{"id":12915,"date":"2014-11-28T09:17:01","date_gmt":"2014-11-28T12:17:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12915"},"modified":"2015-10-28T02:55:04","modified_gmt":"2015-10-28T05:55:04","slug":"operario-do-teatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/operario-do-teatro\/","title":{"rendered":"Oper\u00e1rio do teatro"},"content":{"rendered":"<p>Moacir Chaves chegou a fazer a proposta para a mulher e os dois filhos: deixar o Rio de Janeiro e virem morar no Recife. A fam\u00edlia n\u00e3o aceitou. Ele diz que, mesmo sendo uma metr\u00f3pole, Recife tem um ritmo mais tranquilo do que o Rio ou S\u00e3o Paulo. Mas o diretor que tem no curr\u00edculo mais de 40 espet\u00e1culos, muitos deles premiados, n\u00e3o faz s\u00f3 elogios: acha um absurdo que a cidade n\u00e3o demonstre sua for\u00e7a cultural no teatro, o que estaria ligado, por exemplo, \u00e0 aus\u00eancia de um curso de forma\u00e7\u00e3o do ator. <\/p>\n<p>Na semana passada, Moacir Chaves veio a Pernambuco por dois dias para os \u00faltimos ensaios de <em>Rei Lear<\/em>, montagem que assina para a Remo Produ\u00e7\u00f5es e que encerra curt\u00edssima temporada neste domingo (30). \u00c9 a segunda vez que o carioca trabalha com as atrizes Paula de Renor e Sandra Possani (que em <em>Rei Lear<\/em> s\u00e3o tamb\u00e9m acompanhadas por Bruna Castiel). A encena\u00e7\u00e3o de <em>Duas Mulheres em Preto e Branco <\/em>tamb\u00e9m ficou sob a responsabilidade dele; e foi dele tamb\u00e9m a ideia de encenar Shakespeare tendo apenas tr\u00eas mulheres no elenco. <\/p>\n<p>A conversa com Ivana Moura e Pollyanna Diniz, que incluiu temas como teatro de grupo, forma\u00e7\u00e3o do ator, atitude pol\u00edtica e televis\u00e3o, no entanto, foi realizada meses antes, em janeiro, quando Moacir trouxe ao Recife duas de suas montagens com o Grupo Alf\u00e2ndega 88: <em>O Controlador de Tr\u00e1fego A\u00e9reo<\/em> e <em>A Negra Felicidade<\/em>. No Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos, ele foi tamb\u00e9m um dos jurados do pr\u00eamio Apacepe de Teatro e Dan\u00e7a na categoria teatro adulto. Viu de perto as defici\u00eancias do teatro pernambucano, mas tamb\u00e9m as suas possibilidades.<\/p>\n<div id=\"attachment_12917\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/MoacirChaves1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12917\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-12917 size-full\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/MoacirChaves1.jpg\" alt=\"Moacir Chaves\" width=\"600\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/MoacirChaves1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/MoacirChaves1-300x205.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12917\" class=\"wp-caption-text\">Moacir Chaves<\/p><\/div>\n<p><strong>ENTREVISTA \/\/ MOACIR CHAVES<\/strong><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem uma forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica em teatro. Voc\u00ea sempre pensou no teatro?\u00a0<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Fiz parte de um grupo de teatro quando era garoto, em Teres\u00f3polis, mas por acaso. Um amigo que tocava viol\u00e3o me levou. Era um grupo bacana. Eles montavam uma pe\u00e7a por ano, apresentavam e, com o dinheiro, a gente ia numa pizzaria e ia ver uma pe\u00e7a no Rio. Eu nunca tinha ido ao teatro. Morava numa cidade de interior, Teres\u00f3polis. Mas, desde sempre, participei de qualquer coisa que tivesse a ver com teatro na escola, por uma coisa muito simples: eu era bom aluno de portugu\u00eas e era escolhido. Nunca fui desinibido. Pelo contr\u00e1rio! Sempre fui muito fechado, t\u00edmido. Mas normal tamb\u00e9m&#8230; jogava bola, fazia tudo. Eu era inibido com meninas, basicamente! Nunca escolhi fazer teatro. Entrei nesse grupo e a gente foi fazendo. Depois, fui para o Rio estudar Geologia. Teatro n\u00e3o existia! N\u00e3o era uma possibilidade! Nem sabia que existia universidade de teatro! Nesse primeiro ano no Rio, 1982, com 17 anos, descobri que, de fato, eu adorava teatro, porque era o que eu fazia. Ia ao teatro todos os dias. Vi todas as pe\u00e7as em cartaz aquele ano. Todas. Ningu\u00e9m viu mais teatro em 1982 do que eu. A\u00ed fiquei doido pra fazer um curso de teatro. Vi num \u00f4nibus uma propaganda de um curso. Fiz curso no Circo Voador, depois descobri que tinha uma escola de teatro chamada Martins Pena. Fiz vestibular para a Unirio e comecei Teoria do Teatro. J\u00e1 entendia que eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito forte com o teatro.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 um espectador desde ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio ver. Vou atr\u00e1s das coisas, sempre fiz isso. Bem garoto, tinha uma pe\u00e7a em S\u00e3o Paulo, eu pegava um \u00f4nibus e ia ver. Todos os primeiros dinheiros que ganhei em teatro, gastei viajando pra ver teatro. Isso \u00e9 parte da minha forma\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 expl\u00edcito. Quando eu ia ver uma pe\u00e7a que eu sabia que era legal, lia o texto antes. Eu sabia da car\u00eancia que eu vivia, que era muito grande, ainda \u00e9 muito grande, mas hoje menos, porque hoje a gente tem acesso via internet a um monte de coisa, viajar hoje \u00e9 mais barato; e o que tinha para ver eu via. Eu via tudo.<\/p>\n<p><strong>Alguns encenadores rejeitam o teatro dos outros.<\/strong><br \/>\nEu nem era encenador! Eu era um garoto que adorava teatro. At\u00e9 hoje vou ver qualquer coisa. Quando vou montar uma pe\u00e7a, tenho muita vontade de ir ao teatro. Quero ver como as pessoas fazem, o que elas resolvem, quais s\u00e3o as quest\u00f5es, quero comparar com o que eu estou pensando. Isso \u00e9 bobagem, idiotice! Arte n\u00e3o tem propriedade. N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea! S\u00e3o as coisas que est\u00e3o atrav\u00e9s de voc\u00ea. N\u00e3o sou eu! Estou estudando um monte de coisa, aprendendo, e tenho que soltar essas coisas todas. Daqui a pouco a gente vai embora! Daqui a pouco a gente morre. E a\u00ed? E aquilo tudo que passou por voc\u00ea, que voc\u00ea descobriu? Eu tenho um problema s\u00e9rio agora, tenho que terminar o doutorado. A coisa que mais me estimula a conseguir, porque eu n\u00e3o sou um profissional intelectual, eu leio muito, estudo muito, mas eu n\u00e3o sou um cara que senta, escreve, l\u00ea, que tem que ter produ\u00e7\u00e3o intelectual. N\u00e3o, minha produ\u00e7\u00e3o \u00e9 art\u00edstica. O que me motiva, o que me faz ser completamente disciplinado \u00e9 ensaiar, trabalhar, ensaiar, trabalhar. Para produzir escrita eu n\u00e3o sou nada disciplinado. Mas o que me instiga a, de fato, levar adiante o doutorado \u00e9 tentar por de uma forma menos et\u00e9rea, menos vol\u00favel, pensamentos a respeito de uma obra, para que fique. N\u00e3o para que eu seja o autor de alguma coisa ou que tenha originalidade. A quest\u00e3o da originalidade em arte \u00e9 a coisa mais equivocada que existe. O artista n\u00e3o pode pensar em ser original. Isso \u00e9 uma fal\u00e1cia, um equ\u00edvoco. O cara tem que trabalhar com o real, n\u00e3o no sentido de reprodu\u00e7\u00e3o do real, mas com a vida, com as coisas que est\u00e3o a\u00ed. Isso \u00e9 coisa do mercado. Quem tem que ser original \u00e9 a cerveja, o carro. Eles que t\u00eam que ser originais. N\u00f3s n\u00e3o. Nenhum grande artista tem problema com originalidade. O cara rouba e rouba e \u00e9 isso a\u00ed. O Brecht \u00e9 um ladr\u00e3o tremendo e assumido. E da\u00ed? Mas se n\u00e3o fosse o Brecht, n\u00e3o existiria aquela obra dele, a despeito de todos os auxiliares que ele \u201cexplorou\u201d, ou todas as fontes que ele utilizou. Da mesma maneira Shakespeare, e etc, etc. Todo mundo!<\/p>\n<p><strong>A sua hist\u00f3ria foi baseada no teatro de grupo?<\/strong><br \/>\nA \u00fanica maneira de se trabalhar bem \u00e9 trabalhar muito e em continuidade. Grupo, coletivo, companhia, n\u00e3o tem nenhuma ideologia nisso. \u00c9 por que ou voc\u00ea trabalha com parcerias e desenvolve vocabul\u00e1rio, e cresce junto, e vai adiante, trocando, indo e voltando, ou \u00e9 uma perda de tempo. N\u00e3o sou nada sect\u00e1rio. Trabalho com quem for. S\u00f3 n\u00e3o fa\u00e7o televis\u00e3o porque pra fazer televis\u00e3o voc\u00ea tem que fazer s\u00f3 televis\u00e3o. Porque aquilo \u00e9 divertido. Comecei a fazer teatro porque me divirto, porque gosto de teatro. N\u00e3o comecei a fazer teatro por nenhuma outra coisa. Adoro estreia! N\u00e3o fico nervoso em estreia! Gosto de saber o que as pessoas v\u00e3o achar, gosto de ver se aquele neg\u00f3cio vai funcionar, como \u00e9 que as pessoas v\u00e3o receber. Quando a gente n\u00e3o faz bem por um ou outro motivo, quando alguma coisa ruim acontece, s\u00f3 fico triste porque, ai que pena, as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram melhores, o ator estava doente, sei l\u00e1, qualquer coisa! Ou esse dia n\u00e3o foi bom&#8230;teatro \u00e9 dific\u00edlimo! Teatro n\u00e3o fica bom. Teatro tem que ser bom, tem que ser bom todo dia. N\u00e3o \u00e9 como essas coisas mais \u2018faceizinhas\u2019, cinema, voc\u00ea fez e est\u00e1 pronto. N\u00e3o! A gente \u00e9 uma desgraceira s\u00f3! Voc\u00ea fez e n\u00e3o est\u00e1 pronto! Tem que fazer de novo e de novo. A quest\u00e3o de grupo \u00e9 s\u00f3 isso. Tem que trabalhar continuamente e tem que trabalhar seguindo um rumo. E a\u00ed infelizmente aqui a gente n\u00e3o tem companhias de teatro. As companhias no Brasil s\u00e3o duas, n\u00e9? A Globo e a Record. Voc\u00ea n\u00e3o tem outra. O que de fato se mant\u00e9m? Tem o Galp\u00e3o, mas \u00e9 t\u00e3o limitado, t\u00e3o fechado, porque o Galp\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Galp\u00e3o. Claro que o Galp\u00e3o d\u00e1 milhares de frutos e \u00e9 um trabalho sensacional, mas o Galp\u00e3o tem que se renovar, porque o Galp\u00e3o n\u00e3o pode acabar quando as pessoas do Galp\u00e3o acabarem.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea outros casos&#8230;o Oficina, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 um grupo&#8230;\u00e9 Z\u00e9 Celso?<\/strong><br \/>\nO Oficina n\u00e3o \u00e9 um grupo. O Oficina \u00e9 uma coisa que fica em torno do Z\u00e9 Celso e que algumas pessoas permanecem. \u00c9 um n\u00facleo. Mas \u00e9 preciso que as pessoas n\u00e3o se juntem para projetos e projetos e sim que vivam daquilo. E que tenham treinamento, apresenta\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>O \u00d3i N\u00f3is, por exemplo&#8230;<\/strong><br \/>\nO \u00d3i N\u00f3is talvez. N\u00e3o sei como \u00e9 que funciona. Claro que tem, mas \u00e9 tudo muito t\u00eanue e ralo. Um grupo deveria ter 30 pessoas. Isso n\u00e3o \u00e9 nenhum absurdo. Essa companhia de dan\u00e7a que veio agora no Janeiro de Grandes Espet\u00e1culos&#8230;a S\u00e3o Paulo Companhia de Dan\u00e7a. Quantos bailarinos t\u00eam contratados? Porque \u00e9 que n\u00e3o se tem isso em teatro? N\u00e3o h\u00e1 diversas orquestras Brasil afora sendo sustentadas pelo governo, com dinheiro do contribuinte? Ent\u00e3o, porque n\u00e3o em teatro?<\/p>\n<p><strong>O que precisaria?<\/strong><br \/>\nDinheiro. \u00c9 preciso sal\u00e1rio. \u00c9 preciso que eu viva e saiba que vivo disso, que priorize isso. Tendo dinheiro, sal\u00e1rio, tenho rotina de trabalho. Vou todo dia l\u00e1 fazer um trabalho f\u00edsico, um trabalho vocal, aprender um instrumento, ler alguma coisa, ensaiar para um espet\u00e1culo e apresentar outro. \u00c9 s\u00f3 isso. Dia a dia. Ator n\u00e3o \u00e9 ator fazendo uma pe\u00e7a de tempos em tempos. Imagina um m\u00fasico que toca de ano em ano&#8230; O que \u00e9 isso, gente? Como \u00e9 que as pessoas ficam dizendo que s\u00e3o atores? Fazem uma pe\u00e7a de ano em ano! Isso \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. A gente tem que entender que \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ficar triste, porque essa \u00e9 a nossa realidade. O que a gente tem que fazer? Mudar! Como? Formulando pol\u00edticas culturais. Berrando que isso est\u00e1 errado! A gente nem percebe! Porque n\u00e3o quer admitir o nosso fracasso individual, que n\u00e3o \u00e9 culpa nossa. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ator, meu camarada. Se voc\u00ea faz uma pe\u00e7a de dois em dois anos, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ator. Voc\u00ea \u00e9 um diletante. O mundo n\u00e3o te permite isso. Ator \u00e9 quem trabalha com const\u00e2ncia, quem trabalha permanentemente. \u00c9 dif\u00edcil mesmo. Assim: o grupo Galp\u00e3o, por exemplo, \u00e9 um grupo de atores. Eles trabalham sem parar, h\u00e1 20 anos. E a melhora individual \u00e9 brutal. Eles s\u00e3o muito melhores atores do que quando come\u00e7aram. \u00c9 uma coisa impressionante! Voc\u00ea olha e diz: olha a maturidade. Mas maturidade n\u00e3o \u00e9 porque ficaram velhos n\u00e3o! Porque voc\u00ea fica velho e n\u00e3o fica maduro. Maduro na atividade. Voc\u00ea s\u00f3 \u00e9 maduro na atividade, se voc\u00ea fizer sem parar. Vamos parar de mentir, gente. A gente \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o pobre de teatro, paup\u00e9rrima. A gente mal faz teatro. Vamos olhar a realidade. A gente faz teatro de uma forma tosca. \u00c9 nos grandes centros tamb\u00e9m. N\u00e3o estou falando porque eu estou no Recife, ou se tivesse em Fortaleza, ou em Bel\u00e9m. N\u00e3o! Estou pensando no Rio, na minha cidade, nos meus colegas.<\/p>\n<p><strong>O que precisa para se tornar um ator? O que \u00e9 um ator?<\/strong><br \/>\nPrecisa forma\u00e7\u00e3o. O ator \u00e9 um sujeito que sabe controlar o corpo, a voz, criar sentido com os movimentos e com o som que produz, sabe respirar, sabe o que \u00e9 o diafragma. Esse \u00e9 o b\u00e1sico. O ator que souber andar a cavalo \u00e9 melhor. O ator que souber lutar capoeira \u00e9 melhor. Quanto mais coisa uma pessoa souber fazer, mais capacidade ter\u00e1. Isso n\u00e3o quer dizer que o pulo do gato \u00e9 saber fazer um monte de coisa. O pulo do gato \u00e9 alguma coisa impalp\u00e1vel. Porque um ator que tem um treinamento, tem isso, tem aquilo, \u00e9 excelente, e o outro que tem a mesma coisa \u00e9 m\u00e9dio? Porque tem um pianista que \u00e9 genial e outro que \u00e9 excelente, que \u00e9 muito bom? A musculatura de ambos \u00e9 absolutamente trabalhada, eles tocam no mesmo tempo. O que difere um pianista genial de um pianista bom n\u00e3o \u00e9 a capacidade de acessar as teclas num determinado tempo e ritmo. N\u00e3o. Ambos v\u00e3o conseguir o mesmo rendimento nisso. Isso \u00e9 o impalp\u00e1vel. Isso tamb\u00e9m tem em teatro. Sendo que a nossa arte \u00e9 menos objetiva at\u00e9 do que a musical, porque um pianista vai executar aquela partitura e a partitura n\u00e3o vai deixar de ser o que \u00e9. O ator \u00e9 um inventor de partituras. Mas ou ele sabe tocar ou n\u00e3o adianta nada. Depois do momento em que ele sabe tocar, a\u00ed tem que dar o pulo do gato. Tem gente que tem essa coisa impalp\u00e1vel, do talento, mas n\u00e3o tem treinamento. A\u00ed n\u00e3o adianta nada. Tem gente que tem muita sensibilidade, mas n\u00e3o sabe se relacionar com isso. Tem gente que n\u00e3o tem refer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 que falamos do ator, com o diretor, o encenador, \u00e9 o mesmo processo?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. S\u00f3 que diretor \u00e9 mais maluco ainda. Porque \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o o tempo inteiro. Claro que voc\u00ea sabe os c\u00f3digos, etc, etc, mas \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o permanente. Diretor \u00e9 uma figura estranha de se ensinar. Dou aulas de dire\u00e7\u00e3o na universidade e n\u00e3o sei como ensinar. Eu sou um blefe! O que fa\u00e7o \u00e9 trocar experi\u00eancia e mostrar ponto de vista. E os caras t\u00eam que estudar, \u00f3bvio. Os caras t\u00eam que ler tudo, ver tudo, saber tudo. Se eles n\u00e3o virem, n\u00e3o lerem, n\u00e3o estudarem, n\u00e3o s\u00e3o nada. S\u00e3o uns ignorantes, uns bonitinhos, uns bobos. Tem um monte de gente que d\u00e1 curso de dramaturgia, que nunca leu Nelson Rodrigues, Martins Pena, Fran\u00e7a J\u00fanior, Beckett. Ouviu falar. Isso deveria dar cadeia! P\u00f4&#8230; Descobri outro dia que um jovem dramaturgo, trabalhou com a gente no grupo, o cara n\u00e3o conhecia a obra do Nelson inteira. Conhecia mal e porcamente, uma, duas pe\u00e7as. P\u00f4, cara! Faz isso n\u00e3o! A\u00ed voc\u00ea vai dar curso de dramaturgia? Coisa feia! Voc\u00ea n\u00e3o sabe nada! Voc\u00ea vai fazer coisa velha. Mas o interesse desse rapaz espec\u00edfico que estou pensando \u00e9 mais televis\u00e3o, fazer roteiro. Ent\u00e3o tudo bem. A\u00ed d\u00e1. L\u00e1 n\u00e3o precisa saber nada. Precisa saber aquele modelinho, aquela coisa espec\u00edfica. Tem um saber ali, mas&#8230;<\/p>\n<div id=\"attachment_12923\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ocontroladordetrafegoaereo.RodolfoAraujo.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12923\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-12923\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ocontroladordetrafegoaereo.RodolfoAraujo.jpg\" alt=\"O controlador de tr\u00e1fego a\u00e9reo, montagem da Alf\u00e2ndega 88. Foto: Rodolfo Ara\u00fajo\" width=\"600\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ocontroladordetrafegoaereo.RodolfoAraujo.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Ocontroladordetrafegoaereo.RodolfoAraujo-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12923\" class=\"wp-caption-text\">O controlador de tr\u00e1fego a\u00e9reo, montagem da Alf\u00e2ndega 88. Foto: Rodolfo Ara\u00fajo<\/p><\/div>\n<p><strong>At\u00e9 na televis\u00e3o existe uma exig\u00eancia e o p\u00fablico j\u00e1 nota quando h\u00e1 algo diferente.<\/strong><br \/>\nMas televis\u00e3o nunca vai chegar, n\u00e9? Televis\u00e3o \u00e9 aquilo ali, mercado, restrito. Mercado \u00e9 consumo de massa e acabou. Voc\u00ea entra na Globo, por exemplo, voc\u00ea n\u00e3o precisa saber nada mais do que o que eles fazem. Se voc\u00ea \u00e9 uma pessoa talentosa numa coisa e a Globo te contrata, ela n\u00e3o te contrata para fazer aquela coisa que voc\u00ea faz. Ela te contrata porque voc\u00ea \u00e9 talentoso. E ela vai ensinar a voc\u00ea o que ela faz. A Globo ensina voc\u00ea a fazer a Globo. E n\u00e3o a mudar a Globo, porque a Globo funciona. E o que eles querem \u00e9 funcionar. E eles querem tirar os talentos do mercado, porque eles podem inventar coisas diferentes e isso desequilibrar&#8230;quando eles te contratam \u00e9 uma forma de usar tua energia, tua intelig\u00eancia, para fazer o que eles j\u00e1 fazem. E para ceifar a tua energia e intelig\u00eancia, para n\u00e3o amea\u00e7\u00e1-los noutro canal. Isso qualquer grande empresa faz. S\u00e3o assassinas, elas n\u00e3o se interessam por nada, s\u00f3 pelo rendimento pr\u00e1tico da ponta, da venda.<\/p>\n<p><strong>Voltando a falar de ator, voc\u00ea encontrou esses atores na Alf\u00e2ndega 88?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. De jeito nenhum. Porque ali n\u00e3o \u00e9 uma escolha de grandes atores. \u00c9 uma escolha de gente para trabalhar com continuidade e a\u00ed entram quest\u00f5es \u00e9ticas, de comportamento, de interesse. A gente vai se juntando por interesses, \u00e0s vezes por falta de op\u00e7\u00e3o. Tem muita gente que faz teatro porque n\u00e3o consegue fazer outra coisa. Quando fizer outra coisa, nunca mais faz teatro. Isso \u00e9 muito comum. O cara diz assim: \u201csou um ator de teatro\u201d. Mentira! O cara est\u00e1 doido pra ficar famoso e descansar. Um cara fez teatro 20 anos&#8230; a\u00ed soube de uma fonte muito \u00edntima que ele chorava: \u201ceu sou t\u00e3o bom ator, todo mundo diz, reconhece. Porque n\u00e3o sou chamado para fazer televis\u00e3o?\u201d. A resposta \u00e9: porque voc\u00ea \u00e9 feio fisicamente, voc\u00ea n\u00e3o se enquadra no que eles precisam nessa faixa et\u00e1ria. Quando voc\u00ea ficar mais velho, isso j\u00e1 n\u00e3o vai ter tanto interesse, tanta import\u00e2ncia. E a\u00ed voc\u00ea ser\u00e1 assimilado, tenha calma. A\u00ed o que aconteceu com esse rapaz? Foi assimilado, hoje ele faz televis\u00e3o, aqui e ali. A\u00ed eu o convidei para fazer uma pe\u00e7a. \u201cAh, n\u00e3o vai dar, estou gravando. Mas a gente precisa fazer teatro, n\u00e9? N\u00e3o d\u00e1 para ficar sem teatro\u201d. Falando como uma figura que precisa fazer teatro. Quem precisa fazer teatro, faz teatro. Voc\u00ea n\u00e3o precisa. Precisa ter o seu emprego, voc\u00ea est\u00e1 satisfeito a\u00ed. Quando digo que a gente precisa ter emprego no teatro \u00e9 para possamos nos fixar no teatro, para que o teatro n\u00e3o perca aqueles que querem fazer teatro e n\u00e3o que retenha os que n\u00e3o querem. Porque tem muita gente que quer fazer s\u00f3 teatro, mas n\u00e3o pode. A\u00ed qualquer contrato, aceita, vai e murcha naquele lugar. Por outro lado, tem gente que desabrocha: \u201cagora sou feliz, sou algu\u00e9m, conhecido, reconhecido\u201d. Que \u00e9 uma coisa justa. Isso n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o moral.<\/p>\n<div id=\"attachment_12919\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Duasmulheresempretoebranco.FotoPollyannaDiniz.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12919\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-12919\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Duasmulheresempretoebranco.FotoPollyannaDiniz.jpg\" alt=\"Duas mulheres em preto e branco. Foto: Pollyanna Diniz\" width=\"600\" height=\"383\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Duasmulheresempretoebranco.FotoPollyannaDiniz.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Duasmulheresempretoebranco.FotoPollyannaDiniz-300x191.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12919\" class=\"wp-caption-text\">Duas mulheres em preto e branco. Foto: Pollyanna Diniz<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 trabalhando com Paula e Sandra desde <em>Duas mulheres em preto e branco<\/em>. Como foi esse trabalho e como se deu essa continuidade?<\/strong><br \/>\nA Paula e a Sandra s\u00e3o muito legais, dispostas, dispon\u00edveis, prontas para trabalhar, com muito gabarito, algumas defici\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o, mas com muita experi\u00eancia. E dispostas a trabalhar essas defici\u00eancias. Isso n\u00e3o quer dizer que elas n\u00e3o sejam boas atrizes. Elas s\u00e3o \u00f3timas atrizes, mas t\u00eam uma coisa da falta de forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. E a continuidade \u00e9 s\u00f3 o que se precisa. Por isso que a gente pensou um segundo espet\u00e1culo. Foi uma rela\u00e7\u00e3o muito amorosa, a gente se deu muito bem. Tivemos um resultado muito bom. Acho muito legal o resultado do<em> Duas mulheres<\/em>. \u00c9 uma tarefa dific\u00edlima fazer aquele texto e acho um espet\u00e1culo muito bonito e dif\u00edcil tamb\u00e9m. \u00c9 muito desigual, controlar essas coisas todas, manter o lugar correto. Nada foi forjado. Tudo nasceu da gente, em conjunto. A gente foi entendendo o texto, o autor, a forma, o tipo de interven\u00e7\u00e3o que ele fazia. O autor \u00e9 um personagem nosso, ele n\u00e3o sabe, mas \u00e9. A forma vem da percep\u00e7\u00e3o de uma mente que organiza aquela mat\u00e9ria. E isso \u00e9 o que molda as atividades em cena.<\/p>\n<p><strong>E a sugest\u00e3o de Shakespeare? Foi sua?<\/strong><br \/>\nShakespeare foi uma sugest\u00e3o para continuar. Trabalho com muitos textos, dou aula. Nesse semestre, trabalhei com <em>Rei Lear<\/em>, dei uma oficina no Teatro Serrador; e pensei vamos fazer <em>Rei Lear<\/em> com tr\u00eas atrizes. A\u00ed propus a Paula. Mas, para isso, para continuar a rela\u00e7\u00e3o. Eu adoraria morar no Recife. Comprar um espa\u00e7o aqui, ter uma sede aqui, produzir a partir daqui. Propus isso a M\u00f4nica e ela n\u00e3o topou. Nem os meninos. \u00c9 uma cidade linda, pessoas amorosas, um mar desses, a \u00e1gua \u00e9 quentinha. \u00c9 poss\u00edvel fazer um trabalho mais concentrado, porque a despeito de ser uma cidade enorme, \u00e9 bem menor do que Rio e S\u00e3o Paulo. Gosto da cidade, da hist\u00f3ria daqui. Acho que \u00e9 um lugar muito especial, muita coisa aconteceu. Sempre foi uma pot\u00eancia cultural; e em teatro n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o tem uma escola. Isso \u00e9 uma vergonha. Em Salvador tem. N\u00e3o pode! \u00c9 como se dissesse assim: voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 o Recife, voc\u00eas n\u00e3o entendem o sentido dessa cidade?<\/p>\n<div id=\"attachment_12921\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/ReiLear.GugaMelgar.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12921\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-12921\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/ReiLear.GugaMelgar.jpg\" alt=\"Rei Lear. Foto: Guga Melgar\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/ReiLear.GugaMelgar.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/ReiLear.GugaMelgar-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12921\" class=\"wp-caption-text\">Rei Lear. Foto: Guga Melgar<\/p><\/div>\n<p><strong>SERVI\u00c7O:<\/strong><br \/>\n<em>Rei Lear<\/em> (Remo Produ\u00e7\u00f5es)<br \/>\n<strong>Quando:<\/strong> Sexta (28), \u00e0s 19h; s\u00e1bado (29) e domingo (30), \u00e0s 20h<br \/>\n<strong>Onde:<\/strong> Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)<br \/>\n<strong>Quanto:<\/strong> R$ 20 e R$ 10<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moacir Chaves chegou a fazer a proposta para a mulher e os dois filhos: deixar o Rio de Janeiro e virem morar no Recife. A fam\u00edlia n\u00e3o aceitou. Ele diz que, mesmo sendo uma metr\u00f3pole, Recife tem um ritmo mais tranquilo do que o Rio ou S\u00e3o Paulo. Mas o diretor que tem no curr\u00edculo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[1,4249],"tags":[3626,1942,2311,648,3623,1419,3627,3625,3624],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12915"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12915"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12915\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13025,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12915\/revisions\/13025"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}