{"id":11971,"date":"2014-03-19T14:39:08","date_gmt":"2014-03-19T17:39:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=11971"},"modified":"2014-03-19T15:10:52","modified_gmt":"2014-03-19T18:10:52","slug":"criticas-anti-prometeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-anti-prometeu\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: Anti-Prometeu"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11986\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-anti-prometeu\/anti-prometeu-de-sahika-tekand-mit-foto-marlon-marinho-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11986\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11986\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-1.jpg\" alt=\"Anti-Prometeu propunha jogo a partir de comandos de som e voz. Foto: Marlon Marinho\" width=\"600\" height=\"398\" class=\"size-full wp-image-11986\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11986\" class=\"wp-caption-text\">Anti-Prometeu propunha jogo a partir de comandos de som e voz. Foto: Marlon Marinho<\/p><\/div>\n<p><strong>Eu n\u00e3o desejei fogo algum<\/strong><br \/>\n<em>Por Ana Carolina Marinho \u2013 Antro Positivo<\/em><\/p>\n<p>Antes que o desejo surja, Prometeu o satisfaz. Ele subverte a l\u00f3gica da bondade e desloca o sujeito para a gratid\u00e3o. E todos n\u00f3s o saudamos, afinal, sua teimosia \u00e9 inspiradora e, como vision\u00e1rio, ele entrega a n\u00f3s o fogo e a bem-aventuran\u00e7a. Dizem de Prometeu como o her\u00f3i civilizador, e ele se afirma em seu gesto \u2013 \u00e9 que o fogo iluminou a arte, a cultura e o pensamento e somos gratos, ent\u00e3o. Mas \u00e9 preciso atentar-se, n\u00e3o existe nenhum virtuosismo em roubar o fogo e entregar \u00e0 humanidade. Desconfio dos que assim insistem. Nem existe humanidade, o que existem s\u00e3o homens. \u00c9 preciso discorrer sobre essa l\u00f3gica de um deus que entende a entrega do fogo como um ato de amor e duvidar desse ato como sacrif\u00edcio, pois proponho que talvez resida ai uma cruel compaix\u00e3o. E assim come\u00e7o a dizer da for\u00e7a que me arrebata em <em>Anti-Prometeu<\/em>, do Studio Oyunculari.<\/p>\n<p>N\u00e3o seja Anti-Prometeu uma ode ao deus, um retorno a sua teimosia primeira, um arauto ao sacrif\u00edcio, mas uma tomada de consci\u00eancia do fogo tamb\u00e9m como um elemento coercitivo. Satisfazer o desejo antes que ele surja \u00e9 tamb\u00e9m reflexo de uma perversidade colonizadora, de uma cruel compaix\u00e3o. Prometeu imp\u00f4s a necessidade da luz e a concep\u00e7\u00e3o de escurid\u00e3o ao homem. Como tirar isso das costas? O fardo de Prometeu \u00e9 pesado e in\u00fatil e sou obrigado a carregar, come\u00e7o at\u00e9 a me acostumar, mas os joelhos e a coluna sentem. Posso tirar isso das costas? O pensamento retarda e fragmenta-se com o corpo oprimido, sou domesticada. O fogo de Prometeu \u00e9 uma esp\u00e9cie de obstina\u00e7\u00e3o intrusa, uma voz em off que deseja a minha rea\u00e7\u00e3o. Preciso reagir, afinal, Prometeu agiu para mim \u2013 ou contra mim? Diante do breu, silencio. Diante do fogo, me queimo. \u00c9 que o deus o entregou e foi embora, levou as cartilhas, os dizeres e os quereres. Deixou-nos apenas com o legado: isso \u00e9 preciso pra voc\u00eas mortais, afinal \u00e9 indispens\u00e1vel a n\u00f3s deuses.<\/p>\n<p>Prometeu sempre foi, pra mim, o s\u00edmbolo da atitude incans\u00e1vel e da longa obstina\u00e7\u00e3o em entregar \u00e0 humanidade o que a ela faltava. Mas \u015eahika Tekand provoca esse desejo inculto pelo fogo. Como se devesse alterar os vetores dessa imagem prometeica, ao oferecer suporte para que o desejo surja antes que o deus o satisfa\u00e7a \u2013 e suspeito que resida no desejo a capacidade de interferir no mundo! -, e um desconforto com a ideia de her\u00f3i civilizador comum a Prometeu. Qualquer ideia de salva\u00e7\u00e3o \u00e9, por si mesma, um aniquilamento. \u00c9 preciso alimentar o anti-Prometeu para, enfim, superar esse olhar apiedado de quem perversamente me desloca para a escurid\u00e3o para, ent\u00e3o, dizer-me que \u00e9 preciso a luz. H\u00e1 um tanto de crueldade nessa bondade que escapa aos olhos, mas n\u00e3o ao est\u00f4mago.  Se profanar \u00e9 devolver o que est\u00e1 consagrado ao uso comum dos homens, como diz Giorgio Agamben, profanar \u00e9 assumir a vida como jogo. E Anti-Prometeu \u00e9, portanto, um exerc\u00edcio de profana\u00e7\u00e3o, que nos afasta do dom\u00ednio do mito e nos aproxima do rito e desse campo de tens\u00f5es a que se insere o jogo \u2013 e aqui ele \u00e9 rigoroso e bem orquestrado, em que os homens (atores) est\u00e3o a servi\u00e7o de Prometeu (luz, som e legenda), \u00e9 ele quem dita as regras e quem come\u00e7a e termina qualquer a\u00e7\u00e3o. A cena, com a pot\u00eancia do profano, \u00e9 de uma intensidade arrebatadora. Ouvi, por\u00e9m, que a muitos a legenda estava ofuscada e ileg\u00edvel, o que torna parte dessa reflex\u00e3o impratic\u00e1vel, j\u00e1 que o texto na cena \u00e9 tens\u00e3o indispens\u00e1vel para o desenrolar do jogo.<\/p>\n<p>Anti-Prometeu \u00e9, pois, o jogo da profana\u00e7\u00e3o, que adensa a capacidade de interferir no mundo. N\u00e3o h\u00e1 enobrecimento nenhum na atitude do deus. N\u00e3o se pode valorar o fogo, pois retira dele sua pot\u00eancia primeira e o destina a uma exibi\u00e7\u00e3o e posse espetaculares. Tekand provoca em mim essa desconfian\u00e7a que atenta para uma a\u00e7\u00e3o abusiva, que desloca as for\u00e7as da esperan\u00e7a para o desespero e isso diz um tanto das a\u00e7\u00f5es abusivas a que estamos inseridos no conv\u00edvio. \u00c9 preciso suspeitar, inclusive das boas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_11989\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/19\/criticas-anti-prometeu\/anti-prometeu-de-sahika-tekand-mit-foto-marlon-marinho-20140313_12-2\/\" rel=\"attachment wp-att-11989\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11989\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-20140313_12.2.jpg\" alt=\"P\u00fablico teve muita dificuldade para acompanhar as legendas\" width=\"600\" height=\"373\" class=\"size-full wp-image-11989\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-20140313_12.2.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Anti-Prometeu-de-Sahika-Tekand-MIT-foto-Marlon-Marinho-20140313_12.2-300x186.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11989\" class=\"wp-caption-text\">P\u00fablico teve muita dificuldade para acompanhar as legendas<\/p><\/div>\n<p><strong>Sem f\u00edgado e sem fogo<\/strong><br \/>\n<em>Por Daniele Avila Small \u2013 Quest\u00e3o de Cr\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>Em <em>Anti-Prometeu<\/em>, espet\u00e1culo da encenadora \u015eahika Tekand, da Turquia, os atores se movimentam e falam alternada e simultaneamente, obedecendo a uma gram\u00e1tica regida pelos comandos de som e pela din\u00e2mica do dispositivo cenogr\u00e1fico, uma esp\u00e9cie de tabuleiro de luz. Dividida em tr\u00eas partes, a dramaturgia apresenta diferentes momentos da lida destes jogadores-pe\u00f5es com as demandas impostas por est\u00edmulos externos. Em um ritmo vertiginoso, o jogo ganha cada vez mais intensidade, desafiando a prontid\u00e3o dos corpos na cena e das mentes na plateia.<\/p>\n<p>Como em qualquer jogo, as metas e regras fazem parte de um pacto estabelecido entre as partes. O que h\u00e1 de tr\u00e1gico no homem contempor\u00e2neo, como apresentado no espet\u00e1culo, \u00e9 a impossibilidade de rever os termos do pacto: a cada jogada, ele faz o que pode. O ritmo da vida urbana atual n\u00e3o abre espa\u00e7o para o questionamento das regras, muito menos para uma revis\u00e3o das metas.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o interessante a ser pensada do ponto de vista da po\u00e9tica da cena \u00e9 que o estatuto do texto tamb\u00e9m \u00e9 parte do jogo. Na segunda parte, os atores come\u00e7am a responder com movimentos combinados a est\u00edmulos sonoros espec\u00edficos. Por exemplo: quando os participantes que ficam na mesa de som ao fundo do palco dizem \u201cum\u201d, o ator que est\u00e1 em um quadrado iluminado fica de p\u00e9; quando o comando \u00e9 \u201cdois\u201d, ele se vira para a direita; quando \u00e9 \u201ctr\u00eas\u201d, ele apoia um joelho no ch\u00e3o. S\u00e3o cerca de dez comandos sonoros que fazem cada ator deitar, ajoelhar, levantar e virar freneticamente. (O fato de estes participantes que emitem comandos estarem em um patamar mais elevado evidencia a verticalidade da rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica.)<br \/>\nQuando se acende o quadrado de luz sobre o qual o ator est\u00e1, ele deve come\u00e7ar a falar, ao mesmo tempo em que obedece \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o. Assim a fala \u00e9 articulada como movimento, como uma tarefa f\u00edsica, n\u00e3o apenas como instrumento para a express\u00e3o de um discurso. A verbaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o a mais no virtuosismo das atua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, o conte\u00fado da fala n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio nem vazio; talvez seja at\u00e9 ilustrativo, na medida em que os atores comentam sua condi\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o me engano, h\u00e1 em algum momento uma refer\u00eancia a Io (personagem da mitologia grega que enfrentou uma longa jornada de esfor\u00e7os e prova\u00e7\u00f5es para reaver sua condi\u00e7\u00e3o humana). Diante desse ponto, faz-se necess\u00e1rio pensar a legenda, um elemento que n\u00e3o faz parte do espet\u00e1culo na sua cria\u00e7\u00e3o original, mas que passa a ser uma quest\u00e3o est\u00e9tica na situa\u00e7\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds de outra l\u00edngua. A rela\u00e7\u00e3o com o texto legendado \u00e9 completamente diferente, porque exige do espectador um movimento que pode ser cansativo a ponto de levar a desist\u00eancia. Se ele desiste da legenda, o texto passa a ser apenas uma consequ\u00eancia do movimento da fala, formando uma paisagem sonora abstrata \u2013 que n\u00e3o deixa de ter a sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da legenda tamb\u00e9m exclui a possibilidade do espectador acreditar que, em alguma medida, o jogo acontece ao vivo, que os atores est\u00e3o respondendo a comandos no calor da hora. A fala tamb\u00e9m poderia parecer fragmentada pelo jogo f\u00edsico, mas a legenda revela que sua intermit\u00eancia \u00e9 prevista e ensaiada. Enfim, a legenda evidencia o fato de que se trata da representa\u00e7\u00e3o de um jogo, n\u00e3o do acontecimento de um jogo performativo de fato.<\/p>\n<p>Do ponto de vista tem\u00e1tico, a pe\u00e7a nos lembra o quanto nossa vida cotidiana pode ser parecida com a situa\u00e7\u00e3o daqueles corpos que apenas respondem a est\u00edmulos, agarrados \u00e0s suas cadeiras-rochas. Como Prometeu, oferecemos nosso f\u00edgado aos abutres todos os dias. Mas sem ter feito nada parecido com apresentar o fogo \u00e0 humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o desejei fogo algum Por Ana Carolina Marinho \u2013 Antro Positivo Antes que o desejo surja, Prometeu o satisfaz. Ele subverte a l\u00f3gica da bondade e desloca o sujeito para a gratid\u00e3o. E todos n\u00f3s o saudamos, afinal, sua teimosia \u00e9 inspiradora e, como vision\u00e1rio, ele entrega a n\u00f3s o fogo e a bem-aventuran\u00e7a. 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