{"id":12000,"date":"2014-03-19T15:39:42","date_gmt":"2014-03-19T18:39:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=12000"},"modified":"2014-03-19T15:50:24","modified_gmt":"2014-03-19T18:50:24","slug":"criticas-eu-nao-sou-bonita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-eu-nao-sou-bonita\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: Eu n\u00e3o sou bonita"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_12001\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-eu-nao-sou-bonita\/1-eu-na%c2%a6ao-sou-bonita-foto-ligia-jardim01-1\/\" rel=\"attachment wp-att-12001\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12001\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim01.1.jpg\" alt=\"Eu n\u00e3o sou bonita, performance de Ang\u00e9lica Liddell. Foto: L\u00edgia Jardim\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12001\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim01.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim01.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12001\" class=\"wp-caption-text\">Eu n\u00e3o sou bonita, performance de Ang\u00e9lica Liddell. Foto: L\u00edgia Jardim<\/p><\/div>\n<p><strong>Uma mulher (n\u00e3o) \u00e9 uma mulher<\/strong><br \/>\n<em>Por Luciana Romagnolli \u2013 Horizonte da Cena<\/em><\/p>\n<p>A performer espanhola Ang\u00e9lica Liddell habita o palco carregada de mem\u00f3rias e simbologias em Eu n\u00e3o sou bonita. O espet\u00e1culo foi criado sobre material autobiogr\u00e1fico, a partir do qual ela elabora uma po\u00e9tica da agress\u00e3o. Desde uma perspectiva \u00edntima compartilhada, a artista cria um espa\u00e7o extracotidiano de express\u00e3o verbal e corporal contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. Assume uma postura de enfrentamento da constru\u00e7\u00e3o cultural do ser mulher, que limita a experi\u00eancia do feminino, denunciando viol\u00eancias simb\u00f3licas e f\u00edsicas castradoras do desejo e da liberdade.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o-t\u00edtulo de recusa \u00e0 beleza surge como nega\u00e7\u00e3o ao imperativo da submiss\u00e3o ao olhar masculino como legitimador. Ang\u00e9lica coloca o p\u00fablico diante da escurid\u00e3o do trauma. Em sua po\u00e9tica, o erotismo \u00e9 um elemento essencialmente gerador de mal-estar, tanto quanto a viol\u00eancia autoinfligida e a direcionada ao homem, discursivamente.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente no campo discursivo que Liddell mais abertamente dep\u00f5e sobre uma condi\u00e7\u00e3o feminina enfraquecida. A corporeidade \u00e9 desempoderada seguindo uma concep\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria de mente\/corpo, associada ao macho\/f\u00eamea, com desprest\u00edgio para os segundos termos constituidores dos pares. Os corpos femininos, nesse tecido cultural, carregam distintos tipos de controle \u2013 a anula\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a f\u00edsica; a reifica\u00e7\u00e3o; a repress\u00e3o disciplinadora; e a escravid\u00e3o ao padr\u00e3o est\u00e9tico dominante s\u00e3o alguns dos apontados pela pesquisadora El\u00f3dia Xavier, em Que Corpo \u00c9 Esse?.<\/p>\n<p>E que corpo \u00e9 esse que Liddell performa? Ela faz-se presente como um corpo violento, que urra, berra, corta-se, queima-se. Seu corpo \u00e9 palco da contesta\u00e7\u00e3o sociocultural. Feito objeto pelo gesto violento do outro, responde como sujeito e objeto de sua pr\u00f3pria viol\u00eancia, desfazendo a dicotomia. A presen\u00e7a de um cavalo em cena, mais do que um elemento biogr\u00e1fico e de irrup\u00e7\u00e3o do real, traz o contraponto de uma natureza supostamente ing\u00eanua e alheia a condicionamentos culturais.  Natureza e cultura: outro bin\u00f4mio a explodir.<\/p>\n<p>O mal-estar maior gerado pelo espet\u00e1culo, contudo, est\u00e1 no aprisionamento do corpo feminino \u00e0 incessante restaura\u00e7\u00e3o do trauma vivido. O lugar de onde Liddell fala \u00e9 o da vitimiza\u00e7\u00e3o masoquista (portadora de uma camada de prazer) e do \u00f3dio (que implica um bloqueio da alteridade). Um lugar de impot\u00eancia. Mas qual outro lugar de empoderamento seria poss\u00edvel? Se no campo discursivo a vitimiza\u00e7\u00e3o e o \u00f3dio imp\u00f5em um limite, na dimens\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a outras afeta\u00e7\u00f5es se instalam. H\u00e1, sem d\u00favida, uma pot\u00eancia sens\u00edvel na presen\u00e7a de Liddell que produz um desenho de for\u00e7as de intensidades vari\u00e1veis. Contudo, a interven\u00e7\u00e3o de ativistas pr\u00f3-animais na sess\u00e3o de estreia na MITsp interrompeu o fluxo dessas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Ainda assim, ao resistir a uma apreens\u00e3o totalizadora (cuja for\u00e7a continua atuando sobre o espectador tempos depois da frui\u00e7\u00e3o, como um cavalo indomado), a experi\u00eancia do paroxismo da vitimiza\u00e7\u00e3o e do discurso do \u00f3dio, em tens\u00e3o com a materialidade daquele corpo, proporcionada pelo espet\u00e1culo, lega ao espectador um saturamento radical do imagin\u00e1rio, que acena para a impossibilidade da manuten\u00e7\u00e3o desse status quo. Este \u00e9 um mal-estar que o espectador pode abafar, restaurando o conforto, ou deixar que lhe tome o corpo de modo que se lance ao enfrentamento da falta de sa\u00eddas com que a pr\u00f3pria Liddell aprisiona seu discurso, para a cria\u00e7\u00e3o de outros poss\u00edveis ao ser feminino.<\/p>\n<p>E ao ser masculino. O aprisionamento cultural do ser homem \u00e9 algo ao qual o discurso de Liddell n\u00e3o alude. Mas, justamente por sua cegueira, apela ao espectador que reaja. O ato perform\u00e1tico, por sua caracter\u00edstica de restaura\u00e7\u00e3o do comportamento, serve ao trauma. Mas tamb\u00e9m \u00e9 saber privilegiado da explos\u00e3o das dicotomias. E s\u00f3 na explos\u00e3o da dicotomia h\u00e1 liberdade.<\/p>\n<div id=\"attachment_12004\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-eu-nao-sou-bonita\/6-eu-na%c2%a6ao-sou-bonita-foto-ligia-jardim06-1\/\" rel=\"attachment wp-att-12004\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-12004\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/6-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim06.1.jpg\" alt=\"Cavalo em cena provocou rea\u00e7\u00e3o de manifestantes no primeiro dia do espet\u00e1culo\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-12004\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/6-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim06.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/6-eu-na\u00a6\u00e2o-sou-bonita-foto-ligia-jardim06.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12004\" class=\"wp-caption-text\">Cavalo em cena provocou rea\u00e7\u00e3o de manifestantes no primeiro dia do espet\u00e1culo<\/p><\/div>\n<p><strong>O indiv\u00edduo revelado atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o dos animais<\/strong><br \/>\n<em>Por Ruy Filho \u2013 Antro Positivo<\/em><\/p>\n<p>Muito se fala de uma cena contempor\u00e2nea cujo teor dramat\u00fargico se confirma autorreferente. Ora como o contar biogr\u00e1fico, ora no uso simb\u00f3lico da experi\u00eancia real, a aproxima\u00e7\u00e3o entre o vivido e o encenado explicita tamb\u00e9m a necessidade de tornar espetaculares ocorrido e sentido, produzindo uma esp\u00e9cie de materialidade assertiva, pela qual o artista deixa de ser meramente instrumento para se exibir estrutura de aten\u00e7\u00e3o. Ocorre n\u00e3o ser t\u00e3o simples o uso do pr\u00f3prio, visto o processo exigir consist\u00eancia em seu argumento. Ent\u00e3o s\u00e3o poucos os trabalhos que, verdadeiramente, superam a narrativa ilustrativa. \u00c9 poss\u00edvel dividir em duas as disposi\u00e7\u00f5es: a que confirma o uso do particular como meio de resolv\u00ea-lo, e a que aceita e reaviva sua condi\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a fundamental est\u00e1 na perspectiva da culpa igualmente autorreferente e daquela transferida ao outro. E ambas, at\u00e9 certo ponto, se confundem demasiadamente com mecanismos terap\u00eauticos sobre o pr\u00f3prio dizer.<\/p>\n<p>Precisa mais, ent\u00e3o. Oferecer ao dizer um processo pelo qual refazer a a\u00e7\u00e3o, recuperar o vivido, insistir em sua encena\u00e7\u00e3o, revelam a linguagem por sua instabilidade, na qual o corpo necessita entregar ao movimento n\u00e3o mais da culpa e sua resposta, mas ao trauma e seu estigma simb\u00f3lico. D\u00e1-se pelo trauma a recupera\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de manuten\u00e7\u00e3o de uma realidade a qual n\u00e3o se busca negar. Ao contr\u00e1rio, quer-se conviver em estado pleno, transformando o corpo no mecanismo mais pr\u00f3ximo ao pessoal, enquanto \u00e9 mobilizado o insuport\u00e1vel a uma longevidade exponencial.<\/p>\n<p>Ang\u00e9lica Liddell pertence aos artistas que n\u00e3o buscam o perd\u00e3o nem para si nem o oferece ao espectador. Aceita sua condi\u00e7\u00e3o pela presen\u00e7a da manuten\u00e7\u00e3o da dor particular, colocando-se fr\u00e1gil e solit\u00e1ria, em uma esp\u00e9cie de in\u00e9rcia irresolv\u00edvel do viver.<\/p>\n<p>H\u00e1, evidentemente, o feminino como consequ\u00eancia a seu estado imposto ao existir. Sua condi\u00e7\u00e3o de mulher sugere a confirma\u00e7\u00e3o de seu discurso. Todavia, Ang\u00e9lica afirma ser radicalmente contra o entendimento ideol\u00f3gico do feminino que, por quest\u00f5es socioculturais, antecipam a classifica\u00e7\u00e3o ao reconhecimento da individualidade. Ser mulher \u00e9 parte do trauma que n\u00e3o se quer solucionar, ainda que provoque a encena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m na caricatura de puni\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero. Essa dicotomia se resolve pela perspectiva de estar mulher, ou seja, na maneira estereotipada pela qual apresenta sua condi\u00e7\u00e3o feminina, enquanto protege do outro sua pr\u00f3pria individualidade. Assim, o corpo se mostra feminino, tal qual se espera, como pele nua, enquanto a individualidade \u00e9 escondida pela pele encenada tornada narrativa autorreferencial.<\/p>\n<p>Nada ali \u00e9 real, apenas a pot\u00eancia do trauma que se insiste recuperar. O processo performativo sobre a constru\u00e7\u00e3o da dor f\u00edsica, a constru\u00e7\u00e3o er\u00f3tica da dor, a submiss\u00e3o da mem\u00f3ria ao er\u00f3tico, a teatraliza\u00e7\u00e3o da necessidade da mem\u00f3ria, o teatro como artificialidade de uma unidade poss\u00edvel de sentido apenas se colocado em cena o pr\u00f3prio artista como signo. O percurso em si revela a artimanha necess\u00e1ria para tornar a exposi\u00e7\u00e3o do processo o discurso ao outro. \u00c9 quando o espectador \u00e9 revelado a ele mesmo igualmente autorreferente. Agora \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito quem assiste e n\u00e3o mais a constru\u00e7\u00e3o ficcional de um observador an\u00f4nimo e coletivo. Ao encarar a pele encenada como \u00fanica tradu\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, aquele que observa, a toca como invasor de sua intimidade, pois acessa os meios para assistir o indiv\u00edduo e n\u00e3o apenas a mulher. Ent\u00e3o divide o trauma. Torna-o espelhamento de seus pr\u00f3prios, assumindo a culpa da necessidade de sua repeti\u00e7\u00e3o ao desejar o espetacular do outro.<\/p>\n<p>Ao assistir <em>Eu n\u00e3o sou bonita<\/em> o espectador faz-se respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da dor da artista. Mas n\u00e3o desista. O encontro \u00e9 radicalmente importante aos dois lados. Permita-se o exerc\u00edcio de oferecer sua responsabilidade. Pois \u00e0 artista, o doer reflete mais do que um estado de interna\u00e7\u00e3o na mem\u00f3ria, mas, pelo n\u00e3o esquecimento, o gerar procedimentos de reconhecimento de algu\u00e9m ainda capaz de lidar com o sentir e assim permanecer vivo, mesmo que seja mediante a teatralidade das reaproxima\u00e7\u00f5es com os sentidos mais cru\u00e9is daquilo que lhe apresentem sua condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma mulher (n\u00e3o) \u00e9 uma mulher Por Luciana Romagnolli \u2013 Horizonte da Cena A performer espanhola Ang\u00e9lica Liddell habita o palco carregada de mem\u00f3rias e simbologias em Eu n\u00e3o sou bonita. O espet\u00e1culo foi criado sobre material autobiogr\u00e1fico, a partir do qual ela elabora uma po\u00e9tica da agress\u00e3o. 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