{"id":12573,"date":"2014-08-05T11:49:56","date_gmt":"2014-08-05T14:49:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12573"},"modified":"2014-08-05T11:49:56","modified_gmt":"2014-08-05T14:49:56","slug":"nos-os-curiosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/nos-os-curiosos\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, os curiosos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Daniele Avila Small &#8211; Revista Quest\u00e3o de Cr\u00edtica<br \/>\n(www.questaodecritica.com.br)<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_12574\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/recusa1_web-1-e1407248717389.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12574\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/recusa1_web-1-e1407248717389.jpg\" alt=\"Recusa. Fotos: Fernanda Pessoa\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12574\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12574\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo Recusa, da da Cia Teatro Balagan. Fotos: Fernanda Pessoa<\/p><\/div>\n<p>Inspirados pela not\u00edcia da condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia prec\u00e1ria e amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o dos dois \u00faltimos membros dos piripkuras, os artistas criadores da Cia Teatro Balagan atentaram para a recusa deles para com a cultura do homem branco, da civiliza\u00e7\u00e3o como a conhecemos. A partir da\u00ed, criaram uma dramaturgia que tamb\u00e9m foi motivada pela recusa de f\u00f3rmulas e no\u00e7\u00f5es j\u00e1 estabelecidas para a feitura de uma pe\u00e7a de teatro. O fruto \u00e9 um trabalho de f\u00f4lego, uma cornuc\u00f3pia recheada de mundos &#8211; para a cr\u00edtica, um prato cheio, mas que precisa ser devorado com o tempo. <\/p>\n<p>O trabalho do grupo nos permite ver a recusa como resist\u00eancia mas tamb\u00e9m como um gesto fundador. A recusa \u00e9 um grande &#8220;n\u00e3o&#8221; que se abre para um &#8220;sim&#8221; maior ainda. A nega\u00e7\u00e3o pode ser o come\u00e7o de um reconhecimento, da afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade, da inaugura\u00e7\u00e3o de algo impensado. Como foi discutido na mesa-redonda realizada pela Mostra no dia da apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, a identidade pode ser um lugar din\u00e2mico de inven\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia ao mesmo tempo. Estamos sempre tentando preservar tradi\u00e7\u00f5es e criar novas formas. O pr\u00f3prio fazer teatral \u00e9 um trabalho de resist\u00eancia (\u00e0s adversidades econ\u00f4micas e pol\u00edticas, \u00e0 dureza das cidades, \u00e0 in\u00e9rcia da vida urbana, etc.) que demanda reinven\u00e7\u00e3o (das est\u00e9ticas, dos h\u00e1bitos, dos modos de produ\u00e7\u00e3o, etc.). A recusa n\u00e3o \u00e9 um fim, mas um come\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 simples nega\u00e7\u00e3o, mas um gesto fecundo. Recusa \u00e9 uma palavra-corte que fere mas abre.<\/p>\n<p>Em relato publicado no programa da pe\u00e7a, os criadores nos contam que, na sua experi\u00eancia de conversa com os \u00edndios Paiter Suru\u00ed, os velhos do cl\u00e3 escolheram algumas palavras do seu vocabul\u00e1rio como poss\u00edveis tradu\u00e7\u00f5es de termos do teatro. O significado da express\u00e3o escolhida por eles para &#8220;p\u00fablico&#8221; seria &#8220;os curiosos&#8221;. A meu ver, isso faz sentido na rela\u00e7\u00e3o que a pe\u00e7a estabelece com o p\u00fablico. A dramaturgia de Lu\u00eds Alberto de Abreu engendra uma trama que joga com a curiosidade do espectador, com o seu interesse, numa negocia\u00e7\u00e3o de sentidos incessante, que a encena\u00e7\u00e3o de Maria Tha\u00eds mant\u00e9m num estado de suspens\u00e3o, oferecendo iscas e pistas ardilosas, que nos fazem seguir mais adiante<\/p>\n<p><div id=\"attachment_12575\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/recusa2_web-1-e1407249111305.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12575\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/recusa2_web-1-e1407249111305.jpg\" alt=\"Os atores investem no jogo, que forma uma esp\u00e9cie de campo de for\u00e7a\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12575\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12575\" class=\"wp-caption-text\">Os atores investem no jogo, que forma uma esp\u00e9cie de campo de for\u00e7a<\/p><\/div><br \/>\nO trabalho dos atores Antonio Salvador e Eduardo Okamoto parece ser constru\u00eddo a partir de estados, mais que de situa\u00e7\u00f5es ou discursos. Nos seus corpos, vemos um preparo vigoroso, que resulta em uma presen\u00e7a e uma disponibilidade para o jogo que forma uma esp\u00e9cie de campo de for\u00e7a, que colabora para sustentar a aten\u00e7\u00e3o e a curiosidade do espectador. A fisicalidade das atua\u00e7\u00f5es &#8211; em especial o desempenho vocal que produz uma sonoridade muito concreta &#8211; tem o potencial de despertar o espectador pelo corpo, como numa vibra\u00e7\u00e3o entre instrumentos de corda.  O trabalho de dire\u00e7\u00e3o musical de Marlui Miranda mereceria um texto \u00e0 parte. Mas vale apontar que n\u00e3o se trata da exibi\u00e7\u00e3o de um virtuosismo. A demanda por um desempenho corporal expressivo \u00e9 afinada com a pesquisa est\u00e9tica e tem\u00e1tica do projeto.  <\/p>\n<p>A cultura ind\u00edgena &#8211; amer\u00edndia &#8211; apresentada pelo espet\u00e1culo est\u00e1 sempre sob o signo do duplo. As narrativas se alternam, mas h\u00e1 sempre uma rela\u00e7\u00e3o entre duas figuras que se complementam. Al\u00e9m dos personagens que conseguimos distinguir, tamb\u00e9m percebemos desdobramentos da ideia de duplo, como na polariza\u00e7\u00e3o entre o sol e a lua, o corpo e a alma, o \u00edndio e o fazendeiro, o homem e a mulher. O teatro s\u00f3 existe quando h\u00e1 dois: a cena e a plateia, o artista e o p\u00fablico. Sem uma das partes, deixa de ser teatro. Se as duas partes estiverem em oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acontece. Se um quer se impor ao outro, algo morre. Como pud e pudlar\u00e9, s\u00e3o insepar\u00e1veis. E n\u00f3s, os curiosos, precisamos devolver o canto, jogar o jogo, e manter a aten\u00e7\u00e3o m\u00fatua.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da cr\u00edtica, para um trabalho como esse, seria preciso devolver um esfor\u00e7o \u00e0 altura, que este breve exerc\u00edcio n\u00e3o permite. Mas fica aqui um apontamento, uma anota\u00e7\u00e3o de primeiras impress\u00f5es, s\u00f3 pra sinalizar que &#8211;  mesmo que falte espa\u00e7o, mesmo que muitas vezes tamb\u00e9m falte f\u00f4lego &#8211; estamos interessados, estamos prestando aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>* Esse texto faz parte da a\u00e7\u00e3o do DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica formada por Daniele Avila Small (Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais), Ivana Moura (Satisfeita, Yolanda?), Luciana Eastwood Romagnolli (Horizonte da Cena), Maria Eug\u00eania de Menezes (Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena), Pollyanna Diniz (Satisfeita, Yolanda?), Soaraya Belusi (Horizonte da Cena) e Valmir Santos (Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena), que acompanha a IX Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniele Avila Small &#8211; Revista Quest\u00e3o de Cr\u00edtica (www.questaodecritica.com.br) Inspirados pela not\u00edcia da condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia prec\u00e1ria e amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o dos dois \u00faltimos membros dos piripkuras, os artistas criadores da Cia Teatro Balagan atentaram para a recusa deles para com a cultura do homem branco, da civiliza\u00e7\u00e3o como a conhecemos. 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