{"id":1491,"date":"2011-03-25T16:37:09","date_gmt":"2011-03-25T19:37:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=1491"},"modified":"2011-03-25T16:37:09","modified_gmt":"2011-03-25T19:37:09","slug":"circo-social-em-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/circo-social-em-livro\/","title":{"rendered":"Circo social em livro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Meira<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_1492\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/o_vendedor_de_caranguejo_jorgeclesio1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1492\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/o_vendedor_de_caranguejo_jorgeclesio1.jpg\" alt=\"\" title=\"O vendedor de caranguejo\" width=\"292\" height=\"450\" class=\"size-full wp-image-1492\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/o_vendedor_de_caranguejo_jorgeclesio1.jpg 292w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/o_vendedor_de_caranguejo_jorgeclesio1-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 292px) 100vw, 292px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1492\" class=\"wp-caption-text\">Montagem O vendedor de caranguejo \/ Foto: Jorge Cl\u00e9sio<\/p><\/div>\n<p>Corria o ano de 2002 e a equipe dos canadenses do Cirque du Soleil estava em Pernambuco e buscava um espa\u00e7o para ministrar uma oficina com os integrantes da Escola Pernambucana de Circo (EPC). Conseguiu fazer o curso com os monitores da ONG no Sesc Piedade, onde j\u00e1 trabalhava o ator e diretor de teatro Rudimar Const\u00e2ncio. &#8220;Desci para ver o trabalho e fiquei encantado&#8221;, recorda Rudimar, que lan\u00e7a hoje o livro <em>Circo social: A experi\u00eancia da Escola Pernambucana de Circo<\/em>, na Esta\u00e7\u00e3o Cultural Senador Jos\u00e9 Erm\u00edrio de Moraes, em Piedade.<\/p>\n<p>Fruto do curso de especializa\u00e7\u00e3o no Ensino de Artes da Universidade Federal de Pernambuco, a pesquisa foi realizada por Rudimar Const\u00e2ncio em 2005 e recebeu atualiza\u00e7\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o, com patroc\u00ednio do Funcultura (de quase R$ 30 mil). A constru\u00e7\u00e3o da nova sede da Escola, constru\u00edda com a ajuda da Oxfam, na Vila do Buriti, na Macaxeira, h\u00e1 tr\u00eas anos, foi acrescentada ao estudo, inclusive com imagens. O professor Marco Camarotti chegou aser convidado para orientar a pesquisa, mas veio a falecer. A tarefa coube a Jo\u00e3o Denys Ara\u00fajo, que assina o pref\u00e1cio do livro.<\/p>\n<p>Ilustrado com fotografias de espet\u00e1culos da EPC e com diagrama\u00e7\u00e3o colorida de Claudio Lira, a publica\u00e7\u00e3o registra a trajet\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o, mas seu maior m\u00e9rito \u00e9 ir al\u00e9m de contar a hist\u00f3ria e elencar espet\u00e1culos e a\u00e7\u00f5es culturais. &#8220;O mais importante foi fazer o embate entre as opini\u00f5es dos integrantes da escola, pois distribu\u00edmos question\u00e1rios para alunos, monitores e funcion\u00e1rios&#8221;, conta o autor. &#8220;O que me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o aprimoramento t\u00e9cnico. Eles n\u00e3o se dizem profissionais, mas t\u00eam ensaios di\u00e1rios, ganham cach\u00ea e buscam o apuro est\u00e9tico. Al\u00e9m de serem muito transparentes com as informa\u00e7\u00f5es, terem uma gest\u00e3o compartilhada&#8221;, ressalta Rudimar.<\/p>\n<p>Para F\u00e1tima Pontes, coordenadora da ONG, que entrou na EPC dois anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da escola, era um sonho antigo registrar a trajet\u00f3ria deles. Mas faltava um pesquisador que analisasse o processo pedag\u00f3gico do circo-educa\u00e7\u00e3o e se dispusesse a conferir se os jovens atendidos pela ONG conseguiram ou n\u00e3o sair da situa\u00e7\u00e3o de risco social. &#8220;Buscamos a constru\u00e7\u00e3o de uma nova vis\u00e3o da arte circense. \u00c9 maravilhosa esta visbilidade alcan\u00e7ada pelo livro, que mostra que temos coisas boas e tamb\u00e9m problemas a sanar&#8221;, admite F\u00e1tima Pontes.<\/p>\n<p>Ela destaca que atualmente s\u00e3o 20 integrantes na Trupe Circus, o bra\u00e7o art\u00edstico da ONG, e mais 80 alunos, entre crian\u00e7as e adolescentes, na escola, recebendo aulas de m\u00fasica, teatro, dan\u00e7a e circo. Hoje, eles ensaiam um novo espet\u00e1culo, <em>C\u00edrculos que n\u00e3o se fecham<\/em>, sobre a viol\u00eancia na juventude, e marcado para estrear em maio. Mas todas as produ\u00e7\u00f5es da EPC, a exemplo de <em>O vendedor de caranguejo<\/em>, <em>Presepadas ou Ilus\u00e3o &#8211; Um ensaio melodram\u00e1tico circense<\/em>, est\u00e3o elencadas no livro. <\/p>\n<div id=\"attachment_1493\" style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/rudimar_constancio_rodrigomoreira.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1493\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/rudimar_constancio_rodrigomoreira.jpg\" alt=\"\" title=\"Rudimar Const\u00e2ncio\" width=\"330\" height=\"282\" class=\"size-full wp-image-1493\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/rudimar_constancio_rodrigomoreira.jpg 330w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/rudimar_constancio_rodrigomoreira-300x256.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1493\" class=\"wp-caption-text\">Rudimar Const\u00e2ncio, o autor. Foto: Rodrigo Moreira<\/p><\/div>\n<p><strong>Palha\u00e7os sabem fazer m\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p>Logo na entrada do casar\u00e3o \u00e0 beira-mar, em Piedade, o p\u00fablico ser\u00e1 recebido pela Trupe Circus, da Escola Pernambucana, com n\u00fameros de pirofagia, malabares, equilibrismo em perna de pau. Em seguida, \u00e0s 19h, os doze palha\u00e7os do elenco da ONG Doutores da Alegria Recife utilizam seus dotes de cantores e instrumentistas para fazer rir no espet\u00e1culo <em>Palha\u00e7os em conSerto<\/em>.<\/p>\n<p>Terceira produ\u00e7\u00e3o teatral dos Doutores da Alegria na capital pernambucana (onde fizeram sucesso com Poemas esparadr\u00e1picos), <em>Palha\u00e7os em conSerto<\/em> \u00e9 permeado por gags divertidas e dividido em tr\u00eas  &#8220;atos&#8221;. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Fernando Escrich, com dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Enne Marx. Com alegria e muito bom humor, eles partem das situa\u00e7\u00f5es c\u00eanicas improvisadas nas visitas hospitalares, para chegar a can\u00e7\u00f5es criadas pelo elenco e outras de dom\u00ednio p\u00fablico, al\u00e9m de vers\u00f5es da bossa nova. Para fechar com chave de ouro a noite do lan\u00e7amento, a cantora Allexa Vieira faz show, defendendo o samba de raiz. <\/p>\n<div id=\"attachment_1494\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/palhacos_em_conserto_foto_luciana_dantas.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1494\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/palhacos_em_conserto_foto_luciana_dantas.jpg\" alt=\"\" title=\"Palha\u00e7os em conserto\" width=\"487\" height=\"333\" class=\"size-full wp-image-1494\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/palhacos_em_conserto_foto_luciana_dantas.jpg 487w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/palhacos_em_conserto_foto_luciana_dantas-300x205.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 487px) 100vw, 487px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1494\" class=\"wp-caption-text\">Palha\u00e7os em conserto, uma das atra\u00e7\u00f5es da noite. Foto: Luciana Dantas<\/p><\/div>\n<p><strong><strong>Os Riscos da Beleza <\/strong><br \/>\nApresenta\u00e7\u00e3o de <em>Circo social: A experi\u00eancia da Escola Pernambucana de Circo<\/em>, por Jo\u00e3o Denys<\/strong><\/p>\n<p>Nesta primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI tenho tido o prazer de escrever pref\u00e1cios a ensaios relevantes que t\u00eam arejado com vigor uma \u00e1rea de publica\u00e7\u00e3o at\u00e9 bem pouco tempo escassa em Pernambuco, resultante de pesquisas acad\u00eamicas sobre a arte, mais especificamente sobre o teatro e suas ramifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, hist\u00f3ricas e pedag\u00f3gicas.O prazer agora \u00e9 redobrado, quando tenho de revisitar o rico trabalho de Rudimar Const\u00e2ncio que tive a sorte de orientar no Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Ensino de Artes, da Universidade Federal de Pernambuco. Aqui, os leitores tomar\u00e3o contato com uma obra cuja seriedade e honestidade me impressionam e espero impressionem cada receptor interessado em conhecer a experi\u00eancia \u00edmpar da Escola Pernambucana de Circo, seus prop\u00f3sitos art\u00edsticos, formativos e sociais.Seguro o volume dos originais em minhas m\u00e3os e sinto o peso da responsabilidade e do compromisso do autor com a produ\u00e7\u00e3o, ordena\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. Rudimar faz parte desta pl\u00eaiade de criaturas m\u00faltiplas e ecl\u00e9ticas que conseguem realizar com qualidade, mesmo dividido em in\u00fameras atividades de natureza distinta.<\/p>\n<p>Folheio, relendo a obra, e observo que o pesquisador n\u00e3o se ateve a publicar o resultado de sua monografia. Ele n\u00e3o a deixou adormecida na gaveta \u00e0 espera da oportunidade para transform\u00e1-la em livro. Pelo contr\u00e1rio, percebo com entusiasmo que ele esteve durante mais de cinco anos burilando e enriquecendo seu material, pondo-o em movimento. Durante este tempo o pesquisador atento atualizou o trabalho, seguiu os novos caminhos trilhados pela Escola, ampliou a documenta\u00e7\u00e3o, incorporou um amplo dossi\u00ea sobre seu objeto de estudo.At\u00e9 aqui os leitores j\u00e1 chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que este pref\u00e1cio, como a maioria dos pref\u00e1cios, \u00e9 redundante, antecipa e louva o que se vai encontrar no bojo da obra, logo pode ser dispensado. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Embora eu mesmo e muitos leitores n\u00e3o vejamos muita serventia nos pref\u00e1cios, este pretende n\u00e3o apenas convid\u00e1-los \u00e0 leitura, mas dar um testemunho sobre o que trata Circo social: a experi\u00eancia da Escola Pernambucana de Circo.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 se falou sobre o circo, sobre o ensino das artes c\u00eanicas, sobre os aspectos ben\u00e9ficos da arte \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o fraterna do ser humano. Hoje, cada vez mais, acentuam-se os efeitos terap\u00eauticos do riso, da leitura, da performance do clown, do canto, da m\u00fasica, da dan\u00e7a, da representa\u00e7\u00e3o. As artes formam artistas, acionam as zonas de prazer, acalantam, alimentam, auxiliam no desenvolvimento psicomotor, ajudam nos processos de ensino-aprendizagem, contribuem na forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o, beneficiam tanto quem produz quanto quem usufrui. No entanto, poucas artes, ou nenhuma delas, se igualam ao circo, no que diz respeito \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica no laborat\u00f3rio de vida e sociedade em tr\u00e2nsito que o constitui. N\u00e3o h\u00e1 escola viva que pedagogicamente ponha em risco a pr\u00f3pria vida em favor da vida, do prazer, da alegria, das l\u00e1grimas, do terror, da compaix\u00e3o e da beleza. As artes do circo e suas viv\u00eancias comunit\u00e1rias, de profunda interdepend\u00eancia humana, exigem do aprendiz uma entrega total para a t\u00e9cnica e para o outro, num processo de \u00e1rdua constru\u00e7\u00e3o disciplinar e rigoroso treinamento psicof\u00edsico para, nos extremos de uma forma\u00e7\u00e3o que nunca finda, gerar leveza e poesia.O ensino da arte que se quer integral e politicamente respons\u00e1vel dificilmente atingir\u00e1 plenamente seus objetivos fora dessa roda e desse moinho movidos e semoventes que denominamos circo. O circo \u00e9 uma sociedade de labor diuturno; uma sociedade de sonho e fantasia constru\u00eddos com a energia dos ossos, dos m\u00fasculos, das peles e da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 um conjunto fraterno de diferen\u00e7as; uma Babel de canais comunicantes acionados com a elasticidade muscular e ideacional, com o equil\u00edbrio precar\u00edssimo de tudo, com a for\u00e7a f\u00edsica e criativa, com a comunh\u00e3o real entre picadeiro e plateia.<\/p>\n<p>A express\u00e3o tautol\u00f3gica circo social designa na atualidade a atividade circense que almeja contribuir com o restauro da cidadania de jovens postos em situa\u00e7\u00e3o de risco pelas elites econ\u00f4micas, art\u00edsticas, espirituais, intelectuais e cient\u00edficas tanto do Brasil, quanto de outros pa\u00edses corro\u00eddos por mazelas sociais. Este circo joga pedagogicamente com a invers\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es de risco. O risco m\u00f3rbido, negativo, pr\u00f3prio das pervers\u00f5es da viol\u00eancia, das sombras da criminalidade, das sendas tortuosas das drogas, das margens das margens, do despeda\u00e7amento dos valores, isto \u00e9, o risco, semente e fruto das desigualdades sociais e matan\u00e7as m\u00fatuas, \u00e9 substitu\u00eddo por outros riscos: o risco reluzente da dan\u00e7a perigosa, exaustivamente preparada; o risco de ouro dos saltos mortais; o risco em bloco das pir\u00e2mides de seres entusiasmados; o risco fulgurante das quedas, das acrobacias, dos volteios, dos malabares, dos v\u00f4os dos corpos em estado de gra\u00e7a, dos maneios das figuras em permanente estado de riso; os riscos da beleza. Nenhuma arte c\u00eanica exp\u00f5e com t\u00e3o exata precis\u00e3o os poderes do corpo criativo a plateias inebriadas e transfiguradas em crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Para escrever este pref\u00e1cio, o circo me chamou, Charles Chaplin me chamou, Ingmar Bergman me chamou, O maior espet\u00e1culo da terra me chamou, Fellini me chamou, o Circo Portugal me chamou, na minha t\u00f3rrida terra natal, exatamente entre o Natal e a novidade deste 2011, sem que eu pedisse, para renovar, como a leitura que agora empreendo desta pesquisa, a emo\u00e7\u00e3o do globo da morte; para n\u00e3o conter as l\u00e1grimas \u00e0 entrada triunfal dos artistas; para constatar que o descuido, a desaten\u00e7\u00e3o, o equ\u00edvoco, a condescend\u00eancia n\u00e3o t\u00eam lugar nessa gal\u00e1xia de arte e luta fraterna. N\u00e3o quero, contudo, fazer do circo um espa\u00e7o paradis\u00edaco, de amor e conc\u00f3rdia, como poder\u00e1 parecer este meu discurso. Longe de mim tal idealiza\u00e7\u00e3o. O que enfatizo s\u00e3o os poderes de realiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica em situa\u00e7\u00e3o de risco que \u00e9 a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o circense. Nessa comunidade, no cotidiano do espet\u00e1culo ou fora dele, qualquer descuido \u00e9 a finitude se fazendo sem retorno.<\/p>\n<p>O circo, como o perfume, nos for\u00e7a a lembran\u00e7a, a rememora\u00e7\u00e3o de um tempo irresgat\u00e1vel, mas latente. O circo faz girar inversamente o motor de nossas idades. Sua lona celeste salpicada de estrelas nos conduz para o tempo morto que se faz vida. Foi no circo que vi meu primeiro drama, meu primeiro espet\u00e1culo teatral com efeitos cenogr\u00e1ficos inesquec\u00edveis e que, indel\u00e9veis, permanecem at\u00e9 o presente em meu esp\u00edrito criador. O aperto de terror que hoje imagino os primevos espectadores experimentavam ante a trag\u00e9dia, creio ter sido semelhante ao que senti no circo de minha inf\u00e2ncia. E que menino ou menina n\u00e3o sentiu esse pavor que atrai? Federico Fellini refere-se ao id\u00eantico sentimento, quando, aos dez anos, foge de casa e se junta ao Circo Pierino. Essa capacidade que tem o circo de influenciar e acompanhar a vida de artistas, segundo o autor de I clowns (1970), a despeito de toda a literatura sobre a atividade circense, deve-se ao seu poder de se repropor<\/p>\n<p>como um n\u00facleo precioso, uma dimens\u00e3o, um clima aut\u00eantico, que n\u00e3o se pode arquivar nem enterrar porque esse modo de viver e representar cont\u00e9m de forma exemplar alguns mitos eternos: a aventura, a viagem, o risco, a amea\u00e7a, a velocidade, o aparecer ante as luzes&#8230; e tamb\u00e9m o aspecto mais mortificante, que sempre se repete, da gente que vem te ver e te obriga a exibir-te. \u00c9 um exame monstruoso por parte dos outros, que t\u00eam esse direito, biol\u00f3gico, racial, quando v\u00eam para dizer: Bem, estou aqui, me faz rir, emociona, faz chorar.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m desses mitos e &#8220;iscas&#8221; para os adolescentes de sempre, retorno \u00e0 noite recente, debaixo das luzes do Circo Portugal, onde, boquiaberto, preparava-me para escrever esta resposta ao trabalho produzido por um professor artista. A cada n\u00famero, a cada entrada de m\u00fasica e luz, me vieram \u00e0 mente os conte\u00fados concretos ou ingredientes que edificam o artista e o cidad\u00e3o: uni\u00e3o, responsabilidade, compromisso, fraternidade, precis\u00e3o, confian\u00e7a. Enquanto nas outras artes esses ingredientes muitas vezes podem apenas fazer parte de um discurso e at\u00e9 mesmo constitu\u00edrem-se em categorias abstratas, no circo eles se exibem em toda a sua concretude. N\u00e3o h\u00e1 lugar para a ret\u00f3rica da responsabilidade, nem da confian\u00e7a, nem da f\u00e9. A f\u00e9 est\u00e1 l\u00e1, laborando, sendo experimentada de corpo e alma \u00e0s nossas vistas, aos nossos pulsos.<\/p>\n<p>Quando jovens, meninas e meninos, mo\u00e7os e velhos experimentam o encontro dram\u00e1tico do picadeiro, aquele &#8220;exame monstruoso&#8221;, de que fala Fellini; quando experimentam as correrias, os enganos, as quedas, as pauladas; quando dominam os espa\u00e7os do solo e do ar; quando conquistam o equil\u00edbrio e a velocidade de reflexos cerebrais, quando domam a adrenalina, executam as dan\u00e7as mortais \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o poder\u00e3o executar o curioso projeto de que fala Jean Genet, quando escreve O fun\u00e2mbulo: &#8220;sonhar-se, tornar sens\u00edvel este sonho que novamente se tornar\u00e1 sonho em outras cabe\u00e7as!&#8221; \u00c9 a conjuga\u00e7\u00e3o de dezenas de bra\u00e7os, olhos e mentes que propicia um \u00e1timo de beleza. Tudo tem de ser preciso: o atirar facas, o engolir fogo, o desaparecer no espelho, o sumir no vazio, o despencar dos panos multicores, o atravessar c\u00edrculos fumegantes. Ro\u00e7ar a morte faz parte dessa homenagem \u00e0 vida, dessa aprendizagem do mundo real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio. \u00c9 essa a dramaturgia do circo em toda a sua crueldade. A exatid\u00e3o de cada n\u00famero\u00e9 o que forma e enforma sua beleza. O circo \u00e9, &#8220;junto com a poesia, a guerra, a tourada, um dos \u00fanicos jogos cru\u00e9is que subsistem&#8221;.<\/p>\n<p>No circo, experimenta-se, portanto, uma educa\u00e7\u00e3o plena de m\u00e1xima exig\u00eancia. O circo exige mais que a vida e exigem dele ainda mais. O circense, do mais humilde trabalhador ao que domina a t\u00e9cnica mais apurada, n\u00e3o escapa \u00e0 exig\u00eancia de consumar-se num brilho que atrai e se refaz a cada treinamento, a cada supera\u00e7\u00e3o de limites, a cada novo espet\u00e1culo.O improviso, t\u00e3o presente no circo, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pelo dom\u00ednio das t\u00e9cnicas. O improviso n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso, mas consequ\u00eancia do conhecimento. Eis outra grande virtude dos que se arriscam nessa arte de todos os riscos. A efici\u00eancia tem de ser absoluta.Educar com e pelo circo \u00e9 exercer a pedagogia da magia; \u00e9 a pr\u00e1tica laboratorial da confian\u00e7a cabal. Confian\u00e7a na pr\u00e1tica, equil\u00edbrio na pr\u00e1tica, for\u00e7a na pr\u00e1tica, concentra\u00e7\u00e3o real, foco e agilidade reais.<\/p>\n<p>O circo promove o aprendizado concreto das responsabilidades psicof\u00edsicas de cada um consigo pr\u00f3prio e de cada um com o outro na produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica viva. Esta \u00e9tica e esta est\u00e9tica s\u00e3o inconcili\u00e1veis no mundo em que vivemos. Por\u00e9m, o treinamento no mundo do circo pode influenciar uma transfigura\u00e7\u00e3o das atitudes individuais e das rela\u00e7\u00f5es humanas fora do universo circense. Por isso enfatizo tanto seus poderes.Genet, no exuberante poema dedicado \u00e0 arte do circense, compara o circo a um monstro e \u00e9 nesse monstro de outras eras em que o artista consegue, mesmo que por segundos, rivalizar com os astros do firmamento. Talvez nesse instante de cintila\u00e7\u00e3o resida a chave pedag\u00f3gica e ontol\u00f3gica do fen\u00f4meno circo-mundo. Diz ele:<\/p>\n<p>Um imenso animal, ressuscitado das \u00e9pocas diluvianas, pousa pesadamente nas cidades: a gente entra, e o monstro est\u00e1 cheio de maravilhas mec\u00e2nicas e cru\u00e9is: amazonas, palha\u00e7os, le\u00f5es com seu domador, um prestidigitador, um malabarista, trapezistas alem\u00e3s, um cavalo que fala e conta, e voc\u00ea.Voc\u00eas s\u00e3o os restos de uma era fabulosa. Voc\u00eas v\u00eam de muito longe. Seus antepassados comiam vidro mo\u00eddo, fogo, encantavam serpentes, pombas, faziam malabarismos com ovos, faziam tagarelar um conc\u00edlio de cavalos. [&#8230;]L\u00e1 fora, o barulho dissonante, a desordem; dentro, a certeza geneal\u00f3gica que vem dos mil\u00eanios, a seguran\u00e7a de se saber preso numa esp\u00e9cie de f\u00e1brica onde se forjam os jogos precisos que servem a exposi\u00e7\u00e3o solene de voc\u00eas mesmos, aqueles que preparam a Festa. Voc\u00eas s\u00f3 vivem para a Festa. N\u00e3o para aquela que, mediante pagamento, os pais e as m\u00e3es de fam\u00edlia proporcionam a si pr\u00f3prios. Falo da celebridade de voc\u00eas por alguns minutos. Obscuramente, nos flancos do monstro, voc\u00eas compreenderam que cada um de n\u00f3s deve tender a isto: tentar aparecer diante de si pr\u00f3prio em sua apoteose. \u00c9 em voc\u00ea mesmo, enfim, que durante alguns minutos o espet\u00e1culo te transforma. Teu breve t\u00famulo nos ilumina. Voc\u00ea est\u00e1 trancado nele mas, ao mesmo tempo, tua imagem n\u00e3o p\u00e1ra de fugir dali. A maravilha seria voc\u00eas terem o poder de se fixarem assim, ao mesmo tempo no picadeiro e no c\u00e9u sob a forma de constela\u00e7\u00e3o. Este privil\u00e9gio \u00e9 reservado a poucos her\u00f3is.Mas, por dez segundos &#8211; \u00e9 pouco? &#8211; voc\u00eas cintilam.<\/p>\n<p>No faz-de-conta do circo, paradoxalmente, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o faz-de-conta. Como nos perigos da vida, tudo est\u00e1 em jogo. O adolescente, habituado \u00e0 dureza desses perigos, encontra nas t\u00e9cnicas circenses o desafio bonito para escoar seu excesso de energia. Depara-se com o limite de sua for\u00e7a e de seu equil\u00edbrio. Canaliza e des\u00e1gua sua agressividade em expans\u00e3o criativa e sente a vibra\u00e7\u00e3o calorosa que emana dos aplausos. Conduzido com orienta\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel e autoridade pedag\u00f3gica, o aprendiz integra-se criticamente \u00e0 vida e \u00e0 comunidade, percebe-se estrela a se construir em cada novo luzir. Transmuta o negativo em positivo. Podem ser arautos e multiplicadores de sonhos e aptid\u00f5es. Fellini nos lembra que os clowns foram aqueles que anunciaram seu futuro de artista: &#8220;esses personagens grotescos e aberrantes, b\u00eabados, em farrapos e desconjuntados, na sua irracionalidade, na sua viol\u00eancia, em seus caprichos esquisitos, foram uma apari\u00e7\u00e3o em minha inf\u00e2ncia, uma profecia, a antecipa\u00e7\u00e3o da minha voca\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Para os jovens n\u00e3o s\u00f3 do Brasil, mas do mundo todo, que se iniciam na vida circense a escolha pela arte dos clowns \u00e9 uma das mais salutares. O clown \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o do rude, do torpe. \u00c9 o figural art\u00edstico cujo referente est\u00e1 l\u00e1 no meio mais pobre, nas vielas das grandes cidades, nas pra\u00e7as, na sarjeta. Mas, tamb\u00e9m, nos brinquedos populares, na arte do povo. Apropriar-se da t\u00e9cnica do palha\u00e7o ou do clown (h\u00e1 diferen\u00e7as entre eles) significa dar o salto mortal contra a mis\u00e9ria por meio da gargalhada. A irracionalidade da galhofa, a rebeldia contestat\u00f3ria do palha\u00e7o conduz o aprendiz \u00e0s poss\u00edveis pr\u00e1ticas sociais de conv\u00edvio sadio e de auto-estima. &#8220;Ser clown \u00e9 bom para a sa\u00fade&#8221;, dizia o velho clown Bario, em depoimento a Fellini. Bario exortava o Estado para abrir escolas de clowns:<\/p>\n<p>Em cada clown h\u00e1 um acrobata. Se n\u00e3o \u00e9s um acrobata, n\u00e3o cais direito, e uma boa queda faz rir at\u00e9 hoje. Sem recursos \u00e9 claro que&#8230; Mas o Estado devia pensar nisso e abri uma escola de clowns. Sem limites de idade, que quando algu\u00e9m tem voca\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos quarenta pode come\u00e7ar, pode se tornar um clown. At\u00e9 um engenheiro, por assim dizer, se tiver queda, pode ser clown, ou professores, m\u00e9dicos, advogados. Seriam \u00f3timos.<\/p>\n<p>Creio, a esta altura, ser desnecess\u00e1rio insistir na efic\u00e1cia educativa do circo, na import\u00e2ncia deste livro, na minha paix\u00e3o pelas artes c\u00eanicas e pela pedagogia da arte. Quero, no entanto, para concluir, lembrar do meu mais recente encontro com o circo aqui referenciado: terminado o espet\u00e1culo, sa\u00ed lentamente, como se algo me prendesse ao espa\u00e7o; sa\u00ed leve como quem sai de um templo. No entorno deste animal, como diz Genet, preso ao ch\u00e3o por cordas, ganchos, mastros e cabos de a\u00e7o, deparo-me com uma artista em trajes dom\u00e9sticos, sem mais o brilho e a dimens\u00e3o que h\u00e1 pouco vira no palco, saindo do seu trailer com um pequeno regador aguando seu jardim ambulante sob o c\u00e9u profundo dos Currais Novos. Que coisa mais bonita, meu Deus! Fiquei paralisado diante de outro espet\u00e1culo. Por\u00e9m, ele parecia invis\u00edvel aos transeuntes. Que beleza! Carregar um jardim sob o sol inclemente de tantos sert\u00f5es e mant\u00ea-lo vivo em todas as pra\u00e7as. Quis ensinar logo este ato generoso que testemunhei: uma escola de circo \u00e9 como um jardim que se rega e carrega debaixo do bra\u00e7o, suspenso nas janelas dos vag\u00f5es, em curso.<\/p>\n<p>Eis porque meu pref\u00e1cio faz menos prefaciar que testemunhar e dialogar com o firme e determinado trabalho de Rudimar Const\u00e2ncio, que voc\u00ea, leitor, certamente ter\u00e1 a alegria de conhecer. Oxal\u00e1 este livro conduza seus leitores a incentivar a Escola Pernambucana de Circo; dirija muitos aos espet\u00e1culos da Trupe Circus; favore\u00e7a o florescimento de novas escolas circenses, transporte a cidade ao circo e aos riscos da beleza.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Denys Ara\u00fajo Leite<br \/>\nRecife, Madalena, janeiro de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Meira Corria o ano de 2002 e a equipe dos canadenses do Cirque du Soleil estava em Pernambuco e buscava um espa\u00e7o para ministrar uma oficina com os integrantes da Escola Pernambucana de Circo (EPC). 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