{"id":12525,"date":"2014-08-04T14:53:23","date_gmt":"2014-08-04T17:53:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12525"},"modified":"2014-08-04T14:53:23","modified_gmt":"2014-08-04T17:53:23","slug":"acumulo-e-esvaziamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/acumulo-e-esvaziamento\/","title":{"rendered":"Ac\u00famulo e esvaziamento"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Daniele Avila Small &#8211; Revista Quest\u00e3o de Cr\u00edtica<br \/>\n(www.questaodecritica.com.br) <\/strong><\/p>\n<p><div id=\"attachment_12543\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/image14-e1407174019527.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12543\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/image14-e1407174019527.jpg\" alt=\"Dois amores e um bicho na Mostra Latino-americana de tearo de grupo \" width=\"600\" height=\"401\" class=\"size-full wp-image-12543\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12543\" class=\"wp-caption-text\">Dois amores e um bicho na Mostra Latino-americana de tearo de grupo<\/p><\/div><br \/>\nUma caracter\u00edstica que me chama a aten\u00e7\u00e3o no texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott \u00e9 a complexidade das imagens que sugere. Trata-se de uma pe\u00e7a que tem algo a dizer e esse algo est\u00e1 na articula\u00e7\u00e3o do que os personagens dizem, n\u00e3o no conte\u00fado literal das suas falas. \u00c9 nesse ponto que o texto pode ser considerado dif\u00edcil de encenar. A demanda de recursos t\u00e9cnicos e de habilidades para a cria\u00e7\u00e3o de uma po\u00e9tica para a sua encena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma demanda da encena\u00e7\u00e3o de um texto dram\u00e1tico comum. A estrutura da dramaturgia proporciona um ac\u00famulo de camadas de narrativas e de pontos de vista que demandam um posicionamento por parte da cria\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo. Uma esp\u00e9cie de posicionamento po\u00e9tico &#8211; uma ideia que mereceria um aprofundamento que n\u00e3o cabe neste texto, mas que podemos guardar para outra ocasi\u00e3o.     <\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o de Daniel Olivetto proporciona diversas formas de distra\u00e7\u00e3o ao longo do espet\u00e1culo: a m\u00fasica constante &#8211; em tantos momentos mais aud\u00edvel que a voz dos atores, especialmente no caso de J\u00f4 Fornari -, a movimenta\u00e7\u00e3o inquieta, os coment\u00e1rios feitos pelos gestos e express\u00f5es nos rostos dos atores a cada fala. O excesso de apelos \u00e0 vis\u00e3o e \u00e0 audi\u00e7\u00e3o atravancam um pouco o apelo ao entendimento intelectual, \u00e0 escuta profunda dos questionamentos da pe\u00e7a, que n\u00e3o s\u00e3o poucos. <\/p>\n<p>De modo geral, o tratamento dado \u00e0s quest\u00f5es assume um tom propositadamente fr\u00edvolo, que talvez provoque um emba\u00e7amento da seriedade dos temas abordados. \u00c9 poss\u00edvel apontar como exemplo dessa abordagem o conflito da m\u00e3e (interpretada por Sandra Knoll) para com o pai (Marcelo F. de Souza), que \u00e9 posto em cena como uma mera briga de casal. No entanto, acredito que h\u00e1 ali uma confronta\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios: a partir de determinado momento, a mulher passa a ver no marido uma imagem que estava submersa, escondida pelos afazeres da vida cotidiana e pela responsabilidade de criar uma filha. A passagem da filha para a vida adulta provoca uma abertura no olhar da m\u00e3e &#8211; e a virada na narrativa.<\/p>\n<p><div id=\"attachment_12520\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/image11-e1407109546413.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12520\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/image11-e1407109546413.jpg\" alt=\"A constru\u00e7\u00e3o da imagem do homem \u00e9 o calcanhar de Aquiles da encena\u00e7\u00e3o. Foto: Daniel Olivetto\" width=\"600\" height=\"401\" class=\"size-full wp-image-12520\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12520\" class=\"wp-caption-text\">A constru\u00e7\u00e3o da imagem do homem \u00e9 o calcanhar de Aquiles da encena\u00e7\u00e3o. Foto: Daniel Olivetto<\/p><\/div> E me parece ser exatamente na elabora\u00e7\u00e3o da imagem do homem, do pai, que o texto apresenta sua maior complexidade e a encena\u00e7\u00e3o, o seu calcanhar de Aquiles. A montagem da Cia Experimentus apresenta um homem que se comporta como uma crian\u00e7a, enquanto o ponto nevr\u00e1lgico da pe\u00e7a \u00e9 que os atos deste homem s\u00e3o os atos de um homem, adulto, respons\u00e1vel: um pai de fam\u00edlia, como dizem. Apresentar a figura do pai como um bobo, como um homem infantilizado e inconsequente, \u00e9 uma forma de &#8220;resolver&#8221; o problema sem de fato enfrent\u00e1-lo. O apelo ao histrionismo e a tentativa de fazer humor reiteradas vezes ao longo da pe\u00e7a s\u00e3o formas de varrer o problema para debaixo do tapete. <\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o, que faz com que o ator &#8220;defenda&#8221; o personagem, querendo que ele seja querido, engra\u00e7ado, provocou um curto-circuito na minha percep\u00e7\u00e3o. Me pareceu que o discurso do personagem ficou colado com o discurso da pe\u00e7a, quando o discurso da pe\u00e7a, a meu ver, seria um coment\u00e1rio &#8211; e um coment\u00e1rio duro &#8211; sobre o discurso e o comportamento do personagem. Por exemplo, quando o pai chama o cachorro de &#8220;viado&#8221;, o ator o faz como se isso fosse uma piada. E o que o texto de Gustavo Ott me parece dizer \u00e9 que isso n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 uma piada, como \u00e9 uma forma de viol\u00eancia. Isso mata. Mata por contamina\u00e7\u00e3o, como um mal que se espalha de tal modo que seus meandros s\u00e3o dif\u00edceis de detectar. Mas as consequ\u00eancias s\u00e3o bastante vis\u00edveis. E devastadoras, como Ott nos mostra com a extermina\u00e7\u00e3o dos animais do zool\u00f3gico.  <\/p>\n<p>O que a montagem da Cia Experimentus me faz questionar, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 feitura de uma pe\u00e7a de teatro, \u00e9 o quanto o pensamento sobre o que se diz, o pensamento sobre a \u00e9tica dos conte\u00fados, precisa encontrar recursos t\u00e9cnicos coerentes com sua proposta. N\u00e3o basta \u00e0 encena\u00e7\u00e3o providenciar um emolduramento confort\u00e1vel, bonito e divertido para apresentar determinados personagens e situa\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso, no caso do enfrentamento de um material como o texto de Ott, encontrar uma po\u00e9tica espec\u00edfica para uma enuncia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, uma po\u00e9tica que comenta, que descola. Sob o risco de se afirmar o que se quer criticar. <\/p>\n<p>Para concluir, vale apontar a \u00f3tima escolha do texto pelo grupo de Itaja\u00ed, tendo em vista a rara colabora\u00e7\u00e3o entre autores e grupos do Brasil com os pa\u00edses vizinhos da Am\u00e9rica Latina, e que conta com o m\u00e9rito da tradu\u00e7\u00e3o fluida e coloquial de Marialda Gon\u00e7alves Pereira.<\/p>\n<p><strong> * Esse texto faz parte da a\u00e7\u00e3o do DocumentaCena \u2013 Plataforma de Cr\u00edtica formada por Daniele Avila Small (Quest\u00e3o de Cr\u00edtica \u2013 Revista Eletr\u00f4nica de Cr\u00edticas e Estudos Teatrais), Ivana Moura (Satisfeita, Yolanda?), Luciana Eastwood Romagnolli (Horizonte da Cena), Maria Eug\u00eania de Menezes (Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena), Pollyanna Diniz (Satisfeita, Yolanda?), Soaraya Belusi (Horizonte da Cena) e Valmir Santos (Teatrojornal \u2013 Leituras de Cena), que acompanha a IX Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo     <\/strong>                                        <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniele Avila Small &#8211; Revista Quest\u00e3o de Cr\u00edtica (www.questaodecritica.com.br) Uma caracter\u00edstica que me chama a aten\u00e7\u00e3o no texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott \u00e9 a complexidade das imagens que sugere. 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