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O cirurgião do Teatro de Amadores de Pernambuco

Espetáculo Um Sábado em 30, com Reinaldo de Oliveira ao centro. Foto: Acervo TAP / Divulgação

Espetáculo Um Sábado em 30, com Reinaldo de Oliveira ao centro. Fotos: Acervo TAP / Divulgação

Cena de Um Sábado em 30

Cena de Um Sábado em 30, dramaturgia de Luiz Marinho, com direção original de Valdemar de Oliveira

Cena de Onde canta o Sabiá

Cena de Onde canta o Sabiá, montagem de 1958, com direção de Hermilo Borba Filho

Uma das mais notáveis figuras das artes cênicas pernambucanas ganha um perfil biográfico com o lançamento do livro Reinaldo De Oliveira: Do Bisturi ao Palco (260 páginas, R$ 80). Assinado pelo encenador Antonio Edson Cadengue, o volume integra a coleção Memórias, da Cepe Editora, com lançamento nesta sexta-feira (23), às 19h, na Academia Pernambucana de Letras.

Desde meados do século 20, a medicina e o teatro convivem em harmonia na vida do ator, diretor, escritor e médico de 87 anos, admirado e aplaudido nos dois campos. Filho e herdeiro artístico do fundador do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), o teatrólogo Valdemar de Oliveira e da atriz Diná de Oliveira, Reinaldo domina a “maquinaria” teatral com a destreza de cirurgião. Ator talentoso e versátil, ele atuou em montagens do TAP, a exemplo de Arsênico e alfazema, Vestido de Noiva e Um sábado em 30 e também dirigiu inúmeros espetáculos do grupo criado em 1941.

Cadengue o coloca no mesmo patamar de atores brasileiros consagrados, como Paulo Autran e Sebastião Vasconcelos. O biógrafo faz a comparação com a autoridade de quem estudou no mestrado e no doutorado da USP a trajetória do TAP, que resultou na publicação TAP sua cena & sua sombra: O teatro de amadores de Pernambuco, em dois tomos.

O perfil biográfico, como o autor prefere chamar, foi erguido a partir de entrevistas realizadas com Reinaldo de Oliveira, e outras fontes como artigos de jornal. “Tentei conhecê-lo o mais que pude em suas facetas, ao longo de sua trajetória de vida: afinal, Reinaldo completou 87 anos e eu não teria o menor direito de julgar suas qualidades e seus defeitos. Estive mais interessado no que ele me revelava”, explica Cadengue.

A narrativa que avança em várias direções busca ressaltar os marcos na vida de Reinado, dos antepassados, da infância à maturidade; formação; relacionamentos amorosos e casamentos; amizades e especialmente o talento artístico.

Cadengue destaca nesse itinerário o pensamento e sentimento desse homem de teatro, que deu prosseguimento ao trabalho do pai, Valdemar de Oliveira, e “que soube honrar os princípios que nortearam até hoje o Teatro de Amadores de Pernambuco, sem descuidar-se dos aspectos éticos e estéticos”.

Reinaldo, que reconstruiu o Teatro Valdemar de Oliveira depois do incêndio de outubro de 1980, encara atualmente o desafio de recuperar e reabrir o teatro da família Oliveira, situado no bairro da Boa Vista, região central do Recife.

Capa do livro

Capa do livro

SERVIÇO

Lançamento do livro Reinaldo de Oliveira – Do bisturi ao palco, de Antonio Edson Cadengue
(Cepe Editora) 260 páginas, R$ 80 o exemplar
Quando: Nesta sexta-feira (23), às 19h
Onde: Academia Pernambucana de Letras (Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças)
Informações: (81) 3268-2211

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TAP iluminado

Depois de 20 anos de espera, Cadengue consegue lançar sua obra sobre o TAP. Foto: Laís Telles

“O repertório do Teatro de Amadores não é acessível ao grosso do público. Nem se poderia argumentar que esse mesmo repertório deveria ser oferecido, como elemento educativo, a certa massa do público. Porque a seriedade da representação, a pureza do ambiente, a elevação da peça teriam de ser constantemente perturbadas pela incompreensão da plateia, nada adiantando, finalmente, à formação de uma mentalidade superior. O Teatro de Amadores não ‘faz’ educação; faz cultura”. O depoimento é polêmico; e revela um pouco de quem era Valdemar de Oliveira (1900-1977), criador de um dos grupos mais importantes da história das artes cênicas do estado: o Teatro de Amadores de Pernambuco, TAP.

Poderia ser elitista, assumidamente anticomunista, mas ao mesmo tempo, Valdemar foi um homem de teatro como poucos. Propôs rupturas com o estabelecido no palco, como o fim do ponto para os atores e a força da figura do encenador em detrimento do ensaiador, levou “a mulher da sociedade” ao palco, e essa mesma “sociedade” trouxe ao teatro para assistir à primeira peça com temática gay – Esquina perigosa, em 1949. “Paulo Francis escreveu, por exemplo, que Ariano Suassuna só foi capaz de escrever Auto da Compadecida por conta do TAP. Que a estrutura moderna se deveu ao olhar que o TAP levou para a cena”, atesta o encenador e professor Antonio Edson Cadengue que, por dez anos, se dedicou a estudar o grupo.

Odorico, o bem amado teve direção de Alfredo de Oliveira em 1969 com Reinaldo de Oliveira no papel principal

Hoje, às 19h20, Cadengue lança na Academia Pernambucana de Letras (Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças) os dois volumes do livro TAP – Sua cena & sua sombra: o Teatro de Amadores de Pernambuco (1941-1991) (Cepe Editora, 936 páginas, R$ 90). O trabalho é resultado da dissertação de mestrado (1988) e da tese de doutorado (1991) que o encenador defendeu na Universidade de São Paulo, sob orientação de Sábato Magaldi. O livro – um resgate histórico fundamental para que possamos entender a trajetória do teatro moderno em Pernambuco – já esteve para ser editado algumas vezes e, agora, 20 anos depois, está saindo por conta do apoio do Sesc Piedade.

O peru estreu em 1984 com direção de Luiz de Lima

Programa da peça À margem da vida

“Quando cheguei ao Recife, as pessoas não davam muito crédito ao TAP. Não sei se eram desrespeitosas, mas era como se o grupo já tivesse cumprido o seu papel. Anos depois, no início dos anos 1980, tive acesso ao acervo do TAP na casa de Diná Rosa Borges de Oliveira (esposa de Valdemar). E foi aí que despertei. Queria saber o que as pessoas tinham dito daqueles espetáculos. Era um tipo de teatro que víamos nos livros de história do teatro, em referências longínquas”, conta. Para se ter uma ideia, de 1941 a 1991, o TAP encenou 92 espetáculos. Cadengue faz descrições e análises das peças, além de escrever também um capítulo sobre Valdemar.

Para esta geração – que não viu montagens de peso do TAP, que só vai ao Teatro Valdemar de Oliveira, que nem de longe é mais a casa da elite intelectual do teatro -, Cadengue espera, por exemplo, que Reinaldo de Oliveira, que ganhou a responsabilidade de levar o grupo adiante depois que o pai Valdemar morreu, volte aos palcos. “É uma pena que Reinaldo não esteja no palco, mas ele tem 81 anos e é impressionante, está no hospital todas as manhãs, operando”, conta. “O caminho eu não sei qual é, mas acho que poderia haver um redimensionamento do que é o TAP, uma escola, uma montagem com atores mais jovens e mais velhos”, complementa. Será que os anos que levaram a depuração estética do TAP podem devolvê-la? Isso é mesmo possível? Questionamentos para mais dez anos de pesquisa.

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