{"id":12023,"date":"2014-03-20T16:46:36","date_gmt":"2014-03-20T19:46:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12023"},"modified":"2014-03-20T16:46:36","modified_gmt":"2014-03-20T19:46:36","slug":"criticas-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-escola\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: Escola"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_12024\" style=\"width: 4279px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/20\/criticas-escola\/2-escola-de-guilhermo-caldero%c2%a6un-foto-marlon-marinho-20140315_02\/\" rel=\"attachment wp-att-12024\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12024\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/2-Escola-de-Guilhermo-Caldero\u00a6\u00fcn-foto-Marlon-Marinho-20140315_02.jpg\" alt=\"Guillermo Calder\u00f3n assina Escola. 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Foto: Marlon Marinho<\/p><\/div>\n<p><strong>Espa\u00e7os para desconfiar do discurso<\/strong><br \/>\n<em>Por Luciana Romagnolli \u2013 Horizonte da Cena<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 o torturador cria para si hist\u00f3rias que o conven\u00e7am de que faz o bem. Dita quase com essas palavras em <em>Escola<\/em>, tal frase \u00e9 ind\u00edcio da perspectiva complexa com a qual o diretor Guillermo Calder\u00f3n aborda temas pol\u00edticos em espet\u00e1culos como <em>Villa+Discurs<\/em>o, apresentado no Brasil em 2011 e 2012, e este <em>Escola<\/em> que ora traz \u00e0 MITsp. \u00c9 preciso desconfiar dos discursos. Deles escapam contradi\u00e7\u00f5es, que revelam a concorr\u00eancia de for\u00e7as sob a superf\u00edcie de uma convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>Villa<\/em>, tais for\u00e7as se mostravam mais evidentes na dramaturgia, separadas em opini\u00f5es distintas sobre o melhor modo de representar a mem\u00f3ria da viol\u00eancia cometida durante a ditadura chilena a partir de um problema concreto: a constru\u00e7\u00e3o de um museu. O conflito de pontos de vista estruturava as a\u00e7\u00f5es e se dava a ver na superf\u00edcie dos discursos; e o encaminhamento dado a eles depunha sobre o car\u00e1ter ilus\u00f3rio de um consenso ou uma verdadeira solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece ser dessa descren\u00e7a no consenso que Calder\u00f3n parte em <em>Escola<\/em>. Embora se ou\u00e7a somente a perspectiva de um grupo de guerrilheiros em forma\u00e7\u00e3o, a abordagem passa longe do dogmatismo. O teor reflexivo se encontra agora nas zonas quebradi\u00e7as do discurso sustentado precariamente.<\/p>\n<p>Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir \u00e0 luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980. Aprendem no\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias de capitalismo, tiro e conspira\u00e7\u00e3o. O ensino ao qual o p\u00fablico \u00e9 igualmente exposto sofre das limita\u00e7\u00f5es comuns \u00e0 aprendizagem na escola: a veicula\u00e7\u00e3o de um discurso quase catequizante, do qual o aluno-espectador h\u00e1 de desconfiar por si mesmo. A escola surge como esse lugar de uma verdade que instrui, mas de cuja solidez se deve duvidar.<\/p>\n<p>O trabalho de Calder\u00f3n demanda um espectador n\u00e3o ing\u00eanuo e trabalha com concep\u00e7\u00f5es brechtianas livremente recriadas pelo encenador chileno. Os desencaixes entre cenas rompem a fluidez da frui\u00e7\u00e3o, incitando a leitura cr\u00edtica a partir de sutilezas e subtextos. A defesa de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o popular que fa\u00e7a uso da viol\u00eancia para instaurar um novo estado social, por exemplo, esbarra no baixo n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desses militantes, que pontualmente manifestam ingenuidades e contradi\u00e7\u00f5es. Mesmo a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia ganha sombras absurdas frente \u00e0 descri\u00e7\u00e3o do funcionamento do revolver e do explosivo. A encena\u00e7\u00e3o realista, em espa\u00e7o diminuto e cenografia econ\u00f4mica, atesta ainda certa \u00e9tica da representa\u00e7\u00e3o praticada por Calder\u00f3n, que se esquiva \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua exposi\u00e7\u00e3o de uma c\u00e9lula de resist\u00eancia popular, <em>Escola<\/em> ganha um car\u00e1ter de urg\u00eancia pelo di\u00e1logo com o contexto atual da Am\u00e9rica Latina, no contraponto de um passado ditatorial com as manifesta\u00e7\u00f5es de descontentamento pol\u00edtico do presente. A forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deficiente, ali\u00e1s, \u00e9 um dos in\u00fameros pontos de aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do espet\u00e1culo com os protestos iniciados em junho passado no Brasil. Outro \u00e9 o questionamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura ter cedido a um governo falsamente democr\u00e1tico, que ainda operaria sob princ\u00edpios autorit\u00e1rios e interesses alheios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Calder\u00f3n disp\u00f5e um lugar especial ao espectador: o de um encontro com uma ou mais vis\u00f5es de mundo que n\u00e3o tentem convenc\u00ea-lo \u2013 posto que o convencimento seria um autoritarismo \u2013 mas demandem dele o assumir de uma postura. Essa opera\u00e7\u00e3o se torna mais potente na medida em que a dramaturgia contempla um endere\u00e7amento ao futuro, ao pressupor que aquele momento pol\u00edtico decisivo para o Chile seria retomado adiante e que a luta popular tem o exemplo de erros e acertos de um passado n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<div id=\"attachment_12031\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/20\/criticas-escola\/1-escola-de-guilhermo-caldero%c2%a6un-foto-marlon-marinho-20140315_01\/\" rel=\"attachment wp-att-12031\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12031\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-Escola-de-Guilhermo-Caldero\u00a6\u00fcn-foto-Marlon-Marinho-20140315_01.jpg\" alt=\"Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir \u00e0 luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980\" width=\"600\" height=\"399\" class=\"size-full wp-image-12031\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-Escola-de-Guilhermo-Caldero\u00a6\u00fcn-foto-Marlon-Marinho-20140315_01.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-Escola-de-Guilhermo-Caldero\u00a6\u00fcn-foto-Marlon-Marinho-20140315_01-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12031\" class=\"wp-caption-text\">Personagens com os rostos ocultos por capuzes recebem ensinamentos para ir \u00e0 luta armada contra o regime ditatorial nos anos 1980<\/p><\/div>\n<p><strong>O poder subversivo da contracultura formal<\/strong><br \/>\n<em>Por Valmir Santos \u2013 Teatrojornal<\/em><\/p>\n<p>Os procedimentos dramat\u00fargicos e c\u00eanicos de Guillermo Calder\u00f3n em <em>Escola<\/em> combinam elementos \u00e9picos e dram\u00e1ticos que potencializam uma teatralidade feita de sutilezas e impurezas nas angula\u00e7\u00f5es cr\u00edtica e pol\u00edtica em que se anuncia. Seu mote \u00e9 um achado, e explosivo.  Ao circunscrever o treinamento dos integrantes de uma guerrilha em tempos de ditadura militar, o espet\u00e1culo d\u00e1 margem para pensar no\u00e7\u00f5es de ideologia e de engajamento \u00e0 luz dos dias que correm, quando o espa\u00e7o p\u00fablico retoma voca\u00e7\u00e3o para a \u00e1gora em que manifestantes se fazem escutar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se espere por abordagens hist\u00f3ricas e socializantes elementares ou militantes, apenas. Elas v\u00eam sob tra\u00e7os est\u00e9ticos rigorosos nas m\u00e3os desse artista chileno nascido em 1971 e notabilizado pela estrutura\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica de suas montagens.<\/p>\n<p>Calder\u00f3n \u00e9 persuasivo ao visitar a cultura aut\u00f3ctone, a express\u00e3o popular, as ideias da milit\u00e2ncia de esquerda e o combate \u00e0s sequelas do est\u00e1gio atual do capitalismo justamente em tempos de crise de representatividade, refrat\u00e1rios \u00e0s ideologias. Os hinos revolucion\u00e1rios, o cancioneiro de evoca\u00e7\u00e3o ao povo mapuche, os capuzes dos jovens movidos pela utopia s\u00e3o alguns dos aspectos mediadores da encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra estabelece uma contracultura formal \u00e0s expectativas pragm\u00e1ticas suscitadas pelo tema. Desdramatiza os mecanismos did\u00e1ticos, relativiza as tens\u00f5es e rompe com a ilus\u00e3o ao mesmo tempo em que disp\u00f5e documentos ou dados, \u00e0s vezes projetando-os literalmente, inscrevendo imagem ou palavra no corpo dos atores. Essas transi\u00e7\u00f5es s\u00e3o demarcadas pela gestualidade ou pela simbiose de luz e de cen\u00e1rio m\u00ednimos que delimitam o tempo e o espa\u00e7o. A sugest\u00e3o \u00e9 de que estamos na d\u00e9cada de 1980, sob as ordens do general Pinochet, mas o contexto \u00e9 perfeitamente m\u00f3vel em se tratando das realidades geopol\u00edticas, principalmente no continente latino-americano.<\/p>\n<p>Apesar da frontalidade do palco, o espectador trabalha com a vis\u00e3o de arena como espa\u00e7o c\u00eanico. N\u00e3o \u00e9 incomum algumas dessas figuras postarem-se de costas para o p\u00fablico. Um c\u00edrculo formado por bancos, cadeiras. Ao fundo, uma lousa. H\u00e1 sempre um instrutor a conduzir os aprendizes com o discurso das estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse car\u00e1ter expositivo das aulas \u00e9 a deixa para que a verve de Calder\u00f3n aflore. As t\u00e9cnicas de aprendizagem no manuseio de arma ou de um artefato explosivo s\u00e3o rudimentares em que pese os argumentos fundamentados sobre a injusti\u00e7a do regime de exce\u00e7\u00e3o a ser combatido. \u00c0 miss\u00e3o conjecturada, a dramaturgia desarma-se da austeridade para desaguar momentos pat\u00e9ticos, um deles em clara refer\u00eancia ao bem-humorado e n\u00e3o menos corrosivo No (2012), filme de Pablo Larra\u00edn focado na campanha publicit\u00e1ria do plebiscito nacional que definiu o destino da ditadura no poder. S\u00e3o nessas contradi\u00e7\u00f5es que enxergamos os revolucion\u00e1rios mascarados como seres fal\u00edveis em sua humanidade.<\/p>\n<p><em>Escola<\/em> sintetiza a capacidade de Calder\u00f3n na economicidade do que tem a dizer e como o faz. Em sua trajet\u00f3ria recente, o teatro pol\u00edtico n\u00e3o comporta a mensagem, antes a centelha do problema. N\u00e3o abdica do componente ideol\u00f3gico em sua mirada e espera encontrar interlocutor disposto a enfrentar esse material sombrio do passado e do presente a partir das chaves do jogo teatral objetivo. Para tanto, o quinteto de atuadores conjuga o processo art\u00edstico ao processo hist\u00f3rico com solidez e consci\u00eancia vigilantes no tablado, como podem os melhores comediantes confrontados \u00e0 dimens\u00e3o tr\u00e1gica da exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espa\u00e7os para desconfiar do discurso Por Luciana Romagnolli \u2013 Horizonte da Cena At\u00e9 o torturador cria para si hist\u00f3rias que o conven\u00e7am de que faz o bem. 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