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Soledad faz passagem relâmpago por São Paulo

 

Hilda Torres no espetáculo Soledad

Hilda Torres no espetáculo Soledad, a Vida é Fogo Sob os Nossos Pés. Foto: Rick de Eça / Divulgação

Dignidade e coragem são palavras preciosas para à militante política paraguaia Soledad Barrett Viedma (1945-1973). Ela teve uma passagem luminosa pelo planeta Terra. Percurso de luta. Foi assassinada à traição pela ditadura militar brasileira, por emboscada do pai da criança que ela carregava no ventre.

Muito da vida dessa mulher, mãe, guerrilheira estão no monólogo Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés. O espetáculo faz duas apresentações especiais, nestes 13 e 14 de fevereiro, como parte da Circulação Nacional – Etapa São Paulo, no Galpão do Folias, às 20h. Na quarta-feira (13/02) , a militante Damaris Oliveira Lucena é homenageada pela produção do espetáculo. E também está agendado um breve debate.

Conhecer Soledad, reencontrar Soledad é um bálsamo, um estímulo de bravura para esses tempos tão covardes. Ela morreu pela liberdade. Muitos morreram. Sua vida foi confiscada pela ditadura militar do Brasil (1964-1985).

“O projeto contou, desde o início, com a ajuda de muitas pessoas, como ex-prisioneiros políticos, militantes da época que tiveram contato com Soledad, ou não, além de parentes e compatriotas paraguaios. Também recebeu o apoio de militantes contemporâneos, que entenderam a relevância do projeto como contribuição importante para diversas lutas sociais, como as de gênero, direitos humanos e a do entendimento da arte como instrumento de formação e empoderamento sociopolítico e cultural”,

Malú Bazán, encenadora

Foto: Flávia Gomes / Divulgação

A direção é assinada por Malú Bazán. Foto: Flávia Gomes / Divulgação

Em 2015, a atriz pernambucana Hilda Torres, a diretora argentina Malú Bazán e a própria filha da militante, Ñasaindy Barrett, se juntaram para montar o espetáculo Soledad – A terra é fogo sob nossos pés.

Desde 2015 viemos resistentes, expandindo os horizontes do amor, da luta e da entrega; ampliando o alcance do conhecimento do que foi o período das ditaduras em nossa América nas décadas de 1950, 1960, 1970,1980…Ao contar a história de uma mulher como Soledad Barrett Viedma, militante internacionalista, mulher, poetisa, companheira, mãe, filha; contamos também a história de muitos outros e muitas outras. Pessoas que se entregaram plenamente ao destino de serem símbolo de transformação do mundo pelo exemplo de vida. movidos pelo amor e pela esperança em uma sociedade mais justa e igualitária.

Malú Bazán – dramaturgista e diretora

Soledad viveu na Argentina, no Uruguai, em Cuba e no Brasil, fugindo das repressões. Ao ser sequestrada por um bando de neonazistas em Montevidéu, ela adotou a guerrilha. Ao se recusar dizer a frase “viva Hitler!”, ela foi marcada nas coxas com a suástica nazista. Em Cuba, onde aprendeu a luta armada, conheceu Zé Maria, pai de sua filha Ñasaindy. No Brasil se apaixonou por José Anselmo dos Santos.

Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés é a primeira encenação da vida da guerrilheira paraguaia  para palcos brasileiros. Ela foi caluniada como terrorista e ficou conhecida como a mulher do Cabo Anselmo, o policial infiltrado na guerrilha que entregou Soledad e mais cinco militantes contra à ditadura ao delegado Sérgio Fleury, em 1973. Eles foram executados no chamado “O massacre da granja São Bento”, em Abreu e Lima, Pernambuco. 

Nasceu com sua mãe e ela apenas, por isso Soledad – Solidão; criança que cresceu entre sons de bombas e brincadeiras, levando recados codificados em suas saias para dirigentes comunistas, indo visitar seu pai na cadeia, quando não, ele estava clandestino, presente pelos ideais, mas ausente na lida diária. Exilada com sua família com menos de 1 ano de idade. Com 16 anos, no Uruguai, no seu segundo exílio, começa a realizar apresentações de danças folclóricas em eventos solidários ao Paraguai. Sequestrada aos 17 por um grupo neonazista que marca com uma navalha o símbolo do nazismo. Vai pra URSS estudar teorias comunistas, em seguida vai para alguns países da América Latina na tentativa de invadir o Paraguai. Em 1967, vai para Cuba treinar para luta armada, casa-se e tem uma filha: Ñasaindy Barrett de Araújo, fruto do seu relacionamento com José Maria de Ferreira de Araújo. Em 1970, vem para o Brasil numa missão pela VPR; Mas aqui é entregue pelo “Cabo Anselmo”, até então o seu companheiro de quem estava grávida. Mulher, jovem, sonhadora, leal aos ideais, mãe, filha, companheira, dançarina, poetisa, militante aguerrida, dócil, serena, dedicada, destemida, empoderada… Soledad Barrett Viedma.

Hilda Torres – atriz

Soledad

Uma interpretação de fôlego da atriz Hilda Torres.

Soledad no Recife, livro do escritor pernambucano Urariano Mota, foi o ponto de partida do processo de encenação, em janeiro de 2015. A peça alumia pontos nebulosos da história do Brasil e acompanha Soledad Barret Viedma, desde seu nascimento, passando por vários países, até sua morte. O discurso é veemente.

Sozinha em cena, Hilda Torres acende o espírito da guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR. O monólogo faz referências à uma série de entrevistas e pesquisa documental realizadas pela atriz e pela diretora, à publicação 68, a geração que queria mudar o mundo, compilação de relatos de uma centena de ex-militantes políticos, organizados e sistematizados por Eliete Ferrer, do grupo Os Amigos de 68. Além de consultas ao tijolaço da Comissão da Verdade e registros do Tortura Nunca Mais. E poemas de Marco Albertim e da artista plástica Ñasaindy de Araújo Barrett, filha de Soledad, que assina composições e empresta sua voz de cantora ao espetáculo.

A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você’ “.

Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola, que cantava na cadeia.

CONTRA À COVARDIA

A montagem se expressa generosa e caudalosa para recuperar a vida e a luta de uma mulher entregue à repressão pelo marido, numa farsa encenada pelo Estado de terror e traição no Recife da ditadura militar. A peça manifesta o poder da arte, de promover a reparação – pelo menos da imagem púbica – das violações a direitos fundamentais. Para reescrever a História e subverter a ordem do esquecimento.

O monólogo poético, que também faz alusões ao período atual da política brasileira, traça os conflitos como mulher, mãe, filha, militante perseguida. E recupera as facetas dessa musa política das esquerdas da América Latina.

Os episódios de dor são exibidos, num cenário de poucos elementos, com uma luz que convida para a intimidade dessa existência e na alternância da representação do trajeto de Soledad e a exploração do metateatro desvelado em seu processo de criação.

Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil. A peça é uma vitória pelo resgate da memória, da verdade e da justiça.

Urariano Mota, escritor

A encenação exalta os mitos e ritos ancestrais e evoca os povos originários. E incorpora esses dados na passagem do banho na água com os seios à mostra; na celebração de orixás como Nanã, do candomblé. E cenas fortes como das cruzes gamadas, as suásticas, riscadas a aço em suas pernas pelos militantes neonazistas.

Cabo Anselmo é apontado como um dos líderes do protesto dos marinheiros em 1964. Integrou o movimento de resistência à ditadura nos anos 1960 e, na década de 1970, atuou como colaborador do regime militar. A suspeita é que em todos os episódios ele atuava como um agente policial infiltrado.

Foi Anselmo quem entregou o esconderijo dos membros do VPR em Pernambuco, uma chácara no loteamento São Bento, no município de Paulista. Junto com outros companheiros, Eudaldo Gomes da Silva, Pauline Reichstul, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques e José Manoel da Silva, estava Soledad.

Segundo a versão oficial, os militantes foram mortos numa troca de tiros na chácara. O jornalista Elio Gaspari, em A ditadura escancarada, classifica o episódio como “uma das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura”.

Uma coisa aprendi junto a Soledad: que deve-se empunhar o pranto, deixá-lo cantar. Outra coisa aprendi com Soledad: que a pátria não é um só lugar. Uma terceira coisa nos ensinou: que o que um não consiga, o farão dois”,

Da música Soledad Barret, do cantor, compositor e instrumentista uruguaio Daniel Viglietti.

Ficha técnica

Atriz e idealizadora: Hilda Torres
Direção: Malú Bazán
Dramaturgia: Hilda Torres e Malú Bazán
Pesquisa histórica: Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Pesquisa cênica: 
Hilda Torres e Malú Bazán
Concepção de cenário e figurino: 
Malú Bázan
Execução de cenário e figurino: 
Felipe Lopes e Maria José Lopes
Luz: 
Eron Villar
Operação de Luz: 
Eron Villar e Gabriel Félix
Direção musical: 
Lucas Notaro
Arte visual: 
Ñasaindy Lua
Produção: 
Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Produção executiva: 
Renato Barros
Produção geral: Márcio Santos
Realização: Cria do Palco
Fotografias: Rick de Eça

SERVIÇO

Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés – Circulação Nacional – Etapa São Paulo
Onde: teatro Galpão do Folias (Rua Ana Cintra (ao lado do metrô Santa Cecília)
Quando: 13 E 14 de fevereiro às 20h
Ingressos: Preços: R$ 30,00 (inteira);  R$ 15,00 (meia); R$ 10 (moradores da Santa Cecília com comprovante)
Informações e Reservas – Galpão do Folias: (11) 3361-2223
site de venda: https://www.eventbrite.com.br/e/soledad-a-terra-e-fogo-sob-…
Duração: 1h10
Classificação: 14 anos

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Não nos matem! Não nos maltratem!

Cicatriz (Toni Rodrigues - Divulgação) (17)

Peça Cicatriz apresenta histórias recheadas por traumas, opressões, abusos e discriminações contra pessoas da comunidade LGBT. Elenco é formado por Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

Cicatriz

Produção recifense faz duas únicas apresentações no Teatro Barreto Junior. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

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Cicatriz expõe feridas da comunidade LGBT e clama por respeito. Foto: Tony Rodrigues /Divulgação

A travesti Quelly da Silva, 35 anos, foi morta e teve o coração arrancado em Jardim Marisa, na região do Campo Belo, em Campinas (SP). A transexual Myrella, 29 anos, enforcada e encontrada morta num terreno baldio no Centro de Balneário Camboriú, no Litoral Norte catarinense. A travesti ‘Fernanda da biz’, esfaqueada por 80 vezes antes de ter a cabeça esmagada, na cidade de Rio Brilhante, a 158 quilômetros de Campo Grande. O transexual Tadeu Nascimento, 24 anos, espancado, recebeu tiro fatal na cabeça no bairro de São Cristóvão, em Salvador. O cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, 30 anos, sofreu uma facada mortal na avenida Paulista, em São Paulo. José Ribamar Alves Frazão foi morto à paulada e teve o corpo incendiado quando ainda estava vivo, na cidade de Cachoeira Grande, na região maranhense do Munim.  Esses assassinatos violentos compõe uma estatística aterrorizante para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis) no Brasil. São algumas vítimas da homotransfobia no país.

As violências vivenciadas por personagens reais e inventados são elaboradas e expostas no espetáculo Cicatriz, produção recifense que faz sessões sábado (09/02) e domingo (10/02), no Teatro Barreto Júnior, no Recife. São histórias emblemáticas , que trazem à tona a crueldade do machismo, do patriarcado, do capitalismo, da arrogância.

De acordo com a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), uma pessoa LGBT foi morta a cada 20 horas no Brasil em 2018. 

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), entre 2013 e 2014 foram registrados pelo menos 770 casos de violência contra pessoas LGBT na América Latina, sendo que 594 pessoas foram assassinadas.

Dois exemplos representativos: em 2012, uma lésbica afrodescendente começou a chamar a atenção de um líder paramilitar na região de Antioquia (Colômbia). Ela o rejeitou e, em consequência, foi abusada sexualmente em duas ocasiões pelo líder e por um grupo de acompanhantes do mesmo, em função de sua orientação sexual. Além disso, foi perseguida e hostilizada ao tentar fazer uma denúncia formal sobre o ocorrido. Outro caso emblemático foi o assassinato de Daniel Zamudio, um jovem chileno morto em 2012 ao sair de um bar em um parque de Santiago. Quatro jovens o atacaram e o torturaram durante horas com alto grau de crueldade, em função de sua orientação sexual, deixando nele marcas de suásticas na pele, pernas quebradas e queimaduras. Zamudio faleceu depois no hospital.
VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT – Goethe-Institut – Brasilient

Ser LGBT é um fator de risco à própria vida numa sociedade em que grupos políticos e religiosos querem controlar socialmente como os outros exercem sua sexualidade ou constroem suas identidades. Pertencer a essa comunidade é ser potencialmente alvo de hostilizações e violência nas ruas, mutilação de membros, prática das “violações corretivas” e outras crueldades.

“Crime de ódio” ou, “crime por preconceito” em variados níveis de maltrato são praticados por bandos “fora da lei”, autoridades estatais e indivíduos ou grupos sociais que se posicionam contra a diversidade sexual e de gênero.

A população LGBT é afetada diretamente pela violência e ódio na política.

85 denúncias de assassinatos de LGBT em 2018, somente até julho, foram contabilizadas pelo governo, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos (agora Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). Esses números oficiais alarmantes não impediram que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) retirasse a população LGBT das diretrizes de políticas públicas do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, como constava anteriormente. A Medida Provisória 870 foi assinada em 1º de janeiro, dia da posse presidencial, .

Para viver e sobreviver LGBTs devem lutar até mesmo contra o governo, já que Bolsonaro pai alardeou em entrevistas que é “homofóbico, com muito orgulho” e que preferiria ter um filho morto a um filho homossexual.

É assustador!!!

O espetáculo Cicatriz adota um discurso de luta cotidiana e resistência pelo direito à vida. Encenado pelo ator e diretor Antônio Rodrigues, da Cênicas Cia. De Repertório, a peça traça um painel de histórias de ofensa, traumas, opressões, abusos e discriminações contra a comunidade LGBT em diferentes épocas, contextos e esferas sociais. Cicratiz junta fatos reais, vivências pessoais do elenco de 11 atores e livre inspiração em recortes da obra do escritor e dramaturgo Caio Fernando Abreu.

“Em pleno século 21, ainda há pessoas que acham que LGBTfobia não existe, quando há gays, lésbicas e transexuais sendo agredidos física e psicologicamente apenas por serem quem são”, argumenta Antônio. Ele defende que a montagem é um grito de protesto e empoderamento, uma intervenção através da arte para sensibilizar o público e gerar reflexões sobre o lugar do LGBT na sociedade atual.

“Queremos que as pessoas se coloquem no lugar deles e se perguntem – Como eu me sentiria estando naquela pele? Eu saberia enfrentar essas dores?”, convoca o diretor para a empatia, solidariedade e reconhecimento desses corpos, que vibram de desejos e não suportam mais tanta violência .

SERVIÇO:
Espetáculo Cicatriz
Quando: sábado e domingo, 9 e 10 de fevereiro de 2019
Onde: Teatro Barreto Júnior (Rua Estudante Jeremias Bastos, S/N, Pina – Recife/PE)
Horário: sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) /R$ 20 (meia). À venda na bilheteria do teatro, 2 horas antes do espetáculo.

FICHA TÉCNICA:
Direção geral: Antônio Rodrigues
Assistência de direção: Sônia Carvalho
Direção musical:
Douglas Duan
Desenho de luz e operação:
Rogério Wanderley
Figurinos e adereços:
Álcio Lins
Texto:
criação coletiva
Elenco:
Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima.
Apoio:
Cênicas Cia. De Repertório
Realização:
Antônio Rodrigues Produções

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Janeiro de Grandes Espetáculos compactua com censura e exclui montagem com atriz trans

Apacepe alega motivos que 'extrapolam os critérios artísticos para cancelar a Peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu

Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, do Recife, alega motivos que “extrapolam os critérios artísticos” para excluir a peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu da programação. Foto: Humberto Araújo / Divulgação

Renata Carvalho, em cena da peça que defende valores cristãos, como o amor ao próximo. Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

A atriz Renata Carvalho, em cena da montagem que defende valores cristãos, como o amor ao próximo. Foto: Leonardo Pastor/Divulgação

“Censura novamente. Retirada da programação do maior festival de artes cênicas de Pernambuco, sob pressão da bancada evangélica. Eles não se cansam, mas a gente também não. Abençoados aqueles que te perseguem. O ódio é o único talento que têm, e não vale nada”, postou a diretora Natalia Mallo na sua conta do Facebook.

O espetáculo O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu de novo é convidado e depois desconvidado de um programa cultural em Pernambuco. Divulgada como destaque do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, do Recife, a peça foi excluída pelos realizadores do Festival, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), sob a alegação de que é uma maneira de assegurar a própria realização do evento.

O Janeiro havia anunciado as atrações da 25ª edição na sexta-feira (21/2) com ênfase na obra O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Nesse domingo (23/12) retrocedeu e excluiu a peça da programação, decisão pautada por “questões que extrapolam os critérios artísticos”.

Nota na íntegra enviada à imprensa na tarde de domingo (23/12), pelo festival Janeiro de Grandes Espetáculos:

De forma a garantir a realização do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) informa a retirada da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do festival.

Por questões que extrapolam os critérios artísticos, o espetáculo, que já motivou ações judiciais e passou por outros cancelamentos, infelizmente não estará mais na grade do Janeiro 2019.

A Apacepe reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e mantém seu propósito de abrir as portas para toda e qualquer manifestação artística.

Conservadores tentam boicotar peça. Não vêem e não querem que ninguém mais veja. Foto Leonardo Pastor Divulgação

Conservadores já boicotaram a peça em vários lugares. Não vêem e não querem que ninguém mais veja. Foto Leonardo Pastor Divulgação

Pressão Evangélica

Um dia após o anúncio da programação do JGE, o deputado estadual evangélico e eleito deputado federal em 2018, André Ferreira (PSC), usou a peça Rainha do Céu como arma de ataque ao governador Paulo Câmara e ao prefeito Geraldo Julio, ambos do PSB.

“Mais uma vez o Governo do Estado e a Prefeitura do Recife afrontam as famílias cristãs de Pernambuco, contratando, com recursos públicos, a peça teatral na qual Jesus Cristo é um travesti”, publicou o blog do Jamildo sobre a posição do político. “Devemos, claro, investir na cultura para que seja acessível a todos, desde que realizada com respeito. Mas não é o caso dessa peça teatral absolutamente fora de propósito”.

Bem, parece que a pressão fez efeito bem rapidinho.

Isso é preocupante. Por muitos motivos. Todos os sinais e ações de confisco de direitos, a ideia do presidente eleito de que a cultura deve ocupar uma lugar de figurante, o pouco alcance e relevância com que os novos ocupantes do poder enxergam os fazeres artísticos. O Brasil é um estado laico e não pode ser pautado por crenças de A ou B. A liberdade de expressão e a liberdade artística não podem ser confiscadas. Pelo menos o que se espera dos artistas, produtores e pessoas da cultura é uma atitude de combate, para defender a liberdade.

Sabemos todos que os festivais de teatro são viabilizados com editais de incentivo e verbas do governo. Mas isso não quer dizer que os diretores, gestores e curadores de festivais sejam lacaios do poderoso da hora. A ingerência politico-partidária nas linhas curatoriais dos festivais é um perigo que pode abrir brechas.

Quem é do meio artístico sabe que transformaram O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu em nitroglicerina pura neste cenário de marcha ré que se transformou o Brasil pós golpe jurídico-midiático.

Desde a sua estreia, em 2016, O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu sofre censura direta. A apresentação da peça foi cancelada em setembro de 2017 em Jundiaí (SP) e outubro em Salvador, ambas por decisão judicial, sob o argumento de que Renata Carvalho “vilipendia artigos religiosos”.

Em junho deste ano, o prefeito do Rio de Janeiro, Crivella, cancelou a mostra Mostra Corpos Visíveis, sob a desculpa de que a Arena, palco do evento está fechada devido a “um problema na licitação”. Crivella também afirmou: “Na minha administração nenhum espetáculo, nenhuma exposição vai ofender a religião das pessoas. Eu não vou permitir. Enquanto eu for prefeito nós vamos respeitar a consciência e a religião das pessoas”.

O espetáculo foi apresentado dentro da programação do Trema! Festival, em junho no Recife, sem problemas e com boa acolhida do público.

Em julho deste ano, o espetáculo foi retirado da programação oficial do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), por proibição do prefeito da cidade do Agreste pernambucano, Izaías Regis (PTB). O imbróglio teve idas e vindas, com pedido de reinclusão da peça pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), recusa de juiz, liminar de desembargador.

Um grupo de ativistas, artistas e produtores culturais, e amantes da democracia, não ficou passível diante da censura. Para resistir ao veto, foi realizada uma vaquinha virtual para exibição do espetáculo de forma independente. Mesmo com a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco, a favor de pilares constitucionais (a exemplo de liberdade de expressão artística e o Estado laico), a Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região prossegui com a perseguição à peça.

Condenada pelos cristãos conservadores, que pregam o amor de Cristo mas não toleram conviver com o diferente, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, fez duas apresentações em Garanhuns, sob forte tensão, com a protagonista “escondida” em Maceió antes das sessões com receio de represálias violentas.

atriz transexual Renata Carvalho enfrenta censuras e ameaças por sua atuação. Foto Luciane Pires Ferreira Divulgação

Atriz transexual Renata Carvalho enfrenta censuras e ameaças por sua atuação. Foto Luciane Pires Ferreira Divulgação

Mas de que os conservadores têm tanto medo ou odeiam numa peça que nem viram? Intolerância é uma resposta. Não a única. Existe dificuldade de quem é hostil à democracia em conviver com a diferença e sua ideia é eliminar. Eliminar corpos, ideias, posições, varrer do mapa aquilo que incomoda (LGBTQI+, negros, mulheres e pobres são os principais alvos).

E se Jesus voltasse nos dias de hoje como uma travesti? Essa é a pergunta-chave da peça. Segundo a Bíblia, que tanto citam os acusadores da peça, Jesus Cristo acolheu excluídos, pecadores, humilhados da sociedade. Quem são os marginalizados de hoje?

O episódio FIG virou caso de estudo levado à discussão Dive Queer Party no Edinburgh International Book Festival, em agosto. Algumas das mais proeminentes vozes artísticas de queer estavam lá: Travis Alabanza, Chitra Nagarajan, Jo Clifford, Susan Worsfold com participação da performer e ativista Renata Carvalho por vídeo.

A diretora e tradutora de Rainha do Céu Natalia Mallo expôs o caso da censura na noite do debate “liberdades precárias: Perspectivas queer de todo o mundo”. O tema do FIG deste ano “um viva a liberdade”, virou motivo de chacota, segundo testemunhou o diretor do Trema! festival Pedro Vilela, que esteve no evento na Escócia.

Em Edimburgo, a discussão estava pautada na reflexão de que as liberdades são precárias – elas podem ser conquistadas apenas para ser rapidamente perdidas de novo. Então o tempo é de resistência, (re) existência.

Por todas as pressões, as perseguições, difamações, fake news, que artistas sofreram nesses últimos meses que se prolongam, é muito perigoso ceder.

É bom lembrar das ideias do crítico de arte, jornalista, professor pernambucano Mário Pedrosa (1900 – 1981), para quem arte é revolução permanente da sensibilidade e da percepção. Ele defende que a questão estética é também uma questão ética e ambas se orientam por uma visão estratégica de intervenção na vida. Apostava na relação crucial entre arte e política e se posicionou criticamente com as apropriações mercadológicas da arte.

Na rede

Mesmo em clima natalino, alguns artistas se posicionaram no facebook. A atriz Renata Carvalho replicou as publicações em jornais sobre o cancelamento de sua montagem com comentários suscintos: “2019 nem começou” e “Recife mais uma vez…” Além das Hashtags #rainhajesus ; #representatividadetrans ; #censuranão .

“O fundamentalismo religioso sempre metendo o bedelho onde não deve!!
Aposto que a atriz Renata Carvalho não vai se meter nas extorsões e falcatruas que os pastores realizam dentro dos templos!!”, escreveu Lucas Correa Viegas.

O ator Elison postou: “Que vergonhoso, Janeiro de Grandes Espetáculos. Mais vergonhoso ainda é uma desculpinha como “critérios extra-artísticos”. O nome disso não é outra coisa que fazer coro à transfobia, que ceder à censura. Extremamente vergonhoso e desrespeitoso com as artistas. Apoio e aplausos incessantes a Renata Carvalho e seu trabalho primoroso!
Quem perde é o público recifense. E o próprio festival, em termos de credibilidade”.

Caia Coelho foi mais incisiva. “Que porra é essa, Paulo de Castro, Iris Macedo, Luciana Raposo? Estou com vergonha de vocês. Estou com vergonha de ter trabalhado com vocês. Vocês não passam de covardes lixos transfóbicos envergonhando quem produz arte com resistência”.

O artista Java Araújo pergunta: “Para que colocar na programação e depois tirar? Querem atrair polemica para ganhar marketing pro festival?”

A militância desse espetáculo é por espaços para todos, respeito pela diferença e representatividade trans. Na dramaturgia da britânica Jo Clifford, também artista trans, Jesus volta como travesti. Discute-se as questões de gênero numa releitura fincada nesses tempos do Brasil. A atuação flui entre a narração e comentários inspirados na Bíblia e experiências de luta da atriz traduzida em poética cênica. Carvalho defende valores puramente cristãos, mas com o direito dessa imagem divina ser representada por um corpo dissidente.

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Encontro de crítica investiga estampidos do real

Espetáculo cubano Jacuzzi integra programação. Foto: Lázaro Wilson

Peça cubana Jacuzzi integra programa Crítica em Movimento, do Itaú Cultural, na Paulista. Foto: Lázaro Wilson

A Mulher Arrastada. foto: Regina Peduzzi Protskof

A Mulher Arrastada baseada em fato real ocorrido no Rio de Janeiro. Foto: Regina Peduzzi Protskof

A arte se alia ao presente para expandir forças de defesa da democracia e de combate à barbárie. Foi assim em outros tempos nublados no Brasil. Daquela época ficaram as obras e testemunhos de muita gente guerreira. A segunda edição do Crítica em Movimento traz as experiências de Augusto Boal e Plínio Marcos na pisada das ações das atrizes Walderez de Barros e Cecilia Boal.  Carrega os olhares de grupos e coletivos teatrais, a vivência do escritor Marcelino Freire, a atuação da crítica cubana Vivian Martínez Tabares. Durante nove dias o exercício da crítica ocupa o espaço do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, com depoimentos, debates, peças, leitura dramática e um show cênico. A programação ocorre de 26 de setembro (quarta-feira) a 7 de outubro (domingo).

Em que medida o momento sociopolítico influencia as obras e os seus desdobramentos poéticos? é um disparador de uma reflexão que deseja congregar espectador comum, estudantes, profissionais das artes cênicas, da crítica, gestores culturais e pensadores de outras áreas.

O crítico de teatro Valmir Santos, que assina a curadoria destaca que  esta segunda edição absorve o ponto de vista crítico dos artistas. “As obras partem de temáticas urgentes (violências de classe, racismo, misoginia, homofobia, entre outas). E as mesas aprofundam como esse material rente à realidade pode ganhar potência poética. O momento sociopolítico brasileiro atravessa a maioria dos trabalhos”, ressalta.

A mesa Reflexos da vida real na arte e na cultura (26/09, 20h) inicia a programação com um debate do escritor Marcelino Freire e de Onisajé (Fernanda Julia), diretora fundadora do Núcleo Afro brasileiro de Teatro de Alagoinhas, na Bahia. Com mediação da encenadora, educadora e pesquisadora teatral Verônica Veloso, eles vão tratar da subjetividade que irrompe na manifestação artística carregada de realidades.

O crítico literário, professor e organizador da coleção Plínio Marcos: Obras Teatrais (Funarte, 2016) Alcir Pécora e a atriz Walderez de Barros conversam sobre A atualidade de Plínio Marcos, “repórter de um tempo mau”, na quinta-feira (27/09), às 16h. A mediação é de Valmir Santos. Apontado em algum momento como um autor maldito, Plínio Marcos (1935-1999), foi um dos primeiros a retratar homossexualidade, marginalidade, prostituição e violência com muita crueza em suas peças.

Uma versão de Navalha na Carne, peça de 1968 é apresentada ainda na quinta feira, às 20h. Em Navalha na Carne Negra, o diretor José Fernando Peixoto de Azevedo problematiza o corpo negro e os processos históricos de marginalização social, a partir dos três personagens da peça. A atriz Lucelia Sergio, da Cia Os Crespos (SP), e os atores Raphael Garcia, do Coletivo Negro (SP), e Rodrigo dos Santos, da Cia dos Comuns (RJ), se debatem em cena para questionar quem são esses “marginais” de Plínio Marcos, hoje?

Vivian, Stela e Cecilia participam da mesa

Vivian Martínez Tabares, Stela Fischer e Cecilia Boal participam da mesa sobre realidade latino-americana

A crítica e pesquisadora teatral, editora e professora cubana Vivian Martínez Tabares, que ministrou o curso Práticas e Tendências da Cena Latino-Americana Contemporânea semana passada na USP, a doutora em artes cênicas e coordenadora do Coletivo Rubro Obsceno Stela Fischer e a psicanalista e atriz que preside o Instituto Augusto Boal, Cecilia Boal integram a mesa O gesto artístico e a realidade latino-americana

Como conjugar a singularidade estilística e o pensamento crítico da produção artística da América Latina é o mote desse encontro na sexta-feira (28/09), às 16h , mediado por Ilana Goldstein, antropóloga e professora do Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Elas vão destacar que as criações artísticas nas mais variadas linguagens – literatura, música, cinema, teatro e artes visuais – têm destaque documental para esses países traumatizados por processos violentos de colonização europeia.

A montagem Jacuzzi, com o grupo cubano Trébol Teatro tem sessões agendadas para os dias dias 28 e 29 (sexta-feira e sábado). Dirigido por Yunior García Aguilera, o espetáculo expõe relatos contraditórios sobre Cuba. O casal Susy e Pepe faz uma festa para despedir-se de Roma e voltar a Havana. O único convidado é Alejandro, melhor amigo de Pepe e ex-namorado de Susy. Entre taças de vinho e a espuma da jacuzzi cada um defende suas posições políticas, sociais e emotivas.

Bixa Monstra Presidenta. Foto: Denise Eloy / Divulgação

Bixa Monstra Presidenta. Foto: Denise Eloy / Divulgação

A leitura dramática do 1º ato de Bixa Monstra presidenta, da Cia Humbalada de Teatro, ocorre também na sexta-feira, às 23h59. A peça tem influência do texto Gota Dágua, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Mídia divulga que o presidente da república tem como amante uma “bicha” prostituta. Isso causa reboliço. O espetáculo, dirigido por Bru César, empreende uma uma crítica ácida, cômica e sentimental ao atual sistema político e ao que toca em questões de gênero e sexualidade. O elenco é formado por 10 atrizes e atores do Grajaú.

O ator, dramaturgo e diretor João Junior, do grupo Estopô Balaio, o diretor, ator e co-fundador da Trupe Olho da Rua, de Santos, Caio Pacheco e a coordenadora de pesquisa do Grupo Caixa de Imagens Mônica Simões vão analisar se projetos arrolados na comunidade criam pontes de cidadania. A mesa O desafio de concretizar arte no imaginário do espaço público/ comunitário ocorre no dia 29 (sábado), às 16h.

O diretor José Fernando Peixoto de Azevedo e o ator Rodrigo dos Santos são os convidados da 24ª edição do Encontro com o Espectador, ação em parceria do Teatrojornal – Leituras de Cena e o Itaú Cultural , no domingo (30/09), às 15h. O espetáculo Navalha na Carne Negra é tema do programa com  mediação do crítico Kil Abreu.

A Trupe Lona Preta apresenta O Circo Fubanguinho ainda no domingo, às 19h. Inspirado em charangas, farsas e bufonarias, o espetáculo dirigido por Sergio Carozzi e Joel Carozzi fala de dois palhaços demitidos e expulsos do picadeiro, mas que não medem esforços para voltar à ativa.

Segunda semana

A oficina de Teatro Aspectos Culturais/Religiosos de Matriz Africana para o Processo de Composição de Personagens (inscrições encerradas), ministrada por Hilton Cobra (interpretação), Ana Paula Bouzas (preparação corporal), Valéria Monã (dança afro) e Duda Fonseca (Capoeira) começa no dia 4 de outubro (quinta-feira), às 10h. A proposta é arquitetar com os participantes um repertório de possibilidades (gestuais, movimentos, sabores, paladares, cores, instintos, vestuários, sons, instrumentos etc), relacionados à cultura ancestral de matriz africana, que possam abastecer a criação e construção de personagens.

Dinho Lima Flor interpreta o bispo no espetáculo O avesso do Claustro. Foto: Alecio Cezar

Dinho Lima Flor interpreta o bispo no espetáculo O avesso do Claustro. Foto: Alecio Cezar / Divulgação

Também na quinta-feira (04/10), é exibido o show cênico O Avesso do Claustro, às 20h com a Cia. do Tijolo, inspirado na vida e obra de Dom Helder Camara. Os personagens de O Avesso do Claustro (interpretados por Lilian de Lima, Karen Menatti, Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante e Flávio Barollo, além dos músicos Aloísio Oliver, Maurício Damasceno, William Guedes e Leandro Goulart) ousam imaginar novos horizontes para esses tempos tenebrosos. No território profano, utópico e poético do teatro se cozinha o alimento da esperança e tonifica o espírito para a batalha. A peça leva ao palco as ideias revolucionárias, as históricas lutas de resistência política durante o regime militar de Dom Helder e ergue uma espécie de vigília coletiva para os dias de hoje. Na ocasião o grupo lança o CD do espetáculo, com os textos e as música apresentadas em cena.
Escrevemos sobre O Avesso do Claustro em:
https://mirada.sescsp.org.br/2016/critica/dom-da-liberdade/
http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/2016/12/18/peca-sobre-dom-helder-camara
http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/2017/02/01/no-palco-com-dom-helder/

Sexta-feira (05/10), às 16h, o ator Hilton Cobra, a atriz Naruna Costa e o diretor Rogério Tarifa debatem sobre a Poéticas da Cena Engajada, com mediação do crítico Kil Abreu. O encontro busca abordar a delicada questão dos danos provocados pela sociedade levados à cena, sem estrago da função estética. Os motes sociopolíticos executados no panorama brasileiro contemporâneo, como questões de identidade e de gênero, além dos movimentos antirracismo e em defesa de etnias e pelo feminismo são disparadores dessas reflexões.

A Mulher Arrastada, Foto: Regina Peduzzi Protskof ? Divulgação

A Mulher Arrastada, Foto: Regina Peduzzi Protskof ? Divulgação

Em março de 2014, no Rio de Janeiro, Cláudia Silva Ferreira, uma mulher negra, auxiliar de serviços gerais de 38 anos, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos foi assassinada pela Polícia Militar ao sair de casa. Seu corpo foi atirado às pressas no camburão da viatura e arrastado ainda com vida pelo tráfego. A peça A Mulher Arrastada é baseada nesse caso real. A dramaturgia é de Diones Camargo, dirigida por Adriane Mottola. O espetáculo convoca a uma repercussão sobre as barbáries cotidianas que a população periférica do país é submetida diariamente e ao apagamento na cobertura jornalística do nome de Cláudia, substituído pela alcunha de “mulher arrastada”. Apresentação no dia 5 de outubro, às 20h.

O sujeito periférico e a luta por políticas públicas é o tema da última mesa desta edição do Crítica em Movimento, que ocorre no dia 6 (sábado), às 16h. Participam da conversa Esther Solano, professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Tiaraju Pablo D’Andrea, cientista político e também professor da Unifesp, no Campus Zona Leste/Instituto das Cidades e Alfredo Manevy, gestor cultural e pesquisador em políticas públicas, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A mediação fica por conta de Carlos Gomes, ator e coordenador do Núcleo de Cênicas do Itaú Cultural.

Quando Quebra Queima é uma “dança-luta” coletiva, construída a partir das experiências de 14 estudantes que viveram o processo de ocupações e manifestações do movimento secundarista em São Paulo. É uma montagem da ColetivA Ocupação dirigida por Martha Kiss Perrone. Encerra o programa Crítica em Movimento: Presente com apresentações nos dias 6 e 7 (sábado, às 20h e domingo, às 19h).

PROGRAMAÇÃO

DIA 26 DE SETEMBRO (QUARTA-FEIRA),20h

Mesa Reflexos da vida real na arte e na cultura
Com Marcelino Freire e Onisajé. Mediação de Verônica Veloso.
Sala Itaú Cultural (200 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

Dia 27 de setembro (quinta-feira),

16h
Mesa A atualidade de Plínio Marcos, “repórter de um tempo mau”
Com Alcir Pécora e Walderez de Barros. Mediação de Valmir Santos
Sala Vermelha (60 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

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Navalha na Carne Negra. Foto: Sergio Fernandes / Divulgação

20h
Espetáculo Navalha na Carne Negra
Sala Itaú Cultural (200 lugares)
Duração: 50 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
FICHA TÉCNICA
Direção Geral e Dispositivo Cênico: José Fernando Peixoto de Azevedo
Atores: Lucelia Sergio, Raphael Garcia e Rodrigo dos Santos
Vídeo: Isabel Praxedes e Flávio Moraes
Iluminação: Denilson Marques
Direção de Arte: Criação Coletiva
Assessoria para o Trabalho Corporal: Tarina Quelho
Programação Visual: Rodrigo Kenan
Produção: corpo rastreado

DIA 28 DE SETEMBRO (SEXTA-FEIRA)

16h
Mesa O gesto artístico e a realidade latino-americana
Com Vivian Martínez Tabares, Stela Fischer e Cecilia Boal. Mediação de Ilana Goldstein
Sala Vermelha (60 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

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Jacuzzi. Foto Lázaro Wilson / Divugação

20h
Espetáculo Jacuzzi
Com Trébol Teatro (Cuba)
Sala Itaú Cultural (200 lugares)
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
FICHA TÉCNICA
Elenco: Yunior García Aguilera, Víctor Garcés Rodríguez e Yanitza Serrano Garrido / Heidy Torres Padilla
Direção: Yunior García Aguilera
Produção e assistência de direção: Dayana Prieto Espinosa

Bixa Monstra Presidenta_foto Denise Eloy

Bixa Monstra Presidenta. Foto: Denise Eloy / Divulgação

23h59
Sessão maldita – Leitura dramática do 1º Ato: Bixa Monstra presidenta
Com Cia Humbalada de Teatro
Sala Multiúso (70 lugares)
Duração: 90 minutos
Classificação Indicativa: 18 anos
FICHA TÉCNICA
Direção e Dramaturgia: Bru César
Elenco: Tatiana Monte, Eliane Weinfurter, Rafael Cristiano, Onika Bibiana Soares, Bru César, Paulo Henrique Sant`Anna, Paulo Araújo, Dan Silva, Carlos Lourenço e Samuel Sasso
Figurino: Alene Alves
Assistente de Figurino: Deni Chagas
Cenário: Caio Marinho
Direção Musical: Luciano Antonio Carvalho
Iluminação: Piu Dominó
Produção: Janaína Soares
Assistente de Produção: Amanda Andrade

DIA 29 DE SETEMBRO (SÁBADO)

16h
Mesa O desafio de concretizar arte no imaginário do espaço público/comunitário
Com João Junior, Caio Pacheco e Mônica Simões
Sala Vermelha (60 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

20h
Espetáculo Jacuzzi
Com Trébol Teatro (Cuba)
Sala Itaú Cultural (200 lugares)
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos

DIA 30 DE SETEMBRO (DOMINGO)

15h
Encontro com o Espectador
Com José Fernando Peixoto de Azevedo e Rodrigo dos Santos, sobre o espetáculo Navalha na Carne Negra. Mediação: Kil Abreu
Sala Vermelha (70 lugares)

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O Circo Fubanguinho. Foto: Lazerum / Easy-Resize.com / Divulgação

19h
Espetáculo O Circo Fubanguinho
Com Trupe Lona Preta
Sala Itaú cultural (200 lugares)
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos
FICHA TÉCNICA
Direção: Sergio Carozzi e Joel Carozzi
Elenco: Alexandre Matos, Elias Costa, Henrique Alonso, Joel Carozzi, Sergio Carozzi e Wellington Bernado.
Produção: Henrique Alonso, Dona Méris e Xisté Marçal

DIA 4 DE OUTUBRO (QUINTA-FEIRA)

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O Avesso do Claustro. Foto: Alécio César / Divulgação

20h
Show-espetáculo O Avesso do Claustro
Com Cia. do Tijolo
Sala Itaú Cultural (200 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: Livre
FICHA TÉCNICA
Direção musical: William Guedes
Dramaturgia: Cia do Tijolo
Atores Cantores: Lilian de Lima, Karen Menatti, Dinho Lima Flor, Rodrigo Mercadante, Flávio Barollo, Rogério Tarifa e Fabiana Vasconcelos Barbosa
Músicos: Maurício Damasceno, William Guedes, Clara Kok Martins, Eva Figueiredo, Leandro Goulart, Felipe Chacon e Jonathan Silva
Figurinista: Silvana Marcondes
Criação de luz: Laiza Menegassi
Operação de som: Leandro Simões
Fotos de Alécio César
Design gráfico: Fábio Viana

DIA 5 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)

16h
Mesa Poéticas da Cena Engajada
Com Hilton Cobra, Naruna Costa e Rogério Tarifa. Mediação de Kil Abreu.
Sala Vermelha (60 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

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A Mulher Arrastada. Foto: Regina Peduzzi Protskof / Divulgação

20h
Espetáculo A Mulher Arrastada
Sala Multiúso (70 lugares)
Duração:  50 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos
FICHA TÉCNICA
Texto: Diones Camargo
Direção: Adriane Mottola
Elenco: Celina Alcântara e Pedro Nambuco
Trilha Sonora Original: Felipe Zancanaro
Iluminação: Ricardo Vivian
Cenografia: Isabel Ramil e Zoé Degani
Figurinos: criação coletiva
Fotos de Divulgação: Regina Peduzzi Protskof
Textos de divulgação / mídias digitais: Diones Camargo
Arte Gráfica: Jessica Barbosa
Produção estreia / temporadas: Diones Camargo e Regina Peduzzi Protskof
Produção circulação / festivais: Luísa Barros
Realização: Diones Camargo e LA PhOTO Galeria e Espaço Cultural
Apoio: Cia. Stravaganza e UTA – Usina do Trabalho do Ator

DIA 6 DE OUTUBRO (SÁBADO)

16h
Mesa O sujeito periférico e a luta por políticas públicas
Com Esther Solano, Tiaraju Pablo D’Andrea e Alfredo Manevy. Mediação de Carlos Gomes
Sala Vermelha (60 lugares)
Duração: 120 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos

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Quando Quebra Queima. Foto: Mayra Azzi / Divulgação

20h
Espetáculo Quando Quebra Queima
Com ColetivA Ocupação
Sala Multiúso (70 lugares)
Duração:  100 minutos
Classificação Indicativa: Livre
FICHA TÉCNICA
Criação e Performance: Abraão Santos, Alicia Esteves, Alvim Silva, André Dias de Oliveira, Ariane Fachinetto, Beatriz Camelo, Gabriela Fernandes, Heitor de Andrade, Ícaro Pio, Letícia Karen, Marcela Jesus, Matheus Maciel, Mayara Baptista e Mel Oliveira
Direção: Martha Kiss Perrone
Dramaturgia: Coletiva Ocupação
Vídeo: Martha Kiss Perrone, Alicia Esteves e Fernando Coster
Fotos durante a peça: Alicia Esteves
Figurino: Coletiva Ocupação / Lu Mugayar
Iluminação: Alessandra Domingues
Preparação Corporal: Martha Kiss Perrone/ Natália Mendonça
Produção: ColetivA Ocupação/Otávio Bontempo

DIA 7 DE OUTUBRO (DOMINGO)

19h
Espetáculo Quando Quebra Queima
Com ColetivA Ocupação
Sala Multiúso (70 lugares)
Duração: 100 minutos
Classificação Indicativa: Livre

Toda a programação tem interpretação em Libras
Entrada gratuita
Distribuição de ingressos:
Público preferencial: 1 horas antes do espetáculo (com direito a um acompanhante)
Público não preferencial: 1 hora antes do espetáculo (um ingresso por pessoa)
Estacionamento: Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Se o visitante carimbar o tíquete na recepção do Itaú Cultural:
3 horas: R$ 7; 4 horas: R$ 9; 5 a 12 horas: R$ 10.
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas.

Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô
Fones: 11. 2168-1776/1777
Acesso para pessoas com deficiência

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Cadengue deixa um vazio imenso no teatro

Encenador pernambuco estava remontando espetáculo Em Nome do Desejo. Foto: Reprodução do Facebook

Encenador pernambuco estava remontando espetáculo Em Nome do Desejo. Foto: Reprodução do Facebook

Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.
                                                 Calderón de La Barca

Antonio Edson Cadengue, um dos mais intensos encenadores brasileiros, morreu na madrugada desta quarta-feira (1). De forma súbita. Assim, de repente, como a morte chega e arrebata quem está muito ocupado com sua arte. O diretor, escritor e professor Cadengue preparava a nova montagem de Em Nome do Desejo, a partir da obra de João Silvério Trevisan. No fim de semana exibiu o primeiro ensaio aberto para o dramaturgo e passearam pelas praias de Pernambuco. Parecia feliz em levar de volta aos palcos seu maior sucesso, da década de 1990.

O que é a vida?, pergunta Calderón. Sabemos pouco. Antonio Edson deixa um vazio imenso e isso não é força de expressão. É real. A paixão pelo teatro exalava por seus poros; os olhos brilhavam. E como todo amante defendia sua arte com toda a força. Discordava, brigava. Nunca foi uma unanimidade. Colecionou afetos e alguns desafetos. Viveu profundamente as emoções, que articulava para os palcos.

Cadengue faleceu às 3h30, aos 64 anos. Levou uma queda em casa. Coisa que pode acontecer a qualquer um. Um acidente doméstico. Foi internado na unidade médica do Hospital Hapvida, no Recife. Complicou e chegou a óbito. “Infarto agudo secundário a uma arteriosclerose coronariana, que levou a um edema agudo do pulmão” é o que diz o laudo oficial como causa da morte.

O Teatro Valdemar de Oliveira será o palco para as despedidas, a partir das 8h de quinta (2). É uma merecida homenagem, já que o pesquisador escreveu sua tese de doutorado sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco – TAP, do qual o Teatro Valdemar de Oliveira é sede. No livro ele avalia cinco décadas da história do longevo grupo teatral recifense. O trabalho foi publicado em dois volumes pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

O sepultamento será no Cemitério de Santo Amaro, às 15h desta quinta-feira.

Antônio Cadengue nasceu em Lajedo, no Agreste de Pernambuco. Foi um dos fundadores da Companhia Práxis Dramática, nos anos 1970, e criou no início da década de 1990 a Companhia Teatro de Seraphim.

Montou clássicos, como Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare, muitas peças de Nelson Rodrigues – Toda Nudez Será Castigada, Senhora dos Afogados, Viúva, Porém Honesta e Doroteia e textos contemporâneos como os de Luís Reis: A filha do teatro, A morte do artista popular e Puro lixo, o espetáculo mais vibrante da cidade e de Aimar Labaki: Vestígios.

Mas qualquer palavra, essas palavras, tudo isso é muito pouco para falar de um artista tão brilhante, quer se goste ou não da arte que ele fazia. Ele deixa um vazio imenso. O teatro pernambucano está de luto.

Abaixo, um vídeo com um trecho da peça A Morte do Artista Popular, o merengue do Cadengue. Siga na luz.

 

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