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O Janeiro perdeu boa chance de se mostrar Grande. E nós, vamos aprender a resistir de verdade em 2019?

Renata Carvalho, ao centro, e algumas peças que saíram do JGE em protesto contra a censura: Altíssimo, Solo de Guerra, Palhaçaria Carne ou Vodka (E); Espere o Outono, Alice; Antílope, Violetas da Aurora, Meia-Noite

Renata Carvalho, ao centro, e algumas peças que saíram do JGE em protesto contra a censura: Altíssimo, Solo de Guerra, Palhaçaria, Carne ou Vodka (E); Espere o Outono, Alice; Antílope, Violetas da Aurora, Meia-Noite

Atualizado em 14/01/2019

 

Esse Janeiro não será igual àquele que passou… parodiando uma antiga marchinha de Carnaval. O Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival de Artes Cênicas e Música de Pernambuco começou na última terça-feira (8) com um chamado irresistível para acompanhar o cantor e compositor Getúlio Cavalcanti. Um passeio pela obra lírica do autor de frevos de bloco. O Teatro de Santa Isabel estava lotado. Mas havia qualquer coisa no ar, um desassossego. Ou, como relatou um repórter na imprensa recifense, um clima tenso. Não houve protesto, como foi anunciado por alguns artistas nas redes sociais. Desde a exclusão da montagem O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, pelo próprio festival, o JGE abriu espaço para uma série de críticas e protestos, inclusive com a saída de várias montagens pernambucanas em solidariedade.

O show / baile de Carnaval batizado de Acervo Lírico, com o autor d’O último regresso, O Bom Sebastião e outros clássicos e seus convidados iniciou festivamente a 25ª edição do evento, embora essas músicas carreguem um tom de melancolia.

Antes do show, as homenagens. Desta vez, foram cinco os escolhidos para as celebrações de praxe do festival: Claudionor Germano, “A Voz do Frevo”, que celebra 60 anos de lançamento dos dois primeiros álbuns, Capiba 25 Anos de Frevo e O Que Eu Fiz e Você Gostou; a bailarina e coreógrafa Fátima Freitas e as atrizes Isa Fernandes, Sonia Bierbard e Suzana Costa. Cada um recebeu uma tela feita pelo pintor Cleusson Vieira.

O presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) e coordenador do festival, Paulo de Castro, foi sucinto em sua fala. “Esse festival é um feito da classe artística e do povo de Pernambuco. Representa a garra dos artistas nordestinos. Quero agradecer a presença de todos vocês e em particular a classe aqui presente”, pontuou.

A abertura do festival seguiu em festa com seus reis e rainhas sem maracatus. E, logicamente, a corte. Mas desde a supressão do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, várias produções pernambucanas retiraram seus trabalhos da programação em protesto à censura sofrida por Renata Carvalho.

Espera o outono, Alice, do AMARÉ Grupo de Teatro, foi o terceira montagem a sair do festival. Foto Arnaldo Sete

Espera o outono, Alice, do AMARÉ Grupo de Teatro, foi a terceira montagem a sair do festival. Foto Arnaldo Sete

São doze? São quinze? A debandada do JGE ganha mais adeptos a cada dia. Saíram do festival em apoio ao Evangelho… Rainha do Céu as peças Altíssimo, da Trema!; Solo de Guerra, com Cleyton Cabral; Espera o outono, Alice, do Amaré Cia. De Teatro; Breguetu, do Grupo Experimental de Dança, Meia-Noite, com Orun Santana do Daruê Malungo; As Violetas da Aurora (Silvinha Góes, Ana Nogueira, Fabiana Pirro e Mayra Waquim); Histórias Bordadas em Mim, de Agrinez Melo; Em Cada Encruzilhada, Uma História Dada: Um Ensaio Para Eugênio Barba, d’O Poste Soluções Luminosas; O Pano Que Limpa O Tempo, da Compassos Cia. De Danças; Antílope, de Flávia Pinheiro; o solo Respeita Januária, de Januaria Finizola, Palhaçaria, de Paula de Tassa; Carne ou Vodka?, de Daniel Barros, Eric Valença Hermínia Mendes.

A arte de Trepar, de Augusta Ferraz também se retirou, “em respeito a mim mesma”, publicou no seu Facebook.

Foi censura, sim…

Pois o Janeiro, como já sabemos, convidou O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, e anunciou como uma das principais atrações dessa temporada. A divulgação da programação foi no dia 21 de dezembro. Dois dias depois, a assessoria do festival envia para os jornais a decisão de retirar o trabalho da grade. Segundo relatou Renata Carvalho, ela só soube da deliberação pela imprensa.

Ainda sangrava o episódio da censura do Festival de Inverno de Garanhuns, no interior de Pernambuco, à obra em que Cristo é interpretado por uma travesti para mostrar que tanto há 2000 anos quanto agora há uma perseguição velada ou explícita a determinados grupos. No caso, negros, pobres, gays, lésbicas, trans, mulheres, feministas, ou quem luta por igualdade de direitos. No Brasil de 2019, o que se anuncia é assustador.

Trecho do poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade.

O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
(…)
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

Janeiro já tem sua história, mas não pode dormir em berço esplêndido

Alguns defendem os 25 anos de serviços prestados pelo JGE. A ideia não é negar o passado. Mas garantir liberdade para o presente e para o futuro. O Janeiro é um festival importante para o Recife, para Pernambuco, para a classe de artistas. É um festival que lota suas sessões com público comum, não só de artistas.

É verdade que o JGE não pode ser encarado como inimigo, como algoz. Mas, no mínimo, se comportou como vassalo. E isso se agrava no momento atual.

Alguém pode pensar, mas é apenas um espetáculo que foi excluído da programação. E por conta de um, o JGE vai prejudicar toda uma temporada com mais de 100 atrações? Raciocínio miúdo.

Não é apenas uma peça. É um posicionamento no mundo. Pela vida, pela liberdade, pelos direitos civis. O Brasil é o país que mais mata travestis, mulheres e homens trans no mundo. Muitas vezes com requintes de crueldade. Por interpretar Jesus na peça, Renata Carvalho vem “sofrendo ataques, violações, ameaças de espancamento e morte”.

O governo que está sentado no poder já anunciou e incentivou a perseguição aos corpos e pensamentos dissidentes. Anúncio de uma guerra ainda mais violenta. É preciso se posicionar do lado justo. Do lado da vida.

Outro alguém levanta a voz dizendo que o JGE tem 25 anos e é muito difícil manter uma atividade artística contínua no Recife, no Nordeste, por tanto tempo. Sim, sim. Mas qual o papel do Janeiro, desse festival tão longevo, para a cidade do Recife, para os artistas de Pernambuco, para o Brasil? Respondida essa questão, tudo fica mais fácil. Há espaço para tudo, com clareza e coerência.

Não só o JGE, mas praticamente toda a produção pernambucana é refém de editais ou de verbas públicas diretas. Isso criou um ciclo de “servidão voluntária” nessas terras de coronéis e onde predomina na política a ideia das capitanias hereditárias. E a política dos favores para os afetos e perseguição para desafetos, ou para qualquer um que se insurja a fazer crítica ou discordar, ou não elogiar?! É um sistema que vai além da área da cultura e contamina as relações e os postos de comando.

E de qual lado da trincheira estão os artistas? Os produtores? A Apacepe? Ou são muito lados?

Talvez seja muito fácil para quem está de fora criticar o posicionamento da Apacepe. Eu considero covarde e inadmissível. Mas não é o meu sapato que aperta.

Mas vamos também tentar nos colocar no lugar desse outro. Do Paulo de Castro…

Estar devendo a mais de 100 pessoas, há um ano, que cobram, não é fácil. Mas por quê ele não arranjou dinheiro para liquidar a dívida anterior antes de fazer essa edição?

Paixão, talvez. Desejo de realizar. De continuar. De celebrar um quarto de século do festival. Por vaidade que move a roda…Mas estamos inseridos em um território de mentalidades arraigadas, de uma elite econômica perversa.

Estamos num período de muita intolerância. Artistas são alvos preferenciais. Eles, os poderosos, querem a arte a serviço deles. Querem vassalos. Mas o artista é de outra natureza. Ou deveria ser. De outra matéria de resistência e pulsão de vida. É de combate. E em termos de luta, as pessoas trans têm muito o que ensinar às pessoas cis.

Talvez um exercício mais democrático de decisão do JGE tivesse evitado tudo isso. Como comentou minha parceira de blog, Pollyanna Diniz: “É tempo de unirmos forças. Mas não acho coerente que a produção de um festival com toda essa história tenha tomado essa decisão de maneira unilateral. Deveria, no mínimo, ter ouvido a classe. Foram apenas dois dias de pressão. E, pra sermos bem sinceros, a curadoria do festival já deveria saber as proporções de convidar esse espetáculo. Não há nenhuma novidade nisso. Então deveríamos sim ter tido estratégia, pensar juntos, mas para garantir a realização do espetáculo no festival”.

Edição robusta e atraso no pagamento da edição anterior

O Janeiro de Grandes Espetáculos foi anunciado no dia 21 de janeiro como uma edição robusta, com mais de cem montagens (entre elas mais de 20 estreias) a serem apresentadas num período de mais de uma mês – de 8 de janeiro a 14 de fevereiro – no Recife, Camaragibe e  Serra Talhada. E com o orgulho de ser o maior festival de Pernambuco.

Mas também divulgou que, devido ao orçamento reduzido, JGE deste ano deixa de ser competitivo e não fará a entrega do tradicional Troféu Apacepe de Teatro e Dança. ”Nossa resistência será nosso maior prêmio”, conferiu Paulo de Castro, diretor geral do Janeiro e presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), realizadora do evento.

Não deixa de ser uma contradição estar com orçamento reduzido e fazer uma edição robusta!
Mas os problemas não param por aí. O JGE tem um passivo do ano passado.

Em entrevista à Folha de Pernambuco, o produtor Paulo de Castro disse que:

as dificuldades financeiras enfrentadas pelo festival o fizeram abrir mão do monólogo de Renata Carvalho. O evento, que é financiado por meio de incentivo público, acumula dívidas ainda não quitadas da edição anterior. Mais de 130 artistas ainda não receberam os cachês referentes às apresentações realizadas em 2018. Segundo Paulo, a organização esperava captar R$ 250 mil via Lei Rouanet, com a ajuda do Governo do Estado, mas não conseguiu. O produtor afirma que está em negociação para conseguir a verba junto ao poder público.

A reportagem da Folha de Pernambuco também foi buscar respostas do Governo do Estado que

esclareceu que o único valor destinado à realização da 24ª edição do festival – na ordem de R$ 181.945 – foram integralmente repassados. A incerteza sobre os pagamentos tem preocupado os artistas que ainda aguardam receber seus cachês.

Dá até para entender o raciocínio de Paulo de Castro, de querer defender o Festival, que poderia receber boicotes de incentivos. Mas curadores, produtores, agentes culturais que definem ações precisam fazer um exercício de pensar no coletivo, inseridos na realidade de hoje.

Estamos num barco cada vez mais furado. Ceder à pressão me pareceu um equívoco, embora valha considerar que podemos tomar decisões erradas no calor da hora.

O Janeiro de Grandes Espetáculo deve desculpas formais a atriz Renata Carvalho e à produção da peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu

O Governo de Pernambuco ficou devendo desculpas formais e até reparação por tudo que a artista passou para apresentar O Evangelho em Garanhuns

São muitas questões para serem refletidas. Entre as que me parecem mais urgentes é que precisamos garantir a democracia. E para isso as relações cordiais (no sentido do pensamento de Sergio Buarque de Holanda) com os poderes do Estado precisam ser implodidas, acabar com esses vínculos dependentes e encarar o poder como cidadãos livres. A lei no lugar do mundo do favor. Sei, sei, que a justiça no Brasil está tão seletiva, quanto a empatia em determinadas querelas.

Para tentarmos ampliar nossa visão e expor várias falas, além de deixar aqui registrado esse episódio (para além das redes sociais), selecionamos algumas postagens feitas por artistas de Pernambuco, e de outros estados, que se posicionaram contra a censura, que se posicionaram a favor do Janeiro, e os discursos de Renata Carvalho e da sua diretora Natalia Mallo.

 

MARCOS DA POLÊMICA

DIA 21 DE DEZEMBRO DE 2018

Divulgada a programação do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival de Artes Cênicas e Música de Pernambuco: 104 montagens e mais de 20 estreias. De 8 de janeiro a 14 de fevereiro. No Recife, Camaragibe e Serra Talhada. https://bit.ly/2S9cDIW

DIA 23 DE DEZEMBRO DE 2018

Produção do Janeiro de Grandes Espetáculos anuncia o cancelamento de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, com a artista trans Renata Carvalho

De forma a garantir a realização do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) informa a retirada da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do festival.

Por questões que extrapolam os critérios artísticos, o espetáculo, que já motivou ações judiciais e passou por outros cancelamentos, infelizmente não estará mais na grade do Janeiro 2019.

A Apacepe reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e mantém seu propósito de abrir as portas para toda e qualquer manifestação artística.

O ATOR E DIRETOR ELILSON DUARTE COMENTA NO FACEBOOK A RETIRADA DA PEÇA
 

 Que vergonhoso, Janeiro de Grandes Espetáculos.

Mais vergonhoso ainda é uma desculpinha como “critérios extra-artísticos”. O nome disso não é outra coisa que fazer coro à transfobia, que ceder à censura. Extremamente vergonhoso e desrespeitoso com as artistas.

Apoio e aplausos incessantes a Renata Carvalho e seu trabalho primoroso!Quem perde é o público recifense. E o próprio festival, em termos de credibilidade.

A ARTISTA CAIA COELHO COMENTA DECISÃO DO JGE DE EXCLUIR O EVANGELHO

Que porra é essa, Paulo de Castro, Iris Macedo, Luciana Raposo? Estou com vergonha de vocês. Estou com vergonha de ter trabalhado com vocês. Vocês não passam de covardes lixos transfóbicos envergonhando quem produz arte com resistência.

SÃO PUBLICADAS MATÉRIAS NA IMPRENSA PERNAMBUCANA SOBRE O CANCELAMENTO DE O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU DA PROGRAMAÇÃO DO 25º JANEIRO

 

DIA 26 DE DEZEMBRO DE 2018

BLOG SATISFEITA, YOLANDA? PUBLICA POST SOBRE A EXCLUSÃO DA PEÇA O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU DA PROGRAMAÇÃO DO 25º JANEIRO 

http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/2018/12/26/janeiro-de-grandes-espetaculos-compactua-com-censura/

DIA 27 DE DEZEMBRO DE 2018

APACEPE DIVULGA NAS REDES SOCIAIS UM COMUNICADO

CARTA ABERTA

A Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) vem informar que, com o objetivo de resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. O cancelamento se dá uma vez que o espetáculo seria realizado em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. Por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro. 
Importante salientar que, neste momento, o festival ainda está em busca de solucionar o pagamento, da edição 2018, para diversos artistas – e que o Janeiro 2019 tem todos os seus subsídios oriundos do poder público.

O festival reitera o seu compromisso com a liberdade de expressão e, exatamente por este motivo, realizou o convite para que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu integrasse a programação do evento. Por não aceitar este tipo de censura, a direção do festival está dando suporte à produção do espetáculo para que ele seja encenado, na mesma data que ocorreria no Janeiro, em um espaço privado e de maneira independente.

COMENTÁRIO DA ATRIZ IARA CAMPOS NO FACEBOOK

Atitude covarde de um Festival que atende aos interesses de quem “banca” e não dos artistas/produtores e plateia. Peitar a censura e levantar um debate crítico sobre a homofobia também é dever de um Festival de Teatro que se diz comprometido com a arte, por ser ela um lugar de subversão. Sem falar no único parágrafo em que menciona o não pagamento dos cachês atrasados ser extremamente raso. Em busca de quê? O que está acontecendo realmente? Queremos respostas, não desculpas superficiais que não mostram solução efetiva.

COMENTÁRIO DO ATOR E DIRETOR MARCONDES LIMA

Eu jurei pra mim que ficaria calado para não dar ibope ao que não deve ser dado. Mas não consigo deixar de dizer alguns termos que me ocorrem para definir a mais recente proibição (é exatamente isso) do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu pelo Janeiro de Grandes Espetáculos: vergonha, covardia, servilidade, desfaçatez, naturalização da transfobia, infâmia , coisa feia! Paro por aqui. Mas se quiserem continuem.

COMENTÁRIO DO ATOR E DIRETOR GEORGE MEIRELES

Sei das dificuldades da produção do Janeiro em manter o festival por 25 anos. Eu mesmo fiz a primeira produção pela APACEPE, juntamente com Paulo de Castro, quando o evento passou da PCR para a “Classe”. Entretanto, vale lembrar que este é um festival realizado por uma Associação de Produtores. Como esta associação permite uma violência dessa contra produtores e artistas? O principal trabalho de uma entidade classista é defender os direitos da sua categoria. E não há direito mais importante para nós, artistas, do que o da livre expressão. Neste momento não realizar o festival, caso perdurasse essa censura, seria mais importante do que acovardar-se e realiza-lo. Não queremos um festival longevo, e isso é importante, queremos um festival longevo e que represente os princípios que norteiam o fazer teatral. Foi assim que o Janeiro nasceu e se ele não cumpre mais esse papel, não tem porque continuar a existir.

COMENTÁRIO DO ATOR E PRODUTOR RODRIGO FIDELIS

Quando foi que os agentes culturais desse país viraram covardes? Nossa senhora do incentivo público nos dê coragem para seguir, que abram os mares da ignorância para passarmos, que não nos falte compaixão para entender os medrosos e que de nós transborde afeto para dizer: ninguém solta a mão de ninguém! 

A empregabilidade de ninguém deve estar maior que o bem comum. É preciso largar esse poder e se entregar a potência da luta das pessoas travestigeneres. Elas combinaram de não morrer mais… quem morre hoje é a curadoria e gestão de arte e cultura.

COMENTÁRIO DO PRODUTOR, ATOR E DIRETOR JUNIOR BRASSALOTTI  

Repudio total à esse ato de covardia e censura explicita por parte da organização do evento. Que vergonha pro evento. Como podem impedir um artista de trabalhar? “A arte não pode habitar os corações covardes” Plinio Marcos.

COMENTÁRIO DO SERVIDOR PÚBLICO MARCELO CHAVES 

O interessante é q vcs sofrem pressão de uma parte da sociedade que não é público do evento, de pessoas que praticamente não frequentam o teatro e não estão nem aí pra arte… Aí cortam um espetáculo q o público de vcs, que frequenta o evento, gostaria de ver, por causa de gente que não iria, que não vai, que nem gosta de teatro.

IGOR SOUZA COMENTA NO FB

Convidar O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu para se apresentar não quer dizer ter compromisso com a liberdade de expressão, é um espetáculo de sucesso reconhecido e que tem garantia de público. O interesse de qualquer produtor ou curador no espetáculo para compor qualquer grade pode ser só técnico. 

Ter compromisso com a liberdade de expressão é não ceder a censura, porque ceder também é uma forma de aceitar. Principalmente quando essa censura vem de uma bancada que usa dos seus (in)fundamentos religiosos tão carregados de preconceitos. Ter compromisso com a liberdade de expressão e, principalmente, com a arte é LUTAR para GARANTIR a visibilidade de trabalhos como o da Renata Carvalho.

COMENTÁRIO DO ATOR, DIRETOR E DRAMATURGO CARLOS CANHAMEIRO

Espero nunca ter esse tipo de compromisso com a liberdade de expressão que vcs propagam. Espero que todos os outros espetáculos cancelem a participação.

COMENTÁRIO DA HISTORIADORA TELMA VIRGINIA PEREIRA DA CUNHA NO FB 

Pois começamos muito mal essa resistência, cedendo pra bancada evangélica de Pernambuco. Bem se vê que nós não aprendemos nada com a ditadura de 1964

COMENTÁRIO DE MARCOS ANTÔNIO SOARES NO FB

Vocês não têm respeito pelos artistas, vocês sabiam da polêmica já causada ao espetáculo esse ano, então porque não poupou a atriz e a produção de tal constrangimento, não convidava. Simples assim. Vocês são amadores no sentido pejorativo da palavra, minha gente o teatro não fortaleceu vocês esses anos todos? Agora vem com essa carta aberta beirando ao ridículo, quando sugere um espaço alternativo, isso é exclusão. Só falta encontrar um espaço no alto mar para a peça ser apresentada, Me faça um chá!!!!

Produção de Altíssimo diz não querer compactuar com a censura

Produção de Altíssimo diz não querer compactuar com a censura

TREMA! PLATAFORMA DE TEATRO PUBLICA NA SUA PÁGINA DE FACEBOOK UM COMUNICADO DA SAÍDA DO ESPETÁCULO ALTÍSSIMO DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

Diante de mais um ato de censura vivido pelo espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU no estado de Pernambuco, nesta ocasião por parte do festival Janeiro de Grandes Espetáculos, informamos aos que acompanham as ações desenvolvidas pela TREMA Plataforma de Teatro, que comunicamos a produção desse evento a retirada de nosso espetáculo ALTÍSSIMO, agendado para o dia 11 de janeiro de 2018.

Acreditamos que a censura imposta sobre essa obra que acolhemos com tanto prazer na edição 2018 do TREMA! Festival, fere nossa liberdade coletiva de ofício, nesse momento crucial onde diversos Festivais têm se posicionado como reais espaços de resistência ao fascismo e a onda conservadora que assola o país. Não podemos coadunar com mais esse passo da bancada evangélica em nosso Estado.

Anteriormente, quando do ato de censura no FIG 2018, tínhamos nos posicionado publicamente sobre qual seria nossa decisão caso estivéssemos na grade do evento: ou o EVANGELHO se apresentaria ou NÓS também não subiríamos ao palco.

Passados alguns meses da triste situação vivida no interior do Estado, continuaremos honrando com nossa palavra. Afinal, onde não cabe o ofício da artista Renata Carvalho, da diretora Natalia Mallo e de toda a equipe do Núcleo Corpo Rastreado, também não cabe o nosso.

Mais do que nunca, estaremos de mãos dadas, caminhando juntos aos corpos que realmente nos importa. Em cada esquina, abriremos mãos de nossos privilégios em prol do real significado do ¨ninguém solta a mão de ninguém¨.

Quando o resultado das eleições presidenciais do Brasil foi divulgado, em outubro de 2018, escrevemos em nossas redes sociais:
¨Estaremos juntos por nenhum direito a menos.
Força, camaradas! O velho mundo está atrás de nós.
RESISTIREMOS. RE-EXISTIREMOS.¨
Que assim seja.

RESPOSTA DA ATRIZ RENATA CARVALHO AO COMUNICADO DA APACEPE

Sobre a CENSURA no Janeiro de Grandes Espetáculos

No dia 21 de dezembro o Janeiro de Grandes Espetáculos divulga sua programação e O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu estava na programação oficial com (três) apresentações no Teatro Barreto Júnior.

No dia 23 de dezembro o mesmo festival divulga uma nota oficial retirando nosso espetáculo da programação alegando ser por “critérios extra-artísticos”.

O Festival Janeiro de Grandes Espetáculos e seus responsáveis são tão censores quanto aqueles que pressionaram. Não pensaram duas vezes, simplesmente cancelaram e ficamos sabendo através da imprensa que não estávamos mais na programação.

Para nossa “surpresa” o festival (devido a grande pressão) divulga esta última nota onde diz:
“O festival reitera o seu compromisso com a liberdade de expressão (é para rir) e, exatamente por este motivo, realizou o convite para que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu integrasse a programação do evento. Por não aceitar este tipo de censura, a direção do festival está dando suporte à produção do espetáculo (É MENTIRA) para que ele seja encenado, na mesma data que ocorreria no Janeiro, em um espaço privado e de maneira independente” ( de MANEIRA INDEPENDENTE)

O Paulo de Castro pessoa que de “forma muito amigável e prestativa” (o mesmo que cancelou) quer nos propor AGORA depois de toda repercussão negativa e com a retirada do TREMA Plataforma de Teatro e seu espetáculo Altíssimo em protesto a censura,, quer que vamos ao festival apresentamos em um outro local (foi proposto uma boate LGBT), mas o “festival apoiaria a apresentação de forma extra oficial” e ainda propõe até mesa (olha que lindos).

A censura se combate de frente, não por baixos dos panos, em guetos como ratos.
Os pronunciamentos desse festival e de seus responsáveis são tão rasos quanto um pires. Vocês são CENSORES SIM, não façam a vítima, é feio.

Sobre as notas oficiais, a censura e todo jogo sujo por trás dessa censura cito Rosa Luxemburgo:
“…só se pode exclamar com espanto: então é só isso que tem a dizer? Nem sombra de uma ideia original! Nem só ideia que já não tenha sido refutada, esmagada, escarnecida, reduzida a zero.”

Esse é o QUINTO caso de censura, em uma delas (Garanhuns, teve polícia, exército, tropa de choque, bomba, retirada dos equipamentos de luz e som,e depois a retirada do público do “toldo” para a chuva).

Não estamos falando de 1968, de Roda Viva, estou falando de hoje, de agora.
O que nós artistas vamos fazer com este cenário?
A CENSURA já voltou, em outros moldes, mas VOLTOU.
São os políticos e religiosos que vão pautar nossos editais, festivais, leis de incentivo….?
E agora José? Vamos assistir sentados em nossos celulares, reproduzindo hashtags?
“A arte não pode habitar os corações covardes”, diz meu conterrâneo Plínio Marcos.
CENSURA NUNCA MAIS.

Renata Carvalho – atriz em O evangelho segundo Jesus, Rainho do céu, travesti, transpóloga, transfeminista. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) e do Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T
#rainhajesus
#censuranuncamais

28 DE DEZEMBRO DE 2018

Grupo pernambucano Magiluth se solidariza com a atriz Renata Carvalho

Grupo pernambucano Magiluth se solidariza com a atriz Renata Carvalho

GRUPO MAGILUTH DE TEATRO PUBLICA NOTA DE REPÚDIO AO JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS

Quando pensávamos que 2018 tinha acabado, eis que surge mais uma bomba: o Janeiro de Grandes Espetáculos censurou o espetáculo, Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu.
Deixamos aqui registrado nosso repúdio total, a esta atitude descabida. Quando um festival de teatro, com mais de 20 anos de existência, compactua com censura, nós não podemos ficar calados. O “janeiro” precisa urgentemente ser repensado, para que de fato, se torne grande. De que adianta uma festa pomposa e troféus, se o festival censura um espetáculo tão importante para o Brasil atual?

Renata Carvalho – atriz em O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, travesti, transpóloga, transfeminista. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) e do Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T, é uma artista que tem total direito de existir e de praticar a sua profissão. Precisamos deixar de lado os nossos privilégios e lutar de mãos dadas com Renata e com todxs xs artistas que estão sendo marginalizadxs.
O Magiluth diz não à censura, o Magiluth diz não ao Janeiro de Grandes Espetáculos. O Magiluth diz não aos desmandos da APACEPE.
#rainhajesus
#censuranuncamais

 29 DE DEZEMBRO DE 2018

ATOR E PRODUTOR PAULO DE PONTES PEDE PONDERAÇÃO DA CLASSE ARTÍSTICA PERNAMBUCANA

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DOS CÉUS e a Censura no JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS.
Acho delicado atribuir a censura ao festival… Uma vez que foi o festival quem a convidou… Concordo que o festival foi conivente em cedendo lugar ao fato, mas os vilões de fato são a bancada evangélica (que está cada vez mais assumindo lugar de censor) e o poder público (que depende de voto de bancada evangélica para continuar no poder)… No entanto acredito que o festival (que é um evento independente e que só existe pq artistas como nós o mantemos vivo a 25 anos) foi ameaçado por esses dois poderes do mal e ficou entre a cruz e a espada… Como somos (artistas) o lado mais fraco dessa rede de intrigas, ou se tiraria a convidada da programação ou Neca de pitibiribas…. Ainda assim a produção do festival tentou a todo custo outras maneiras de trazer a artista em teatro particular e mantê-la na programação, mas não conseguiu. foi o que soube… Delicado acusar o lado mais fraco de censor. Vamos torcer para que isso não se alastre.

COMENTÁRIO DO ATOR E PRODUTOR GEORGE MEIRELES AO POST DE PAULO DE PONTES 

Paulinho, concordo com vc que nesse caso a produção do Janeiro é o lado mais fraco. Mas existem mecanismos de enfrentamento. Foi a bancada evangélica que promoveu a censura? Foi a Prefeitura ou foi o governo? A livre expressão do pensamento está garantida na constituição brasileira. Aciona-se então a justiça, o ministério público. O que não pode é prejudicar o lado verdadeiramente mais fraco: os artistas. Lembre-se que o poder constituído não pode comportar-se como dono dos recursos públicos. Se o gestor ameaça cortar o patrocínio; ameaça-se ele com um processo de improbidade administrativa. Isso é enfrentamento! A defesa dos direitos é uma luta árdua e constante e não se admite que uma associação representativa de produtores se acovarde dessa luta pois, a defesa dos produtores e artistas é o motivo da sua existência. Se a APACEPE não defende o seu direito e os dos seus representados, não está existindo para o fim ao qual foi criada.

30 DE DEZEMBRO DE 2018

MENSAGEM DO ATOR E PRODUTOR MARCONI BISPO

JESUS, RAINHA DOS CÉUS! LIVRAI-NOS DOS ATOLEIMADOS E ABESTALHADOS!
Se deixar a gente passa o dia no Feicebuque criando treta, respondendo treta, curtindo treta, comentando e compartilhando treta. Acho massa. É isso mesmo e sinto pena porque, sem tempo e/ou sem a disposição necessária, eu não consigo me posicionar sobre algumas delas. Por exemplo, a censura que sofreu o espetáculo Jesus, a Rainha dos Céus pela Apacepe. Pra mim é isso: a censura foi da APACEPE. Ponto final. Queria voltar com meus dois pontos. Tentarei.

O que acho tenebroso nesse meu país pernambuco é uma espécie de artista que quando se trata de alguns muros não sabe se fica em cima deles ou parte para quebrá-los. Ficasse contemplando-os, caladinhos… pronto. E quando o muro é de um coronel – do qual o artista espera que, um dia, receba algo em troca – ele faz uma ponderação que é tão somente a expressão de sua inteligência oportunista. Muito fácil bater nos pequenos ou passar pelos muros que já estão arrombados, né? Chutar cachorro morto, outros dirão. Porém, promover um desgaste público com um coronel, como vi outrxs artistas por aqui fazer, o artista inteligente-oportunista não quer. Vira um tipo de seda, como a que veste senhoras ledas. São capazes de escrever belas cartas, como fez Paulo aos Coríntios. Nessa hora “tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. E nem se dá conta que os coronéis de outrora deixaram seus filhos, Netos e bisnetos por aí.
JESUS, PRA ONDE EU VIM?

Cleyton Cabral retira Solo de Guerra da programação do JGE. Foto: Reprodução do FB

Cleyton Cabral retira Solo de Guerra da programação do JGE. Foto: Reprodução do FB

O ATOR E PRODUTOR CLEYTON CABRAL RETIRA SEU ESPETÁCULO SOLO DE GUERRA DO JANEIRO

COMUNICADO
A produção do espetáculo SOLO DE GUERRA informa que a apresentação agendada para o dia 26 de janeiro no festival Janeiro de Grandes Espetáculos está cancelada.
A decisão é consequência de mais um ato de censura sofrido pelo espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU, estrelado por Renata Carvalho, que também seria apresentado no mesmo evento.

Nós nunca compactuaremos com a violência que pessoas e espetáculos vêm sofrendo nessa época sombria em que estamos vivendo. Solo de Guerra discute a homofobia e suas consequências na população LGBT+ do Brasil, sendo totalmente incoerente apresentar a temática no palco após os últimos acontecimentos.

Os dias que se aproximam exigirão de nós decisões cada vez mais amargas e duras, que demonstrem a nossa real insatisfação com todas as injustiças. É nosso dever, enquanto artistas, lutar pela liberdade de expressão de todo e qualquer cidadão, pois a censura afeta não só a produção de um espetáculo.

Engana-se aquele que pensa estar em uma torre de privilégios e que não será atingido por essa violência.

Deixamos aqui expresso publicamente nosso desejo por justiça. Levemos o “ninguém solta a mão de ninguém” mais a sério, pois o que surge no horizonte não é luz.

31 DE DEZEMBRO DE 2018

Peça Espera o Outono, Alice sai da programação do JGE Foto: Américo Santos

Peça Espera o Outono, Alice sai da programação do JGE Foto: Américo Santos

AMARÉ GRUPO DE TEATRO RETIRA SEU ESPETÁCULO ESPERA O OUTONO, ALICE DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

COMUNICADO
Nós, do AMARÉ Grupo de Teatro, queremos expressar nossa tristeza, choque e indignação para com a retirada do monólogo O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos, por conta de pressões alheias ao mérito artístico da peça. Queremos deixar claro que somos contra toda e qualquer forma de censura, machismo, racismo e homofobia e, em solidariedade a Renata e à produção do espetáculo, decidimos cancelar nossa participação no evento, que ocorreria no dia 24 de janeiro, com sessão única do nosso trabalho mais recente, Espera o Outono, Alice.

Fazer teatro no Brasil não é fácil, todos sabemos. É preciso lutar contra a falta de verba, falta de público e até contra a falta de incentivo e compreensão de parte da sociedade com relação à natureza de nossa arte. Também reconhecemos que o festival foi colocado em uma situação muito difícil e precisava tomar uma decisão a fim de continuar suas atividades. No entanto, não nos sentimos à vontade para continuar na programação ao constatar que uma colega de profissão não terá a oportunidade de apresentar um espetáculo que, aliás, tem como tema justamente a tolerância, a união e a compreensão entre as pessoas.

O Janeiro de Grandes Espetáculos é um festival que conseguiu ser longevo justamente por conta da diversidade e pluralidade de suas atrações. Sendo assim, nos resta, mais uma vez, lamentar a não apresentação do monólogo O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu e defender o trabalho de Renata. Em momentos turbulentos nos quais supostas verdades absolutas tentam calar a arte e a diversidade, precisamos nos unir,ocupando os espaços e propagando nossas crenças e nossas vozes.
AMARÉ Grupo de Teatro

2 DE JANEIRO DE 2019

A ATRIZ, PRODUTORA E EX-COORDENADORA DO JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS PAULA DE RENOR PUBLICA NO FACEBOOK

Sobre a censura e o JGE
O Janeiro de Grandes Espetáculos completa 25 anos de existência daqui há alguns dias, abrindo o ano para os demais festivais do Brasil, que durante 2018, passaram grandes e graves dificuldades para continuarem existindo. Uma prova disso foi o Festival de Londrina cancelado no ano de comemoração de sua 50ª edição.

Há 25 anos atrás, o JGE que fora descartado pela Prefeitura do Recife, em substituição ao Festival Recife de Teatro Nacional, foi assumido pela APACEPE junto com a classe. Nesses 24 anos de existência, contou com o apoio da categoria e trabalhou com e em função dela e isso é admitido pelos artistas de artes cênicas do estado, que sempre o definiram como “o festival da classe”.

Estive a frente do JGE, junto com Paulo de Castro e Carla Valença, durante 17 anos de minha vida, construindo a relação do festival com os artistas locais e tendo como perfil principal a visibilidade da produção local. Afirmamos em todos esses anos que o maior patrocinador e colaborador do festival sempre foi A CLASSE!

De repente, abro o jornal e internet, e vejo o Janeiro sendo avacalhado e desmoralizado, sem respeito algum de muitos. E os 24 anos de boas ações e parcerias?! Tudo foi esquecido?!
Não quero discutir os problemas pelos quais levaram o festival a cancelar a apresentação de O Evangelho… no Janeiro, só estou chocada porque, com a chantagem feita por patrocinadores, a produção foi obrigada a retirá-lo da grade. Não conversei com a produção sobre isso e sei o que todos sabem pelas redes sociais e comunicados, mas não tenho o menor receio em afirmar que foi a Prefeitura, por todo seu histórico de problemas com a classe e seu descaso. O governo do estado, não creio que depois do FIG, final de gestão, iria interferir num festival independente. A Prefeitura, sim, teria essa petulância!

O que me surpreende é que o culpado e opressor, passou a ser o festival! Não concordo também com a retirada de O Evangelho… da grade, mas não estou na produção para entender o que levou a coordenação do festival a ceder a esta chantagem. Talvez estejam claros os motivos quando ouço as reclamações de artistas com cachês atrasados e fornecedores ainda não pagos do ano passado. Mas será que todos nós faríamos diferentes numa situação tão crítica?!

Porque alguns jogaram a primeira pedra se esquecendo de quem é realmente nosso verdadeiro opressor?

Gente, estamos atirando uns nos outros e o inimigo está lá, atrás de um birô, rindo “dessa gente que faz teatro”! Depois do JGE, virá a censura aos outros festivais, depois espetáculos serão tirados de cartaz! Aconteceu no FETEAG, agora JGE, e vai continuar acontecendo!!
As produções locais começam em protesto a se retirarem do JGE, e vem a seguir o enfraquecimento do festival! É isso que eles querem! É isso que queremos?! Precisamos saber quem censurou, quer dizer, quem chantageou e nos unirmos para não permitirmos que isso aconteça novamente em nenhum outro festival! Que os produtores e artistas não sejam sacrificados!

Prestem atenção que estão jogando o jogo do opressor, e quanto menos festivais e espetáculos acontecerem, melhor para a bancada evangélica ou para esses cretinos que agora estão no poder!

Temos que pensar juntos, planejar estratégias, agirmos contra a censura!! Daqui a pouco teremos em cada órgão público um novo departamento que decidirá o que pode ou não entrar em cartaz! Já pensaram na nossa situação, artistas e produtores, em nossa maioria dependentes de apoio e editais públicos?!

Não vamos misturar nossos sentimentos de revolta com tudo que vem acontecendo conosco desde 2016! Isso não pode ser canalizado para o JGE!
Aonde está “ninguém solta a mão de ninguém”? Só na ciranda, gente? A hora é essa!
CALMA MINHA GENTE!!!!
PS: obrigada a quem teve o interesse e paciência de chegar aqui, até o final do texto!

COMENTÁRIO DE MARIA CLARA CAMAROTTI  AO POST DE PAULA DE RENOR

Paula vc sabe a admiração que sinto por vc, por isso fico extremamente grata em ler esse post e sentir o que pensas sobre tudo isso. Estou refletindo sobre o que falas, mas me permita de imediato colocar algumas coisas. Sim respeito ao festival é fundamental, mas o festival tem conseguido respeitar tb os artistas? Você fala na grande parceria entre o festival e a classe, então pq o festival não expôs a chantagem que estava recebendo antes de retirar o espetáculo da programação? por que não chamou para junto os artistas para fazermos pressão a prefeitura? Na carta publicada pelo Jge se tenta diplomaticamente explicar que não foi uma vontade do festival, mas houve uma escolha de aceitar a chantagem e com isso prejudica mais uma artista nesse país. Estou muito triste e decepcionada com a postura do festival sim Paula. Estamos falando em tempos extrematicos, de vidas que literalmente correm perigo e cada ação tem gerado reações intensas. Ao meu ver o cancelamento do espetáculo foi uma ação extremamente equivocada e injusta e por mais respeito e consciência que tenha dos processos de luta de um festival, existem coisas que não posso aceitar. Entendo perfeitamente a reação dos artistas que estão retirando seus espetáculos da programação, como tb entendo aqueles que queiram manter o espaço que já nos é tão caro e difícil de conseguir, mas sinto nas tuas palavras a necessidade de mudar a ótica e imagina, se fosse o seu espetáculo que fosse desconvidado a estar numa programação de festival pois aqueles no poder se desagradam do que dize ou pior de quem vc é (pois esse é um dos x da questão dessa censura a Renata) o que farias? Que mão vc segura? Será que a gente largou a mão do jge ou será que ele não nos deu sua mão nesse momento? o Jge para salvaguardar apoio e realização optou por excluir alguém, e nisso o festival é tão responsável quanto aqueles que no poder que não querem a existência de certos discursos ou pessoas. O Meu desejo é de todos estarmos juntos lutando, mas ceder a certas pressões é sim joga alguém na fogueira. Estou disposta a luta pelo Jge, pelo festival estudantil, pelo festival de teatro para crianças, pelo luz negra, pelo feteag, pelo trema e todo e qualquer festival independente que queira construir, dar, invadir espaços para que nossa arte se mantenha e cresça, mas preciso ter clareza, afinal por quem e pelo o que estamos lutando. Para mim nada, nada justifica a retirada desse espetáculo da grade e me sinto envergonhada de viver num estado onde pela segunda vez essa censura aconteceu.

COMENTÁRIO DE POLLYANNA DINIZ  AO POST DE PAULA DE RENOR

Concordo que é tempo de unirmos forças. Mas não acho coerente que a produção de um festival com toda essa história tenha tomado essa decisão de maneira unilateral. Deveria, no mínimo, ter ouvido a classe. Foram apenas dois dias de pressão e a gente simplesmente retirou o espetáculo da grade. E, pra sermos bem sinceros, a curadoria do festival já deveria saber as proporções de convidar esse espetáculo. Não há nenhuma novidade nisso. Então deveríamos sim ter tido estratégia, pensar juntos, mas para garantir a realização do espetáculo no festival (e não de forma independente!), se era realmente esse o motivo do convite – e não apenas uma questão financeira, de bilheteria. Sinceramente, não acho que retirar os espetáculos da grade vá enfraquecer o Janeiro com o poder público. O Janeiro tem uma programação gigantesca! Mas, pelo contrário, o recado é ao próprio Janeiro: o festival precisa continuar sendo feito ao lado da categoria; e que ficar sem pagar cachê de um ano para o outro ou pagar cachês absurdos não é estar ao lado da classe.

COMENTÁRIO DE  COMP CIRCO GODOT (ANDREZZA ALVES) AO POST DE PAULA DE RENOR

Patroa, mulher, eu não tenho nada de novo pra falar sobre isso… Eu não acho que o festival é o alvo onde se deveria mirar, como escrevi numa postagem de Marcondes, pra mim, atirar no festival é tomar remédio pra febre quando se tem tuberculose. Isso porque, pra mim, nessa cadeia de opressões o festival é o elo mais fraco. Então, a mim, me parece meio covarde atirar apenas contra quem em tese está do seu lado quando deliberadamente não se atira contra quem está do outro lado no campo de batalha. No entanto o festival foi covarde (e por mais que eu goste do Janeiro, e você sabe que eu gosto MUITO, não dá pra dizer que o errado é certo) e na minha opinião covardia nunca foi caminho e, especialmente agora, não é mesmo. A ação dos 3 grupos que se posicionaram TREMA Plataforma de Teatro, Cleytone AMARÉ é uma ação legítima porque é a voz do que a potência daqueles grupos é capaz estando sozinho, é a sinceridade daquelas figuras para com a consciência delas e para com a empatia pela Renata (esta sim, violentada em duas ocasiões no estado), se tivesse um espetáculo meu no festival eu faria o mesmo que eles. Inclusive, a coerência de Pedro Vilela no início dessa história me comove e fui, das primeiras pessoas a dizer “amigo, todos juntos somos fortes”, pra ele, quando escreveu por aqui o posicionamento dele e depois da declaração do TREMA Plataforma de Teatro… Mas veja, até estas ações apesar de terem o mesmo fim, estão entre elas, isolada e isso eu acho que se deve ao fato de as mão na cidade já estarem soltas, na minha opinião niilista, para a maioria da classe elas sempre estiveram, poucos são os que agarram mesmo na tua mão e não soltam. Se as mãos não estivessem à deriva, também o festival teria agido de outra forma, acho… Mas Recife é a cidade do salve-se quem puder, do cada um por si, do cala a boca pra não se queimar, do sacode pra fora da caçamba por causa do cachê. E não adianta a gente querer colocar peneira na frente desse sol também, porque ele está lá e é a sombra da cidade… Já perguntei um monte por aqui onde estão as ações concretas contra os ALGOZES DE FATO. Porque atirar pedras no Janeiro via facebook é fácil (e, pra mim, é simplista e simplório), mas e depois? Cadê? O que é que se vai fazer? Porque as ações do deputado, do governo e da prefeitura foram concretas, tão concretas que a Renata foi desconvidada. E aí, qual é a resposta concreta? Vai-se processar o deputado, o governo, a prefeitura? Vai se acionar legalmente alguma coisa ou alguém? Vai-se denunciar ao ministério público (enquanto existe)? Porque se não for, de nada adiante esse conversê todinho. E de muito menos adianta dizer, “ai tadinho do festival… ” É só especulação sobre o vazio… Porque no frigir dos ovos, o fato é que mais uma vez se prova que manda quem tem o dinheiro e que somos incapazes de articulação para nos insurgirmos de verdade contra quem de direito… E pra disfarçar atiramos em quem está mais perto… Entende? No entanto penso que este ocorrido pode ser uma grande oportunidade de reencontro, de combinação das vozes dissonantes. Uma grande oportunidade pra deixar o EGO de lado e agregar valores em prol de se fortalecer em conjunto, de fato com as mãos dadas e não uns por cima dos outros. E sinceramente espero que isso aconteça. BEIJOS!

COMENTÁRIO DO PRODUTOR PEDRO PORTUGAL AO POST DE PAULA DE RENOR

Na minha humilde opinião 
Enquanto a arte depender do poder público; espaços e apoios financeiros, sempre vamos ficar a mercê de alguma censura 
Para não acontecer censura temos que ter nossos espaços próprios e não depender de dinheiro público, mesmo sabendo que é dever do Estado dar cultura para o povo, dinheiro dos nossos impostos 
Pronto falei

COMENTÁRIO DO ATOR, DRAMATURGO E DIRETOR GIORDANO CASTRO (GRUPO MAGILUTH) AO POST DE PAULA DE RENOR

Paula, somo a minha fala a de Maria Clara Camarotti (Eu te amo Clarinha) e a de Pollyanna Diniz. Tenho um profundo respeito por você e por todos que fizeram e fazem parte do Janeiro. Você mais do que ninguém sabe o quanto o festival foi importante para nossa história (a do grupo Magiluth). Mas apesar da minha admiração e carinho que tenho por toda essa história, não posso deixar de fazer criticas e passar a mão sobre aquilo que ao meu ver é uma atitude absolutamente equivocada por parte do JGE, tendo em vista a própria Carta Aberta do festival que julgo também equivocada, no mais vou acabar repetindo tudo o que já foi dito pelas outras pessoas. Espero uma sorte melhor para o JGE. Acho que chegamos a um tempo esquisito e complicado demais que vai exigir de todos nos posicionamentos também fortes. Um cheiro

O POSTE SOLUÇÕES LUMINOSAS ESTÁ NA PROGRAMAÇÃO, MAS NÃO ESTÁ NO JGE

COMUNICADO GRUPO O POSTE! CENSURA NUNCA MAIS! 

O Grupo O Poste Soluções Luminosas e a comissão representativa de alunos da Escola O Poste de Antropologia Teatral, vem externar publicamente o seu repúdio ao ato de transfobia ocorrido com a atriz Renata Carvalho, que a impossibilitou de apresentar o espetáculo O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos (JGE) de 2019. 

É inadmissível que após duas décadas de luta contra um regime de DITADURA MILITAR, onde episódios de CENSURA e TORTURA violentavam artistas que – no exercício da arte – expressavam um pensamento crítico e libertador, vermos um festival tão importante para a cidade ceder à censura imposta por políticos intolerantes, representantes da bancada evangélica, que colocam seus preceitos religiosos acima do Estado laico.

É muito PERIGOSO que a cultura de um povo, em sua diversidade e pluralidade, seja pautada por uma visão limitada, retrógrada e intolerante de uma parte do seguimento religioso evangélico que, todos os dias, dissemina nos metrôs, ônibus, praças, escolas e tantos outros espaços públicos, palavras e ideias agressivas e preconceituosas contra as religiões de matriz africana, a comunidade LGBTQi, os povos indígenas, TUDO E TODOS que não estejam dentro de suas convicções religiosas.

Acreditamos que ações como esta, de censura e perseguição, têm por objetivo desmobilizar e enfraquecer a classe artística, bem como seus espaços de encontros, trocas e celebração. No entanto, diante do legado que o JGE agrega à história das artes cênicas em Pernambuco e sua importância para o fomento das produções locais, decidimos seguir nesta edição do mesmo, porém com uma postura crítica e ações que tanto denunciem o ocorrido, quanto deem visibilidade à comunidade trans em cada apresentação de nosso espetáculo.

Consideramos que promover espaços de representatividade das minorias é de suma importância para reforçar o alicerce do que já conquistamos até aqui desde o processo de redemocratização. É fundamental seguirmos colaborando com as políticas afirmativas que promovam estas comunidades e povos, garantindo a plena funcionalidade e aprimoramento do Estado de Direito previsto constitucionalmente. Este que está cada vez mais ameaçado diante do golpe parlamentar-jurídico-midiático que se instaurou em 2016 e que perdura em discursos fascistas daqueles que querem se colocar acima de tudo e de todos.

O Grupo está dentro do festival com a escola O POSTE DE ANTROPOLOGIA TEATRAL, mas não como convidado ou inscrito para participar do mesmo. A temporada desta montagem pedagógica acontecerá no NOSSO ESPAÇO de maneira independente. No entanto, aproveitamos o mês de janeiro e solicitamos à produção do JGE que nos colocasse na grade para fins de DIVULGAÇÃO. É importante salientar que não receberemos do Festival nenhum APOIO FINANCEIRO, TÉCNICO OU LOGÍSTICO.

Nossa indignação com o fato e solidariedade a atriz Renata Carvalho e toda equipe. 

CENSURA NUNCA MAIS!!!

Axé para todos!!

Cira Ramos em Próxima. Foto: Séphora Silva

Cira Ramos em Próxima. Foto: Séphora Silva

ATRIZ E PRODUTORA CIRA RAMOS DIZ QUE SEU APOIO E SOLIDARIEDADE À RENATA CARVALHO E AO EVANGELHO SE DÁ NO PALCO, APRESENTANDO A PEÇA PRÓXIMA

Vamos nos olhar, nos apreciar, nos ver mais? Nos dividindo, teremos força para lutar contra as arbitrariedades que estão se abatendo em cima de todos os artistas no Brasil? Em 2019, estou, enquanto artista, disposta a pegar na mão de todas e de todos os artistas de Pernambuco e do Brasil e não soltar a mão de ninguém! Não vamos sucumbir. Não vamos desistir. É isso que eles querem com seu moralismo retrógrado

Ficamos muito tristes e preocupados com a retirada do espetáculo Evangelho… Chegamos a pensar em nos retirar, tamanho desconforto. Mas deixarmos de realizar, de participar do FJGE nos deu a sensação de permitirmos mais espaço para que eles vençam esta batalha. Muitas ainda estão por vir e precisamos nos unir ainda mais para vencermos uma a uma, inclusive, esta que está em curso. Acho que o momento é de lutar contra tudo e contra todos os que nos demonizam. Não podemos ficar buscando inimigos no nosso próprio campo de batalha. É isso o que os verdadeiros inimigos da cultura e da arte querem. Visibilidade e palanque! Neste ano, precisamos, Independente de tudo, inclusive das discordâncias, estarmos juntos! Em 2020 talvez o nosso posicionamento seja outro, talvez as discordâncias falem mais alto. Mas por ora, não. Por ora, vamos nos fortalecer e fazer do FJGE, o nosso palco.

Não critico ninguém por nenhum posicionamento. Cada um seguirá com suas próprias convicções permanecendo ou saindo. Todos com suas coerências. Admiro e compreendo. Mas meu apoio e solidariedade a Renata Carvalho e ao seu Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, será na minha trincheira, fazendo o meu Próxima em sua homenagem e em homenagem a tantas e tantos que estão sendo arbitrariamente calados. Enquanto eu puder, terei voz e tentarei ver o máximo de espetáculos possível, rindo, me emocionando, debatendo e aplaudindo cada um dos nossos colegas que estarão, direta ou indiretamente, trazendo consigo a voz de Renata para o palco.

DIA 3 DE JANEIRO DE 2019

ANDRÉ FILHO NÃO CONCORDA COM A RETIRADA DA PEÇA JESUS, RAINHA DO CÉU, MAS SEU GRUPO FICA NO JANEIRO

Não sou adepto de transformar rede social em fóruns de discussões, tudo aqui é líquido demais e sujeito a interpretações equivocadas. Prefiro o concretismo do olho no olho, da presença física. Mas enfim, vamos lá. Vivemos tempos difíceis e creio que ficarão mais ainda. Tempos onde a liberdade de pensamento começa a dar lugar a outros valores, como a opressão, a tirania e a intolerância, conceitos que vão no sentido oposto ao que acredito enquanto artista. Lembro de um frase do filósofo W. Durant UMA GRANDE CIVILIZAÇÃO NÃO PODE SER CONQUISTADA, ATÉ QUE TENHA SE DESTRUÍDO POR DENTRO. Na ânsia de querermos um mundo mais justo acabamos muitas vezes ajudando mais os nossos algozes.

A quem realmente interessa a desfragmentação do Janeiro de Grandes Espetáculos? Há mais de trinta anos este festival tem dado provas de sua pluralidade. Tem sido um lugar onde podemos nos encontrar, dialogar, nos avaliarmos. Será que boicota lo seria o melhor caminho? Tenho dúvidas. Também não concordo com a retirada da peça JESUS, RAINHA DO CÉU…, mas até onde eu sei foi a coordenação do festival quem a convidou e depois precisou recuar por pressão dos patrocinadores. Isso não alivia a responsabilidade da APACEPE em fazer parcerias equivocadas para a realização do JGE, mas daí a taxar o festival de censor há uma distância. É fato que a APACEPE precisa rever esta fórmula do JGE, há muito defasada, mas os verdadeiros censores não fazem parte da APACEPE, eles estão assistindo de camarote, como urubus esperando o último suspiro do enfermo. Nós somos artistas, nossas armas são nossa voz e nossa arte e nosso campo de batalha é o palco. É lá que temos que estar.

Devemos aproveitar todo e qualquer espaço pra gente se apresentar e lá no palco, onde somos vistos, fazer o nosso protesto a favor não apenas para que Renata possa expressar sua arte mas também todos nós. Porque o que está em jogo não é apenas a censura de uma peça, mas o incomodo que nós artistas causamos, porque somos nós quem colocamos à sociedade diante do espelho de si mesma. A intenção dos verdadeiros censores é que a gente divida os nossos olhares porque assim as nossas ações se enfraquecem. Vou no caminho inverso do boicote ao JGE, acho que o que devemos fazer é fortalecer não apenas ele, mas todas as mostras e festivais de teatro que existem. Não podemos perder espaço. O que a gente tem que fazer é ir para o palco que é nosso lugar de luta, assistir o máximo de peças, lotar todos os teatros, colocar as diferenças de lado e aplaudir nossos pares, e na plateia ou no palco fazer com que eles (verdadeiros censores) saibam que não vão roubar a nossa capacidade de sonhar com dias melhores. Enfim, é o que eu penso.

POST DE IARA CAMPOS E JULIANA MONTENEGRO E TRUPE ENSAIA AQUI E ACOLÁ NO FACEBOOK

Janeiro de Grandes Espetáculos um festival de desrespeito ao artista

É do conhecimento de todos que o festival Janeiro de Grandes Espetáculos, de forma covarde, cedeu à pressão da bancada evangélica e censurou o espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU, que foi retirado da grade oficial. Toda nossa solidariedade e apoio a artista Renata Carvalho, a diretora Natalia Mallo e toda equipe do Núcleo Corpo Rastreado, assim como aos espetáculos pernambucanos que se recusaram a compactuar com tal censura, se retirando da programação.

O que pouca gente sabe é que o Festival vêm desrespeitado a classe antes da edição de 2019. Vários artistas ainda não foram pagos por suas apresentações na edição de 2018. Sabemos da dificuldade que é realizar e manter um festival desse porte por tanto tempo, mas é absolutamente inaceitável que passado um ano das apresentações a produção do festival não tenha apresentado nenhuma solução, nenhum plano de ação visando sanar esse problema, nenhuma justificativa plausível, nenhum posicionamento público acerca dessa questão, além de uma explicação rasa e vaga no Facebook. É importante frisar que, por diversas vezes, os grupos entraram em contato com a produção e tentaram exaustivamente chegar a uma solução não tendo conseguido nenhum retorno satisfatório. 

Todos os grupos cumpriram com suas obrigações, o mínimo que merecemos e exigimos é o respeito e o compromisso por parte do produtor do festival, Paulo de Castro, em resolver o problema e honrar com o contrato legal firmado entre os artistas e a APACEPE.

DIA 4 DE JANEIRO DE 2019

REUNIÃO CONVOCADA PELA APACEPE COM ARTISTAS E PRODUTORES DO JGE 

“Outros grupos resolveram continuar por considerarem o Janeiro uma trincheira que não se deve abandonar. Para a próxima edição, decidimos criar uma comissão de artista para que ela possa analisar situações como essa. Além disso, resolvemos que no final de cada espetáculo um artista subirá ao palco para falar sobre resistência no teatro”, relatou o coordenador do JGE Paulo de Castro ao jornal Folha de Pernambuco.  

DIA 6 DE JANEIRO DE 2019

 

Espetáculo tem direção de Mônica Lira. Rogério Alves

Espetáculo tem direção de Mônica Lira. Rogério Alves

GRUPO EXPERIMENTAL SAI DO JANEIRO

Sobre o 25º Janeiro de Grandes Espetáculos

Nós, o Grupo Experimental seguiríamos no próximo dia 13 de janeiro, no Janeiro de Grandes Espetáculos, com as comemorações dos seus 25 anos, mesma idade do festival, apresentando Breguetu, compondo a programação no Teatro Santa Isabel. Um espetáculo que circulou por várias cidades do Brasil, que fala do Brega, do jeito tão recifense e gostoso que só a nossa gente tem. Corpos que revelam em sua trajetória violências, preconceitos, marcas. A cada gesto que nos cala, a nossa fala se torna mais potente. Esperamos até o último momento para tomar a decisão, pois somos um coletivo e muitas divergências em torno da participação ocorreram, com ideias sendo defendidas e pontos de vista sendo aprofundados como é natural em uma tomada de decisão. Participamos da reunião para ainda tentar entender o que de fato acontecera, com quase 80 artistas reunidos em plenária lá, em meio a uma cidade dividia, com uma decisão tomada pela energia que nos move nesse instante. Não dançaremos como consta na programação e sim seguiremos deixando a pauta do Janeiro, em tom de revolta e profunda reflexão. Leia-se revolta pela conjuntura que vem destruindo os nossos espaços e nos tirando o direito e a liberdade mesmo antes do governo posto. Vimos este festival nascer, dar vez e voz a muita gente, fizemos parte desde a primeira edição. E inusitadamente nos chega como uma bomba a situação da organização diante desta conjuntura, onde estávamos segurando nas mãos do festival quando decidimos fazer mesmo num momento onde os festivais não conseguem recursos e muitos estão morrendo, por isso, deveríamos ter sido convocados pra enfrentar junto com os produtores esses opressores que se camuflam nos gabinetes e nas legendas políticas que supostamente defendem. Mesmo não concordando com a decisão respeitamos e até entendemos as razões colocadas de forma emocionada ontem por Paulo de Castro, bonito de ver tanta generosidade entre os pares. A censura, independente de quem a sofra, nos atinge no tocante, nesse lugar de fala em que todas as artes se tornam a voz dos oprimidos. Quanto ao Festival, esta é a chance de se rever, de se posicionar com quem o ocupa e dá sentido a ele. Quando nossa arte cria uma agenda tão importante para uma cidade como o Recife é, o palco se transforma em um lugar de luta. Sem Breguetu, sem Renata, sem todos nós que nos posicionamos, o JANEIRO ganha a oportunidade de redesenhar o seu trajeto, assim como divulgado na reunião: queremos caminhar na construção de um Festival de fato dos artistas dessa cidade. Neste momento em que todos precisamos nos dar as mãos, onde festivais se tornam alto-falantes, artistas e suas obras repercutem a voz da população, onde o cachê se negocia, onde se somam esforços diversos, nossos abraços formam muros intransponíveis. Rejeitar a quem quer que seja é enfraquecer estes elos. E nós todos somos um: a arte. Então, diante deste fato, tornamos pública a nossa posição, respeitando e abraçando a todos os artistas que ficam ou saem, pois nossa defesa é pela liberdade e isso engloba discordar e concordar. Aproveitamos para dizer que iremos comemorar nossos 25 anos, com mais calores, afetos, trocas e sem ela: a CENSURA.

“Não há outro mundo. Há simplesmente outra maneira de viver”. Jacques Mesrine

MARCONI BISPO ANALISA A CENSURA DA APACEPE
 
 

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU E A CENSURA DA APACEPE.
– ou O Teatro Segundo Recife, Seus Reis e Suas Rainhas.

Posicionar-se não é tarefa fácil. Tomar decisões que ajustem, com verdadeira harmonia, interesses particulares e coletivos, desejos pessoais e expectativas do Outro em torno de alguma questão nos coloca – estamos vendo agora – num labirinto. Com um Minotauro bafejando em nossas costas. Nós adoramos instigar o Outro a olhá-Lo, enfrentá-Lo. Mas o caso recente da Renata Carvalho – a censura por ela sofrida dentro do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos – está nos mostrando muitas coisas. Os labirintos estão cá dentro. Resolva os seus e depois veja a melhor forma de ajudar o Outro a resolver os deles.

Em julho de 2018, quando do episódio no Festival de Inverno de Garanhuns (todo o processo sofrido pela Renata Carvalho e seu espetáculo naquela cidade), Paulo De Pontes foi um dos ativistas mais entusiastas para que os/as artistas presentes na programação boicotassem o Festival. Era um chamamento diário, constante, intermitente. Era uma posição (que respeitei, como respeito muito ele). Com uma mostra do 25º Janeiro/2019 ocupando o espaço que ele faz a gestão – a Mostra “Curta Teatro”, na Casa Maravilhas – e mais dois ou três espetáculos que ele está no elenco dentro da programação, acredito que Paulo de Pontes esteja percebendo como não é tarefa simples exigir do Outro que resolva seus labirintos. Ou era muito mais fácil lutar com um inimigo, no caso de Garanhuns, quase liquefeito numa cidade inteira, num gesto que, embora soubéssemos de onde tinha partido, fora diluído num tanto de invisibilidades covardes, mas não menos ameaçadoras. Aqui, neste nosso Recife amado, o inimigo é sabido, está visível e (im)posto. Todavia, é nosso amigo. De quem se aguarda benesses, com quem não posso me indispor com medo do sol se pôr. Recife é assim: eu grito com que está do meu lado, com que está abaixo, talvez longe. Acima nunca! Lá estão os/as deuses/as alados/as, figuras que há décadas ditam a política cultural de uma cidade que, sequer, aprofundou os sentidos da “Política”. Isto que, parece-me, é quem harmonizaria interesses pessoais e coletivos. O tal do “bem comum”.

24º Janeiro de Grandes Espetáculos/2018: eu estava me preparando para entrar em cena com o “Luzir é Negro!”, espetáculo do Teatro de Fronteira onde sou o performer-protagonista, no Teatro Marco Camarotti. Ainda que tivesse com suas cadeiras reservadas, a Comissão Julgadora exigia a entrada antes do espetáculo começar. Explicamos que as cadeiras já estavam reservadas (os melhores lugares!), ainda resolvíamos um detalhe ou outro da apresentação e, o mais importante, o público entrava já com o ator em cena, recebendo a todos. Inclusive eles. A Comissão ficou emburrada (sem trocadilhos, juro). Um disse que se fossem embora o espetáculo não seria julgado. Dissemos: “Tudo bem, a gente não está aqui pela premiação. É pelo público e pelo cachê”. Outro julgador, já com o espetáculo iniciado, começou a exigir as cadeiras que havia pedido (a Paulo de Castro) para um seu convidado e mais seu acompanhante. Tensão, raivas. Resultado: não fomos indicados a nada, hahaha. E a gente só riu porque sempre soubemos da qualidade do Luzir! e do nosso grupo. E se a intenção era destruir a carreira do espetáculo, importante assinalar: tivemos um 2018 lindo!

Com esta passagem acima, o que quero fazer lembrar: isso só foi feito porque o mainstream do teatro pernambucano – seus coronéis – acredita que o Teatro de Fronteira e um ator negro têm o mesmo valor que fora dado ao espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”. É uma espécie de não-pertencimento. Ou um pertencimento quando é conveniente. Quando precisarem tratar de representação negra-gay-periférica no teatro pernambucano, “Luzir é Negro!” será lembrado. O que estamos vendo no episódio da Renata – e na forma como as pessoas reagem ou não a ele – é tão somente o sinal de uma cidade onde políticas públicas e relações privadas (sem trocadilhos, juro novamente) se confundem. Logo, não há “política pública” porque tudo pode ser balizado pelo nível de posicionamento que certos sujeitos têm ou não tem. Se se sujeita, tens. Se te posicionas e te rebelas, não tens.

Sendo assim, é muito fofo (na falta de um adjetivo mais apropriado) dizer que a censura não foi da Apacepe. É fofo mesmo. Palavra boa. Essa qualidade de coisas que não nos agridem. Mas também não servirão para quebrar muros.

(Em tempo I: faço parte dos artistas “privilegiados” que receberam seu cachê de 2018 – recebemos via Fundaj. Ainda assim, quando procurado por alguns artistas que NÃO haviam recebido seu cachê e intentavam uma movimentação pública, disse que me juntaria igual.)

(Em tempo II: este é um texto meu, bem meu, não é do grupo que faço parte, o Teatro de Fronteira. Desaforos, ressentimentos, instintos vingativos e deboches podem mandar pra mim. De boas. Já faz algum tempo que ando com gente muito massa em minha companhia. Beijos de Luz (ir!).

COMENTÁRIO DO ATOR PAULO DE PONTES AO POST DE MARCONI BISPO

Super coerente, mas sinto que a falta presencial para falar isso olho no olho só enfraquece as relações…e juntos podemos percorrer esse labirinto.. Só esclarecendo mea culpa, realmente lá no início do fig fui muito enfático em boicotar… Mas lá mesmo dei minha cara a tapa e percebi que estava errado… Diante do lindo movimento dos artistas em protestarem nos seus lugares de fala de direito… Lá mesmo no percurso do FIG, mudei de ideia… E aqui no janeiro penso que saindo (boicotando) é um suicídio… Não é pq estou envolvido com peças na programação, mas pq acho que não podemos desperdiçar nosso “palanque” (o palco)… Não é permanecendo num cenário de censura que somos coniventes com ela… É fazendo dessa permanência a possibilidade de combater ela através da nossa arte e, com ela, protestar e mostrar que não estamos satisfeitos.

A ATRIZ E PRODUTORA AUGUSTA FERRAZ AVISA NO SEU PERFIL DO FACEBOOK QUE SUA PEÇA A ARTE DE TREPAR NÃO FARÁ MAIS APRESENTAÇÃO NO FESTIVAL JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS. 

DIA 7 DE JANEIRO DE 2019

Renata Carvalho em O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Reprodução do FB

Renata Carvalho em O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Reprodução do FB

RENATA CARVALHO PUBLICA POST SOBRE A REUNIÃO DA APACEPE

Sobre o Janeiro de Grandes Espetáculos e a Censura:

No último dia 04 em Recife, o Janeiro de Grandes Censuras fez uma reunião com alguns artistas para falarem da CENSURA que eles mesmos fizeram ao “O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu” (sim parece piada mais é real)

A APACEPE (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco), comandada pelo censor Paulo de Castro, está tentando abafar sua atitude censora e se eximir da sua responsabilidade do feito, e ainda teve a cara de pau de nos chamar de covardes, porque não estaríamos indo de “forma independente”. Em uma entrevista ele diz:
“Se a gente enfrentasse (essa pressão de censura), talvez não tivéssemos os teatros públicos e isso impossibilitaria a realização do Janeiro.” 
(Neste trecho fica muito obvio que ele não quis enfrentar ninguém, mais fácil tirar a travesti e depois arrumar uma desculpa. É preciso dizer que: EM NENHUM MOMENTO o festival se esforçou para manter o espetáculo na grade, a pressão apareceu e eles retiraram, sem nos consultar ou avisar do ocorrido. EU FIQUEI SABENDO PELA IMPRENSA. E ele continua:
“Na reunião que tivemos com a classe, ficou decidido que ao final de cada apresentação serão feitas falas de repúdio à censura…”

Não é piada não, o cara que retirou nosso espetáculo da programação quer que os outros espetáculos falem da censura que sofremos no festival dele. Esse país não é brincadeira não.
E continua….

“… e que, no próximo ano, vamos criar uma comissão que vai tentar fortalecer a classe e evitar episódios como esse. O Janeiro é um festival dos artistas, fundamental, e temos que reforçar que este tipo de censura não cabe”

Querido você precisa fortalecer o TEATRO hoje, agora…não deixar pro ano que vem, talvez não ter entre os produtores deste festival pessoas medrosas, covardes e com o rabo político bem preso (como você) poderia facilitar viu, e dizer que não cabe censura no Festival é tão surreal e um tanto incoerente vindo de alguém que censurou. Quero deixar público que NÓS do espetáculo O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, não QUEREMOS que ninguém fale em defesa do espetáculo dentro desse festival que nos CENSUROU. Vocês estão assinando embaixo participando, e outra, não tem efeito nenhum, isso já foi feito em Garanhuns e adiantou?

Não precisamos que vozes covardes falem por nós ou em nosso nome.
Ontem o Grupo Experimental com seu espetáculo Breguetu foi o quarto grupo a deixar a programação do Festival em protesto a censura, juntando-se aos espetáculos: Altíssimo de Pedro Vilela, Solo de Guerra de Cleyton Cabral e Espera o Outono, Alice do Grupo Amaré. (isso sim é ser aliado)

Triste em ver que nossa 5ª censura não mexeu e nem movimentou com a classe artística brasileira. Penso com meus silicones: onde estão os artistas? O que eles estão fazendo? Onde está o entendimento do fazer artístico e o papel do artista? Onde perdemos nosso senso de classe?

Em outra entrevista o Grupo Epigenia do Rio, resolveu não sair do festival, o seu dramaturgo e diretor Gustavo Paso diz: “Não é boicotando o festival que vamos ajudar o teatro” 
Ahhhh entendi boicotar a peça com a travesti mais uma vez pode neh, o importante é não mexer no seu, só que ele também esqueceu de dizer como fazer, estranho neh, e continua: “A Epigenia é um grupo de teatro Humanista”. Obvio que essa “humanização” para na peça de uma travesti censurada

Fazemos ARTE pra quê? Pra quem? Por quê?
Fico pensando nos artistas que se colocaram, se manifestaram e lutaram na época da ditadura militar. Paramos ali de lutar? Saudades do Teatro subversivo, do teatro político, do teatro engajado, de luta. Daí me lembro que nesta mesma época existiam artistas que não faziam nada, mesmo com pessoas desaparecendo, sendo torturada, muitas assassinadas, sem liberdade de expressão, a censura comento solta no Brasil e lá estava a outra cantando: Pare o Casamento? 

Tristes tempos, quem perdeu e está perdendo nisso tudo é o Teatro, somos uma classe desunida, desarticulada, fechada em guetos e panelas. Somos todes COVARDES. E vamos perder mais devido a nossa inércia. Não entendemos que não é a “nossa peça” que está sendo atacada, mas sim a Arte, e o que nós fazemos? Apenas ficamos nas nossas salas de ensaio, pois o que estamos fazendo é sempre mais importante e urgente. Pra quem?
No fim quem ganhou foi a “Ditadura Política Eclesiástica”, eles sim saem dessa batalha como vencedores e muito fortalecidos.

Se grande parte dos grupos tivessem deixado o festival, iriamos ter dado uma resposta como classe artística dizendo que não permitimos censura, retrocesso, cortes em festivais, editais…
Mas nós preferimos ficar de frente as telas dos computadores e celulares criando falsas hashtags

A última é: “ninguém solta a mão de ninguém”, isso é balela, conversa pra boi dormir.
Porque antes de não soltar a mão de ninguém, primeiro precisamos nos dar as mãos e isso tá bem longe de acontecer.

Esse episódio mais uma vez nos escancara que somos uma classe artística cheia de:
COVARDES, COVARDES, COVARDES.
Renata Carvalho – atriz em O Evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, transpóloga, transfeminista e travesti. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), do Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T.

DIA 8 DE JANEIRO DE 2019

Orun retira seu espetáculo Meia-noite da programação do JGE

Orun Santana retira seu espetáculo Meia-noite da programação do JGE. Foto: Reprodução do Facebook

ORUN SANTANA (MEIA-NOITE) PUBLICA MENSAGEM NO FACEBOOK PARA COMUNICAR SEU DESLIGAMENTO E DO DARUÊ MALUNGO DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

Venho por meio dessa mensagem comunicar meu desligamento e do Daruê Malungo da programação do Janeiro de grandes espetáculos.

Hoje retornei a vida de trabalho diário e comunicação mais ativa com as redes e pude ler, conversar e entender diferentes posturas e posicionamentos sobre algumas questões das atualidades da cena pernambucana. Raramente espero muitos moveres alheios sobre as coisas que cabem moveres reais e que demandem proatividade, já vivi o suficiente para entender muitas questões de representação e de (como meu pai diz) “politicagens” que envolvem o meio cultural pernambucano.

Aprendi com minha Mestra/mãe, rainha Carijós, filha de Oxum e Iansã que a indignação e a coragem são parte de nós e que nunca devem ser escondidas, por mais que todo mundo lhe veja como a brava, a difícil, a radical, a bomba, apesar de não ser. Com ela também aprendi que tudo isso cansa e que quase sempre a indignação não tem retorno, porém nos torna sãos de nossas verdades, fazendo-nos ainda mais fortes naquilo que sabemos fazer de melhor Re-existir. Com meu Mestre/pai, dono do meio da noite, filho de Oxalá e Xangô aprendi a saber fluir, observar, esperar, brincar, derrubar sem bater, dar o tapa sem mão… aprendi que não se derruba uma montanha de uma só vez, se cava e a faz ruir por dentro, as máscaras caem e a justiça acontece, quase nunca da forma que queremos, mas acontece.
Hoje tive duas conversas importantes, a primeira com a produção do Janeiro e a segunda com minha amiga e artista Sophia Williams. Em ambas as conversas dei muita atenção no que sentia. Em ambas as falas tentei sentir antes de qualquer coisa, dei voz à minha intuição e deixe-me receptivo.

Depois das conversas li textos e observei pontos de vistas importantes… me fiz voltar no tempo e lembrei quantas e quantas vezes o Daruê Malungo não pôde ocupar lugares e quantas desculpas já foram dadas por não sermos selecionados ou quantas vezes fomos diminuídos frente a outros grupos e pra todo mundo tava tudo certo, normal… que pena né? Fica pra próxima… não tem espaço pra esse tipo de trabalho… é que vocês não são um grupo profissional… não tem conceito… folclore né? A tá…grupo de comunidade recebe menos… enfim, milhares de “censuras” descaradas e ninguém não estava nem aí, NINGUÉM fez nada! São 30 anos de escravidão artística nesta cidade chamada Recife! Apropriação! Desvalorização! Roubo! Mas…. Continuamos jogando nossa capoeira, mas até quando?! Será que se no passado outros artistas tivessem se posicionado mais e nos defendido frente as nossas censuras, estaríamos vivendo as dificuldades de hoje?! Talvez sim, talvez não, mas seríamos talvez de fato um grupo, uma classe que deu-se as mãos.

No dia 10 de janeiro continuo apresentando meu solo intitulado Meia-noite, porém fora da programação do Janeiro de grandes espetáculos, dando as mãos a Sophia Williams, que também apresentará seu solo Transpassar no mesmo dia e local (ainda a ser definido). Convido também Yuri Ilumini e Flávia Pinheiro a estar conosco nessa programação e aqueles que se interessam em agir. Eu e minha equipe estamos abertos a contribuir em ações que busquem essa ciranda de fortalecimento.
Agradeço a compreensão de todas e todos.
Axé e bem vindo 2019

Silvinha Góes, Ana Nogueira, Fabiana Pirro e Mayra Waquim. Foto:Reprodução do Facebook

Silvinha Góes, Ana Nogueira, Fabiana Pirro e Mayra Waquim. Foto:Reprodução do Facebook

VIOLETAS DA AURORA DEIXAM A PROGRAMAÇÃO DO JGE

As Violetas da Aurora, quatro e singulares, através desta publicação, oferecem humildemente sua voz de corpo inteiro ao coro de artistas que NÃO MAIS ESTARÃO na programação do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos.

Vivemos e vemos um momento muito, muito triste, com a perpetuação da destruição e do assassinato por todos os lados, por preconceito, por ambição, por vaidade, por violência… Um momento que nos joga nessa espiral do tempo em memórias tantas, distantes e recentes, dores, muitas, infinitas, tão marcadas em nossas células brasileiras… A censura, mais uma vez, ao espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU, nesse Pernambuco nosso, é inaceitável! A pressão de uma bancada evangélica abusando de seu poder ilusório para calar a arte e perpetuar preconceitos e mortes, é inadmissível! Criar através de estratégias políticas vergonhosas o desmantelo da cultura em ataques que vão da exclusão de um ministério a censuras a céu aberto é destruidor demais para não seguirmos mesmo de mãos dadas…

Ver o Janeiro se posicionar utilizando padrões regidos pelo dinheiro como justificativa de colaboração com a censura imposta, quando pouco tempo antes com a retirada de um importante patrocinador, tínhamos já concordado em abrir mão, praticamente todxs, cremos que mesmo a atriz Renata Carvalho, de nossos cachês, foi um baque sem tamanho e razão de muita indignação… Os desafios são infinitos e a união, os debates, as articulações de ações de resistência, urgentes…

Diariamente vamos necessitando reaprender nosso estar no mundo para seguirmos fortes nesse agora que nos pede mais inteligência constantemente e muito mais amor… Faz muito que os enfrentamentos são diários, para ser trans, para ser mulher, para ser negra, para ser índia, para ser… E sim… Chega de tantas atrocidades! É disso também que falam as criações das Violetas da Aurora, na rua ou no palco e é disso que falamos quando por companheirismo e fé dizemos não ao Festival JGE este ano.

Junto a tudo isso, assistimos nos últimos dias atentados assombrosos e sem tréguas aos direitos humanos, incluindo o desmantelo premeditado de uma mudança na educação (já precária há muito) por terrenos imensamente perigosos, como a ideia de meninas ‘só’ serem princesas e meninos ‘só’ vestirem azul num conto de fadas onde não se fala das crianças abandonadas nem miseráveis e a liberdade se enterra de tanta vergonha… Nesse momento em que as televisões ligadas por todo Brasil reverberam pelas casas as notícias mais terríveis e as ideias mais perigosas multiplicadas em alto e bom som… Não há qualquer possibilidade de nos calarem ou de nos calarmos! Abriremos mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!

É por isso que mesmo fora da grade do Janeiro de Grandes Espetáculos, as Violetas seguem na lida e em janeiro mesmo, ali, no Bar do Mamulengo, vão estrear assim, de um jeito independente, a sua nova brincadeira… Em janeiro tem espetáculo?… Lá no Bar do Mamulengo, no Recife Antigo, oferecendo na alegria da palhaçada a magia de outros olhares ao mundo, questionando esse sistema através do riso e encantamento. Por nós! Pelo teatro! Por Renata Carvalho! Por Natalia Mallo! Pela força da união! Pela vida!

Até lá vamos trabalhando na produção do nosso mágico elixir contra o retrocesso… Piu de morcego, folhas de alecrim, teia de aranha cigana, um coco bem cantado com gogó e coração, o balanço de uma ciranda e muito amor no caldeirão.

Vamos pra cima com arte, poesia e juntxs!!!!!

“Somos filhas e filhos da época
e a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.

O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.

Até caminhando e seguindo a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.

Versos apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.

Qual questão, me dirão.
Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável.
Ou mesa de conferência cuja forma
se discutia por meses a fio:
pode-se arbitrar sobre a vida e a morte
em mesas redondas ou quadradas.

Enquanto isso matavam-se os homens,
‘assassinavam as mulheres’,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.”

(Wislawa Szymborska)

SOPHIA WILLIAM CONVOCA REUNIÃO PARA O DIA 15/01

Olá, meus amores

Diante de tudo que está acontecendo atualmente, com mais uma vez nossos copos trans sendo censurados em um Festival, através da censura ao espetáculo O Evangelho Segundo Jesus a Rainha do Céu, da Renata Carvalho, venho através deste poste fazer uma convocação a todes artistas e pessoas trans da cidade, para estarem comigo em um encontro com os grupos e coletivos que estão boicotando o Festival, para conversarmos sobre futuras ações e o que pode ser feito para que nossa arte seja vista e respeitada, assim como nossos corpos e vivências.

O encontro será no Espaço Acolher das Mães Pela Diversidade, que fica na Rua Gervásio Pires, 404 sl04, 50060-230, Recife; no dia 15 às 15h… NESSE MOMENTO PRECISO DA PRESENÇA DE TODES! GRATIDÃO

 

Agri Melo em Histórias bordadas em mim. Foto: Rubens Henrique / Divulgação

AGRINEZ MELO ANUNCIA A SAÍDA DE HISTÓRIAS GUARDADAS EM MIM PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

COMUNICADO

Venho através deste informar que meu espetáculo solo:  Histórias Bordadas em Mim, está cancelando a apresentação do dia 26/01, na mostra Curta Teatro. A ideia da Mostra é muito bonita e louvável e o Espaço Maravilhas pode contar comigo no que precisar em momentos futuros. Mas, nesse momento, por esta edição está dentro da programação do 25° JGE (Janeiro de Grandes Espetáculos) e o festival citado apresentar-se nessa conjuntura opressora, excludente e transfóbica. Eu, enquanto mulher, negra, atriz e candomblecista solidarizo-me com a atriz Renata Carvalho e sou contra qualquer tipo de CENSURA sofrida por ela nesse festival. Não tem sentindo fortalecer um festival que vai de encontro ao que acredito. Portanto retiro-me da programação.

Na intenção de agir com o máximo de clareza, só hoje tomei a decisão.

Venho aqui também ressaltar a importância dos festivais para o escoamento de nossa produção. É importante frisar que os festivais teatrais e artísticos só são possíveis se existir o artista. Por isso devem horizontalizar suas ações, dialogar com o artista antes de ceder aos mandos e desmandos do opressor por aporte financeiro ou coisa do tipo. A arte é humana e precisamos dessa consciência para prosseguir.

Acredito que estamos no momento de muita transformação e essa transformação é obrigatória, assim como os posicionamentos. É hora de repensar a estrutura desses festivais. Dialogar com os interessados para que possam continuar. Agora mais do que nunca.

Histórias Bordadas em Mim acompanha este movimento de transformação e virá em momentos onde os gritos e cantos sejam para todos. Sem cerceamento. Torço por mais festivais com novas configurações que de fato abarquem a todos. Utopia ou não, vou seguindo nessa luta e Bordando essas Histórias que acredito em mim e nos meus. 

Foto: Reprodução do Facebook.

Foto: Reprodução do Facebook.

PAULA DE TASSIA COSTA RETIRA O TRABALHO DE PALHAÇARIA DO JGE

 

CANCELADO!

Desde de 27 de dezembro tomamos o posicionamento por retirar nosso trabalho de palhaçaria do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos por terem censurado/retirado da programação o espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU . Nossa palavra sempre será NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM e soltar a mão de um para livrar a própria pele é um ato de covardia. Estaremos sempre disponíveis para a luta do fortalecimento do direito de TODOS como iguais de direitos. Respeitamos todos os posicionamentos, e principalmente aquele que acreditamos e defendemos.

Reprodução do Facebook

Carne ou Vodka, de Daniel Barros, Eric Valença e Hermínia Mendes. Reprodução do Facebook

HERMÍNIA MENDES COMUNICA A SAÍDA DE CARNE OU VODKA DO JGE

 Querides companheires,

comunicamos o cancelamento da estreia do espetáculo Carne ou Vodka de Daniel Barros, Eric Valença e Hermínia Mendes, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos, devido à censura da bancada evangélica ao espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu e acatada pelo Festival.

Nós, atriz e atores, acreditamos que existem várias formas de resistência. Nosso espetáculo mergulha profundamente no caos humano e político que estamos sobrevivendo. Ele é nosso grito de horror! Por esse motivo, a escolha de estrear no meio dessa barbárie faria toda conexão e seria um dos nossos protestos. Ocupar um espaço público, ter o palco como lugar de fala nesse momento crucial fazia total sentido. Entretanto, resolvemos nos juntar aos demais artistas em nossa causa maior: A CENSURA.

Acreditamos que resistir não é apenas sair. Essa é apenas uma das batalhas que iremos enfrentar com a morte da democracia. Acabamos de perder o Ministério da Cultura, entre tantas outras perdas tão imensas quanto.
Precisamos nos unir enquanto classe artística, de verdade, na presença, traçar estratégias, bater na porta do governo que nos censura, não nos paga, e dizer que não aceitaremos calados.
O silêncio não nos cabe, né!?

DIA 9 DE JANEIRO DE 2019

NATALIA MALLO, DIRETORA DO EVANGELHO SEGUNDO, JESUS, RAINHA DO CÉU FALA
 
SOBRE O JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS  

Até hoje doze produções cancelaram suas apresentações no festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em solidariedade à grotesca e oficializada censura sofrida por O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Curadores não estão percebendo seu papel e responsabilidade no atual cenário político. Convidaram o espetáculo como “provocação”, por oportunismo, sem entender o que significava a possibilidade de voltar a Pernambuco depois da série de violências sofridas em Garanhuns no ano passado. Aquela apresentação/ato de resistência significou para nós enfrentar violência institucional e policial, humilhação, ameaças de morte, difamação e prejuízo financeiro. Foi o dia mais desgastante da minha vida artística, difícil descrever. Agora, depois de ceder covardemente à pressão da bancada evangélica, num movimento político orientado pelo receio em se indispor com a classe política dominante e assim perder apoio financeiro não só ao festival como a outros empreendimentos, esperavam de nós que fizéssemos um novo ato de resistência, apresentássemos em uma “boate gay”, nos colocássemos como parceiras do festival em uma suposta luta solidária pela manutenção desse espaço para a arte. Não entenderam nada. E, mesmo que como diretora eu sempre tenha tido a política de apresentar o trabalho custe o que custar, neste caso específico tanto eu como Renata Carvalho e Gabi Gonçalves, e também Jo Clifford, concordamos em não querer estar presentes, e não sermos coniventes com essa vergonha. O público vai sentir é o vácuo, a pobreza de espírito e a falta de compromisso desse evento com a arte e a liberdade. Jesus condenou abertamente os hipócritas, e nós também. Não tivessem cedido a essa pressão, e tivessem se afastado um pouco do próprio umbigo, o Festival poderia ter feito História, colocando-se ao lado da arte, e principalmente do corpo travesti, porque esse é o motivo real dessa violência. Esses fariseus não podem permitir o deslocamento desse corpo para o centro da cena e para os espaços de poder, porque isso desestabiliza seus podres poderes. Miseráveis. E assim como tentam massacrar as travestis na rua, tentam fazer o mesmo em qualquer espaço que elas queiram ocupar. Só que não podem deter a mudança. Essa mudança cultural está em curso e é irreversível. Somos muitxs trabalhando nisso. E saem do episódio desmoralizados, derrotados na única missão que tinham para cumprir. E os artistas que continuam na programação, não entendo o que os motiva. O festival sequer pagou quem se apresentou no ano passado. Toda a sociedade vai ter que sangrar para que algo mude. A peça foi apresentada 200 vezes, vista por 16.000 pessoas, foi à Europa e à África, emocionou muitas plateias, mudou vidas, aproximou famílias dilaceradas, levantou debates, inaugurou movimentos, e principalmente, por onde passa, desmascarou e desmascara a hipocrisia e a falta de empatia. Curadorias, melhorem.

RENATA CARVALHO COMENTA ABERTURA DO JANEIRO

Ainda sobre o Janeiro de Grandes Censuras

O festival Janeiro de Grandes Espetáculos começou ontem, sobre forte tensão (assim saiu na imprensa). O censor Paulo de Castro deu uma fala bem curta. Muitos homenageados deste festival falaram sobre a censura na abertura do evento. (Não é demaixxxx Brasilllll)

Saíram ao total até agora 10 espetáculos da programação do festival em protesto a Censura sofrida por O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu.

Passeando rapidamente pela programação com um olhar travesti bem atento: Algumas coincidências e considerações a fazer:

Existem 2 trabalhos do autor Santista Plínio Marcos (eu tb sou santista). 

Os trabalhos são: Navalha na Carne – uma homenagem a Tônia Carrero, do Rio com direção de Gustavo Wabner e 3x Plínio do Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina, que aborda os textos (Navalha na carne, Abajur Lilás e Dois perdidos numa noite suja), com direção de Emmanuel Matheus (nome bíblico)

Esses grupos sabem quem foi o autor santista Plínio Marcos? Acho que não profundamente. Plínio era e é considerado o “autor maldito”. Ele mesmo diz: “eu sou um repórter de um tempo mau.” Ele foi um dos primeiros a retratar os submundos de São Paulo, e tendo como principal pano de fundo, a cidade Santos, com sua zona boêmia, de prostituição, do porto, os malandros da noite, meninos de rua e prostitutas.

Um aparte (Plínio falou de todo submundo, menos de nós travestis, nem o Plínio falou de nós)

Na época da Ditadura Militar (1964 – 1985) ele era considerado “inimigo do sistema” (mal de santista rs). A partir de 1968, com a execução do AI-5 o teatro do Plínio é sistematicamente censurado as peças Dois perdidos numa noite suja e Navalha na Carne (com Tônia Carrero fazendo o papel de Neuza Sueli, papel que foi um dos marcos de sua carreira no teatro), depois de ter sido feita em várias regiões, foram interditados em todo território nacional.

Na década de 70 foi o autor símbolo da perseguição da censura. Foi preso em 68. Depois foi preso novamente em Santos por não acatar a interdição na peça Dois perdidos numa noite suja em 69 (ele também estava atuando na peça). Fora que foi inúmeras vezes levado para depor. Eu mesma escutei da própria boca do Plínio algumas histórias (comecei no teatro em 1996), e nessa época o Plínio passeava com seu crucifixo pelo Teatro Municipal, era figura sempre presente. Na redemocratização escreve nos anos 80 Jesus Homem (agora é travesti mesmo).

Penso com meus silicones: Esses grupos, essas pessoas, esses atores, esses diretores sabem de quem eles estão falando, conhecem pelo menos o mínimo da história desse autor?

Pois perante uma CENSURA sofrida por um espetáculo, estar encenando um dos autores mais censurados de nossa história e não fazer nada, não se colocar ou se posicionar é no mínimo incoerente, covarde e um desrespeito com a história e a obra desse autor. Vocês não entenderam nada. Precisam ler mais a respeito dele. Tenho certeza, conhecendo um pouco seu gênio nos bastidores do FESTA (Festival Santista de Teatro, criado por Patrícia Galvão, uma de suas madrinhas na arte) ele não iria gostar nada, nada. Inclusive ele diz: 

“A arte não pode habitar corações covardes” (Deu pra entender? Ou querem que desenhe?) 

Parece que o montaram para parecer cult, descolado, falar das pessoas à margem (está tão na moda o social neh gente, quer ser mais social e ganhar o sorriso nos lábios das instituições do que falar de gente marginalizada)

Porém se esqueceram do que movia o teatro do Plínio, a constante forma de nos jogar de forma tão escancarada na nossa cara essa realidade tão dura. 

Vocês estão montando Plínio a la gourmet? Um teatro pliniano higienizado, sem pensamento, branco, cis, hetero, bem nascido, com nível social elevado. É isso que vocês imaginam ser ele? Os encontros aconteceram em varandas gourmet, com vinho de boa marca ao final do ensaio?

Vocês andam comendo e lendo que Plínio? O autor santista pra vocês é nascido na Vila Madalena ou Laranjeiras? Plínio rico? Para vocês saberem ele era um fudido, teve que vender muitos dos seus livros e peças andando pelos bairros santistas para poder comer. Plínio sempre foi marginal e marginalizado. 

Será que mesmo uma conterrânea dele sofrendo censura, não os fazem repensar o seu fazer artístico no teatro dele? Ou de engajado só tem o texto e a escrita do projeto de vocês para agradar editais?

No dia 19 de novembro de 1999 ele falece, e sabe quem interpretava o personagem Veludo de Navalha na Carne na época, “EU” e com isso carreguei o baú com suas cinzas (e a atriz Ludmila Corrêa representando as prostitutas) e saímos pelas ruas de Santos, passando por vários pontos da cidade num caminhão de bombeiro, pelo Jabaquara (seu time do coração) e acabando na ponta da praia onde foram jogadas suas cinzas no mar. Fiz Giro de Abajur Lilás e dirigi Quando as maquinas param.

Falta discernimento, falta verdade e interpretação até de texto. Vocês não entenderam nada.

E para finalizar o Grupo Bernache Cia de Teatro de Pernambuco vai encenar o espetáculo Geni, sim ela mesma da música do Chico Buarque de Holanda feita para Ópera do Malandro, a personagem travesti é rechaçada, ofendida, excluída, e pedem para atacarem pedra nela. Mas o que o grupo faz quando na VIDA REAL uma travesti passa por isso: O mais absoluto silêncio. Espero que pelo menos a personagem trans seja feita por uma atriz trans, pq além de tudo ser “Trans Fake” seria o cúmulo da transfobia e exclusão, aliás exatamente o que a personagem passa. Será que o grupo Bernache sabe que Chico foi muito censurado, perseguido e ameaçado, e por isso se exilou na Itália em 1969?

Esses artistas fugiram da aula de história que conta sobre essa época? Não estudaram o tempo em que essas obras foram criadas?

E para terminar outra curiosidade o Grupo Bernache tem esse nome, em homenagem a uma ave que só voa em conjunto. Daí eles colocaram esse nome porque teatro não se faz sozinho, e não se faz mesmo.

Uma pergunta fica no ar: O voo de vocês é só entre os que estão no seu grupo e panelinha? Esse voo cabe uma travesti censurada? Na verdade Bernache e o grupo do Rio, vocês se perderam do bando, as bernaches estão sozinhas, desorientadas, não sabem o que fazer. E sozinhas as Bernaches não conseguem voar porque precisam do outro para fortalecer a união e seguir em frente com o voo.

Nós estamos no céu, mas sem asas, sem orientação, sem referência e sem paraquedas. E com isso meus caros, será inevitável, mas todos vamos cair e perderemos a direção do caminho para voar.

E nesse voo Pliniano, precisamos ter no mínimo uma consciência de classe, onde todes os Bernaches são importantes. Quando falta um, apenas um já é suficiente para perdemos toda direção.

O que nos falta é CORAGEM.

SOMOS BERNACHES COVARDES…

Renata Carvalho – atriz e O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, Transpóloga, Transfeminista. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), do “Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T (Primeiro coletivo artístico formado integralmente por artistas trans)

O POSTE SOLUÇÕES LUMINOSAS RETIRA ESPETÁCULO DO JGE

ATENÇÃO
Caros amigos, viemos através deste comunicado tornar pública a retirada do espetáculo pedagógico de conclusão de curso da Escola O Poste de Antropologia Teatral – intitulado Em Cada Encruzilhada, Uma História Dada: Um Ensaio Para Eugênio Barba – da programação do 25° Janeiro de Grandes Espetáculos.

A continuidade da referida montagem na grade seria acompanhada de ações voltadas para a visibilidade e representatividade das artistas Trans, pois temos um espaço cultural de resistência e nele já começamos a vivenciar essas ações (a nossa querida Sophia William participou de uma leitura dramatizada na Mostra Luz Negra 2018) . Mas tomamos a decisão da retirada por compreendermos a grande importância do LUGAR DE FALA defendido fortemente pela atriz Trans Renata Carvalho que comunicou que as possíveis estratégias criadas pelos grupos para visibilizar a representatividade Trans, mediante a CENSURA do seu espetáculo, são estratégias rarefeitas e pouco eficazes, por isso diante do que foi exposto pela atriz refletimos que a nossa ação não colaboraria em nada com o movimento LGBTQI+ diante desse quadro de CENSURA, onde o festival cedeu a uma pressão, sem uma resistência organizada, consequentemente tolhendo a liberdade de expressão e representatividade, por isso em respeito aos artistas Trans que tem O SEU LUGAR DE FALA E CABENDO APENAS A ELAS E ELES, QUE VIVENCIAM COTIDIANAMENTE AS SITUAÇÕES DE TRANSFOBIA saberem a melhor forma de representatividade, estamos retirando o espetáculo EM CADA ENCRUZILHADA UMA HISTÓRIA DADA do festival , mesmo de forma simbólica pois o espetáculo não tinha nenhum vinculo contratual , logístico, técnico com o JGE conforme informado no comunicado anterior do Grupo O Poste, pois iremos cumprir uma temporada que já estava agendada.

O GRUPO POSTE trabalha com ações afirmativas e a representatividade da negritude nas artes cênicas e exercitará O SEU LUGAR DE ESCUTA em relação a representatividade da comunidade LGBTQI+, e diante dos fatos concluímos que torna-se impraticável e incoerente da nossa parte seguir no evento. 

O grupo continua à disposição para que JUNTOS possamos construir um diálogo que fortaleça cada vez mais o espaço de escoamento das artes cênicas contando com a presença de TODOS OS ARTISTAS E A SUAS POÉTICAS tanto no JGE como em outros importantes festivais do estado, para que esse tipo de censura não aconteça NUNCA MAIS.

*IMPORTANTE: E o nosso LUGAR DE ESCUTA continuará no dia 15/01 as 15h no Espaço Acolher das Mães Pela Diversidade, um importante convite da querida Sophia William, escutemos.

*Nossa temporada irá acontecer de forma independente a partir do dia 11/01 as 20 hs

GRUPO O POSTE SOLUÇÕES LUMINOSAS.

Patrícia Costa, da Compassos. Foto: Breno César

Patrícia Costa, da Compassos. Foto: Breno César

COMPASSOS CIA. DE DANÇAS RETIRA O SOLO O PANO QUE LIMPA O TEMPO DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

Por não concordarmos com nenhuma forma de cerceamento e censura ao fazer  artístico.

Pelo respeito ao sublime e democrático direito de expressão.

Nós da Compassos Cia. de Danças, tornamos público o cancelamento da estreia do espetáculo solo O PANO QUE LIMPA O TEMPO, com a bailarina Patricia Costa e direção de Raimundo Branco, que aconteceria no dia 12/01/19 às 19 horas no Teatro Hermilo Borba Filho dentro da programação do 25° JGE (Janeiro de Grandes Espetáculos).

TREMA PLATAFORMA DE TEATRO REFORÇA CONVITE DE REUNIÃO NO DIA 15/01
CONVOCATÓRIA

Com a retirada/censura do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos 2019 temos um exemplo claro do período sombrio no qual entramos na história do Brasil. 
Vários grupos locais cancelaram sua participação e surge agora uma profunda reflexão sobre as práticas artísticas e a liberdade de expressão que se encontram cada vez mais ameaçadas.

Assim, a atriz Sophia William, do Dig d’Improvizzo Gang, juntamente com as produções dos espetáculos Altíssimo, da TREMA Plataforma de Teatro, Solo de Guerra, de Cleyton Cabral e Espera o Outono, Alice, do AMARÉ, convida TODOS os artistas cênicos da cidade, cis e trans, para um encontro presencial no dia 15 de janeiro (terça), às 15h. 

Não se trata de ações relacionadas ao festival JGE, temos como intenção inicial traçar estratégias e pensar ações concretas a fim de que a arte feita por atores e atrizes trans tenha mais visibilidade e respeito.

O encontro está marcado para o dia 15/01 (terça), às 15h, no Espaço Acolher das Mães pela Diversidade, localizado na rua Gervásio Pires, 404, sala 04, Boa Vista.
Vamos nessa?

Renata Carvalho, em cena de 'O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu'Foto Leonardo PastorDivulgaçã

O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, com Renata Carvalho. Foto Leonardo Pastor / Divulgação

RENATA CARVALHO PARTICIPA DO ISPA 2019, EM NOVA YORK

Hoje aconteceu o painel que fui convidada a participar na ISPA 2019, aqui em Nova York, com o Tema: A urgência do agora: Acesso,Igualdade e inclusão.
Minha fala inicial no congresso foi esta:

“Olá boa a tarde a todes, primeiro me desculpar por não falar inglês, o que acaba dificultando um pouco nossa comunicação. É uma honra estar na mesa com Marlene Le Roux (ela é incrível infinitamente) da Africa do Sul, Kevin Loring do Canada, Judith Knight e Luiz Coradazzi (meu tradutor)

Meu nome é Renata Carvalho, tenho 38 anos, sou brasileira e travesti.
Travesti é uma identidade latino-americana, tipicamente Brasileira e majoritariamente ligada a pobreza. Pertencemos ao gênero feminino, nos entendemos e nos expressamos através deste fenótipo, e é através dele que queremos ser tratadas. 

Porém não somos mulheres e muito menos homens. Somos Travesti, digo isso por que o gênero na linguagem para uma travesti é muito importante, no meu país passamos muitas vezes pelo desconforto de insistirem em nos tratar no masculino. Somos SHE.
Começo lembrando com enorme alegria e felicidade que em um evento de Arte, neste caso estou falando da ISPA 2019, eu não ter sido a primeira pessoa trans a falar em um painel. Na grande maioria eu fui a primeira. Tea Uglow conseguiu isso ontem aqui. Parabéns Tea. Mas posso dizer que fui a primeira travesti a falar num painel da ISPA, espero que não pare em nós, que essa porta agora nunca mais se feche a corpos como o nosso.

Neste ano completo 23 anos de carreira como atriz e diretora de teatro. E desde quando eu comecei no teatro em 1996, os artistas cisgêneros tentam me expulsar dele. 
A arte cisgênera é transfóbica, e não porque ela não permite que existimos, nós estamos lá nos textos e roteiros de teatros, novelas, filmes e séries, mas porque ela não permite que corpos como o meu estejam em cena. O teatro é o local mais democrático que eu conheço, pena que os artistas cisgêneros não saibam disso.
(Todos sabem o que é cisgênero? Se você não sabe o que é, provavelmente você é)
Preciso também trazer alguns dados do meu país Brasil para elucidar algumas questões:

– O Brasil é o país que mais mata de travestis, mulheres e homens trans no mundo, o segundo lugar, o México mata 4 vezes menos. As mortes são geralmente hiperbolizadas, muitos tiros, facadas, objetos enfiados no ânus, o local mais atacado é o rosto, há muitos casos de esquartejamentos, principalmente do órgão genital. Estamos na liderança a anos, só em 2018 foram 162 pessoas trans assassinadas só porque eram trans. Muitas de nós migraram para a Europa, porque lá a polícia não mata travesti na rua.
Só que 80% desses assassinatos são de travestis e mulheres trans negras, talvez seja este o motivo de eu ainda estar viva e podendo falar aqui. No meu país eu sou branca, e vivo o privilégio da branquitude.

– A nossa segunda causa de morte é o suicídio, agora falamos que não nos suicidamos, somos suicidados. A vida média de uma pessoa trans no Brasil é de 27 anos, o resto da população é de 75. 
90% das travestis estão na prostituição compulsória, e 90% somos expulsas de casa entre 12 a 14 anos de idade. Eu me prostitui, eu fui expulsa de casa.
A cada 48h uma pessoa trans é assassinada, e a cada 19 horas uma pessoa LGBTQI+.
Somos um dos países mais perigosos do mundo para ser mulher. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Ao final deste painel, 7 mulheres terão sido estupradas.

– Está em curso no Brasil agora, um genocídio da população negra e indígena. Há mais mortes de negros por ano no Brasil, do que países que estão em guerra.
Por isso o Bolsonaro foi eleito presidente no Brasil. Nosso massacre é um projeto de governo e de sociedade.

Agora sim, diante deste quadro posso continuar minha fala.
Em 2002, não aparecendo mais convites para atuar na época como ator, devido a minha feminilidade, torno-me diretor de teatro. Passo 10 anos na direção. Meu percebimento como um corpo travesti acontece na direção e é nela que faço a minha transição.

Em 2007 me torno agente de prevenção voluntária de ISTs, Hepatites e tuberculose na minha cidade natal Santos, trabalhando exclusivamente com travestis e mulheres trans na prostituição. Convivendo com minhas pares, me torno ativista e militante, principalmente da causa Trans.

Em 2012 finalmente retorno aos palcos, e dessa vez agora como atriz, num solo chamado: Dentro de mim mora outra, onde contava minha vida e travestilidade.
É com este trabalho que junto minha identidade, com o meu maior amor: o Teatro.
Então depois de um tempo fui me sentindo narcisista, resolvi contar outras histórias de pessoas trans.

O meu ofício me mostra que quando preciso montar Shakespeare, eu devo estudar a peça escolhida, a vida e obra para compreender melhor o que esse artista pensava. Então fui atrás da minha história, fui atrás da minha “Transcestralidade” e para contá-la, primeiro eu precisava conhecê-la.

Não existem livros que contem a nossa história, os livros que existem é contando exatamente a exclusão histórica desses corpos. 

Então eu resolvi escrever esse livro e contar nossa história. Comecei a ir atrás de livros que falassem sobre pessoas trans, este compêndio com mais de 100 livros chamo de “TRAVESTECA”.

Me descubro Transpóloga e passo a chamar esse estudo de “Transpologia”, ou seja, uma pessoa Trans que estuda a corporeidade Trans, com foco nas artes.

Atualmente interpreto no teatro Jesus de Nazaré, num texto da escocesa trans Jo Clifford chamado: O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, onde venho sofrendo ataques, violações, ameaças de espancamentos e morte. O espetáculo foi censurado pela quinta vez no Brasil, a última agora em janeiro em Recife. A censura é proibida no meu país desde a redemocratização após uma ditadura militar que durou 21 anos. O espetáculo faz a seguinte pergunta: “E se Jesus voltasse nos dias de hoje como uma travesti?

Jesus é a imagem e semelhança de todos, menos de nós pessoas trans. 
Nosso corpo é inapropriado, sexualizado, fetichizado, público e de segunda categoria.

Com dificuldades de encontrar espaço e trabalho a corpos como o meu, devido ao que chamo de “TRANS FAKE”, artistas cisgêneros que interpretam personagens trans.

Fundo no Brasil em 2017 o COLETIVO T (primeiro coletivo artístico formado integralmente por artistas Trans), Fundo o MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), e com ele crio o “Manifesto Representatividade Trans” que visa que artistas trans interpretem personagens trans,

A representatividade Trans é o ato desses corpos estarem presentes nos espaços de poder, e a arte é um espaço de poder e ela foi e é usada para exclusão, foi assim com as mulheres e depois os negros. Agora é a vez dos corpos dissidentes ocuparem esses espaços.

A representatividade faz com que os artistas cisgêneros convivam com os corpos trans, pois é no convívio, e só com ele que podemos quebrar estigmas, lendas, folclorizações, a construção social e a criminalização dos nossos corpos, identidades e vivências.
Nós artistas trans queremos fazer um grande acordo internacional.
Pedimos que nos próximos 30 anos os artistas cisgêneros deixem de representar personagens Trans, e que incluam artistas trans em seus congressos, fóruns, coletivos artísticos, grupos, companhias, instituições, peças, filmes e novelas.
E tenho certeza que estatísticas com as que apresentei aqui hoje, ficarão apenas na memória e história, para que lembremos sempre, assim não corremos o risco de retornar a ela.
Nós precisamos fazer isso, cada um de nós que está aqui nesta sala hoje.

Precisamos humanizar, naturalizar e acalmar os olhos cisgêneros com a nossa presença. Ainda estamos lutando para sermos consideradas humanas.
No final queremos reproduzir aquela velha e clichê frase:
“Que a arte imite a vida, e a vida imite a arte”. Que a arte inclua os corpos trans, para que a sociedade passa a inclui-los também.
Precisamos alargar esse conceito de humanidade que não nos contempla.
Queremos parar de morrer.
Obrigada Daniel Valeriano, Obrigada Luiz Coradazzi pela indicação ao meu nome para estar aqui hoje diante de vocês
Pois quem valida a arte, não valida a arte feita por corpos como o meu.
Hoje a ISPA valida o meu corpo e a minha voz travesti para o mundo.
Obrigada ISPA
Evoé…”
Renata Carvalho – atriz, diretora, pesquisadora, transpóloga, transfeminista e travesti. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T (primeiro coletivo artístico formado integralmente por artistas trans)

HALBERYS MORAES COMENTA 

 Que vergonha viu! Todos querem ter o nome que participou do festival, mas não pensam que seus próprios espetáculos discutem sobre a censura, temas que circundam sobre a realidade social, mas no final fica tudo bem, vão esquecer, vai passar. Não passará mesmo este acontecimento como algo comum. Como a Renata aponta no texto Plínio Marcos com toda sua carga que possui, não está e nunca será representado ali, mas porque será que continua na programação, existe uma instituição que seus apoiadores, gestores, funcionários falam ao fim de espetáculos tão bem, traz acontecimentos que já sofreram censura, mas no final apresenta qual posição? Ja está claro.

Chico Buarque quando escreveu Geni e o Zapelin tinha uma concepção muito grande do que a música retratava e bem sabemos quando lemos a letra o quão profunda ela é. Mas está aí, minha forma de contribuir é qual – permanecer na programação. Que forma de contribuir ein?

DIA 10 DE JANEIRO DE 2019

 

Atriz Renata Carvalho. Foto: Reprodução do Facebook

Atriz Renata Carvalho. Foto: Reprodução do Facebook

FESTA FESTIVAL SANTISTA DE TEATRO- FESTA – DIVULGA NOTA EM APOIO À ATRIZ RENATA CARVALHO

 

Nota de apoio à atriz santista Renata Carvalho

“A liberdade e a prisão
Ter um barco que percorra
Distâncias incríveis
Saber remendar um sapato
Encontrar um amor
Amor de verdade
Ser vento, fogo ou carvão
Tudo, tudo, tudo
Menos esta ratoeira”
Pagu

O FESTA – Festival Santista de Teatro, vem através desta se posicionar contra a censura ao espetáculo “O evangelho segundo Jesus – Rainha do céu”, monólogo protagonizado pela atriz santista Renata Carvalho, na programação do festival “ Janeiro de Grandes Espetáculos”, realizado pela APACEPE – Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco, que em carta aberta diz:

“O cancelamento se dá uma vez que o espetáculo seria realizado em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. Por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro.“

A arte não pode habitar os corações covardes afirma Plínio Marcos, um dos autores mais perseguidos pela censura, o Movimento Teatral da Baixada Santista, organizador do FESTA, que em sua edição 59 teve como tema “Liberdade de expressão” e contou com ” O evangelho segundo Jesus…” como espetáculo de abertura da mostra, no teatro Guarany, espaço público de forte ligação com o movimento abolicionista, teve sessão lotada e contou com apoio do poder público exatamente pela compreensão e necessidade de debates acerca dos temas apresentados na obra da dramaturga Jo Clifford com direção de Natalia Mallo.

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”, nos ensinou Simone de Beuvoir, nós trabalhadores da cultura devíamos saber o que significam essas palavras, sendo assim repudiamos veementemente a direção do festival, que em carta aberta da organização do evento, justifica:

“…vem informar que, com o objetivo de resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu.

“O festival reitera o seu compromisso com a liberdade de expressão e, exatamente por este motivo, realizou o convite para que O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu integrasse a programação do evento. Por não aceitar este tipo de censura, a direção do festival está dando suporte à produção do espetáculo para que ele seja encenado, na mesma data que ocorreria no Janeiro, em um espaço privado e de maneira independente.”

O espetáculo traz uma mensagem e pauta questões urgentes para o país que mais mata a população LGBT em todo planeta, está fazendo peregrinação mundo afora, levando palavras de aceitação, igualdade, amor, respeito e união, e a curadoria do Janeiro de Grandes Espetáculos optou pelo cancelamento, demonstrando apoio a censura, a bancada evangélica, a fim de preservar suas fontes de financiamento, reforçando a transfobia, a exclusão dos corpos T no mercado de trabalho e na arte, numa violência e silenciamento incompatíveis com a função de produzir acesso à cultura e diferentes visões de mundo.

O FESTA com 60 anos é o mais antigo festival do gênero em atividade no Brasil, tendo sido criado em 1958 por Patricia Galvão, teve suas atividades interrompidas em outro período histórico, em que tivemos um prefeito eleito destituído e um interventor no comando, na década de 1970 com a perda de sua autonomia política e administrativa. Santos, que abrigou o navio prisão da ditadura militar Raul Soares, sabe o que é censura. O Festival retomou suas atividades nos anos 1980 com a reabertura política e muita luta e resistência.

Sr. Paulo de Castro e equipe, não podemos normatizar, naturalizar e aceitar nenhum tipo retrocesso e perda dos direitos humanos, ainda mais quando ela vem de supostos agentes da cultura. Em Janeiro de 2019, nós já perdemos o Ministério da Cultura, a história se faz no presente também. Festivais são locais de encontro, intercâmbios, de troca e olhares, escuta e alumbramentos, são locais de afeto e acolhimento da diversidade.

A mudança vai acontecer de qualquer maneira. Então por quê resistimos?

Pernambuco, terra de Paulo Freire, João Cabral de Melo Neto, Tunga, do Maracatu, do Frevo, Joaquim Nabuco, Chico Science, Cláudio Assis, Kleber Mendonça Filho, Chacrinha, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre foi impedida de ver Jesus. De salto e de Santos.

Imagens no cartaz: Rogerio Alves -espetáculo Meia-noite; @eriquerfl - Trans(passar); Nathalia Verony - Água Dura

Imagens no cartaz: Rogerio Alves -espetáculo Meia-noite; @eriquerfl – Trans(passar); Nathalia Verony – Água Dura

APRESENTAÇÃO DE TRANS(PASSAR) + COLETIVO RUA DAS VADIAS COM “AI5” E “ÁGUA DURA” + ORUN SANTANA

O solo de Sophia William Trans(passar) + Coletivo Rua das Vadias com “AI5” e “Água dura” + Orun Santana com “Meia-noite” (obra que se retirou do JGE 2019), fazem apresentação conjunta no Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, a partir das 17h desta quinta-feira. Contribuição a partir de R$ 10.

 

Flavia Pinheiro. Foto:

Flavia Pinheiro. Foto: Amanda Pietra

FLÁVIA PINHEIRO RETIRA SUA PERFORMANCE ANTÍLOPE DO JGE

Não há política SEM CORPO! A perfomance ANTÍLOPE está desvinculada do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos. O silenciamento e a censura da atriz Renata Carvalho, em O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU, direção de Natalia Mallo nos coloca em atitude de prontidão / ação à atual conjuntura. Eu, uma bactéria , acostumada com este contexto insalubre que é Recife continuo em movimento. Dançar é a minha forma de existir no mundo! Assim como os antibióticos estão acabando com as bactérias a violência e a censura está dizimando as travestis . O biopoder que cerceia formas de existir, controla o que vida e aquilo que segue em movimento mata , chancela esta forma de vida. 

Por que nós artistas não conseguimos produzir as transformações no mundo que poderíamos ? Por que esta potência de reação ou uma força efetiva não se concretiza ?Estamos virando memes ? Algoritmo? Somos apenas replicantes de informação e opiniões ?

Arte é ainda ação e o discurso funciona como ato de fala dentro da lógica publicitária das redes sociais… A verdade é que eu sempre estive dissonante e dissidente; mas resiliente e persistente no Recife e suas práticas pseudo democráticas e artísticas . Aqui a crise estética eclodiu no engenho e continua com seus senhores e sobrenomes que negociam o poder (curadores, programadores de festivais que vem fazendo concessões há muito tempo e decidindo quem vive e quem morre !!!! ). Por que essa força efetiva da reação? […] porque não temos mais um corpo e não há, nem nunca haverá, política possível sem corpo. Se quisermos voltar a vencer, precisaremos de um corpo. Insurreição não é emergência. Uma insurreição pode ser a explosão bruta da revolta, mas, para que essa revolta forje um sujeito emergente, é necessário ainda mais um esforço. Só mais um esforço, se quiserdes ressoar a emergência.” (Safatle, 2016, Ainda somos matéria em ação. Antílope acontecerá amanhã com esforço e entrada “pague quanto puder” dissidente e dissonante deste festival. Não posso não performar ! Esta é a minha forma de existir ! De ser bactéria, de estar no mundo e modificá- lo em tempo e espaço. Deixar de fazer para apenas transformar em ato político de post no Facebook me parece um equívoco . Pretender uma sujeito quando não temos nem corpo é uma distopia. A crise da subjetividade fabricada nas tensões entre macro e micropolítica, na potência dos afectos e nos devires abertos nas composições entre corpo, enunciação e espaço devem colocar em movimentos mais nuances e complexidades . Estamos reafirmando um mundo dicotômico , do sim e do não … dançar ou não dançar ?! 

JANUARIA FINIZOLA ANUNCIA A RETIRADA DO SEU SOLO RESPEITA JANUÁRIA DA PROGRAMAÇÃO DO JGE

Comunico que, infelizmente, após dialogar com amigos, equipe de trabalho e refletir bastante, decidi não participar com meu espetáculo solo, RESPEITA JANUÁRIA, do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos. A apresentação aconteceria no dia 18 de janeiro de 2019, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho. Mesmo entendendo a importância do festival, acabei tomando essa decisão porque construí um espetáculo sobre o feminino, que evoca o RESPEITO e a LIBERDADE da mulher, sempre na luta para que vivamos distantes da opressão e da CENSURA, então, diante de tudo que aconteceu, cheguei à conclusão que, a posição mais coerente com meu discurso é a retirada do meu espetáculo da grade do festival.

 FABIANA PIRRO ANUNCIA APRESENTAÇÃO FORA DO JGE

Dizer NÃO ao Festival JGE por conta da censura feita (e que está querendo se estabelecer nas artes) a atriz Renata Carvalho, foi um grande passo pra nós Violetas da Aurora , assim seguimos na Estrada sem volta da liberdade. Ser Palhaça é gritar o tempo todo contra o preconceito e a cafonice daqueles que querem dizer o que criar/ser para uma criatura que tem o direito de escolher .

VIOLETAS DA AURORA vai apresentar (off JGE) no Teatro Bar Mamulengo na Praça do Arsenal dia 18 de janeiro às 21h sua MESA DE GLOSAS , brincadeira que foi criada pra festa de Louro lá no sertão mas que neste momento tbm precisa ser feita aqui. Poesia é um elixir bom danado contra o retrocesso .

Reprodução do Facebook.

Espetáculo Cicatriz Reprodução do Facebook.

PEÇA CICATRIZ SAI DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

  A equipe da peça CICATRIZ vem por meio deste comunicado informar que, após mais um caso de censura com o espetáculo da atriz Renata Carvalho em Pernambuco, a apresentação programada para o dia 19 de janeiro de 2019, às 20h, no Teatro Barreto Júnior, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos está cancelada. 

Aguardem em breve novas informações sobre nossa estreia.

Evoé!

CÊNICAS CIA DE REPERTÓRIO RETIRA PEÇA DO JGE

 A peça Terrorismo informa a todxs que após mais um caso de censura com o espetáculo da atriz Renata Carvalho em Pernambuco as apresentações do espetáculo Terrorismo programadas para os dias 29 e 30 de janeiro de 2019 as 21h no teatro Hermilo Borba Filho, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos estão canceladas.

Evoé!

 

As rosas no jardim de Zula. Foto: Vagner Antonio

As rosas no jardim de Zula. Foto: Vagner Antonio

ZULA CIA. DE TEATRO, DE BELO HORIZONTE, ANUNCIA NO FACEBOOK SAÍDA DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

Um convite à reflexão

A Zula Cia. de Teatro vem, através desta publicação, comunicar a retirada do espetáculo As Rosas no Jardim de Zula da programação do 25° Janeiro de Grandes Espetáculos, que acontece agora na cidade de Recife, de 08 de janeiro a 14 de fevereiro de 2019. A apresentação de nossa peça aconteceria nos dias 15 e 16 de janeiro no Teatro Hermilo Borba Filho. Na última sexta-feira, dia 04 de janeiro, ao pesquisar a programação completa do festival, descobrimos que o espetáculo O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU, protagonizado pela atriz Renata Carvalho, que faria parte do festival com 03 apresentações, tinha sido retirado da programação por pressão da bancada evangélica da cidade de Recife. Renata é travesti, transpóloga, transfeminista. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), do Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T. Segundo Paulo de Castro, coordenador do festival, ou ele cedia à pressão ou perderia toda a verba que tem para realização do festival. Desta forma, cedeu à exigência da bancada e retirou a peça da programação.

Desde este dia seguimos conversando e refletindo sobre esse acontecimento absurdo, tentando chegar num consenso sobre qual seria o posicionamento do grupo diante disso.

Hoje a censura foi com a Renata por ser trans e interpretar Jesus, num espetáculo que fala sobre a “opressão e a intolerância sofridas por pessoas trans e minorias em geral na sociedade”. E amanhã, com quem será? Esse acontecimento não diz respeito somente à Renata, diz respeito a todxs nós, trabalhadores da cultura. Foram muitas as perguntas…..

– o que fazer diante disso?

– desistir não seria um tiro no pé? Não é isso mesmo que os fascistas querem?

– vamos ler um manifesto ao final da apresentação. Isso basta?

– vamos apresentar no primeiro dia e no segundo dia a gente não apresenta e faz um ato de protesto?

– vamos entrar em contato com outros grupos que participam do festival e articular uma ação, um texto…

– vamos simplesmente apresentar e fingir que nada está acontecendo?

– não seria cômodo fazer parte do festival, receber o nosso cachê e dizer que se importa com a causa? Enquanto isso é mais uma porta que se fecha para uma atriz trans. 

– estar lá e fazer um discurso contra censura não é contraditório?

– o que realmente vai causar algum efeito num momento em que vemos de braços cruzados a extinção do Ministério da Cultura, a extinção da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, a extinção do prêmio Myriam Muniz, etc…etc..etc…

– o que vai fazer alguma diferença num momento em que a cultura pouco importa para o poder público?

– o que vai fazer alguma diferença agora…

– o que vai fazer diferença…..

Estamos num momento de muitas perguntas e poucas respostas sobre como continuar re-existindo com arte, não sabemos o que virá e a sensação de impotência é grande. Mas sobre o agora, preferimos ficar com a decisão que faz diferença pra nós, independente do efeito que isso vai causar. Ficamos com a decisão que nos fortalece intimamente. Seria incoerente participar do festival com uma peça que conta a história de uma mulher-mãe, que abandonou os filhos, foi pra rua, se prostituiu, se reencontrou, se redescobriu e se refez. Uma peça que não julga a condição dessa mulher e sim mostra sua força em busca de si mesma. Que fala acima de tudo de amor e que também não passaria na censura. Nem essa nem todos os outros trabalhos da Cia. Nós não estamos ainda na mira dos evangélicos, ainda.. E o que faz diferença para Cia. neste momento é dar as mãos para quem está na mira e fortalecer esse coro, essa resistência. Estamos com a Renata e com todos os grupos que optaram por não fazer parte do Festival, como forma de não compactuar com a censura.

Não compactuar com o fato do poder público ditar o que deve ou não estar num Festival que é da cidade de Recife e existe há 25 anos. Não compactuar com a ideia de uma atriz trans ser barrada por uma bancada evangélica de apresentar num teatro público, teatro público!! 

E fica um convite à reflexão. Como vamos continuar re-existindo nesses tempos de agora? 2019 tá só começando. Vem muita censura por aí. Como vamos lidar com estas situações? Vai ter luta? Quais são as nossas lutas? Quando é que uma luta passa a ser uma causa sua? Como vamos nos articular como classe? Somos uma classe? 

Acho que a gente precisa conversar e inventar uma nova forma de ser/estar e sobreviver de arte. Sigamos!

Abaixo, nos comentários, seguem os links com as cartas de Renata sobre o assunto e também de outros grupos que optaram por deixar o festival, pois entendemos que é necessário fazer esse acontecimento circular. Precisamos falar sobre isso e evidenciar a gravidade deste momento. É preciso se importar.

Zula Cia de Teatro 

Andréia Quaresma, Cristiano Oliveira, Talita Braga e André Veloso.

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht

COMENTÁRIO DE LEONARDO LESSA SOBRE A SAÍDA DA ZULA CIA. DE TEATRO DO JGE

 Para além da frase de efeito, estar de mãos dadas exige muito mais do que afeto. Muitas vezes nos cobra senso de coletividade, alteridade e renúncia – tudo o que faz o verdadeiro teatro pulsar! Por isso, muitos aplausos para essas minhas companheiras de vida e arte, que em tempos tão sombrios, iluminam um caminho necessário para trilharmos juntas, de mãos dadas. Censura nunca mais! Viva Zula Cia. de Teatro!!! Viva Renata Carvalho!!!

 

 Endi Vasconcelos, Maria Laura Catão e Bruna Castiel. Foto: Lucas Leônidas

Endi Vasconcelos, Maria Laura Catão e Bruna Castiel. Foto: Lucas Leônidas

BUBUIA COMPANHIA DE TEATRO CANCELA PARTICIPAÇÃO NO JGE 

 

Nós da Bubuia Companhia de Teatro, que estrearíamos o espetáculo Quanto mais eu vou, eu fico dia 19 de Janeiro na grade do Janeiro de Grandes Espetáculos, cancelamos nossa participação no Festival após a retirada da peça O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu por pressão externa.
(Pedimos desculpa em relação aos ingressos já comprados, mas adiantamos que o estorno será feito pelo Ingresso Rápido, com prazo de devolução de até 30 dias e não haverá prejuízo para ninguém)

Foi uma decisão difícil, árdua. Ouvimos vários lados antes de nos posicionarmos. Conversamos muito entre nós, com nossas opiniões por vezes comuns ou divergentes. São anos de investimento do grupo e o sonho de fazer teatro aqui em Pernambuco, e a estreia no Festival seria um ótimo início. Contudo, diante dos últimos acontecimentos, da censura, dessa época tenebrosa de intolerância, de tolhimento, não podíamos nos apresentar em paz sabendo que uma artista teve que sair para que a gente tivesse nossa vez.

Não temos responsabilidade pelo nosso privilégio, mas é do nosso controle o que fazemos com esse privilégio (mesmo que mínimo teatralmente falando, é muito maior que o de pessoas que costumeiramente têm suas vozes silenciadas, atiradas nos guetos).

Seguimos nosso coração, seguimos o que acreditamos ser o mais importante. É uma luta maior que o nosso sonho de estrear no Janeiro. Não estamos aqui criando dicotomias ou vilanizando ninguém. Torcemos para que o Festival olhe para dentro de si e se reformule, que troque com os artistas, principalmente os que estão à margem.

E não deixaremos de fazer arte. Não deixaremos o espetáculo morrer. Resistiremos. Em breve divulgamos onde e quando será a nova data de estreia.

Atenciosamente,

Bubuia Companhia de Teatro.

DIA12 DE JANEIRO DE 2019

 

O CRÍTICO KIL ABREU COMENTA O EPISÓDIO DA EXCLUSÃO DA PEÇA E COMPARTILHA O POST DO SATISFEITA, YOLANDA 

 

SOBRE JESUS CENSURADO. DE NOVO. 
Fui curador do Festival Recife do Teatro Nacional por quatro anos, quando convivi, em idas e vindas, com o pessoal de lá – artistas, gestores, a gente das ruas. Além dos amigos e amigas que fiz uma coisa me chamou muito a atenção: de como o pernambucano gosta de um bom enfrentamento – o que talvez seja um traço de politização. Que eu, aliás, já conhecia desde que vi uma cena incrível há uns bons anos – Ariano Suassuna, então Secretário de Cultura, sendo vaiado e/ou aplaudido ao mesmo tempo por no mínimo umas quinhentas pessoas, entre elas muita gente do palco, em uma noite plena no Teatro do Parque. Foi uma treta lá. E, percebam, não era um qualquer, era Suassuna! Fiquei com essa imagem, de que os artistas da terra de Joaquim Nabuco são posicionados.

Por isso recebemos com surpresa, eu e muita gente, a notícia de que o espetáculo O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, de Renata Carvalho foi novamente censurado, agora no mais robusto festival pernambucano de teatro, o ‘Janeiro de grandes espetáculos’, organizado por… produtores e artistas. A exclusão da montagem deu-se a pedido de políticos evangélicos (não digo que se deu por pressão dos evangélicos, digo “de políticos evangélicos”, me parece mais justo), entre os quais alguns arrivistas que estão neste momento tentando escalar o poder. Os argumentos da associação que promove o festival são confusos e conflitivos. Diz-se que o evento tem dívidas. E então, pelo raciocínio, entrega-se a cabeça de quem os patrocinadores pedirem. Fala-se por outro lado em promover a “liberdade de expressão”, mas que o espetáculo foi limado para “enxugar custos”. Justamente o espetáculo em que uma atriz travesti representa um Jesus que volta como travesti. Depois admite-se que a decisão foi tomada sob pressão, por fatores “extra artísticos”. Resumindo tudo ao osso, é um episódio deliberado de censura e, antes, de transfobia. Cena dramática da narrativa que todos vivemos hoje no país de Bolsonaros. O “todos” vivemos” não quer dizer que vivemos na mesma posição, claro. Os corpos e desejos fora da ordem seguem sob maior ataque. Felizmente nem tudo foi entregue de mão beijada. Mais de uma dezena de espetáculos saiu voluntariamente da programação em solidariedade ao “Evangelho”, riscando um chão que de fato precisava ser riscado diante do perigo de uma rendição que não só nos envergonha a todos e todas como também abre a guarda para o avanço do fascismo. O histórico e a avaliação desse episódio está na ótima, ponderada matéria da Ivana Moura para o Satisfeita, Yolanda?, que colo nos comentários.

Reprodução do Facebook.

Santo Genet… Foto: Reprodução do Facebook.

PEÇA SANTO GENET E AS FLORES DA ARGÉLIA SAI DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO

 

Refletindo sobre a situação gerada pela retirada do espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos, pensamos que uma mesma situação pode ter diferentes pontos de vista, independente de haver uma assertiva única. O Grupo Cênico Calabouço vem a público informar que é completamente contra qualquer tipo de censura ligada à arte e fazeres artísticos. Realizamos diversas escutas nesse período e refletimos sobre a situação ocorrida dentro do contexto teatral em Pernambuco. Vemos uma cidade partida. Uma classe teatral fragmentada. E achamos que diante deste momento e situação propomos suspender o espetáculo da programação do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos. Essa suspensão é um lugar para pensar e refletir sobre esse momento – sem buscar inimigos, nem culpados. Mas queremos estabelecer espaços de diálogos. Um festival não pode ser uma guerra santa entre artistas. Um espetáculo não pode ser um lugar de ódios entre criadores. Assim decidimos realizar essa suspensão para pensarmos. Um tempo que nos crie mais dúvidas e menos certezas. Um silêncio que nos faça ver o que nos olha.

Observação: Sugerimos a leitura do ensaio BROW, Wendy. Cidadania sacrificial: neoliberalismo, capital humano e políticas de austeridade. Rio de Janeiro/Copenhague: Zazie edições, 2018.

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Atriz Renata Carvalho. Foto: Reprodução do Facebook

Atriz Renata Carvalho. Foto: Reprodução do Facebook

A ATRIZ RENATA CARVALHO COMENTA AS AÇÕES E POSICIONAMENTO DE ARTISTAS

 
CONTRA A CENSURA

“Os apóstolos aumentaram, não são mais 12”.

Desde a estreia do Janeiro de Grandes Espetáculos (de grandes censuras) no último dia 8, já foram 19 espetáculos que saíram da programação, Mascate, a pé rapada e os forasteiros passou o vídeo de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu na integra. E a atriz trans Sophia William organizou um ato performático no dia 10, apresentando o seu solo Trans (passar), juntamente com o Coletivo das Vadias que apresentou: AI-5 (Ato institucional onde a CENSURA foi uma de suas principais armas) e Água Dura, e ainda Orun Santana (que já tinha retirado seu trabalho do Janeiro com Meia-noite).

E dia 15 agora terá uma reunião organizades por elas todes.

Foram 21 ações/posicionamentos, com 22 coletivos/grupos reunidos. Os apóstolos cresceram. Fora as notas públicas de entidades/grupos/artistas.

Um dado importante dos 19 espetáculos que se retiraram, 18 são de Pernambuco.
Que orgulho dos artistas valentes de Pernambuco, desde o episódio de Garanhuns que não saíram do nosso lado, aguentaram e enfrentaram toda violência sofrida daquele dia, e após aquilo, e hoje ainda continuam juntos. Sinto o carinho e a força de todes eles, nos fortalece a seguir, recebam o meu mais profundo agradecimento, abraço e cheiro. Que orgulho desta Pernambuco da qual tive o privilégio de ser neta de Vó Alice, nascida em Jaboatão dos Guararapes, da qual aprendi, fui muito amada e inclusive defendida de algumas surras por parte daquela que chamam de minha mãe. Vó Alice que saudade e que orgulho de ter seu sangue correndo em mim, minha baixinha mais porreta que conheci.

Obrigada a cada artista Pernambucano de ontem e de hoje e tenho certeza que de amanhã. Grata Grupo Magiluth o seu olhar sincero e critico foi fundamental nessa caminhada. Obrigada Satisfeita, Yolanda? o seu registro e compilado é emocionante, desmascara tudo.

Os espetáculos que deixaram a programação até o dia 12/01 são:
1 – Altíssimo de Pedro Vilela da Plataforma TREMA! Festival. (Grata pela coragem de ser o primeiro e ser semente nesta construção) – (PE)
2 – Solo de Guerra de Cleyton Cabral – (PE)
3 – Espera o outono, Alice do Grupo Amaré – (PE)
4 – Breguetu do Grupo Experimental – (PE)
5 – Meia-noite de Orun Santana do Grupo Danuê Malungo – (PE)
6 – Respeita Januária de Januária Finizola – (PE)
7 – Histórias bordadas em mim de Agri Melo – (PE)
8 – Carne e Vodka de Daniel Barros, Eric Valença e Hemínia Mendes. – (PE)
9 – Intervenção de Palhaças de Paula de Tassia Costa – (PE)
10 – Violetas da Aurora de Fabiana Pirro, Silvinha Goés, Mayra Waquim e Ana Nogueira – (PE)
11 – Em cada encruzilhada uma história dada. Uma história dada: um ensaio sobre Eugênio Barba” da escola O Poste de antropologia teatral –(PE)
12 – Um pano que limpa o tempo com Patrícia Costa do Grupo Compassos Cia de Danças (PE)
13 – Cicatriz – (PE)
14 – Terrorismo – (PE)
15 – As rosas nos jardins de Zula da Zula Cia. De Teatro – (MG)
16 – Antílope de Flavia Pinheiro – (PE) 
17  –  A arte de trepar de Augusta Ferraz – (PE)
18 – Quanto mais eu vou, eu fico da Bulbuia Companhia de Teatro – (PE)
19 – Santo Genet e as flores da Argélia – do Grupo Cênico Calabouço – (PE)

Que lindo ver esse movimento, transpofagizando Ângela Davis –
“Quando uma classe artística se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”
Bem vindes ao TRAVIARCADO (onde todes as corpas são naturais)
Evoé…
Renata Carvalho – atriz em “O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu”, transpóloga, transfeminista e travesti. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) e do “Manifesto Representatividade Trans” e do Coletivo T (1º coletivo artístico formado integralmente por artistas trans).

Renata Carvalho, em cena de 'O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu'Foto Leonardo Pastor / Divulgação

Renata Carvalho, em cena de ‘O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu’Foto Leonardo Pastor / Divulgação

G1 SANTOS PUBLICA MATÉRIA SOBRE CENSURA DA PEÇA O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU PELA SEGUNDA VEZ EM PERNAMBUCO

Travesti que interpreta Jesus desabafa após cancelamento de peça: ‘Censura’

Travesti que interpreta Jesus desabafa após cancelamento de peça: ‘Censura’

DIA 13 DE JANEIRO DE 2019

 

A AMOTRANS – ARTICULAÇÃO E MOVIMENTO PARA TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DE
 
PERNAMBUCO DECLARA APOIO À RENATA CARVALHO
Nota

A Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco vem por meio desta nota declarar nosso inteiro e incondicional apoio a companheira Renata Carvalho que mais uma vez tem sua obra censurada pela total falta de compreensão da peça desenvolvida pela nossa companheira que é sobre tudo uma atriz completa.

Deixamos aqui nosso total desagrado e insatisfação e não compactuaremos com qualquer forma de censura que venha sobre cultura por parte de um falso moralismo. 

Assim como tal a Amotrans estará sempre a disposição para lutar contra qualquer retrocesso que venha atingir nossa população de travestis e transexuais; não baixamos a cabeça no passado e não baixaremos agora.

Cultura sim!

Não mais censura!

A direção

 

MULTIARTISTA E ESCRITORA AURORA JAMELO ESCREVE SOBRE O JGE

Eu Não Sou Geni. – Aurora Jamelo – Medium

Eu Não Sou Geni

Pode parecer devaneio dizer uma coisa dessas nessa altura dos acontecimentos. Esse curiosamente é um inesperado primeiro texto de 2019, que já aconteceu todo em apenas treze dias.

A vida me deu um caminho que eu nunca nem cogitei, ser atriz. Na verdade, ela veio aqui do meu ladinho, muito da debochada, e perguntou:

— Tu vai deixar isso assim, menina?
— Vou não, babe.

Comecei a estudar Teatro porque não estava vendo meu corpo sendo propriamente representado, em lugar nenhum, nem TV ou Teatro, muito menos Cinema. Até porque o único lugar mais verídico é invisibilizado.

A música Geni e o Zepelim, popularmente conhecida a partir de Chico Buarque, conta um caso na vida de Geni. Geni é uma Travesti, e reflete a história de tantas outras “Genis”, que por si, lutam todos os dias para se manterem vivas.

LUTAR PARA SE MANTER VIVA!

Geni, apesar de doce e bondosa moça, vive carregando as pedras que lhe deram.

Eu, Aurora da Silva Lopes, já fui apedrejada na rua. Não, não falo de poética ou metáfora, eram pedras mesmo. Não pude reagir, correr, gritar. Continuei andando até parar de sentir as pedras.

— Mas Aurora, se você já foi até apedrejada, por que você não é Geni?

Janeiro de Grandes Espetáculos de Censura

Começamos assim. A retirada por motivos de censura a um espetáculo de protagonismo Travesti, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, causou burburinho na classe artística pernambucana.

Boicota ou não? Por que? Como?

Me vi nesse movimento mostrando, junta a amigos, amigas e aliades, como fazer um boicote bem feito.

Dia 10 de Janeiro de 2019, ás 17h30 se deu início a programação de um movimento de representatividade e grito de vozes femininas, trans, travestis e negras.

Me senti viva e logo invisibilizada.

Na manhã seguinte, a divulgação de um espetáculo intitulado Geni, da Bernache Cia de Teatro, dentro da programação do festival Janeiro de Grandes Espetáculos.

Não pode travesti, mas pode TransFake?

TRANSFAKE: Interpretação em cena (TV, Teatro e Cinema) de um corpo/vivência Trans e Travesti realizada por um Ator ou Atriz Cisgênero. 

Conhecia o espetáculo por alto ou por nome, melhor dizendo, já teria acontecido outras vezes. Não me posicionei inicialmente por não conhecer a companhia, os atores e atrizes em cena e muito menos o roteiro de adaptação.

O que esperar de uma adaptação para o teatro? Eu mesma já pensei em roteirizar a música para cena.

Pois bem, aconteceu, dia 12 de Janeiro às 20h30. E é por isso que eu não sou Geni.

Geni é interpretada por um ator Cisgênero, e caminha pelos acontecimentos cantados por Chico Buarque. Poeticidade, iluminação cênica e dramática e um coro jogando pedra na maldita.

“Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco”

Geni é abusada e estuprada por aquele de desceu do Zepelim. Segundo a Bernache, ela gostou, era isso que ela queria. Não, ela não se sentiu aliviada por isso ter acabado, ela tava ótima. Na verdade, ela até se deliciou com tudo isso.

“E tentou até sorrir”

Tentar sorrir? Eu tento sorrir quando sou abusada na rua, tento sorrir pra fingir que nada aconteceu, pra que ninguém me pergunte o que aconteceu. Mas Geni não.

Ao prefeito, Geni reivindica seus direitos. À plateia, Geni pergunta:

“O que vocês tem a reivindicar?”

Eu reivindico minha vida, mal representada, estereotipada e interpretada por uma pessoa que não sabe o que sinto.

“Eu sou Negro! Eu sou Gay! Sophia é Trans!”

Sim, Sophia é Trans, mas ela não precisa que ninguém diga isso por ela.

Sophia William foi um dos nomes destaques na construção do pensar das ações de boicote referentes a censura do festival. Após se posicionar abertamente colocando sua visão como atriz e pessoa trans, ela foi procurada pelos grupos adeptos ao boicote para pensar no verdadeiro propósito da ação.

Ela foi procurada porque ninguém sabe o que fazer depois. Porque ninguém conhece as necessidades dos corpos Trans e Travestis, artísticos ou não. Sabe porque não conhecem? Porque não nos veem, não nos ouvem. Mesmo que a gente esteja aqui, todo dia tentando viver socialmente e de vez em quando, tentando re-existir nos palcos. Eu poderia reproduzir um texto automaticamente de tantas vezes que eu já falei a mesma coisa. Ouviram?

A história continua. Segundo a Bernache, Geni foi morta pela própria mãe, dizia que “o filho” estava condenado. Depois Geni foi morta por todos aqueles que beijaram a sua mão. E morta, foi mais uma vez abusada.

A platéia riu.

No fim das contas, aplausos, agradecimentos e uma tentativa de se mostrar aliado. A direção agradece e comenta rasteiramente o caso de censura:

“Eu nem preciso falar nada porque vocês já viram representado aqui no palco.”

ONDE?

Não, eu não me vi, muito menos representada. Eu não sou a Geni que a Bernache tá mostrando pra vocês.

Eu sou Aurora Jamelo, Atriz, Transvesti e sou a Geni que existe, que sente, e que luta pra se manter viva. Que interpretou Glenda numa série de TV, que protagonizou Bruno num espetáculo de Teatro, que interpreta uma escritora sonhadora numa performance. Todas personagens travestis, que falam da minha história, de como foi, está sendo e de como sonha em ser.

Respeitem minha vivência. Respeitem a vivência das minhas e dos meus. Nós não vamos continuar invisibilizades. E se jogar pedra, nós vamos revidar.

Como? Te mostro como: https://www.instagram.com/p/Bk5VLkKB26O/

“Me arrepiei mais aqui do que em duas horas de peça.”

Esse é só o começo.

RENATA CARVALHO COMENTA POST DE AURORA JAMELO E PARTICIPAÇÃO DA BERNACHE
 

CIA. DE TEATRO NO JGE

Eu já tinha escrito sobre o Bernache Cia de Teatro apresentar o espetáculo Geni, baseada na música Geni e o Zepelim de Chico Buarque, que conta a história de uma travesti rechaçada. Já tinha apontado o equívoco desse grupo no nome e na inércia em respeito a Censura que uma travesti sofreu dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos, festival o qual eles estão com esse trabalho. Não entenderam nada sobre o autor e sua obra, ainda comentei que esperava que essa peça não fosse um “Trans Fake”. (está nos comentários o link desta postagem).

E Aurora Jamelo vai assistir essa tal Geni, e pasmem, É TRANS FAKE, daí você começa a entender porque este grupo não se pronunciou, ficou no mais absoluto silêncio.

É UM ATOR CISGÊNERO que interpreta GENI, e de forma caricatural e satírica como nos mostra o texto de Aurora Jamelo

Vocês da Bernache não entenderam nada, não estão nem antenados no que está sendo discutido na arte de hoje.

Vocês com esse TRANS FAKE corroboram com esse discurso hegemônico da construção social que permeia nossos corpos, vocês reforçam ele.

O teatro de vocês fortalece para que corpos como o meu sejam xingados, hostilizados, sejam motivos de piadas e chacotas (vocês usem desse artificio no teatro), e consequentemente a jogarem pedras, apanharmos e até sermos assassinadas. Somos corpos que não importam, não humanos.

A arte cisgênera nos trata de qualquer forma, sem pesquisa, sem aprofundamentos e sem humanidade. A arte cisgênera corroborou e corrobora para criminalização e construção social desses corpos.

A “arte” de vocês Bernache nos MATA nas ruas.

O voo dessa Bernache é solitária e rasteira.

Nos respeitem artistas cisgêneros, tomem vergonha na cara.

Renata Carvalho – atriz em O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu, transpóloga, transfeminista e travesti. Fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), do Manifesto Representatividade Trans e do Coletivo T

A DOUTORANDA EM PSICOLOGIA PELA UFRJ CÉU CAVALCANTI COMENTA O POST DE AURORA JAMELO

Texto incrível de Aurora Jamelo sobre as reverberações de mais um boicote à peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu em Pernambuco.

Dessa vez a peça foi retirada de maneira arbitrária da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos por pura pressão da bancada conservadora do Estado, num ato de censura explícita que contou com o apoio de parte do acomodado e muito cis corpo de artistas tanto do Estado quanto de todo o país.

Por pura ironia que beira o escárnio transfóbico, uma peça que narra Geni se manteve na programação, com um homem ator cis interpretando uma travesti das formas estereotipadas que todas sabemos bem (e vários homens cis gays defendendo que o ator cis pode sim fazer até “UM” travesti se ele quiser).

Foi explicitado o jogo… o corpo da Renata Carvalho é impossibilitado de estar presente e potente enquanto corpo trans vivo, com agência, com capacidade plena de afetar, mas com atores cis fazendo transfake (termo cunhado pela própria Renata), usando de nossas dores para se promover na base de estereótipos, não há problema algum para os conservadores.

Esse mundo cansa demais.

Mas que bom que tem Aurora, Renata e tantas e tantas outras gentes trans mundo afora.

DIA 14 DE JANEIRO DE 2019

MINISTÉRIO PÚBLICO DE PERNAMBUCO – MPPE PUBLICA NO DIÁRIO OFICIAL DO DIA (15/01), NAS PÁGINAS 9 E 10 A ABERTURA DE INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO, EM GARANTIA AO DIREITO DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO E CRIAÇÃO ARTÍSTICA, MOTIVADO PELA RETIRADA DA PROGRAMAÇÃO DO JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS DA PEÇA O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU. A AUDIÊNCIA DE INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITO CIVIL ESTÁ MARCADA PARA O DIA 28 DE JANEIRO DE 2019, TENDO COMO INVESTIGADAS A SECRETARIA ESTADUAL DE CULTURA DE PERNAMBUCO, SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DE PERNAMBUCO, FUNDAÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE  PERNAMBUCO (FUNDARPE),  PREFEITURA DO RECIFE E FUNDAÇÃO DE CULTURA DE RECIFE.

Portaria

Representado:  Secretaria Estadual de Cultura de Pernambuco, Secretaria de Direitos Humanos de Pernambuco, Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE),  Prefeitura do Recife e Fundação de Cultura de Recife

Assunto: Garantia do direito à  liberdade de expressão e criação artística.

 O MinistérioPúblicodePernambuco, através de seu representante, Promotor de Justiça da 8ª Promotoria de Defesa da Cidadania de Recife com atuação na promoção e defesa dos direitos humanos, no uso de suas atribuições e com base nas disposições dos arts. 129, inc. III, e 201, ambos da Constituição Federal, e nos fatos apresentados abaixo, determina a abertura de Inquérito Civil Público, em garantia ao direito de liberdade de expressão e criação artística.

A liberdade de criação e expressão artística, como um das manifestações da liberdade de expressão-comunicação e da democracia, encontra-se protegida em vários instrumentos legais internacionais. No art. 15, §3 do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966, ratificado pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992, o Estado se compromete  “a respeitar a liberdade indispensável à pesquisa científica e à atividade criadora”. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos de 16 de dezembro de 1966,  ratificado em 24 de abril de 1992  reconhece, em virtude do artigo 19, §2 daquele diploma, que “toda pessoa terá o direito à liberdade de expressão; […] compreendendo a liberdade de procurar, receber e difundir informações e ideias de qualquer natureza, independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, de forma impressa ou artística, ou por qualquer meio de sua escolha”.

Outras normativas internacionais também fazem referência ao direito à livre expressão artística, a exemplo da Convenção sobre os direitos das crianças, em seus arts. 13 e 31, ratificada pelo Brasil em 20 de setembro de 1990; da Convenção americana sobre direitos humanos, ratificado em nosso ordenamento em 6 de novembro de 1992, em seu art. 13, §1, e seu Protocolo Adicional da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, assinado pelo Brasil, em São Salvador – Costa Rica, em 17 de novembro de 1988,  art. 14, inciso 4.

Nesse diapasão, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura  – UNESCO – recomenda que “os governos contribuam para criar e manter não apenas um clima propício à liberdade de expressão artística, como também as condições materiais que facilitem a manifestação desse talento criador”. Dita recomendação confere suma importância ao gozo, pelos artistas, dos direitos e da proteção previstos pela legislação internacional e nacional relativa aos Direitos Humanos, particularmente, no âmbito da liberdade de expressão e comunicação (arts. III-6 e V-2), dado que “a liberdade de expressão e comunicação é condição essencial de toda a atividade artística”. Ademais, através desse documento, a Organização recomenda que “os países devem estimular a demanda pública e privada dos produtos da atividade artística (art. VI-1, c)”.

Como se depreende dos dispositivos relatados, protege-se expressamente o direito à criação e expressão artística, inclusive, incentivando sua produção como um meio de desenvolvimento econômico e cultural. Por outro lado, também podem-se encontrar limitações a esses direitos que, contudo, devem ser “limitações unicamente determinadas por lei, somente na medida compatível com a natureza desses direitos e com o objetivo exclusivo de promover o bem-estar geral em uma sociedade democrática (Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, art. 4)”. Destarte, as limitações devem ser necessárias e proporcionais, estabelecidas por normas transparentes e aplicáveis de forma coerente e não discriminatória.

Com fulcro no artigo 19 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, o direito à liberdade de expressão  artística pode ser limitado, apenas, para “assegurar o respeito dos direitos e da reputação das demais pessoas; e, proteger a segurança nacional, a ordem, a saúde ou a moral públicas”. Esse dispositivo, entretanto, deve estar conciliado com demais direitos humanos.

Em março de 2013, a Relatora especial sobre direitos culturais das Nações Unidas apresentou informe para análise da aplicação do direito à liberdade de expressão e criação artística pelos Estados signatários dos Pactos de direitos civis e políticos e de direitos sociais, econômicos e culturais, neste documento anuncia: “os encarregados de adotar decisões, incluindo os Juízes, ao fazer uso de seu poder para impor limitações as liberdades artísticas, devem levar em consideração a natureza de criação artística (ao invés do seu valor de mérito), assim como, o direito dos artistas de discordar de utilizar símbolos políticos, religiosos e econômicos como contraposição ao discurso dos poderes dominantes e a expressar as suas próprias crenças e visões do mundo. O uso do imaginário e da ficção deve ser entendido e respeitado como elemento essencial da liberdade indispensável à atividade criativa”.

Dentre os fundamentos da República Federativa do Brasil, estão a cidadania; a dignidade da pessoa humana; e o pluralismo político (artigo 1º da Constituição Federal). Destaca-se ainda, a aplicabilidade nos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; (…) IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (artigo 3º da Constituição Federal).

O artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil estabelece:

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes::

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;;;

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

Segundo relatório apresentado pela Organização não governamental internacional Freemuse sobre as violações do direito à liberdade de expressão e criação artística em todo mundo, no ano de 2018, ocorreram: 5 (cinco) foram sequestrados, 48 (quarenta e oito) foram aprisionados,  57 (cinquenta e sete) foram processados, 50 (cinquenta) detidos, 88 (oitenta e oito) perseguidos, 57 (cinquenta e sete) sofreram ataques e 246 (duzentos e quarenta e seis) foram censurados. No mesmo relatório, em consonância com o informe do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas referido anteriormente, uma das formas de ofensa ao direito de expressão ocorre quando “os Governos impõem multas e outras restrições financeiras para silenciar os artistas, contribuindo ao clima de medo e exacerbando a auto-censura”.

A Nota Técnica nº 8, de 15/3/2016, do Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP pontua: “A ciência não possui definição sobre por que pessoas possuem orientação sexual e de gênero diversa daquelas pelas quais são biologicamente reconhecidas. O fato é que tais pessoas existem e são fortemente marginalizadas nas relações sociais” (…) “Um dos direitos a serem tutelados pelo Estado é a igualdade e a proscrição de toda e qualquer forma de discriminação, prevista no art. 3º, inciso IV, e no art. 5º, caput, e inciso XLI, ambos da CF/1988”.

A peça teatral O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu foi removida da programação do Festival de Inverno de Garanhuns – FIG – Pernambuco, porém, após intervenção da Promotoria de Justiça de Garanhuns através de Ação Civil pública, foi reinserida na programação em 17 de julho de 2018 e confirmada em 27 de julho de 2018.

Conforme notícias apresentadas nos portais de comunicação da internet, a peça novamente foi retirada da Programação do Janeiro de Grandes Espetáculos do ano de 2019 que ocorre em Recife, Pernambuco. 

Peça com travesti no papel de jesus é retirada do janeiro de grandes espetáculos – radio jornal.ne10.uol.com.br 23/12/2018/,

Janeiro de grandes espetáculos retira peça com Jesus trans da programação – Diario de Pernambuco- 24/12/2018 .

Em livre pesquisa na rede mundial de computadores – internet sobre a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, verificamos o seguinte: a peça é classificada no gênero “monólogo dramático” e “mistura depoimento e contação de história para tratar de opressão e intolerância, especialmente a sofrida pelos transgêneros”  (https://vejasp.abril.com.br/atracao/o-evangelho-segundo-jesus-rainha-do-ceu/); “O texto da britânica Jo Clifford aproxima Jesus da atualidade ao retratá-lo como uma mulher transgênero. A mudança de paradigma provoca discussão sobre opressão, intolerância, perdão e aceitação.” (https://guia.folha.uol.com.br/teatro/drama/o-evangelho-segundo-jesus-rainha-do-ceu-sesc-pinheiros-3070917664.shtml); foi exibida em Porto Alegre, em setembro/2017, onde a justiça negou pedido de proibição (https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/juiz-nega-pedido-de-proibicao-de-peca-teatral-com-jesus-transgenero-em-porto-alegre.ghtml); foi exibida em São Paulo-SP (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/10/1822464-em-monologo-em-cartaz-em-sp-atriz-travesti-interpreta-jesus-transexual.shtml); em Curitiba, na Catedral Anglicana de São Tiago (https://www.brasildefato.com.br/2018/03/30/peca-o-evangelho-segundo-jesus-rainha-do-ceu-chega-a-curitiba-veja-mais-dicas/); no Rio de Janeiro (http://teatroemcena.com.br/home/jesus-travesti-atrai-multidao-na-lapa-e-faz-apresentacao-extra/); na Paróquia São Lucas de Londrina, da Igreja Episcopal do Brasil (http://dapar.org/2016/notafilo2016/); no Recife, em junho/2018 (http://jc.ne10.uol.com.br/blogs/terceiroato/2018/06/01/o-evangelho-segundo-jesus-rainha-do-ceu-e-a-cruz-do-preconceito/).

 Em carta aberta divulgada pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), realizador do “Janeiro de Grandes Espetáculos” informou “que, com o objetivo de resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça ‘o Evangelho Segundo Jesus’. O cancelamento se dá uma vez que o espetáculo seria realizado em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. Por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro”.  https://www.facebook.com/janeiro.jge/photos/a.227407847438987/1111775072335589/?type=3&theater .

Desta feita, faz-se imprescindível para garantia do direito  à liberdade de expressão e criação artística a instauração de inquérito civil, tendo como investigado a Secretaria Estadual de Cultura de Pernambuco, Secretaria de Direitos Humanos de Pernambuco, Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de de Pernambuco (FUNDARPE),  Prefeitura do Recife e Fundação de Cultura de Recife.

               De forma que o Promotor de Justiça  resolve:

1) Designar audiência para se realizar na data de 28 de janeiro de 2019, às 14h, com o objetivo dos representados prestarem informações sobre os fatos e apresentarem as ações para garantir a liberdade de expressão e criação artística;

2)  Expeça-se ofício à Secretaria Estadual de Cultura de Pernambuco, à Secretaria de Direitos Humanos de Pernambuco, à Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de de Pernambuco (FUNDARPE), à Prefeitura do Recife(Secretaria de Cultura e Direitos Humanos de Recife) e à Fundação de Cultura de Recife para enviarem representantes à audiência e apresentar  informações sobre os fatos e as ações para garantir a liberdade de expressão e criação artística, junte-se aos ofícios cópias da presente portaria ;

3)  Expeça-se ofício à Coordenação de políticas da população LGBT do Governo de Pernambuco e à Gerência de Livre Orientação Sexual do Município de Recife para enviarem representantes à audiência, junte-se aos ofícios cópias da presente portaria;

4) Expeça-se ofício à Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) para comparecer à audiência e apresentar informações sobre o fato e a cópia do roteiro-texto completo da peça de teatro O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céujunte-se ao ofício cópias da presente portaria;

5)  Expeça-se ofício ao Conselho de Cultura de Pernambuco para enviar representantes à audiência e apresentar  informações sobre as ações para garantir a liberdade de expressão e criação artísticajunte-se ao ofício cópias da presente portaria.

Registre-se o procedimento no Sistema eletrônico de Autos do MPPE e publique-se.

Recife, 11 de janeiro de 2019.

MAXWELL ANDERSON DE LUCENA VIGNOLI

Promotor de Justiça

Diário Oficial Eletrônico • Ministério Público de Pernambuco •Terça-feira, 15 de janeiro de 2019 

 

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Trema retira Altíssimo da programação do Janeiro em solidariedade ao Evangelho Segundo Jesus

Altíssimo. Foto: Luiz Pessoa / Divulgação

Pedro Vilela em Altíssimo. Foto: Luiz Pessoa / Divulgação

Produção de Altíssimo diz não querer compactuar com a censura

Produção de Altíssimo diz não querer compactuar com a censura

Nesses tempos de avanços conservadores e de ameaças/ confiscos de direitos precisamos de ainda mais coragem para defender nossas ideias e posições. A TREMA Plataforma de Teatro reforçou qual o lado que quer sambar: contra os autoritarismos que se agigantam com a proximidade de 2019. Para combater a censura sofrida pela peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, a Trema retirou o seu espetáculo Altíssimo, agendado para o dia 11 do mês que vem, do 25º festival Janeiro de Grandes Espetáculos

A plataforma acolheu O Evangelho segundo Jesus na abertura edição 2018 do TREMA! Festival, em junho deste ano, no Recife.  A censura do JGE “fere nossa liberdade coletiva de ofício, nesse momento crucial onde diversos festivais têm se posicionado como reais espaços de resistência ao fascismo e a onda conservadora que assola o país. Não podemos coadunar com mais esse passo da bancada evangélica em nosso Estado”, pontua o comunicado.

Sabemos: os conservadores transformaram a peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu em ré, que está sendo julgada a cada nova apresentação. Pela segunda vez, a obra escrita pela autora trans inglesa Jo Clifford e com atuação da atriz transsexual Renata Carvalho, é convidada e desconvidada por evento cultural em Pernambuco. A primeira vez foi em julho, no Festival de Inverno de Garanhus.

Domingo último, o festival Janeiro de Grandes Espetáculos, da Apacepe, excluiu a peça anunciada dois dias antes como uma das principais atrações da programação. “Anteriormente, quando do ato de censura no FIG 2018, tínhamos nos posicionado publicamente sobre qual seria nossa decisão caso estivéssemos na grade do evento: ou O Evangelho se apresentaria ou nós também não subiríamos ao palco’, reforça a Trema. E prossegue: “continuaremos honrando com nossa palavra. Afinal, onde não cabe o ofício da artista Renata Carvalho, da diretora Natalia Mallo e de toda a equipe do Núcleo Corpo Rastreado, também não cabe o nosso”.

Lembra daquela história que bombou logo após sair o resultado das eleições presidenciais do Brasil – “ninguém solta a mão de ninguém”? O diretor Pedro Vilela, e sua turma, diz que abre mão de privilégio em prol do real significado da frase . “Estaremos juntos por nenhum direito a menos”.

Carta da Apacepe

Hoje (27) pela manhã, a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) veio novamente tentar explicar sua posição. Mas parece o Queiroz. Na carta aberta, argumenta que com o intuito de “resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento”, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos “se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”.

E que o cancelamento se deve porque a peça seria apresentada em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. E cita que “por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro”.

Sim. Desde a sua estreia, em 2016, O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu enfrenta um mundo de perseguições. A apresentação da peça foi cancelada em setembro de 2017 em Jundiaí (SP) e outubro em Salvador, ambas por decisão judicial, sob o argumento de que Renata Carvalho “vilipendia artigos religiosos”. Em junho deste ano, o prefeito do Rio de Janeiro, Crivella, cancelou a mostra Mostra Corpos Visíveis, sob a desculpa de que a Arena, palco do evento está fechada devido a “um problema na licitação”.

Mas, nesses casos, não foram os produtores que convidaram a obra que fizeram esse papel de censor.

A nota da Apacepe reforça com palavra contraditórias “o seu compromisso com a liberdade de expressão”. Diz que foi esse o motivo para realizou o convite ao Evangelho. “Por não aceitar este tipo de censura, a direção do festival está dando suporte à produção do espetáculo para que ele seja encenado, na mesma data que ocorreria no Janeiro, em um espaço privado e de maneira independente”.

O JGE ainda está em dívidas com os credores, artistas inclusive, da edição de 2018. Talvez seja essa uma motivação, já que, segundo a Apacepe o Janeiro 2019 tem todos os seus subsídios oriundos do poder público. Isso quer dizer o quê?

 

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