{"id":10290,"date":"2013-07-05T18:50:00","date_gmt":"2013-07-05T21:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/?p=10290"},"modified":"2015-10-28T02:56:18","modified_gmt":"2015-10-28T05:56:18","slug":"no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos\/","title":{"rendered":"&#8220;No meu palco vazio existem muitos mortos&#8221;"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_10294\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/07\/05\/no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos\/ikiru_renatapires-1\/\" rel=\"attachment wp-att-10294\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10294\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-1.jpg\" alt=\"Ikiru - Um r\u00e9quiem para Pina Bausch. Fotos: Renata Pires\/divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"397\" class=\"size-full wp-image-10294\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-1.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-1-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10294\" class=\"wp-caption-text\">Ikiru &#8211; Um r\u00e9quiem para Pina Bausch. Fotos: Renata Pires\/divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O bailarino japon\u00eas Tadashi Endo nos faz experimentar muitas sensa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da sua dan\u00e7a, do duelo entre a delicadeza e a for\u00e7a das imagens que constr\u00f3i com o corpo no palco. Tadashi \u00e9 um dos disc\u00edpulos de Kazuo Ohno, criador do butoh ao lado de Tatsumi Hijikata. Desde 2002 vem regularmente ao Brasil, principalmente a convite do LUME Teatro, de Campinas. J\u00e1 fez algumas temporadas pelo pa\u00eds, mas s\u00f3 chegou ao Recife semana passada, para apresentar o espet\u00e1culo <em>Ikiru &#8211; Um r\u00e9quiem para Pina Bausch<\/em>. No solo, Tadashi trata de vida e morte; lembra Pina, Michael Jackson (de quem era f\u00e3: &#8220;ningu\u00e9m consegue dan\u00e7ar como ele) e Kazuo Ohno. Dan\u00e7a com os mortos e, mais do que isso, consegue traz\u00ea-los de volta &#8211; ao menos sentimentalmente. Esta \u00e9 a primeira parte de uma conversa que Tadashi teve com jornalistas na v\u00e9spera da sua estreia no Recife, na Caixa Cultural.<\/p>\n<p><strong>Entrevista \/\/ TADASHI ENDO &#8211; Parte I <\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_10295\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/07\/05\/no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos\/ikiru_renatapires-10\/\" rel=\"attachment wp-att-10295\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10295\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-10.jpg\" alt=\"Bailarino japon\u00eas fez quatro sess\u00f5es com ingressos esgotados na Caixa Cultural\" width=\"600\" height=\"397\" class=\"size-full wp-image-10295\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-10.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-10-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10295\" class=\"wp-caption-text\">Bailarino japon\u00eas fez quatro sess\u00f5es com ingressos esgotados na Caixa Cultural<\/p><\/div>\n<p><strong>Butoh<\/strong><br \/>\nNos anos 1950, o butoh era mais um protesto contra a americaniza\u00e7\u00e3o do teatro e da dan\u00e7a japonesas. E n\u00f3s faz\u00edamos muito mais happenings. Isso significa que este tipo de manifesta\u00e7\u00e3o contra alguma coisa n\u00e3o era como dan\u00e7a. Depois, Tatsumi Hijikata, o fundador do butoh, descobriu especialmente o corpo do japon\u00eas e a vida do japon\u00eas. Se n\u00f3s dan\u00e7amos, geralmente toda a educa\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a vem do bal\u00e9 cl\u00e1ssico. O exemplo t\u00edpico \u00e9 um tipo de beleza, um tipo de luz, suave, mais branca e alta, todas essas dire\u00e7\u00f5es positivas. O butoh \u00e9 exatamente o oposto, porque a nossa vida existe muito mais com problemas, \u00e9 muito mais suja, feia. E \u00e9 preciso descobrir isso com o nosso corpo; n\u00e3o apenas do lado iluminado, mas tamb\u00e9m do outro lado, entre os dedos, atr\u00e1s da orelha, debaixo do queixo, no pesco\u00e7o. Isso \u00e9 muito importante para o butoh, especialmente o nosso corpo. A nossa cria\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a come\u00e7a no nosso corpo e dentro do nosso corpo. Se falamos em espa\u00e7o, a dan\u00e7a contempor\u00e2nea usa o espa\u00e7o atrav\u00e9s das linhas diagonais, retas, verticais, circulares. Esse espa\u00e7o para o butoh existe dentro do corpo, entre as costelas, entre os dedos. Esse espa\u00e7o chamamos de cosmos. Estamos dentro de um grande cosmos, mas isso aqui (aponta para o corpo) \u00e9 cosmos, \u00e9 universo. Ent\u00e3o a paisagem do corpo pode dan\u00e7ar &#8211; e algumas vezes acontecem terremotos e algumas vezes tsunamis, cachoeiras. Tudo isso acontece dentro do corpo. Esse espa\u00e7o \u00e9 muito importante e \u00e9 o ponto principal do butoh.<\/p>\n<p><strong>Teatro ocidental x teatro oriental<\/strong><br \/>\nEssa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, mas temos que pensar em dois pontos diferentes. Um \u00e9, por exemplo, se voc\u00ea fala em teatro noh, kabuki, bunraku, que s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais de teatro e dan\u00e7a do Jap\u00e3o, eles ainda s\u00e3o ex\u00f3ticos para os estrangeiros. Mas o butoh veio do Jap\u00e3o e, especialmente, a dan\u00e7a do butoh \u00e9 para o corpo japon\u00eas. Isso foi no come\u00e7o. Mas agora mais pessoas fora do Jap\u00e3o dan\u00e7am butoh &#8211; no Brasil, no M\u00e9xico, na Argentina, na Europa, na \u00c1frica. As pessoas dan\u00e7am butoh. Mas no Jap\u00e3o, isso acontece mais ou menos. O butoh n\u00e3o \u00e9 popular. Se voc\u00ea perguntar aos japoneses sobre o butoh, eles n\u00e3o sabem. O butoh veio do Jap\u00e3o, mas agora as sementes do butoh foram espalhadas em tantos lugares e est\u00e3o surgindo flores dessas sementes. \u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 algo que podemos dizer que \u00e9 uma dan\u00e7a japonesa apenas. Mas para mim \u00e9 importante. Eu moro na Alemanha e trabalhei com muitos n\u00e3o-japoneses: europeus, americanos, brasileiros, mas trago o esp\u00edrito do butoh para eles, n\u00e3o o estilo do butoh. Ent\u00e3o desejo o butoh brasileiro. H\u00e1 dois anos trabalhei em Salvador com um grupo afro-brasileiro. Ent\u00e3o era butoh afro-brasileiro. Porque n\u00e3o? Os corpos s\u00e3o diferentes, eles s\u00e3o negros, a energia \u00e9 diferente. Mas a Bahia n\u00e3o \u00e9 somente alegria&#8230;h\u00e1 outro esp\u00edrito. Isso \u00e9 interessante. Mas se as pessoas imitam o butoh japon\u00eas, h\u00e1 algo errado. Esse n\u00e3o \u00e9 o meu desejo.<\/p>\n<div id=\"attachment_10296\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/07\/05\/no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos\/ikiru_renatapires-4\/\" rel=\"attachment wp-att-10296\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10296\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-4.jpg\" alt=\"Tadashi Endo \u00e9 um dos disc\u00edpulos de Kazuo Ohno\" width=\"600\" height=\"397\" class=\"size-full wp-image-10296\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-4.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-4-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10296\" class=\"wp-caption-text\">Tadashi Endo \u00e9 um dos disc\u00edpulos de Kazuo Ohno<\/p><\/div>\n<p><strong>Trabalho<\/strong><br \/>\nEu tive muita sorte de vir para o Brasil e, da primeira vez que fiz o meu solo e dei um workshop, de come\u00e7ar a trabalhar com o LUME Teatro. E eu fiquei muito surpreso porque eu pensei antes de vir ao Brasil, claro que era muito clich\u00ea, eu imaginava o Brasil: sol, Copacabana, capoeira, samba, caipirinha, uma terra da felicidade. Mas quando comecei a trabalhar: \u201coh, eles tamb\u00e9m tem um lado negro, muito sens\u00edvel da vida\u201d. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 energia. E ent\u00e3o descobri que em cada pa\u00eds existe esse tipo de sensibilidade, um pouco, n\u00e3o uma coisa sentimental, mas um lado negro solit\u00e1rio, \u00fanico. Mas eu n\u00e3o quis fazer butoh japon\u00eas com as companhias brasileiras. Quis pegar mais delas, de cada vida diferente, de cada estilo diferente e, depois, vamos todos dan\u00e7ar sobre a base do butoh. Essa \u00e9 a ideia. Venho para o Brasil desde 2002 quase todos os anos. O Brasil agora \u00e9 quase a minha segunda casa, mas ainda n\u00e3o consigo falar portugu\u00eas. Para mim, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito importante. Dependendo do pa\u00eds, se voc\u00ea trabalha no Brasil, M\u00e9xico, Europa, voc\u00ea precisa conhecer primeiro o estilo de vida, n\u00e3o o estilo de dan\u00e7a, ou como eles dan\u00e7am. A dan\u00e7a contempor\u00e2nea brasileira, ou europ\u00e9ia, ou japonesa, \u00e9 quase a mesma, mas a vida \u00e9 diferente e, se voc\u00ea entender esse ponto, ent\u00e3o voc\u00ea pode colocar o esp\u00edrito do butoh em diferentes estilos de vida. Por exemplo, o sentimento de tempo. O sentimento de tempo aqui no Brasil \u00e9 muito diferente. No Jap\u00e3o, por exemplo, o tempo \u00e9 muito preciso. No Brasil voc\u00ea espera 30 minutos, \u00e9 algo normal. E o trem chega pontualmente no Jap\u00e3o, na Europa tamb\u00e9m e aqui no Brasil, se estiver um pouquinho atrasado, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea problema. Mas os brasileiros aproveitam a vida muito mais do que um alem\u00e3o ou japon\u00eas, isso \u00e9 o que eu acho. Porque n\u00f3s temos que organizar tudo da nossa vida e morrer? Por que n\u00e3o curtir mais? Esse sentimento eu tenho especialmente no Brasil. <\/p>\n<p><strong>Manifesta\u00e7\u00f5es no Brasil<\/strong><br \/>\nMais um ponto que eu quero falar: sobre as manifesta\u00e7\u00f5es no Brasil. Quando eu estava em Fortaleza, todos os dias eu tinha que me apresentar, mas todos os dias, milhares de pessoas estavam nas ruas e tamb\u00e9m houve viol\u00eancia. Eu gosto de ver futebol e o Brasil \u00e9 o principal pa\u00eds do futebol, o futebol brasileiro \u00e9 t\u00e3o popular. Mas nesse pa\u00eds vi tantos problemas. Prefiro parar a Copa do Mundo ou a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es e ent\u00e3o come\u00e7ar a pensar: o que \u00e9 realmente importante para n\u00f3s? Esse ponto inicial podemos achar agora se fizermos mais. Eu tive sentimentos parecidos dois anos atr\u00e1s quando houve o tsunami e aquela trag\u00e9dia nuclear em Fukushima, um completo desastre. E o Jap\u00e3o foi o \u00fanico pa\u00eds que recebeu uma bomba at\u00f4mica. Porque o governo japon\u00eas n\u00e3o parou esse momento todos os reatores nucleares do pa\u00eds? A Alemanha parou. Mas outros pa\u00edses est\u00e3o criando reatores nucleares novamente. Porque n\u00e3o podemos mudar desde a nossa base? Foi uma grande chance, mas isso n\u00e3o aconteceu. Eu estou muito desapontado, com raiva&#8230;Isso n\u00e3o est\u00e1 diretamente conectado com a minha dan\u00e7a do butoh, mas num ponto sim: em todo tempo, voc\u00ea precisa ser radical. Isso para um bailarino de butoh tamb\u00e9m. Eu crio algo e depois destruo. Nunca estou feliz com a minha pe\u00e7a. N\u00e3o quero ficar feliz. Quero mais, mais, nunca parar. Do contr\u00e1rio, me torno muito pregui\u00e7oso e paro. <\/p>\n<div id=\"attachment_10299\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/2013\/07\/05\/no-meu-palco-vazio-existem-muitos-mortos\/ikiru_renatapires-15\/\" rel=\"attachment wp-att-10299\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-10299\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-15.jpg\" alt=\"Espet\u00e1culo homenageia Pina, Michael Jackson e Kazuo Ohno\" width=\"600\" height=\"397\" class=\"size-full wp-image-10299\" srcset=\"https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-15.jpg 600w, https:\/\/www.satisfeitayolanda.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/ikiru_renatapires-15-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10299\" class=\"wp-caption-text\">Espet\u00e1culo homenageia Pina, Michael Jackson e Kazuo Ohno<\/p><\/div>\n<p><strong>Pina Bausch<\/strong><br \/>\nPina Bausch e Kazuo Ohno eram bons amigos. Minha rela\u00e7\u00e3o com Pina era realmente mais privada. Nunca aprendi com ela a dan\u00e7a-teatro e tamb\u00e9m nunca segui exatamente o trabalho dela. Mas eu a encontrei algumas vezes em festas e eram festas bem privadas porque as festas eram organizadas por Pina para Kazuo Ohno e quando Kazuo Ohno foi para a Europa, eu estava o tempo inteiro com ele como um assistente. E ent\u00e3o n\u00f3s bebemos juntos, fumamos, ela era uma fumante inveterada, o tempo todo fumando. E o carisma dela era t\u00e3o maravilhoso; ela era famosa no mundo inteiro, mas nunca se mostrou: \u201ceu sou uma grande bailarina\u201d ou falou sobre outros bailarinos. N\u00e3o, sempre muito t\u00edmida. Mas quando ela viajava, para Turquia, Jap\u00e3o, Israel, para qualquer lugar, em cada pa\u00eds diferente, ela criava diferentes pe\u00e7as. Porque ela me disse, como eu disse agora sobre Brasil, voc\u00ea tem que saber quem mora naquele pa\u00eds e n\u00e3o come\u00e7ar a trabalhar como bailarino. Coloque a vida deles na dan\u00e7a. E por essa raz\u00e3o normalmente quando ela come\u00e7ava, os trabalhos n\u00e3o tinham t\u00edtulo, porque como voc\u00ea pode chamar a sua vida no Brasil? Ou no Jap\u00e3o? Eu n\u00e3o sei. A morte de Pina foi um grande choque para mim. E, quatro dias depois, Michael Jackson morreu. Tamb\u00e9m foi um grande choque. Eu amo Michael Jackson. Eu vi o show dele em Han\u00f4ver, num grande est\u00e1dio de futebol. Fui com minha mulher e meu filho e n\u00f3s est\u00e1vamos no campo, em p\u00e9, em frente ao palco. Antes do show come\u00e7ar, houve um blecaute. E ent\u00e3o uma grande luz. Michael Jackson estava no topo de uma estrutura e estava ventando. Por duas horas fiquei t\u00e3o fascinado, os movimentos, a voz, a luz, tudo era perfeito. Ent\u00e3o n\u00f3s perdemos nosso filho. Meu filho tinha nove anos e olhei: \u201coh, droga! Milhares de pessoas. N\u00f3s perdemos nosso filho!\u201d Mas, de novo, Michael Jackson, esqueci completamente meu filho. Quando o show terminou, achei um guarda e perguntei se ele tinha visto meu filho. Meu filho naquela \u00e9poca era muito f\u00e3 de Michael Jackson, dan\u00e7ava um pouco de break, tinha um bon\u00e9 vermelho e luvas brancas. N\u00f3s achamos nosso filho. Onde estava meu filho? Ele estava no palco, ao lado do palco e ele estava t\u00e3o feliz, sorrindo. \u201cPapai, eu vi Michael Jackson a cinco metros de dist\u00e2ncia\u201d. \u201cComo voc\u00ea veio para o palco? \u00c9 imposs\u00edvel\u201d. \u201cDois seguran\u00e7as, quando teve o blecaute, as pessoas come\u00e7aram a vir para frente, era perigoso. Ent\u00e3o os seguran\u00e7as me colocaram no palco\u201d. Os seguran\u00e7as foram embora e meu filho n\u00e3o sabia o que fazer. Ficou o tempo todo no palco! Eu fiquei com tanta inveja! Gosto do Michael Jackson por causa da sua perfei\u00e7\u00e3o e uso algumas vezes suas m\u00fasicas, seu ritmo, mas n\u00e3o posso dan\u00e7ar como Michael Jackson, ningu\u00e9m pode. Mas eu quero capturar esse sentimento. E em <em>Ikiru<\/em>, eu queria dizer muito obrigado a Pina Bauch porque voc\u00ea me deu muita energia, e ambi\u00e7\u00e3o, e coragem. Ela nunca me ensinou, nunca tive uma aula com ela. Mas se voc\u00ea conhece Pina, voc\u00ea entende mais do que t\u00e9cnicas de dan\u00e7a e por essa raz\u00e3o eu queria dizer, obrigado Pina. Mas depois que criei essa pe\u00e7a, tamb\u00e9m quero agradecer a Kazuo Ohno e a muitos mortos: obrigado Michael Jackson. Muitas pessoas que j\u00e1 morreram me ajudaram. Quando dan\u00e7o, \u00e9 sempre uma homenagem a muitas pessoas que j\u00e1 morreram, n\u00e3o s\u00f3 Pina Bausch, mas Kazuo Ohno, e tamb\u00e9m meu irm\u00e3o mais novo. E se eu sinto que continuo vivo, tenho que me tornar mais forte. Essas pessoas mortas me ajudaram nesse caminho. Claro que o p\u00fablico \u00e9 importante, mas normalmente quando dan\u00e7o, no palco, tudo \u00e9 vazio. Mas porque dan\u00e7o? Por causa do sentimento, da alma. Do contr\u00e1rio, meu movimento de dan\u00e7a \u00e9 s\u00f3 t\u00e9cnica, movimentos t\u00e9cnicos. No meu palco vazio existem muitos mortos. E isso \u00e9 o que eu sinto especialmente em <em>Ikiru<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Demonstra\u00e7\u00e3o de trabalho &#8211; <\/strong>No s\u00e1bado, para uma plateia de bailarinos, atores, diretores, professores e jornalistas, Tadashi Endo fez uma demonstra\u00e7\u00e3o de trabalho. Gravamos um trechinho:<\/p>\n<p><object width=\"480\" height=\"360\"><param name=\"movie\" value=\"\/\/www.youtube.com\/v\/TG2fs87sDyg?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\"><\/param><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\"><\/param><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\"><\/param><embed src=\"\/\/www.youtube.com\/v\/TG2fs87sDyg?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"360\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O bailarino japon\u00eas Tadashi Endo nos faz experimentar muitas sensa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da sua dan\u00e7a, do duelo entre a delicadeza e a for\u00e7a das imagens que constr\u00f3i com o corpo no palco. Tadashi \u00e9 um dos disc\u00edpulos de Kazuo Ohno, criador do butoh ao lado de Tatsumi Hijikata. 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