{"id":12370,"date":"2014-07-11T11:57:59","date_gmt":"2014-07-11T14:57:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12370"},"modified":"2015-10-28T02:55:18","modified_gmt":"2015-10-28T05:55:18","slug":"saudades-de-milare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/saudades-de-milare\/","title":{"rendered":"Saudades de Milar\u00e9"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_12373\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/sebastiao_milare-foto-bob-sousa-e1405088547738.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12373\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/sebastiao_milare-foto-bob-sousa-e1405088547738.jpg\" alt=\"Sebasti\u00e3o Milar\u00e9 em foto de Bob Souza\" width=\"500\" height=\"752\" class=\"size-full wp-image-12373\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12373\" class=\"wp-caption-text\">Sebasti\u00e3o Milar\u00e9 em foto de Bob Souza<\/p><\/div>\n<p>Dizer que o teatro brasileiro est\u00e1 de luto \u00e9 pouco para traduzir a falta que Sebastiao Milar\u00e9 j\u00e1 faz. <\/p>\n<p>O cr\u00edtico, dramaturgo e pesquisador teatral paulista migrou para outra dimens\u00e3o nessa quinta-feira.  Ele foi internado na segunda-feira, dia 7, no Hospital Cruz Azul, no bairro do Cambuci, em S\u00e3o Paulo para tratamento de um c\u00e2ncer no intestino.<\/p>\n<p>O enterro ser\u00e1 no Cemit\u00e9rio Jardim da Colina, em S\u00e3o Bernardo do Campo.<\/p>\n<p>Ele coordenava um  projeto herc\u00faleo <em>Teatro e Circunst\u00e2ncia<\/em>, do SESC-TV, de S\u00e3o Paulo. Para a s\u00e9rie Milar\u00e9 entrevistou mais de 100 grupos de teatro, de Bel\u00e9m a Porto Alegre, delineando a produ\u00e7\u00e3o teatral contempor\u00e2nea, a partir da d\u00e9cada de 1970. <\/p>\n<p> Especialista na obra c\u00eanica de Antunes Filho, escreveu tr\u00eas livrossobre o encenador: <em>Antunes Filho e a dimens\u00e3o ut\u00f3pica<\/em> (Perspectiva), <em>Hierofania \u2013 o teatro segundo Antunes Filho <\/em> (Edi\u00e7\u00f5es Sesc) e <em>Antunes Filho \u2013 poeta em cena<\/em> (Edi\u00e7\u00f5es Sesc), este \u00faltimo com posto a paritr das fotografias de Emidio Luisi. Milar\u00e9 tamb\u00e9m publicou <em>A Batalha da Quimera \u2014 Renato Viana e o Modernismo C\u00eanico Brasileiro<\/em>.<\/p>\n<p> Esse homem gentil e bem-humorado, intelectual incans\u00e1vel, definia o teatro como \u201cencontro com o sagrado\u201d. <\/p>\n<p>Milar\u00e9 participou do 15\u00ba Festival Recife do teatro Nacional, em 2012. Em maio de 2013 foi publicado trechos da entrevista feita por Pollyanna Diniz. Segue na \u00edntegra: <\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA \/\/ SEBASTI\u00c3O MILAR\u00c9<\/strong><\/p>\n<p><strong>De que forma voc\u00ea conheceu o teatro?<\/strong><br \/>\nO teatro se aproximou de mim e me dominou quando crian\u00e7a ainda. Minha fam\u00edlia mudou de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto para S\u00e3o Paulo quando eu tinha dez anos de idade. Mas antes disso, lembro que eu ia ao circo, adorava! E em S\u00e3o Paulo sempre fui ao teatro, frequentava grupos amadores. N\u00e3o era uma coisa de fam\u00edlia. Muito pelo contr\u00e1rio, era s\u00f3 eu mesmo.<\/p>\n<p><strong>E com o tempo voc\u00ea come\u00e7ou a fazer dire\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Vem dessa hist\u00f3ria de come\u00e7ar bem jovem a fazer teatro de amadores. Eu dirigia, gostava disso. E depois comecei com um grupo que n\u00e3o era mais t\u00e3o amador, mas era bem experimental, isso nos anos 1960: chamava Teatro Experimental de Jovens. E tamb\u00e9m dirigi um grupo criado dentro do Sesc. Tinha uma unidade do Sesc em S\u00e3o Paulo na Rua do Carmo que tinha um teatro de arena e eu fiquei dirigindo um grupo dentro desse teatro por alguns anos: o grupo Tarefa. E isso nos anos 1960 ainda. Era uma fase muito dura quando eu me profissionalizei mesmo, era muito dif\u00edcil fazer teatro naquela \u00e9poca, por conta da censura. E eu j\u00e1 estava no jornalismo, ent\u00e3o comecei como cr\u00edtico de cinema na <em>Folha da Tarde<\/em>. E fui convidado para trabalhar na revista <em>Artes<\/em>, que naquela \u00e9poca acho que era a \u00fanica publica\u00e7\u00e3o brasileira sobre artes mesmo, sobre todas as linguagens. Terminei me envolvendo com outras linguagens: sempre gostei muito de artes pl\u00e1sticas, fiz cobertura de Bienais, e tamb\u00e9m teatro. Ent\u00e3o eu escrevia tanto sobre artes pl\u00e1sticas, quanto sobre cinema e teatro. Mas comecei a desenvolver um trabalho de cr\u00edtica de teatro e me interessei muito pela parte te\u00f3rica. Ent\u00e3o fui abandonando a cria\u00e7\u00e3o. Comecei a achar que a minha praia era teoria; n\u00e3o era a cria\u00e7\u00e3o. Gosto de ver a cria\u00e7\u00e3o alheia, de acompanhar todo o processo criativo, mas eu mesmo me colocar como criador j\u00e1 era uma coisa que n\u00e3o estava me interessando muito.<\/p>\n<p><strong>Como veio a aproxima\u00e7\u00e3o com Antunes Filho. Quando voc\u00ea viu uma pe\u00e7a dele pela primeira vez?<\/strong><br \/>\n\u00c9 inesquec\u00edvel. Eu tinha 16 anos quando fui ver, em 1962, no Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia (TBC), a montagem que ele fez de <em>Yerma<\/em>, de Garcia Lorca. Eu n\u00e3o conhecia nem ele, nem o texto. Claro, ia ver muitas coisas, muita com\u00e9dia, mas eu n\u00e3o conhecia realmente as figuras do teatro. Quando eu vi aquela Yerma, para mim o teatro come\u00e7ou a significar alguma coisa de extraordin\u00e1rio. Era uma revela\u00e7\u00e3o muito grande. No dia seguinte, comprei as obras completas de Garcia Lorca, comecei a ler tudo e a acompanhar o que Antunes fazia. Eu o admirava muito, que era bem jovem tamb\u00e9m. Depois, em 1965, ele foi convidado pelo Alfredo Mesquita para ser o professor de interpreta\u00e7\u00e3o do terceiro ano da EAD (Escola de Arte Dram\u00e1tica da USP), que era o respons\u00e1vel pela encena\u00e7\u00e3o do final do curso. E ele optou por fazer A falecida, do Nelson Rodrigues. Eu tinha v\u00e1rios amigos dentro da EAD. Ent\u00e3o eu freq\u00fcentava muito aquele espa\u00e7o e de certa maneira acompanhei a montagem. E foi a\u00ed que tive os meus primeiros contatos r\u00e1pidos com Antunes. S\u00f3 bem mais tarde, quando eu j\u00e1 estava na revista Artes, foi quando comecei a fazer mat\u00e9rias bastante extensas sobre o teatro dele. Antunes sempre gostou tamb\u00e9m das coisas que eu escrevia. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos um respeito m\u00fatuo profissional. Eu me lembro quando ele estava fazendo Peer Gynt em 1971; e era o grande espet\u00e1culo daquele ano. Pedi uma entrevista para o Antunes. Marcamos o dia e quando cheguei ao teatro, o Antunes, aquele jeit\u00e3o dele, me pegou pelo bra\u00e7o: \u201cvem c\u00e1, vem c\u00e1\u201d, me levou para uma sala. E para a minha surpresa numa mesa estavam nomes como Maria Bonome, que era a figurinista da pe\u00e7a, Laonte Klawa, que era cen\u00f3grafo, St\u00eanio Garcia, que fazia Peer Gynt, Jonas Bloch, Aricl\u00ea Perez. E Antunes me disse: a entrevista tem que ser com todos, porque todos s\u00e3o criadores do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p><em>Isso em 1971 era uma vis\u00e3o bastante avan\u00e7ada?<\/em><\/p>\n<p> Com certeza. E era realmente o reflexo do que ele fazia, que hoje \u00e9 uma coisa muito comum, de criar a pe\u00e7a atrav\u00e9s de workshop e tudo mais. Antunes foi o primeiro que fez laborat\u00f3rio no teatro brasileiro, em 1964, com Vereda da Salva\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a partir de Peer Gynt a minha rela\u00e7\u00e3o com Antunes ficou mais pr\u00f3xima, mas tamb\u00e9m era uma fase dif\u00edcil, o Antunes trabalhava muito por contrato, n\u00e3o conseguia manter uma linha de trabalho dele. Isso at\u00e9 1976, 1977, quando come\u00e7ou a fazer Macuna\u00edma. A partir de Macuna\u00edma passei a acompanhar sistematicamente e estar muito junto do Antunes.<\/p>\n<p> E da\u00ed para o primeiro livro &#8211; Antunes Filho e a Dimens\u00e3o Ut\u00f3pica \u2013 qual foi o caminho?<\/p>\n<p>Esse primeiro livro foi muito engra\u00e7ado. Porque eu escrevi muitos artigos sobre o Antunes. Quando o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) j\u00e1 estava institu\u00eddo dentro do Sesc, quando ele tinha esse lugar que possibilitava a continuidade do trabalho, fiz um ensaio muito grande sobre o CPT. E percebi que o Antunes estava realmente trabalhando algo que era m\u00e9todo para ator. Ele dizia que n\u00e3o. E eu me interessei muito e falei para o Ulysses Cruz, que era assistente dele, que estava pensando em escrever um livro, porque s\u00f3 as mat\u00e9rias n\u00e3o eram suficientes. Mas Ulysses disse que eu n\u00e3o falasse nada para ele, porque Antunes tinha medo: \u201cele acha que escrever um livro sobre ele \u00e9 anunciar a morte\u201d. Mas eu n\u00e3o podia fazer uma biografia n\u00e3o autorizada! Fiz um projeto do que eu pretendia e mostrei ao Antunes. E ele fechou comigo imediatamente e ainda me disse que eu n\u00e3o precisava nem fazer pesquisa em arquivos, em jornais, porque ele tinha tudo, todos os recortes que eu precisasse. E da\u00ed comecei a acompanhar sistematicamente o trabalho de ensaios no CPT, a montagem toda de A hora e a vez de Augusto Matraga (1986) Isso para eu ir realmente me assegurando de como era o trabalho dele; porque eu sabia, mas de uma maneira um pouco distanciada, e eu precisava estar no olho do furac\u00e3o. Os processos do Antunes s\u00e3o sempre demorados. E o meu processo foi demorado exatamente acompanhando o ritmo dele. Tive um apoio muito grande de pessoas que me deram entrevistas, depoimentos sobre o Antunes maravilhosos, como Osmar Rodrigues Cruz, que foi parceiro dele logo no in\u00edcio, D\u00e9cio de Almeida Prado. E fiz Antunes Filho e a dimens\u00e3o ut\u00f3pica, que foi o primeiro livro, que trata dele at\u00e9 Macuna\u00edma (1978).<\/p>\n<p> Mas por que at\u00e9 Macuna\u00edma?<\/p>\n<p>Porque como eu estava dentro do CPT vendo o que estava acontecendo ali, cada vez mais ia ficando claro &#8211; e a\u00ed o Antunes j\u00e1 come\u00e7ou a admitir sim &#8211; que ele estava constituindo um m\u00e9todo, mas estava muito no in\u00edcio, embora j\u00e1 desse resultado em cena. E sabia que tinha que fazer um livro especificamente sobre o CPT e sobre o processo criativo do Antunes l\u00e1 dentro. J\u00e1 no pref\u00e1cio, na introdu\u00e7\u00e3o do primeiro livro, prometo o segundo livro &#8211; que a\u00ed avan\u00e7a no aspecto da obra dele a partir de Macuna\u00edma, j\u00e1 dentro do CPT e dentro do grupo Macuna\u00edma. Era um projeto j\u00e1 desde aquela \u00e9poca, mas eu n\u00e3o sabia que ia demorar tanto! A elabora\u00e7\u00e3o do livro tinha que acompanhar o ritmo do Antunes e o processo dele l\u00e1 dentro do CPT. Eu s\u00f3 poderia dar por terminado um livro sobre o m\u00e9todo quando ele desse por conclu\u00edda tamb\u00e9m a sistematiza\u00e7\u00e3o que ele estava fazendo. Por isso levou quase 20 anos!<\/p>\n<p>Para Antunes o ator \u00e9 a pe\u00e7a fundamental.<\/p>\n<p>Antunes deixa claro que para fazer teatro voc\u00ea pode dispensar cen\u00e1rio, luz, figurino. Pode dispensar at\u00e9 o texto. Mas sem o ator n\u00e3o tem teatro. Na realidade, Antunes fez no Brasil a mesma coisa que outros da gera\u00e7\u00e3o dele fora do Brasil. E estou falando de Grotowski, de Eugenio Barba. Antunes fazia um trabalho muito sintonizado com tudo isso. Sempre briguei muito com essa hist\u00f3ria: \u201cah, o Antunes est\u00e1 fazendo Grotowski\u201d. N\u00e3o est\u00e1 fazendo Grotowski! Ele est\u00e1 bebendo nas mesmas fontes, porque \u00e9 da mesma gera\u00e7\u00e3o, tem a mesma inquieta\u00e7\u00e3o, o mesmo esp\u00edrito do tempo est\u00e1 dominando ele. Desde o in\u00edcio da carreira dele, Antunes sempre lutou para que o ator brasileiro tivesse alguns meios de cria\u00e7\u00e3o muito adequados \u00e0 cultura do ator brasileiro, ao f\u00edsico, ao corpo do ator brasileiro. Mas isso desde os anos 1950, quando ele fez Anne Frank; depois quando ele faz Vereda da salva\u00e7\u00e3o em 1964, que surgem os laborat\u00f3rios, algo extremamente controverso, pol\u00eamico. Tinha gente de teatro que dizia que o Antunes estava fazendo uma coisa de destruir o teatro, que era uma loucura. Mas o que ele estava fazendo era o que Grotowski fazia, cada um na sua realidade. Depois de um tempo \u00e9 que, de repente, come\u00e7am todos eles a ficarem internacionais e a\u00ed vamos tendo not\u00edcia de cada um. Desde que se instituiu realmente o CPT, que j\u00e1 tem 30 anos, o n\u00famero de atores que j\u00e1 passaram por l\u00e1, que se inscrevem, que passaram pelo CPTZINHO, \u00e9 um n\u00famero imenso. E grande parte desses atores est\u00e3o a\u00ed no teatro, constitu\u00edram uma carreira e trazem essa heran\u00e7a do Antunes. E dessa maneira as ideias dele v\u00e3o \u201ccontaminando\u201d o teatro brasileiro e o ponto de vista que se tem hoje do ator j\u00e1 \u00e9 muito diferente do que h\u00e1 30 ou 40 anos.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 o ator para Antunes Filho?<\/p>\n<p>Antes de tudo, o ator em que lutar muito para resolver todos os bloqueios, tanto no f\u00edsico quanto no esp\u00edrito. O ator tem, para o corpo, uma carga extraordin\u00e1ria de exerc\u00edcios, at\u00e9 que seu corpo fique completamente destravado e obede\u00e7a a um comando qualquer que voc\u00ea d\u00ea. O corpo n\u00e3o pode ter tens\u00f5es desnecess\u00e1rias. Ombros duros, por exemplo, isso acaba com a respira\u00e7\u00e3o. Quando o ator consegue chegar a um estado de relaxamento ativo, consegue ter dom\u00ednio da respira\u00e7\u00e3o. E quando h\u00e1 dom\u00ednio da respira\u00e7\u00e3o, ele consegue tudo. Porque, para Antunes, ator \u00e9 respira\u00e7\u00e3o. E, por outro lado, a quest\u00e3o do intelecto, da psique, do esp\u00edrito. O ator tem que ser desbloqueado. Temos muitas travas culturais, muitos condicionamentos. As pessoas s\u00e3o todas muito carregadas de preconceitos. O ator n\u00e3o pode ter isso; \u00e9 a mesma coisa de travas no corpo; a trava de um pensamento condicionado a certas manias, certos preconceitos. Acaba com a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o para isso \u00e9 muita leitura, conversa e um permanente trabalho de autoconhecimento. O processo do Antunes est\u00e1 atrelado sempre ao processo de individua\u00e7\u00e3o, como prega o Jung. Porque o ator tem que questionar sempre a postura dele frente ao que ele faz. Ele vai trabalhar com o outro, que \u00e9 o personagem, ent\u00e3o ele n\u00e3o pode ter uma ideia preconcebida do outro. Ele tem que come\u00e7ar a examinar o outro, as raz\u00f5es do outro e buscar primeiro uma identifica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o princ\u00edpio. Mas eu n\u00e3o posso me identificar com um personagem colocando as minhas coisas, como diria Antunes Filho, \u201cseus problemas de \u00c9dipo, seus problemas com o pai, com a m\u00e3e\u201d no personagem. O ator n\u00e3o pode projetar as coisas dele no personagem e sim trazer as coisas do personagem para ele e sentir como ele reagiria dentro disso. \u00c9 sempre um processo de autoconhecimento que ele vai desenvolvendo.<\/p>\n<p>Neste sentido, como voc\u00ea encara as muitas montagens contempor\u00e2neas que levam \u00e0 cena o ator como personagem de si mesmo?<\/p>\n<p>\u00c9 diferente voc\u00ea pegar a biografia de uma pessoa, a vida, analisar, ter as suas conclus\u00f5es e criar em cima disso; ainda que seja uma pessoa atual, viva e tudo mais. Agora quando o ator se coloca ele mesmo em cena, \u00e9 meio complicado. Porque ele n\u00e3o tem um distanciamento do outro. N\u00e3o sei te citar exemplos nem de uma coisa positiva, nem de uma coisa negativa nesse sentido. S\u00f3 acho que \u00e9 algo que est\u00e1 se fazendo hoje, mas que temos que examinar com cuidado, pensar quais caminhos o ator vai tomar nesta cria\u00e7\u00e3o. Um pintor pode fazer um autorretrato, mas ele tem uma dist\u00e2ncia, ele est\u00e1 noutro suporte. O ator n\u00e3o tem outro suporte, o suporte dele \u00e9 o pr\u00f3prio corpo, a pr\u00f3pria cabe\u00e7a. \u00c9 uma coisa meio complicada. Eu acho que sempre que se coloca um ator que est\u00e1 se expondo em cena, usando seu pr\u00f3prio material pessoal para uma cria\u00e7\u00e3o, acho que entra mais na psican\u00e1lise do que na verdadeira cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pelo menos por enquanto. Acho que \u00e9 uma coisa mais terap\u00eautica do que realmente uma cria\u00e7\u00e3o. Agora, n\u00e3o \u00e9 inv\u00e1lido. Acho que as pessoas que est\u00e3o trabalhando nessa linha tem um desafio pela frente, que \u00e9 o de superar uma s\u00e9rie de problemas que existem nesse conceito e de encontrar meios expressivos que tornem isso uma coisa artisticamente v\u00e1lida. Mas \u00e9 muito atual.<\/p>\n<p>Voltando a falar em Antunes, quais os paralelos entre Nelson Rodrigues e Antunes, e como foi a rela\u00e7\u00e3o entre os dois?<\/p>\n<p>Quando falamos em Nelson Rodrigues estamos falando do maior poeta dram\u00e1tico de L\u00edngua Portuguesa desde Gil Vicente. Acho que Nelson est\u00e1 \u00e0 altura dos grandes cl\u00e1ssicos. Est\u00e1 \u00e0 altura de Ibsen, de Shakespeare. N\u00e3o tem diferen\u00e7a. O que Shakespeare fez foi contar aquele seu momento, aquela sua realidade e construir toda uma vis\u00e3o de mundo a partir daquela realidade. Nelson fez a mesma coisa e num n\u00edvel po\u00e9tico de extraordin\u00e1ria beleza, de for\u00e7a e vigor. A rela\u00e7\u00e3o do Antunes com o Nelson foi muito importante para os dois e transformadora. Porque quando o Antunes fez, em 1981, Nelson Rodrigues \u2013 O eterno retorno mudou a vis\u00e3o de todo mundo em rela\u00e7\u00e3o a Nelson Rodrigues. Infelizmente Nelson n\u00e3o chegou a ver o espet\u00e1culo: morreu seis meses da estreia. Mas a assistente do Antunes na \u00e9poca, a Leonor Chaves, que \u00e9 uma grande amiga minha, ia para o Rio e era recebida pelo Nelson para consult\u00e1-lo sobre quest\u00f5es e era recebida com a maior afetividade e muito feliz por Antunes estar fazendo aquele trabalho. Uma pena que ele tenha morrido antes. Acho que ele ficaria surpreso quando visse aquela obra, que era uma coisa surpreendente mesmo. E mudou a vis\u00e3o que se tinha do Nelson Rodrigues. A partir da\u00ed Nelson come\u00e7a a ser realmente considerado um g\u00eanio e \u00e9 repudiada aquela ideia que se fazia antes de um autor pornogr\u00e1fico, de com\u00e9dia de costumes. Nelson \u00e9 um patrim\u00f4nio nosso, do Brasil, e da humanidade. Uma das maiores refer\u00eancias do teatro no s\u00e9culo 20 e onde ele \u00e9 descoberto, \u00e9 louvado. Acho que o Antunes tem uma familiaridade com a obra do Nelson que possibilitou ele fazer, por exemplo, A falecida Vapt-Vupt, que estreou aqui no Recife, em um m\u00eas e meio e como possibilitou fazer agora Toda nudez ser\u00e1 castigada em menos de dois meses. Eles est\u00e3o muito pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>O teatro \u00e9 um processo hist\u00f3rico. Mas mesmo sem o distanciamento geralmente exigido, voc\u00ea consegue delimitar em que momento estamos e que caminhos vamos trilhar?<\/p>\n<p>Acho que o teatro brasileiro tem uma maturidade e uma vitalidade. Estou falando de teatro brasileiro mesmo, de Norte a Sul. N\u00e3o estou falando de eixo Rio-S\u00e3o Paulo. O que se percebe \u00e9 que existem projetos art\u00edsticos audaciosos muitas vezes e uma preocupa\u00e7\u00e3o e uma consci\u00eancia dos criadores &#8211; sejam eles diretores, dramaturgos, atores. Uma consci\u00eancia muito grande de que para chegar a realizar aquela ideia, ele tem que se preparar intelectualmente, pesquisar muito, a cabe\u00e7a dele tem que estar abrindo para novos horizontes. Assim como ele tem que trabalhar o corpo, para que o corpo responda e corresponda \u00e0quela ideia. E isso voc\u00ea percebe em muitos grupos de teatro do Brasil inteiro e muitos conseguem realizar obras que s\u00e3o surpreendentes. Agora&#8230; se est\u00e1 assim, e se assim continua, o futuro a Deus pertence!<\/p>\n<p>Mas o caminho passa pelo teatro de grupo?<\/p>\n<p>Por enquanto, na realidade que estamos vivendo hoje, passa sim. Acho que o teatro de grupo possibilita a continuidade de uma pesquisa. Ent\u00e3o tem grupos, por exemplo, que n\u00e3o tem o diretor, que contratam os diretores. Mas eles t\u00eam uma ideia, uma proposta est\u00e9tica que quem chega acompanha. Cito, por exemplo, o Teatro de An\u00f4nimo, do Rio de Janeiro, que funciona assim. Se o diretor tem uma ideia e os atores t\u00eam outra, fica a ideia do ator! Porque a continuidade do trabalho est\u00e1 neles. E acho que isso \u00e9 importante. O grupo possibilita ter essa continuidade do trabalho e a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 um processo cont\u00ednuo. O produtor contrata, o diretor, o ator que tem o physique du r\u00f4le para aquele papel num sei das quantas. E est\u00e1 fazendo a reprodu\u00e7\u00e3o de um teatro antigo, de uma ideia antiga de teatro, que termina nela mesma. O teatro de grupo possibilita a continuidade, todos estarem dentro de um projeto, e trabalhando por aquilo. E esse projeto pode ir se transformando; pode come\u00e7ar de uma maneira e virar outra coisa l\u00e1 na frente, mas dentro de um esfor\u00e7o conjunto. O teatro \u00e9 sempre uma arte coletiva. O teatro n\u00e3o \u00e9 uma coisa isolada, fragmentada, mas \u00e9 um esfor\u00e7o coletivo de cria\u00e7\u00e3o. E esse coletivo tem necessariamente que estar junto dentro de uma ideia: do que \u00e9 uma obra de arte, o que \u00e9 uma pe\u00e7a de teatro, como o que \u00e9 uma escultura.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea enxerga especificamente o teatro feito no Recife?<\/p>\n<p>Isso tudo que eu estou falando do teatro brasileiro, encontramos aqui, em Jo\u00e3o Pessoa, Porto Alegre, Bras\u00edlia. O que vejo \u00e9 que Recife tem uma tradi\u00e7\u00e3o de teatro que tem que ser respeitada. E isso \u00e9 batalha. Acho sacanagem contar a hist\u00f3ria do teatro moderno brasileiro sem apontar Recife: ficar naquela hist\u00f3ria \u2013 Os comediantes, depois o TBC. Acho que tem que entrar o Gente Nossa como processo hist\u00f3rico, Valdemar, o Teatro de Amadores de Pernambuco, Hermilo Borba Filho. Hermilo n\u00e3o estava importando o que estava acontecendo em S\u00e3o Paulo. \u00c9 claro que estava dialogando com aquilo sim, mas estava correspondendo a uma realidade daqui. Especialmente Hermilo, ele vai trazer muito essa consci\u00eancia: n\u00f3s temos uma realidade e temos que trabalhar e transformar essa realidade em c\u00f3digos art\u00edsticos dentro do teatro. Isso tudo \u00e9 o processo de moderniza\u00e7\u00e3o e Recife participou de maneira muito intensa, com figuras muito importantes. O que percebo hoje \u00e9 que esse vigor, essa heran\u00e7a do passado est\u00e1 trazendo frutos hoje. No panorama do que eu conhe\u00e7o, isso passa pela Companhia Teatro de Seraphim, que pega essa heran\u00e7a dessa moderniza\u00e7\u00e3o, tanto do Teatro de Amadores quanto do Hermilo, com as contradi\u00e7\u00f5es todas impl\u00edcitas nessas linhas e vai trazer para o Seraphim outra coisa, que j\u00e1 se transforma noutros grupos. Acho que um dos grupos mais recentes, por exemplo, \u00e9 o Magiluth. Acho o Magiluth um grupo de uma capacidade de percep\u00e7\u00e3o teatral muito grande, de propostas teatrais. Quando eles fazem Um torto, Aquilo que meu olhar guardou para voc\u00ea s\u00e3o experi\u00eancias c\u00eanicas importantes. E eles t\u00eam a coragem de fazer Greg\u00f3rio com aquela capacidade artesanal, mostrando que eles sabem realmente fazer teatro sim. Pegam Uma vi\u00fava, por\u00e9m honesta; tem a intelig\u00eancia de pegar uma obra de Nelson Rodrigues que permite isso e fazem como se fosse uma extens\u00e3o do Nelson Rodrigues. Eles t\u00eam as mesmas condi\u00e7\u00f5es do Nelson Rodrigues porque s\u00e3o da mesma terra, t\u00eam as mesmas heran\u00e7as culturais da regi\u00e3o. Tenho muita admira\u00e7\u00e3o pelo povo todo que est\u00e1 fazendo teatro no Recife, que sempre me surpreende. Vejo um teatro muito vital e que tem ra\u00edzes, tem tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que est\u00e1 acontecendo por acaso.<\/p>\n<p>Neste panorama nacional, em que situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a cr\u00edtica, principalmente com a diminui\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os formais?<\/p>\n<p>Senti isso na carne. H\u00e1 d\u00e9cadas me recuso a fazer cr\u00edtica na imprensa di\u00e1ria, estar na reda\u00e7\u00e3o fazendo cr\u00edtica. Vamos voltar ao Vi\u00fava, por\u00e9m honesta. Acho perfeito o que o Nelson Rodrigues faz. Tem uma tradi\u00e7\u00e3o na imprensa brasileira que vem l\u00e1 dos anos 1910, 1920. Naquela \u00e9poca o cr\u00edtico para entrar no teatro tem que ter uma casaca. \u201cAh, quem trouxe uma casaca? Ent\u00e3o hoje voc\u00ea \u00e9 o cr\u00edtico do dia\u201d. N\u00e3o mudou tanto. Porque muitos cr\u00edticos s\u00e3o eleitos pelo editor porque acham que \u201co carinha\u201d leva jeito, quando a cr\u00edtica \u00e9 uma coisa muito s\u00e9ria. Ou ent\u00e3o vamos publicar s\u00f3 cr\u00edticas de espet\u00e1culos que tem estrelas de televis\u00e3o. Acho que \u00e9 uma vis\u00e3o t\u00e3o falha&#8230; e por isso a imprensa est\u00e1 t\u00e3o mal das pernas, enchendo o saco por assinatura. Os espa\u00e7os est\u00e3o cada vez menores ou inexistentes. Em S\u00e3o Paulo, vejo que tem um movimento teatral de periferia, de grupos de import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria na periferia que n\u00e3o tem espa\u00e7o nenhum na imprensa. Ou algumas vezes, o Grupo Clari\u00f4, por exemplo, que faz um trabalho extraordin\u00e1rio. Hospital da gente \u00e9 uma obra antol\u00f3gica. Eles ganharam p\u00e1ginas inteiras nos jornais, porque a sede deles, que \u00e9 junto de uma favela, num local sujeito a enchentes, sofreu algumas enchentes. E n\u00e3o pelo trabalho extraordin\u00e1rio que eles fizeram em cima do texto do Marcelino Freire. Por outro lado, existe um pensamento cr\u00edtico no Brasil hoje? Existe. Tem muita gente escrevendo, fazendo cr\u00edticas importantes, pensando o teatro no campo da teoria, de uma maneira muito s\u00e9ria. Mas essas pessoas raramente aparecem na imprensa di\u00e1ria. Elas est\u00e3o publicando livros, fazendo ensaios, artigos que voc\u00ea v\u00ea em revistas de vez em quando. Ent\u00e3o existe sim um pensamento cr\u00edtico acompanhando tudo isso. N\u00e3o estamos numa terra de ningu\u00e9m. Mas as pessoas quando falam de cr\u00edtica j\u00e1 pensam naquela coluninha que sai no jornal.<\/p>\n<p>Qual o seu processo quando vai escrever uma cr\u00edtica?<\/p>\n<p>Sempre procuro amadurecer muito as ideias. Quando \u00e9 para uma publica\u00e7\u00e3o que eu tenha tempo, trabalho muito, volto muitas vezes \u00e0quilo, me questiono. Mas quando fa\u00e7o cr\u00edticas em festivais, por exemplo, que \u00e9 uma coisa mais r\u00e1pida, o que procuro sempre \u00e9 perceber no espet\u00e1culo o que h\u00e1 de positivo. Isso que me interessa. E sempre h\u00e1 alguma coisa positiva. Porque a\u00ed acho que voc\u00ea est\u00e1 dialogando com os criadores de uma maneira mais honesta, mais justa e voc\u00ea est\u00e1 dando ao espectador, ao leitor, a ideia de que, ainda que seja um espet\u00e1culo com problemas, mas voc\u00ea pode prestar aten\u00e7\u00e3o em algo, um caminho, um vi\u00e9s, revela um pensamento mais consistente daquele criador. Essa \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o importante da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acompanha a cr\u00edtica teatral na internet?<\/p>\n<p>Eu realmente n\u00e3o observo tanto, por causa de tempo. Procuro me atualizar e verificar o que as pessoas est\u00e3o fazendo, pensando, mas n\u00e3o com um acompanhamento sistem\u00e1tico. At\u00e9 porque \u00e9 muita coisa. Acho que na internet voc\u00ea encontra alguns trabalhos cr\u00edticos que, \u00e0s vezes, n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o na imprensa tradicional. Porque a internet rompe um pouco com as exig\u00eancias editoriais, ent\u00e3o permite que o cr\u00edtico tenha um racioc\u00ednio um pouco mais dilatado. Mas o que percebo \u00e9 que a grande maioria escreve ainda como se estivesse escrevendo para um jornal di\u00e1rio; est\u00e3o dentro dos mesmos conceitos, das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es editoriais, que interferem no pensamento cr\u00edtico. A internet \u00e9 um campo que possibilita uma democratiza\u00e7\u00e3o e isso traz tamb\u00e9m o aparecimento de um mundo de coisa ruim, mas tamb\u00e9m de coisas de excelente n\u00edvel. A internet est\u00e1 possibilitando que as pessoas se pronunciem. Quando eu fiz o Anta profana (www.anaprofana.com.br), foi por uma insist\u00eancia de um sobrinho meu, o Alexandre Werneck, que fez o site. E eu achei legal quando a ideia maturou. Mas a minha preocupa\u00e7\u00e3o primeira \u00e9 que eu estava com muito trabalho de pesquisa e eu tinha que colocar na roda. Acho que o pesquisador vai acumulando muita coisa e eu tinha que dar acesso a outras pessoas a esse material. E para isso o Anta profana, antes de ser a divulga\u00e7\u00e3o de um pensamento cr\u00edtico, era a distribui\u00e7\u00e3o do conhecimento de um pesquisador. Mas j\u00e1 tem dois anos que estou com muita dificuldade de atualizar, por conta do trabalho. Mas vou retomar. Anta profana \u00e9 minha casa e eu sou uma anta, por\u00e9m n\u00e3o sagrada, profana.<\/p>\n<p>Queria falar um pouco sobre a Lei de Fomento ao Teatro em S\u00e3o Paulo, que completou uma d\u00e9cada ano passado, e a import\u00e2ncia dessa experi\u00eancia para o resto do pa\u00eds. Voc\u00ea presidiu a comiss\u00e3o que escolhia os projetos contemplados algumas vezes, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>A Lei de Fomento estabeleceu um modelo de apoio. Foi resultado de um movimento da categoria que foi o Arte Contra a Barb\u00e1rie, um movimento realmente muito importante e que desembocou num momento favor\u00e1vel, que foi quando a Marta Suplicy foi eleita prefeita de S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o alguns vereadores acolheram a proposta da categoria, apresentaram projeto de lei e depois a prefeita aprovou, sem alterar o projeto de lei que tinha sido feito pela categoria. Acho que a Lei de Fomento inova de uma maneira extraordin\u00e1ria porque n\u00e3o \u00e9 destinada \u00e0 montagem de espet\u00e1culo. Toda lei de incentivo est\u00e1 sempre pensando em montagem. E a Lei de Fomento n\u00e3o \u00e9 para isso, mas para a continuidade de trabalho de grupo. Possibilitar que um coletivo possa desenvolver seu trabalho de pesquisa sem essa opress\u00e3o de colocar algo logo em cena, buscar patrocinadores. Voc\u00ea tem que ter esse tempo para estudo, um espa\u00e7o que possibilite isso. Acho que \u00e9 um desdobramento legal, por exemplo, que a Petrobras est\u00e1 fazendo, tamb\u00e9m promovendo a manuten\u00e7\u00e3o de grupo. Muitos grupos no Brasil est\u00e3o conseguindo desenvolver seus trabalhos. Dentro da pr\u00f3pria categoria, por outro lado sempre tem aqueles que n\u00e3o s\u00e3o contemplados ou os que nem mandam projetos: \u201cessa comiss\u00e3o \u00e9 um compadrio\u201d. A lei n\u00e3o impede que um grupo seja contemplado v\u00e1rias vezes e at\u00e9 em sequ\u00eancia. Se um grupo apresenta um projeto e demonstra que est\u00e1 trabalhando, que est\u00e1 realizando, precisa ganhar de novo para continuar. O esp\u00edrito da lei sempre foi esse. Ent\u00e3o dentro da classe surgia essa hist\u00f3ria de compadrio, que realmente, nunca existiu. As nove vezes que eu presidi a comiss\u00e3o, as reuni\u00f5es sempre foram aguerridas. Cada projeto votado \u00e9 discutido exaustivamente. E outra coisa \u00e9 dentro do pr\u00f3prio governo. Alguns acham que a presta\u00e7\u00e3o de contas tinha que ser como a da Lei Rouanet, que sacrifica os grupos. Felizmente, criou-se logo no in\u00edcio a continuidade do Arte Contra a Barb\u00e1rie. Ent\u00e3o os grupos se re\u00fanem. Por exemplo, a secretaria colocou um edital e tem alguma coisa que fere o esp\u00edrito da Lei de Fomento, imediatamente tem uma manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica e por duas vezes a secretaria j\u00e1 teve que cancelar o edital e refazer. Isso \u00e9 importante. S\u00e3o Paulo tem um movimento teatral hoje muito forte, com grupos que surgiram nos anos 1990 e tem uma express\u00e3o bastante grande e a possibilidade da exist\u00eancia desses grupos est\u00e1 ligada \u00e0 Lei de Fomento. Acho que \u00e9 um modelo que poderia ser aplicado nacionalmente.<\/p>\n<p>Uma discuss\u00e3o recorrente: como formar plateia no Brasil?<\/p>\n<p>O teatro \u00e9 o ator antes de tudo, mas sem a plateia o ator n\u00e3o existe, \u00e9 aquele bobo que est\u00e1 falando sozinho. Ele tem que ter o interlocutor. Mas \u00e9 complicado formar plateia. Eu dou um exemplo claro. Os grupos de periferia de S\u00e3o Paulo. Tem v\u00e1rios grupos de um n\u00edvel extraordin\u00e1rio: a Brava, Dolores Boca Aberta, Clari\u00f4. S\u00e3o grupos de um trabalho est\u00e9tico de import\u00e2ncia muito grande. E o trabalho est\u00e9tico deles nasce do conv\u00edvio deles com a comunidade onde atuam. Eles n\u00e3o est\u00e3o na coisa paternalista: \u201cah, coitadinhos, nunca viram teatro\u201d. N\u00e3o \u00e9 isso. A atitude \u00e9: esta era uma realidade que nos interessa como mat\u00e9ria prima para a nossa cria\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para fazer discursos panflet\u00e1rios, nada disso. Porque o drama humano est\u00e1 ali e isso \u00e9 o que interessa. Mas tenho que conhecer profundamente esse drama humano para conseguir transform\u00e1-lo em c\u00f3digos art\u00edsticos em cena. Esses grupos todos, quando eu vou para a periferia para ver um trabalho deles, embora voc\u00ea n\u00e3o precise ir para a periferia, porque muitos deles est\u00e3o nos festivais, a receptividade daquele p\u00fablico para as obras \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria. N\u00e3o lhes falta p\u00fablico jamais e um p\u00fablico c\u00famplice. S\u00e3o c\u00f3digos que eles criaram. N\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil, que voc\u00ea v\u00ea na televis\u00e3o. N\u00e3o! \u00c9 uma obra de arte que eles est\u00e3o criando ali! Mas tem um di\u00e1logo maravilhoso e aquele p\u00fablico est\u00e1 completamente entregue a eles. Essa \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de plateia que vejo, esse di\u00e1logo. N\u00e3o \u00e9 criar evento. Acho que o que esses grupos est\u00e3o fazendo &#8211; estou falando da periferia porque \u00e9 mais \u00f3bvio, mas outros est\u00e3o fazendo isso, como o Teatro da Vertigem -, \u00e9 resgatar para o teatro a sua condi\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica. \u00c9 um ritual. E o ritual envolve o que est\u00e1 celebrando e quem est\u00e1 participando: a plateia. Quando o teatro interessa realmente \u00e0quele p\u00fablico a\u00ed o teatro se torna uma coisa sagrada, a\u00ed acontece um encontro do homem como o divino. Isso \u00e9 forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. Eu lembro de uma experi\u00eancia que tive h\u00e1 muito tempo, aqui no Cabo de Santo Agostinho. Fiquei impressionado com o teatro, n\u00e3o s\u00f3 de rua, mas de palco tamb\u00e9m. E como uma parte da plateia, molecada mesmo, entrava na cena. E a\u00ed \u00e9 que est\u00e1: n\u00e3o tem uma educa\u00e7\u00e3o burguesa, quer participar tamb\u00e9m, ent\u00e3o fala, mas dialoga. E eu achava aquilo lindo, n\u00e3o me incomodava. Depois, sim, vamos educando a plateia. Mas esse jogar-se l\u00e1 dentro \u00e9 t\u00e3o fundamental! A\u00ed se cria a plateia. N\u00e3o \u00e9 aquela plateia que vai ver espet\u00e1culo e depois come pizza. Essa plateia n\u00e3o me interessa. Como n\u00e3o me interessa quem faz teatro para isso. Acho que teatro \u00e9 uma coisa muito mais s\u00e9ria. Aquelas \u2018comediazinhas\u2019&#8230;voc\u00ea ri, ri, depois vai comer pizza. E esquece. N\u00e3o leva nada daquilo. O teatro tem que imprimir na alma do espectador alguma coisa muito importante.<\/p>\n<p>Quais os seus pr\u00f3ximos projetos?<\/p>\n<p>Estou completamente envolvido na s\u00e9rie Teatro e circunst\u00e2ncia. N\u00f3s ficamos cinco meses rodando pelo Brasil e tomando depoimentos. Entrevistei mais de cem grupos. Do Brasil inteiro, ou pelo menos de Bel\u00e9m a Porto Alegre. Tem alguns vazios: eu n\u00e3o podia ir para Manaus, por exemplo, para Mato Grosso, porque era muito dispendioso. Ent\u00e3o tive que me concentrar: o Nordeste inteiro, Minas Gerais, Rio de Janeiro, os estados de Sul. Entrevistei mais de 100 grupos e ainda intelectuais, pessoas envolvidas com o teatro. \u00c9 um material de pesquisa extraordin\u00e1rio, como acho que ningu\u00e9m tem. E isso me traz uma responsabilidade. Porque terminando de construir os roteiros da s\u00e9rie &#8211; 28 roteiros, de uma hora cada um, vou fazer um livro. Estou feliz porque \u00e9 um painel como nunca houve. No final das contas, s\u00e3o 55 programas de uma hora cada. E o que pretendo fazer, o projeto que vou me dedicar inteiramente \u00e9 escrever um livro sobre o teatro brasileiro contempor\u00e2neo. Esse teatro que realmente existe e n\u00e3o aquele que as pessoas imaginam que exista e que fica restrito a determinadas \u00e1reas e nada mais. Tem coisas surpreendentes nesse pa\u00eds. Trabalhos, pessoas pensando teatro nos lugares onde voc\u00ea nem suspeitava.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o teatro para voc\u00ea?<\/p>\n<p>O teatro para mim \u00e9 uma religi\u00e3o. Acho que o teatro \u00e9 sim um espa\u00e7o sagrado. \u00c9 sempre um ritual. Acho legal, por exemplo, quando o Amir Haddad defende a ideia da arte p\u00fablica. A arte p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 uma arte feita pelo governo. \u00c9 uma arte feita pelo cidad\u00e3o e para o cidad\u00e3o. E acho que o teatro \u00e9 realmente isso. O teatro tem que ser uma arte p\u00fablica. Quando o artista vai para a cena, ele tem que estar carregado dessa responsabilidade social, o ato pol\u00edtico de voc\u00ea estar se dirigindo ao outro. Em primeiro lugar isso, essa responsabilidade na comunica\u00e7\u00e3o e quando ela se efetiva de uma maneira generosa, bonita, bela, porque quando voc\u00ea est\u00e1 fazendo arte voc\u00ea tem que buscar a est\u00e9tica, voc\u00ea chega ao ritual e ao que \u00e9 o teatro. \u00c9 uma coisa sagrada. \u00c9 o divino de cada um. Quando voc\u00ea supera todas as suas coisas mesquinhas, imediatas, e tudo mais e passa para outro plano da realidade, um plano superior. \u00c9 a\u00ed que o teatro tem que esta<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que o teatro brasileiro est\u00e1 de luto \u00e9 pouco para traduzir a falta que Sebastiao Milar\u00e9 j\u00e1 faz. O cr\u00edtico, dramaturgo e pesquisador teatral paulista migrou para outra dimens\u00e3o nessa quinta-feira. 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