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As performances do baile

Yolandas

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Dois anos de Satisfeita, Yolanda?

Muito felizes com os dois anos do Yolanda! Foto do querido Nando Chiappetta

Muito felizes com os dois anos do Yolanda! Foto do querido Nando Chiappetta

Estamos em festa! O Satisfeita, Yolanda? está completando dois anos e, para comemorar, nada melhor do que um baile! Será neste sábado (26), a partir das 21h, no Espaço Coletivo, no Bairro do Recife. A festa integra a programação paralela do 19º Janeiro de Grandes Espetáculos e conta com o apoio do próprio festival e ainda do Coletivo Angu de Teatro.

Entre as atrações da noite de celebração estão a Trupe Ensaia Aqui e Acolá, com um trechinho da montagem O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, melodrama com direção de Jorge de Paula, baseado no folhetim A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela. Ano passado a montagem circulou o Brasil inteiro através do projeto Palco Giratório, do Sesc.

Já o Coletivo Angu de Teatro encena uma dublagem que está em Ópera, espetáculo com texto de Newton Moreno e direção de Marcondes Lima, que estreou em 2007 e não é apresentado no Recife desde março de 2009. A montagem acabou de fazer uma curta temporada de sucesso no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, dentro do projeto Visões coletivas.

Duas divas da música se apresentam hoje na festa!  Ópera, do parceiro de sempre, o Coletivo Angu de Teatro. Foto: Sávio Uchôa

Ópera, do parceiro de sempre, o Coletivo Angu de Teatro. Foto: Sávio Uchôa

O dramaturgo, diretor e bonequeiro Fernando Limoeiro, pernambucano nascido em Limoeiro e radicado em Minas Gerais, também participa, com a leitura dramática de Satisfeita. Limoeiro escreveu o texto especialmente pra festa!

E, para completar, o ator Paulo de Pontes faz uma cena de Deus sabia de tudo, peça da companhia paulista Os Fofos Encenam, que estreou em 2001 em São Paulo. A montagem tem texto e direção de Newton Moreno e trata de temas como homofobia e homoerotismo. A cena ainda contará com a participação de Tay Lopez, do grupo XPTO.

Depois das cenas e performances, a festa continua ao som dos DJ’s Palla e Pepe Jordão. A entrada na festa é gratuita, mas é limitada à capacidade do espaço.

Satisfeita, Yolanda? – O baile
Quando: Sábado (26), a partir das 21h
Onde: Espaço Coletivo (Rua Tomazina, 199, Bairro do Recife)
Quanto: Gratuito (limitado à capacidade do espaço)

Paulo de Pontes faz uma cena de Deus sabia de tudo com a participação de Tay Lopez

Paulo de Pontes faz uma cena de Deus sabia de tudo com a participação de Tay Lopez

"Cala-te, Clotilde...!" Virou piada interna! Uma alegria tê-los na nossa festa! Foto: Priscila Buhr

“Cala-te, Clotilde…!” Virou piada interna! Uma alegria tê-los na nossa festa! Foto: Priscila Buhr

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No risco surpreendente da palavra

Na solidão dos campos de algodão, na VI Mostra Capiba. Foto: Pollyanna Diniz

“É impossível, compreendo, penetrar na solidão de outra pessoa. Se é verdade que sempre podemos vir a conhecer outro ser humano, ainda que em um grau pequeno, isso só acontece na medida em que o outro quiser se fazer conhecido (…). Onde tudo é intratável, onde tudo é hermético e evasivo, não se pode fazer nada senão observar. Mas se a pessoa consegue ou não extrair algum sentido do que observa é uma outra história” (Paul Auster)

Encontrei essa citação de Paul Auster lendo um artigo de Antonio Paulo Rezende, professor de história da UFPE. E relutei, diante de tanta força que salta ao texto da peça Na solidão dos campos de algodão, de Bernard Marie-Koltès (1948-1989), em usá-lo logo no início desta apreciação crítica. Mas as palavras vão se impondo…e é justamente delas que podem sair embates surpreendentes.

Na Mostra Capiba já era a terceira vez que eu via a montagem de Na solidão…, dirigida por Antonio Guedes. Mas não parecia. Claro que o jogo de cena já não era inédito para mim; mas como o texto pode se fazer novo! De novo! Até porque talvez seja imprescindível dizer que trata-se de um teatro em que a palavra se estabelece em primeiro plano – claro que há outros elementos fundamentais; mas a base é a palavra, que não necessariamente se mostra em sua plenitude logo no primeiro encontro. Por isso mesmo, mais uma vez foi tão bom “ouvir” esse espetáculo. São várias as leituras que podem se desprender desse texto, inclusive uma que diz respeito a uma tensão sexual entre os personagens.

São apenas dois atores – Edjalma Freitas e Tay Lopez – que travam um diálogo, um embate ferrenho. Um deles tem algo para vender; e o outro é o “cliente”. Não são personagens facilmente identificados pelos trejeitos, pelo jeito de vestir, pelo vocabulário. Distinguem-se basicamente pelo discurso, o que retira não só o espectador da sua zona de conforto, mas também o ator. Não há uma composição de personagem no sentido tradicional – mas como lidar com a palavra pura e fazer com que ela chegue ao público? Os olhos podem dizer muito neste momento; a expressão de surpresa ou de raiva. É um lugar de interpretação diferente.

Como se estivessem dentro de um ringue, os atores travam lutas incorpóreas. Há uma distância “regulamentar” muito bem definida pelo encenador, além de uma postura corporal. Sem aproximações, toques, tapas. É um obra muito plástica, quase uma instalação. A cenografia de Doris Rollemberg nos leva a este mundo isolado do encontro; mas também nos distancia. Diante de um texto que já não é de uma assimilação instantânea, da ausência do contato físico entre os atores, talvez o público pudesse se sentir mais próximo; como júri que não pode exprimir sua intenção, mas não quer perder uma expressão dos advogados de defesa ou acusação.

Para mim, a montagem de Na solidão dos campos de algodão foi uma das melhores produções pernambucanas do ano. Uma ótima surpresa, assim como foi anos atrás Encruzilhada Hamlet, também da Cia do Ator Nu, com Edjalma Freitas e Henrique Ponzi no palco; e texto e direção de João Denys.

São criadores que se permitem optar por um caminho que não é o mais fácil, que pode até afastar o espectador, ávido por emoções fortes e pasteurizadas, rir ou chorar. Em Na solidão, ao contrário, o palco é o lugar do risco; a interpretação é o lugar do risco. É preciso ter paciência para ouvir, para digerir, para encarar um texto que não corresponde, geralmente, aos nossos desejos frívolos. “Não que eu tenha adivinhado o que você deseja, e nem tenho pressa de saber…”

Edjalma Freitas e Tay Lopez, com direção de Antonio Guedes

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Santos Fofos*

* POR TAY LOPEZ

Terra de Santo, novo espetáculo dos Fofos Encenam, estreia hoje no Sesc Belenzinho. Foto: João Caldas

A querida Yolanda Pollyanna Diniz me deu uma tarefa: escrever algo sobre a estreia do espetáculo Terra de Santo aqui em São Paulo. A primeira resposta foi negativa, pois não sou jornalista, não sou crítico e tenho um afeto muito grande pelos integrantes do grupo Os Fofos Encenam. Portanto, não gostaria de ser leviano com artistas que tanto admiro. Resultado: assisti ao espetáculo, e cá estou eu escrevendo algumas singelas palavras a respeito das emoções que a peça me provocou.

“Nos teus olhos eu vi o mundo inteiro Jesuíno.” É através desta frase que noto estar completamente mergulhado nas palavras de Newton Moreno e percebo-me num local onde só a arte é capaz de nos colocar. Aquele espaço de encantamento e poesia onde nos encontramos com nós mesmos. Logo no começo do espetáculo, somos convidados a entrar no alojamento de um grupo de cortadores de cana e, aos poucos, vamos percebendo o entorno: um radinho sintonizado numa transmissora local, mesas, uma pequena cozinha, um telefone público, um beliche, um grande telhado sobre nossas cabeças e objetos pessoais dispostos como num set de cinema, onde os personagens vão surgindo e fazendo valer toda aquela cenografia detalhista.

O público continua apenas como observador e assim vamos acompanhando a história contada como se estivéssemos mortos num espaço cheio de vida pulsante. Sinto-me assim, pois não existe uma relação direta de interação. Apesar de estarmos muito próximos dos atores, somos invisíveis.

A personagem responsável por nos colocar em contato com um fio de história, que começa a fisgar o espectador através de um anzol bastante carismático é Mariene (Kátia Daher). Com um humor sutil de figuras populares que habitam o universo dos canaviais nos envolvemos no enredo.

Dramaturgia é de Newton Moreno

De acordo com a sinopse, um grupo de mulheres ocupa terras de uma usina canavieira, alegando que é uma propriedade dada em cartório a um santo, espaço sagrado, onde rituais são realizados. A essas terras destinadas à cana elas nomeiam como ‘terra de santo’. As máquinas aproximam-se, mas elas, guardiães do lugar, não deixam as terras. Esse é o eixo principal da peça, e a partir dele se dá uma viagem poética e uma conversa com ‘mortos da sociedade da cana’, outras famílias e etnias e suas histórias de resistência ou rompimentos com espaços sagrados, tradições e fé.

Atravessamos uma porta e vamos para um “quintal”, onde a partir de agora, não me sinto mais como um morto que passa desapercebido. Somos olhados diretamente nos olhos e nos sentimos cheios de bençãos pelas figuras que nos recebem na cena. São quatro Santeiras (Carol Brada, Cris Rocha, Erica Montanheiro e Simone Evaristo). Pegam em nossas mãos e nos conduzem para a acomodação em torno do tablado que se apresenta em nossa frente. A Terra de Santo. Fica para trás a ambiência de um espaço coloquial e agora nos encontramos num cenário com cheiros, cânticos místicos, penumbras e luz de velas, típicas de um templo sagrado. Nesse templo, as Santeiras vão, ora representando, ora incorporando, ora apenas nos apresentando a história de seus antepassados a partir dos mortos que fazem, solenemente, ressurgir no espaço. Um passeio, através dos séculos, pela brasilidade que hoje conhecemos, apresentadas como um panorama sacro/social das histórias contadas por índios, judeus, cristãos e negros. História que nos chega aos olhos pela bela proposição de encenação dos diretores Newton Moreno e Fernando Neves.

São essas mães, as Santeiras, responsáveis por nos nos colocar diretamente em contato com nossa própria ancestralidade, formação social, econômica e religiosa. Um espetacular retrato histórico e filosófico do Brasil muito bem alinhavado por um dramaturgo que dispensa elogios. Surgem então metáforas que nos obrigam a ver o mundo através de nossos próprios olhos e que também nos fazem percorrer os labirintos de nosso pensamento em forma de sinapses constantes que trazem à tona as nossas memórias pessoais e despertam um confronto direto com o que hoje chamamos de homem contemporâneo.

Se me percebo um morto invisível no primeiro movimento do espetáculo, me percebo um morto com voz no segundo e ao blackout final resta a pergunta: onde está a minha terra sagrada e o que fazer para que ela não seja destruída? Sim. As reflexões políticas propostas pelo poético espetáculo do grupo de teatro Os Fofos Encenam me põem em contato com algo mais amplo do que a contemplação de uma trajetória épica/trágica de um personagem em busca de sua completude. Terra de Santo nos provoca um dilatar da pupila.

Um elenco, sem dúvidas talentoso, nos presenteia com uma obra que transcende o ato teatral. A pesquisa e processo colaborativo deste grupo inquieto de artistas é bastante perceptível, dando extrema propriedade à toda equipe a respeito daquilo que está sendo dito no sagrado espaço do fazer teatral. Se em Assombrações do Recife Velho, me sinto como uma criança perante o medo das almas que nos assombram e em Memória da Cana, num diálogo bastante intenso com o Pai; em Terra de Santo, me vejo tendo uma sincera e silenciosa conversa com a grande Mãe que nos gerou. Colocando-me num embate direto com a maturidade e com o reconhecimento de uma fertilidade espiritual que nos habita e nos faz caminhar. Colocando-me frente aquilo que nos constrói ou nos destrói.

* texto do ator Tay Lopez. Ele viu ontem uma apresentação só para convidados da peça Terra de santo, do grupo Os fofos encenam. A montagem entra em cartaz hoje, no Sesc Belenzinho.

Serviço:
Terra de santo, da Cia Os Fofos Encenam
Quando: hoje, às 19h. Amanhã (14), às 16h30.
Temporada: terças e quartas-feiras, às 20h30. Sábados, às 21h. Domingos, às 17h. (Exceto dia 28/10 – Unidade fechada ) até 11/11.
Onde: Sesc Belenzinho, São Paulo
Quanto: R$ 24 e R$ 12

Montagem fica em cartaz no Sesc Belenzinho até novembro

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Entrevista “coletiva” – Daquilo que move o mundo

Daquilo que move o mundo. Fotos: Ivana Moura

Como estou fora do Recife, ainda não vi Daquilo que move o mundo. Mas há muitos meses, nas conversas no Central, nos encontros nos teatros, sabia da montagem e do que ela estava “causando” nos envolvidos. Com direção de Tiche Vianna, uma das fundadoras do Barracão Teatro, a peça traz no elenco três jovens criadores: Kleber Lourenço, Jorge de Paula e Tay Lopez. Para saber um pouquinho mais da peça e, principalmente, do pensamento deles, resolvi fazer uma entrevista “coletiva”. Os atores mesmos se entrevistaram e fizeram perguntas para a diretora. Saíram considerações importantes sobre o fazer teatral, sobre o que os move, sobre crises e amizade. Obrigada, meninos!

ENTREVISTA // KLEBER LOURENÇO, JORGE DE PAULA, TAY LOPEZ

Jorge: Por que valeu a pena mover-se tanto para realizar o Daquilo que move o mundo?
Kleber: Valeu a pena porque sabia que nesse processo aprenderia demais! Valeu a pena por que queria voltar a trabalhar de forma coletivizada, por acreditar no trabalho dos criadores envolvidos e por querer experimentar outras linguagens artísticas. Muito pela vontade de crescer, me desafiar e pelo amor ao teatro.

Kleber: Como era o Jorge de 1998, entrando na Universidade Federal, e como você se vê hoje, em relação ao teatro?
Jorge: Bem, quando iniciei meu Curso de Artes Cênicas tinha 17 anos e nenhuma bagagem em Teatro. Ser ator nunca havia sido cogitado por mim em minhas peregrinações adolescentes na escolha do meu “futuro profissional”. Foi só no 3º ano do Ensino Médio, depois de ter vivenciado no colégio ações que envolviam teatro e dança, que o interesse começou. Deixei de ser cirurgião plástico para ser ator. Entrei na Universidade e fui lançado ao abismo. Sem rede de segurança. O “novo” me assustou muito. Virei pedra. Passei algum tempo trancafiado em mim. Convivia de forma mais espontânea com poucas pessoas. A maioria de fora da Universidade. Entretanto, foi a convivência com pessoas maravilhosas da minha turma de Artes Cênicas – companheiros de vida e de cena até hoje – que aos poucos venci todos os receios, as vaidades, e fui, de fato, sentindo-me mais confortável com a minha escolha profissional. Hoje, depois de muitos anos dedicados a dobradinha arte-educador/ator, reconheço-me como ator e estou vivenciando dedicação exclusiva a isso. Todos os meus receios encontraram lugar. E aqueles que não encontraram pouso certo, caminham menos ansiosos. Afinal, fazer teatro no Brasil é um ato de resistência. Quando muitas coisas gritam para você “não faça”, eu insisto. Com satisfação.

Espetáculo está em cartaz no Espaço Fiandeiros

Jorge: Por estar já há algum tempo morando em São Paulo, como você percebe o teatro pernambucano?
Tay: De fato, faz aproximadamente 14 anos que resido em São Paulo, porém, minha percepção com relação ao teatro que se faz em Pernambuco (posso falar melhor de Recife), é um tanto quanto interna, pois apesar de morar longe, sempre acompanho as notícias pelos veículos de comunicação que tenho acesso e também por estar na cidade no momento em que acontece o Janeiro de Grandes Espetáculos, um apanhado da produção anual. Percebo que, hoje em dia, o teatro de Grupo tem sido uma constante na cidade. Haja vista as várias sedes que foram abertas nos últimos anos e o pensamento coletivo como um todo. Sobretudo os atores que saíram da universidade e se reuniram com outros, comungando de um pensamento artístico, compartilhado e conceitual para a cena Teatral. Percebo uma transição das “produções” para os “coletivos”, onde não mais há artistas contratados, subalternos em prol de um espetáculo e sim uma junção de pessoas que desejam falar de algo que os atinja, que os comova. Claro que auxiliados pelos editais que apareceram na cidade nos últimos 10 anos. Em São Paulo, acompanhei de perto a formatação da Lei do fomento, desde as reuniões do “arte contra a barbárie” até a implementação da Lei. Sabemos que São Paulo tem uma população 8 vezes maior do que a de Recife e isso reverbera na quantidade de espetáculos em cartaz na cidade, assim como nas verbas compartilhadas, através das leis de incentivo, dos SESCs, e de outras formas capitais que viabilizam a produção local. Com a implementação do Fomento vários pequenos espaços alternativos surgiram na cidade, pois uma das condições da Lei é a continuidade de pesquisa. O que levou vários grupos a constituírem uma sede. Isso está diretamente ligado à linguagem utilizada, saindo dos palcos italianos tradicionais, tendo o espectador mais próximo da encenação e flertando com as artes plásticas, performáticas, com a dança, as multilinguagens… Tendo um teatro que podemos chamar de contemporâneo. Para isso fez-se necessário um política cultural, deixando o Teatro de ser um produto e sim um resultado artístico real, sem maneirismos de enquadramento num gosto massificado e comercial. Sendo assim, fazendo uma analogia com o que vi surgir em São Paulo, percebo um movimento parecido em Recife, tendo as suas devidas proporções. Percebo um maior engajamento político dos artistas locais e das vontades de ter em Recife uma cena forte e que dialogue com o que está se fazendo no Mundo, não como uma cópia, mas sim como um reflexo do entorno que vivemos: homens contemporâneos e inquietos. Percebo ainda uma carência de atividades de formação e gostaria que existisse um maior diálogo com os outros estados do Nordeste, pois temos muitas questões culturais pertinentes à nossa região e isso poderia ser um caminho para acharmos algo definitivamente próprio. Percebo que estamos caminhando para um lugar onde o Teatro, não seja mais visto como algo secundário na vida dos artistas, e sim, seja no sentido mais pleno, a profissão que dá a inquietação necessária para criar e o conforto para viver. Ainda é uma Utopia, claro. Mas percebo que este pensamento tem estado mais presente. E só ele para fazer com que nos juntemos em prol de mudanças no legislativo que rege as artes cênicas no estado.

Direção e dramaturgia são de Tiche Vianna

Tay: Posso dizer que nos conhecemos praticamente crianças, cheios de vontades e de expectativas com relação ao mundo artístico. O que ficou do menino de Caruaru e o que, naquela época, era semente e hoje é fruto? Qual adubo ainda te faz florescer?
Kleber: Daquela época Tay, ainda existe (espero que por muito tempo) o menino curioso e com a necessidade de se expressar pela arte. Viver dela e nela. Hoje percebo frutos colhidos, mas a vontade de aprender do menino ainda é a mesma. É o adubo. Saber que a estrada é longa e sempre tenho mais desafios a me fazer.

Tay: Atuar nos põe em contato diretamente com invisibilidades e epifanias que nos norteiam na construção de um personagem ou no momento da apresentação do próprio espetáculo. Qual a sua ligação com o Sagrado? Ele existe?
Jorge: O sagrado se revela em mim quando invisto em algo e me conecto a ele com empenho e respeito. Seja meu ritual matinal de só falar pela manhã depois de beber um copo de água até o hábito de orar todas as vezes que sou impulsionado para isso. Dessa forma, o sagrado está presente em minha vida de muitas formas e a linguagem teatral é uma delas. Para mim, toda nova experiência em teatro é um vazio. Cada construção de personagem, cada récita é um momento imprevisível e irreproduzível. Por isso, para garantir a realização das minhas criações em teatro preciso me conectar ao sagrado. É ele que me conduz às necessidades específicas de cada obra e permite que eu consiga corporificar personagens. A minha arte é justamente meu corpo movido pelo sagrado.

Kleber: O que o deslocamento para fora do Recife te trouxe? O que você tem e o que falta?
Tay: O deslocamento para fora das fronteiras do Recife me fez ter uma perspectiva de olhar diferente. Sobre mim mesmo, sobre minha terra e sobre o Teatro que desejava. Saí de Recife ainda muito jovem com apenas 19 anos e saí em busca de formação. Em 1999, a cidade oferecia enquanto terceiro grau, a licenciatura em Artes Cênicas, através da UFPE. Um tanto quanto desestimulado por alguns resolvi não prestar vestibular e partir atrás de uma formação mais voltada para o trabalho do ator. Escolhi São Paulo e fui! Comecei muito novo no Recife, com apenas 11 anos, fazendo um teatro mais comercial onde nem eu saberia distinguir, na época, qual seria a diferença entre o Teatro-arte-depoimento e o teatro reprodutor de fórmulas televisivas. Deslocar-me da cidade me pôs obrigatoriamente em contato com a multiplicidade teatral de São Paulo. Colocou-me obrigatoriamente em contato com o que me faz ator. Não entrei na USP para fazer Bacharelado em Artes Cênicas, mas tive a oportunidade de participar de processos de montagens da EAD, de participar de seleções de elenco, onde terminei sendo convidado pra ingressar no XPTO, grupo que até hoje faço parte, fiz inúmeras oficinas gratuitas nos SESCs, nas Oficinas Culturais do Estado, no SESI… Enfim… Estar em São Paulo, colocou-me num estado real, contínuo e obrigatório de formação artística. Acredito que somos a representação de tudo o que vivemos. Das peças a que assistimos, dos livros que lemos, dos filmes que vemos, dos amigos que temos, dos lugares que visitamos. Não posso negar que estar em São Paulo é estar mais próximo, culturalmente, do que está se produzindo no Mundo. Sabemos que a cidade é rota dos principais espetáculos, das principais exposições e cidade-sede de intercâmbio dos artistas mais variados. Ter acesso a essas obras é um pouco se educar e beber numa fonte que realmente te alimenta. Sinto falta de uma formação tradicional, de um diploma, sinto falta da família e do mar que também me faz ator. Vivo em crise e estou, sem demagogia, mais atento ao que não tenho do que ao que tenho. Tenho vontades, muitas… Todo final de ano penso em desistir de tudo, em prestar um concurso público e virar um engravatado burocrático. Penso que ainda existe tanta coisa pra aprender. Falta-me tempo e dinheiro para consumir mais arte, para viajar mais, para parar só para estudar… Mas sei que tenho um histórico que não me arrependo. E que me honra. Tenho uma felicidade extrema em exercer a minha função no espaço teatral. Tenho cada vez mais respeito pela arte. Tenho sorte em ter encontrado artistas instigantes no meu caminho. Tenho gratidão em poder melhorar enquanto ser humano, através do Teatro. Começo a acreditar que tenho mais convicções e certezas, conseguindo sair da fase do SIM para tudo e começando a dizer NÃO para aquilo que não me movimenta enquanto artista. Sinto falta de algo que nem sei o que é. Mas é isso o que me move. Talvez seja a tal completude mítica que nos faz caminhar!

ENTREVISTA // TICHE VIANNA

Jorge: O que Recife moveu em você?
Tiche: Recife moveu em mim sentimentos antagônicos. Esta cidade com sua história estampada nas ruínas dos antigos palácios, casarões, ruas estreitas e gente de tudo que é jeito mostrando a mistura de tantas culturas, me deixava alegre diante da possibilidade de ousar e triste diante das suas próprias contradições. A cidade me revelava a imposição da modernidade como se os edifícios quisessem se distanciar de alguma coisa que não se quer ver. Aí eu percebia o abandono das coisas essenciais, como o do bem estar das pessoas simples. Diante de um mar incrível, onde não podemos nos banhar por causa dos tubarões ou diante de rios imensos onde não entramos por causa da poluição, compreendi o que significa a aparência de ter coisas das quais não podemos usufruir e o quanto este choque de realidades tão coladas umas às outras é capaz de criar vilões e submetidos. Mas há muito afeto em Recife, muitas carícias também. O antagonismo se deu em mim porque ao mesmo tempo em que fazia algo que amo fazer: criar teatro, inventar mundos que são reflexos iluminados de realidades presentes, lutava contra essa tristeza de ver tão explicitamente um abandono imenso e um salve-se quem puder ou quem for capaz de se salvar. Me salvei porque estava criando e estava com gente que também sabe se salvar na arte. Mas pisamos terrenos minados várias vezes. Acho que o espetáculo retrata esses sentimentos. Não é possível ultrapassar o limite até que se reconheça estar preso entre as margens!!! Recife moveu em mim a percepção de muitas margens e a urgência de ultrapassá-las!

Atores entrevistaram diretora

Tay: Levando-se em consideração nossas inquietações artísticas e nosso eterno caminho de busca, tendo sempre a consciência de uma obra em construção, onde mora a segurança num trabalho teatral? Qual pilar te sustenta e te dá estabilidade para conduzir um processo?
Tiche: Tay, a segurança não mora, ela nem existe. É uma invenção da necessidade humana para termos coragem de ousar. Não é preciso segurança para fazer teatro, é preciso confiança. Não confiamos porque estamos seguros, confiamos porque acreditamos no que podemos. O que me sustenta são as relações com meus parceiros de criação durante o processo. Meu pilar é a confiança que eles mostram ter sobre suas possibilidades de inventar o desconhecido. Nunca me sustento em um processo de criação, ao contrário, desmonto e porque me desmonto construo, pra não ficar para sempre aos pedaços. Quem desmonta não tem estabilidade nehuma. Se fosse estável eu quebraria. Vivo porque me desestabilizo diante de cada novo acontecimento gerado pelo movimento infinito da existência.

Kleber: O que ficou da experiência conosco?
Tiche: Ficou admiração, ficou amizade, ficou parceria, ficou confiança, ficou prazer, ficou a pergunta: porque foi tão árduo chegar ao fim?

Serviço:Daquilo que move o mundo
Quando: Quinta e sexta-feira, às 20h; e sábados e domingos, às 18h. Até 07 de outubro
Onde: Espaço Fiandeiros – Rua da Matriz, 46, 1º andar, Boa Vista.
Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações: (81) 4141.2431
Lotação sujeita ao espaço da sala: 30 lugares

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