Arquivo do Autor: Ivana Moura

Quaderna mostra truques do país dos conchavos
Crítica do espetáculo
As Conchambranças de Quaderna

 Jorge de Paula e Fábio Espósito em As Conchambranças de Quaderna. Foto: Ivana Moura

 Jorge de Paula e Guryva Portela. Foto: Ivana Moura

Jorge de Paula, Fábio Espósito, Henrique Stroeter e Guryva Portela.  Foto: Ivana Moura

Guryva Portela, Jorge de Paula, Henrique Stroeter, Fábio Espósito e Carlos Ataíde (no chão). Foto: Ivana Moura

O espetáculo As Conchambranças de Quaderna (1987), com texto de Ariano Suassuna (1927-2014), direção de Fernando Neves e realização da Beijo Produções Artísticas e Cia Vúrdon de Teatro Itinerante, se desenvolve em torno do peculato. Essa palavrinha vem do termo latino peculatus, cuja origem, por sua vez, vem de pecus — (gado) — que constituía a primitiva moeda para realização de compras e pagamento de multas. Peculato é a ação de subtrair ou desviar bem ou dinheiro por parte de funcionário público que deveria ser o guardião. Ouvimos a expressão com frequência nos noticiários. O sujeito se apropria de um bem que ele tem acesso em função do cargo que exerce. A partir desse abuso de confiança, o (mau) servidor comete o crime (Código Penal, artigo 312) e está prevista pena de 2 a 12 anos de prisão e multa.

O cômico em Ariano Suassuna funciona como mina explosiva. Abre caminho ao diálogo e escuta do público, na perspectiva do questionamento crítico e reflexivo. Com as armas do humor, da astúcia e da habilidade de resolver conflitos, o personagem mítico-poético Pedro Dinis Quaderna vence suas batalhas n’As Conchambranças de Quaderna.

A obra de Ariano Suassuna é composta por três atos: O Caso do Coletor Assassinado, Casamento com Cigano pelo Meio e A Caseira e a Catarina ou O Processo do Diabo. Teve apenas três montagens – no Recife (1987 e 2004) e no Rio de Janeiro (2011) – e foi publicada somente em 2018. N’As Conchambranças de Quaderna, Suassuna resgata Pedro Dinis Quaderna, personagem do seu Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971).

O projeto As Conchambranças de Quaderna foi viabilizado, em 2019, através do ProAC de Produção e Temporada de Espetáculos Inéditos de Teatro – Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. A encenação com os três atos poderia chegar a três horas de duração. A produção seguiu as recomendações das medidas sanitárias e do distanciamento social durante a pandemia do coronavírus, elegendo o primeiro ato da peça, O Caso do Coletor Assassinado, para a montagem, de cerca de uma hora.

Na peça, um “suposto” desfalque cometido pelo coletor de impostos da cidade gera uma crise política entre o Sertão do líder da oligarquia rural Dom Pedro Sebastião e o governo do estado da Paraíba. Dom Pedro Sebastião é Padrinho e protetor de Quaderna. Esse protagonista usa sua lábia, seu discurso para resolver contendas e fazer com que todos ganhem, principalmente ele mesmo.

As personagens são tipos e a encenação de Fernando Neves salienta as caricaturas na sua montagem em que os elementos do circo-teatro imprimem as diretrizes estéticas. Os papeis codificados, as peripécias, o trato popular no visual e a crítica social à política, à ganância, à hipocrisia, à xenofobia são tratados como andamento de uma partitura pelo diretor.

Neves confere à cena uma dinâmica lépida e fagueira, farta de marcações hilárias, efetuada com alegria pelo elenco. Em As Conchambranças de Quaderna os atores parecem se divertir, fazem folia com os próprios códigos.

 O músico Abuhl Júnior. Foto: Ivana Moura

Para garantir esse festim, o encenador conta com o músico Abuhl Júnior, ao vivo na bateria e percussão, que enriquece a ação dos atores na partitura e sonoridades incidentais.

O tempo e o ritmo com exatidão são valiosos para Neves, especialista em circo-teatro, estética que se dedica desde sempre com a família Santoro Neves ou há duas décadas, junto ao grupo Os Fofos Encenam.

No universo desse Sertão de Quaderna, as relações com quem exerce cargo de destaque são determinantes. O aspecto monetário e os elementos financeiros traduzem os pequenos embates de poder e sua sustentação.

Suassuna subverte hierarquias consagrando Imperador e Rei, Decifrador-armorial, Gênio da Raça, Monarca da Cultura Brasileira, Imperador do Reino do Sete-Estrelo do Escorpião e candidato a Gênio Máximo da Humanidade o “afilhado” de um importante coronel. O Padrinho é aconselhado por Quaderna na resolução de problemas políticos que precisam de estratégia, audácia, inteligência, rapidez, senso de conciliação. Quaderna, nesta encenação, saúda as manifestações de religiosidade afro-brasileiras, como as reverências em honra à Jurema, durante a apresentação.

Para desenvolver o espetáculo, o chão é festivo. A maquiagem é carregada, quase uma máscara. O ritmo das cenas é rápido. A dança nordestina está impregnada no corpo dos atores. Destaco o cavalo-marinho, um auto dos festejos natalinos. O folguedo possui 76 figuras nas categorias humana, fantástica e animais. Talvez venha daí qualquer coisa além de humana na postura das personagens.

Então, a dança do cavalo-marinho é bem ágil, enérgica, entusiasta, com um ritmo bem-marcado por um sapateado que sugere o galope dos cavalos. A sambada tem passos rasteiros intercalados de saltos, que se chama “bater mergulho”.

Nesse clima, o que os atores mostram vivamente é a confusão entre a natureza do que é público e privado. Se o território é brincante, a trilha sonora – assinada por Renata Rosa (cantora, compositora e rabequeira) e de Caçapa (arranjador, violeiro e compositor pernambucano) acentua, reforça o clima exultante do espetáculo.  

A criação visual do artista plástico Manuel Dantas Suassuna, filho de Ariano, é uma obra de arte excepcional por si mesma. Os telões do cenário estão carregados do Brasil real e profundo. Os criativos figurinos, inspirados na estética armorial e na cultura nordestina, são assinados por Carol Badra.

Jorge de Paula e Fábio Espósito. Foto: Ivana Moura

O ator Jorge de Paula, que interpreta o Quaderna, brilha em cena. Ele associa sutileza, gestualidade, carisma, fôlego com graça e humor. É bom na ironia e na desfaçatez. Uma construção forte, que transmite muita empatia ao público. Quem assistiu Um Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, da recifense Trupe Ensaia Aqui e Acolá, sabe que o talento desse ator vem de longe.

Fábio Espósito tem uma atuação desconcertante como Evilásio Caldas. Sua experiência de palhaço, seu timing para comédia dão leveza à cena. Como um bom mágico, ele nos surpreende com as piadas, os silêncios e partitura corporal. Um brincante que contagia.

Guryva Portela faz Dom Pedro Sebastião e acentua as características do autoritarismo, machismo de forma bem exagerada na mira do grotesco para provocar o riso.

Carlos Ataíde como Seu Belo. Foto: Ivana Moura

Bruna Recchia, em primeiro plano, no papel da Presidente da Comissão de Inquérito. Foto: Ivana Moura

Os outros papéis são menores e cada um tem sua importância, concebidos na mesma linha do exagero, escolhida pela encenação. Henrique Stroeter faz o matador Joaquim brejeiro que trabalha basicamente com o gestual de segurar o rifle e amedrontar com a força bruta; Carlos Ataíde interpreta Seu Belo, funcionário do Cartório, medroso e engraçado e Bruna Recchia a Presidente da Comissão de Inquérito, que investe na maximização da caricatura da paulistana com seu olhar exótico sobre o nordestino, que pode tanto despertar o riso ou a irritação, depende do espírito do espectador.  

A trama reporta às farsas medievais, ancorada na astúcia da figura principal da peça e sua desenvoltura para solucionar as confusões. Na galeria de figuras de As Conchambranças de Quaderna não nos cabe julgamento moral. O crime de peculato, acobertado pelos personagens, traz junto com o riso prazeroso o alerta para que fiquemos atentos ao mundo real, ao Brasil que massacra seus artistas.

Essa crítica é necessária ao país que se sustenta em acordos e tramoias para se garantir no poder. De um país que vê passar a chamada de “PEC do Calote”, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, que viabiliza o financiamento do Auxílio Brasil (programa que substitui o Bolsa Família), mas para isso abre espaço de R$ 91,6 bilhões no Orçamento de 2022 às custas do não pagamento das dívidas judiciais do governo. Entre outros probleminhas.

Do espetáculo As Conchambranças de Quaderna fica um gostinho de quero mais, já que esta montagem está circunscrita ao primeiro ato. Do Brasil da “PEC do Calote” precisamos estar atentos e fortes para a luta.

Jorge de Paula e Fábio Espósito. Foto: Ivana Moura

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A liberdade é uma luta constante.
Estreia Sueño, de Newton Moreno

Denise Weinberg e José Roberto Jardim. Foto: João Caldas Fº / Divulgação

Michelle Boesche e Leopoldo Pacheco. Foto: João Caldas Fº/ Divulgação

Paulo de Pontes. Foto: João Caldas Fº / Divulgação

“Ou se é livre por inteiro ou se está em cativeiro”. O trecho da música de Sueño traduz o espírito do espetáculo. Livremente inspirada em Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, a peça expõe desejos interrompidos de uma trupe de teatro e de uma família por uma ditadura sul-americana. Com direção e dramaturgia de Newton Moreno e elenco formado por Denise Weinberg, Leopoldo Pacheco, Paulo de Pontes, Michelle Boesche, José Roberto Jardim e Simone Evaristo, Sueño estreia neste 5 de novembro de 2021 de modo presencial na área externa do Teatro João Caetano, em São Paulo.

As ditaduras são especialistas, sabemos, em confiscar destinos e semear pesadelos. Na peça, que começa em Santigo, no Chile, em 1973, um grupo de teatro ensaia Sonho de uma Noite de Verão. O diretor Vine forma um casal com uma militante política, que está gravida. Eles são separados pela ditadura.

A história é narrada pelo ponto de vista do diretor chileno, Vine, que anseia retomar sua montagem shakespeareana adiada pelo golpe e reencontrar sua companheira. Mesmo com a derrocada da ditadura, na década de 1990, os ecos do autoritarismo sobrevivem.

Sueño é nosso manifesto poético. Nossa teimosia estética para retornar ao teatro após o caos pandêmico e político que atravessamos, evidenciando nossa crise e buscando reafirmar a potência de nosso ofício. Uma peça em processo, sempre em processo, como este continente em ensaio há séculos. Por isso, chamamos esta primeira temporada de Etapa 1 do SUEÑO – ensaiando sonhos”, pontua o diretor e dramaturgo Newton Moreno.

A operação Condor, que envolveu Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Argentina é o disparador da montagem. A intervenção para detectar “movimentos subversivos” foi responsável por muitas prisões e “desaparecimentos”. “Queremos acessar as gavetas-memórias desta rede persecutória e opressora. E assim desenvolver a dramaturgia, explorando um eixo organizador: processos ditatoriais na América Latina e as famílias separadas pela ditadura”, diz Newton Moreno.

Há um entra-e-sai na ‘fábula’, no universo onírico e violento de Shakespeare. “Embaixo do tapete mágico de fadas, enamorados e quiprocós, esconde-se a sombra tenebrosa dos desafetos, desmandos patriarcais de humanos e desumanos”, lembra Moreno.

Muitas camadas são criadas para falar da eterna utopia, da colonização, do devir latino-americano, dos regimes totalitários, do ontem e hoje, das nossas heranças de desgovernos.

Num dos ensaios de Sueño, que acompanhamos nos últimos dias, fomos contagiados pela força da montagem para encarar o tema-desafio. Da delicadeza para tocar o humano, esse ser tão frágil que nos seus projetos de grandeza esquece do tempo. Newton Moreno conduz com engenhosidade esse projeto coletivo que conta com quase 50 pessoas envolvidas diretamente. E extrai gradações interpretativas que vai da fúria à meiguice de um elenco afinado e apaixonante.

Ficha técnica:
Dramaturgia e Direção Geral: Newton Moreno
Direção de Produção: Emerson Mostacco
Direção Musical: Gregory Slivar
Direção de Movimentos: Erica Rodrigues
Elenco: Denise Weinberg, Leopoldo Pacheco, Paulo de Pontes, José Roberto Jardim, Michelle Boesche, Simone Evaristo, Gregory Slivar (músico ao vivo)
Desenho de Luz: Wagner Pinto
Figurinos: Leopoldo Pacheco e Chris Aizner
Cenário: Chris Aizner
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Assistente de Dramaturgia e Pesquisador: Almir Martines
Assistentes de Direção: Katia Daher (primeira etapa) e Erica Rodrigues
Assistente de Produção: Paulo Del Castro
Assistente de Luz: Gabriel Greghi
Adereços e cenotécnico: Zé Valdir Albuquerque
Estrutura de box truss e arquibancadas: Fernando Hilário Oliveira
Desenho de som: Victor Volpi
Operador de Luz: Gabriel Greghi / Vinícius Rocha Requena
Operador som e Microfone: Victor Volpi
Palestrantes: Sérgio Módena e Ricardo Cardoso
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio – Douglas e Heloisa
Designer: Leonardo Nelli Dias
Fotos: João Caldas
Assistente de fotografia: Andréia Machado
Produção Audiovisual: Ìcarus
Apoio Paisagístico: Assucena Tupiassu
Costureiras: Lande Figurinos e Judite de Lima
Equipe de Montagem de Luz: Guilherme Orro / Thiago Zanotta / Lelê Siqueira
Equipe de Montagem Cenário: F.S. Montagens
Estagiários: Camila Coltri; Fernando Felix; Marcelo Araújo; Bruna Beatriz Freitas; estagiário 5; estagiário 6
Produção: Mostacco Produções
Realização: “Heróica Companhia Cênica”, “Prêmio Zé Renato de Teatro”, “Secretaria Municipal de Cultura” e a “Prefeitura de São Paulo — Cultura”
“Este projeto foi contemplado pela 12a Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura”

Serviço:
TEATRO MUNICIPAL JOÃO CAETANO – Rua Borges Lagoa, 650 – Vila Clementino – São Paulo.
Temporada: de 05 de novembro a 05 de dezembro de 2021.
Horários: De terça a domingo às 18 horas.
Ingressos: Entrada franca, com retirada na bilheteria uma hora antes do espetáculo.
Duração: 150 minutos + 30 minutos de debate após cada apresentação.
Classificação: 14 anos
Gênero: Tragicomédia
Lotação: 30 lugares
Informações: (11) 5573-3774 / 5549-1744

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Coletivo Angu pergunta: “Onde está todo mundo?”

Integrantes do Coletivo Angu de Teatro: Hermila Guedes, Gheuza Sena, Lilli Rocha, Ninive Caldas, Ivo Barreto, Arilson Lopes e André Brasileiro. Foto: Tadeu Gondim

A parceria entre Marcelino Freire e o Coletivo Angu de Teatro, do Recife, rende frutos há quase 20 anos. Neste domingo, 10 de outubro, o grupo mostra ao vivo, pelo Zoom, o trabalho Onde Está Todo Mundo?, quando joga com o universo das lives e da comunicação on-line.  A peça integra a programação Palco Virtual, do Itaú Cultural.

Estão no elenco desse experimento virtual os atores André Brasileiro, Gheuza Sena, Ivo Barreto, Lilli Rocha, Luís Cao, Ninive Caldas e do diretor Marcondes Lima.

Nessa “live farsesca” nem o autor – Marcelino Freire – nem as personagens criadas por ele durante a pandemia comparecem para participar do programa.

A peça foi criada no ano passado para o Festival Arte como Respiro: Múltiplos Editais de Emergência – Edição Cênicas, do Itaú Cultural, primeira seleção de auxílio a artistas no começo da pandemia. 

Quando a presencialidade, tão cara à cena teatral, começou a afastar-se, Marcelino Freire perguntou “Onde Está Todo Mundo?” E ofereceu ao Coletivo Angu um balaio repleto de humor corrosivo, doses de poesia e personagens absurdamente palpáveis nesse tempo cada vez mais surreal, de fronteiras difusas entre o ser e o não ser.

Com humor, o Coletivo ergue uma metacena que atravessa questões como a perda, o espaço vazio, o desaparecimento de pessoas e a dor.

Primeiro grupo a levar à cena a prosa de Freire, o Angu foi criado em 2003, do encontro entre os atores André Brasileiro, Fábio Caio, Gheuza Sena, Hermila Guedes, Ivo Barreto e do diretor Marcondes Lima para a montagem do espetáculo Angu de sangue.

Desde então, criou os espetáculos Ópera (2007), com texto de Newton Moreno, Rasif – mar que arrebenta (2008) e Ossos (2016) , com textos de Marcelino Freire, todas com direção de Marcondes Lima e Essa febre que não passa (2011) texto de Luce Pereira e direção de André Brasileiro e Marcondes Lima.

Nínive Caldas e Luís Cao em Onde está todo mundo?. Foto: Divulgação

SERVIÇO
Onde está todo mundo? [com interpretação em Libras]
Palco Virtual do Itaú Cultural
Quando: Domingo 10 de outubro de 2021, às 19h
[duração aproximada: 120 minutos]
Onde: Plataforma Zoom.
Ingresso: Gratuito, via Sympla
Mais informações: www.itaucultural.org.br​

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As conexões entre arte e ciência ganham protagonismo na segunda edição do Cena Agora

Das Águas que Atravesso: Um Diário de Vida que Ancoro, da médica Renata Meiga e do ator Jhoao Junnior; um diário fílmico sobre os apontamentos de doulagem. Foto: Jhoao Junnior

Flávia Pinheiro apresenta In Vitro. Foto: Tom Oliver Jacobson /Divulgação

Surgido no período geológico do Pleistoceno, o Homo sapiens (termo que deriva do latim “homem sábio” – será, será, será???) se esparramou pelo mundo no Holoceno. Como força onipresente chegou ao Antropoceno (termo formulado por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química de 1995), deixando suas marcas de destruição. Esse período mais recente do planeta Terra teve seu início no crepúsculo do século 18 (não há consenso entre especialistas), quando as ações humanas passaram a gerar impactos consideráveis no clima, no progresso demoeconômico e nos andamentos dos ecossistemas. A Terra debate-se num espiral de morte. A ameaça de extinção não é ficção, mas urgência. O prazo para reverter essa situação planetária está se esgotando.

Depois de refletir sobre o Nordeste, a nova série do Cena Agora, do Itaú Cultural, se dedica à relação da ciência com as artes, no programa que acontece até o dia 18 de julho. Com cenas curtas e inéditas de dança, teatro e performance, serão exibidos ao público trabalhos que têm a ciência tanto como tema quanto como método criativo para as artes.

Corpxs reagentes, existências em crise é a provocação temática dessa safra do Cena Agora – Arte & Ciência. Duas mesas e 12 cenas de no máximo 15 minutos estão na pauta. Artistas convidados expõem diferentes olhares sobre o diálogo entre esses dois segmentos, em uma  pulsação com as preocupações atuais.

As atividades on-line e gratuitas são realizadas dentro do Palco Virtual do Itaú Cultural, com sessões de quinta-feira a sábado, às 20h, e no domingo, às 19h, pela plataforma Zoom. Todas as apresentações são seguidas por conversas com os elencos e mediadores, que nesta edição do Cena Agora acompanharam o processo criativo dos artistas para a elaboração de cenas inéditas. Os ingressos podem ser reservados via Sympla – mais informações em www.itaucultural.org.br.

No intuito de provocar um pensamento sobre uma atuação coletiva entre a arte e a ciência, a mesa Como pensar arte e ciência em um mundo complexo? reúne a artista visual Rejane Cantoni, doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela Universidade Católica de São Paulo, e a biomédica Helena Nader, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC). A mediação é de Jader Rosa, gerente do Núcleo do Observatório Itaú Cultural.
Duas criações por noite são apresentadas de sexta-feira a domingo, a partir do dia 9,  com mediação da artista-pesquisadora Walmeri Ribeiro.

A pernambucana Flávia Pinheiro expõe In Vitro, performance que, em analogia às formações da natureza, aborda o conhecimento que os elementos trazem em si e como são produzidas as verdades criadas para narrar as histórias ensinadas. A paulista Júlia Abs faz em Dez uma celebração à vida no planeta Terra, numa partitura coreográfica, que sugere uma mandala a ser ativada.

Núcleo Arte e Ciência no Palco. Foto Adriana Carui / Divulgação

Dois grupos que tem como proposta relacionar arte e ciências se apresentam no sábado. O Núcleo Arte e Ciência no Palco, de São Paulo, exibe A Extinção é a Regra. A Sobrevivência é a Exceção, combinando atores com criações visuais, histórias de descobertas com provocações anti-negacionistas.

O grupo carioca Ciênica mostra a cena Sua Companhia: encontro de quatro amigos após mais de um ano de distanciamento. A conversa com os elencos após as exibições tem mediação da atriz, produtora, dramaturga e diretora Thais Medeiros.

Domingo é a vez da ciência presente no teatro de bonecos. Após as cenas, o diretor audiovisual Ricardo Laganaro conduz o bate-papo com os convidados. Os mineiros do grupo Pigmalião Escultura que Mexe apresentam Fábulas Antropofágicas para Dias Fascistas: A Raposa no Divã, inspirada em peça teatral da filósofa Márcia Tiburi.

Já os gaúchos do De Pernas Pro Ar apresentam Memórias Enferrujadas. Nesse teatro de máquinas, resta a um velho inventor esquecido a rotina de desenferrujar movimentos, sentimentos e engrenagens.

Memórias Enferrujadas, com o grupo De Pernas Pro Ar. Foto Tayhu Wieser

Segunda semana

No dia 15 de julho, um debate sobre a fricção entre arte e ciência abre a atividade com a participação de três convidados. A química baiana Kananda Eller, conhecida como Deusa Cientista nas redes sociais, trabalha com referências negras dentro de uma afroperspectiva. A carioca Letícia Guimarães, que atua no Museu da Vida –Fiocruz, criando e dirigindo espetáculos teatrais com o objetivo de promover a saúde e popularizar a ciência com um viés político-social. E o cearense Marcus Vale, fundador da Seara da Ciência, museu dedicado ao tema na Universidade Federal do Ceará (UFC), onde coordena o grupo de teatro e outras atividades de divulgação científica. A mesa Experiências artísticas, obras científicas tem mediação do ator, diretor e mestre em Ciências Leonardo Moreira.

Na sexta-feira, 16, o diretor, dramaturgo e ator Fabiano Dadado de Freitas e o dramaturgo Ronaldo Serruya apresentam O Futuro não é Depois: Uma Performance Palestrativa sobre Cazuza e Herbert Daniel. Na mesma noite é exibida a cena Das Águas que Atravesso: Um Diário de Vida que Ancoro, da médica Renata Meiga e do ator Jhoao Junnior; um diário fílmico sobre os apontamentos de doulagem de Renata Meiga. Dodi Leal, líder do Grupo de Pesquisa Pedagogia da Performance: visualidades da cena e tecnologias críticas do corpo, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) media o debate.

Corpos Aleatórios ou Sobre a Aparente Aleatoriedade da Vida. Foto: Divulgação

Figura Humana, do grupo chileno-brasileiro Tercer Abstracto. Foto: Brendo Trolesi / Divulgação

A ciência também pulsa nos processos de criação do grupo chileno-brasileiro Tercer Abstracto, em Figura Humana, uma investigação do corpo humano como mobilizador da arquitetura social. A outra cena do sábado é Corpos Aleatórios ou Sobre a Aparente Aleatoriedade da Vida, do AntiKatártiKa Teatral (AKK), com o ator, diretor e autor teatral Nelson Baskerville, Cau Vianna e Raimo Benedetti. Eles usam a autoficção como expediente na orientação dos atores – Dani D’eon, Larissa Nunes, Michelle Bráz, Ronaldo Fernandes e o próprio Baskerville –, onde cada um narra em um minuto, cada fase de sua própria experiência.

No encerramento, no domingo, 18, tem o coletivo carioca Territórios Sensíveis. O trabalho Em Não se Pode Tocar, Está em Mim, Está em Nós investe na questão estético-política dos danos, impactos e sensações geradas pelas ruínas derivadas do extrativismo mineral – uma sobrevivência por entre as veias e rastros abertos do antropoceno.

Enquanto a artista capixaba Castiel Vitorino Brasileiro reflete sobre a relação do seu corpo com os minerais. Na cena Espaços Perecíveis de Liberdade, as luminosidades e as escuridões, em Boituva, são entendidas como presságios. A partir daí foram criados templos efêmeros, para se cultuar o acaso. O bate-papo conduzido pelo artista visual indígena paraense Emerson Uýra.

Não se pode tocar, mas está em mim, está em nós. Foto: Territórios Sensíveis

Novos cientistas

Ainda dentro da temática, o Itaú Cultural traz no Palco Virtual para Crianças a websérie infantil
inédita Olho Mágico, da Companhia Delas. A cada episódio, duas garotas que adoram
ciência descobrem, durante o isolamento, que a câmera do computador as conecta com essas
personagens que realizaram grandes feitos, como a antropóloga Niède Guidon, a ativista
feminista e bióloga Bertha Maria Júlia Lutz; a socióloga e primeira não médica a ser
reconhecida como psicanalista Virgínia Leone Bicudo e a bióloga e professora Marta Vannucci.
Os episódios entram no ar semanalmente, de 4 a 25 de julho. Eles ficam disponíveis até 29 de
agosto, no Youtube do Itaú Cultural www.youtube.com/user/itaucultural.

SERVIÇO: 
Cena Agora – Arte & Ciência: corpxs reagentes, existências em crise
Semana 1:
De 8 a 10 de julho (quinta-feira a sábado), às 20h
Dia 11 de julho (domingo), sempre às 19h
Semana 2:
De 15 a 17 de julho (quinta-feira a sábado), às 20h
Dia 18 de julho (domingo), sempre às 19h

LINK DIRETO PARA AS SINOPSES E RESERVA DE INGRESSOS.

PROGRAMAÇÃO

Semana 1
8 de julho, quinta-feira, às 20h

Mesa Como pensar arte e ciência em um mundo complexo?
Com Helena Nader (SP) e Rejane Cantoni (SP). Mediação de Jader Rosa (SP)
No livro Design para um Mundo Complexo, o professor Rafael Cardoso provoca os designers a saírem de seus lugares de criação solitário, mercadológico e material, para atuarem com trabalhos em rede e coletivo. A abertura desse programa parafraseia o título do livro para também pensar a virtualidade e a imaterialidade, em visada ambiental para que possamos refletir politicamente e buscar soluções para uma sociedade mais igualitária.

9 de julho, sexta-feira, às 20h

In Vitro
Com Flávia Pinheiro (PE). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Walmeri Ribeiro
A pesquisa de Flavia Pinheiro detecta fabulas guardadas nas formações de cavernas, nas relações entre as espécies e as cosmologias. Esses conhecimentos e as articulações de produção de verdades são explorados na performance da artista, que relaciona a invenção de mundos visíveis e invisíveis, de humanos e não-humanos e o que pode resultar desses deslocamentos.
Ficha técnica:
Criação e performance: Flávia Pinheiro
Colaboração: Tom Oliver
Imagens: Udo Akemman
Edição de imagens: Pedro Barros
Áudio: Diogo Tode
Figurino: Richard John Jones

Júlia Abs exibe Dez. Foto: Divulgação

Dez
Com Júlia Abs (SP). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Walmeri Ribeiro
Celebrar a vida no planeta Terra, a partir da dança e da coreografia. É uma mensagem de paz, de harmonia, de consideração por cada ser humano vivo agora, cada ser vivente, animado ou inanimado. A cena propõe a ideia de universo como uma estrutura comum a todas as culturas em constante diálogo.
Ficha técnica:
Coreografia e performance: Júlia Abs
Criação do vídeo: Júlia Abs e Renata Mosaner
Desenhos: Cecília Abs e Júlia Abs
Realização: JAPA (Júlia Abs Performing Arts)

10 de julho, sábado, às 20h

A Extinção é a Regra. A Sobrevivência é a Exceção
Com Núcleo Arte e Ciência no Palco (SP). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Thais Medeiros
A cena aponta que há ciência no teatro, desde sempre. Que os raciocínios científicos estão na dramaturgia e na encenação. E questiona onde se localiza o centro dessa dinâmica da evolução da arte cênica. A proposta fragmentária combina atores com criações visuais, histórias de descobertas com provocações anti-negacionistas, num passeio pelo tempo com humor e poesia.
Ficha técnica:
Atores: Adriana Dham, Carlos Palma e Oswaldo Mendes
Roteiro e direção: Coletivo
Produção audiovisual/edição: Adriana Carui
Trilha sonora especialmente composta por: André Martins
Ilustrações e maquetes: Carlos Palma

Sua Companhia
Com Ciênica (RJ). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Thais Medeiros
Mais de um ano de pandemia, o distanciamento social forçado. Em meio a enxurradas de informações, emoções, ciências, tecnologias e incertezas, quatro amigos resgatam seus vínculos, memórias e afetos.
Ficha técnica:
Argumento: Leonardo Moreira
Texto: Cássia Gomes e Leonardo Moreira
Música: Cássia Gomes e Leonardo Moreira
Personagens: Atila (Leonardo Moreira), Miguel (Nico Serrano), Jaqueline (Carol Haber)
e Natália (Cássia Gomes)
Direção: Leonardo Moreira
Edição de vídeo: Nico Serrano

Fábulas Antropofágicas para Dias Fascistasm, do Pigmalião Escultura que Mexe. Foto: Eduardo Felix

11 de julho, domingo, às 19h

Fábulas Antropofágicas para Dias Fascistas: A Raposa no Divã
Com Pigmalião (MG). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Ricardo Laganaro (SP)
Cruzamentos fabulescos do Brasil dos últimos tempos. A raposa não gosta de direitos humanos, a lebre bate panela, o corvo é o moralista da história. Livremente inspirado na obra de Márcia Tiburi e na subversão de fábulas de Esopo, o trabalho recria animais antropomórficos para refletir sobre os dias atuais.
Ficha técnica:
Direção: Eduardo Felix
Dramaturgia: Marina Viana, livremente inspirada na obra de Esopo e de Márcia Tiburi
Direção de fotografia: Daniel Ferreira
Elenco: Igor Godinho, Liz Schrickte e Eduardo Felix
Construção dos bonecos: Mauro de Carvalho e Eduardo Felix
Iluminação: Marina Arthuzzi
Cenografia: Eduardo Felix e Raphael Vianna
Construção de cenografia e adereços: Antônio Martins e Mariana Teixeira
Edição de imagens e som: Eduardo Felix

Memórias Enferrujadas
Com De Pernas Pro Ar (RS). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Ricardo Laganaro (SP)
Um velho inventor vive das ilusões e lembranças provocadas por suas próprias criações! É como se tivesse construído pistas para deixar vivas, em sua mente, as memórias de sua vida. Trata-se de um teatro de máquinas, um teatro de animação, que faz parte da pesquisa sobre a dramaturgia expandida das máquinas de cena do espetáculo A Última Invenção, um desdobramento de suas próprias criações.
Ficha técnica:
Dramaturgo e diretor geral: Luciano Wieser
Ator, criador, construtor: Luciano Wieser
Produção, figurinos, maquiagem, dramaturgia e captação de Imagens: Raquel Durigon
Direção de audiovisual, captação e edição de vídeo, design gráfico, dramaturgia e ator
animador das tecnologias digitais e robôtica: Tayhú Durigon Wieser
Audiovisual e design gráfico: Isadora Fantini Rigo
Música original: Jackson Zambelli e Sérgio Olivé
Trilha Sonora: Tayhú Wieser (Epidemic Sound)

Semana 2

15 de julho, quinta-feira, às 20h

Mesa Experiências artísticas, obras científicas – um debate sobre a fricção entre arte
e ciência
Com Kananda Eller (BA), Letícia Guimarães (RJ) e Marcus Vale (CE). Mediação de
Leonardo Moreira (RJ)

16 de julho, sexta-feira, às 20h

O futuro não é depois: uma performance palestrativa sobre Cazuza e Herbert Daniel
Com Fabiano Dadado de Freitas (RJ) e Ronaldo Serruya (SP). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Dodi Leal (BA)
Na marca dos 40 anos do início da epidemia de HIV-AIDS, os artistas bixas Fabiano Dadado de Freitas e Ronaldo Serruya promoveram o encontro de suas pesquisas sobre os corpos dissidentes com as reflexões a partir da chegada do vírus que mudou a história. Outra epidemia… juntos Freitas e Serruya acessam alguma ancestralidade positiva através do pensamento-ação de Cazuza e Herbert Daniel. Os artistas procuram realizar um chamamento que parte do passado, mas aponta para o futuro, numa ideia espiralar sobre o tempo.
Ficha técnica:
Concepção, pesquisa e atuação: Fabiano Dadado de Freitas e Ronaldo Serruya

Das Águas que Atravesso: Um Diário de Vida que Ancoro
Com Renata Meiga (SP) e Jhoao Junnior (RN/SP). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Dodi Leal (BA)
Diário fílmico retrata a experiência de doulagem da médica Renata Meiga junto aos seus pacientes. O amparo na vida enquanto a morte não chega. Há essência nessa travessia que é ancorada por uma doula desse momento da vida. No trabalho, relatos e depoimentos que foram escritos ao longo da prática com diversos pacientes emolduram as imagens que fabulam a presença dos mortos.
Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Jhoao Junnior
Com: Renata Meiga
Montagem, Colorismo e Som: Milena Medeiros
Cinegrafistas: Alicia Rovath e Milena Medeiros
Participação: Amir Charruf
Realização: O teatro da Mente e Renata Meiga

17 de julho, sábado, às 20h

Figura Humana
Com Tercer Abstracto (Brasil/Chile). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Cau Vianna (SP)
Pesquisa e criação a partir do manifesto Homem e Figura Artística (1925), de Oskar Schlemmer, que apresenta os princípios metodológicos da prática cênica da oficina de Teatro da Bauhaus. O projeto elabora uma releitura do corpo humano como mobilizador da arquitetura social, a partir do contexto político destes tempos.
Ficha técnica:
Conceito: Tercer Abstracto
Direção: David Atencio (CH)
Produção: Jota Rafaelli (BR)
Voz: Constanza Espinoza (CH), David Atencio (CH) e Mateus Fávero (BR)
Sonoplastia: Pablo Serey (CH)
Performers: Felipe Rocha (BR), Isabel Monteiro (BR) e Mateus Fávero (BR)
Audiovisual: Julio Lobos (CH) e Matheus Brant (BR)
Fotografia: Brendo Trolesi (BR)

Corpos Aleatórios ou Sobre a aparente aleatoriedade da vida
De AntiKatártiKa Teatral (AKK), com Cau Vianna, Nelson Baskeville e Raimo Benedetti. Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Cau Vianna (SP)
Para explicitar o caráter de aleatoriedade da construção narrativa, o trabalho explora estudos de mecanismos e estruturas matemáticas. O experimento junta histórias de cinco artistas de características e vivências bem diferentes entre si. Cada um narra suas experiências divididas em quatro partes: Infância – CABEÇA, Adolescência – TRONCO, Vida Adulta – CINTURA e A vida em 1minuto – PERNAS. Com as ferramentas da autoficção, cada ator narra, em 1 (um) minuto, cada fase de sua própria experiência.
Ficha técnica:
Direção geral: Nelson Baskerville
Elenco: Dani D’eon, Larissa Nunes, Michelle Bráz, Nelson Baskerville e Ronaldo
Fernandes
Estudo de mecanismos e estruturas matemáticas e provocação: Carlos Vianna
Direção e Produção dos Videos: Raimo Benedetti
Música para Dani D’eon: Rodolfo Shwenger
Realização: AntiKatártiKa Teatral (AKK)
Classificação indicativa: 14 anos

18 de julho, domingo, às 19h

Não se Pode Tocar, Está em Mim, Está em Nós
Com Territórios Sensíveis (RJ). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Emerson Uýra (PA)
Criação em processo realizada pelo projeto Territórios Sensíveis, a cena traz como questão estético-política central os danos, impactos e sensações geradas pelas ruínas criadas pelo extrativismo mineral – um (sobre)viver por entre as veias e rastros abertos do antropoceno. Nesta proposição, o projeto se lança ao campo da memória corporificada, na construção poética de dizeres outros, juntamente e para além de nós.
Ficha Técnica:
Criação: Walmeri Ribeiro, Ana Emerich, Sofia Mussolin e Eloisa Brantes
Performance: Walmeri Ribeiro
Composição sonora: Ana Emerich
Direção de cena e dramaturgia: Eloisa Brantes
Imagens: Sofia Mussolin e Walmeri Ribeiro
Montagem e finalização: Sofia Mussolin
Realização: Territórios Sensíveis

Espaços Perecíveis de Liberdade
Com Castiel Vitorino Brasileiro (ES). Após a apresentação, acontece um bate-papo com o elenco. Mediação de Emerson Uýra (PA)
Em Boituva, as luminosidades e as escuridões são presságios. Então, foram criados
alguns templos efêmeros, para se cultuar o acaso.
Ficha técnica:
Templos, direção e montagem: Castiel Vitorini Brasileiro
Fotografia: Castiel Vitorino Brasileiro e Roger Ghil
Produção, finalização: Roger Ghil
Indumentária: Rainha F
Agradecimento: Família Alves Avila

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“O Brasil precisa prestar contas com seu passado,
enfrentar seus mortos para desenterrar o futuro”
Entrevista || Márcio Marciano

Desertores, peça de 2019, do Coletivo Alfenim de Teatro, com direção de Márcio Marciano, que deve voltar aos palcos após a pandemia. Foto: Alessandro Potter / Divulgação

O Deus da Fortuna. Foto: Rafael Saes

Helenas. Foto Tarciana Gomes

Memórias de um cão. Foto: Karen Montija

Pensar, tocar, incendiar o mundo através da arte. É um jeito de existir. De expandir horizontes. De buscar sentidos. O paulistano Márcio Marciano, encenador e dramaturgo do Coletivo de Teatro Alfenim, de João Pessoa, na Paraíba, está implicado contra a opressão. “O teatro surgiu em minha vida como um apelo e uma arma”, conta ele nesta longa e importante entrevista, que é um dos frutos de uma colaboração do Satisfeita, Yolanda? para o Itaú Cultural no projeto Cena Agora, edição Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas poéticas. A iniciativa incluiu mediação crítica, a escrita de quatro colunas para o site do Itaú Cultural e uma série de entrevistas publicadas no Satisfeita, Yolanda?.

Com Pequeno Inventário das Afinidades Nordestinas, um experimento documental e lírico, em linguagem híbrida entre o teatro e o cinema, o Alfenim participou do programa Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas poéticas. A ação do Palco Virtual do Itaú Cultural reuniu trabalhos de 15 minutos de 28 grupos teatrais do Nordeste, do Norte e do Sudeste, que flexionaram sobre as construções estereotipadas ou colonizadas das identidades nordestinas, tendo como disparador a capa da revista Veja São Paulo, que publicou uma edição especial elegendo São Paulo como a capital do Nordeste.

A cena criada e dirigida por Márcio Marciano e Murilo Franco investiu na experiência de nordestinidade conectada a uma memória mais afetiva e com dobraduras sobre a atualidade de espaço e tempo no contexto da pandemia.

O grupo paraibano – formado por paulistanos, paraibanos, cariocas, mineiros, goianos e cearenses – buscou na leitura poética e crítica desse Pequeno Inventário alargar o arrolamento de ideias e sentidos para a questão. Participaram do quadro que explorou as contradições e afetos dessa composição múltipla do Nordeste as/os artistas Zezita Matos, Adriano Cabral, Edson Albuquerque, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Murilo Franco, Paula Coelho, Verônica Cavalcanti, Victor Dessô e Vítor Blam.

O diretor do Alfenim em um momento de ensaio. Foto: Bruno Vinelli / Divulgação

Marciano é um dos fundadores da Companhia do Latão, de São Paulo, onde atuou por 10 anos, antes de se mudar para a capital paraibana. É um pensador, dramaturgo e encenador “politicamente posicionado no contexto da luta de classes”. Para ele, fazer teatro também é um enfrentamento constante e incansável contra o capitalismo seus efeitos. Suas argutas reflexões amplificam as percepções sobre a política e a arte, abraçam o sentimento de estar junto, questionam de que teatro estamos falando, cobram as responsabilidades constitucionais do poder público de garantir apoio à arte e da cultura que vem sendo negadas, e ressaltam as necessárias e urgentes políticas de reparação deste país tão injusto.

O projeto “poético-político-pedagógico”, um termo brechtiano que distingue o percurso do Coletivo Alfenim, está refletido nos espetáculos do grupo. Num trajeto de 14 anos e na convivência com quatro gerações de artistas, o Alfenim montou, entre outros, Quebra-Quilos (2007), sobre uma revolta popular situada no sertão da Paraíba no final do século XIX; Milagre Brasileiro (2010), que investiga a figura do desaparecido político durante a ditadura militar, O Deus da Fortuna (2011), sobre o processo de financeirização do capital; o solo Brevidades (2013), com Zezita Matos; Memórias de um cão (2015) e Helenas (2018). Com o edital do RUMOS Itaú Cultural, a trupe deu início à pesquisa de Complexo Fatzer (2018), de Brecht, que derivou na encenação Desertores (2019), que volta à cena presencial após a pandemia.

A tarefa coletiva mais urgente para artistas e cidadãos, na visão de Márcio Marciano, “é confrontar e desbaratar o projeto miliciano de poder que está se imiscuindo em todas as instituições democráticas do país”. Essa luta é incontornável.

ENTREVISTA || MÁRCIO MARCIANO

Márcio Marciano. Foto: Lenise Pinheiro / Divulgação

Como o teatro entrou na sua vida?

Através de campanhas de popularização do teatro. Quando adolescente, na virada da década de 1970 para a década de 1980, eu era metalúrgico e morava num bairro operário de São Paulo, a Mooca. Lá existe um teatro da prefeitura, o Arthur Azevedo, que recebia espetáculos que haviam feito temporadas de sucesso e eram apresentados a preços populares. Tive a chance de ver montagens históricas como Na carreira do divino, O homem elefante, Pegue e não pague, Muro de arrimo, entre outros.

E ficou por quê?

Até então, nunca havia entrado num teatro. Foi uma descoberta saber que era possível juntar num mesmo espaço e num mesmo tempo tanta gente interessada em pensar o mundo através da Arte. Vi no Teatro uma síntese viva de várias formas de expressão, com a vantagem de que tudo acontecia ao alcance das mãos, a poesia materializada em ato, mentes e corpos em convergência. Para quem já pensava que o mundo andava fora dos eixos e que era preciso denunciar todas as formas de opressão, o teatro surgiu em minha vida como um apelo e uma arma. Mas somente mais tarde, depois de cursar jornalismo, me pus o desafio de estudar e fazer teatro. Passei um tempo no curso de Artes Cênicas da ECA (USP), mas o teatro me convocou e fui trabalhar como cenotécnico e operador de luz no Teatro do Ornitorrinco, grupo que eu admirava por ter me posto em contato com a obra de Brecht. Pouco tempo depois, participei da fundação da Companhia do Latão (SP), na qual permaneci por 10 anos.

Na sua trajetória, quais os episódios que considera mais relevantes?

Penso que para a grande maioria de artistas engajados num teatro não hegemônico, politicamente posicionado no contexto da luta de classes, toda estreia é um marco relevante na luta, mais ainda sua permanência em repertório. No meu caso particular, destaco os primeiros experimentos da Companhia do Latão, quando ocupamos por quatro anos o histórico Teatro de Arena, em São Paulo, assim como as várias apresentações do grupo em assentamentos do MST Brasil afora, e nossa participação no Fórum Mundial Social, em Porto Alegre (2003). Já no Coletivo de Teatro Alfenim, ressalto nossa participação no Festival Latino-americano de Teatro de Grupo de São Paulo, em 2009, a inauguração de nossa sede em João Pessoa, a Casa Amarela, com a estreia de Memórias de um cão, em 2015, e o Festival Internacional da Utopia, em Maricá (RJ), em 2016.

Poderia contar um pouco da trajetória do grupo?

O Coletivo de Teatro Alfenim surgiu em 2007, quando eu e Paula Coelho, minha companheira, nos mudamos de São Paulo para João Pessoa. Ela acabara de ingressar como professora no Departamento de Teatro da UFPB. Minha intenção era dar continuidade ao projeto de desenvolvimento de uma dramaturgia autoral a partir de temas brasileiros, iniciada na Companhia do Latão. O grupo foi formado por atrizes e atores convidados e estudantes de teatro que conheci em oficinas que ministrei na cidade. Esse encontro de gerações é uma das marcas do Coletivo. Da fundação participaram atrizes de carreira consolidada como Zezita Matos, Verônica Cavalcanti e Soia Lira, que permanecem atuando no grupo, juntamente com jovens atores e atrizes que conhecemos em oficinas oferecidas regularmente nesses 14 anos de atividade.

O Coletivo Alfenim estreou oficialmente no Festival Recife de Teatro Nacional, em 2007, com a leitura encenada de Quebra-Quilos, seu primeiro espetáculo. Em 2009, o grupo participou da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo de São Paulo. A peça trata de uma revolta popular que ocorreu no sertão da Paraíba no final do século XIX contra a implantação do sistema métrico decimal. A segunda montagem, Milagre Brasileiro, de 2011, aborda o período mais sombrio da Ditadura Militar, após a decretação do AI-5, tendo seu foco na figura do “desaparecido político”. O espetáculo foi indicado ao Prêmio Shell na categoria Música. Em 2012, o Coletivo montou O Deus da Fortuna, uma parábola em chave cômica sobre o processo de financeirização do capital. A peça se passa numa China mítica, pré-capitalista. O espetáculo circulou pelo país com o projeto SESC- Palco Giratório, em 2014. Também em 2012 estreou Brevidades, um solo de Zezita Matos, que narra a trajetória de uma atriz acometida pelo Mal de Alzheimer. Recolhida a uma clínica, ela relembra em meio aos constantes lapsos de memória, os papéis marcantes de sua carreira.

Em 2013, o Alfenim foi contemplado pelo Programa de Patrocínio da Petrobras com o projeto Figurações Brasileiras. Além de circular com seu repertório por várias capitais do país, o grupo montou em 2015 Memórias de um cão. Em 2017, o espetáculo foi selecionado pelo programa de circulação da BR Distribuidora. Em 2018, o Coletivo estreou Helenas, que permanece em repertório. A peça foi escrita a partir da obra Minha vida de menina, de Helena Morley, que viveu em Diamantina, no final do século XIX. Retrata o processo de descoberta e de formação da personalidade por que passa a autora ao entrar na adolescência. Apesar da distância de mais de um século, as observações agudas de Helena revelam as contradições da sociabilidade brasileira dos dias atuais.

Em 2018, o Alfenim foi contemplado pelo RUMOS Itaú Cultural para iniciar o processo de estudos do Complexo Fatzer, a monumental obra inacabada de Bertolt Brecht. Esse estudo resultou na montagem do espetáculo Desertores, que estreou em 2019 na Casa Amarela, sede do grupo em João Pessoa, e permanece em cartaz à espera de retomar as apresentações presenciais após a pandemia. Ao longo de 14 anos de atividades ininterruptas, o Alfenim participou dos principais Festivais e Mostras de Teatro do país, além de ocupações em espaços da Funarte em São Paulo e Rio de Janeiro e dos Espaços da Caixa Cultural de Brasília, Rio e Curitiba. Em 2018, lançou seu primeiro CD Canções de Cena, com composições musicais de seus três primeiros espetáculos. Atualmente, prepara o lançamento de um novo CD com as canções de cena de Desertores.

Pode soar meio anacrônico,
mas temos a convicção de que
o Teatro deve ser uma arte pública,
coletiva e popular.

 

A força de nosso trabalho
vem justamente dessa formação
que reúne quatro gerações de artistas.

 

Uma marca do Alfenim
é a pluralidade que se reflete
no modo colaborativo de produção da cena

Coletivo Alfenim de Teatro. Foto: Alessandro_Potter

Como sobreviver enquanto coletivo?

Nomear o Alfenim como “coletivo” foi uma decisão programática, num momento em que a tendência era a de esfacelamento dos grupos em direção a produções solo, muito em função da falta de alternativas para a manutenção de projetos de pesquisa continuada. Ainda hoje, o termo incômodo é quase uma profissão de fé na busca de modos coletivos de produção da cena, contra a prevalência da especialização e da divisão social do trabalho em moldes capitalistas. Pode soar meio anacrônico, mas temos a convicção de que o Teatro deve ser uma arte pública, coletiva e popular. Essa escolha acarreta um custo, sobretudo no que se refere à circulação do grupo, uma vez que se torna cada vez mais inviável viajar com uma equipe de 14 ou 15 pessoas. Contudo, apesar das dificuldades, não temos dúvida de que a força de nosso trabalho vem justamente dessa formação que reúne quatro gerações de artistas.

Uma das peculiaridades do Alfenim, para o bem e para o mal, é que a grande maioria dos integrantes tem uma atividade profissional paralela. São professores universitários, professores de cursos técnicos de teatro, professores de artes, enfim, atividades complementares ao fazer teatral. Se, por um lado, essa condição limita o período de dedicação às atividades do grupo, por outro, proporciona uma alternativa de sobrevivência nos momentos de ausência de cobertura financeira, seja através da venda de espetáculos, seja com base nas verbas de editais.

Porém, o que mantém a unidade do Coletivo (afora os fundadores, a maioria de seus integrantes está no grupo há mais de 10 anos) é a apropriação de seu projeto “poético-político-pedagógico”, tomando emprestado um termo de Brecht. Com o tempo, estamos aprendendo a assimilar e pôr em prática os desejos de pesquisa e experimentação de cada artista em particular. Essa pluralidade se reflete no modo colaborativo de produção da cena, outra marca do Alfenim. Do ponto de vista material, o grupo deve sua existência às políticas públicas de fomento à pesquisa em artes. A fundação e a trajetória do Alfenim coincidem com o período mais efetivo dessas políticas, tanto no que se refere a editais em nível municipal, estadual e regional, como aos editais federais de manutenção e circulação de grupos. Apesar da excelência técnica e artística reconhecidas que o Alfenim vem desenvolvendo ao longo de 14 anos de atividades continuadas, ainda não conseguimos nenhum tipo de patrocínio ou apoio da iniciativa privada, com exceção do Itaú Cultural.

O que é necessário para fazer arte no Brasil?

No Brasil de hoje, é necessário, antes de tudo, confrontar e desbaratar o projeto miliciano de poder que está se imiscuindo em todas as instituições democráticas do país. Essa é a tarefa coletiva mais urgente. Contudo, dialeticamente, sabemos que a arte se alimenta da matéria negativa, de tudo o que é adverso. Sendo assim, apesar dos atuais “tempos de fezes”, como diz Drummond, a arte se fortalece na luta. Porém, a arte, como toda atividade humana que requer esforço e trabalho, precisa de condições minimamente favoráveis para se desenvolver em sua plenitude. Num mundo pautado pela forma mercadoria, essas condições não podem ficar dependentes das “leis do mercado”, como prega a liturgia neoliberal. Está previsto na Constituição do Brasil, que a arte e a cultura são direitos fundamentais do povo brasileiro, portanto, cabe ao poder público criar mecanismos de apoio e de desenvolvimento da arte e da cultura em todos os níveis de expressão, com ênfase para políticas de reparação dedicadas exclusivamente aos segmentos que historicamente vêm sofrendo as mais bárbaras formas de alijamento e discriminação. Nesse sentido, é necessário que a arte no Brasil de hoje se engaje na luta por transformações estruturais com vista à construção de um mundo mais igualitário e habitável por todas e todos.

O que você pode nos dizer do seu xará, Marcio Meirelles, do Teatro dos Novos, da Bahia?

Evoé, Marcio Meirelles! Tive o prazer de conhecer Marcio, pessoalmente, em 2001, se a memória não me trai, quando a Companhia do Latão esteve no Teatro Vila Velha apresentando A Comédia do Trabalho. Naquela ocasião, pudemos conversar sobre teatro e, principalmente sobre Brecht e a vinda de Peter Palitzsch, seu assistente no Berliner Ensemble. O diretor alemão viria ao Brasil para dar uma oficina à Companhia do Latão, em São Paulo, e para acompanhar a montagem de Material Fatzer, por Marcio, com o elenco do Teatro Vila Velha, em Salvador, a convite do Instituto Goethe. Os descaminhos do teatro não me levaram a assistir à montagem, mas em 2002, quando o texto com tradução de Christine Röhrig e colaboração de Marcio foi publicado, pude entender seu entusiasmo ao falar da obra inacabada de Brecht. Quase 20 anos após esse encontro com Fatzer, através de Marcio Meirelles, pude revisitar a obra de Brecht, agora com a tradução na íntegra de Pedro Mantovani, o que resultou na montagem de Desertores, que o Alfenim estreou em 2019, na Casa Amarela, em João Pessoa.

Quebra-Quilos. Foto: Rafael Passos

Quais as motivações para erguer um espetáculo?

Um espetáculo acaba por ser sempre a síntese de uma experiência em processo, um feixe de desejos e urgências, um modo de confrontação da realidade, uma imposição do engajamento na luta de classes e o testemunho de nossa capacidade de imaginar um mundo mais habitável. O que motiva um espetáculo do Alfenim é a necessidade de prestarmos, enquanto artistas e sujeitos históricos, um depoimento crítico, lúcido e poético em face das contradições de nossa vida em sociedade. Ainda que, às vezes, sob pena de falar para um número restrito de espectadores.

A qualidade primordial do teatro é o encontro presencial, sua capacidade de gerar um acontecimento social irreproduzível. A virtualidade desloca esse fenômeno para uma nova modalidade de experiência.

Vivemos um momento em que o Teatro foi obrigado a se adaptar ao mundo virtual. No início houve uma discussão se isso seria ou não teatro. Essa questão foi superada?

Penso que a questão está posta e ainda levará um bom tempo para ser superada. Não considero que o teatro tenha sido obrigado a se adaptar ao mundo virtual. Quem foi obrigado fomos nós, os fazedores de teatro, os trabalhadores que se viram de repente instados a utilizar novas ferramentas. E o resultado desse embate ainda está em processo de desdobramento e consolidação. A qualidade primordial do teatro é o encontro presencial, sua capacidade de gerar um acontecimento social irreproduzível. A virtualidade desloca esse fenômeno para uma nova modalidade de experiência. Não há nisso um juízo de valor, mas a constatação de um fato. A virtualidade suprime do teatro seu poder de celebração e engajamento coletivo, o que a meu ver reduz seu potencial de mobilização social. Num momento histórico de individuação radical, de limitação de nossas faculdades gregárias, a impossibilidade do encontro presencial nos confina ao simulacro da experiência social, o que num certo sentido nos desumaniza.

O Deus da Fortuna, Foto: Rafael Saes

O teatro que é transmitido pelas redes derrubou barreiras geográficas, permitiu que pessoas de várias partes do mundo pudessem compartilhar o trabalho virtual. Como você percebe essa experiência, dos artistas e da recepção?

De fato, o teatro, enquanto capital simbólico, ganhou uma volatilidade semelhante ao capital financeiro. Parece não haver barreiras para sua circulação. Contudo, essa modalidade de acesso virtual, está longe da experiência de fruição que o teatro presencial promove. Para usar a distinção marxiana clássica entre valor de uso e valor de troca, me parece que nessa virtualização o teatro sai perdendo enquanto experiência de convívio social, apesar de preservar algo de sua natureza estética. Tanto para os artistas quanto para o público, me parece que há uma exageração falsificadora de sua capacidade de circulação em detrimento de sua potência de transformação. Se pensarmos o teatro somente enquanto linguagem, acredito que esse novo suporte acabará por proporcionar o surgimento de formas híbridas e inovadoras, com alta complexidade estética, baseadas em avanços tecnológicos. Mas algo se perde nessa privatização do fenômeno artístico, que, a meu ver, só se realiza enquanto intercâmbio social irreproduzível. Está acontecendo com o teatro hoje algo que de modo semelhante já acontece com as formas de reprodução da música. Uma coisa é ouvir uma ópera ou um show de rock num teatro ou num estádio, outra muito diferente, é ouvir essa mesma música na sala de sua casa, ainda que a qualidade do som seja impecável.

Memórias de um cão. Foto: Karen Montija

Qual é o espaço social, cultural e político de atuação de um grupo de teatro?

Desde sua mais remota origem, é da natureza do teatro ocupar um espaço social, cultural e político. Nesse sentido, um grupo de teatro sempre pode se tornar um elo importante na constituição de nossa sociabilidade. Onde houver vida humana, haverá pessoas se unindo em torno do desafio de figurar sua própria experiência e entendimento do mundo através do teatro. Naturalmente, ao longo da história, o teatro teve momentos de maior ou menor relevância social, cultural ou política. Às vezes, pode predominar um aspecto sobre os demais, e o teatro atender a demandas específicas, contudo, o social, o cultural e o político são elementos que não se dissociam. Ressalte-se que o teatro tem sua capacidade de intervenção potencializada quando um grupo teatral assume programaticamente, para si mesmo e para seu público, a tarefa de colocar sua arte a serviço da transformação social. Essa escolha implica o compromisso de ultrapassar a fronteira da investigação puramente estética em busca de formas mais efetivas de comunicação e mobilização social. Esse me parece ser o grande desafio de um grupo de teatro: alcançar o mais alto padrão técnico sem descuidar do caráter pedagógico de sua arte, no sentido de contribuir no plano simbólico para uma verdadeira ação política com vista à transformação social.

Quais motores de ordem artística, profissional, ideológica e política determinam ou influenciam o trajeto de um grupo teatral?

Num país como o Brasil, cuja tradição teatral é feita de descontinuidades, a primeira impressão é que todo grupo de teatro que surge tem alguma coisa de pioneiro ou inaugural. O diálogo produtivo com a tradição fica relegado ao plano da curiosidade histórica ou, o que é pior, ao plano das peculiaridades e exotismos. Talvez isso seja um reflexo tardio do gosto modernista pela inovação ou certa aversão por tudo o que represente o passado. E não podemos esquecer que, do ponto de vista da forma mercadoria, o apelo à novidade é a marca do sucesso. Nesse contexto, me parece que a despeito do esforço de um grupo em desenvolver um projeto artístico consequente e criar uma identidade própria, o que determina seu trajeto são fatores fortuitos, muito mais identificados com o apelo “mercadológico” de suas produções. Não raro, espetáculos com novidades formais, ou que abordam temas polêmicos que estão na ordem do dia fazem sucesso meteórico e adquirem chancela de qualidade e legitimidade, desde que não afrontem o “bom-gostismo” burguês. E isso influencia ou determina a trajetória desses grupos. Não há mal nenhum em fazer sucesso, ao contrário, a questão é quando a energia produtiva do grupo acaba se adequando aos apelos da circulação. Quando o grupo passa a fazer concessões à forma mercadoria.

Brevidades, com Zezita Matos. Foto Bruno Vinelli / Divulgação

Marciano, você havia falado que “é preciso reconquistar para a arte e, através dela própria, seu valor de uso, seu caráter formativo e pedagógico”. Como isso pode ser feito na prática?

A arte sempre se valeu do recurso da metalinguagem para refletir sobre sua própria razão de existir. Trata-se não apenas de um poderoso instrumento de análise das contradições do processo de composição da obra, como também de um convite à recepção crítica do que é apresentado ao público. Autores modernos e contemporâneos vêm desenvolvendo formas cada vez mais incisivas de utilização desse mecanismo de modo a revelar não apenas a estrutura interna que sustenta a obra de arte, como também as intenções que presidem sua composição. Essa prática, apesar do risco de resultar em puro exibicionismo narcisista, o que ocorre com frequência, pode ser um importante meio de aprendizagem da ação política. Nos “comentários” que acompanham o Complexo Fatzer, obra monumental de Brecht sobre o travamento da revolução e a ascensão do fascismo, o dramaturgo alemão observa que é preciso almejar o “mais alto padrão técnico”. Ele se refere à busca de uma cena dialética capaz de propiciar o acesso à grande pedagogia, ou seja, ao aprendizado da ação política. Para seus detratores isso equivale a proselitismo maniqueísta, quando, na verdade, Brecht propõe a utilização de procedimentos dramatúrgicos que permitam aos artistas envolvidos no processo de montagem refletir acerca de seu posicionamento de classe na cena narrada. Esse objetivo vai além do desvelamento da estrutura interna da cena, das intenções que a presidem ou de suas limitações técnicas. O que esse mecanismo metalinguístico proporciona ultrapassa a verificação da atuação do artista na cena em direção à atuação do artista enquanto sujeito político no contexto da luta de classes. É nessa perspectiva que a arte pode reconquistar seu valor de uso, como elemento constitutivo de uma “Pedagogia da Autonomia”, para usar os termos de Paulo Freire e, assim, recuperar seu caráter formativo.

O teatro tem, ou deveria ter, um papel de conscientização social?

Certamente tem e, mais do que nunca, deve ter na atual conjuntura social e política brasileira. Mas não basta a “consciência de classe” se essa consciência se fetichiza e se limita a seu valor de troca, quando não ultrapassa o circuito frequentado pela classe média bem pensante. Nós, os fazedores de teatro, precisamos encarar o desafio de levar nossa arte para a periferia do sistema, levar o teatro ao encontro daqueles que detêm o que Eric Hobsbawm denomina como o “conhecimento de classe”. Ou seja, é preciso pensar um projeto verdadeiramente amplo de circulação das obras teatrais para que estas atinjam as populações que estão alijadas do processo usual de circulação de bens culturais. Como diz Lênin, o movimento vem da margem, lá se encontra a vanguarda de toda verdadeira transformação.

Tentar ganhar a vida dignamente
fazendo Teatro no Brasil
é um projeto de alto risco.

 

Há um tipo de Teatro que sobe no trapézio sem rede de proteção. Para os artistas dessa estirpe, não há tempo de pensar no risco, já que o salto é a única coisa que importa.

O que é o risco no teatro? O que é um teatro sem risco?

Toda empreitada teatral comporta um certo grau de risco. Mas há espécies diferentes de risco no teatro. Antes de tudo, é preciso distinguir o tipo de teatro a que nos referimos. Se for ao teatro voltado para o entretenimento, o risco maior está no fracasso da bilheteria, ou na ausência da circulação patrocinada, quando seu valor de troca não se realiza conforme o planejado. Em todo o caso, não é um risco de ordem artística, mas empresarial. Há no Brasil inúmeros profissionais de altíssima competência tentando exercer bravamente seu ofício em circunstâncias pouco favoráveis. Tentar ganhar a vida dignamente fazendo Teatro no Brasil é um projeto de alto risco. Para se viabilizarem financeiramente, essas produções optam por caminhos já trilhados, dentro de uma margem maior de segurança, de modo a conquistar a adesão das plateias. Não tratam de temas polêmicos e não se aventuram em experimentalismos formais. Isso não as torna a priori atrações vulgares ou “caça-níqueis”, resultando muitas vezes em produtos de alta competência técnica. Porém, em que pese a dedicação e o profissionalismo dos artistas envolvidos, em grande parte acabam por ser montagens politicamente equivocadas, quando não francamente reacionárias. Já as empreitadas teatrais que priorizam a experimentação artística, quando superam o risco de sucumbir antes da estreia, têm que se haver com outra espécie de risco, o risco da incompreensão. Não falo da incompreensão do público, já que esse obstáculo pode ser artisticamente uma conquista e não um fracasso. Muitas vezes, essa incompreensão é na verdade puro preconceito, e é necessário que o teatro confronte toda espécie de atraso. Mas me refiro à incompreensão dos próprios artistas quanto ao que seja de fato uma experimentação artística genuína e não uma reprodução acrítica de um modelo em evidência. Muitas vezes, essas produções têm a convicção de que estão alargando os limites da arte, quando na verdade estão apenas “perfumando a rosa”, como diz João Cabral de Melo Neto, já que esse refinamento estético não vislumbra nenhuma transformação social. Mas há um tipo de teatro que sobe no trapézio sem rede de proteção. Para os artistas dessa estirpe, não há tempo de pensar no risco, já que o salto é a única coisa que importa.

Nossos representantes são horríveis, cafonas, ignorantes, um atraso de vida. Como a arte pode mudar esse quadro de homens brancos heteronormativos, preconceituosos, no comando?

Estamos vivendo um momento de retrocesso sem tamanho, os abutres do atraso aproveitaram uma oportunidade histórica de abrir a caixa de Pandora da miséria nacional, mas eles se esqueceram de vasculhar o fundo e não perceberam que lá restou a esperança. Quando vejo as muitas candidaturas coletivas que surgiram nas últimas eleições, penso que o modelo caduco da representação política eleitoral pode se renovar com iniciativas dessa natureza. É muito pouco, mas é um indício de que é possível fazer algo de fora para dentro, que a sociedade possa ela própria pautar reformas que o parlamento jamais faria sem pressão popular. Não à toa, essas candidaturas têm uma relação umbilical com algum movimento social ou artístico. Essa aproximação entre artistas e movimentos sociais pode se tornar relevante no enfrentamento do atraso.

O Brasil será sempre o país do futuro?

A noção de país, ou de Estado-Nação está em crise. Portanto, pensar o Brasil nessa perspectiva necessariamente implica pensar a crise global, sendo essa crise associada à crise maior do sistema capitalista. Desde sua origem, o território a que chamamos Brasil vem exercendo funções específicas no sistema de reprodução global do capital. Nesse sentido, o Brasil será sempre o futuro do capitalismo, enquanto esse sistema não for destruído.

É preciso destacar o caráter democrático,
popular e de inclusão do período Lula/Dilma,
apesar de suas contradições estruturais.

 

A parcela endinheirada aproveitou a crise
da representação política para eleger
a canalha miliciana e terraplanista como
quem vende um produto no comércio on-line

De quem é a culpa desse retrocesso que vivemos?

“Culpa” é um termo cristão que não alcança a complexidade da situação atual. Em primeiro lugar, não podemos perder de vista que o mundo globalizado sofre as consequências de uma severa crise na reprodução do capital, sendo que as novas estratégias de representação política buscam se adequar a essa conjuntura. A volatilidade do capital, bem como a volatilidade das interações sociais, via internet, afetam a prática política como a conhecemos, uma vez que as relações materiais de produção parecem pulverizadas e desimportantes. Nesse contexto, o retrocesso político e suas derivações comportamentais retrógradas e fascistas vêm ganhando espaço mundo afora. No Brasil, a situação parece ainda mais grave. A República surgiu de um golpe militar. De lá até hoje, passando pelos frequentes períodos ditatoriais, o país vem tentando construir o que não passa de um simulacro de democracia, cujas instituições estão a serviço de uma elite econômica boçal por definição. A crise da representação política que acontece mundo afora ganha aqui traços de cruel caricatura. Nos raros períodos de estabilidade democrática, o Brasil não deixou de avançar, ainda que timidamente, no que se refere às políticas de inclusão social. Nesse sentido, é preciso destacar o caráter democrático, popular e de inclusão do período Lula/Dilma, apesar de suas contradições estruturais. Os avanços inquestionáveis desse período, marcado pela inclusão das minorias, geraram o ressentimento ignorante de parcela expressiva da população. A parcela endinheirada, receosa de perder seu espaço de Poder, espertamente aproveitou a crise da representação política para eleger a canalha miliciana e terraplanista como quem vende um produto no comércio on-line. Fez isso de modo tão ágil que só nos restou a perplexidade melancólica de quem acreditava que a democracia estava consolidada.

Até que ponto nossa realidade é uma obra-prima da TV Globo?

A Globo pode ser considerada a face mais visível e brilhante de um monstro de muitos tentáculos. Ela tem uma capacidade incrível de se adaptar à conjuntura sem perder o verniz de civilidade. O projeto de poder atual não está de bem com a Globo, mas a Globo já demonstrou em outras ocasiões que os governos passam e ela fica. Para manter seu lugar de proeminência na produção do imaginário, a Globo tem investido maciçamente em outras plataformas virtuais. Ela sabe que está perdendo terreno para as rádios e TVs pentecostais e precisa reagir. Mas por trás dessa disputa pelo imaginário, todas essas emissoras se irmanam na preservação de seus privilégios no que toca ao marco regulador das comunicações no país. Pensar a democracia no Brasil implica necessariamente pensar a quebra desse monopólio.

O que o teatro pode provocar ainda hoje?

Hoje há uma tendência de positivação do termo “provocar”, mas provocar não é necessariamente uma virtude. O teatro tem incontáveis recursos de provocação que podem redundar em reacionarismo. Muito do teatro atual opera nesse nível de estímulo a respostas emocionais, reatualizando a velha e boa noção de “catarse”. Penso que o teatro tem o dever de provocar o pensamento crítico, mas não numa perspectiva iluminista, linear, mecanicista. O teatro precisa aguçar o sentido da contradição, desenvolver no público o gosto de pensar dialeticamente. Precisa encontrar formas de transformar a provocação em mobilização efetiva. Parafraseando Paulo Freire, o teatro não faz a Revolução, mas não há Revolução possível sem o Teatro.

Ficamos indignados com os gestos explícitos
de sordidez e frieza da milícia
que cada vez mais se apodera
das instâncias do poder

Vivemos momentos de ódio, intolerância… Como reverter esses sentimentos tão egoístas e covardes? Ódio se combate com ódio?

Num país como o Brasil, onde o passado escravocrata perdura até o presente, sentimentos como o ódio e a intolerância constituem nossa sociabilidade. Acontece que para a grande maioria de párias que compõe a sociedade brasileira, entre os quais me incluo, a impunidade que acoberta os atos pusilânimes parecia ser um privilégio dos endinheirados. Porém, a vitória eleitoral das elites mais retrógradas parece que deu a senha para que também os miseráveis se sentissem à vontade para praticar toda espécie de violência e covardia. Aos desavisados como nós, que tínhamos a precária ilusão de que vivíamos numa democracia consolidada, com instituições sólidas, e que caminhávamos com passos firmes rumo à civilização e ao processo irreversível de distribuição de direitos, resta o choque e a inação. Estamos perplexos diante da barbárie e incapacitados de uma reação organizada. Hoje, ficamos indignados com os gestos explícitos de sordidez e frieza da milícia que cada vez mais se apodera das instâncias do Poder. Nestes momentos em que parece não haver saída, tendo a pensar numa das leis da dialética, aquela que diz que a quantidade se torna qualidade. A História é cíclica, após um momento de regressão virá outro de superação. Em nosso espetáculo Desertores, há uma fala do coro que diz: “E o que fazer? Sentar à margem das cidades e ficar à espera do novo animal que surgirá para substituir o homem?” Esse novo animal não surgirá, nós mesmos é que teremos que encarar o problema de frente. Lênin dizia que a violência é a parteira da História. O Brasil precisa prestar contas com seu passado, enfrentar seus mortos para desenterrar o futuro. Esse enfrentamento do passado urge acontecer agora, sob pena de adiarmos o futuro indefinidamente.

Como não cair na cilada do maniqueísmo, na arte, no teatro, na vida?

Em momentos históricos de acirramento das contradições, temos a impressão de que se acabam as sutilezas, as nuances e ambiguidades, que tudo se divide em dois campos de luta cerrada. Porém, essa é uma visão reducionista e paralisante. É preciso pensar dialeticamente e agir, ainda que sem esperança. Por mais que as sutilezas sejam temporariamente deixadas de lado, o momento exige um posicionamento claro, sem temor de suas consequências. Brecht lamenta num poema dirigido “aos que virão” que “em tempos sombrios, falar de árvores chega a ser quase um crime, pois isso implica silenciar sobre tantas outras barbaridades”. Talvez nossa tarefa histórica seja não silenciar, ainda que nossos gritos encubram todas as nuances.

Daqui a 500 anos, haverá teatro? No exercício de esticar os sentidos para o futuro, como será?

O teatro pode ser privado de tudo, menos da capacidade intrínseca ao ser humano de fabular sua experiência. Enquanto houver seres humanos, e acredito firmemente que haverá daqui a 500 anos, sentiremos a necessidade vital de narrar nossa história uns aos outros. Quando se referia à vitória da Revolução e à chegada da “era científica”, Brecht dizia que talvez o Teatro como o conhecemos se tornasse desnecessário e se transmutasse em outra coisa a que poderíamos chamar “Taetro”. Talvez seja esse o nome que a humanidade dará à nossa arte daqui a 500 anos, mas certamente continuará como uma crônica de seu tempo.

Qual a pergunta urgente neste momento?

Tomo emprestadas as palavras de Brecht: “E o que fazer? Sentar à margem das cidades e ficar à espera do novo animal que surgirá para substituir o homem?”

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