{"id":12016,"date":"2014-03-20T16:28:25","date_gmt":"2014-03-20T19:28:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12016"},"modified":"2014-03-20T16:28:25","modified_gmt":"2014-03-20T19:28:25","slug":"criticas-cineastas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-cineastas\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: Cineastas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_12018\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/20\/criticas-cineastas\/cineastas2\/\" rel=\"attachment wp-att-12018\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12018\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas2.jpg\" alt=\"Cineastas acontece em dois planos. Foto: MITsp\/Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12018\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas2.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12018\" class=\"wp-caption-text\">Cineastas acontece em dois planos. Foto: MITsp\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Cinematografia da realidade teatral<\/strong><br \/>\n<em>Por Pollyanna Diniz \u2013 Satisfeita, Yolanda?<\/em><\/p>\n<p>A certa altura do espet\u00e1culo <em>Cineastas<\/em>, a declara\u00e7\u00e3o de um dos personagens saltou aos ouvidos: \u201co cinema \u00e9 o ser humano fazendo o tempo parar\u201d. Enquanto no cinema o instante se deixa capturar e reproduzir pelo aparato tecnol\u00f3gico, no teatro h\u00e1 mais coer\u00eancia em dizer que ele \u00e9 experimentado em conjunto. Por isso mesmo, a caracter\u00edstica da efemeridade mostra-se, como sabemos, uma das mais intr\u00ednsecas \u00e0 atividade teatral. Atores e espectadores est\u00e3o em busca de uma viv\u00eancia compartilhada, da frui\u00e7\u00e3o de puls\u00f5es e desejos, que n\u00e3o se d\u00e3o numa via de m\u00e3o \u00fanica: acontecem tanto do palco para a plateia quanto vice-versa, mas significam efetivamente tempo, acontecimento e, geralmente, espa\u00e7o divididos.<\/p>\n<p>Em <em>Cineastas<\/em>, o dramaturgo e diretor argentino Mariano Pensotti tra\u00e7a paralelos e similitudes entre o teatro e o cinema e problematiza os limites entre realidade e fic\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que utilizando, de fato, sempre a chave da fic\u00e7\u00e3o. A trama apresenta as vidas \u201creais\u201d de quatro diretores de cinema e, concomitantemente, os filmes nos quais eles est\u00e3o envolvidos. A dicotomia entre cria\u00e7\u00e3o e realidade se estabelece a partir das representa\u00e7\u00f5es dos filmes postos como obras de fic\u00e7\u00e3o quando, na realidade, tudo \u00e9 simulacro do real.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias se desenrolam simultaneamente e com a agilidade da linguagem audiovisual. As a\u00e7\u00f5es s\u00e3o apresentadas em planos distintos. A cena, ali\u00e1s, prop\u00f5e o mesmo recorte imag\u00e9tico do cinema nos enquadramentos bem definidos. Tudo est\u00e1 restrito ao que cabe naquele ret\u00e2ngulo e, com isso, a quest\u00e3o: quais s\u00e3o os recortes que fazemos da realidade priorizando este ou aquele vi\u00e9s?<\/p>\n<p>Nas duas telas, as narrativas exibidas se influenciam e s\u00e3o postas em fric\u00e7\u00e3o o tempo inteiro \u2013 at\u00e9 que ponto \u201crealidade\u201d e fic\u00e7\u00e3o podem se misturar e relacionar? De que forma esses conceitos podem ser intercambi\u00e1veis? Um dos cineastas, por exemplo, decide mudar o roteiro do filme depois que descobre uma doen\u00e7a terminal. Outra \u00e9 afetada porque est\u00e1 filmando um roteiro em que um desaparecido surge anos depois desestabilizando a fam\u00edlia; e ela enxerga ali a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, j\u00e1 que o pai dela tamb\u00e9m sumiu.<\/p>\n<p>A dramaturgia est\u00e1 apoiada ainda nas contradi\u00e7\u00f5es desveladas no cotidiano, entre os pap\u00e9is assumidos diariamente nas diferentes situa\u00e7\u00f5es e o que realmente somos ou gostar\u00edamos de ser. Um dos diretores trabalha no McDonald\u00b4s, mas se dedica a rodar um filme em que teoricamente destruiria a imagem da multinacional.<\/p>\n<p><em>Cineastas<\/em> solicita o tempo inteiro que o espectador esteja acompanhando as sequ\u00eancias e os cortes propostos pelo diretor, retomando a narrativa de onde ela foi interrompida, como as diversas tramas em que n\u00f3s mesmos, plateia, estamos envolvidos. A hist\u00f3ria de Pensotti normalmente tem um narrador, onisciente, que assume a condu\u00e7\u00e3o da trama quando disp\u00f5e do microfone, e a\u00ed nos revela o que se passa, mesmo que os outros dois atores, por exemplo, estejam conversando. N\u00e3o interessa o que dizem; aquele narrador j\u00e1 \u00e9 capaz de traduzir n\u00e3o s\u00f3 o que est\u00e1 acontecendo \u201cde fato\u201d, como de nos contar em tom confessional o que os personagens est\u00e3o pensando, os dilemas enfrentados, como se sentem. Logo depois o di\u00e1logo entre os dois pode ser retomado e virar novamente o foco principal da cena.<\/p>\n<p>As possibilidades de espelhamento e constru\u00e7\u00e3o de interfer\u00eancias entre realidade e fic\u00e7\u00e3o representadas dentro da pe\u00e7a nos inquietam tamb\u00e9m acerca do quanto nos resignamos diante das condi\u00e7\u00f5es dadas pela efetividade do cotidiano.  E, ao mesmo tempo, nessa perspectiva, do quanto podemos ser afetados e influenciados pela arte e, especificamente, pela experi\u00eancia partilhada do teatro. Como se, sendo ou n\u00e3o capazes de lidar com a realidade ou suas reconstru\u00e7\u00f5es do dia a dia, o teatro sempre fosse um ref\u00fagio poss\u00edvel.<\/p>\n<div id=\"attachment_12019\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/20\/criticas-cineastas\/cineastas1\/\" rel=\"attachment wp-att-12019\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12019\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas1.jpg\" alt=\"As cenas podem ser narradas pelos pr\u00f3prios atores\" width=\"600\" height=\"900\" class=\"size-full wp-image-12019\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12019\" class=\"wp-caption-text\">As cenas podem ser narradas pelos pr\u00f3prios atores<\/p><\/div>\n<p><strong>At\u00e9 que se viva algo especial, n\u00e3o se poder\u00e1 viver nada<\/strong><br \/>\n<em>Por Ana Carolina Marinho \u2013 Antro Positivo<\/em><\/p>\n<p>O que \u00e9, diante do real, esse trabalho intermedi\u00e1rio da imagina\u00e7\u00e3o? \u2013 diz Robert Bresson. Para um cineasta inquieto com o seu tempo e com o seu fazer, suponho que seja o cotidiano o suporte de seus devaneios e a imagina\u00e7\u00e3o a engrenagem para a realidade. Mas encontra-se a\u00ed a pot\u00eancia e o rev\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o. Parto dessa suspeita para propor uma reflex\u00e3o a partir de Cineastas, da Companhia Marea. Sendo a cria\u00e7\u00e3o esse territ\u00f3rio da instabilidade e do desassossego, o criador busca ordenar as formas para delas subtrair instantes de arrebatamento. E cada instante desse capturado \u00e9 enquadrado, o que retira dele uma possibilidade outra de existir, na medida em que se exclui do plano um universo para, quem sabe, libertar o plano dele mesmo; deslocado de sua realidade, do instante n\u00e3o permanece quase nada.<\/p>\n<p>Reside tamb\u00e9m nessa instabilidade a \u00e2nsia por encontrar na vida o impulso criador, a inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, o acontecimento tr\u00e1gico ou qualquer outra intensidade a que atribu\u00edmos \u00e0 banalidade. \u201cAt\u00e9 que se viva algo especial, n\u00e3o se poder\u00e1 viver nada\u201d, diz um dos personagens. \u00c9 uma esp\u00e9cie de apetite que destempera o olhar. Faminto pelo est\u00edmulo criativo, o criador olha ao redor esperando que dele possa se servir. Quando n\u00e3o obriga a realidade a ofertar alguma coisa sequer! E se nada satisfizer a gula, me juntarei ao criador para maldizer a vida e o cotidiano. E juntos permaneceremos distantes da experi\u00eancia e da cria\u00e7\u00e3o, enquanto desejarmos destemperadamente apoderar daquilo que queremos e tomar posse daquilo que dever\u00edamos estar absortos. Se se cria por insatisfa\u00e7\u00e3o ao que se tem, seria a cria\u00e7\u00e3o resson\u00e2ncia do fracasso?<\/p>\n<p>Em <em>Cineastas<\/em>, revela-se que a insatisfa\u00e7\u00e3o reside tanto na imagem pr\u00e9-fabricada \u2013 a pel\u00edcula \u2013 quanto na imagem imediata \u2013 a realidade. Ambas querem servir-se uma da outra para, quem sabe, gerar uma dimens\u00e3o terceira, intraduz\u00edvel e arrebatadora. N\u00e3o h\u00e1 a possibilidade de reconstruir a experi\u00eancia sem deform\u00e1-la, por isso, a cena escapa do dom\u00ednio do real ou da fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata do que aconteceu ou do que poderia acontecer, mas do que est\u00e1 acontecendo. Assim como na tela de cinema, o espet\u00e1culo \u00e9 a sobreposi\u00e7\u00e3o de dois frames justapostos, como se fossem duas vidas paralelas acontecendo simultaneamente, mas sem conseguirmos identific\u00e1-las. Cada instante de realidade s\u00e3o tamb\u00e9m 24 quadros por segundo? <\/p>\n<p>Percorro o desenrolar da cena com as instru\u00e7\u00f5es de Bresson no pensamento, \u201co importante n\u00e3o \u00e9 o que eles me mostram, mas o que eles escondem de mim e, sobretudo, o que eles n\u00e3o suspeitam que est\u00e1 dentro deles\u201d e me parece que a encena\u00e7\u00e3o aposta nisso e que a legenda \u00e9 o suporte para tal opera\u00e7\u00e3o.  O espet\u00e1culo consegue, atrav\u00e9s da simultaneidade das cenas, esgar\u00e7ar os contornos e propor novas rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 que n\u00e3o h\u00e1 como ter o casamento da imagem pr\u00e9-fabricada com a imagem imediata sem que haja a destrui\u00e7\u00e3o das duas.<\/p>\n<p>Farei uma nota. A legenda, e essa \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o que tem me perseguido nessa Mostra, tem sido a grande for\u00e7a de imposi\u00e7\u00e3o do discurso. Ela antecipa o pensamento e retira do espectador a ilus\u00e3o de que as coisas est\u00e3o acontecendo pela primeira vez ali, de que o pr\u00f3ximo segundo \u00e9 desconhecido por mim, espectadora, e por eles, atuadores. Nesse espet\u00e1culo, diferentemente, isso torna-se linguagem, na medida em que a legenda se personifica e \u00e9 o suporte para que as duas imagens se colidam. Numa esp\u00e9cie de tela projetada, a cena se desenrola em duas proje\u00e7\u00f5es com a presen\u00e7a da legenda entre elas. E, assim, passa a n\u00e3o interessar de qual proje\u00e7\u00e3o a legenda pertence, mas sim o atrito que gera a legenda pertencer \u00e0s duas simultaneamente. Chego at\u00e9 a duvidar se a pe\u00e7a existe sem ela.<\/p>\n<div id=\"attachment_12020\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/20\/criticas-cineastas\/cineastas3\/\" rel=\"attachment wp-att-12020\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12020\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas3.jpg\" alt=\"Montagem fez sess\u00f5es no Audit\u00f3rio Ibirapuera\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12020\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas3.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/cineastas3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12020\" class=\"wp-caption-text\">Montagem fez sess\u00f5es no Audit\u00f3rio Ibirapuera<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinematografia da realidade teatral Por Pollyanna Diniz \u2013 Satisfeita, Yolanda? 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