{"id":14472,"date":"2015-07-28T23:57:37","date_gmt":"2015-07-29T02:57:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=14472"},"modified":"2015-10-28T02:51:30","modified_gmt":"2015-10-28T05:51:30","slug":"sistema-25-experiencias-na-zona-de-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/sistema-25-experiencias-na-zona-de-risco\/","title":{"rendered":"Sistema 25: Experi\u00eancias na zona de risco"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_14479\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_07_fT-CamilaSergio-e1438117052163.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14479\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14479\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_07_fT-CamilaSergio-e1438117052163.jpg\" alt=\"Vinte e cinco homens espremidos num cub\u00edculo imundo onde mal caberiam oito \u00e9 mote do espet\u00e1culo Sistema 25 . Foto: Camila S\u00e9rgio\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14479\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a mostra 25 homens espremidos num cub\u00edculo imundo onde mal caberiam oito. Foto: Camila S\u00e9rgio<\/p><\/div>\n<p>A atmosfera \u00e9 de opress\u00e3o. Ar denso, sufocante por tudo que o p\u00fablico vai ver ali. Um lugar pequeno demais para caber 25. Mas eles est\u00e3o l\u00e1, se espremendo, definhando, sendo apagados naquele cub\u00edculo. De t\u00e3o juntos perdem a individualidade. Pris\u00e3o. Prisioneiros que exigem dos seus observadores um posicionamento pol\u00edtico e social. Que talvez n\u00e3o venha.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo <em>Sistema 25<\/em> entra na sua quarta temporada. As duas primeiras sess\u00f5es foram no Teatro Marco Camarotti. A terceira, e essa tamb\u00e9m, no Espa\u00e7o Experimental (na Rua Tomazina). Cada apresenta\u00e7\u00e3o para 25 espectadores. Todas lotadas.<\/p>\n<p><em>Sistema 25<\/em> n\u00e3o \u00e9 um espet\u00e1culo realista. Trata de pris\u00f5es e agrupa 25 homens. Na primeira camada est\u00e3o os detentos, criaturas que em condi\u00e7\u00f5es indignas perderam a humanidade. Mas h\u00e1 de todo tipo, como nas cadeias aviltantes pelo pa\u00eds afora. L\u00e1 s\u00e3o criadas regras, h\u00e1bitos, rituais, e uma luta medonha pelo poder. Ou para poder sobreviver.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas outras camadas, de afeto, de prote\u00e7\u00e3o, de medo, de lealdade, de cumplicidade. Mas vale tudo. Tamb\u00e9m a engana\u00e7\u00e3o. As partituras de a\u00e7\u00e3o foram constru\u00eddas pelos atores-dramaturgos-narradores, sob a batuta do encenador Jos\u00e9 Manoel Sobrinho. Todo o processo come\u00e7ou h\u00e1 mais de um ano. E continua. Nesse procedimento cont\u00ednuo de cria\u00e7\u00e3o esses presos se digladiam e confessam suas culpas, hist\u00f3rias de toda ordem.<\/p>\n<p>A montagem foi erguida movida pela paix\u00e3o dos atores e a milit\u00e2ncia do diretor Jos\u00e9 Manoel. <em>Sistema 25<\/em>, apesar da complexidade da cena, do n\u00famero de artistas e t\u00e9cnicos envolvidos, n\u00e3o tem patroc\u00ednio. \u00c9 um teatro de resist\u00eancia puro sangue. \u201cFa\u00e7o porque acredito na forma da arte para a minha vida e de v\u00e1rios outros\u201d, confessa Jos\u00e9 Manoel. Confira abaixo entrevista do diretor e um pequeno depoimento de um dos atores.<\/p>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\n<em>Sistema 25<\/em><br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> 31 de julho, 1\u00ba e 2 de agosto, \u00e0s 20h <span style=\"color: #ff0000;\">(<strong>ESGOTADO<\/strong>)<\/span><br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro Experimental<\/p>\n<h2><span style=\"color: #993300;\">Entrevista: Jos\u00e9 Manoel Sobrinho<\/span><\/h2>\n<div id=\"attachment_14474\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11143250_10206784613441029_6915701398340627278_o-1-e1438093855947.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14474\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14474\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11143250_10206784613441029_6915701398340627278_o-1-e1438093855947.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, encenador, professor de teatro e gestor\" width=\"600\" height=\"444\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14474\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, encenador, professor de teatro e gestor<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea sempre teve interesse de falar dos exclu\u00eddos. Voc\u00ea desenvolveu h\u00e1 d\u00e9cadas atr\u00e1s um trabalho nos pres\u00eddios. Essa atua\u00e7\u00e3o nas pris\u00f5es influenciou <em>Sistema 25<\/em>?<\/strong><br \/>\nDurante muitos anos, como integrante da Federa\u00e7\u00e3o do Teatro de Pernambuco, Feteape, coordenei os <em>Projetos Coringa<\/em> e <em>Alvar\u00e1 de Express\u00e3o<\/em>, no Sistema Penitenci\u00e1rio de Pernambuco realizando a\u00e7\u00f5es art\u00edsticas para e com pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o f\u00edsica. Em 8 pres\u00eddios do estado. Era um projeto complexo e importante, pois eles assistiam, discutiam, faziam cursos, ensaiavam, montavam espet\u00e1culos e apresentavam nos pres\u00eddios e nos teatros de Pernambuco. Uma experi\u00eancia excepcional e uma equipe aguerrida de artistas e profissionais da extinta Secretaria de Justi\u00e7a de Pernambuco.<br \/>\nInfluenciou-me muito e influencia sempre, em todos os aspectos, principalmente para me fazer compreender melhor a situa\u00e7\u00e3o do preso, uma vis\u00e3o mais humana, n\u00e3o condescendente, mas humana. Vivi experi\u00eancias radicais no pres\u00eddio, lidei com os extremos, com o po\u00e9tico, com o est\u00e9tico, mas com o furor produzido na pris\u00e3o.<br \/>\nMas a principal influ\u00eancia \u00e9 que me faz afirmar que h\u00e1 muita humanidade e muita desumanidade convivendo no mesmo territ\u00f3rio. Lidei com extremos, doeu, foi dif\u00edcil, mas vi a arte mudando a vida das pessoas, se n\u00e3o para mudar a condi\u00e7\u00e3o, mas para fazer refletir sobre os pactos de conviv\u00eancia. Em quase 10 anos nunca houve uma situa\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um pacto de forte conviv\u00eancia. Muito jogo de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que voltar aos presos?<\/strong><br \/>\nPorque \u00e9 de uma atualidade atroz. O sistema prisional brasileiro \u00e9 algo assustador, construtor e promotor de criminosos. Uma f\u00e1brica de delinqu\u00eancias, sem controle, tudo misturado e ali convivem todas as pessoas. \u00c9 brutal e desumano, nivela-se tudo e todos por baixo. Uma conviv\u00eancia brutal, porque as pessoas n\u00e3o s\u00e3o iguais e n\u00e3o h\u00e1 maldade em todos. Tem gente ali por pura fatalidade, por infort\u00fanio, mas passa por todas as agruras.<br \/>\nMe interessa pensar no ser humano. N\u00e3o falo de reden\u00e7\u00e3o, nem de perd\u00e3o, falo de humanidade e de brutalidades.<br \/>\nMuita gente est\u00e1 l\u00e1 sem sequer ser julgado. Pres\u00eddios s\u00e3o f\u00e1bricas de criminosos em potencial, lugares sem lei. Nada daquilo resolve a criminalidade, n\u00e3o baixa nada, s\u00f3 aumenta.<br \/>\n\u00c9 l\u00e1, no pres\u00eddio, que o crime se organiza e o poder p\u00fablico brasileiro n\u00e3o consegue resolver, n\u00e3o basta somente a for\u00e7a e a coer\u00e7\u00e3o. \u00c9 um sistema muito caro para o pa\u00eds e que s\u00f3 d\u00e1 preju\u00edzo e n\u00e3o garante redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<br \/>\nA redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, por exemplo, \u00e9 manipula\u00e7\u00e3o para dizer que est\u00e1 fazendo algo para diminuir a criminalidade. \u00c9 um blefe patrocinado por outros sistemas criminosos que atuam fora dos pres\u00eddios. Outros grupos sociais com interesses diversos, para tirar o foco da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A pe\u00e7a \u00e9 forte, potente \u00e9 ali convivem v\u00e1rias cenas e a\u00e7\u00f5es que se completam e se chocam. Como foi o processo de constru\u00e7\u00e3o de cada quadro?<\/strong><br \/>\nTem sido um processo longo, a partir de um monte do conto de Pl\u00ednio Marcos. \u201cS\u00e3o 25 homens presos num cub\u00edculo imundo onde s\u00f3 caberiam 8, 25 homens para morrer&#8230;\u201d. Desse mote a din\u00e2mica do espet\u00e1culo aconteceu.<br \/>\nConvidei 25 atores, 6 compositores, 1 iluminadora, 1 diretor musical, 1 assistente de produ\u00e7\u00e3o e constru\u00edmos juntos um processo que chamei de Jogos de Aproxima\u00e7\u00e3o. Cada ator conduziria uma parte do jogo criativo, dominador e dominado, cada um foi l\u00edder por algum tempo. Diversos temas foram tratados e nos jogos elaborados na sala de ensaio a din\u00e2mica foi sendo constru\u00edda. Do que trabalhamos em salas, aproximadamente 60% est\u00e1 no espet\u00e1culo, os outros 40% foram descartados, est\u00e3o no nosso corpo, nas mem\u00f3rias, s\u00e3o as mem\u00f3rias do coletivo.<\/p>\n<p><strong>De que forma <em>In\u00fatil Canto e In\u00fatil Pranto pelos Anjos Ca\u00eddos<\/em>, de Pl\u00ednio Marcos, entra no espet\u00e1culo?<\/strong><br \/>\nNa pe\u00e7a aparece apenas o mote acima referido. E claro todo o discurso subjetivo de Pl\u00ednio Marcos. Ele foi sempre a nossa inspira\u00e7\u00e3o, o Pl\u00ednio, mais que sua obra, as suas atitudes. Um homem de profunda humanidade, crente nas possibilidades da arte.<\/p>\n<div id=\"attachment_14475\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_06_fT-CamilaSergio-e1438094640440.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14475\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14475\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_06_fT-CamilaSergio-e1438094640440.jpg\" alt=\"Espet\u00e1culo Sistema 25. Foto: Camila S\u00e9rgio \" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14475\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo Sistema 25. Foto: Camila S\u00e9rgio<\/p><\/div>\n<h2 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u00a0Uma dramaturgia poliss\u00edlaba,<br \/>\necos de atores-dramaturgos.<\/span><\/h2>\n<p>A <span style=\"color: #000000;\"><strong>primeira orienta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span> para mim mesmo: n\u00e3o replicar Pl\u00ednio Marcos. Ele funcionaria como uma esp\u00e9cie de alterego, uma inspira\u00e7\u00e3o, nenhum compromisso com o real cromatismo proposto por sua dramaturgia. A cria\u00e7\u00e3o de novos c\u00f3digos, sen\u00e3o novos, ao menos c\u00f3digos que refletissem o universo do grupo. O espet\u00e1culo de algum modo deveria estar pautado nas inspira\u00e7\u00f5es e no trabalho dos atores e t\u00e9cnicos mergulhados nesta experi\u00eancia. A <strong><span style=\"color: #000000;\">segunda orienta\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong> fora para expurgar qualquer certeza, jogar fora qualquer verdade absoluta, nenhuma certeza. <strong><span style=\"color: #000000;\">Terceira diretriz<\/span><\/strong>, pensar o lugar do p\u00fablico, como lidar com ele. Este mais que um desafio, uma inquieta busca de alternativas. A <strong><span style=\"color: #000000;\">quarta pontua\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong> estava voltada para o tema central, nada de afirma\u00e7\u00f5es do tipo, \u201cmarginal\u201d, nem v\u00edtima, nem vil\u00e3o. Cada um tem sua pris\u00e3o, cada um tem sua vis\u00e3o sobre a pris\u00e3o, cada um tem um \u201colhar sobre\u201d, uma vis\u00e3o de fora. O olhar do outro sobre o preso. Outra meta, n\u00e3o deveria existir personagens, somente a\u00e7\u00e3o. Mas a\u00e7\u00e3o de quem? Dos presos comuns, outra vez a afirma\u00e7\u00e3o-nega\u00e7\u00e3o: na nossa cabe\u00e7a todos est\u00e3o mortos, empalhados, porque a perda de poder \u00e9 igual a perda de for\u00e7as. Ali\u00e1s, medi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a \u00e9 uma quest\u00e3o dramat\u00fargica.<br \/>\nA escrita dramat\u00fargica necessita dizer, de algum modo, o que une, na solid\u00e3o de cada um. Apontar para um jogo que mostre uma cadeia de rela\u00e7\u00f5es. O espet\u00e1culo necessita parecer que \u00e9 uma hist\u00f3ria n\u00e3o escrita, com muitas imprevisibilidades, do contr\u00e1rio estar\u00e1 esgotado em seu nascedouro. Este \u00e9 um espet\u00e1culo de muitas vozes, uma palheta de cores em decomposi\u00e7\u00e3o, \u201cpequenas pe\u00e7as dentro de uma pe\u00e7a\u201d. Quando afirmamos que o espectador pode sair temporariamente, dormir, voltar, \u00e9 porque a dramaturgia apresenta um recorte com muitas individualidades. S\u00e3o curtas cenas que juntas constituem uma grande cena, m\u00faltipla e prenhe de antagonismos, mas voc\u00ea pode perder peda\u00e7os que n\u00e3o sofrer\u00e1 disfun\u00e7\u00f5es comunicativas.<br \/>\nOs atores-dramaturgos-narradores s\u00e3o respons\u00e1veis por cada cena articulada, partindo do corpo e do tema constru\u00edram textos c\u00eanicos, partituras de a\u00e7\u00e3o. Foram tocados pelo furor de Pl\u00ednio Marcos e constru\u00edram a dramaturgia os artistas Beto Nery, Breno Fittipaldi, Bruno Britto, Edinaldo Ribeiro, Eddie Monteiro, Emanuel David D\u2019Lucard, Geraldo Cosmo, Jos\u00e9 Manoel Sobrinho, Marc\u00edlio Moraes, Neemias Dinarte, Normando Roberto Santos, Robson Queir\u00f3z, Samuel Bennaton e Will Cruz. H\u00e1, ainda, fragmentos de Pl\u00ednio Marcos e autores an\u00f4nimos, pois transcrevemos uma conversa ao telefone entre dois presidi\u00e1rios no jogo malicioso da venda de produtos falsos, um golpe atual e contumaz. O exerc\u00edcio de dramaturgia transformou-se em uma experi\u00eancia na zona do risco. Um grande risco porque a maioria dos atores-autores s\u00e3o remanescentes de uma tradi\u00e7\u00e3o teatral, inclusive o encenador. Qual o lugar do espectador \u00e9 o principal desafio e estamos longe de obter respostas. H\u00e1 muitas controversas.<br \/>\nA Temporada de Processo, segunda etapa do jogo, nos fez perceber a nossa vulnerabilidade e somente tem acentuado as nossas d\u00favidas e incertezas. Nenhum caminho nos parece definitivo. O lugar do espectador parece ser o imponder\u00e1vel, ainda muito manipulado. Nosso espet\u00e1culo ainda manipula o que assiste e essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o em princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 de nosso interesse. Falta-nos convic\u00e7\u00e3o, cren\u00e7a, t\u00e9cnica e tranquilidade para abrir m\u00e3o das formas e ensejar a instabilidade que tanto buscamos. O espet\u00e1culo \u00e9 incompleto, inconcluso, cheio de vulnerabilidades. Literalmente, muitas micro cenas ainda n\u00e3o foram inseridas, assim como v\u00e1rias m\u00fasicas. Mas que fique claro, isto \u00e9 do processo. Faz parte de uma estrat\u00e9gia. Remete ao sentido de treino. N\u00e3o \u00e9 um ato negligente.<br \/>\n\u00c9 sempre muito tenso montar um espet\u00e1culo e uma das metas era aprender a conjugar outro verbo, processar. E em segundo tempo, tolerar. Uma jornada de quase um ano, mas somente na semana de estreia estava todo o elenco presente. Os treinos foram realizados por blocos, em peda\u00e7os, por cenas, para depois reunir o coro de homens em fren\u00e9tica algazarra. Um s\u00e9quito masculino com v\u00e9us e tudo. Energia masculina ao extremo, no entanto malhada de alma feminina. Paradoxos. Um controle de frequ\u00eancia demonstrava os riscos do empreendimento, uma zona de areia movedi\u00e7a por onde a experi\u00eancia transitava. Mas isso \u00e9 assunto para outra reflex\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_14485\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_08_fT-CamilaSergio-e1438125024262.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14485\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14485\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_08_fT-CamilaSergio-e1438125024262.jpg\" alt=\"H\u00e1 espa\u00e7o para todo tipo de sentimento entre os presos\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14485\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e1 espa\u00e7o para todo tipo de sentimento entre os presos<\/p><\/div>\n<p><strong>Que mudan\u00e7as voc\u00ea empreende a cada nova temporada?<\/strong><br \/>\nTenho me aventurado, nada \u00e9 definitivo, tenho modificado textos, trocado atores, mudado a din\u00e2mica da trilha sonora (ora ao vivo, ora gravada), mudo o lugar do p\u00fablico (pequenas altera\u00e7\u00f5es, mas que desestabilizam os atores). Mas n\u00e3o tenho sido competente para radicalizar mais. \u00c9 dif\u00edcil, venho de um teatro burgu\u00eas. Queria ser mais radical, me desestabilizar, aos atores e t\u00e9cnicos e ao p\u00fablico, mas sou medroso, n\u00e3o evolui muito.<\/p>\n<p><strong>Trabalhar com um elenco t\u00e3o grande, sem patrocino nem lugar fixo para as apresenta\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma insanidade?!<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma insanidade sim, mas necess\u00e1ria para mim neste momento. Ano que vem completo 40 anos de teatro e n\u00e3o podia, nem queria me perder nos meus objetivos. Sou militante, a milit\u00e2ncia me chama. Fa\u00e7o porque acredito na forma da arte para a minha vida e de v\u00e1rios outros. O tempo tem sido generoso comigo porque me mostra, a cada hora passada que Arte pulsa e \u00e9 necess\u00e1ria. Ing\u00eanuo? Ut\u00f3pico? Pode ser, n\u00e3o tenho medo, n\u00e3o devo muitas satisfa\u00e7\u00f5es, nem tenho nada a provar. Quero fazer e fa\u00e7o. Para isso tamb\u00e9m serve o tempo, a passagem do tempo.<br \/>\nN\u00e3o sei se quero um lugar fixo, ali\u00e1s, sei, n\u00e3o quero. Pretendo realizar no m\u00ednimo 200 apresenta\u00e7\u00f5es e ocupar uns 50 espa\u00e7os do Recife e RMR. O dif\u00edcil \u00e9 a ilumina\u00e7\u00e3o, essencial para a cena, mas cara. Luciana Raposo elaborou um projeto bem arrojado e n\u00e3o acho justo ela utilizar os seus equipamentos sem ser paga, eles se desgastam, precisam de reposi\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem verba. Isso \u00e9 o que mais me preocupa.<br \/>\nEstreamos em abril e j\u00e1 fizemos 20 apresenta\u00e7\u00f5es, no Teatro Marco Camarotti e no Espa\u00e7o Experimental. Quero fazer no Teatro Hermilo Borba Filho, no Teatro Arraial, no Teatro Apolo, no Capiba, no Barreto J\u00fanior, na Fiandeiros, no Poste, nos antigos Teatros do Forte (Cinco Pontas) e Cl\u00eanio Wanderley (Casa da Cultura), quero fazer em Camaragibe, no Cabo de Santo Agostinho, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, em Olinda, em Arcoverde e Garanhuns. N\u00e3o sei como, mas eu vou fazer.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">As Motiva\u00e7\u00f5es para a proposta<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: left;\">Sem muita regularidade tenho dirigido espet\u00e1culos em Recife, os \u00faltimos sempre com o aporte do Funcultura, Fundo Estadual de Cultura, do Governo de Pernambuco, Secretaria Estadual de Cultura, Fundarpe, o que tem sido vital para podermos criar os espet\u00e1culos e manter curta temporada, de no m\u00e1ximo 12 apresenta\u00e7\u00f5es. Cumpridas as etapas de cria\u00e7\u00e3o e de breve temporada tem sido comum entrarem os espet\u00e1culos em uma sombria zona de apatia e de degredo, porque as oportunidades s\u00e3o poucas e com o tempo rareiam levando todo o esfor\u00e7o coletivo para o esquecimento. O Funcultura, assim, torna-se com exce\u00e7\u00f5es, evidentemente, o aporte para que se fa\u00e7a um espet\u00e1culo e por a\u00ed para. Os produtores n\u00e3o conseguem sair desta armadilha, ficam ref\u00e9ns de uns poucos projetos ou festivais, quando muito uma viagem aqui, outra acol\u00e1. E instaura-se uma crise porque n\u00e3o h\u00e1 sobrevida para o espet\u00e1culo e encenadores, artistas e t\u00e9cnicos veem-se, rotineiramente diante de um morto-vivo, o resultado de meses de trabalho fica congelando, definhando, amarelando. N\u00e3o rara \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m o surgimento de lit\u00edgios entre artistas e produtores. Aqueles, na maioria das vezes rotulam estes de inoperantes, ineficientes e sem proposi\u00e7\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. Alguns produtores mais ousados rompem essa l\u00f3gica, mas s\u00e3o poucos. Esta realidade me perseguiu em quatro das seis montagens que dirigi nos \u00faltimos tempos. Duas sobreviveram um pouco mais porque havia o suporte de um grupo, dando alguma sustentabilidade, mas mesmo assim sem muita consist\u00eancia.<br \/>\nOs debates e os embates levam a diversas quest\u00f5es, algumas pedag\u00f3gicas, mas a maioria s\u00e3o pol\u00eamicas, afinal por que e para que se faz teatro hoje em Pernambuco? E para quem? Existe fideliza\u00e7\u00e3o de p\u00fablico? H\u00e1 mercado? H\u00e1 a profiss\u00e3o de ator e encenador quando n\u00e3o existem as garantias m\u00ednimas de trabalho continuado? \u00c9 correto depender unicamente dos recursos do Funcultura? E a iniciativa privada tem papel ativo no conjunto das pr\u00e1ticas teatrais, atualmente? S\u00e3o quest\u00f5es que permanecem sem respostas dos coletivos. As pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura s\u00e3o eficazes o suficiente para suprir as demandas das categorias? \u00c9 de fato verdade que os artistas t\u00eam um esp\u00edrito assistencialista, que gostam de ficar ref\u00e9ns do estado, que n\u00e3o criam alternativas para autonomia e independ\u00eancia? Quais as motiva\u00e7\u00f5es para se fazer teatro, hoje? E o capital social inerente \u00e0 arte tem sido reconhecido pelas estruturas da sociedade? E a quest\u00e3o da representatividade pol\u00edtica dos artistas e t\u00e9cnicos que papel tem ocupado nesta cadeia? Muitas perguntas, poucas respostas pr\u00e1ticas.<br \/>\nA sa\u00edda para muitos tem sido criar projetos de resist\u00eancia, a exemplo do Coletivo de Teatro Domiciliar criado por algumas companhias e que vem realizando encena\u00e7\u00f5es dentro de resid\u00eancias ou as iniciativas de grupos e companhias que constituem suas sedes e as transformam em espa\u00e7os para apresenta\u00e7\u00f5es ao p\u00fablico, a exemplo da Fiandeiros e de O Poste, dentre outros. N\u00e3o tem sido f\u00e1cil ser encenador ou ator em uma cidade como o Recife, com poucas op\u00e7\u00f5es de trabalho e raras possibilidades para uma experimenta\u00e7\u00e3o mais apurada, para um projeto mais ideol\u00f3gico ou mesmo para o desenvolvimento de estrat\u00e9gias de encena\u00e7\u00e3o ou atua\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 casas de espet\u00e1culos suficientes e as que existem est\u00e3o fragilizadas em estrutura e pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara n\u00e3o ficar ref\u00e9m dessas armadilhas ou para tentar suplantar esse estado de coisas resolvi tomar uma atitude um pouco radical, montar um espet\u00e1culo para poucos espectadores, com muitos atores e t\u00e9cnicos e nenhum real. E me dispus a pesquisar alternativas, inclusive em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de espet\u00e1culo, seu enfoque e abordagem.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\">As Primeiras provid\u00eancias<\/span><\/h2>\n<p>Concomitante \u00e0 pesquisa referente ao que seria a experi\u00eancia listei 50 atores e comecei a etapa de di\u00e1logos sobre as minhas inquieta\u00e7\u00f5es e o desejo de montar um espet\u00e1culo sem produtor, aut\u00f4nomo, sem data para estrear e sem recursos financeiros. Chamei esta etapa de conversas de <strong><span style=\"color: #000000;\">Proposta Indecorosa<\/span><\/strong>, fazer arte sem perspectiva alguma de sobreviv\u00eancia material. Uma grande contradi\u00e7\u00e3o de minha parte, mas sabia que somente quem tivesse condi\u00e7\u00f5es toparia fazer. J\u00e1 conhecia a obra de Pl\u00ednio Marcos, havia dirigido nos anos 1980 o seu texto <em>Jesus Homem<\/em> e relendo alguns textos reencontrei o livro <em>In\u00fatil Canto e In\u00fatil Pranto pelos anjos Ca\u00eddos<\/em>, e nesse o conto <em>Em Osasco<\/em> que narra sobre 25 homens presos em uma cela onde s\u00f3 caberia 8 homens. Pronto. Tinha um mote, uma met\u00e1fora, marginais sem lugar, sem individualidades, sem representa\u00e7\u00e3o, sem pol\u00edtica, sem possibilidade de express\u00e3o. Estava definido o mote. Parti ent\u00e3o para a consolida\u00e7\u00e3o do elenco, de alguns t\u00e9cnicos e de compositores, porque tamb\u00e9m houve a decis\u00e3o de contar com uma trilha sonora original composta para a encena\u00e7\u00e3o. No dia 4 de maio de 2014 aconteceu o primeiro encontro do elenco. Alguns n\u00e3o conseguiram manter-se no processo, surgiram outras possibilidades de trabalho, outros porque n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es ou vontade de assumir tal compromisso. E come\u00e7aram os trabalhos pr\u00e1ticos que estenderam-se por 11 meses e 21 dias.<\/p>\n<h2><strong>\u00a0<span style=\"color: #ff0000;\">A Primeira estreia: Temporada de Processo \u2013 Nota\u00e7\u00f5es.<\/span><\/strong><\/h2>\n<p>Entendam <span style=\"color: #000000;\"><strong>Temporada de Processo<\/strong><\/span> como sendo uma etapa, um lugar inacabado, um est\u00e1gio das viv\u00eancias, um espet\u00e1culo em fase de experimenta\u00e7\u00e3o, um jogo de conviv\u00eancias, uma equa\u00e7\u00e3o de desejos, caminhos para a cena, um quebra-cabe\u00e7as, um mosaico, uma colcha de retalhos, um jogo onde todos est\u00e3o presos, uma hist\u00f3ria n\u00e3o escrita regularmente, estilha\u00e7os. O todo e a solid\u00e3o d\u00e9cada um, uma cadeia de rela\u00e7\u00f5es. Confiss\u00f5es. A palavra pendurada, inst\u00e1vel, sensa\u00e7\u00e3o de dor e odor. Na nossa cabe\u00e7a todos est\u00e3o mortos. Est\u00e3o? Sol e n\u00e3o-sol, sal e n\u00e3o-sal. O corpo m\u00eddia, o corpo suporte dos sentidos. Perder-se em palavras. Nega\u00e7\u00e3o e nojo da palavra. O que une e separa. A espera. O tempo. Um Sistema, o sistema. Jogo de aproxima\u00e7\u00e3o e de enfrentamento.\u00a0 Querer e repulsar. Animais em disputa, em mina de amor. Os desejos. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma certeza. Cada um tem sua pris\u00e3o. O olhar dos outros sobre os presos. Somos a \u00faltima coisa depois do nada. Uma vis\u00e3o de for\u00e7a. Cada um tem sua pris\u00e3o. Cada um, cada um. Anuncia\u00e7\u00e3o. Homens comuns. Intermitentes. As pragas da pele e da mente. Ensaios sobre o amor, sobre a dor, sobre a for\u00e7a. Um mercado aberto em nome de Deus. De Deuses. In\u00fatil espera para um <em>nuevo tango<\/em>. Reduto de patriotas fugados, c\u00f3digos de amantes tatuados. O peso do tempo na zona aut\u00f4noma tempor\u00e1ria do anjo incestuoso. A cela. Nossa Senhora Maria dos Anjos perdida. O poder da for\u00e7a. Um lugar sem donos, com l\u00edderes falidos, artimanhas para se manter, um territ\u00f3rio \u00e9brio porque o que importa \u00e9 apenas estar, sob qualquer condi\u00e7\u00e3o. Viva o todo poderoso homem.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Temporada de Processo<\/strong><\/span> cansa, \u00e9 desconfort\u00e1vel, demora, precisa de paci\u00eancia.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Nesse processo o espectador<\/strong><\/span> pode sair, tomar \u00e1gua, ir ao banheiro do camarim, sentar no ch\u00e3o, deitar-se onde quiser, dormir, mudar de lugar, atender o telefone, fotografar, falar ao zap, falar com os atores, alongar-se, entrar em cena, cantar junto, dizer poemas, n\u00e3o fazer nada, gritar.<\/p>\n<p>Nesse <span style=\"color: #ff0000;\"><strong>processo todos est\u00e3o trabalhando de gra\u00e7a<\/strong><\/span>, n\u00e3o porque n\u00e3o precisem, mas porque a cada dia est\u00e1 mais dif\u00edcil sobreviver da arte do Teatro em Pernambuco, terra de muitos e de poucos.<\/p>\n<div id=\"attachment_14486\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_03_fT-CamilaSergio-e1438126204807.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14486\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14486\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_03_fT-CamilaSergio-e1438126204807.jpg\" alt=\"a montagem em processo investiga sobre o lugar o espectador no jogo\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14486\" class=\"wp-caption-text\">a montagem em processo investiga sobre o lugar o espectador no jogo<\/p><\/div>\n<p><strong>Queria saber mais da t\u00e9cnica de cria\u00e7\u00e3o, vertentes de pesquisa, constru\u00e7\u00e3o de personagens.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 Pl\u00ednio Marcos.<br \/>\nAcostumei-me, durante minha inf\u00e2ncia no S\u00edtio Serra dos Bois, em Bezerros, Agreste de Pernambuco, a assistir madrugada adentro as cantorias de P\u00e9 de Parede. Nessas cantorias o que mais me impressionava era a quantidade de motes que o povo escrevia, colocava nas cuias ou chap\u00e9us juntamente com c\u00e9dulas curtas ou moedas e que, de imediato, eram improvisados pelos cantadores. Uma maestria, coisa de g\u00eanio, habilidade que me deixava impactado. Nunca consegui improvisar assim, fazia motes ing\u00eanuos e rom\u00e2nticos, pouco provocativos, pouco criativos. Desisti r\u00e1pido. Mas aquilo ficou na minha mem\u00f3ria para sempre. Mais, ainda, a vontade de improvisar. Talvez por isso anos depois eu tenha me transformado em professor da disciplina <em>Improvisa\u00e7\u00e3o para o Teatro<\/em>, nos Cursos de Teatro do Sesc (Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio) e no Curso B\u00e1sico \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o do Ator, da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco (Fundaj), em Pernambuco e seja um atento leitor da pesquisadora Viola Spolin.<\/p>\n<p>Com o <em>Sistema 25<\/em>, resguardando-se as diferen\u00e7as culturais e tem\u00e1ticas, tudo foi muito parecido, os motes eram retirados da obra de Pl\u00ednio Marcos, dramaturgo de S\u00e3o Paulo e, a partir desses motes, na sala de ensaio as cenas foram sendo escritas:<\/p>\n<p>\u201cEram vinte e cinco homens empilhados, espremidos, esmagados de corpo e alma, num cub\u00edculo imundo onde mal caberiam oito pessoas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEram vinte e cinco homens colocados no imundo cub\u00edculo para morrer. Para morrer aos poucos. Para morrer de forma que parecesse natural.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPara morrer sem estremecer as rela\u00e7\u00f5es internacionais dos cidad\u00e3os contribuintes.\u201d<\/p>\n<p>Quem agora assistir ao espet\u00e1culo vai perceber que houve um desvio de inten\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o \u00e9 deste tema que trata o <em>Sistema 25<\/em> e sim da condi\u00e7\u00e3o de vida extrema e de como qualquer pessoa, independente de estar encarcerado no sistema prisional, desequilibra-se diante de uma vida sem perspectiva. A desordem e o caos constituem outros sistemas para al\u00e9m das cadeias e pres\u00eddios.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao processo&#8230;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos me reaproximei dos motes de minhas mem\u00f3rias afetivas quando da realiza\u00e7\u00e3o das Jornadas Liter\u00e1rias Portal do Sert\u00e3o e Chapada do Araripe, projetos do Sesc Pernambuco que eu criei e coordeno, especialmente quando Cida Pedrosa e Sennor Ramos, curadores das Jornadas, come\u00e7aram a inserir na programa\u00e7\u00e3o as Mesas de Glosa, espa\u00e7os de expertise, desafios que s\u00e3o genialmente vencidos por glosadores ex\u00edmios, homens e mulheres dotados de excepcional capacidade criativa. Em outra dimens\u00e3o, ouvir Z\u00e9 Brown e J\u00fanior Baladeira, mestres do rap, com suas habilidades de improviso tamb\u00e9m me serviram de refer\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o para conduzir os ensaios que geraram o nosso espet\u00e1culo. Mas, aten\u00e7\u00e3o, esteticamente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma aproxima\u00e7\u00e3o entre estas tend\u00eancias da arte, elas serviram de est\u00edmulo para a minha condu\u00e7\u00e3o do processo, na minha solid\u00e3o criativa.<\/p>\n<div id=\"attachment_14487\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_01_fT-CamilaSergio-e1438126805845.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14487\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14487\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_01_fT-CamilaSergio-e1438126805845.jpg\" alt=\"Energia masculina ao extremo, cada um tentando garantir o seu dom\u00ednio\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14487\" class=\"wp-caption-text\">Energia masculina ao extremo, cada um tentando garantir o seu dom\u00ednio<\/p><\/div>\n<p>Conhe\u00e7o a obra de Pl\u00ednio Marcos, \u201co poeta do submundo, o dramaturgo maldito ou simplesmente, o rep\u00f3rter de um tempo mau&#8230;\u201d, dirigi nos anos 1990 o seu <em>Jesus Homem<\/em>, assisti a muitas montagens de seus textos para o teatro, tamb\u00e9m conhe\u00e7o o seu livro <em>In\u00fatil Canto e In\u00fatil Pranto pelos Anjos Ca\u00eddos<\/em>, ficando particularmente aficionado pelo conto <em>Em Osasco,<\/em> sobre homens presos em uma cela de pequenas propor\u00e7\u00f5es, seus dissabores e desesperos e sobre seu estado-limite de conviv\u00eancia e de desumanidade. Esse foi o nosso ponto de partida, a \u201cCena da Origem\u201d. Do conto <em>Em Osasco<\/em> identificamos os nossos motes para a s\u00e9rie de improvisos de onde emergiriam as cenas, suas personagens e posteriormente os discursos, os textos dram\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Por aproximadamente 12 meses mergulhamos nas dores e odores destes homens, testosteronas agitadas, pulsa\u00e7\u00f5es firmes, oscila\u00e7\u00f5es da alma, intelig\u00eancias provocadas de onde muita arte surgiu. No espet\u00e1culo, agora em p\u00e9, pouco mais de 30% de tudo o que foi criado nos laborat\u00f3rios de experimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 em cena. Os outros 70% ficaram na mem\u00f3ria de seus criadores, nos registros e rabiscos guardados em algum caderno de anota\u00e7\u00e3o ou se perderam na vastid\u00e3o das subjetividades.<\/p>\n<div id=\"attachment_14489\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_04_fT-CamilaSergio-e1438128095620.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14489\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-14489\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Sistema25_04_fT-CamilaSergio-e1438128095620.jpg\" alt=\"Sistema prisional nivela todos por baixo\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14489\" class=\"wp-caption-text\">Sistema prisional nivela todos por baixo<\/p><\/div>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\">Estrutura do Espet\u00e1culo \u2013<br \/>\nCenas por ordem de acontecimento no palco:<\/span><\/h2>\n<p><strong>Cena 1 \u2013 Pr\u00f3logo<\/strong> \u2013 Cela. M\u00fasica, <em>Hino de Pernambuco<\/em> (1908), letra de Oscar Brand\u00e3o\u00a0da Rocha e m\u00fasica de Nicolino Milano. Dramaturgia de Jos\u00e9 Manoel\u00a0Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>Cena 2<\/strong> \u2013 Anuncia\u00e7\u00e3o, dramaturgia de Will Cruz.<\/p>\n<p><strong>Cena 3<\/strong> \u2013 O Guarda-Chuva, sobre mote de Pl\u00ednio Marcos, dramaturgia de Samuel Bennaton. M\u00fasica <em>Alma de Palha\u00e7o<\/em>, letra e melodia de Andr\u00e9 Filho.<\/p>\n<p><strong>Cena 4<\/strong> \u2013 Cena Intermitente, dramaturgia de Samuel Bennaton.<\/p>\n<p><strong>Cena 5<\/strong> \u2013 As Pragas da Pele e da Mente, sobre mote de Pl\u00ednio Marcos, dramaturgia coletiva.<\/p>\n<p><strong>Cena 6<\/strong> \u2013 O Carrasco, dramaturgia de Geraldo Cosmo e Beto Nery.<\/p>\n<p><strong>Cena 7<\/strong> \u2013 Confiss\u00e3o, sobre mote de Pl\u00ednio Marcos, dramaturgia de Jos\u00e9 Manoel\u00a0Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>Cena 8<\/strong> \u2013 Mercado Aberto, 1\u00aa parte, dramaturgia de presos brasileiros, an\u00f4nimos.<\/p>\n<p><strong>Cena 9<\/strong> &#8211; Ensaio sobre o amor, dramaturgia de Emanuel David D\u2019L\u00facard.<\/p>\n<p><strong>Cena 10<\/strong> \u2013 O Homem Deus, dramaturgia de Marc\u00edlio Moraes.<\/p>\n<p><strong>Cena 11<\/strong> \u2013 O Bloco, dramaturgia coletiva.<\/p>\n<p><strong>Cena 12<\/strong> &#8211; Mercado Aberto, 2\u00aa parte, dramaturgia de presos brasileiros, an\u00f4nimos.<\/p>\n<p><strong>Cena 13<\/strong> \u2013 Um Nuevo Tango, dramaturgia de Bruno Britto, Robson Queir\u00f3z e Emanuel\u00a0David D\u2019L\u00facard. M\u00fasica <em>Tenho que te amaro<\/em>, de Geraldo Maia, com letra de \u00a0Emanuel David D\u2019L\u00facard.<\/p>\n<p><strong>Cena 14<\/strong> \u2013 Cartas: In\u00fatil Espera, dramaturgia de Breno Fittipaldi e Jos\u00e9 Manoel\u00a0Sobrinho. M\u00fasica <em>Amor Partido<\/em>, de Eduardo Espinhara, Thyago Ribeiro Romildo Luis.<\/p>\n<p><strong>Cena 15<\/strong> \u2013 Alvar\u00e1 de Soltura, dramaturgia de Cl\u00e1udio Siqueira e Jos\u00e9 Manoel Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>Cena 16<\/strong> \u2013 Reduto, dramaturgia de Marc\u00edlio Moraes.<\/p>\n<p><strong>Cena 17<\/strong> \u2013 Patriota, (cena ainda inacabada) sobre tema proposto por Bill\u00e9 Ares.<\/p>\n<p><strong>Cena 18<\/strong> &#8211; C\u00f3digos, dramaturgia de Emanuel David D\u2019L\u00facard.<\/p>\n<p><strong>Cena 19<\/strong> \u2013 Ensaio Sobre a For\u00e7a, dramaturgia de Emanuel David D\u2019L\u00facard. M\u00fasica O\u00a0Tempo, de Eduardo Espinhara, Thyago Ribeiro e Romildo Luis.<\/p>\n<p><strong>Cena 20<\/strong> \u2013 Dama de Copas, dramaturgia de Edinaldo Ribeiro.<\/p>\n<p><strong>Cena 21<\/strong> \u2013 O Amante de Carminha, dramaturgia de Eddie Monteiro e Will Cruz.<\/p>\n<p><strong>Cena 22<\/strong> \u2013 Tatuagem, dramaturgia de Will Cruz e Edinaldo Ribeiro.<\/p>\n<p><strong>Cena 23<\/strong> \u2013 Segredos da B\u00edblia, dramaturgia de Neemias Dinarte e Jos\u00e9 Manoel\u00a0Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>Cena 24<\/strong> \u2013 O Sapato, dramaturgia de Eddie Monteiro, Will Cruz e Jos\u00e9 Manoel\u00a0Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>Cena 25<\/strong> \u2013 Ensaio Sobre a Dor, dramaturgia de Emanuel David D\u2019L\u00facard.<\/p>\n<p><strong>Cena 26<\/strong> \u2013 La Libertad, dramaturgia de Marc\u00edlio Moraes, sobre mote de Pl\u00ednio Marcos.\u00a0M\u00fasica <em>O Fogo<\/em>, letra e melodia de Andr\u00e9 Filho.<\/p>\n<p><strong>Cena 27<\/strong> \u2013 O Fogo, dramaturgia coletiva.<\/p>\n<p><strong>Cena 28<\/strong> \u2013 Anjo Incestuoso, dramaturgia de Marc\u00edlio Moraes, sobre mote de Pl\u00ednio\u00a0Marcos, m\u00fasica <em>Anjo Vindouro<\/em>, de Geraldo Maia, letra de Marc\u00edlio Moraes.<\/p>\n<p><strong>Cena 29<\/strong> \u2013 Zat \u2013 Zona Aut\u00f4noma Tempor\u00e1ria, 1\u00aa parte, dramaturgia de Samuel\u00a0Bennaton.<\/p>\n<p><strong>Cena 30<\/strong> \u2013 Ep\u00edlogo &#8211; Zat \u2013 Zona Aut\u00f4noma Tempor\u00e1ria, 2\u00aa parte, dramaturgia de Samuel\u00a0Bennaton. M\u00fasica, <em>Hino de Pernambuco<\/em> (1908), letra de Oscar Brand\u00e3o da\u00a0Rocha e m\u00fasica de Nicolino Milano.<\/p>\n<p style=\"line-height: 16.8pt; background: white; margin: 6.0pt 0cm 6.0pt 0cm;\">A articula\u00e7\u00e3o dessas dramaturgias foi realizada por todo o elenco, com participa\u00e7\u00f5es relevantes de Emanuel David D\u2019L\u00facard, Samuel Bennaton, Will Cruz, Eddie Monteiro, Breno Fittipaldi, Neemias Dinarte, Beto Nery, Robson Queir\u00f3z, Bruno Britto e Jos\u00e9 Manoel Sobrinho. Organiza\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Manoel Sobrinho.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha importante falar que eu n\u00e3o perguntei?<\/strong><br \/>\nUma pausa para a realidade.<\/p>\n<p>Agora, algumas quest\u00f5es j\u00e1 podem ser confirmadas. Fazer teatro sem recursos \u00e9 algo impratic\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 concep\u00e7\u00e3o que se sustente, nem ator que consiga fazer sobreviver o seu entusiasmo, aquele t\u00e3o necess\u00e1rio aos processos criativos, sabendo que vai terminar o ensaio \u00e0s 22h e que somente na virada da madrugada \u00e9 que vai chegar a casa. Algu\u00e9m imagina, quem conhece a dimens\u00e3o da Regi\u00e3o Metropolitana do Recife, que um ator morando em Vera Cruz\/ Aldeia\/ Camaragibe ou em Vila Sotave\/ Jaboat\u00e3o dos Guararapes ou em Jardim Primavera \/Camaragibe ou no Janga\/ Paulista ou em Prazeres\/ Jaboat\u00e3o dos Guararapes ou em Zumbi dos Pachecos\/ Recife, algu\u00e9m imagina que um elenco enorme, residente em quase 20 bairros diferentes esteja todos os dias feliz da vida para ensaiar um espet\u00e1culo? Fazendo o percurso de \u00f4nibus, alguns chegando a ficar 2 horas no deslocamento? Algu\u00e9m imagina que isso acontece no teatro do Recife e sem ganhar nenhum real? Pois este \u00e9 o panorama de uma parcela do elenco do <em>Sistema 25<\/em>. A maioria faz o seu deslocamento passando pelos desrespeitosos terminais de integra\u00e7\u00e3o de passageiros, andando em \u00f4nibus lotados, sem ar condicionado, demorando at\u00e9 1 hora para chegar ao seu ponto inicial. Uma sujei\u00e7\u00e3o para a qual ningu\u00e9m est\u00e1 preparado, uma torpeza da m\u00e1 gest\u00e3o do servi\u00e7o e do transporte p\u00fablico em uma cidade como o Recife.<\/p>\n<p>Sobreviver ao cruel Sistema do Transporte P\u00fablico em Recife \u00e9 um feito de her\u00f3i, sendo importante lembrar que a maioria passa o dia trabalhando para poder sobreviver dignamente, para depois, em terceiro expediente fazer o seu espet\u00e1culo. O famigerado Sistema de Integra\u00e7\u00e3o de Transporte P\u00fablico em Recife e Regi\u00e3o Metropolitana \u00e9 uma deslealdade com o povo desse lugar. \u00c9 a prova inconteste da incompet\u00eancia da gest\u00e3o p\u00fablica do Estado e dos Munic\u00edpios. Na esfera Municipal, para al\u00e9m do Recife, a\u00ed, pior fica, ve\u00edculos velhos, sujos, sem cumprimento de hor\u00e1rio e sem op\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando o ator chega ao ensaio, cansado e atrasado n\u00e3o h\u00e1 encenador que consiga energia para a constru\u00e7\u00e3o da cena. N\u00e3o h\u00e1 processo criativo que sobreviva, que se mantenha.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Narrativa de um ator-dramaturgo, \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<br \/>\nWill Cruz, sobre um dos processos:<\/strong><\/span><\/h2>\n<p><div id=\"attachment_14490\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11221840_1101581606523401_6393477215602290129_n-e1438128861786.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14490\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-14490\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11221840_1101581606523401_6393477215602290129_n-e1438128861786-300x230.jpg\" alt=\"Will Cruz um dos atores de Sistema 25\" width=\"300\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11221840_1101581606523401_6393477215602290129_n-e1438128861786-300x230.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/11221840_1101581606523401_6393477215602290129_n-e1438128861786.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14490\" class=\"wp-caption-text\">Will Cruz, um dos atores de Sistema 25<\/p><\/div><br \/>\n\u201cTendo como mote o \u201c<em>In\u00fatil canto e in\u00fatil pranto&#8230;<\/em><strong><em>\u201d<\/em><\/strong> do Pl\u00ednio Marcos, os exerc\u00edcios f\u00edsicos de integra\u00e7\u00e3o do elenco, e a determina\u00e7\u00e3o do encenador que nos propunha encontrar as personagens dentro deste vespeiro de individualidades que se apresentava no texto, no elenco, na t\u00e9cnica, no p\u00fablico prov\u00e1vel&#8230; busquei na lembran\u00e7a de meus dias de professor de pres\u00eddio, a mescla de mem\u00f3rias que me permitisse desenhar um. Consciente da vastid\u00e3o de mundos emergentes, minha prioridade sempre foi ser econ\u00f4mico, enxuto, higi\u00eanico na escritura.<\/p>\n<p><strong>O tatuador<\/strong> foi o primeiro, nasceu da solid\u00e3o exacerbada que sinto e vejo em todo lado. Era sozinho, autoflagelante, onanista-masoquista, seu gozo e puni\u00e7\u00e3o era ter tudo que lhe importava em seu corpo pra sempre. Quando ganhou um companheiro de cena, e eu de escrita, a solid\u00e3o cresceu, e brotou o \u00f3dio e o desprezo, que se incorporou a esta persona que preferiria n\u00e3o\u00a0 falar. Tanto que por nove vezes a cena foi refeita, sempre tirando excesso,\u00a0 ficando apenas\u00a0 com o\u00a0 estritamente\u00a0 necess\u00e1rio c\u00eanico. Bebi em <em>Fonte de vida<\/em>\u00a0( o sofrimento que se desenha infinitamente no corpo), no <em>Livro de cabeceira<\/em>,\u00a0 e nas esculturas do portugu\u00eas <em>Manuel Rosa (1984, calc\u00e1rio)<\/em><\/p>\n<p><strong>A anuncia\u00e7\u00e3o,<\/strong> me aconteceu ap\u00f3s um dos jogos f\u00edsicos intensos com o elenco; me veio em imagem e texto e luminosidade, como um filme que simplesmente transcrevi pro papel. A presen\u00e7a de D. Maria dos anjos, foi um sopro da realidade, quando de sua morte, que a colocou como santa entre n\u00f3s. E a refer\u00eancia b\u00edblica do massacre dos inocentes foi inevit\u00e1vel pra mim. (\u00c9 que a minha leitura do escrito do Pl\u00ednio Marcos, me dizia que todos sempre estiveram mortos).<\/p>\n<p><strong>O amante de Carminha, <\/strong>nasceu de minha necessidade de ver o desejo heterossexual dentro da cela; mas tamb\u00e9m de carinhar a \u00fanica mulher que transitava entre n\u00f3s no multifacetado processo de construir estas personas, esta cela, estas cenas. Havia a necessidade de falar de outros menos \u00f3bvios desejos, deleites e del\u00edrios.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atmosfera \u00e9 de opress\u00e3o. Ar denso, sufocante por tudo que o p\u00fablico vai ver ali. Um lugar pequeno demais para caber 25. Mas eles est\u00e3o l\u00e1, se espremendo, definhando, sendo apagados naquele cub\u00edculo. De t\u00e3o juntos perdem a individualidade. Pris\u00e3o. Prisioneiros que exigem dos seus observadores um posicionamento pol\u00edtico e social. 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