{"id":14252,"date":"2015-07-14T22:36:44","date_gmt":"2015-07-15T01:36:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=14252"},"modified":"2015-07-15T10:45:23","modified_gmt":"2015-07-15T13:45:23","slug":"premio-de-pesquisa-com-texto-de-hermilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/premio-de-pesquisa-com-texto-de-hermilo\/","title":{"rendered":"Pr\u00eamio de pesquisa com textos de Hermilo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_14253\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo1-e1436915060865.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-14253\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-14253\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo1-300x225.jpg\" alt=\"Os projetos O Aprendiz em Cena e O Solo do Outro devem adaptar pe\u00e7as do teatr\u00f3logo de Palmares \" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14253\" class=\"wp-caption-text\">Os projetos <em>O Aprendiz em Cena<\/em> e <em>O Solo do Outro<\/em> devem adaptar pe\u00e7as do teatr\u00f3logo de Palmares<\/p><\/div>\n<p>Voltados para artistas iniciantes de teatro e de dan\u00e7a, respectivamente <em>O Aprendiz em Cena<\/em> e <em>O Solo do Outro<\/em>, est\u00e3o com inscri\u00e7\u00f5es abertas at\u00e9 o dia 30 de julho. Esses dois Pr\u00eamios de Pesquisa est\u00e3o focados Neste ano na obra do teatr\u00f3logo, diretor e cr\u00edtico liter\u00e1rio Hermilo Borba Filho. A proposta \u00e9 da Prefeitura do Recife, atrav\u00e9s da Secretaria de Cultura, Funda\u00e7\u00e3o de Cultura Cidade do Recife, e o Centro de Forma\u00e7\u00e3o e Pesquisa das Artes C\u00eanicas Apolo Hermilo.<\/p>\n<p>O interessado em participar da sele\u00e7\u00e3o deve escolher um dos quatro contos do escritor: <em>A R\u00e3<\/em>, <em>Anuncia\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>A Enchente<\/em> e <em>Lindalva<\/em>. Para cada categoria ser\u00e1 escolhido um vencedor, que receber\u00e1 ajuda no valor de R$ 22.300,00 para viabilizar o projeto. um profissional do Centro Apolo-Hermilo acompanhar\u00e1 a execu\u00e7\u00e3o da proposta.<\/p>\n<p>O programa prev\u00ea a estreia da montagem de <em>O Solo do Outro<\/em> durante o Festival Internacional de Dan\u00e7a do Recife, que ocorre no m\u00eas de outubro. J\u00e1 o espet\u00e1culo de <em>O Aprendiz em Cena <\/em>dever\u00e1 ser\u00e1 apresentado durante o Festival Recife do Teatro Nacional no m\u00eas de novembro. Isso quer dizer que a Secretaria de Cultura do Recife sinaliza a realiza\u00e7\u00e3o do festival de teatro neste ano. Ent\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 na hora de apresentar os crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o dos projetos vencedores est\u00e1 prevista para o dia 6 de agosto.<\/p>\n<p><strong>SERVI\u00c7O<\/strong><br \/>\nInscri\u00e7\u00e3o at\u00e9 o dia 30 de julho.<br \/>\nCentro Apolo-Hermilo, na Rua do Apolo, s\/n, Bairro do Recife<br \/>\nwww2.recife.pe.gov.br\/sites\/default\/files\/edital_solo_e_aprendiz_02_de_julho_de_2015_1.pdf<\/p>\n<p><strong>Edital do Pr\u00eamio de Pesquisa O Aprendiz em cena e O Solo do Outro\/2015.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Contos de Hermilo Borba Filho<\/strong><\/p>\n<p>Os contos aqui disponibilizados dever\u00e3o ser apreciados pelos proponentes, escolhido apenas um, e a partir deste elaborar o projeto destinado ao Solo do outro ou para O Aprendiz em Cena.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-14258\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif\" alt=\"hermilo_maq\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-144x144.gif 144w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><strong>Conto 01. A Enchente.<\/strong><\/p>\n<p>Marulhou, gorgolejou, ela sentiu mais que ouviu a corrente, gorgolou, estava nos p\u00e9s, ela na beira da cama, e o defunto?, pulou, espadanou \u00e1gua na altura dos joelhos j\u00e1, se guiava na penumbra, sozinha, talvez ilha, a corrente subindo e a chuva caindo, quando balan\u00e7ou os tamboretes que apoiavam o caix\u00e3o viu que estavam bambos, pensou em sair com o esquife, o morto dentro, nos bra\u00e7os, atravessando o rio, chegou a rir com a ideia, rir-se de tudo, afastou-se um pouco, ficou parada no meio da sala invadida pela pregui\u00e7a dos f\u00f3sforos e do candeeiro, tinha nada n\u00e3o, que tinha?, ficava mesmo ali, atenta, a qu\u00ea?, atenta, foi t\u00e3o ligeiro que quando ela viu foram os joelhos frios e Ra frieza da \u00e1gua, bem meio metro calculou, mas sabia que c\u00e1lculos n\u00e3o iriam adiantar nada, s\u00f3 ficou imaginando o fim, de tudo menos o dela, nadaria, voaria, sairia.<\/p>\n<p>Quando os cavalos na estrebaria se levantaram e se moveram nos bei\u00e7os um di outro, aos coices as t\u00e1buas voaram, o c\u00e3o ergueu as orelhas, na espera, a cabe\u00e7a deitada ainda e sobre ela, \u00e0 procura de calor, a ovelha, isto no mais alto, a chuva caindo, a \u00e1gua nos gorgolejos de corrente, os bichos atentos, mas somente atentos, havia um olho que os espiava e era o olho de quem n\u00e3o se sabia, no mundo l\u00edquido uma volta que dava j\u00e1 formava um redemoinho, o funil na velocidade maior arrastando o que ia de cambulhada: panelas, copos de \u00e1gata, quadro de santo, flores de contas de mulungu, as riquezas da casa.<\/p>\n<p>Na sala, a mulher tirou a roupa, toda a roupa, sentia que devia estar nua quando chegasse o fim, o fim para tudo menos para ela, continuava pensando, preparava-se, \u00e1gua nas coxas, os p\u00e9s quase sem apoio no escorrego, j\u00e1 para um metro de andada os bra\u00e7os faziam o movimento do nado, com mais um pouco era abandonar tudo, teria for\u00e7as, acreditava, \u00e1gua no horizonte e ela mais al\u00e9m do horizonte, era forte j\u00e1 nadava ao derredor da sala, foi quando\u00a0 olhou em volta e viu: o defunto metido na fatiota nova e nos sapatos de verniz boiava, sat\u00e9lite do caix\u00e3o, em movimentos lentos, dir-se-iam medidos, graciosos, rodeados pelas borbulhas, bolhas e barulhos de \u00e1gua cada vez mais crescente, ela nadou junto dele procurando uma sa\u00edda, abrira uma janela e \u00e1gua emendara com \u00e1gua, um len\u00e7ol na noite cinzenta, a mesma chuva. O mesmo c\u00e9u fechado, luz nenhuma, ilha mesmo afinal, todos no nado.<\/p>\n<p>Do defunto foi separada por um peixe escamoso que mexia as nadadeiras e fazia pequenas ondas dentro das maiores, num volteio ela bateu com o bra\u00e7o na cadeira de balan\u00e7o que vogava, sentiu-se dormente quando mais precisava dele, l\u00e1 fora j\u00e1 nadavam sem destino cavalos, c\u00e3es, ovelha, o olho continuava fixo na observa\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica, na vida fluvial, na latomia pluvial, no tempo e no gesto, na espera e na \u00e2nsia, no nado e no nada, nadavam e se esbofavam e voltavam ao mesmo lugar, aos bichos se juntaram o defunto e o caix\u00e3o, tudo num rodopio para o funil, para o cone, na descida verticatiginosa, ali seria definitivamente o Abreu, a mulher o olho viu no exato momento em que uma trave, caindo, alcan\u00e7ava-a na altura dos olhos jogando-a na escurid\u00e3o total, o sangue jorrando e \u00e1gua absorvendo-o, os peixes bicando-o, quase nenhum vermelho, e j\u00e1 a mulher, entre a vida e a morte, perdida a certeza, ia para o funil. No alto do frontal, na escurid\u00e3o e sob a chuva, o carneiro de pedra branca, sentado, montava guarda.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-14258\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif\" alt=\"hermilo_maq\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-144x144.gif 144w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><strong>Conto 02. Lindalva<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>Obra de uns seis para oito anos durava o namoro: sabonete Dorly nas segundas-feiras, brilhantina Flor de Amor nas ter\u00e7as, col\u00f4nia Royal-Briar nas quartas, talco Ross nas quintas, esmalte para as unhas nas sextas, nos s\u00e1bados uma lata de goiabada marca Peixe e nos domingos um p\u00e3o-de-l\u00f3 feito por sua tia, com quem morava desde que \u00f3rf\u00e3o ficara, Ant\u00f4nio Periquito das Neves C\u00e2ndido, mais conhecido como Candinho-das-Amas, especializado em aventuras dom\u00e9sticas para satisfa\u00e7\u00e3o do corpo, mas par constante de Lindalva, moradora na Rua da Ponte, quase em terras do Engenho Japaranduba, em cuja janela se debru\u00e7ava todas as noites \u00e0s sete, saindo \u00e0s dez, antes entregando-lhe o presente do dia, sem contar os das quatro festas do ano, no carnaval uma caixa de Vlan, pelo S\u00e3o Jo\u00e3o fogos-de-bengala, na festa da padroeira gravuras da santa, pelo Natal um bolo-de-bacia, isto sem levar em conta as frutas da esta\u00e7\u00e3o e outras bugigangas tais como biliros, fitas,meias,batons,ruges,marrafas, an\u00e9is de feira, pulseiras de vidro, brincos de fantasia, at\u00e9 mesmo um corte de fazenda.<\/p>\n<p>Desusados esfor\u00e7os envidava Candinho-das-Amas para o presente do dia, j\u00e1 que empregado nas reda\u00e7\u00e3o do tempo azeitando o eixo do sol, nos conformes dos dizeres da tia, ditos de bondade, incapaz de alevantar a voz para o seu menino,indo ele desde o pedido \u00e0 tia, em\u00e9rita boleira, aos pequenos roubos, \u00e0 venda de frutas do quintal, magros mil-r\u00e9is, suores frios, dias havia em que chegava a boca-da-noite, o com\u00e9rcio fechando e ele sem presente, dia de azar no v\u00edspora de Nen\u00ea Milha\u00e7o ou na fiche de Guar\u00e1, sempre por artes m\u00e1gicas os caramingu\u00e1s apareciam e o presente saia, nunca falhara uma s\u00f3 noite nos todos os dias que se decorreram em bem seis ou oito anos, conforme j\u00e1 se disse e se reafirma agora. Desassossego maior era no dia do anivers\u00e1rio de Lindalva quando a prenda deveria ter mais valia, podendo ser um par de sapatos ou mesmo um anel de alguns quilates dourados comprados a Doroteu, quase sempre \u00e0 presta\u00e7\u00e3o, est\u00e1-se a ver, o que desequilibrava completamente o plano or\u00e7ament\u00e1rio de Candinho-das-Amas, as pr\u00f3prias dom\u00e9sticas, \u00e0s vezes, contribuindo com uma propina p\u00f3s-coito, dada a sua per\u00edcia t\u00e9cnica, tudo servindo para o mealheiro dos presentes.<\/p>\n<p>Sete da noite, Pirangi batendo no sino do mercado, ele apontava na esquina e ao soar a \u00faltima badalada estava estendendo a m\u00e3o para Lindalva que justo naquele momento debru\u00e7ava-se na janela e estendia a sua para, antes, receber o presente, muito agradecida, colocando-o num canto, novamente estendendo a m\u00e3o que Candinho-das-Amas aninhava nas suas, contemplando o generoso decote, mas jamais avan\u00e7ava um cent\u00edmetro al\u00e9m da m\u00e3o, seria sua esposa um dia, tinha empregos prometidos, aventuras de corpo ficavam para as amas, nem sequer despertava fisicamente para Lindalva por enquanto, dizia, era o respeito, ficaria para a noite nupcial, Lindalva parece que ficava muito satisfeita com todos aqueles prop\u00f3sitos de castidade, mas curvava-se \u00e0 devo\u00e7\u00e3o e aos presentes. E conversavam sobretudo sobre os afazeres dom\u00e9sticos dela, a retreta do domingo, os achaques da m\u00e3e e o reumatismo do pai, o tempo com a chuva ou sol, as perspectivas da safra, o filme do Cine-Apolo, das sete \u00e0s dez, longas pausas de entremeio, as m\u00e3os suadas sem se mexerem, Candinho-das-Amas de pesco\u00e7o do\u00eddo de olhar para cima e de ba\u00e7o dormente da posi\u00e7\u00e3o, Lindalva de cotovelos escalavrados, mas firmes na noite, das sete \u00e0s dez, todas as aben\u00e7oadas noites estivais ou invernosas, nestas Candinho-das-Amas metido num capote de baeta, suando em bicas, mas enxuto, somente os p\u00e9s molhados, a chu\u00e7a martelando e ele agarrado nas m\u00e3os de Lindalva, das sete \u00e0s dez.<\/p>\n<p>No primeiro de dezembro deu-lhe o estalo: a oleografia da santa na sala de visitas da tia era o presente ideal para Lindalva no dia oito, festa da padroeira, festividade maior, quando da janela ouviriam os sons da banda de m\u00fasica, dos preg\u00f5es do leil\u00e3o, do brua\u00e1 que ali chegava, j\u00e1 que nunca os dois, juntos ou acompanhados, passearam pela pra\u00e7a, foram ao cine, compareceram a um baile. Dali da janela n\u00e3o saiam, tudo era ali, nas m\u00e3os dadas, das sete \u00e0s dez; e tome uma santa, a santa, sua imagem de santa em azul e r\u00f3seo, em brancos e carmins, em viol\u00e1ceos, mas a tia n\u00e3o lhe dava a santa, n\u00e3o abria a m\u00e3o da padroeira, fora presente do falecido, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, negava, obtemperava firme, ele juro que n\u00e3o ia fazer isto que far\u00e1 eu, Candinho-das- Amas menino dengoso no dia dois, adulador no dia tr\u00eas, amuado no dia quatro, os dias se passando, o dia se aproximando, fora de casa na noite do dia cinco, lacrimoso no dia seis, tentando suic\u00eddio de mentira no dia sete. Amea\u00e7ando de morte na tarde do oito, na noite do dia oito \u00e0s quinze para as sete com a padroeira debaixo do bra\u00e7o, embrulhada em papel celofane, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Rua da Ponte.<\/p>\n<p>E quando chegou no princ\u00edpio da rua olhou, com o cora\u00e7\u00e3o batendo, a janela iluminada, tal-e-qual como nas outras noites, s\u00f3 que naquela o cora\u00e7\u00e3o lhe dizia que alguma coisa de maior haveria de acontecer, foi andando e andando se aproximando com o cora\u00e7\u00e3o aos pulos, aos pulos chego era estender a m\u00e3o na batida das sete e Lindalva estender a sua, receber a santa, e as sete baterem e a janela vazia estava vazia ficou, de primeiro sentiu uma tonteira, coisa de pouca dura\u00e7\u00e3o que apareceu uma mulher, a mulher era a empregada que tinha visto raras vezes, a empregada lhe disse algo, nada ouviu, somente a m\u00e3o estendida da empregada com um papelito, poderia ser uma dose de sal amargo mas n\u00e3o era, talvez farinha-de-castanha mas tamb\u00e9m n\u00e3o era n\u00e3o, bicarbonato de s\u00f3dio e o tal n\u00e3o era, era papel de bilhete, desdobrou-o, com a lua que vinha da sala, a santa debaixo do bra\u00e7o, conseguiu l\u00ea-lo, as letras tr\u00eamulas: Candinho, resolvi depois de muito pensar e de muito sofrer acabar com o nosso namoro da sua amiga Lindalva e a da santa caiu e o vidro quebrou, deixou-la l\u00e1, abaixou-se e tirou os sapatos, deu um n\u00f3 nos enfiadores, enfiou-os no dedo, os sapatos numa m\u00e3o e o bilhete na outra, atravessou a rua, entrou na bodega confronte, balc\u00e3o, disse para o bodegueiro uma bicada, tomou-a, estendeu-lhe o bilhete, veja, Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva, saiu sem pagar e o bodegueiro deixou-o ir; atravessou o ria, foi bater na casa-grande do Engenho Paul, veio o vigia, meu compadre Lauro Paiva, quero falar com o meu compadre Lauro Paiva, veio o compadre Lauro Paiva, estendeu-lhe o bilhete, veja, Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva, n\u00e3o esperou resposta, desfez o caminho, mesmo de noite foi envolvido por uma nuvem e nela andou, voou, reatravessou o ria, subiu a ladeira da esta\u00e7\u00e3o, entrou sem pedir licen\u00e7a na\u00a0 do Doutor Bertoldo, mostrou-lhe o bilhete, Lindalva, Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva. Doutor Bertoldo deu-lhe um conhaque e um charuto, tomou o conhaque e acendeu o charuto, foi em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pens\u00e3o de Quiterinha, de puta em puta com o bilhete, veja, Lindalva \u00e9 mina amiga, minha amiga Lindalva; e no fu\u00e1 parou a orquestra, aos m\u00fasicos foi, de bilhete em punho, mostrando e falando Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva; e deixou-se ficar num canto, bebendo e babando, s\u00f3 murmurando Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva; invadiu a casa paroquial e tirou o padre Ab\u00edlio da conversa com os magn\u00edficos, ao padre mostrou, aos magn\u00edficos mostrou e para todos falou Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva; e no P\u00e1tio do Mercado chegou e a todos foi: ao homem do tivoli, ao bedegueba do pastoril, ao leiloeiro, ao homem da roleta, ao capit\u00e3o do bumba e ao vassoura do fandango, ao presidente do Clube Liter\u00e1rio e ao prefeito, todos leram o bilhete e ouviram sua afirmativa dolorida: Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva; e quando subiu as escadarias da igreja viu-a, dedo mindinho com o dedo mindinho com o caixeiro-viajante da f\u00e1brica Bordalo, ela se escolheu, o caixeiro-viajante que \u00e9 que h\u00e1 meu bem, ela nada, encolhida, s\u00f3 encolhida, Candinho-das- Amas na frente dos dois e de costa para os dois se postou, os sapatos pendurados no dedo, o bilhete na ponta dos outros, a camisa fora das cal\u00e7as e a gravata torta, o chap\u00e9u fora do prumo, bem junto, quase colado no casal, o olhar atravessando o p\u00e1tio, falando e eles ouvindo, falando: Quem chupou minhas laranjas-cravo \u00e9 s\u00f3 pagar;Quem recebeu meus biliros, minhas brilhantinas, meus extratos meus p\u00f3s-de-arroz as barraquinhas est\u00e3o a\u00ed mesmo; e continuou falando mesmo muito depois que o casal j\u00e1 n\u00e3o estava mais \u00e0s suas costas, saindo \u00e0 sorrelfa, e quando olhou de soslaio e viu que era lugar limpo, mesmo assim, em tom de discurso, continuoua relembrar os presentes dados e recebidos durante os seis para oito de janela das sete \u00e0s dez, juntando gente, a multid\u00e3o formada, e ele na fala\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que chegou o Cabo Luiz e o levou pelo c\u00f3s das cal\u00e7as at\u00e9 a beira do rio, mergulhou profundamente sua cabe\u00e7a dentro d\u00b4\u00e1gua para tirar as fuma\u00e7as de bebedeira, mas bebedeira era outra, foi o que ele disse \u00e0 autoridade, bebedeira de amor, senhor cabo, bebedeira de corno, e lhe nasceram chifres e pelas ruas correu, e pega daqui e pega dali, Lindalva j\u00e1 estava na barraca das prendas quando ele subiu \u00e0 torre da igreja e deu um brado Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva, e foi ela olhar para o alto e ele ir-se, adejou, passou por cima do Cine-Apolo, de chifres e asas, gritando at\u00e9 se perder, o eco cada vez mais fraco, Lindalva \u00e9 minha amiga, minha amiga Lindalva, e noticias dele n\u00e3o se teve, n\u00e3o foi pescado no rio nem encontrado na mata, deu-se como perdido e n\u00e3o se falou mais nele, nem mesmo Lindalva.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-14258\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif\" alt=\"hermilo_maq\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-144x144.gif 144w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><strong>Conto 03. A R\u00e3<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>No Coaxo, ela, na coaxada tardes e noites, a r\u00e3, j\u00e1 deveria estar acostumada, ela, a mulher, na beira do riacho corredor, s\u00f3 que nunca via a r\u00e3, nunca quase, quando a via tinha um nojo de arrepiar a pele, era uma ou eram mais?, dizer n\u00e3o saberia, s\u00f3 o coaxo dobrava com o vento, pior ainda na cruviana da noite, embora de mesmo de noite ao riacho s\u00f3 tivesse ido em caso de necessidade da mais premente, qual?: len\u00e7ol co diarreia de menino novo, len\u00e7ol com v\u00f4mito de marido, len\u00e7ol na primeira pancada do boi, coisas raras, anuais at\u00e9, riacho era coisa para de dia e de dia podia ver a r\u00e3, s\u00f3 que raramente j\u00e1 se disse, mas de noite era de ouvi-la na coaxa\u00e7\u00e3o, que animal coaxante a r\u00e3 nascera, da sua condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vai na manh\u00e3 de roupa na cabe\u00e7a, vai, ao riacho, pensamentos nenhum, brisa fresca e sol acabado de nascer, florzinhas pelas beiradas do caminho, amarelas, brancas, r\u00f3seas, essa coisa de passarinhos e insetos e bichinhos rastejantes e corredores, manh\u00e3 j\u00e1 se disse, e na picada vai, vai ao riacho, sozinha, aquele fio-d\u00b4\u00e1gua \u00e9 s\u00f3 para ela, aguada maior fica muito mais embaixo, l\u00e1 onde as lavadeiras mourejam, ela n\u00e3o \u00e9 lavadeira, lava o da tua casa, do seu homem de cama e mesa e dos outros:irm\u00e3os e filhos taludos, todos j\u00e1 na touceira da cana, nas v\u00e1rzeas e nas ch\u00e3s, s\u00f3 de tardinha chegariam; e l\u00e1 vai para o riacho, vai, se disse, se repete, \u00e9 necess\u00e1rio insistir nessa caminhada, vai l\u00e1, \u00f3 mulher, acocorada j\u00e1, a saia arrepanhada para dentro das coxas, \u00e0 mostra joelhos reluzentes, e sobre a pedra, no vuco-vuco do sab\u00e3o, os panos, os tim\u00f5es, as ceroulas, as an\u00e1guas, os corpinhos, cal\u00e7as e camisas de saco de farinha-de-trigo, peixinhos na ronda, bicando e repudiando o sab\u00e3o forte, ela l\u00e1, sol se levantando, tudo ao derredor e na pedra ao lado, sem saber como, a r\u00e3, pequenina, quase confundida com o cinzento da pedra, ela mas se apercebeu, quando viu a r\u00e3, arrepiou-se, afastou p arrepio, uma coisinha dessa resmungou, convenceu-se:n\u00e3o PE medo, \u00e9 nojo.<\/p>\n<p>A r\u00e3 pulou para outra pedra, oi, cresceu um pouquinho ou \u00e9 outra, intrigou-se ela, besteira, a mesma, n\u00e3o pode crescer num pulo, estirou as perninhas, foi isso, s\u00f3, baixou a cabe\u00e7a e voltou aos panos vendo o sab\u00e3o formar correntezas brancas, lavou e enxaguou at\u00e9 ver tudo alvo e sentir os bra\u00e7os do\u00eddos, ergueu-se no sol a pino estendeu os panos nas pedras para quarar, iria ao almo\u00e7o, voltaria ao de tardinha para apanhar a roupa, ajuntou os seus apetrechos, um sapo?, bem reparado n\u00e3o, uma r\u00e3, do tamanho sim, a mesma n\u00e3o podia ser, r\u00e3 nenhuma vai crescendo assim na vista da gente, arrepiou-se mas deu um muxoxo, afastou a r\u00e3 da cabe\u00e7a e p\u00f4s-se a caminhar na picada, para casa, ainda teria que fazer o almo\u00e7o dela e do dos homens, na picada seguia, uns baques fofos no capim, parou, olhou para tr\u00e1s, a r\u00e3, ela, crescera para o tamanho de um sapo-boi, n\u00e3o podia ser, gritou, dessa vez, grito em v\u00e3o, come\u00e7ou a correr, pulos fofos continuavam perto, avistou a casa, correu mais, adentrou a casa, trancou a porta, trancou as janelas, quando se sentou no tamborete, arfante, em cima da mesa, papo batendo, a r\u00e3, grande, de olhos pulados, ela e a r\u00e3 na casa fechada, correu para o quarto, passou a tramela na porta, na cama, maior ainda, comparado o tamanho a um peru-de-escova, dos grandes, a r\u00e3, papo batendo, boca rasgada.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foi a mulher para os campos, a r\u00e3 atr\u00e1s, sempre crescendo, voltou \u00e0 cas, a r\u00e3 maior, cansou a mulher, ficou derreada a um canto, todas as portas e janelas fechadas, a r\u00e3 crescendo, a s duas, a r\u00e3 e a mulher, j\u00e1 eram do mesmo tamanho, estavam juntas agora, o medo da mulher se fora, s\u00f3 faz mesmo fechar os olhos e esperar.<\/p>\n<p>Quando, de tardinha, os homens chegaram para o descanso e o de-comer, com portas e janelas trancadas gritaram e mais que gritaram e nada de nada, abaixo foi uma das portas, vasculharam toda a casa e n\u00e3o encontraram a mulher, foram aos campos, nada, no riacho as roupas continuavam quarando com pedrinhas em cima por causa do vento, voltaram \u00e0 casa, nada, somente em cima da mesa uma r\u00e3, uma pequena r\u00e3, uma r\u00e3 de parece que um dos homens, impaciente, afastou com um piparote.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq.gif\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-14258\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif\" alt=\"hermilo_maq\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-150x150.gif 150w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/hermilo_maq-144x144.gif 144w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Conto 04. A Anuncia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Pirangi nem viu nem nada. Devia ter sido posto depois que badalara as quatro, quer dizer, quando os profissionais da madrugada j\u00e1 circulavam e o dia amea\u00e7ava romper, os profissionais no inqu\u00e9rito negando de p\u00e9s juntos ter visto sequer sombra do capataz que se esquivava nos altos da Casa Almeida Tecidos Ferragens Secos e Molhados: MINHA VIDA \u00c9 VERBENA, um cartaz daqueles comumente usados pelo Cine-Apolo, papel branco sobre sarrafos entrela\u00e7ados, tinta azul, as letras mal feitas, mas Fanhim Deixa-que-eu-chuto, que percorria os pontos estrat\u00e9gicos da cidade carregando-os, botando-os e trocando-os, conforme a fita, chamado para o inqu\u00e9rito, tudo negou com maneios de cabe\u00e7a e resmungos, dele s\u00f3 se ouvindo claramente uma frase: Eu termino tomando na jatob\u00e1. O que intrigava mais mundo naquele sovaco da regi\u00e3o \u2013 frase somente dita uma vez pelo rec\u00e9m-advindo promotor Tertuliano Braga de Caldas, rec\u00e9m-egresso dos bancos acad\u00eamicos, somente dita uma vez porque jamais teve oportunidade de repeti-la, embora garantisse e solu\u00e7asse depois que fora uma brincadeira tr\u00eafega, j\u00e1 que removido imediatamente pelo governador em exerc\u00edcio, a pedido do prefeito em exerc\u00edcio \u2013 era como diabo de c\u00e3o aquele cartaz t\u00e3o grande podia ter sido i\u00e7ado e amarrado a arame no p\u00e1ra-raios.<\/p>\n<p>E come\u00e7aram as especula\u00e7\u00f5es e os cochichos, os murm\u00farios e os disses, os ouvi dizer, os segredinhos, as inten\u00e7\u00f5es, os dedos apontados, houve quem primeiro pensasse nas artimanhas do vizinho munic\u00edpio de Catende, cujo time de futebol fora lavado no \u00faltimo domingo, depois debaixo de tudo quanto pedra encontrada numa redondeza de dois quil\u00f4metros para bombardear o trem que levara de volta os vencidos, uma das pedras recocheteantes acertando em cheio nos cornos do tabeli\u00e3o apelidado de Chico Viperino, casado com a matrona In\u00e1cia Lambe-Lambe, sobejadamente conhecidos e reconhecidos como os maiores papadores da vida alheia, e em cuja casa acudiam as comadres e os compadres para pensarem em t\u00e3o magno enigma, Chico Viperino ainda de gaze na cabe\u00e7a, Lambe-Lambe recebendo as visitas, ele est\u00e1 completamente quase bom, o tabeli\u00e3o na espregui\u00e7adeira mais ouvia do que falava para significar i pesaroso do seu estado, mas quando falava era na chincha, e abria perspectivas imensas de assombro nos olhos quando a compreens\u00e3o chegava, dele partindo a ideia de que a mulher do prefeito, uma das da roda, falasse sem peti\u00e7\u00e3o ou requerimento, na intimidade, ao seu em\u00e9rito marido no sentido de que congregasse todas as for\u00e7as para elucida\u00e7\u00e3o do enigma que tanto vinha inquietando a vida da cidade: os membros da Associa\u00e7\u00e3o Comercial, os da Sociedade Uni\u00e3o Humanit\u00e1ria, os do Recreio Familiar, os do Clube Liter\u00e1rio, entre eles ju\u00edzes e o promotor e o delegado, sobretudo estes tr\u00eas, respons\u00e1veis diretos pela tranq\u00fcilidade di vale, afirmando com muita seriedade, rosto preocupado, s\u00e1bado faz quinta-feira que botaram o cartaz e ningu\u00e9m ainda n\u00e3o sabe de nada.<\/p>\n<p>A mulher do edil sentiu-se feliz por ter outra ocupa\u00e7\u00e3o na vida que n\u00e3o a de levar bolachas Maria santinhos coloridos e rap\u00e9, uma vez por m\u00eas, para os tr\u00eas trancafiados cr\u00f4nicos na cadeia p\u00fablica: Gogu\u00e9ia, Bole-Bole e Bole-sem-Tempo, e p\u00f4s-se a galopar no campo das suas amizades, com ordem do marido, a sess\u00e3o tendo lugar na sala de audi\u00eancias do Pa\u00e7o Municipal, o beletrista Costinha, arauto dos sentimentos de toda a popula\u00e7\u00e3o, apelando para as autoridades constitu\u00eddas no sentido de elucida\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, a primeira provid\u00eancia consistindo na retirada do acintoso cartaz, coisa prim\u00e1ria na qual ningu\u00e9m havia pensado; a segunda como sugest\u00e3o, mandando que o funcion\u00e1rio competente verificasse nos livros de licen\u00e7a se licen\u00e7a fora concedida e a qual ente e vivente, para aposi\u00e7\u00e3o do cartaz em pauta, ausente a qual se caracterizaria a culpa; e terceira e \u00faltima, por\u00e9m n\u00e3o menos importante, uma missa campal ao mesmo tempo de agravo e desagravo pela aud\u00e1cia de inquietar a heroica cidade.<\/p>\n<p>Foi a partir, pois, da manh\u00e3 seguinte a esta tarde, quando as autoridades houveram por bem acatar as sugest\u00f5es do poeta Costinha, futuro camisa-verde, que a cidade come\u00e7ou a viver em p\u00e9-de-guerra, na inquieta\u00e7\u00e3o maior. Para come\u00e7ar, \u00e0s oito horas, mas o com\u00e9rcio abrindo as suas portas, chegaram os pr\u00f3ceres e a banda de musica Siri-na-Lata, bem defronte da Casa Almeida tecidos Ferragens Secos e Molhados, a banda atacando um dobrado lento de enterro ou prociss\u00e3o de sexta-feira santa, Fanhim Deixa-que-eu-Chuto subiu como um macaco, sem escada nem nada, pelas anfractuosidades da parede principal do estabelecimento comercial, amarrou o cartaz criminoso a uma corda e ele desceu rodando para os bra\u00e7os do Cabo Lu\u00eds, dali diretamente para a fogueira preparada para tal fim, que o engoliu em dois tempos, alguns mais temerosos receando papocos, mas nada aconteceu, pelo que a Siri-na-Lata atacou um dobrado vibrante e todos voltaram ais quefazeres. O mesmo Cabo Lu\u00eds, acompanhado por tr\u00eas pra\u00e7as, de ordem do excelent\u00edssimo senhor doutor juiz de direito desta comarca, aos trinta do m\u00eas de mar\u00e7o, varejou os hot\u00e9is de Dona Quit\u00e9ria, Boca-de-r\u00e3, Doroteu e os Familiar, convocando, melhor dito intimando todo e qualquer caixeiro-viajante que l\u00e1 estivesse aboletado para comparecer no prazo de trinta minutos \u00e0 sala do j\u00fari no intuito de ser submetido a um interrogat\u00f3rio destinado a apurar, no respectivo inqu\u00e9rito, o respons\u00e1vel pela coloca\u00e7\u00e3o do cartaz nos altos da Casa Almeida Tecidos Ferragem Secos e Molhados, sob pena de arcar com rigores da lei, que iam desde os previstos no C\u00f3digo Penal aos aplicados nas caladas e gritadas da noite: cinco, os que estavam na cidade, compareceram, declarando que sem coa\u00e7\u00e3o, mas nenhuma de suas representa\u00e7\u00f5es se ligava, embora remotamente, a qualquer produto de beleza, suposi\u00e7\u00e3o primeira das damas dos pr\u00f3ceres, tendo em vista a palavra verbena. Um vendia produtos farmac\u00eauticos altamente especializados em s\u00edfilis, blenorragia, mula, quarta-ven\u00e9rea, afogagem, crista-de-Galo, cavalo, cancro-mole; outro se dedicava unicamente \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o dos produtos regeneradores das for\u00e7as vitais como o Reconstituinte Silva Ara\u00fajo, o Biot\u00f4nico Fontoura (<em>cada frasco acompanhado pelo Jeca Tatu de Monteiro Lobato<\/em>), o Gluconato de C\u00e1lcio Alem\u00e3o; o terceiro aos xaropes contra as tosses, fossem coqueluche, piado de gato, seca, bronquite, catarral: Bromil, Rum Creodotado, Creosoto de Faia, Fimatosan: o pen\u00faltimo se especializara em medicamentos para o aparelho digestivo: Elixir de Inhame, Bicarbonato de S\u00f3dio Cooper, Gotas-Amargas do Doutor Gilvan; e o derradeiro aos problemas da escassez ou da abund\u00e2ncia feminina nos seus fluxos mensais: sa\u00fade da Mulher e Regulador Gesteira (N\u00b0 1 e N\u00b02). Absolvidos e aliviados reuniram-se \u00e0 noite no caf\u00e9 de Nen\u00ea Milha\u00e7o, beberam d\u00fazias de cerveja alternada com goles de Genebra Foquim, vomitaram no sal\u00e3o, quebraram algumas mesas e terminaram dormindo no xilindr\u00f3, por castigo na mesma cela de Bole-Bole que fedia mais do que nunca, j\u00e1 que a dign\u00edssima do prefeito, afobada, atarefada e tonteada pela campanha anticartaz, l\u00e1 se esqueceu de ir e insistir para que ela tomasse o seu banho mensal de leco-leco.<\/p>\n<p>No segundo dia das diligencias o promotor teve uma intui\u00e7\u00e3o condoreira: S\u00f3 podem ter sido os bolchevistas. Foi o quanto bastou para que o juiz expedisse de boca a ordem de pris\u00e3o e o delegado chamasse o Cabo Lu\u00eds com os seus pra\u00e7as para cumpri-la, o Cabo indo direto \u00e0 Rua da Ponte onde o \u00fanico intelectual bolchevista da cidade morava com a sua mulher fazedora de bolo-de-gome, entala-gato, batintope, bolas de cambar\u00e1, vendidos em tabuleiro dos dois: Zumba-Dent\u00e3o, que assim chamado porque nas centenas de pris\u00f5es por que passara arrancando-lhe as unhas e todos os dentes menos o grand\u00e3o da frente, jamais nada se provando porque coisa nenhuma existia, mas ele pagando por qualquer malfeito impune na cidade, seria mais uma vez, podia ser tudo maneiro ou n\u00e3o, na verdade j\u00e1 se fazia muito tempo que era s\u00f3 protocolar, na faz-de-conta, no arremedo, n\u00e3o tinha mais gra\u00e7a; mas se precisava esgotar todos os recursos na elucida\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, uma vez seria a primeira, e Zumba-Dent\u00e3o poderia ter se fingido de morto por todo esse tempo; foi chegando na delegacia e para in\u00edcio das conversa\u00e7\u00f5es, por ordem do delgado, levou um tapa-olho do Cabo Lu\u00eds que viu tudo rodar, tombou, caiu, quando se levantou: se mal pergunto, por que motivo?, levou outro que achanou o p\u00e9 da goela, procurando ar, nas pontas\u00a0 dos p\u00e9s, como se o ar estivesse acima dele, foi se aquietando, calado estava calado ficou, ent\u00e3o l\u00e1 vai pergunta, chovia pergunta de todo o lado, o triunvirato \u2013 juiz, promotor, delegado \u2013 s\u00f3 observando, quem interrogava era Costinha, o vate langoroso das valsas dan\u00e7adas no Clube Liter\u00e1rio recitando, entredentes, para a dama nunca morrer assim, num dia assim, \u00e1gil na inquiri\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00f5es de escriv\u00e3o da pol\u00edcia, se Zumba-Dent\u00e3o suava ele suava mais ainda, pulava na ponta dos p\u00e9s, tomava goles de gasosa de bolinha, arrotava fofo, incans\u00e1vel, perquiridor, quer perder o dente?, e o interrogado s\u00f3 sabia dizer n\u00e3o sai da minha casa; pararam para almo\u00e7ar, os quatro, posso ir embora?, de t\u00e3o espantados se engasgaram, bateram uns nas costas dos outros, borrifos, goles, admira\u00e7\u00f5es, continuaram pela tarde adentro, n\u00e3o sa\u00ed da minha casa, no fim da tarde o vate chamou o Cabo Lu\u00eds e disse arranque , Zumba-Dent\u00e3o abriu a boca, o Cabo chegou com a torqu\u00eas, houve um suspense, segurou no p\u00e9 do dente e puxou, quase nem saiu sangue, quase tamb\u00e9m que nem doeu, a noite j\u00e1 estava chegando, o juiz na cal\u00e7ada se encontrando com o doutor Bertoldo se lembrou que no dia, melhor na noite assinalada\u00a0 o bolchevista estava mesmo de cama com uma disenteria dos diabos, ele l\u00e1 estivera, o quarteto riu, o doutor se afastou balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, uma semana depois era Zumba-sem-Dente para todos os efeitos.<\/p>\n<p>No terceiro dia, por den\u00fancia estrita e an\u00f4nima, s\u00f3 que todo mundo sabia que quem escrevia carta-an\u00f4nima ali era Lambe-Lambe, foi chamado o conhecido herban\u00e1rio e homeopata Alfredinho-Bom-de- Cheiro, mais amarelo que nunca via de c\u00e3ibra de medo, interrogado com meticulosidade, tartamudeantemente respondendo \u00e0s quest\u00f5es, negando, jamais, juro, lidei com as verbenas, da fam\u00edlia das verban\u00e1ceas, conhecidas vulgarmente por camaradinhas, recitando pois o verbete do Dicion\u00e1rio da L\u00edngua \u00a0de Jaime Seguier, aqui s\u00f3 encontradas nos mais provectos jardins das mais ilustres casas das mais ilustr\u00edssimas damas, como poderia eu? , nunca fiz estudos de tal delicadeza tamanha, repito, amea\u00e7as mil n\u00e3o surtira, efeito, Alfredinho-Bom-de-Cheiro, de cara com a maldade e a tortura (tinham um odor dos mais estranhos, asseverou depois, uma mistura de sovaco de soldado com merda de urubu dilu\u00edda em mijo de vaca prenhe) , j\u00e1 passava do amarelo, para o verde p\u00e1lido, depois em verde mais carregado, cor de folha mesmo, parecia um calango vestido de fraque. Vai ent\u00e3o o excelent\u00edssimo senhor doutor juiz de direito dos nascimentos casamentos e \u00f3bitos desta comarca aos tantos interrompeu a m\u00e3o na cara de Alfredinho-bom-de-Cheiro, a m\u00e3o gordinha quase escura da vate Costinha, com uma pena rec\u00f4ndita, homem de bons sentimentos, e mandou parar, estou convencido de que esse pobre diabo nada ter a ver com a coisa. Foi o que mais insultou o herban\u00e1rio, que de l\u00e1 saiu furioso, da\u00ed em diante, quando podendo, com as maiores precau\u00e7\u00f5es, insultando a autoridade, tenho a minha personalidade, sou homem pra ag\u00fcentar repuxo, n\u00e3o fujo da parada, s\u00f3 n\u00e3o admito insultos \u00e0 minha personalidade nem nome de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Diabo de uma merda de cidade desse tamanho, j\u00e1 se vasculhou tudo, n\u00e3o se sabe mais o que se fa\u00e7a, afirmava o doutor juiz de direito numa partida de gam\u00e3o com Santos Lafaeite, ao entardecer do dia, n\u00e3o se encontra o criminoso que tanto tem agitado a ordeira popula\u00e7\u00e3o com aquele seu cartaz est\u00fapido sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a. Isto por haver passado grande parte do dia anterior e toda a tarde desse inquirindo com palavras, quirisadas, chapuletadas bem distribu\u00eddas os marginais do burgo. Vieram Mateus de bumba-meu-boi, bedeguebas de pastoril, capit\u00e3es da fandango, mamulengueiros, mestre de samba-de- baque e ningu\u00e9m sabia nada, ningu\u00e9m, jamais tivera not\u00edcia de autor de tal proeza que um deles, porta &#8211; voz da ral\u00e9 afirmou como sendo a mais ign\u00f3bil j\u00e1 perpetrada naquelas cercanias. Assinaram um termo se comprometendo a delatar o infrator, indo at\u00e9 mais al\u00e9m, assinaram um termo se comprometendo a sindicar nas camadas baixas em que viviam os falat\u00f3rios que pudessem levar \u00e0 elucida\u00e7\u00e3o daquele mist\u00e9rio de Paris no dizer de Lel\u00e9 o fot\u00f3grafo. Mas se fosse esperar por isso, sabiam, iriam esperar sentados, pois aquela gente n\u00e3o tem nenhum pudor, nenhum pejo, nenhum sentido social de solidariedade humana, sou eu quem diz, eu Costa Andrada, interrogador.<\/p>\n<p>Foi o caso que favoreceu o Cabo Lu\u00eds, sem estar no seu cumprimento do dever nem nada, n\u00e3o era direito, foi o que os bengala-fumengas disseram depois, n\u00e3o valia, cogitaram at\u00e9 de mandar o Cabo desta vida para a outra, desistindo da ideia somente porque n\u00e3o sendo tempo de elei\u00e7\u00e3o nenhum babaquara os protegeria do castigo da justi\u00e7a, que invocada seria e alcan\u00e7aria a todos, justi\u00e7a n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, religi\u00e3o e posi\u00e7\u00e3o social: o cabo Lu\u00eds estava sentado no botequim de Guar\u00e1, toando de gra\u00e7a as suas habituais cacha\u00e7as de raiz, quando chegou Dorot\u00e9ia-Rabo-Peludo de maletinha na m\u00e3o, foi uma alegria de todos, como se foi de Gameleira?, demorou muito, tome um guaran\u00e1 Fratelli, conte as festas, e La vai palavras, l\u00e1 vai risada, l\u00e1 v\u00e3o ditos e nega\u00e7as, l\u00e1 vai piadinhas,e entrelinhas, el\u00e1 vai coisa, e no meio de um daqueles sil\u00eancios que se fazem em toda a reuni\u00e3o, alto e bom som Doroteia-Rabo-Peludo perguntou com a maior naturalidade do mundo onde est\u00e1 Verbena que faz ponto aqui toda noite a essa hora? As l\u00ednguas pronunciaram palavras jamais pensadas na \u00e2nsia de fazer barulho para abafar a interroga\u00e7\u00e3o por demais comprida ali\u00e1s e eram todas ao mesmo tempo mais aos gritos do que \u00e0s falas e de repente foi um grito maior que fez voltar o sil\u00eancio e La estava o Cabo Lu\u00eds de olhos injetados olhando nos olhos de cada um, era s\u00f3 escolher, avan\u00e7ou e abecou Guar\u00e1, arrastando-o por cima do balc\u00e3o, voc\u00ea vai comigo, Doroteia-Tabo-Peludo n\u00e3o entedia o que estava passando, quis intervir, puxaram-na para um canto, calma mulher, depois eu explico, n\u00e3o se meta agora, deixe que Guar\u00e1 sabe o que pode fazer.<\/p>\n<p>Guar\u00e1 sabia o que podia fazer mas n\u00e3o aguentou mais de quarenta e oito horas. Que aguentou, aguentou: pau na marra, pau na bunda, cacetada nos penduricalhos, cacete no ventoso, extra\u00e7\u00e3o de dentes e de pentelhos, arranco da unha do indicador da desta e quebra do dedo m\u00ednimo da sinistra, novamente cacete na panasqueira. Na noite do segundo dia, sem querer, o Cabo Lu\u00eds acertou com o fraco de Guar\u00e1 que jamais comera comida quente em sua vida desde que a m\u00e3e lhe contara todas as noites durante cinco anos, para dormir e lhe trazer pesadelos, a est\u00f3ria de \u00e1gua meu netinho azeite senhora av\u00f3: fel\u00e1 da puta, se voc\u00ea n\u00e3o abrir o focinho eu lhe meto um ovo quente na boca e costuro com arame. Guar\u00e1 ainda pensou que fosse somente amea\u00e7a, mas quando viu o dito referido numa colher de sopa, pegando fogo, engasgou-se e obrou tudo:\u00a0 diz que Verbena deixou a vida de puta para amigar-se com Otoniel, o filho de Odin; diz que sim, aquele mesmo que vive fazendo novenas contra as ordens do Padre Al\u00edpio e que \u00e9 devoto de S\u00e3o Sebasti\u00e3o; diz que amor \u00e0 primeira vista, que Otoniel jamais conhecera mulher vivendo das bem tocadas gloriosas, aqui estou livre de pegar doen\u00e7a feia, aqui estou livre de roubar mulher alheia; diz que em dois dias Verbena se apaixonou Poe ele, que foram morar juntos numa casinha no Alto do Matadouro, que de t\u00e3o alegre Otoniel escrevera ele mesmo aquele cartaz e de madrugada colocara-o no altos da Casa Almeida Tecidos Ferragens Secos e Molhados com a maior inoc\u00eancia sem saber de posturas municipais e seguran\u00e7a nacional, somente para anunciar o amor; diz que o infrator de nada est\u00e1 sabendo, pois al\u00e9m de nada entender afora santos e agora amor, ningu\u00e9m quis incomod\u00e1-lo durante esse per\u00edodo. Diz mais que s\u00e3o as mulheres e os jogadores do Alto do Lenhador que est\u00e3o sustentando o casal e que quando passar a tes\u00e3o original Otoniel era trabalhar com ele depoente, Verbena podendo fazer a vida at\u00e9 a hora de irem para casa; e o que disse mais estava fora das t\u00e1buas da lei pelo que foi na palavra casa lido e achado conforme assino a presente declara\u00e7\u00e3o por livre e espont\u00e2nea vontade Menelau Alves da Silva vulgo Guar\u00e1.<\/p>\n<p>Foi por iniciativa pr\u00f3pria que o Cabo Lu\u00eds agiu daquela maneira, conforme ficou provado no inqu\u00e9rito que se seguiu, nem mesmo chegando a ir a j\u00fari, muito menos cadeia, afastado do cargo durante uma semana enquanto juiz, promotor e delegado verificavam a melhor maneira de tirar a pobre autoridade subalterna daquela enrascada. Foi assim: deixando Guar\u00e1 aos tombos quebrados dirigiu-se \u00e0 moradia do casal l\u00e1 para as onze da noite, sem chamar nem mo\u00e7o botou a porta abaixo com a coronha do rifle, arrastou Otoniel de olhos redondos de cima de Verbema de olhos mortos at\u00e9 o quintal e l\u00e1 deu-lhe uma coronhada bem aplicada para come\u00e7ar a brincadeira mas a brincadeira terminou ali na mesma hora subitamente espoucada sem ais e quando o Cabo constatou aquilo n\u00e3o fez mais que lan\u00e7ar um suspiro, n\u00e3o ia divertir-se, do que ele fez depois n\u00e3o h\u00e1 testemunhas visuais ou auriculares, nem mesmo Verbena testemunha da primeira parte que desmaiou durante horas at\u00e9 ser socorrida pelas ventoinhas outras.<\/p>\n<p>Quando a barra do dia ia quebrando aqueles que passavam no Cruzeiro podiam distinguir um vulto nele pregado e os que tiveram a coragem demasiada de aproximar-se reconheceram Otoniel, filho de Odin, um fac\u00e3o rabo-de-galo enfiado no peito, Entre o peito e o cabo da l\u00e2mina um cartaz: O REI DOS FRESCOS. Mas quando o dia clareou de vez, Otoniel na estava mais l\u00e1. Em casa do juiz bebiam-se os \u00faltimos c\u00e1lices de Quinado Constantino, enquanto os not\u00e1veis da cidade preparavam-se para regressar \u00e0 paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltados para artistas iniciantes de teatro e de dan\u00e7a, respectivamente O Aprendiz em Cena e O Solo do Outro, est\u00e3o com inscri\u00e7\u00f5es abertas at\u00e9 o dia 30 de julho. Esses dois Pr\u00eamios de Pesquisa est\u00e3o focados Neste ano na obra do teatr\u00f3logo, diretor e cr\u00edtico liter\u00e1rio Hermilo Borba Filho. 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