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Prêmio Ariano Suassuna é prorrogado

O escritor, roteirista, redator e ator Cleyton Cabral e o escritor, professor e ator Raphael Gustavo conquistaram três prêmios cada um nas edições anteriores do concurso Ariano Suassuna de Dramaturgia

O 5º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia está com inscrições abertas até 8 de maio. Seria até 28 de abril, mas foi prorrogado. Portanto, mais um prazo para autores pernambucanos ou residentes no estado, limite geográfico do concurso.  

O prêmio é um dos poucos concursos de dramaturgia no Brasil. Nesta edição, serão distribuídos até 10 prêmios de R$ 5.100, nas categorias Teatro Adulto e Teatro para Infância.

Neste ano, excepcionalmente, serão reservados quatro prêmios para a Categoria Teatro Adulto e três para a Categoria Teatro para Infância. Serão destinados dois prêmios para dramaturgias escritas por mulheres cis ou trans, independente. Será destinado um prêmio para o gênero teatro de animação, independente da classe de cadastro, que pode ser feita no site www.mapacultural.pe.gov.br/oportunidade/242/

Ano passado e nos anos anteriores, o valor do prêmio individualmente chegou a R$ 10 mil, para o primeiro colocado e R$ 7 mil, para o segundo. A mudança, segundo o assessor de Teatro e Ópera da Secretaria de Cultura de Pernambuco, José Neto Barbosa, é resultado do plano de contingenciamento, que é uma resolução do governo que corta gastos ou amplia ações que não sejam exatamente da saúde. “A ideia de democratizar o acesso aos recursos surgiu na Comissão Setorial de Teatro de Pernambuco, que é uma instância de diálogo entre governo e sociedade civil”.

Segundo Neto, a alteração é pontual e foi motivada para democratizar os recursos num momento tão delicado. A Comissão Setorial, que foi eleita na conferência de Cultura e é presidida por Paula de Renor – “acredita que não é o momento para reforçar qualquer teor meritocrático. O melhor é redistribuir os recursos alcançando mais artistas”

Dois dramaturgos têm se destacado nas quatro edições do Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia, criado em 2015 pelo Governo do Pernambuco. O escritor, roteirista, redator e ator Cleyton Cabral e o escritor, professor e ator Raphael Gustavo.

Foto: Alex Ribeiro/ divulgação

ENTREVISTA // CLEYTON CABRAL

Cabral conquistou o primeiro lugar na categoria teatro adulto, com Talvez sim, talvez não (2016); segundo lugar também em teatro adulto, com Desculpe o atraso, eu não queria vir (2018) e primeiro lugar, em texto de teatro de animação, com Hélio, o balão que não consegue voar (2019). Ele é autor do livro de contos Planta baixa, lançado ano passado pela Editora Patuá, de São Paulo.

Alguns escritos de Cleyton já foram para a cena. Em 2010, os contos do seu blog inspiraram o espetáculo Para caber no teu sorriso, com direção de Rodrigo Cunha. Escritos do blog também renderam outros experimentos, como a leitura dramatizada Hoje quero falar de amor, sob direção de Rafael Almeida e cenas de um espetáculo do Coletivo Angu de Teatro (Projeto Abuso – Rumos Itaú Cultural).

O menino da gaiola foi encenado no Recife, sob direção de Samuel Santos em 2013. Em 2017,  o ator estreou seu primeiro monólogo, Solo de Guerra. E, no ano passado, a Cia. Paradóxos (SP) montou Desculpe o atraso, eu não queria vir, sob direção de Mário Goes e Fábio Mráz. Hélio, o balão que não consegue voar tem projeto de montagem por um grupo carioca.

Como você situa sua dramaturgia?
No teatro para a infância e juventude venho pesquisando temas tabus. No teatro adulto, temas como identidade, gênero, sexualidade e o próprio teatro atravessados de afeto têm me movido.

Existe algum segredo para conquistar tantos prêmios?
Acredito que seja pela temática, pela originalidade, não sei. Nunca peço os pareceres da comissão que avalia os textos.

Quem são seus mestres e / ou quais são suas referências na escrita dramatúrgica?
Luiz Felipe Botelho, Cícero Belmar, André Filho, Newton Moreno, Rafael Martins, Henrique Fontes, Grace Passô, Jô Bilac, Leonardo Moreira, Tiago Rodrigues.

O prêmio Ariano Suassuna cumpre seu papel? Qual é?
Olha, se a gente puder contar com o Prêmio Ariano Suassuna, já será um avanço. É o único prêmio voltado para dramaturgos no estado. É um incentivo para continuar escrevendo e ser reconhecido pelo trabalho.

Existe incentivo para a dramaturgia no Brasil?
Desconheço. Criar políticas culturais com um olhar para quem escreve para teatro seria um caminho interessante.

Tenho visto uma discussão nas redes sociais sobre a natureza do teatro. Se lives transmitidas pela internet são teatro ou não. O que você pensa sobre isso? O que é teatro?
Vou fazer a Glória Pires, prefiro não opinar. rs. Vamos lá: em meio à pandemia, nós artistas, nos vimos num beco sem saída. Não podemos lançar livros, encenar peças, abrir exposições etc. Inclusive, muitos de nós estamos disponibilizando nossos trabalhos para apreciação do público em casa. O isolamento é um momento de repensarmos nossas relações e, o fazer teatral, não fica de fora. A gente sabe que o teatro se dá pelo encontro do ator com o público dividindo o mesmo espaço, mas independente da área, vamos ter que encontrar novas soluções, modos de fazer, estratégias de sobrevivência.

Fala como você está enfrentando a quarentena? Está trabalhando em casa? Ou só nas suas criações?
Não tem sido fácil para uma pessoa superativa e inquieta como eu. Gosto de estar em movimento, transitando, flanando por aí. Imagine o tédio e a impaciência convivendo em 70m2? Ok, tenho um namorado parceiro, duas gatas lindas e “tempo de sobra”. Tempo para fazer o quê? O isolamento afetou diretamente meu único ganha-pão no momento, as oficinas que ministro de Escrita Criativa. Tinha uma turma fechada para o final de março e teve de ser cancelada. Sim. Tenho aproveitado esse “tempo de sobra” para ler e escrever. Nesse intervalo organizei dois livros inéditos (um de contos e um de poesia) e estou criando uma nova dramaturgia. Em paralelo, sigo na pós em Escrita Criativa da PUCRS/UNICAP, como aluno, em aulas por videoconferência.

Quais as estratégias de sobrevivência?
Como meus livros não estão em livrarias e ainda tenho umas dezenas deles em casa, estou divulgando nas minhas redes (@cleytoncabral) para entregas em todo o Brasil, via Correios. Também tenho pensado em fazer um projeto literário com financiamento coletivo, além de oferecer meus serviços de redator publicitário.

O que está fazendo para não endoidecer?
Regando as plantas, conversando com os bichos, cozinhando, tomando um vinhozinho, falando com os amigos.

Você tem medo da Covid-19? Numa escala de 1 a 10, quanto?
Quem não tem? Hahaha de 1 a 10? 11. E se eu já peguei esse vírus e não sei? Minha preocupação maior é minha mãe, que está com 74 anos.

Raphael Gustavo em sua casa em Vitória de Santo Antão. Foto: Ângelo Azuos

ENTREVISTA // RAPHAEL GUSTAVO

Raphael Gustavo brilhou em três edições do Ariano Suassuna. Em 2016, com Um Caso de Marias Ou de Maria Flor; O Gaioleiro, em 2017 e Conto de Passarinha, em 2019. Além dos Ariano Suassuna ganhou o Prêmio Mostev de dramaturgia adulta com Andarilhos da Poesia Pernambucana; Marcus Accioly de Poesia, com Encruzilhada e Manuel Bandeira de Poesia, com Havia um Pássaro.

Raphael Gustavo atesta a “extrema importância” das premiações como incentivo aos artistas que precisam de reconhecimento para produzir. “Muitos ainda estão invisíveis por falta de oportunidades”, pensa.

O núcleo pernambucano está montando o último vencedor do Ariano, Conto de Passarinha. O Gaioleiro é o projeto atual de seu grupo, A Cia Experimental de Teatro, e a Cia. Fiandeiros montou Um Caso de Marias Ou de Maria Flor.

Como você situa sua dramaturgia?
É bem difícil entender como eu faço isso. Cada texto vem por inspiração num tipo diferente de provocação. Uns surgem de minhas experiências familiares, outros da educacional com meus alunos, outros por ideias a partir do que leio e assisto. Mas, o mais forte é a defesa sobre temas ainda mal refletidos socialmente: A valorização da cultura popular, saúde mental, pedofilia, racismo, adoção, filosofias sobre o que é relacionamento…  E assim segue.

Quem são seus mestres e / ou quais são suas referências na escrita dramatúrgica?
Leio muitas coisas. Gosto das dramaturgias do César Leão, do Cleyton Cabral, do Samuel Santos. Fernanda Torres é uma inspiração de boa escrita também. De mestres, apenas os bons professores que me estimularam muito e me nortearam como eu poderia desenvolver uma boa escrita a partir do olhar da sensibilidade.O

O prêmio Ariano Suassuna cumpre seu papel?
O Prêmio Ariano Suassuna cumpre o seu papel muito bem, pois abre o edital contemplando todas as regiões e todos os artistas e escritores que queiram colocar suas obras na competição. A análise é por pseudônimos. Então a surpresa do mérito é legal.

Existe incentivo para a dramaturgia no Brasil?
Existe sim. Mas é pouco. Muito pouco. Sempre em editais competitivos. Isso é bom, mas limita muitas obras de obterem reconhecimento e recompensa pra custear esses autores. Precisamos de editais para literatura, fora de competições.

Existe uma discussão nas redes sociais sobre a natureza do teatro. Se lives transmitidas pela internet são teatro ou não. O que você pensa disso? O que é teatro?
Live de espetáculo não é Teatro! Ator odeia vídeo de espetáculo. Simples e pontual. Liberar gravações de peças no YouTube é desmerecedor. Chamem de recreação, contação de história, do que for. Mas a mídia do Teatro só existe para produção de material que faz sua divulgação. Teatro é ritual da presença. Do cheiro, do calor, da luz presencial, da energia. Se não podemos ir aos teatros nesses tempos, acho importante e válido que os atores demonstrem coisas para essas mídias. Mas não chamem de peça ou espetáculo. Muito menos, Teatro.

Fala como você está enfrentando a quarentena? Está trabalhando em casa? Ou só nas suas criações?
Estou enfrentando bem a quarentena. Moro só com meus gatos e faço meus próprios rituais de limpeza, comidas e cuidados. É mais saudável que dividir espaço. Em casa tenho trabalhado na produção de textos para minha página no Instagram @raphaelgustavo.writer e afinando dramaturgias, dando curso online, fazendo lives sobre arte e cuidados com a saúde mental e passando atividades para os meus alunos de Português e Teatro.

Quais as estratégias de sobrevivência?
Ficar em casa, higiene total e aumentar a imunidade com boa alimentação e exercícios físicos para liberar toxinas.

O que está fazendo para não endoidecer?
Interagindo com meus alunos e cuidando de minha casa. Isso tem sido essencial para eu me manter bem.

Você tem medo da Covid-19? Numa escala de 1 a 10, quanto?
Tenho medo sim. Escala 8.

O que é importante dizer agora, nestes tempos de isolamento social?
É importante dizer que o amor pelo próximo é a chave para S-o-b-r-e-v-i-v-e-r. É a partir disso que queremos nos cuidar e cuidar do outro. Desenvolver cura, alimentar os que precisam e escrever obras que os faça entender o quanto esse amor ainda precisa ser refletido e exercitado.

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Valdi Coutinho vai atuar em outros palcos

Valdi Coutinho, animador cultural no Recife, incentivador principalmente do teatro, morreu nesta terça-feira

Durante as filmagens do documentário Múltiplo Valdi, de Rafael Coelho

De espírito inquieto, Valdi Coutinho se pluralizou. Jornalista esportivo, crítico de teatro, dramaturgo, ator, escritor, professor, pintor, carnavalesco e religioso. No início deste ano foi lançado seu biodocumentário Múltiplo Valdir, dirigido, roteirizado e montado por Rafael Coelho, com produção de Cláudia Moraes, e de Amaro Filho, da Página 21, projeto aprovado pelo Funcultura.

Aos 77 anos, Valdi Coutinho morreu no começo da tarde desta terça-feira (14), no seu apartamento, no bairro de Santo Amaro, no Recife.

Vítima de três AVCs, Valdi se locomovia nos últimos tempos com dificuldade, mas mantinha sua conexão com o mundo através da redes sociais, onde deixava sua posição política mais conservadora ou treinava sua verve cômica.

Em 2015 foi o homenageado do 17º Festival Recife do Teatro Nacional e não perdeu a ironia para atestar que quase não acreditou, pois “as pessoas sempre lembram de quem está no poder (da mídia, do sucesso, da gestão pública, das finanças, etc) e eu estou tão apagadinho, há sete anos, depois que fiquei semiparaplégico em função das sequelas de dois AVCs que tive em 2009”, comentou na ocasião.

Valdi manteve uma coluna diária sobre artes cênicas no Diario de Pernambuco, Cena Aberta,  um espaço de prestígio que muito contribuiu para a difusão e o fortalecimento do teatro em Pernambuco. Sempre que falava dos 30 anos de labuta no Diario não deixava de agradecer às pessoas que lhe deram apoio: “quero dividir este mérito e reconhecimento com a jornalista Lêda Rivas, minha editora do Caderno Viver por duas décadas, os jornalistas Antônio Camelo, Adonias de Moura e José Maria, este último quem me entregou a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os três de saudosa memória”.

Por pouco, ele não foi padre. Duas tias investiram para que seguisse a carreira eclesiástica, mas faltou talento para o destino clerical, o que sobrava para as atividades artísticas e de comunicação. Começou a fazer teatro aos 10 anos no Seminário de Nazaré da Mata, depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, e vários musicais na cidade de Gurupi, Goiás.

No Recife, estreou com o elenco dos aspirantes ao TAP, na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, com direção de Valter de Oliveira. Depois vieram Hoje É Dia de Rock, direção de Marcus Siqueira; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com direções de Alex Gomes e Carlos Bartolomeu; Natal na Praça, direção de Clênio Wanderley; Jogos na Hora da Sesta, direção de Geninha Rosa Borges; As Tias, direção de Guilherme Coelho; O Beijo da Mulher Aranha, direção de José Francisco Filho; A Louca do Jardim, direção de Romildo Moreira; Cabaré Brazil¸ direção de Carlos Bartolomeu; O Buraco É Mais Embaixo, direção de Fábio Costa e Américo Barreto, entre outros.

Dirigiu dezenas de montagens entre elas, Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, com George Meireles, Feliciano Felix; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com Sharlene Esser. Também escreveu textos dramáticos tais como Os Coronéis Morrem Tarde; Paulete, Danação e Anjo Azul (inspirado num conto de Cícero Belmar)

Protagonizou dois curtas, um de Fernando Spencer, O Último Bolero no Recife, e outro de Ricardo Spencer, Força Brasil.

Como carnavalesco, assumiu o Baile dos Artistas depois de dois anos de assessoria de imprensa. No jornalismo esportivo, Valdi registra a façanha de cobrir quatro Copas do Mundo e uma Olimpíada. 

A jornalista Lêda Rivas, escreveu nas redes sociais: “Nosso companheiro estava, há muito tempo, afastado do dia a dia da redação. Acometido de problemas de saúde (sofreu três AVCs e tinha dificuldades de mobilidade) não foi esquecido pelos companheiros, os quais, eventualmente o cercavam de atenções e tentavam minimizar a crise financeira que enfrentava. Faz poucos anos, contei com a participação dele na confraternização em prol do Natal da APAE, que promovo junto com os coleguinhas. Ocasião em que partilhamos gratas e divertidas memórias e em que, ele, emocionado, agradeceu-nos o carinho demonstrado nas horas difíceis. Chorou: ‘Obrigado por se importarem.’ Não sei as circunstâncias da sua morte. E, nestes tempos cruéis de pandemia, lastimo que não possamos lhe prestar as últimas homenagens e dizer-lhe o quanto o seu espírito inquieto e os seus arrebatamentos nos ensinaram. Vai na paz de Deus, amigo. Qualquer dia, a gente vai se encontrar”.

Em novembro de 2015, postamos aqui no Satisfeita, Yolanda? essa entrevista com Valdi Coutinho, que reproduzimos aqui. 

ENTREVISTA // VALDI COUTINHO

Valdi, você trabalhou muito anos no Diario de Pernambuco. Você fez parte da editoria de Esportes também? Como eram divididas suas tarefas?
Passei quase 30 anos no DP e durante algum tempo me dividi entre Esportes, com o editor Adonias de Moura, e Viver – artes cênicas – com a editora Leda Rivas, o que não criava problema nenhum, pois os dois editores compreendiam minha simbiose entre o futebol e o teatro. Quando viajava, – e viajei muito, conheci toda a América do Sul, Estados Unidos, e fiz quatro Copas do Mundo (Argentina, Espanha, México e Itália), passando dois meses em cada um desses países,- era substituído na coluna diária de artes cênicas por jornalistas-colegas maravilhosos, tais como Sanelvo Cabral, Inês Cunha, Marilourdes Ferraz, entre outros, e nunca houve problemas. Grato, então a Leda Rivas e ao saudoso Adonias de Moura. José Maria, esse último foi quem me entregou  a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os dois de saudosa memória.

No período em que você atuou, o teatro pernambucano era mais vibrante? Tinha mais projeção?
Não, quando eu comecei a escrever sobre artes cênicas só havia o TAP, chamado de Jardim dos Oliveiras, o Tucap, Leandro Filho e seu teatro infantil. Aí eu fui incentivando, abrindo espaço, dando notícias sobre outras produções e começou o rebuliço, e passamos a ter um movimento teatral, chegando o Recife a ser o 3º polo de produção teatral. Enfim, sem falsa modéstia, o Recife começou a ter projeção nacional.

Como foi o seu encontro com o teatro? Como ator, diretor, crítico?
Naquela época não existia Internet nem redes sociais. O jornalista tinha que estar por dentro de tudo, bem informado sobre o que ia escrever, e eu estava até demais, só assim tinha informações, críticas e resenhas para escrever sobre teatro, diariamente. Aos 10 anos já fazia teatro interpretando Tarcísio, o mártir da Eucaristia, no Seminário de Nazaré da Mata, sob a direção do professor Higino. Depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, comandava o show Xô Arara, Arara Show, aos domingos, para fugirmos da sala de estudos, à noite. Aos 16 anos, na cidade de Gurupi, Goiás, dirigi vários espetáculos musicais apresentados no Cine Boa Sorte, de sr. Moisés, com coreografias, esquetes dramáticos e cômicos, etc, que lotavam a casa. Quando jornalista, no Recife, fiz estreia na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, pelo elenco dos aspirantes ao TAP, direção de Valter de Oliveira. Depois fui presidente do Teatro Ambiente, do MAC, substituindo Petrúcio Nazareno, fundei o Teatro Experimental de Olinda, TEO, onde despontaram inúmeros talentos, como o hoje famoso José Manoel.E não parei mais, fazendo e escrevendo sobre teatro.

Uma crítica de teatro ainda tem alguma serventia?
Uma crítica de teatro ainda tem incomensurável valor não só para o público mas especialmente para os que fazem teatro.

Você ainda escreve críticas? O que você acha importante analisar?
Não escrevo mais críticas. Mas, acho tudo muito importante na crítica, desde a análise do texto até da contrarregragem.

Como se forma um bom crítico de teatro?
Um bom crítico, ao meu ver tem que compreender tudo, desde os bastidores até o produto final de uma encenação.

Uma das grandes polêmicas da produção pernambucana foi a estreia, e a curta temporada, da montagem Um Bonde chamado desejo, da qual você era assessor de imprensa. A crítica, num caso raríssimo, foi publicada duas vezes em página inteira no JC, porque trocaram a assinatura do autor da matéria. E não era uma crítica favorável ao espetáculo. O que diria sobre isso?
Naquela época existia uma guerra demolidora, amarga, azeda, de bastidores. Conheço produtores que ligavam para os teatros a fim de saber quantas pessoas tinham ido ver o outro espetáculo em cartaz para compará-lo com o seu. Um Bonde Chamado Desejo foi vítima dessa discórdia, sobrou até pra mim, foram pedir minha cabeça no jornal porque eu fiz assessoria de imprensa do espetáculo. Sofri muito na época. Foi uma baixaria. Saímos incólumes dessa violência, o espetáculo fez sucesso e eu permaneci escrevendo sobre artes cênicas. Não mexe comigo, eu não ando só…

O que acha da cena teatral brasileira contemporânea? Estamos mais ricos ou mais pobres artisticamente
Acho que estamos mais pobres. O valor comercial do espetáculo prevalece, o público adora ver pintas no palco. Mas isso está passando graças a uma nova geração que está chegando com excelentes espetáculos

Na sua carreira de crítico tem algum texto que você se arrependeu de ter escrito. Por quê? Ou alguma crítica que você lamentou não ter escrito. Por quê?
Não, não. Quando eu achava que o espetáculo era pobre demais eu simplesmente não fazia crítica para não prejudicá-lo.

Quais as melhores peças que você já conferiu?
As melhores que conferi são muitas, mas eu destacaria as dirigidas por Antonio Cadengue, Carlos Bartolomeu, José Pimentel, Guilherme Coelho, José Francisco Filho, Geninha Rosa Borges, entre outros, os citados são os melhores encenadores para mim.

Você tem alguma mágoa do teatro ou do jornalismo pernambucanos?
Não tenho. Mágoas e ressentimentos provocam câncer, infarto, depressão, já não sei o que são esses sentimentos. Se houve, passaram, hoje eu vivo o presente e cada dia como se fosse o último.

O que você faz do seu tempo?
Amo. A Deus, à vida, ao mundo, antenado e animado pelas redes socais, pela Internet.

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Memória em chamas no Mercado Eufrásio Barbosa

Natali Assunção entrelaça vozes reais e ficcionais para investigar temas como aprisionamentos e liberdades femininos numa sociedade patriarcal no espetáculo Ainda escrevo para elas. Foto: Li Buarque / Divulgação

O espetáculo Ainda escrevo para elas joga foco sobre vidas de 11 mulheres comuns, de feitos minimalistamente extraordinários no enfrentamento de suas prisões subjetivas e sociais. O monólogo de Natali Assunção, com direção de Hilda Torres e Analice Croccia, percorre territórios de delicadezas e complexidades para traçar uma rebelião silenciosa (ou nem tanto) numa sociedade patriarcal.

Com a escuta da fala dessas mulheres de diferentes realidades sócio-econômico-culturais, as vivências, histórias e memórias, além da fricção com a escrita de Mia Couto, foi tecido esse monólogo, que faz duas apresentações, nos dias 10 e 11 de janeiro, no Teatro Fernando Santa Cruz (Mercado Eufrásio Barbosa – Varadouro, Olinda).

A peça integra o projeto Narrativas de uma memória em chamas, idealizado por Natali Assunção. Algumas ações foram traçadas para perscrutar os limites da liberdade e dos aprisionamentos no cotidiano feminino. Uma imersão na linguagem documental alinhavada pela literatura, pelo  ensaio fotográfico Espelhos, um filme e o monólogo. A dissertação Narrativas de uma memória em chamas: Uma experiência em teatro documentário, a ser defendida no início de fevereiro de 2020, no Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), traça pensamentos e vivências desse processo.

SERVIÇO

Ainda escrevo para elas
Quando: 10 e 11 de janeiro, às 19h30
Onde: Teatro Fernando Santa Cruz (Mercado Eufrásio Barbosa – Av. Joaquim Nabuco – Varadouro, Olinda)
Ingresso: R$ 30 e R$ 15

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O riso e a crítica corrosiva são armas do Marsenal

O projeto Marsenal retoma suas atividades no Recife com a estreia internacional do espetáculo Cabaré do Bonzo, com Claudio Ferrario e Olga Ferrario. Foto: Reprodução do Facebook

A cultura é perseguida sem trégua, os direitos humanos são saqueados, a democracia está na mira de um sujeito “nojento, irresponsável, inescrupuloso, elitista, segregador, corrupto e nefasto”. É assim que o Cabaré do Bozo pinta seu personagem principal, que juntamente com seus comparsas são responsáveis pelas desumanas reformas trabalhista e da previdência. Os números traduzem o estrago desse (des) governo: a fome atinge mais 12 milhões de pessoas, sem perspectiva de reversão, se depender “desses daí”. Desde o golpe de 2016 que a situação só piora.

As ridículas figuras que ocupam o Palácio do Planalto Central do Brasil e suas extensões, e a atmosfera tosca que envolvem essas trepeças servem de material para a criatividade, humor corrosivo e crítica implacável do espetáculo Cabaré do Bozo, que integra o Movimento Marsenal, que retoma suas atividades nesta quinta-feira, no Bar do Mamulengo, no Bairro do Recife.

       O Movimento Marsenal chega, rechega, volta, revolta…

“Para somar com quem não aceita o assassinato do povo das periferias e das florestas. Para somar com quem jamais achará natural que a fome e a miséria corroam tantos e tantas, enquanto alguns poucos se empanturram de tudo. Para somar com quem acredita que a saúde e a educação são direitos inalienáveis, que não podem, simplesmente, nos serem roubados. Somar com quem acredita na cultura como sinônimo de vida e, portanto, não se permitirá, em hipótese alguma, conviver com qualquer tipo de censura”.

Claudio Ferrario no Teatro Mamulengo

O Movimento Marsenal é um foco artístico e político de re-existência que funciona desde julho no Teatro Mamulengo, no Bairro do Recife. Surgiu de forma independente e sem patrocínio, com o objetivo de agregar os que são contra a censura e lutam pela democracia, segundo seus articuladores – Claudio Ferrario e as Violetas da Aurora, (coletivo formado por Ana Nogueira, Sílvia Góes, Fabiana Pirro e Mayara Waquim).

O projeto carrega as marcas do temperamento pernambucano, com um jeito irônico e demolidor de encarar a realidade e rir até de si mesmo. Mas sempre com doses cavalares de autoestima. Então, na estreia internacional do Cabaré do Bozo é possível que o público se depare com Damares da Goiabeira, Moro Marreco, Queiroz Rachadinha, Abraão Guarda-chuva, Erneqsto Planificador. Além do troglodita-mor.

A programação começa com o microfone aberto. Qualquer um pode falar o que quiser. É momento para combater as fakes News e as baboseiras. Depois do cabaré a pista fica pronta para a dança. 

“O Cabaré do Bozo nasce a partir de diálogos que escrevo há um tempo e que nós atualizamos um pouco e amarramos numa pequena brincadeira. Eu e Olga fazemos 9 personagens, entre eles, o próprio Bozo, Damares, Moro, Queiroz… e com Hugo Coutinho pensamos uma trilha – com músicas e sonoplastias – que amarrasse os quadros e que servisse para as trocas de roupas, que fazemos ao vivo…”, adiantou Claudio Ferrario mais cedo pelo mensager.

“Sabe-se que a fauna é vasta, composta por bichos os mais variados”, já alardeou Ferrario no Facebook. “Há os matreiros, os agressivos, os territoriais. Há os que só saem das suas tocas à noite, os que emboscam, os que se utilizam do mimetismo, para se aproximarem das suas presas, sem que sejam notados. Abrimos o vasto e deplorável leque de opções, composto por ministros, secretários, milicianos e familiares do Bozo e só faltamos arrancar os cabelos, para escolher quais estariam presentes nesse nosso cabaré”, confessou Claudio para seus milhares de fãs nas redes sociais.

Algumas dos depoimentos sinistros que serviram de inspiração do Cabaré do Bozo:

        • “Querem transformar as nossas crianças em quilombolas indígenas homossexuais, mas, eu vou mudar isso daí, tá ok?”
          Aquele energúmeno
      •  
        • “Rosanja, minha conje, também detesta o metalurjo Lula. Mas como já dizia Aristotles, bom mesmo é brocles com figo de galinha.”
          O Ministro da Justiça, que come as
          sílabas das palavras proparoxítonas
      •  
        •  “A mulher nasceu pra ser mãe e a gravidez é um problema que dura apenas nove meses.”
          Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, uma máquina incansável de dizer asneiras e idiotices
        • “Depositei um dinheirinho na conta da Primeira Dama, porque passei um ano, vendendo e comprando carros usados e acumulei 1 milhão e 200 mil, aí, quis lhe fazer esse agrado.”
          Queiroz, o “gênio” da Economia
      •  
        • “Se a Terra fosse redonda e girasse em torno do próprio eixo, no mínimo deveríamos sentir tonturas.”,
          Ministro das Relações Exteriores

 

Claudio Ferrario e Olga Ferrario interpretam figuras do Planalto. Foto: Reprodução do Facebook

Serviço

Cabaré do Bozo, com Claudio Ferrario e Olga Ferrario
Onde: Bar Teatro Mamulengo (Rua da Guia, 211, de frente para a Praça do Arsenal)
Quando: 9 de janeiro, às 19h
Ingressos: Contribuição espontânea /chapéu solidário / pague quanto quiser-puder

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Carne ou Vodka? distende a dor do outro

Daniel Barros, Hermínia Mendes e Eric Valença dividem a cena em Carne ou Vodka?

A barbárie marca o percurso da dita humanidade. Já a espetacularização da barbárie ganha menu variado em todas as mídias e é consumida com gosto por muitos ou enfiada goela abaixo. O espetáculo Carne ou Vodka? faz vibrar algumas manifestações dessas violências em três historietas.

A peça tem sessão extra de encerramento da temporada nesta quarta-feira (29/05) no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, às 20h.

A temática do abuso se desdobra em três eixos alçado ao limite do absurdo: feminicídio, pedofilia e violência contra idosos . Hermínia Mendes, Daniel Barros e Eric Valença dividem a criação coletiva na dramaturgia, na direção e interpretação. O trabalho vem sendo desenvolvido há um ano, sem patrocínios públicos ou privados, e está aberto a novos desdobramentos.

O trio adjunta a potência acusatória de Carne ou Vodka? na violência dos atos que chegam ao limite do suportável. Os corpos dos atores encaram o estado de tensão para provocar o espectador a um posicionamento mais ativo e com mais empatia pela dor do outro.

E sabemos que as possíveis associações entre as cenas do teatro e o acirramento da intolerância não são obras do acaso. Mas sim envenenamentos causados por atitudes preconceituosas do mandatário temporário no Brasil e seus asseclas. 

SERVIÇO
Carne ou Vodka
Quando: Nos dias 08 e 15 de maio às 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho – Cais do Apolo
Ingressos: R$ 40 inteira e R$ 20 meia entrada
Classificação Etária: 16 anos.

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