{"id":11983,"date":"2014-03-19T15:00:37","date_gmt":"2014-03-19T18:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=11983"},"modified":"2014-03-20T17:25:12","modified_gmt":"2014-03-20T20:25:12","slug":"criticas-golgota-picnic","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-golgota-picnic\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: G\u00f3lgota Picnic"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11991\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-golgota-picnic\/golgota5-ligiajardim1\/\" rel=\"attachment wp-att-11991\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11991\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota5.ligiajardim1.jpg\" alt=\"Cen\u00e1rio teve 25 mil p\u00e3es de hamb\u00farguer. Foto: L\u00edgia Jardim\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-11991\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota5.ligiajardim1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota5.ligiajardim1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11991\" class=\"wp-caption-text\">Cen\u00e1rio teve 25 mil p\u00e3es de hamb\u00farguer. Foto: L\u00edgia Jardim<\/p><\/div>\n<p><strong>As sete primeiras palavras p\u00f3s-calv\u00e1rio de G\u00f3lgota<\/strong><br \/>\n<em>Por Pollyanna Diniz \u2013 Satisfeita, Yolanda?<\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u00c9 de tirar o f\u00f4lego, embrulhar o est\u00f4mago, aflorar os nossos instintos de manifestante em tempos de passeatas midi\u00e1ticas, quando juntamos tudo no mesmo bolo \u2013 gritamos contra a corrup\u00e7\u00e3o, pedimos por melhorias nos transportes e aproveitamos para falar de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, sem nos esquecer de emitir opini\u00f5es pelo Facebook e postar a foto com filtro no Instagram. Enquanto um protesto fechava o tr\u00e2nsito na Avenida Paulista e ativistas subiam ao palco por conta do cavalo utilizado na performance Eu n\u00e3o sou bonita, de Ang\u00e9lica Liddell, a companhia La Carnicer\u00eda Teatro apresentava <em>G\u00f3lgota Picnic<\/em> no Sesc Vila Mariana, dentro da programa\u00e7\u00e3o da MITsp.<\/p>\n<p><strong>P\u00fablico ca\u00eddo<\/strong><br \/>\nO lugar de espectador contemplativo \u00e9 desestabilizado. Seja pelo cheiro dos 25 mil p\u00e3es de hamb\u00farguer que comp\u00f5em a instala\u00e7\u00e3o c\u00eanica, pelas minhocas colocadas no sandu\u00edche, pela tinta azul e vermelha aplicada como veneno nos corpos dos atores. Mas esse espa\u00e7o n\u00e3o chega a ser deslocado. Mesmo com uma obra que desperta tanta pol\u00eamica, a op\u00e7\u00e3o de atingir s\u00f3 at\u00e9 determinado limite estabelece uma falsa ilus\u00e3o de seguran\u00e7a, de barreiras n\u00e3o rompidas. Por que, afinal de contas, quem somos n\u00f3s, os espectadores? Que lugar ocupamos no ros\u00e1rio de cr\u00edticas desfiadas \u00e0 sociedade de consumo?<\/p>\n<p><strong>Sobre McDonald\u2019s e cadeiras de piquenique<\/strong><br \/>\nSe todo teatro \u00e9 eminentemente pol\u00edtico, o trabalho de Rodrigo Garc\u00eda n\u00e3o se estabelece, mas transita pelos limiares do panflet\u00e1rio, da constru\u00e7\u00e3o calcada em clich\u00eas e superficialidades. Mas, ao mesmo tempo, numa linguagem virulenta, o ac\u00famulo de signos constr\u00f3i a pot\u00eancia do discurso c\u00eanico que se rebela contra o estabelecido da nossa sociedade capitalista. O lugar de quem critica tamb\u00e9m \u00e9 exposto e ridicularizado: o que queremos \u00e9 participar do piquenique e satisfazer os nossos pr\u00f3prios desejos.<\/p>\n<p><strong>Toma que o calv\u00e1rio \u00e9 teu<\/strong><br \/>\nAs diversas refer\u00eancias \u00e0s artes pl\u00e1sticas, Rubens, Giotto ou Antonello da Messina, nos fazem compor os nossos pr\u00f3prios quadros sacros e profanos a partir da frui\u00e7\u00e3o da performance dos atores, do texto, das imagens projetadas no palco, da m\u00fasica. A desconstru\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo de Jesus \u00e9 a nossa pr\u00f3pria demoli\u00e7\u00e3o como sociedade que deu errado. O calv\u00e1rio de Jesus agora \u00e9 compartilhado com o p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>O p\u00e3o espetacularizado<\/strong><br \/>\n\u00c9 da sociedade de espet\u00e1culo, termo criado e problematizado por Guy Debord, que fala sobre rela\u00e7\u00f5es sociais mediadas por imagens, da produ\u00e7\u00e3o e do consumo de mercadorias, que a encena\u00e7\u00e3o de Rodrigo Garc\u00eda, argentino radicado na Espanha desde o fim da d\u00e9cada de 1980, se alimenta para criar desdobramentos que transbordem o palco. O p\u00e3o, alimento s\u00edmbolo do corpo de Jesus para os crist\u00e3os, \u00e9 dessacralizado, perde o seu valor e mostra a fragilidade do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p><strong>O corpo coberto por tintas e significados<\/strong><br \/>\nAs camadas de significa\u00e7\u00f5es se sobrep\u00f5em no espet\u00e1culo assim como as roupas tiradas e colocadas durante toda a encena\u00e7\u00e3o pelos atores. O movimento de troca constante, que oscila entre a nudez e o completo preenchimento das tintas, \u00e9 um reflexo do p\u00fablico e dos seus estados durante a montagem. O teatro de Rodrigo Garc\u00eda n\u00e3o \u00e9 espelho do real, mas nos faz dialogar dialeticamente com as quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais do nosso tempo.<\/p>\n<p><strong>A calmaria da reden\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nUma \u00faltima e r\u00e1pida considera\u00e7\u00e3o sobre G\u00f3lgota Picnic diz respeito \u00e0 mudan\u00e7a de estado no palco e na plateia que \u00e9 proposta pela m\u00fasica de Joseph Haydn. Depois de tantos est\u00edmulos, da rapidez midi\u00e1tica, a m\u00fasica nos consola no primeiro momento. Ref\u00fagio p\u00f3s-trauma do calv\u00e1rio perform\u00e1tico da companhia espanhola. Mas, depois, \u00e9 como se o tempo de respiro fosse longo demais para um p\u00fablico que voltar\u00e1 ao G\u00f3lgota assim que cruzar a porta do teatro.<\/p>\n<div id=\"attachment_11997\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-golgota-picnic\/golgota2-ligiajardim-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11997\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11997\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota2.ligiajardim.1.jpg\" alt=\"Montagem tem dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Garcia, argentino radicado na Espanha\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-11997\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota2.ligiajardim.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/golgota2.ligiajardim.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11997\" class=\"wp-caption-text\">Montagem tem dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo Garcia, argentino radicado na Espanha<\/p><\/div>\n<p><strong>P\u00e3o e tinta<\/strong><br \/>\n<em>Por Daniele Avila Small \u2013 Quest\u00e3o de Cr\u00edtica<\/em><\/p>\n<p><em>G\u00f3lgota Picnic<\/em>, de Rodrigo Garc\u00eda, oferece ao espectador um banquete, uma cornuc\u00f3pia de imagens e ideias, cuja abund\u00e2ncia solapa qualquer possibilidade de s\u00edntese j\u00e1 nos primeiros vinte minutos de espet\u00e1culo. Tentar descrev\u00ea-lo ou resumi-lo em poucas palavras \u00e9 correr um s\u00e9rio risco de chafurdar em platitudes, mas o esfor\u00e7o de tentar falar de algo de que n\u00e3o podemos dar conta \u00e9 inevit\u00e1vel quando se pretende o exerc\u00edcio cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Tomando o t\u00edtulo como ponto de partida, podemos apontar duas quest\u00f5es centrais do discurso da pe\u00e7a. A prop\u00f3sito, valeria analisar, em um texto mais longo, os diferentes regimes da fala monol\u00f3gica, que transita tanto pelo discurso proferido \u00e0 plateia quanto por momentos que remetem \u00e0 confiss\u00e3o ou \u00e0 narra\u00e7\u00e3o. As duas quest\u00f5es centrais me parecem ser, por um lado, a narrativa b\u00edblica com suas imagens de terror, sendo o epis\u00f3dio da crucifica\u00e7\u00e3o no G\u00f3lgota a ep\u00edtome disso, e, por outro, a rela\u00e7\u00e3o doentia que a nossa sociedade tem com a comida. As duas ideologias, que s\u00e3o alvo das cr\u00edticas explicitadas com refinado humor e perspic\u00e1cia no texto falado, s\u00e3o aproximadas por sua for\u00e7a de propaganda, tendo o p\u00e3o como imagem de encontro dos dois universos \u2013 o p\u00e3o que \u00e9 a base da fast food e um \u00edcone da propaganda nas imagens de hamb\u00fargueres; o p\u00e3o multiplicado pelo milagre de Jesus Cristo. A cenografia d\u00e1 a ver essa ideia de uma maneira surpreendentemente literal: o ch\u00e3o do palco \u00e9 coberto por uma quantidade imensa de p\u00e3es de hamb\u00farguer, que desenham o ch\u00e3o do G\u00f3lgota como numa imagem pontilhista.<\/p>\n<p>A arte tamb\u00e9m \u00e9 alvo de questionamentos por suas contradi\u00e7\u00f5es, pelo fato de a linguagem tamb\u00e9m ser usada na arte para embelezar o terror ou para entreter e nos distrair do que nos falta. Anish Kapoor, que \u00e9 textualmente mencionado, \u00e9 acusado de colorir a dor. Institui\u00e7\u00f5es como o Louvre e diversos museus da Europa tamb\u00e9m s\u00e3o trazidas \u00e0 tona. \u201cDevem ser queimadas\u201d, diz o texto, em uma daquelas frases divertidamente cretinas que revoltam os que n\u00e3o t\u00eam humor. O espet\u00e1culo menciona artistas e obras do Renascimento assim como mestres primitivos flamengos, que representaram o calv\u00e1rio com sua crueldade sanguinolenta, ao mesmo tempo em que faz refer\u00eancias ao cinema de terror norte-americano, inserindo a dicotomia arte\/entretenimento no seu banquete discursivo.<\/p>\n<p>Como numa tentativa de sacudir a nossa j\u00e1 assimilada apatia diante das atrocidades que vemos todos os dias, <em>G\u00f3lgota Picnic<\/em> apresenta algumas imagens de grande impacto. Da exposi\u00e7\u00e3o asquerosa do bolo alimentar na sua inc\u00f4moda semelhan\u00e7a ao v\u00f4mito at\u00e9 a bel\u00edssima imagem da atriz flutuando nas nuvens com o corpo revestido da imagem de Cristo, com seus cinco estigmas gritando vermelho sobre o fundo azul do c\u00e9u e do mar. A sensualidade de peles e pigmentos tamb\u00e9m \u00e9 de grande apelo visual e t\u00e1til. E o santo sud\u00e1rio de um corpo inteiro de tinta me fez pensar na rela\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o que podemos ter com as obras de arte.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a da primeira para a segunda parte desconcerta o corpo. Depois de um bombardeio de refer\u00eancias, de imagens de forte apelo visual e de textos que ativam o pensamento e a reflex\u00e3o a respeito de temas concretos, o corpo e a mente precisam se afinar para a lida com um regime de frui\u00e7\u00e3o absolutamente distinto. A pe\u00e7a de Haydn, nas m\u00e3os de Marino Formenti, incrustada naquele cen\u00e1rio desolado, ganha uma carga emotiva de tirar o f\u00f4lego. \u00c9 como se o espet\u00e1culo nos convidasse a catar a aura da m\u00fasica no loda\u00e7al de p\u00e3o de hamb\u00farguer da vida urbana contempor\u00e2nea.<\/p>\n<div id=\"attachment_11994\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-golgota-picnic\/golgota1-ligiajardim-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11994\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11994\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Golgota1.LigiaJardim.1.jpg\" alt=\"Pianista tocou As 7 \u00faltimas palavras de Cristo na cruz, de Joseph Haydn\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-11994\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Golgota1.LigiaJardim.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Golgota1.LigiaJardim.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11994\" class=\"wp-caption-text\">Pianista tocou As 7 \u00faltimas palavras de Cristo na cruz, de Joseph Haydn<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As sete primeiras palavras p\u00f3s-calv\u00e1rio de G\u00f3lgota Por Pollyanna Diniz \u2013 Satisfeita, Yolanda? 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