{"id":11959,"date":"2014-03-13T00:22:59","date_gmt":"2014-03-13T03:22:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=11959"},"modified":"2014-03-20T17:25:35","modified_gmt":"2014-03-20T20:25:35","slug":"criticas-bem-vindo-a-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/criticas-bem-vindo-a-casa\/","title":{"rendered":"Cr\u00edticas: Bem vindo a casa"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_11976\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/13\/criticas-bem-vindo-a-casa\/5-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim5-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11976\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11976\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/5-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim5.1.jpg\" alt=\"Espet\u00e1culo de grupo uruguaio \u00e9 dividido em dois epis\u00f3dios. Foto: L\u00edgia Jardim\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-11976\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/5-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim5.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/5-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim5.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11976\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo de grupo uruguaio \u00e9 dividido em dois epis\u00f3dios. Foto: L\u00edgia Jardim<\/p><\/div>\n<p><strong>O conv\u00edvio teatral em frente, verso e de permeio<\/strong><br \/>\n<em>Por Valmir Santos \u2013 Teatrojornal<\/em><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da companhia uruguaia Peque\u00f1o Teatro de Morondanga resplandece o todo em cada uma de suas partes. Somos convidados a acionar o esp\u00edrito l\u00fadico e cotejar os m\u00ednimos detalhes com a disponibilidade de um ourives. H\u00e1 um engenhoso paroxismo de unidade nos sujeitos, cenas, objetos e espa\u00e7os descentrados de <em>Bem-vindo a casa<\/em> (2012), composi\u00e7\u00e3o de dois espet\u00e1culos umbilicais que pedem para ser vistos em sequ\u00eancia, epis\u00f3dios um e dois, por plateias e em hor\u00e1rios distintos, ainda que plantados no mesmo lugar. Unidade porque impressiona como tudo funciona, at\u00e9 os tempos mortos pulsam na gangorra entre o que \u00e9 e o que assim nos parece ser.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma experi\u00eancia que elabora o conv\u00edvio p\u00fablico-artista em seu sentido estrito, reflex\u00e3o cara \u00e0 arte contempor\u00e2nea atenta \u00e0s vicissitudes do viver junto. O princ\u00edpio da coabita\u00e7\u00e3o vaza para as ruas, a comunidade. Palco abolido, a proximidade no espa\u00e7o multiuso implica plateia aninhada com os atuadores no mesmo c\u00f4modo. Parede-meia, janela, persiana e portas induzem sonoridades e frestas do que poderia ocorrer simultaneamente do outro lado. Dentro e fora em contato: um achado de geografia c\u00eanica paulatinamente afetiva ao longo das duas sess\u00f5es.<\/p>\n<p>A dramaturgia coletiva e a dire\u00e7\u00e3o de Roberto Su\u00e1rez s\u00e3o lapidares na apropria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica que as movem e no modo como n\u00e3o abrem m\u00e3o da materialidade teatral, do inef\u00e1vel que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa linguagem deliciosamente prom\u00edscua em sua sofistica\u00e7\u00e3o artesanal.<\/p>\n<p>A inutileza que gra\u00e7a no nome do grupo \u2013 \u201cmorondanga\u201d \u00e9 uma express\u00e3o depreciativa em castelhano \u2013 condiz com a plataforma do prec\u00e1rio da qual o projeto extrai beleza. \u00c9 a vit\u00f3ria do remendo, da sujeira, do tosco e do avesso como solu\u00e7\u00e3o formal bem sustentada. Transgress\u00f5es sutis para dar luz ao efeito que n\u00e3o tem nada de especial e, uma vez exposto, torna-se singular e ancestral sem o menor conflito. O roteiro sa\u00fada o teatro dentro do teatro que Pirandello legou no in\u00edcio do s\u00e9culo passado e a atmosfera de Lynch no filme <em>O Homem Elefante<\/em> (1980), baseado na hist\u00f3ria real de um cidad\u00e3o brit\u00e2nico v\u00edtima de doen\u00e7a cong\u00eanita. Dispensa-se, para tanto, proje\u00e7\u00f5es. O audiovisual est\u00e1 a servi\u00e7o da palavra e das espacialidades f\u00edsicas, sonoras, al\u00e9m da luz.<\/p>\n<p>Deforma\u00e7\u00f5es corporais e morais atravessam a dramaturgia do texto e da cena com lampejos do \u201cesperpento\u201d na literatura do espanhol Ram\u00f3n del Valle-Incl\u00e1n (1866-1936), distorcendo da realidade os atalhos para o grotesco e o absurdo. Esmiu\u00e7ar o d\u00edptico \u00e0 guisa de sinopse empobreceria a jornada do espectador. O mist\u00e9rio \u00e9 uma estrat\u00e9gia decisiva nos espet\u00e1culos complementares. O subtexto \u00e9 mais importante do que a nesga de f\u00e1bula.<\/p>\n<p>O brasileiro decerto encontra um pouco de dificuldade em compreender o rasqueado de uma fala ou outra, porque a l\u00edngua, espanhola ou alhures, tamb\u00e9m \u00e9 macerada conforme o sofrimento e a alegria impressos. H\u00e1 um travo nost\u00e1lgico na celebra\u00e7\u00e3o de uma despedida assimilada como eterno retorno: quem sabe o cora\u00e7\u00e3o do teatro resida a\u00ed. Montar, desmontar. Fazer, desfazer, ensaiar. Fazer e desfazer melhor ainda.<\/p>\n<p>A narrativa golpeia por meio de paisagens da alma, do ambiente e da mem\u00f3ria. Apoia-se no estranhamento permanente e no carisma inconcess\u00edvel transfigurado na presen\u00e7a de cada ator: uma sobrancelha erguida fisga com a mesma intensidade de uma can\u00e7\u00e3o a capela. Esses criadores emanam convic\u00e7\u00e3o apesar do aparente desalinho. A t\u00e9cnica desaparece. Sobressai uma po\u00e9tica vesga: o campo de recep\u00e7\u00e3o infiltrado pelo que \u00e9 enigma, suspense, interdito, sub-rept\u00edcio. N\u00e3o fossem esses bravos atores, a epifania de Su\u00e1rez jamais se cumpriria.<\/p>\n<div id=\"attachment_11979\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/13\/criticas-bem-vindo-a-casa\/1-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim1-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11979\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11979\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim1.1.jpg\" alt=\"Segundo epis\u00f3dio d\u00e1 uma guinada na montagem\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-11979\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim1.1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/1-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim1.1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11979\" class=\"wp-caption-text\">Segundo epis\u00f3dio d\u00e1 uma guinada na montagem<\/p><\/div>\n<p><strong>A realidade como fracasso poss\u00edvel<\/strong><br \/>\n<em>Por Ruy Filho \u2013 Antro Positivo<\/em><\/p>\n<p>O teatro \u00e9 um acontecimento presencial, disso sabemos. E o que \u00e9 presenciado n\u00e3o \u00e9 de fato a verdade de uma realidade, visto ser a constru\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o para oferecer ao outro uma experi\u00eancia e\/ou narrativa. Apenas uma fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a realidade ali compreendida \u00e9, antes, uma conven\u00e7\u00e3o de sua exibi\u00e7\u00e3o, um processo est\u00e9tico de apresenta\u00e7\u00e3o de uma possibilidade escolhida para um determinado objetivo. H\u00e1, ainda, o teatro que se apoia no argumento de ser a representa\u00e7\u00e3o de outra narrativa. O tal metateatro.<br \/>\nAparentemente, \u00e9 o que se poderia acreditar ser esse espet\u00e1culo. Contudo, <em>Bem-vindo a casa<\/em>, de Roberto Su\u00e1rez, n\u00e3o pode ser compreendido nem como teatro nem metateatro. Apresentado em duas partes, subverte o sentido vetorial comum da realidade que se constr\u00f3i ao espectador, ampliando o procedimento teatral ao ponto de tornar a ambi\u00eancia ficcional a realidade em si. O que se encontra, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas a teatraliza\u00e7\u00e3o de uma segunda narrativa, mas o fracasso do teatro compor a manifesta\u00e7\u00e3o plena do real.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sabemos que o teatro se realiza sobretudo na presen\u00e7a humana, ainda que possamos discutir outras tantas qualidades de presen\u00e7a \u00e0 cena. Mas, mesmo o signo que lhe serve de est\u00edmulo se coloca em reconhecimento na sua rela\u00e7\u00e3o com o homem. Portanto, \u00e9 nele, pelo espelhamento, maior ou menor identifica\u00e7\u00e3o, que sua presen\u00e7a se consolida.  Ocorre, no espet\u00e1culo, o mesmo procedimento em rela\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a. A perspectiva do fracasso se acumula ao desenvolvimento dos personagens, suas incapacidades, faltas e derrotas.<\/p>\n<p>S\u00e3o criaturas que passam a ter desconfigurados os elementos mais ordin\u00e1rios de seus reconhecimentos. Corpos caricaturados pela escolha em potencializar m\u00ednimos aspectos, desejos igualmente vitimizados na limita\u00e7\u00e3o literal de suas vontades, consequ\u00eancias m\u00ednimas tornadas argumentos para derrotas plenas. Da mesma maneira que a cena revela o fracasso do real, os atores confirmam o sentimento tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao humano.<\/p>\n<p>Desta maneira, responder ao teatro de Su\u00e1rez \u00e9 buscar argumentos que possam dar conta de reencontrar um e outro, ou a complementariedade de ambos, j\u00e1 que muito da realidade constr\u00f3i nosso entendimento de humanidade, e muito de nossa humanidade estabelece os preceitos de constru\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Compreender o fracasso em rela\u00e7\u00e3o ao humano implica em determinar como ambos se relacionam. Afinal, \u00e9 essencialmente o fracasso uma condi\u00e7\u00e3o humana ou o fracasso \u00e9 uma resposta que poderia ter sido evitada? Como exp\u00f5e o espet\u00e1culo, ambas as quest\u00f5es s\u00e3o consequentes \u00e0 impossibilidade da superarmos a realidade como sendo um estado de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 como mudar o destino tr\u00e1gico ao homem, visto n\u00e3o ser sua a a\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o da realidade, assim como n\u00e3o h\u00e1 como ser outro ao homem que n\u00e3o apenas humano. Mesmo no hibridismo simb\u00f3lico e real oferecido ao personagem deformado, chamado por Homem Elefante, em uma clara alus\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia fisiol\u00f3gica do reconhecido por padr\u00e3o \u00e0 apar\u00eancia humana, a presen\u00e7a de sua singularidade se assume pela escolha em compreend\u00ea-lo por sua ficcionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O teatro, ent\u00e3o, j\u00e1 incapaz de traduzir a dimens\u00e3o humana em sua realidade. Faz-se, no contempor\u00e2neo, a narrativa de estrat\u00e9gia de um real poss\u00edvel, e n\u00e3o mais sua exibi\u00e7\u00e3o como uma segunda camada. Assim como ao espectador \u00e9 revelada sua fun\u00e7\u00e3o e limite ficcional como exist\u00eancia em sua pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p><em>Bem-vindo a casa<\/em> convida a todos a visitarem uma fam\u00edlia. E n\u00e3o s\u00f3. O teatro desse existir familiar. E mais. Ao pr\u00f3prio teatro como possibilidade familiar. Mais ainda\u2026 Convida a cada um \u00e0 descoberta inc\u00f4moda e fundamental de que talvez estejamos todos em pleno del\u00edrio, enquanto dormimos com a cabe\u00e7a respirando o g\u00e1s que foge do forno, e a realidade se esvai feito o oxig\u00eanio que lentamente acaba. O teatro de Roberto Su\u00e1rez serve como a chama do f\u00f3sforo que explode e nos obriga, enfim, a acordar. Portanto, prenda sua respira\u00e7\u00e3o e prepare-se.<\/p>\n<div id=\"attachment_11981\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2014\/03\/13\/criticas-bem-vindo-a-casa\/4-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim4-1\/\" rel=\"attachment wp-att-11981\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-11981\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/4-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim4.1.jpg\" alt=\"Elenco fez \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo, que deve sair de repert\u00f3rio\" width=\"300\" height=\"450\" class=\"size-full wp-image-11981\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/4-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim4.1.jpg 300w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/4-bem-vindo-a-casa-foto-ligia-jardim4.1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-11981\" class=\"wp-caption-text\">Elenco fez \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo, que deve sair de repert\u00f3rio<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conv\u00edvio teatral em frente, verso e de permeio Por Valmir Santos \u2013 Teatrojornal A cria\u00e7\u00e3o da companhia uruguaia Peque\u00f1o Teatro de Morondanga resplandece o todo em cada uma de suas partes. 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