveis. Foto: Jennifer Glass\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15140\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15140\" class=\"wp-caption-text\">A cidade dos rios invis\u00edveis. Foto: Jennifer Glass<\/p><\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg\" alt=\"X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo\" width=\"150\" height=\"150\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-15109\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-144x144.jpg 144w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-624x624.jpg 624w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra-900x900.jpg 900w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Mostra.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O trajeto entre as esta\u00e7\u00f5es Br\u00e1s e Jardim Romano dura algo em torno de 40 minutos. Antes mesmo de come\u00e7ar o caminho, se voc\u00ea entrou no trem assim que ele abriu as portas, a espera \u00e9 um pouco maior: at\u00e9 quem parece enfadado depois de um dia de trabalho, desenvolve certa solidariedade por aquele que desce as escadas correndo apressado para n\u00e3o perder o transporte. Ah, at\u00e9 porque os papeis sempre podem se inverter no dia seguinte. Em tudo na vida.<br \/>\nFechadas as portas, enquanto o trem avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao extremo leste de S\u00e3o Paulo, temos tempo suficiente para nos perdemos em n\u00f3s mesmos. Os olhos vagueiam pela janela e dentro do pr\u00f3prio trem, no encontro visual com personagens an\u00f4nimos. Quanto mais longe do Centro, mais as pessoas se entregam \u00e0 exaust\u00e3o, dormem; mais as paisagens e a arquitetura mudam. As verticaliza\u00e7\u00f5es da \u201ccidade-progresso\u201d d\u00e3o espa\u00e7o a outros arranjos habitacionais, geralmente bem mais coloridos e diversos.<\/p>\n<p>Nesse percurso, ouvindo uma grava\u00e7\u00e3o no mp3 (sim, o som alto, que se instaura para a coletividade, \u00e9 proibido no trem) que incluiu o barulho do rio, textos po\u00e9ticos, reflex\u00f5es e depoimentos, come\u00e7a o espet\u00e1culo <em>A cidade dos rios invis\u00edveis<\/em>, do grupo Estop\u00f4 Balaio (De)Cria\u00e7\u00e3o, Mem\u00f3ria e Narrativa. Foram tr\u00eas sess\u00f5es dentro da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, todas marcadas pela chuva que caiu na capital nesses \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>Os criadores do grupo chegaram ao Jardim Romano no ano de 2011, pouco depois que as \u00e1guas haviam baixado. Durante quatro meses, o rio que passa por tr\u00e1s da comunidade entrou mais uma vez nas casas que ficam na parte mais baixa do bairro. Da mesma forma que, muitas vezes sem pedir licen\u00e7a, tomamos o espa\u00e7o da natureza, vez ou outra, recebemos um sinal. Talvez n\u00e3o seja nem uma resposta desaforada, mas \u00e9 assim mesmo que geralmente encaramos. O rio que invadiu e alagou as casas deixou marcas em diversos \u00e2mbitos na comunidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_15142\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-2-e1446823812254.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15142\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-2-e1446823812254.jpg\" alt=\"Montagem da Estop\u00f4 Balaio come\u00e7a na esta\u00e7\u00e3o  Br\u00e1s e vai at\u00e9 o Jardim Romano, extremo leste de S\u00e3o Paulo\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15142\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15142\" class=\"wp-caption-text\">Montagem da Estop\u00f4 Balaio come\u00e7a na esta\u00e7\u00e3o  Br\u00e1s e vai at\u00e9 o Jardim Romano, extremo leste de S\u00e3o Paulo<\/p><\/div>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as diziam que tinham visto peixes \u201cpularem\u201d no meio da enchente, jovens e adultos carregavam outras mem\u00f3rias e experi\u00eancias normalmente bem menos l\u00fadicas. Desde ent\u00e3o, tendo a comunidade como parte efetiva do grupo, o Estop\u00f4 Balaio j\u00e1 fez outros dois trabalhos a partir das viv\u00eancias no Jardim Romano. O terceiro \u00e9 justamente<em> A cidade dos rios invis\u00edveis<\/em>, que usou como uma das refer\u00eancias o livro <em>As cidades invis\u00edveis<\/em>, de \u00cdtalo Calvino.<\/p>\n<p>O movimento de travessia em dire\u00e7\u00e3o ao encontro est\u00e1 no cerne do projeto. Na itiner\u00e2ncia do Br\u00e1s ao Jardim Romano, no caminho pelas ruas e becos at\u00e9 o rio. No encontro entre os atores \u201cprofissionais\u201d e atores \u201cmoradores\u201d, entre esses e o espectador. No encontro entre a poesia e os relatos da vida cotidiana. Os atores v\u00e3o conduzindo a itiner\u00e2ncia: que, dependendo da chuva, tem at\u00e9 13 momentos, a maioria deles marcados por personagens do pr\u00f3prio bairro. Na Rua Miguel de Quadros Marinho, por exemplo, ouvimos a entrevista de Dona Jacira, nordestina, que fala sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher. Na Rua Cochonilha, o p\u00fablico se depara com inven\u00e7\u00f5es, para ver a vida de outra forma. No Beco da Rata, mais poesia. Crian\u00e7as da comunidade acompanham o percurso inteiro empolgados (at\u00e9 que algum pai ou m\u00e3e chama) e tamb\u00e9m participam da encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se as rela\u00e7\u00f5es, inclusive na arte, podem ser mais r\u00e1pidas e fortuitas, n\u00e3o foi o que aconteceu entre o Estop\u00f4 Balaio e o Jardim Romano. Isso \u00e9 muito claro para quem acompanha a apresenta\u00e7\u00e3o e faz a diferen\u00e7a completamente nesse projeto, que diz muito mais sobre respeito e empoderamento do que s\u00f3 sobre arte e teatro em si. Foi no bairro, por exemplo, que o grupo instalou sua sede, numa demonstra\u00e7\u00e3o efetiva de que o olhar estrangeiro queria ser tomado, fundido, pelo olhar local.<\/p>\n<div id=\"attachment_15144\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-3-e1446823881531.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15144\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/A-cidade-dos-rios-invis\u00edveis-3-e1446823881531.jpg\" alt=\"Atores &quot;moradores&quot; participam da encena\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-15144\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15144\" class=\"wp-caption-text\">Atores &#8220;moradores&#8221; participam da encena\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Esse talvez seja o principal m\u00e9rito desse trabalho. Ao mesmo tempo em que os atores \u201cprofissionais\u201d realmente acumulam experi\u00eancias de vida e n\u00e3o s\u00f3 simulacros e mem\u00f3rias, os atores \u201cmoradores\u201d atravessam o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria voz. Est\u00e3o todos no mesmo barco, na mesma rua de paralelep\u00edpedo, no mesmo beco enlameado que tem as paredes cobertas de poesia. Todos se influenciam, se misturam, se deixam afetar.<\/p>\n<p>\u00c9 um espet\u00e1culo tamb\u00e9m que desperta a no\u00e7\u00e3o de pertencimento, discute a cidade que queremos, a vida que desejamos levar, os sonhos pelos quais lutamos. Se durante muito tempo na comunidade, era o rio quem vinha ao encontro dos moradores, impondo como eles mesmo dizem, os tempos da \u00e1gua, da lama e do p\u00f3, agora somos n\u00f3s que vamos ao rio, num movimento n\u00e3o s\u00f3 de autocompreens\u00e3o, mas de tentativa de di\u00e1logo com o mundo no qual estamos inseridos.<\/p>\n<p><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><br \/>\n<strong>Ideia original, roteiro e dire\u00e7\u00e3o: <\/strong>Jo\u00e3o J\u00fanior<br \/>\n<strong>Dramaturgia:<\/strong> Estop\u00f4 Balaio<br \/>\n<strong>Atores:<\/strong> Ana Carolina Marinho, Ju\u00e3o Nin, Johnny Salaberg e Renato Caetano<br \/>\n<strong>Atores-moradores:<\/strong> Adrielle Rezende, Bruno Cavalcante, Bruno Fuziwara, Keli Andrade e Paulo Oliveira<br \/>\n<strong>Participa\u00e7\u00e3o:<\/strong> Emerson Alcade<br \/>\n<strong>Trilha Sonora:<\/strong> Marko Conc\u00e1<br \/>\n<strong>Sonoplastia:<\/strong> Carol Guimaris e Doutor Aeiuton<br \/>\n<strong>Poesias:<\/strong> Debora Fi\u00faza \u201cRata\u201d, Emerson Alcade e Jacira Flores<br \/>\n<strong>Can\u00e7\u00f5es:<\/strong> Diane Oliveira, Dustin Mc e Matheus Farias, Ju\u00e3o Nin, Marko Conc\u00e1<br \/>\n<strong>Figurino:<\/strong> Jo\u00e3o J\u00fanior<br \/>\n<strong>Artes Visuais:<\/strong> Paula Mendes, Renato Caetano e Clayton Lima<br \/>\n<strong>Dan\u00e7a de Rua:<\/strong> Kel Look, Popper Diniz, Jeans, Bia Ferreira, Big Baby e Mell Reis<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Wemerson Nunes, Clayton Lima e Ana Maria Marinho<br \/>\n<strong>Comunica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Ramilla Souza<\/p>\n<div id=\"attachment_15145\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Estop\u00f4-e1446823943432.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-15145\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Estop\u00f4-e1446823943432.jpg\" alt=\"Montagem terminou sob chuva forte, no rio. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o facebook\/Estop\u00f4 Balaio\" width=\"600\" height=\"337\" class=\"size-full wp-image-15145\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15145\" class=\"wp-caption-text\">Montagem terminou sob chuva forte. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o facebook\/Estop\u00f4 Balaio<\/p><\/div>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong>A cobertura cr\u00edtica da X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o da DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica, que articula ideias e a\u00e7\u00f5es do site <em>Horizonte da Cena<\/em>, do blog <em>Satisfeita, Yolanda?<\/em>, da <em>Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais<\/em> e do site <em>Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena<\/em>. Esses espa\u00e7os digitais reflexivos e singulares foram consolidados por jornalistas, cr\u00edticos ou pesquisadores atuantes em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. A DocumentaCena realizou cobertura da Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, a MITsp (2014 e 2015); do Cena Contempor\u00e2nea \u2013 Festival Internacional de Teatro de Bras\u00edlia (2014 e 2015); da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em S\u00e3o Paulo (2014); e do Festival de Cenas Curtas do Galp\u00e3o Cine Horto, em Belo Horizonte (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trajeto entre as esta\u00e7\u00f5es Br\u00e1s e Jardim Romano dura algo em torno de 40 minutos. 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