{"id":10980,"date":"2013-09-25T18:32:00","date_gmt":"2013-09-25T21:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=10980"},"modified":"2013-09-25T18:32:00","modified_gmt":"2013-09-25T21:32:00","slug":"pra-quem-e-ou-nao-de-credo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/pra-quem-e-ou-nao-de-credo\/","title":{"rendered":"Pra quem \u00e9 (ou n\u00e3o) de credo*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_10983\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/09\/25\/pra-quem-e-ou-nao-de-credo\/sobreoconceitodafacenofilhodedeus\/\" rel=\"attachment wp-att-10983\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10983\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/sobreoconceitodafacenofilhodedeus.jpg\" alt=\"Sobre o conceito da face no filho de Deus. Foto: Mariano Czarnobai\/Divulga\u00e7\u00e3o PMPA\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-10983\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/sobreoconceitodafacenofilhodedeus.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/sobreoconceitodafacenofilhodedeus-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10983\" class=\"wp-caption-text\">Sobre o conceito da face no filho de Deus. Foto: Mariano Czarnobai\/Divulga\u00e7\u00e3o PMPA<\/p><\/div>\n<p>Depois de presenciar uma das piores faces que Deus pode assumir, o que dizer? Com que estranha capacidade de regenera\u00e7\u00e3o nossos sentidos, violentados, se recomp\u00f5em e permitem que articulemos novamente as ideias na cabe\u00e7a. Mas&#8230; ideias? Nenhuma, tudo vazio. Nada mais a dizer. As palavras que eventualmente carregamos no corpo e na mem\u00f3ria s\u00e3o suprimidas diante de imagens \u2013 na falta de l\u00e9xico, me repito \u2013 violentas. Mas tentemos.<\/p>\n<p>Somos mortais, e isso aprendemos logo cedo. Mas o fato de termos um prazo de validade n\u00e3o \u00e9 o que mais assusta, embora boa parte de n\u00f3s pensemos que assim seja. N\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 a sujei\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. Fora nos casos de morte s\u00fabita, o corpo, em geral, assume um estado de desintegra\u00e7\u00e3o constante que s\u00f3 pode conduzir para o seu fim e, sobre ele, a mente j\u00e1 n\u00e3o tem mais nenhum dom\u00ednio. A mat\u00e9ria-corpo esvai-se, \u00e1tomo a \u00e1tomo, em todos os estados f\u00edsicos poss\u00edveis \u2013 j\u00e1 n\u00e3o quer pertencer a este aqui e agora. Antes de sumir-se, contudo, deixa as suas \u00faltimas marcas, indesej\u00e1veis; j\u00e1 n\u00e3o interessam. Mancha a superf\u00edcie alva das coisas e n\u00e3o h\u00e1 assepsia que d\u00ea conta. Se espalha, contamina. Imposs\u00edvel reter.<\/p>\n<p>O barro de que fomos feitos derrete, marrom, e com ele as \u00faltimas part\u00edculas de oxig\u00eanio (o sopro da vida). Entre um e outro, a paci\u00eancia e a dedica\u00e7\u00e3o de quem, ainda longe de alcan\u00e7ar esse estado da mat\u00e9ria, convive e \u00e9 respons\u00e1vel por quem est\u00e1 pr\u00f3ximo do fim. Responsabilidade, eu disse, mas sustentada por que? \u201cHonrar\u00e1s teu pai e tua m\u00e3e\u201d. Da justi\u00e7a dos homens, a obrigatoriedade do cuidado com os mais velhos. Suficiente?<\/p>\n<p>A tudo isso assistimos no espet\u00e1culo de Romeo Castellucci, <em>Sobre o conceito da face no filho de Deus<\/em>, carro-chefe da 20\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Porto Alegre Em Cena. Se iniciamos esse coment\u00e1rio com uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es impressionistas, \u00e9 por que \u00e9 muito particularmente que a obra chega a cada um dos espectadores. Como bem disse o diretor italiano, \u201cDeixo passar as imagens. Imagens que pertencem \u00e0 hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s. As imagens est\u00e3o \u00e0 espera de serem interpretadas em um sistema de sinais, sempre diferentes, assim como s\u00e3o diferentes, uns dos outros, os espectadores.\u201d<\/p>\n<p>Sim, temos imagens. Mas tamb\u00e9m sonoridade. Da boca do imenso Cristo (pintura de Antonello da Messina (1430-1479) projetada no fundo do palco, como a materializa\u00e7\u00e3o da onipresen\u00e7a divina), \u00e0 qual o filho, desesperan\u00e7ado, se abra\u00e7a, ouvimos um sussurro: \u201cJesus&#8230; Jesus&#8230; Jesus&#8230;\u201d, que retornar\u00e1 ao final da cena seguinte, em eco \u00e0s \u00faltimas granadas atiradas contra a imagem. Nessa cena, oito crian\u00e7as entram no palco e, de suas mochilas, retiram a muni\u00e7\u00e3o que atiram na face serena que as (nos) observa. Comp\u00f5e a cena, ainda, o barulho de bombas lan\u00e7adas, explodindo num crescendo sonoro ao qual se mistura uma m\u00fasica sacra. \u00c9 perturbador. Quando todas as crian\u00e7as se retiram, uma \u00faltima permanece e volta-se para a plateia. Do outro lado do palco, tamb\u00e9m na boca de cena, o ator que faz o pai levanta-se e tamb\u00e9m coloca-se diante da plateia. A linha da vida diante de nossos olhos?<\/p>\n<p>A agress\u00e3o visual continua no \u00faltimo momento do espet\u00e1culo. O ator-pai sai do prosc\u00eanio para a coxia carregando e derramando ao longo do caminho, de dentro de um gal\u00e3o (desses de gasolina), os excrementos fecais com que contaminou toda a primeira cena. S\u00f3 resta o Cristo, que nos olha. Algu\u00e9m come\u00e7a a mexer a imagem por tr\u00e1s, de modo a fazer parecer, num primeiro momento, bichos, \u201cpragas\u201d subcut\u00e2neas corroendo a mat\u00e9ria divina por dentro. No momento seguinte s\u00e3o riscos, linhas projetadas da altura dos olhos ao nariz, que deformam a face de Deus. Mas, n\u00e3o s\u00e3o bem \u201criscos\u201d: numa mudan\u00e7a de luz percebemos que \u00e9 o ator-pai que \u201cirriga\u201d, com o gal\u00e3o de excrementos, a imagem de Deus, at\u00e9 o ponto em que ela fica quase toda negra. Ent\u00e3o, ele e mais tr\u00eas homens come\u00e7am a rasgar a lona onde estava estampada a imagem e, por detr\u00e1s dela, vemos a inscri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>                           you<br \/>\n                           are <strong>not<\/strong><br \/>\n                           my<br \/>\n                        shepeard<\/p>\n<p>, evidenciado o \u201cnot\u201d apenas alguns instantes depois. Atrav\u00e9s da inscri\u00e7\u00e3o \u2013 gravada num mural com letras vazadas \u2013 enxergamos uma nova e mesma face de Deus, que permanece, para quem (quer) cr\u00ea, para quem n\u00e3o.<br \/>\nDiante dessas descri\u00e7\u00f5es, entende-se a agita\u00e7\u00e3o que o espet\u00e1culo provoca na comunidade crist\u00e3 por onde quer que passe. Mas esses s\u00e3o conflitos at\u00e9 administr\u00e1veis. Agora, quem ter\u00e1 sido capaz de acalmar suas pr\u00f3prias inquieta\u00e7\u00f5es depois de assistir a esse Castellucci?<\/p>\n<p>*texto de Nayara Brito, jornalista e mestranda do PPGAC\/UFRGS<\/p>\n<div id=\"attachment_10985\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/09\/25\/pra-quem-e-ou-nao-de-credo\/imagem110495\/\" rel=\"attachment wp-att-10985\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10985\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/imagem110495.jpg\" alt=\"Pe\u00e7a foi a principal atra\u00e7\u00e3o do Porto Alegre Em Cena\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-10985\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/imagem110495.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/imagem110495-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10985\" class=\"wp-caption-text\">Pe\u00e7a foi a principal atra\u00e7\u00e3o do Porto Alegre Em Cena<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de presenciar uma das piores faces que Deus pode assumir, o que dizer? 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