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Um minuto para dizer que te amo emociona

Elenco de Um Minuto pra dizer que te amo. Foto: Divulgação

Elenco de Um Minuto pra dizer que te amo: Lucas Ferr, Célia Regina, Carlos Lira e Vanise Souza. Foto: Divulgação

Há muitas formas de abraçar o espetáculo Um minuto para dizer que te amo, produção do pernambucano Matraca Grupo de Teatro, do Sesc Piedade. E analisar. A montagem vem de uma trajetória notável de reconhecimento do público e de seus pares. Carrega no currículo seis prêmios do Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano (Melhor Diretor: Rudimar Constâncio; Melhor Atriz: Célia Regina Rodrigues Siqueira; Melhor Atriz Coadjuvante Vanise Souza; Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora: Samuel Lira; Melhor Iluminação: João Guilherme de Paula e Melhor Maquiagem: Vinicius Vieira.

Bem, o Prêmio Apacepe é a principal premiação na área do teatro pernambucano (outro dia me sugeriram que o Yolanda criasse uma premiação) e parece-me ser importante para a classe como instância de distinção. Não vou me ater aos procedimentos específicos de escolhas do Prêmio Apacepe que, talvez, mereçam uma outra reflexão.

A recepção dos pares ao espetáculo Um minuto para dizer que te amo é recheada de adjetivos, que tentarei evitar. A peça tematiza uma doença incurável, o Alzheimer, que atinge 15 milhões de pessoas em todo mundo. Quando ela chega muda a vida. Mas mesmo quem não tem um parente ou amigo que sofra do Mal de Alzheimer pode ser tocado pela encenação, que foi trabalhada na direção de emocionar o público.

Em cenas alternadas acompanhamos a relação de um homem velho com o seu filho e de uma mulher e sua cuidadora, separados pela doença. Amélia tenta resgatar os fios das lembranças da mãe de Lúcio.

A montagem de Rudimar Constâncio chama para camadas do real na interpretação. Mas busca outras expressões para alardear fantasmas e materializar labirintos de seres deslocados de sua memória.

A peça amplifica as fragilidades humanas. E isso é explorado com maestria pela encenação. Os canais de comunicação trazem sentimentalismo caro a todos nós. Ninguém é pleno de sua existência. Até os mais poderosos não podem prever com certeza o que irá ocorrer com seu corpo ou seu futuro.

Esse sentimento, meio esquecido, de finitude, é convocado na construção da peça e isso causa efeitos na plateia. Ver o declínio das funções cognitivas dos personagens e o impacto disso na cena pode atinge os nervos da plateia.

Um minuto para dizer que te amo merece uma análise mais detalhada – e espero que a encenação tenha uma vida longa – mas por ora digo algumas palavras sobre o elenco.

A composição de Célia Regina Siqueira para a personagem da velha é convincente e comovente. Nos gestos e andar, na fala, nos gritos, nas atitudes pueris ou nas vontades cheias de si. É uma interpretação para se aplaudir de pé. Existe possibilidade de identificação do espectador com aquela figura.

Carlos Lira também se supera no personagem do pai deslocado de sua própria história de vida. É um grande ator pernambucano e tem uma atuação tocante, com nuances de leveza e olhares perdidos. Seus deslocamentos falam com todos os sentidos da ameaçadora solidão. Vanise Souza faz uma cuidadora entre amorosa e enérgica. Também estão na peça Edes di Oliveira, Douglas Duan e Lucas Ferr.

O texto de Luiz Navarro e dramaturgismo de Moisés Monteiro de Melo Neto compõem esse mosaico afetivo. Mas tem falas que atritam o ouvido (ou a minha sensibilidade) quando fazem uso de frases feitas depois da exibição de uma potente malha poética. A música ao vivo é executada e cantada pelos atores. O cenário de Séphora Silva trabalha com uma simbologia de esconder e descortinar, que dá margem para uma viagem lúdica pelo tempo da memória. A maquiagem/ caracterização de Vinicius Vieira ganha uma importância grande nessa peça, já que se torna pele e alma dos atores.

O que se deve esquecer? Ali no palco, recordações perdidas se embaralham com memórias impossíveis de se deslembrar e também com lembranças inventadas. É uma visão da vida no seu ocaso, das perdas de si mesmo e da certeza que o ser humano – apesar de toda arrogância – é muito pequeno diante do Universo.

Ficha Técnica:
Texto: Luiz de Lima Navarro
Encenação: Rudimar Constâncio
Elenco: Carlos Lira, Célia Regina Rodrigues Siqueira, Vanise Souza, Edes di Oliveira, Douglas Duan e Lucas Ferr
Dramaturgia e cenas adicionais: Moisés Monteiro de Melo Neto
Assistente de direção e partitura do ator: Sandra Possani
Partitura do corpo: Paulo Henrique Ferreira
Partitura da voz do ator: Leila Freitas
Direção musical, músicas originais e arranjos: Samuel Lira
Cenografia, figurinos e adereços: Séphora Silva
Maquiagem e visagismo: Vinicius Vieira
Projeto de luz e execução: João Guilherme de Paula
Programação visual: Claudio Lira
Orientação da pesquisa e organização do programa: Rudimar Constâncio
Revisão dos textos: Acrimôri Araújo
Cenotécnico e contrarregra: Elias Vilar
Execução de cenário, adereços e figurinos: Manuel Carlos
Pintura da malha do espectro: Altino Francisco
Costureiras: Helena Beltrão, Irani Galdino e Ana Paula Tavares
Serralheiro: Israel Galdino
Direção de produção: Ana Júlia
Direção geral: Rudimar Constâncio
Realização: Grupo Matraca de Teatro/Sesc Piedade

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Angelicus Prostitutus vai ao shopping dos endinheirados

 

 Angelicus Prostitutus. Foto: Ivana Moura

Marcelino Dias e Lucrécia Forcioni em Angelicus Prostitutus. Fotos: Ivana Moura

A hipocrisia é uma praga. Os humanos se vendem por cargos, ascensão social, sexo e dão um jeitinho de legitimar suas ações degradantes. Com visual colorido, Angelicus Prostitutus amplia a escala dessas corrupções para provocar cócegas na plateia. A peça detona seu arsenal de comicidade em 3 de fevereiro, no Teatro RioMar (shopping recifense dos endinheirados).

Na peça, o cidadão comum Angelicus – quando recebe uma pressão a mais da vida – mata, rouba e mente. Vai a julgamento, mas os juízes são mais confiáveis: Nossa Senhora e Demônio. Humor na veia extraído do jogo teatral que provoca o riso crítico.                                                                                                                                                                                                            100 palavras

Angelicus Foto: Ivana Moura

Célia Regina observa performance de Nossa Senhora (Mauricio Azevedo) e do Demônio (Douglas Duan)

Angelicus Foto: Ivana Moura

Carlos Lira no papel do Padre na peça dirigida por Rudimar Constâncio

FICHA TÉCNICA
Elenco:
Marcelino Dias: Angelicus e Coro
Carlos Lira: Padre e Coro
Célia Regina: Mulher de Prendas Domésticas e Coro
Douglas Duan: Palhaço e Coro
Lucrécia Forcioni: Terezinha e Coro
Bruna Bastos: Prostituta e Coro
Luciana Lemos: Prostituta e Coro
Edes di Oliveira: Policial e Coro
Marinho Falcão: Policial e Coro
Mauricio Azevedo: Cidão e Coro
Gabriela Fernandes: Jornaleiro e Coro
Gabriel Conolly: Músico e Coro
Texto: Hamilton Saraiva
Encenação: Rudimar Constâncio
Assistência de Direção: Almir Martins
Direção de Arte (figurinos, cenários, adereços e maquiagem): Célio Pontes
Assistente de Direção de Arte: Manuel Carlos
Músicas e Arranjos: Demetrio Rangel e Douglas Duan
Direção musical: Demetrio Rangel e Douglas Duan
Iluminação e Operação de Luz: Luciana Raposo
Preparação Corporal e Coreografias: Saulo Uchôa
Preparação da Voz para a cena: Leila Freitas
Preparação Circense: Boris Trindade Júnior
Preparação da Voz para o canto: Douglas Duan
Preparação Percussiva: Charly Du Q
Contrarregragem e Cenotécnica: Elias Vilar e Clovis Júnior
Vídeo Maker: Almir Martins
Direção de Produção: Ana Júlia da Silva
Produção Executiva: Lucrécia Forcioni
Confecção de Adereços: Manuel Carlos, Jerônimo Barbosa
Confecção de Figurinos: Manuel Carlos, Helena Beltrão, Irani Galdino
Confecção de Máscaras: Douglas Duan e Célia Regina
Confecção de Materiais de Iluminação: Luciana Raposo
Execução de Cenários: Manuel Carlos.
Programação Visual: Claudio Lira
Fotos e Filmagem: Maker Mídia
Direção Geral: Rudimar Constâncio
Realização: Sesc Piedade

Realização: Opus, Ministério da Cultura e Governo Federal

SERVIÇO
Angelicus Prostitutus
Quando: Dia 3 de fevereiro (sexta), às 21h
Onde:</strong> Teatro RioMar: Av. República do Líbano, 251, 4º piso – RioMar Shopping
www.teatroriomarrecife.com.br

Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos

Ingressos:
Balcão: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Plateia Alta: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
Plateia Baixa: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia)

Canais de vendas oficiais: bilheteria do Teatro RioMar Recife (terça a sábado, das 12h às 21h, e domingos e feriados, das 14h às 20h)
Vendas online: www.ingressorapido.com.br
Televendas: 4003-1212

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Para rir dos desejos pecaminosos

A peça ridiculariza e crítica figuras de poder e prestígio social. Foto:

A peça ridiculariza e crítica figuras de poder e prestígio social. Foto: Markermídia/ Divulgação

Os desejos humanos podem ser coisas medonhas. Tem potência para elevar ou arrasar com as criaturas. O espetáculo Angelicus Prostitutus, com texto de Hamilton Saraiva e direção de Rudimar Constâncio, explora os desejos pecaminosos, sob a ótica cristã. A humanidade corrompida pelas prostituições, no plural, é triturada pelas linguagens de comédia, da farsa, do circo, entre outras.

A prostituição abre um leque bem maior que o sexual. Há muitas outras maneiras. A depravação pode se inserir nas relações ideológicas; a imoralidade, na igreja; a devassidão, na família; a promiscuidade, no estado; o vício, na escola ou a perdição na polícia. Mas todos esses julgamentos são feitos a partir do riso.

Angelicus é um homem comum, mas daqueles que têm propensão a cometer erros. Não titubeia em mentir ou roubar e pode cometer até assassinatos. O personagem é julgado por Nossa Senhora e pelo Demônio, depois que morre. E os companheiros da vida pregressa assumem os papeis de   testemunhas e acusadores.

O espetáculo cumpre curta temporada no no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, nesta quinta-feira (7) e nos dias 14 e 21 de abril, às 20h. A montagem é do o grupo Matraca, do Sesc Piedade, e leva à cena 12 personagens, entre padre, policial, prostituta, jornaleiro, músico.

A arrecadação da bilheteria dessas apresentações será utilizada para custear a viagem do grupo ainda este ano para Portugal. A montagem foi convidada para compor a programação do ENTREtanto MIT Valongo – Mostra Internacional de Teatro. E já tem agenda para o festival Porto Alegre Em Cena.

Ficha técnica

Texto: Hamilton Saraiva
Encenação: Rudimar Constâncio
Elenco: Marcelino Dias, Carlos Lira, Célia Regina, Douglas Duan, Lucrécia Forcioni, Bruna Bastos, Luciana Lemos, Luiz Gutemberg, Marinho Falcão, Mauricio Azevedo, Gabriela Fernandes e Gabriel Conolly
Assistência de Direção: Almir Martins
Direção de Arte (figurinos, cenários, adereços e maquiagem): Célio Pontes
Assistente de Direção de Arte: Manuel Carlos
Músicas e Arranjos: Demetrio Rangel e Douglas Duan
Direção musical: Demetrio Rangel e Douglas Duan
Iluminação e Operação de Luz: Luciana Raposo
Preparação Corporal e Coreografias: Saulo Uchôa
Preparação da Voz para a cena: Leila Freitas
Preparação Circense: Boris Trindade Júnior
Preparação da Voz para o canto: Douglas Duan
Preparação Percussiva: Charly Du Q
Contrarragragem e Cenotécnica: Elias Vilar e Clovis Júnior
Direção de Produção: Ana Júlia da Silva
Produção Executiva: Lucrécia Forcioni
Confecção de Adereços: Manuel Carlos, Jerônimo Barbosa
Confecção de Figurinos: Manuel Carlos, Helena Beltrão e Irani Galdino
Confecção de Máscaras: Douglas Duan e Célia Regina
Confecção de Materiais de Iluminação: Luciana Raposo
Execução de Cenários: Manuel Carlos.
Programação Visual: Claudio Lira
Fotos e Filmagem: Makermídia
Direção Geral: Rudimar Constâncio
Realização: Sesc Piedade

SERVIÇO

Angelicus Prostitutus
Quando: Dias: 7, 14 e 21 de abril, às 20h
Onde: Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu, Boa Viagem
Ingresso: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

 

 

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Sesc Piedade amplia Dia do Teatro

Em Angelicus Prostituto, Douglas Duan interpreta o Demônio. Foto: André Nery

Em Angelicus Prostitutus, Douglas Duan interpreta o Demônio. Foto: André Nery

Criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI), quando da fundação do Teatro das Nações, em Paris, o dia mundial do teatro é comemorado anualmente em 27 de março. Desde 80.000 anos a.C. essa arte muito antiga vem se transformando, assinalada por rituais e muitas histórias; e atravessada por questionamentos de todas as ordens no contemporâneo. A fogueira é outra daquelas épocas primitivas, mas o fogo prossegue a arder e incendiar espíritos criativos.

O Sesc Piedade (PE) resolver ampliar as celebrações do Dia Mundial do Teatro e o Dia Nacional do Circo. Desde domingo realiza a Semana do Teatro, com nove apresentações de espetáculos. A programação segue até o dia 19 de março, no Teatro Samuel Campelo, no Colégio Divino Mestre, na própria unidade do Serviço Social do Comércio e na Praça do Viaduto de Prazeres , todos em Jaboatão dos Guararapes, com acesso gratuito.

Rapha Santacruz interpreta o pupilo, aperfeiçoar os seus dons ilusionistas

Rapha Santacruz interpreta o pupilo, aperfeiçoar os seus dons ilusionistas

As pessoas querem ser reconhecidas. Não é diferente para um jovem mágico, que busca os elogios de seu mestre. Na peça Haru – a primavera do aprendiz o espaço-tempo busca ativar a imaginação do espectador. A história ocorre numa tenda de feira livre, onde mora um mestre aparentemente oriental. O pupilo Haru – nome em japonês para “primavera” -, é defendido pelo ilusionista Raphael SantaCruz.

Os dois personagens inventam um universo paralelo, quando o do tempo que não se mede com os ponteiros do relógio. Nesse lugar, o ilusionismo revela segredos ocultos e transforma a realidade. Em Haru são apresentados vários truques mágicos . A peça é dirigida por Marcondes Lima, com iluminação de Eron Vilar e trilha sonora de Marcelo Sena.

Fruto de pesquisa sobre o teatro medieval e renascentista, o espetáculo Angelicus Prostitutus, com direção de Rudimar Constâncio e elenco do Grupo Matraca de Teatro, formado no Sesc de Piedade, faz uma apresentação amanhã. O tema da prostituição é explorado nas mais variadas facetas. A sexual é a mais conhecida, mas há outras, como aponta o texto, a partir de aparelhos ideológicos, como igreja, estado e família.

Com o espírito dos autos medievais, a peça explora as interferências divinas e punições. A dramaturgia é assinada por Hamilton Saraiva (1934-2005), dramaturgo, ator, diretor e pesquisador fluminense. A comédia expõe uma humanidade corrompida. Arquétipo do homem comum, Angelicus assassina, envenena, mente e rouba. O personagem é julgado por Nossa Senhora e pelo Demônio, após a morte.

O elenco é composto por 12 atores, que também cantam, tocam instrumentos e executam números circenses. Entre os veteranos estão Marcelino Dias, Carlos Lira e Célia Regina.

Ainda estão previstas as apresentações de Caliban, Bote a mão que ainda tá quentinha, Homenagem ao Malandro, Luzia no Caminho das Águas, As Travessuras de Mané Gostoso. O encerramento é com a montagem Sebastiana e Severina, do Teatro Kamikaze, que mostra duas rendeiras que sonham em encontrar um príncipe encantado para casar. A distribuição de senhas de acesso é realizada uma hora antes do início de cada peça .

SERVIÇO
Semana do Teatro – Sesc Piedade
De 13 a 19 de março
Locais: Sesc Piedade, Teatro Samuel Campelo e o Colégio Divino Mestre
Entrada gratuita

Programação

Dia 13/03 (domingo), 16h.
Aboio – Toada Ligeira para Surubim – Grupo Proscênio
Onde: Praça do Viaduto de Prazeres

Dia 14/03 (segunda), 19h30
Curral Grande – Grupo do Curso de Interpretação para Teatro – Sesc Piedade
Onde:: Sesc Piedade

Dia 15/03 (terça),16h
Haru – A Primavera do aprendiz
Onde:: Teatro Samuel Campelo

Dia 15/03 (terça), 19h30
Caliban – Companhia Fiandeiros de Teatro
Onde:: Sesc Piedade

Dia 16/03 (quarta), 19h30
Angelicus Prostitutus – Grupo Matraca
Onde:: Teatro Samuel Campelo

Dia 17/03 (quinta), 15h
Bote a mão que ainda tá quentinha – Grupo Teatral o Tempo Não Para
Onde:: Sesc Piedade

Dia 17/03 (quinta), 19h30
Homenagem ao Malandro – Grupo do Curso de Interpretação para Teatro – Sesc Piedade
Onde:: Teatro Samuel Campelo

Dia 18/03 (sexta), 16h
Luzia no Caminho das Águas – Grupo Engenho de Teatro
Onde:: Teatro Colégio Divino Mestre

Dia 18/03 (sexta), 16h
As Travessuras de Mané Gostoso – Cia Meias Palavras. Recife-PE
Onde:: Teatro Samuel Campelo

Dia 19/03 (sábado), 16h
Sebastiana e Severina -Teatro Kamikaze. Recife-PE
Onde:: Teatro Samuel Campelo

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Peça As Confrarias expõe lado podre do poder

Espetáculo As confrarias, montagem da Cia Teatro de Seraphim. Foto: Larissa Moura

Uma mulher do povo contra um mundo injusto, desumano e cruel. Como Antígona, heroína de Sófocles, Marta desafia os poderosos para sepultar seu ente querido. O dramaturgo Jorge Andrade (1922 -1984) foi buscar material no Brasil colonial (tempo da mineração) para falar das atrocidades que brasileiros anônimos foram vítimas no final da década de 1960. Uma estratégia para estabelecer o distanciamento crítico.

O espetáculo As Confrarias leva para o centro da cena a trajetória de uma mãe, Marta, na sua determinação por enterrar seu filho, José, um ator assassinado. As autoridades desconfiaram que ele participava de movimentos revolucionários e o extinguiram. Sua morte, como sua vida, vale pouco para os detentores do poder, mas não para a sua mãe. José multiplicava seu corpo em muitas vidas, nas suas metamorfoses de ator. Morto vira uma arma em mãos maternas para lutar contra a prepotência e a hipocrisia desses “clubes” que se arrogam ser senhores do destino material e espiritual de toda comunidade. No final do espetáculo ela fala: “(…) Sabe por que o deixei naquele adro? Por que usei seu corpo? (…) porque… se eu o enterrasse com minhas mãos, esqueceriam que você viveu… e porque morreu”.

Nilza Lisboa, como Marta, Roberto Brandão (José) e Carlos Lira (Sebastião)

Não, não é uma peça fácil de ser erguida. A começar pelo número de personagens, mais de 40. As mudanças temporais também exigem uma engenharia (produção, verba para traduzir a opulência das confrarias) e criatividade para não cair no didatismo. E também uma pulsação contemporânea para que a peça não seja encarada como um episódio longínquo do passado. Criar nervuras que toquem e signifiquem no presente.

Escrita em 1969, a peça As Confrarias ficou inédita até este ano, quando a Cia. Teatro de Seraphim encarou o desafio de encená-la. A montagem fez temporada no Teatro Barreto Júnior, no Recife, e participou há pouco do  Aldeia Yapoatan – II Mostra de Artes em Jaboatão dos Guararapes.

O encenador Antonio Cadengue diminuiu a peça, cortou cenas, personagens, multiplicou papéis para um mesmo intérprete. O espetáculo de um único ato está dividido em dois planos de ação: presente e passado. A Marta do presente é interpretada por Lúcia Machado. A do passado, por Nilza Lisboa. Alternando entre passado e presente, estão as passagens – muito bonitas, por sinal – da mãe e de Quitéria, namorada de José, carregando uma rede com o corpo inerte do filho de Marta. As portas do cenário significam, fecham e abrem, em movimentos de revelação/ocultação. A cenografia é assinada por Doris Rollemberg.

Portas se abrem para revelar a passagem do morto

Um dado histórico é de fundamental importância para o entendimento dessa luta. Não existiam cemitérios públicos no período colonial brasileiro. Os que existiam funcionavam junto às igrejas, em solo dito sagrado. As igrejas guardavam os registros de nascimento, casamento ou morte. Pense num poder!!! Isso passa a ser um problema para Marta, porque seu filho não era vinculado a nenhuma ordem.

E os integrantes das irmandades e confrarias não eram santos e estavam muito mais preocupados com o reino da Terra e os seus prazeres materiais do que com o reino do Céu. Funcionavam como clubes fechados que serviam aos interesses de determinados grupos sociais. Para participar de cada uma delas havia uma longa lista de exigências. E por trás dessas exigências se escondiam a tirania de seus dirigentes, que manipulavam discursos e regras a partir de seus interesses, dando interpretações bem pessoais às leis.

Pároco da Irmandade de São José (Rudimar Constâncio) pressiona Marta

Pároco da Irmandade de São José (Rudimar Constâncio) pressiona Marta

Marta, uma desclassificada, questiona o poder das confrarias ao aparecer em cada uma delas para pedir um lugar para sepultar o corpo de José. É um embate individual contra o mundo hostil que a cerca. Os diálogos estão repletos de tensão e ironias de todos os lados.

A peleja de Marta é travada em um único dia, em Vila Rica (hoje Ouro Preto, Minas Gerais), no século XVIII, à época da Inconfidência Mineira. Andrade não enfocou os que a Pátria consagrou como heróis. O dramaturgo põe uma lente de aumento na relação de despotismo dos religiosos para com os marginalizados. E desnuda os procedimentos de exclusão por parte de quem estigmatiza os abandonados da sociedade. No caso os confrades desqualificam, eliminam de seus quadros tendo como parâmetros – não muito claros – questões de cor e raça. Muitas profissões também são alvo de perseguição, a de ator é uma delas.

A protagonista de As Confrarias também é personagem de outra peça de Jorge Andrade, O Sumidouro, em um papel secundário de uma empregada questionadora. Em As Confrarias, Marta conduz a trama. O debate sobre o papel social do produtor de arte também é levantado pelo autor em O Sumidouro, só que lá as crises de criação se concentram na figura do dramaturgo.

Os bastidores do poder são expostos a partir das confabulações, intrigas e decisões das irmandades e confrarias.

Os bastidores do poder são expostos a partir das confabulações, intrigas e decisões das irmandades

Como sabemos desde as bancas do colégio, devido à exploração do ouro, Minas Gerais teve um desenvolvimento muito grande. As “ligas” dirigidas pelos religiosos gostavam de exibir opulência. Na peça aparecem quatro de muitas que existiram em Vila Rica, no século XVIII. São elas: Irmandade do Carmo (confraria dos brancos e ricos); Irmandade do Rosário (dos negros puros); Irmandade de São José (dos pardos que recebia os artistas) e Irmandade da Ordem Terceira das Mercês (que juntava negros, brancos e mulatos).

A primeira Confraria visitada é a da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, que recusa o pedido:

Ministro – Não sabe que infiéis, suicidas e atores não podem ser enterrados em igrejas?

Marta – Uma confraria cativa em gargalheiras de sangue, de crença, interesses, de leis, torna-se covil de tiranos. Não seria aqui que deixaria o corpo do meu filho…

Antes desse arremate há todo um jogo de revelações até a conclusão de que o filho era ator, uma profissão considerada perigosa e marginal.

A Confraria do Rosário, que reúne escravos e ex-escravos, foi a segunda a ser visitada. “Meu filho viveu entre pessoas como vocês(…) e amou mulher de sua raça”, argumenta Marta. Mas por meio do embate discursivo ela chega à conclusão de que essa irmandade é tão preconceituosa quanto a outra: “A única diferença entre vocês e o Carmo é a cor da pele. Escondem-se atrás dela, e só sabem se lamentar. O que geram seus pais é produto de venda, compra ou troca. Escravizam também por este ouro! São tão odientos quantos os brancos”.

A Irmandade São José, dos mulatos, é a terceira a ser visitada por Marta. Lá também é rechaçada. Gananciosos e ávidos pelo poder, tentam conseguir informação sobre os inconfidentes para negociar em benefício próprio. Marta dá o troco deixando uma sacola de areia, que eles pensam que é ouro.

Cobiça é um dos pecados desses grupos

Cobiça é um dos pecados desses grupos

A quarta e última visitação de Marta é feita à Ordem Terceira da Mercês, irmandade que, teoricamente, admite sujeitos de todas as origens. O debate dos seus integrantes é o mesmo das outras confrarias, ouro, poder e desta vez se divertem com a notícia de que Marta pregou uma peça na irmandade de São José.

“Devem estar aqui os que pensam como meu filho, os homens que ele procurava. É esta a minha igreja”, provoca Marta. Depois de uma longa e torturante inquirição por parte dos religiosos, a protagonista grita: “Por quem meu filho morreu? Por vocês? Malditos hipócritas!”

Anjo Negro de Mapplethorpe em sequência de poses

Anjo Negro de Mapplethorpe em sequência de poses

As cenas seguem uma ordem de revelações. Abre com o ator Gilson Paz como o Anjo Negro de Mapplethorpe em sequência de poses (algumas carregando flores) para celebrar as imagens do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989), famoso por suas fotografias de nus masculinos, carregadas de erotismo homossexual. Esse Anjo volta a parecer no decorrer do espetáculo, ou para saturar sentidos Terra/Céu, para investir na cena de sensualidade ou estabelecer conexões entre cenas.

A interpretação dos atores salienta o jogo de teatralidade. Isso ganha grandes proporções nos embates entre Marta e os confrades. Mas não há muitas variações entre presente e passado. No geral há uma frieza na montagem, que não aquece as palavras do autor. É como se as interpretações seguissem uma linha monocromática e previsível – mesmo com a alternância entre planos e a exposição de episódios soturnos, não ganham relevo.

O texto de Jorge Andrade é complexo e vai desfiando aos poucos a história de Marta, de seu marido Sebastião e de seu filho José. Em cada irmandade é revelada um pouco mais dessa trajetória.

Lúcia Machado

Lúcia Machado

Lúcia Machado vive a Marta da via-crucis. Com maestria faz o jogo teatral, provocando seus interlocutores, explorando com riqueza expressões faciais e gestuais. Mas houve problemas com a voz. Na apresentação no Teatro Luiz Mendonça, por exemplo, estava com pouca projeção vocal, o que dificultou a audição.

Brenda Ligia está bem no papel de Quitéria (namorada de José) que ganhou a liberdade com o dinheiro ganho como cortesã e desafia os costumes.

A opção do encenador de dobrar papéis é válida. Mas como os atores que se revezam nas confrarias pouco se diferenciam entre si, parece que há apenas trocas de figurino. Mesmo as reações mais fortes de um ou outro intérprete, como Rudimar Constâncio ou Ivo Barreto, Marcelino Dias ou Taveira Júnior, não demarcam as diferenças entre eles.

Não enxerguei individuações entre os representantes de cada confraria. E chego a pensar que isso poderia ter sido proposital para produzir o sentido de que todos agem da mesma forma. Mas o preconceito dos diferentes ganharia mais relevo.

A narrativa vai se encaixando e revelando detalhes terríveis da constituição humana. Mas sinto falta de vigor na montagem. Ela não vibra, com exceção da atuação de Lúcia (embora prejudicada pela projeção vocal). A história desperta interesse, mas não toca. Parece parada num passado distante sem que isso nos diga respeito.

A ideia de espelhamento de Marta, entre passado e presente é bem interessante. A Marta do passado (Nilza Lisboa) parece mais presa, meio sufocada em suas vestes. O melhor momento é quando ela desafia o religioso que tenta “catequizar” Quitéria. Marta busca chocar o homenzinho da igreja ao afirmar que assiste às cenas de amor de seu filho com a namorada.

Roberto Brandão interpreta José

Roberto Brandão interpreta José e Brenda Lígia, Quitéria

A atuação de Roberto Brandão, ator que faz José, é correta, mas sem brilho. Não traduz a juventude de seus anos nem a ousadia de suas escolhas. Parece acanhado, tímido demais para desafios tão grandes. O link com o presente – da insatisfação contra o mundo e manifestações que ocorrem mundo afora – poderia ter potência nas cenas das buscas do jovem ator, mas isso não se estabelece.

No metateatro (nas representações cênicas de José à partir da memória de Marta), falta fôlego a essa “apologia da expressão teatral”. Na tragédia Catão ele faz Marco-Bruto, com roupa de centurião, e falta peso, densidade, vigor.

Não podemos deixar de registrar que há uma meticulosa precisão na marcação cênica feita pelo encenador. Mas essa ocupação de espaços com suas hierarquias não é suficiente para incendiar a mente do espectador.  As marcas do encenador estão lá, mas parece um registro dobrado de si mesmo.

A revolta transforma um pacato cidadão

A revolta transforma um pacato cidadão

Carlos Lira, que interpreta Sebastião, não destaca a transformação pela qual passa esse pacato cidadão que plantava e colhia nas terras de Morro Velho. Encontraram ouro e anunciam que o subsolo pertencia ao Estado e à Igreja. Suas terras são confiscadas. Os momentos da revolta inicial, passando pelo engajamento político – de fazer justiça com as próprias mãos –, ao desfecho de ser enforcado, não são devidamente ressaltados em sua riqueza de detalhes.

Os figurinos e adereços de Anibal Santiago e Manuel Carlos são elegantes com seus ternos e opas. A iluminação tem momentos de envolvimentos, como nas aberturas das portas e passagem das mulheres carregando a rede, mas em outros parece errar a mão e a marcação, deixando atores no escuro, por exemplo.

A trilha sonora de Eli-Eri Moura dá textura às situações dramáticas; cria climas com os cruzamento das músicas sacras, barroca, até o toque do maracatu. É uma presença.

De todo modo, a Cia. Teatro de Seraphim e seu diretor Antonio Cadengue prossegue e persegue um teatro crítico, que leva à reflexão.

*Este texto é resultado de uma parceria com o Sesc Piedade, realizador do Aldeia Yapoatan

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